HERANÇA FATAL

 

 

PARTE 11

 

 

            O final da semana chegou. O dia estava esplêndido, o céu azul com poucas nuvens, o sol brilhando junto com uma brisa refrescante, bem apropriado para um final de semana na praia.

 

         Grahan o havia aguardado ansiosamente. Finalmente ia conhecer Antony Burton mais profundamente, observar o comportamento dele, as palavras, analisar tudo à procura de uma pista que a levasse ao assassino de Michelle.

 

         April havia combinado com ela que se tratariam sem muita intimidade, para Antony não desconfiar do que havia entre elas. Na semana que havia passado haviam se encontrado diariamente, das três da tarde às seis, no apartamento de Grahan. April a esperava no estacionamento de um shopping, deixava o carro lá e ia com Grahan em um táxi para o apartamento dela, onde se amavam incansavelmente, fazendo loucuras. Depois Grahan a levava de volta ao estacionamento e April ia embora.

 

         Grahan sentia-se muito atraída por April. Ela era linda, deliciosa e fogosa em uma cama, sempre pronta para amar. Mas a lembrança de Michelle ainda estava forte em sua mente. Desejava April, mas não a amava. Mais uma que passaria em sua vida sem marcar, como   outras que tivera.

 

         Sabia que April também sentia apenas desejo por ela. Nunca, fora de sexo, lhe dizia uma palavra de carinho. A ligação delas era toda centrada em atração sexual. E sentia-se aliviada com isso. Quando a paixão acabasse, cada uma iria para um lado, sem dramas e sofrimento. Para ela, era indiferente se April ia continuar casada com Antony Burton ou divorciar-se dele, porque seus planos não eram viver com April.

 

         Alugou um helicóptero, porque não queria enfrentar a estrada e April havia informado que a casa tinha campo de pouso para o aparelho. Inevitavelmente, lembrou da viagem que fizera com Michelle em um aparelho semelhante. A diferença é que agora ia sozinha para o encontro de um provável inimigo, e não  para um final de semana de amor.

 

         A viagem foi rápida e tranqüila. O sol queimava e lá embaixo o mar brilhava, com reflexos prateados das ondas riscando o azul metálico do mar.

 

         O helicóptero chegou ao seu destino. Grahan olhou para a bela residência com atenção, quando o aparelho sobrevoou o local para verificar a área destinada para o pouso.

 

         Era uma bela casa de veraneio, de pedras e madeira, em uma elevação. Na frente havia um cais para atracação de barcos e nos fundos uma imensa piscina, em meio ao gramado.

 

         O aparelho pousou e Grahan abriu a porta e saltou, encolhendo-se instintivamente por causa do movimento das hélices, que movimentavam o ar. O piloto esperou ela afastar-se e decolou novamente, se afastando.

 

         Grahan olhou em volta e viu April acenando, perto da entrada da casa. Caminhou para ela, pensando onde estaria Antony Burton. Se ele queria ser gentil com ela, deveria ter vindo recebê-la na chegada.

 

         April estava de short branco e blusa azul-marinho. Os tênis com meias davam-lhe um ar bem juvenil.

 

         Grahan olhou para April sorrindo, quando chegou perto dela. April sorria alegremente, mas seu olhar parecia preocupado.

 

         -Fez boa viagem, Grahan ? – Perguntou ela, sorrindo.

 

         -Sim. Onde está o seu marido ? Pensei que ele fosse fazer a gentileza de vir receber-me.

 

         April passou o braço no seu, encarando-a .

 

         -Ele mandou pedir desculpas a você por não estar aqui para recebê-la, Grahan. Houve um contratempo desagradável : a minha sogra, Mary Burton, apareceu aqui com o marido, Gary. Como ele sabe que ela odeia você, levou-a para um passeio de barco, antes que você chegasse, para evitar uma cena constrangedora.

 

         Grahan a encarou séria.

 

         -Não quero criar nenhum problema para vocês. Vou embora agora.

 

         -Não, não é necessário ! Mary Burton vai ficar na casa de  uma amiga que tem no outro extremo da praia ! Ela só passou aqui para apanhar uns objetos que esqueceu, quando nos acompanhou em um final de semana !

 

         -Bem, vocês que sabem. . . não me importo de chamar o helicóptero novamente, ou chamar um táxi para buscar-me. Só não quero aborrecer-me com Mary Burton.

 

         -Não se aborrecerá, garanto. Venha. . . vou mostrar a casa. O dia está quente e um martini com gelo irá deixá-la mais descontraída.

 

         Entraram na casa. Era moderníssima, a decoração em móveis de madeira rústica, vidraças amplas dando vista para o mar, sofás brancos com almofadas coloridas, peças de porcelana decorativas e plantas, tudo espaçoso, arejado e de bom gosto. April mostrou-lhe o living, o salão de refeições, o imenso bar, o salão de jogos, a biblioteca, a sala de som, a imensa cozinha e os lavabos para visitas.

 

         April olhou-a significativamente e piscou um olho, dizendo:

 

         -Agora, vai conhecer o  quarto onde vai ficar, no segundo pavimento.

 

         Grahan hesitou, percebendo as intenções dela.

 

         -Não é melhor deixar para depois ? O seu marido pode chegar e talvez não goste de ver-nos lá em cima .

 

         April riu, puxando-a pela mão.

 

         -Que é isso, Grahan ! Só vou mostrar os quartos ! Você vai trocar essa roupa, não ?

 

         Grahan concordou. Estava exagerando suas prevenções. Seguiu April, subindo os degraus.

 

         O segundo pavimento tinha um imenso terraço com plantas ornamentais e cadeiras de vime, para o qual davam os quartos da casa, que eram sete, todos com banheiros anexos.

 

         April mostrou apenas um , dizendo sorrindo:

 

         -São todos iguais, apenas com diferenças na decoração. Não precisa ver todos. Esse aqui está destinado à você.

 

         Grahan olhou em volta, colocando a mochila que levara no chão. Era um quarto confortável e bem decorado.

 

         April a abraçou, apertando-se contra seu corpo. Ergueu o rosto com desejo no olhar.

 

         -Quero você agora, Grahan. Possua-me.

 

         Grahan a apertou nos braços, mas logo afastou-a com receio.

 

         -Não, April.Não podemos nos arriscar, aqui.

 

         Ela tornou a abraçá-la. Pegou sua mão e colocou-a no próprio seio, com olhar insinuante. Ela ofegava, fitando-a com desejo.

 

         -Não há perigo. Tony vai demorar. Ele saiu há pouco tempo. Tem que ser agora, Grahan. . . não agüento de tesão. . .

 

         Grahan ainda a olhou indecisa. Mas o fogo de April começava a contagiá-la.

 

         -Você é maluca, April. . .

 

         -Pegue-me. . . agora. Sem nenhum preâmbulo. . .

 

         Grahan puxou o fecho do short dela e baixou-o .April o chutou para o lado, baixando ela própria a calcinha de rendas negras. Pegou-a pelos cabelos e esmagou a boca na de Grahan, puxando-a para a cama.

 

         Grahan forçou-a a deitar transversalmente na cama  e ajoelhou-se, afastando as pernas esculturais de April com as mãos, pousando-as em seus ombros e grudando a boca no sexo palpitante, sentindo-a estremecer e começar a mexer-se freneticamente, as mãos apertando mais sua cabeça contra si, soltando gemidos alucinantes de prazer.

 

         -Assim... com força, Grahan... ahhhhh...

 

         April atingiu o prazer em pouco tempo e Grahan ergueu-se, olhando-a com malícia, dizendo com voz rouca:

 

         -Agora, vá. Seu maridinho pode chegar e não vai gostar de vê-la trancada em um quarto comigo.

 

         Ela sorriu, vestindo a calcinha e o short. Ajeitou os cabelos e saiu, dizendo com ar sensual:

 

         -Depois quero mais. . . agora, troque as roupas e desça.

 

         Grahan fechou a porta e foi até o banheiro da suite. Lavou as mãos e o rosto, passou uma escova nos cabelos e pegou sua mochila, abrindo-a .  Escolheu uma bermuda de linho branco e uma blusa de algodão branco, de mangas compridas. Tirou a roupa da viagem e vestiu a outra. Trocou os sapatos por tênis   e saiu do quarto, descendo para o primeiro pavimento.

 

         April a esperava no living, com duas doses de martini em uma bandeja. Estendeu uma taça para Grahan, olhando-a apreciativamente.

 

         -Hum. . . fica muito bem de bermuda, Grahan.

 

         Grahan sentou com ela em um sofá e olhou para as vidraças, que divisavam o  mar. Nem sinal do barco de Antony Burton.

 

         -E seu marido ? vai demorar para chegar ?

 

         April riu, tomando um gole do martini.

 

         -Você está mais ansiosa que eu, pela volta de Tony. Não está gostando de estar à sós comigo ?

 

         Grahan a olhou séria, bebendo o martini.

 

         -Não é isso. É que estou achando esquisito ele não estar aqui para receber-me. Ele confia tanto em você, para deixá-la sozinha comigo ?

 

         April tornou a rir.

 

         -Relaxe, Grahan ! Está vendo problemas onde não há. Já expliquei a você porque ele não está. Logo estará aí.

 

         -Está bem. Não vamos falar mais sobre isso.

 

-         -         -Ótimo, vamos ouvir música e conversar.<

-         -          

        April colocou um cd de música suave e a puxou para dançar. Grahan a abraçou, curtindo a música com ela, achando que estava tensa e precisava descontraír-se.

 

         Dois martinis depois, elas viram um barco aproximar-se e atracar no ancadouro. E logo depois, Gary Miller saltou e dirigiu-se para a casa.

 

         Grahan olhou para April, que sorria, olhando para Gary.

 

         -O que está havendo ? Não é Antony Burton quem chegou, e  sim o marido de Mary Burton !

 

         Ela a olhou tranqüilamente.

 

         -E daí ? Ele estava com Mary. Quer ver que não quis ficar com a mulher na casa da amiga dela.

 

         -Mas, e Antony ? Por que não veio com ele ?

 

         -Calma, Grahan ! Vamos ouvir o que Gary tem a dizer !

 

         Gary Miller entrou na casa e olhou para Grahan com um sorriso cordial.

 

         -Grahan Gladstone ! Como vai, garota ?

 

         Grahan o olhou séria.

 

         -E Antony Burton ? Não veio com você ? – Perguntou.

 

         Ele passou por ela e sentou-se no sofá da sala.

 

         -April, sirva-me um drinque. Estou morrendo de calor – Disse ele, sem responder a pergunta de Grahan.

 

         Grahan sentiu uma tontura. Sacudiu a cabeça, estranhando a sensação. Não bebera tanto assim para estar tonta. Olhou para Gary, insistindo:

 

         -E Antony Burton ? Onde está ?

 

         Gary a fitou com um sorriso estranho.

 

         -Ele está no barco. Mandou-me buscá-las , vamos velejar pela costa.

 

         April entregou a bebida a Gary e sorriu para Grahan.

 

         -Viu, não precisa ficar nervosa. Vai estar com Tony.

 

         Grahan sentiu outra tonteira maior que a primeira . Sentou no sofá e apoiou a cabeça nas mãos.

 

         -O que é, Grahan ? – Perguntou April – Está se sentindo mal ?

 

         Grahan ergueu a cabeça. Fez um grande esforço para isso, por que a sentia pesar. E sua visão estava ficando desfocada, um sono invencível a estava dominando.

 

         -Não sei o que tenho. . . – balbuciou. E caiu para a frente, desmaiando.

 

         April a olhou com alívio no olhar.

 

         -Finalmente ! Essa mulher é muito forte, Gary ! Dei uma dose cavalar à ela nos dois martinis, mas somente agora fez  efeito ! Já estava nervosa, sem ter mais desculpas !

 

         Gary ergueu-se, sorrindo. Olhou para Grahan no chão.

 

         -Agora , vamos levá-la para o barco. Tony já está lá.

 

         April o fitou preocupada.

 

         -Foi fácil dominá-lo ?

 

         Gary olhou-a, sorrindo astutamente.

 

         -Claro ! Dei uma pancada na cabeça dele, quando estava distraído. Está lá bem amarrado, pronto para o passeio ! Bem, vamos logo fazer o que tem que ser feito !

 

         -Mary Burton não estranhou você ter saído sem ela ?

 

         Gary riu, olhando-a .

 

         -Aquela velha idiota ? Que nada, April ! Eu disse que ia jogar golfe e ela engoliu, como sempre. Está em casa , ouvindo ópera !

 

         April deu uma risada.

 

         -Você é muito esperto, querido ! Vamos, vamos acabar logo com isso !

 

 

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         Quando voltou a si, Grahan estava tomada por um forte enjoo. Sentia seu corpo balançar e o barulho de ondas rebentando. Vozes ao fundo falavam, como se estivessem muito longe. Mas dava para ouvir, com alguma dificuldade.

 

         -Tem que fazer parecer um acidente, Gary ! Não podemos amarrá-los !

 

         -E se eles se recuperarem quando forem lançados na água fria ? Tony nada muito bem !

 

         -Não vão ter forças. Estamos muito longe da costa. A bebida ainda está fazendo efeito em Grahan e Tony está fraco, perdeu muito sangue.

 

         -Diabos ! Você acha que vão desconfiar se conseguirem achar o corpo de Tony, com a pancada na cabeça ? Eu calculei mal a força do golpe.

 

         -Que nada, Gary ! Vão pensar que levou a pancada quando o barco virou. E eu direi que ele levou uma pancada do mastro, quando o barco virou. Serei uma sobrevivente chorosa e desesperada, você vai ver !

 

         Gahan ouviu uma risada.

 

         -Aquela velha idiota me adora ! Quando Gahan e Tony morrerem, ela vai herdar tudo ! Existe uma cláusula no testamento que diz que na falta de Grahan, as ações devem reverter para Mary. E então, tirarei bastante da velha para vivermos como reis !

 

         -Mais tarde, também poderemos dar um fim naquela bruxa. Uma morte que pareça natural.

 

         -April, querida, você é terrível ! – Riu Gary.

 

         Gahan abriu os olhos. Primeiro, viu o céu com algumas nuvens escuras. Olhou para o lado. Notou que estava deitada no fundo de um barco, que se sacudia com as ondas revoltas. E  Antony Burton estava ao lado dela, desmaiado, com a cabeça ensanguentada.

 

         Olhou para a frente. April conversava de costas para ela, com Gary Miller. Ela o abraçava pela cintura e ele manejava o timão do barco.

 

         Ficou olhando-os, entendendo tudo: April era amante de Gary Miller e os dois planejavam a sua morte e de Antony Burton !

 

         April voltou-se e a viu fitando-os. Seus olhos verdes ficaram frios como gelo e um ar de contrariedade tomou conta de seu rosto.

 

         -Ela voltou a si, Gary ! – Gritou.

 

         Ele voltou-se e olhou Grahan com aborrecimento.

 

         -Segure o timão, April. Vu dar um jeito nisso.

 

         April pegou o timão  e Gary tirou um revólver da cintura, apontando para Grahan, com um sorriso debochado.

 

         -Azar seu ter despertado. Podia ter morrido sem perceber.

 

         Grahan tentou erguer-se, mas não conseguiu. O enjoo estava forte e ainda estava tonta.Caiu novamente para trás, gemendo.

 

         Ele riu, ao ver que ela não conseguia reagir. Guardou  arma, voltando-se para April.

 

         -Não precisa ter medo, April. Ela está muito fraca e nem agüenta mover-se. Vai ser fácil.

 

         Ele tornou a pagar o timão. April aproximou-se, com um sorriso cínico. Abaixou-se ao lado de Grahan.

 

         -A conquistadora ! Viu, caiu em nossa armadilha ! Eu sabia que ia ser fácil conquistá-la. Quando me olhou lá na casa de Mary, eu vi logo que teria chances de aproximar-me de você. E como sou inteligente, o plano se formou em minha mente. Foi gostoso trepar com você, baby. Realmente, é muito gostosa em uma cama. Mas , acima de tudo, gosto muito de dinheiro e de Gary.

 

         Grahan ficou olhando-a muda, pensando quanto fora ingênua. Desconfiara tanto de Antony Burton e nem pensara que April  é quem estava fazendo um jogo.

 

         Ela prosseguiu, com ar de vitória:

 

         -Tentamos tirar dinheiro de Michelle com o rapto, mas meus planos foram por água abaixo porque o idiota que contratamos resolveu trepar com ela. Michelle feriu-o e fugiu. E o idiota foi procurar-me, ainda tentando receber o pagamento ! Mas eu não perdoo erros ! O corpo dele está no fundo do rio Hudson, com o comparsa.

 

         April parecia empolgada com suas façanhas. Continuou, com os olhos brilhando de excitação :

 

         -Mas você não é nenhuma santa, Grahan Gladstone ! Você matou Michelle, armou tudo, sabia do testamento e nos passou a perna ! Confesse ! Você matou Michelle para herdar tudo, não foi ?

 

         Grahan fitou-a surpresa. Conseguiu falar baixinho:

 

         -Eu. . . não matei. . . Michelle. . .

 

         Ela riu com deboche.

 

         -Não matou, uma ova ! Eu e Gary que pretendíamos fazer  isso, mas você foi mais rápida !

 

         Esbofeteou-a . A cabeça de Grahan virou, com o golpe.

 

         -Confesse, sua desgraçada ! Você vai morrer mesmo ! Miserável ! Por que tinha que aparecer em nosso caminho ? Só para tornar tudo mais difícil ! Mas agora, você vai morrer com meu querido marido ! Sou mais esperta que você !

 

         Gary gritou para April :

 

         -Você fala demais ! Que tal vir ajudar-me ? Tem uma lancha muito próxima de nós !

 

         April ergueu-se e olhou. Sorriu, tranqüilizada.

 

         -Próxima nada ! Estão bem distantes ! Até eles chegarem aqui, o barco já terá virado e os dois estarão mortos. E até será bom. Teremos testemunhas do acidente. Eles vão presenciar o barco virar. E , pela distância que estão, não vão perceber que os dois já estarão inconscientes.

 

         -E se eles estiverem nos observando de binóculo ? – Perguntou Gary, com receio na voz.

 

         April riu.

 

         -Você andou vendo filme de espionagem ? Quem se dará ao trabalho de ficar olhando-nos de binóculo ? Gary, você é um medroso!

 

         -Então, vamos fazer isso logo ! Já estou nervoso. Vamos virar o barco. Com  essas ondas, uma manobra brusca colocando-o de lado em relação às ondas, vai virá-lo.

 

         Grahan olhou para Antony Burton. Notou que ele respirava, ainda estava vivo. Teve pena dele. Não era tão mau como pensava.

 

         -Coloque o salva-vidas, April ! – Gritou Gary – E depois, venha segurar o timão para eu colocar o meu !

 

         -Não seria bom colocar neles também ? Vai ficar esquisito, nós com salva-vidas e eles não.

 

         -Não, isso poderia mantê-los boiando ! Não vamos nos  arriscar ! Diremos depois que eles não queriam usar essa segurança. Venha logo !

 

         April foi atendê-lo.

 

         Grahan queria erguer-se, mas estava ainda com enjôos fortes e fraca. April devia ter lhe dado um soporífero fortíssimo. Ficou ali indefesa, vendo-os colocarem os salva-vidas, pensando que seu fim chegara. Fechou os olhos e ouviu Gary rir.

 

         -Ela desmaiou ! Está nas últimas ! Não vai ter problema, quando cair na água vai afundar logo ! Tudo pronto, April ?

 

         -Claro ! Ande logo com isso !

 

         -Afasta-se ! Esteja pronta para pular ! Vou contar até três e fazer a manobra para virar ! Pule antes e procure afastar-se o mais que puder do barco, para nãos ser atingida por ele. Entendeu ?

 

         -Entendi ! Vire agora !

 

         Grahan ouviu o corpo de April cair na água. Abriu os olhos. Gary estava de costas, ocupado com o timão.

 

         -Um. . . dois. . . três ! –Gritou ele, girando o timão todo, fazendo o barco dar uma guinada brusca. Ele bateu contra uma onda, inclinou-se perigosamente, mas não virou.

 

         -Maldição ! – Gritou Gary, possesso – Vire, desgraçado ! Vire !

 

         Girou o timão mais uma vez, alucinado. O barco jogou violentamente, fazendo Grahan rolar para o lado de Antony. Um jato de água gelada, vindo de uma onda, caiu sobre ela.

 

         Aquilo a despertou de seu torpor. Ergueu-se, agarrando a borda do barco. Conseguiu debruçar-se na borda, olhando para as águas escuras e revoltas. Jogou o corpo mais para a frente e caiu no mar. Sentiu a água gelada envolver todo o seu corpo, dando-lhe um arrepio de frio, mas revigorando-a .

 

         Um corpo passou por ela, afundando. Devia ser Antony Burton ! Estava todo mole, sem debater-se. Estendeu a mão e pegou-o pelos cabelos, puxando-o para cima, batendo as pernas e braços. Conseguiu chegar à tona e segurou Antony por baixo do queixo, para ele poder respirar acima da água. Olhou em volta, desesperada, flutuando com dificuldade. Viu o barco afundando, há dez metros de distância. Gary conseguira !

 

         Grahan nadou para mais longe do barco, rebocando Antony.  Percebeu que não tinha forças para agüentar muito tempo assim. Não poderia chegar até a costa, ainda mais com Antony. Gary e April haviam calculado bem o local para o acidente. Ela iria afogar-se com Antony.

 

         Quase o largou para prosseguir, mas seu sentimento de humanidade falou mais forte. Antony era irmão de Michelle, e além disso, inocente. Tinha que salvá-lo !

 

         Viu Gary nadando com o colete salva-vidas, para perto de April. Ficou apavorada. Se eles os vissem, estariam perdidos. Não tinha forças para fugir e eles os afogariam facilmente.

 

         Um ruído diferente do barulho das ondas soou no ar. O ruído de um motor.

 

         Olhou para o outro lado, surpresa e aliviada. Uma lancha grande se aproximava com rapidez. Com a mão livre começou a acenar desesperadamente.

 

         A lancha parou ao lado de April e Gary. Viu-os sendo recolhidos e um homem gritar :

 

         -Onde estão os outros dois ?

 

         Um outro gritou :

 

         -Olhem ! Lá adiante!  Tem duas pessoas !

 

         Grahan acenou mais uma vez. Estava sentindo as forças abandonarem seu corpo. Havia bebido água e estava na iminência de afogar-se. Antony lhe pesava cada vez mais.

 

         A lancha veio lentamente e parou ao seu lado. Três homens se lançaram na água e resgataram ela e Antony Burton. Deitaram os dois no chão da lancha e fizeram os primeiros socorros, expulsando de seus estômagos e pulmões a água que beberam. Cobriram ambos com cobertores.

 

         Grahan desmaiou, dessa vez de exaustão e choque emocional.

 

 

 

))))))((((((

 

 

 

         Uma voz calma e amigável soou ao seu lado, quando voltou a si. Abriu os olhos, sobressaltada, e viu Phil Scott olhando-a com um sorriso. Olhou-o admirada e confusa. O que Phil Scott estava fazendo ali ?

 

         -Ah, já despertou ! Você é muito forte, Grahan Gladstone !

 

         Grahan sentou-se na cama que estava e olhou em volta.Parecia estar em um hospital. Olhou para Phil Scott sem entender nada.

 

         -Como vim parar aqui ? E o senhor, por que está aqui ?

 

         Ele debruçou-se para ela, sorridente.

 

         -Calma ! Uma pergunta de cada vez ! Você está em um hospital. Nós trouxemos você e Antony Burton para cá. Ele está bem pior que você, mas vai recuperar-se. Levou uns pontos na cabeça e tomou uns remédios, está dormindo. Você bebeu um bocado de água e quase entrou em estado de choque, mas o  doutor disse que seu caso não é grave. Quando despertasse, podia ir embora.

 

         Ela sentou-se na cama, notando que estava com uma camisola do hospital. Olhou para Phil Scott.

 

         -Só me lembro que fui recolhida pela lancha e desmaiei.

 

         Ele olhou muito sério.

 

         -Só lembra disso mesmo ?

 

         Ela ficou olhando-o . E tudo veio à sua mente, fazendo-a agitar-se, falando com voz alterada:

 

         -Lembrei de tudo, Scott ! Eles queriam matar-nos ! April e Gary Miller ! Queriam matar à mim e Antony Burton !

 

         Ele a segurou pelos ombros com firmeza.

 

         -Acalme-se ! Já está tudo bem ! April Burton e Gary Miller já estão presos, acusados do homicídio dos dois comparsas e tentativa de assassinato de você e Antony Burton .

 

         Ela o fitou surpresa.

 

         -Como ? Como souberam disso?

 

         Phil Scott sorriu, largando-a .

 

         -Está mais calma ? Pode me ouvir, sem ficar agitada ?

 

         Ela o olhou confusa . O que ele tinha para dizer ? Será que já tinha alguma pista do assassinato de Michelle ?

 

         Ele sentou-se na beira da cama e a fitou calmamente.

 

         -Ouça. . . a polícia de New York vem seguindo todos os membros da família Burton desde o rapto de Michelle. E hoje as suspeitas se confirmaram . April Burton e Gary Miller estão fritos ! E eu, pessoalmente, tenho seguido você desde a morte de Michelle.

 

         Ela o fitou espantada.

 

         -Seguia-me o tempo todo ?! Mas sua jurisdição não abrange New York ! E então, suspeitava de mim ?

 

         Ele a encarou.

 

         -Não sou mais policial. Pedi demissão da polícia.

 

         Grahan lembrou, então, que uma vez telefonara para ele e a haviam informado disso. Ficou  mais confusa ainda.

 

         -Se não é mais policial, por que andou seguindo-me ? Com que finalidade ?

 

         Ele sorriu e ergueu-se, andando pelo quarto. Parou e olhou-a.

 

         -Fui muito bem pago para isso. Pagaram-me tão bem que saí da polícia. Sabe, Grahan, todo homem tem seus sonhos. E o meu era ser fazendeiro, mas nunca tive condição para isso. E quando me deram essa chance, eu  a agarrei e agora vou realizar o meu sonho, agora que tudo acabou.

 

         -Tudo acabou ? Para você, não para mim. Ainda não sabemos quem matou Michelle. Não foram April e Gary. Ela acha que fui eu, então não a mataram.

 

         Ele a olhou enigmaticamente.

 

         -Espere. Deixe-me falar. Como disse, estava sendo muito bem pago para vigiá-la. Mas não por suspeitar de você, e sim para protegê-la. Você corria perigo, como Michelle havia corrido. Fui eu quem mandei o garoto entregar na portaria do apartamento da Quinta Avenida aquele envelope com o cartão da porta e a mensagem.

 

         Grahan o olhou boquiaberta.

 

         Ele sorriu, continuando:

 

         -Alguém mandou-me fazer isso.

 

         Ela apertou as têmporas com as mãos, confusa.

 

         -Que coisa louca ! Quem o pagou para proteger-me ? Quem o mandou entregar aquela mensagem ?

 

         -Não estou autorizado a falar. Mas você vai ver essa pessoa ainda hoje, quando sair daqui. Ela lhe dará todas as explicações que quiser.

 

         -Quanto mistério ! Diga-me ao menos o que significa aquela mensagem. Não consegui descobrir.

 

         Ele a fitou surpreso.

 

         -Não ?! Era tão simples ! Era uma mensagem de esperança ! Você estava tão abatida com a morte de Michelle ! Eu a seguia sem que percebesse. Quando foi ao apartamento de Michelle, ao banco, quando encontrou-se com April e foi até New Jersey, seus encontros com ela, até quando foi para Newport. Aí, fiquei apreensivo. Entrei em contato com policiais de New York para me auxiliarem. Eles já desconfiaram de Gary Burton e April, porque já tinham descoberto, em investigações, que os dois eram amantes e Gary Miller estava devendo uma fábula de dívidas em jogo. Ele tinha bons motivos para raptar Michelle e depois, matá-la.

 

         -Então, quem estava com dívidas de jogo era Gary Miller ? E April disse-me que era Antony Burton !

 

         -Exato. Mas, deixe-me continuar o relato : a polícia de New York pediu ajuda à guarda costeira e ficamos vigiando a casa em um ponto estratégico, com binóculo. Sabíamos que poderia haver algo de grave quando você foi para a boca do lobo. E tudo que pensávamos se confirmou, quando vimos Gary Miller e April carregando-a para o barco. Nós seguimos o barco e vimos quando Gary Miller começou a tentar virá-lo. Entendemos as intenções dele e nos aproximamos. Ainda bem que você resistiu até recolhermos você e Antony Burton. Serão  as principais testemunhas de acusação dos dois patifes.

 

         -E eles, como reagiram, ao ver que eu e Antony fomos salvos ?

 

         -April, quando viu vocês serem recolhidos com vida, teve um ataque histérico e começou a gritar que estava tudo perdido. Os policiais os prenderam e levaram para interrogatório. Confessaram tudo. Gary disse que foi April quem planejou tudo, desde o rapto de Michelle até a sua morte e de Antony. Ela aproximou-se de você com a intenção de matá-la, Grahan.

 

         Grahan baixou a cabeça. Era duro saber que, uma mulher que tivera nos braços com tanta paixão, trocando tantos carinhos, planejava matá-la. Mais do que nunca valorizou o amor de Michelle. Ela a amara de verdade, era tão maravilhosa, tão íntegra e verdadeira. . . e agora nunca mais a teria. . .

 

         Ergueu os olhos marejados de lágrimas, à essa idéia. Phil Scott a interpretou mal :

 

         -Está chorando por causa de April ? Ela não merece uma lágrima sequer, Grahan ! Precisava ver a frieza confessando seus crimes ! Do próprio marido, falou com uma frieza revoltante, lamentando que ele não tinha morrido ! Sabe, ele nem sabia que você ia passar o final de semana com eles. Foi lá com April, e Gary apareceu depois, mentindo que a mãe dele estava do outro lado da praia passando mal. Ele saiu com Gary de barco para ir ver a mãe e Gary o atacou com uma coronhada na cabeça. Depois, voltou para pegar você. Ele confessou que foi ele quem ligou para você, convidando-a , fingindo ser Antony Burton.

 

         Grahan ergueu-se da cama, enojada com essa descoberta. Quanta sordidez e mentira ! April era uma miserável assassina, uma mulher fria e calculista. Será que fingira até no prazer sexual que dizia sentir ? Bem, ela se excitava mesmo. Isso era óbvio. A miserável só sentia mesmo de verdade prazer sexual, mesmo com sua vítima. Fizera questão de ser possuída lá na casa de praia, já sabendo que horas depois ela e Gary iriam matá-la ! Era uma sádica, uma doente !

 

         -Scott, não quero mais saber dessas sujeiras de April. Estou nauseada ! Quero é sair daqui !

 

         -Quer ver Antony Burton ? Ele está dormindo, mas teve uns instantes de lucidez e soube o que aconteceu. Ele disse que está muito agradecido por você ter salvo a vida dele e vai falar com você, quando.ficar bem. Vocês serão chamados para depor. São as principais testemunhas de acusação. Mas por hoje, estão liberados. Passaram maus momentos e precisam de um tempo para se recuperarem.

 

         Ela o encarou.

 

         -Depois falarei com Antony Burton, Scott. Agora, quero sair daqui.

 

         -Então, vou levá-la a um lugar para falar com a pessoa que pagou-me para protegê-la.

 

         Grahan o fitou aborrecida.

 

         -Por que esse mistério todo ? Por que não diz logo quem é essa pessoa ?

 

         Ele sorriu , meneando a cabeça negativamente.

 

         -Não posso dizer. A pessoa me fez prometer.

 

         Grahan suspirou. Não tinha mesmo nada importante a fazer,  depois dos acontecimentos. Iria ver quem era essa pessoa misteriosa. Seria Helen?

 

         -Tudo bem – concordou – Vou com você por que estou curiosa. Onde está minha roupa ?

 

         -Vou buscar. Um momento.

 

         Ele saiu e Grahan ficou esperando. Voltou com o médico e um policial, que a olharam com simpatia.

 

         -Está mesmo se sentindo bem ? – Perguntou o médico – Quer sair agora, senhorita ?

 

         -Sim, estou muito bem, doutor. . .

 

         -Doutor Pitman. Já que está bem, vou assinar sua alta. Boa sorte, senhorita.

 

         O policial adiantou-se.

 

         -Senhorita Grahan Gladstone, terá de comparecer à delegacia do distrito para depor, assim que puder. Assine a notificação, por favor.

 

         Grahan assinou o papel, notando que o depoimento estava com data marcada para dentro de três dias. Assinou e devolveu o papel. O policial retirou-se e Phil Scott lhe entregou sua roupa, enxuta mas amarrotada.

 

         -Espere-me lá fora, Scott. Vou tomar vestir a roupa – Disse ela, sorrindo. Ele assentiu e saiu.  

 

         Grahan foi ao banheiro anexo e vestiu as roupas e calçou o tênis ainda úmido. Saiu do quarto. Scott a esperava ao lado da porta e foi caminhando ao seu lado pelo corredor.

 

         Ela olhou para ele, indagando:

 

         -Para onde vamos ? Essa pessoa está em Newport ?

 

         -Não, mas não se preocupe. A viagem será rápida. Quer passar na casa dos Burtons para trocar as roupas ?

 

         Ela o olhou indecisa.

 

         -Acha que seria certo ? April e Antony Burton estão ausentes e não vi nenhum empregado por lá.

 

         -A casa está aberta. April e Gary saíram tão concentrados no plano que esqueceram de fechar a casa. April agora voltou a ser o que era antes : uma vagabunda sem nada.

 

         Grahan o fitou surpresa.

 

         -Como  assim ?

 

         Ele a encarou, sorrindo.

 

         -Não sabia ? April era cantora numa boate de segunda classe, quando Antony a conheceu. Ele apaixonou-se por ela e se casaram, mesmo contra a vontade de Mary Burton e do pai de Michelle. Por isso o pai deixou a maioria das ações para a filha.

 

         -Scott, ela disse-me que era de família rica, que sempre teve tudo ! Que o dinheiro de Antony Burton não fazia falta para ela ! Meu Deus, mais uma mentira !

 

         Ele a olhou , sorrindo com malícia.

 

         -Ela a enganou de todos os modos, heim ?

 

         Grahan corou, envergonhada.

 

         -Aquela vagabunda. . . fui mesmo uma idiota, Scott.

 

         -E então ? Vamos lá apanhar suas roupas ?

 

         -Vamos. Poderei trocar de roupas e tomar um banho. Pelo menos, isso. Estou toda amarrotada e com os tênis úmidos. E estou sentindo o sal da água do mar grudar meus cabelos e pele.

 

         -Muito bem, vamos lá.

 

         Ele a conduziu até um carro e partiram. Chegaram à casa em menos de quinze minutos. Entraram e Grahan foi até o quarto que deixara sua mochila. Tomou um banho no banheiro anexo e vestiu calças compridas brancas, blusa de algodão azul, casaco e trocou os tênis. Colocou tudo na mochila e desceu. Scott a esperava no living.

 

         Ouviu um tuído inesperado, quando saíram da casa. Olhou para cima e viu um helicóptero que se aproximava.

 

         -Ah, vieram nos apanhar – disse Scott – A pessoa que quer vê-la mandou o helicóptero. Eu liguei enquanto você tomava banho, dizendo que estávamos aqui.

 

         Grahan o olhou sorrindo.

 

         -É tão longe assim, onde essa pessoa está, para precisar de um helicóptero?

 

         -Mais ou menos. Confie em mim.

 

         Grahan mordiscou os lábios, preocupada.

 

         -Olha, se não estivesse tão curiosa, desistiria. Toda vez que ando em um aparelho desse, me acontesse algo grave.

 

         -Dessa vez, não terá esse azar. Vamos.

 

         O helicóptero baixou lentamente e aterrissou. Scott falou rapidamente com o piloto e fez sinal para Grahan aproximar-se e embarcar. Ela embarcou com ele e o aparelho elevou-se no ar, tomando a direção oeste.

 

         Grahan viajou pensativa, lembrando os últimos acontecimentos. Como havia sido  tola, em acreditar em April ! Mas agora ela ia pagar pelos seus crimes. E agora, tinha nojo em pensar que possuíra aquela víbora. Ah, nunca mais conheceria uma mulher como Michelle ! Ela que havia sido seu único e verdadeiro amor !

 

         Só prestou atenção na viagem quando o helicóptero começou a baixar. Olhou para baixo e empalideceu. O aparelho estava pousando em seu rancho, onde Michelle havia sido  assassinada !

 

         Voltou-se para Scott, furiosa.

 

         -Que brincadeira é essa ? Este é o meu rancho !

 

         Ele a olhou com um sorriso divertido.

 

         -Eu sei.

 

         -Você enganou-me, dizendo que íamos ver a pessoa que mandou aquela mensagem e pagou-o para proteger-me !

 

         Ele a olhou calmamente.

 

         -Não enganei. Essa pessoa está aí, à sua espera. Combinamos nos encontrar aqui.

 

         -Por que aqui ? Isso é algo sádico ! Sabe que eu não queria mais vir aqui nunca mais !

 

         -Acalme-se ! Depois você me dará razão !

 

         O helicóptero pousou. O piloto voltou-se para eles.

 

         -Podem descer.

 

         Grahan respirou fundo para acalmar-se, abriu a porta e saltou. Voltou-se, esperando Scott acompanhá-la. Mas ele apenas jogou-lhe a sua mochila e gritou para o piloto levantar vôo.

 

         -Scott ! – Gritou, furiosa, vendo o aparelho elevar-se – Seu filho da puta ! Volte aqui !

 

         Ele acenou sorrindo e o helicóptero afastou-se , sumindo entre as colinas arborizadas.

 

         Grahan olhou em volta, ainda furiosa. Tudo estava como antes. A casa , o Roover diante dela, a paisagem em volta. Mas agora tudo aquilo a deprimia muito. Fôra ali que Michelle perdera a vida.

 

         A noite já começava a principiar. Era melhor entrar, do que ficar ali no escuro. Se alguém estava mesmo esperando-a, devia estar lá dentro.

 

         Avançou em passos lentos, tensa . Subiu os degraus da varanda, chegou diante da porta de entrada . Girou a maçaneta. A porta estava apenas encostada. Empurrou-a e entrou, olhando em torno. A sala estava vazia, com tudo como deixara.

 

         -Há alguém aí ? – Gritou.

 

         Ninguém respondeu. A única claridade que iluminava o ambiente era uma lâmpada acesa na cozinha. Quem a acendera ? Quando havia ido embora, apagara todas as luzes.

 

         Cautelosamente, foi até a cozinha. Ninguém. Voltou à sala e subiu as escadas que levavam para o segundo pavimento.

 

         A porta do quarto estava entreaberta e uma réstea de luz iluminava o corredor. Grahan sentia os nervos tensos. Quem seria essa pessoa, que escolhera ees local para vê-la ? Helen, tentando uma reaproximação ?

 

         Chegou diante da porta e depois de hesitar, empurrou-a, abrindo-a completamente e dando um passo para dentro. Parou arregalando os olhos e sentindo o coração disparar loucamente com o susto.

 

         Não, não era possível ! Estava tendo uma alucinação !

 

         Michelle, sentada na cama, a olhava com aqueles inesquecíveis olhos verdes-mar.

 

 

Continua na parte 12 (conclusão)

 

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