HERANÇA FATAL

 

 

PARTE 12 – conclusão

 

 

 

        Grahan ficou paralizada, sem voz. Não acreditava em fantasmas, mas naquele momento, acreditou. Ficou fitando Michelle imóvel, com medo até de respirar.

 

        Michelle ergueu-se lentamente e a fitou com o mesmo amor de antes. Estava mais linda do que nunca, naquele vestido azul.

 

         -Grahan! – Disse com voz trêmula de emoção, os olhos enchendo-se de lágrimas – Sou eu mesma, sua Michelle!Não sou um fantasma, estou viva! Não tenha medo. Voltei, querida!

 

         Grahan continuava muda e paralizada. Não conseguia falar ou mover-se. Sua cabeça parecia dar voltas, a dúvida de que estava diante de Michelle mesmo, ou tendo uma alucinação, a desesperava e apavorava. Tinha enlouquecido, depois dos últimos acontecimentos ?

 

         Michelle deu alguns passos para ela, olhando-a nos olhos com paixão, amor, angústia, ansiedade, tudo mesclado naqueles olhos verdes maravilhosos, que Grahan nunca esquecera. A voz dela saiu trêmula:

 

         -Grahan, eu a amo mais do que nunca ! Que saudades, meu amor ! Por favor, diga alguma coisa ! Diga que não esqueceu-me, que ainda me quer !

 

         Grahan viu a sombra dela projetada no chão. Fantasmas não fazem sombra. Deus, não era uma alucinação ! Era ela mesma, viva !

 

         -Michelle. . . – Conseguiu falar, recuperando a voz, que saiu trêmula – Meu Deus, é mesmo você, viva ? Não estou tendo uma alucinação ?

 

         Ela aproximou-se mais. À  um passo parou, fitando-a apaixonadamente.

 

         -Grahan, sou eu mesma, viva ! Oh, querida ! Há quanto tempo queria estar com você, poder falar-lhe, sentí-la ! Como sofri, longe de você !

 

         Grahan estendeu as mãos e tocou-a no rosto, hesitantemente. Sentiu o calor da pele, a maciez, sentiu o cheiro delicioso do perfume dela exalando do corpo. Tudo nela era real !

 

         -Oh, Deus ! –Ofegou, olhando-a incrédula ainda, mas sentindo a imensa alegria do reencontro tomar seu coração de assalto – Michelle ! Você não morreu ! Meu Deus ! Oh, não é verdade, é um sonho ! É maravilhoso demais para ser realidade!

 

         Lágrimas de felicidade deslizaram pelo seu rosto.

 

         Michelle deu outro passo e abraçou-a apaixonadamente, colando-se em seu corpo, apoiando a cabeça em seu ombro e balbuciando, em um transporte emocional:

 

         -Meu amor, meu amor. . . oh, como a amo, adoro-a !

 

         Grahan apertou-a contra si, sentindo uma emoção infinita, ao tê-la novamente nos braços. Não queria saber de mais nada, se era milagre ou loucura, só queria desfrutar a maravilhosa realidade de poder novamente abraçá-la, beijá-la, sentir o toque e o cheiro da pele, ouví-la !

 

         Ergueu o rosto dela entre as mãos e olhou-a nos olhos. Viu neles tanto amor que ficou estática, olhando-a embevecida e fascinada.

 

         -Michelle. . . meu inesquecível amor ! – Sussurou.

 

         Ela ergueu as mãos e puxou sua cabeça para o encontro das bocas ansiosas.

 

         Ah, sentindo novamente aquela boca macia e quente contra a sua , os lábios sugando os seus, a língua cariciosa tocando a sua, as salivas se misturando no beijo frenético, com a sede da saudade !

 

         Michelle espremia-se contra Grahan, as mãos enterrando-se nos cabelos, trêmulas de paixão. Grahan a apertava em um abraço sufocado, vibrante de emoção e saudade. Seus corpos unidos estremeciam juntos na mesma emoção.

 

         Grahan finalmente afastou a boca para olhá-la, mas Michelle começou a beijar seu rosto todo, fora de si, chorando de emoção. Grahan segurou-a pelo queixo e a beijou na boca outra vez, alucinada. O beijo foi tão violento que sentiu os dentes dela contra os seus. Ficaram quase um minuto  naquele beijo louco.

 

         Foi Michelle quem  se afastou, para dizer ofegante, com os olhos acesos pelo desejo que a alucinava:

 

         -Me possua, meu amor. . . preciso sentir você mais. . . não agüento mais a saudade. . . meu amor, só meu !

 

         -Michelle. . . minha Michelle. . .

 

         Foram se arrastando para a cama, agarradas. Caíram nela e ansiosas, loucas de desejo, foram arrancando as peças de roupas entre beijos famintos, olhos nos olhos, numa paixão alucinante. Choravam de emoção, à cada toque, à cada beijo.

 

         Finalmente nuas, os corpos se uniram, estremecendo. Sexo contra sexo, as bocas se sugando, mãos se acariciando com arrebatamento, corpos se movimentando freneticamente.O corpo de Michelle novamente em seus braços, se movendo de desejo! Era um sonho que se tornava realidade.

 

Michelle sentou sobre as coxas de Grahan e impalou-se em seus dedos, movendo o corpo belíssimo e a fitando nos olhos apaixonadamente.

 

-Sinta como estou, Grahan! – Disse, com voz cheia de desejo – Toda molhada para você! Somente você me deixa assim, eu a amo!

 

-Michelle! Oh, Michelle, meu amor!

 

O orgasmo sacudiu o corpo de Michelle em menos de três minutos, mas ela não parou. Ela deitou sobre Grahan com a cabeça virada para o lado oposto ao de Grahan e enfiou-se entre as pernas dela, tomando o sexo na boca ansiosa. Grahan não se fez de rogada e logo estavam fazendo um erótico 69, se sugando com loucura. Em pouco tempo atingiram o êxtase juntas, gritando.

    

         -Michelle ! Amo-a ! Amo-a !

 

         -Grahan ! Meu amor !

 

         Mas não pararam. O desejo ainda era muito, a saudade era grande e não fôra aplacada naqueles momentos .

 

         Grahan lambia , cheirava , alisava, beijava, mordiscava,  fazendo tudo que podia naquele corpo divino que se contorcia de prazer.

 

         Michelle apertava-a nos braços, beijava-a, mordiscava, sugava, sendo possuída, possuindo, numa troca de posições que deixava Grahan fora de si, olhando-a com aqueles olhos magnéticos que enlouqueciam Michelle ainda mais.

 

         Somente o cansaço as fez parar. Esgotadas, suadas, mas se fitando apaixonadas, mãos entrelaçadas, olhos cheios de amor e felicidade, no enlevo do reencontro. No ar, um doce aroma dos corpos unidos.

 

         E então, Michelle se debruçou para ela, encarando-a com amor.

 

         -Grahan. . . que saudades senti de você, querida. . . sem poder ao menos vê-la. . . quase enlouqueci ! Deus, que angústia senti nesses meses !

 

         Grahan a fitou com mágoa no olhar. Agora que podia raciocinar, pensava que Michelle estava viva porque havia simulado sua morte. Ela a havia enganado com uma farsa !

 

         -Michelle. . . então, aquela cena que presenciei, de você morta, foi uma farsa que você armou ! Você enganou-me ! –Acusou, com voz magoada.

 

         Ela a encarou gravemente.

 

         -Foi necessário, Grahan.Vou lhe contar tudo. . . porque simulei a minha morte.

 

         -Você fez-me sofrer muito, Michelle.. . quase fiquei louca ! Você enganou-me!  Sem pensar em meu sofrimento ! – Tornou a acusar.

 

         Ela acariciou seu rosto, fitando-a amorosamente.

 

         -Sei disso, meu amor. . . mas foi necessário! E a idéia não foi minha. Foi Phil Scott quem planejou tudo.

 

         Grahan olhou-a admirada.

 

         -O quê ?! Phil Scott quem planejou tudo ?! Como assim ? Ele sabia que você estava viva ?

 

         -Sim. Vou contar : Phil Scott achou uma pista   sobre  meu rapto. O homem que eu esfaqueei foi localizado, ele procurou um hospital e teve que deixar o nome. Inventou que tinha se  ferido em uma briga de bar. Scott o localizou e começou a seguí-lo. E o viu encontrar-se com April e Gary em um bar. Dali,  eles foram até um lugar deserto, perto do porto. E chegando lá, Gary saiu do carro com o homem e falou alguns instantes, até que sacou de uma arma e matou o homem com vários tiros. Ajudado por April, empurrou o homem pela amurada do rio, jogando-o na água. Depois, foram embora.

 

         -Por que Scott não os prendeu nessa hora ?

 

         -Além dele não estar em sua jurisdição, achou melhor pegá-los em uma situação mais propícia, quando sua ligação  com o rapto fosse  mais evidente . E também ele estava sozinho, Gary estava armado e poderia escapar.

 

         -Que idiota ! Perdeu a chance de pegá-los em um flagrante claro ! Acho que Scott ficou foi com medo de ser alvejado !

 

         -Também achei isso, mas Scott disse-me que tinha seu plano para desmascará-los  definitivamente.

 

         -Como você soube disso tudo ?

 

         -Ele ligou-me e marcou um encontro sigiloso comigo. Lembra-se de uma tarde que não fui trabalhar ? Falei que ia fazer umas compras e saí mais cedo ?

 

         Grahan franziu o cenho.

 

         -Lembro vagamente. . . achei estranho, mas não dei muita atenção. Eu confiava em você.

 

         -Pois bem, naquele dia fui encontrar-me com Scott. Ele havia pedido sigilo absoluto, inclusive com você. Se eu chegasse acompanhada, ele iria embora. Concordei, pretendendo falar com você depois.

 

         -E por que não falou ?

 

         -Porque ele me contou coisas graves, sobre o envolvimento de April e Gary com o rapto e o crime. E me expôs o plano para pegá-los.

 

         -E que plano era esse ?

 

         -Simular minha morte. Eles não iriam ficar quietos, precisando de dinheiro e você tendo herdado tudo. Gary precisava de um milhão de dólares para pagar dívidas de jogo, por isso raptou-me. Minha mãe não tinha esse dinheiro em caixa para dar à ele, que já vinha dilapidando tudo que ela tinha em presentes caríssimos à April e em viagens.

 

         -Ah, então eu serviria de isca , para eles tentarem alguma coisa !

 

         -Sim. Mas nós pensávamos que eles iam tentar raptá-la, como fizeram comigo. E Scott ficaria vigiando você constantemente, escondido. Se eles tentassem o rapto, Scott os seguiria com a polícia e seria feito o flagrante, desmascarando-os. Mas eu não concordei, à princípio. Não queria separar-me de você e colocá-la em risco. Ele convenceu-me dizendo que a protegeria todo o tempo e interviria em caso de perigo. Aleguei que para isso, ele teria de ficar ausente de sua cidade e não poderia trabalhar lá. Então, ele fez-me a proposta: largaria seu emprego e se dedicaria à esse caso, solucionando-o, se eu pagasse um milhão de dólares. Protegeria você de todos os riscos e nós ficaríamos livres das ameaças de Gary e April, que mesmo comigo à frente dos negócios, poderiam tentar nos matar, para minha mãe herdar tudo e ele extorquí-la. Eu precisava desmascará-los, Grahan ! E só havia essa alternativa. E você não poderia saber do plano porque era muito arriscado e você não é uma atriz, para representar convincentemente seu papel.

 

         -E então, vocês armaram aquela farsa de sua morte.

 

         -Era preciso, Grahan. Scott planejou tudo. Orientou-me para ir para seu rancho naquele sábado. Estaria lá esperando-me. Eu tomei as providências no testamento, depositei o dinheiro em sua conta, para não lhe faltar nada material, e fomos para o rancho. Ah, como foi difícil aparentar alegria para você, sabendo que ia deixá-la ! Mas eu tinha de agir com naturalidade. Quando saí para apanhar a lenha, olhei-a na cama e quase desisti do plano. Não queria deixá-la. Mas  Scott estava lá fora, esperando-me. Eu não sabia os detalhes do plano, como se daria minha morte aparente.Sabia apenas que naquele momento tudo começaria e eu não  a veria mais, por um longo tempo. Saí e encontrei Scott. Ele então contou-me que eu teria  de me fingir de morta para você. Recusei no início, discutimos, mas ele ameaçou largar tudo, que tinha de ser daquele jeito. Eu concordei finalmente, preocupada com o choque que você iria ter ao me ver “morta”.

 

         Ele fez uma marca em minha testa, colocou sangue de coelho em meu rosto e deitou-me no chão, orientando-me como ficar. E escondeu-se, esperando.

Quando você chegou e olhou-me, também quase desisti, ao notar o seu desespero. Mas já havia começado, tinha que ir em frente. Ainda bem que você mal tocou-me, pelo choque, e foi correndo chamar a polícia, porque eu não podia prender a respiração por muito tempo. Scott iria distraí-la, se você demorasse perto de mim, dando um tiro para o alto. Você pensaria que o assassino ainda estava por ali e iria se refugiar na casa, dando tempo para ele ir embora.    Quando você correu para chamar a polícia , ele retirou-me dali rapidamente e colocou o corpo da mulher em meu lugar, com a roupa que eu usava. Saimos dali no carro dele, onde limpei o rosto da maquiagem e vesti uma roupa que ele comprou para mim. Na cidade, fui para um hotel com uma peruca e um nome falso, e ele para a delegacia.

 

         -Mas, e o corpo ? Onde ele arrumou o corpo ?

 

         -Uma moça havia sido assassinada. Uma prostituta, com algumas características minhas, como altura e cabelo.  Ele já havia subornado um amigo que trabalhava no necrotério  para conseguir um  corpo    para substituir o meu. Por dez mil dólares, o auxiliar de patologia forneceu o corpo a Scott. Ele a vestiu com minha roupa logo que eu saí, e a colocou em meu lugar. Seu amigo trocou os papéis das impressões digitais dela pelas minhas, que eu havia tirado dias antes, e pronto ! A polícia conferiu as impressões com as minhas oficiais e deu-me como oficialmente morta. Os cabelos da moça eram parecidos com os meus e seu rosto estava deformado com os tiros que a mataram. E com sua declaração que ela era Michelle Burton, o depoimento do piloto da Burton Corporation de que me havia levado para o rancho, o  meu anel que Scott colocou no cadáver, tudo dispensou o reconhecimento da  família. O caixão seguiu lacrado para New York e não foi aberto . Minha família foi aconselhada por Scott a não olhar, por que eu estava deformada. E assim,  tudo saiu como Scott planejou.

 

         -Que plano diabólico ! Só podia ter saído mesmo da mente de um policial, que conhece todos os procedimentos nesses casos – Comentou Grahan, impressionada – E você ? Onde ficou esse tempo todo ?

 

         -Em uma casa em New Jersey. Aluguei-a e fiquei lá, mas estava em New York no dia que você foi ao meu apartamento. Vim trazer o cartão da porta e a mensagem para Scott colocar na portaria e aproveitei para tentar ver você, sem que Scott soubesse, mesmo de longe. Eu estava disfarçada , de peruca e óculos escuros. Fui para perto da casa de Helen, pois Scott havia me contado que você estava hospedada na casa dela, e fiquei lá bem cedo, observando a entrada do prédio. A saudade de você estava insuportável.

 

         E quase corri ao seu encontro, quando a vi sair. Mas Scott também estava lá vigiando-a e ficou furioso comigo, ao ver-me. Ele disse que eu estava colocando o plano a perder, por sentimentalismo. Mas insisti e nós a seguimos pela rua. Vimos você dirigir-se para a Quinta Avenida e entrar no edifício que morávamos. Eu implorei à Scott e ele cedeu em subir em um edifício em frente, fomos para o terraço e com um binóculo que ele levava para vigiá-la, eu a vi no quarto, na nossa cama, chorando agarrada à minha roupa. Oh, Grahan, eu também comecei a chorar e a gritar que iria falar com você ! Scott custou a tirar-me dali.

 

         Grahan a fitou com ar acusador.

 

         -Você soube como fiquei, quando achei que você tinha sido assassinada ? Se não fosse Helen, eu teria morrido de inanição ! Só ficava bebendo, desesperada !

 

         Michelle beijou-a nos lábios, carinhosamente. Olhou-a com amor.

 

         -Eu sei, Scott contou-me por telefone. Não pensei que você fosse ficar daquele jeito, tão desesperada e abatida. Fiquei cheia de remorso e preocupação. Pedi à ele que chamasse Helen para ajudá-la. Se não reagisse, eu desistiria do plano. Mas você reagiu e foi para a casa dela, o que eu não esperava. Você e Helen sozinhas, na casa dela! Vocês tiveram um romance,  não foi ? Ela se apaixonou por você, não é verdade ? – A voz de Michelle foi se alterando à medida que falava e concluiu com raiva e ciúmes no olhar e na voz.

 

         Grahan fitou-a calada.

 

 Michelle a sacudiu pelos ombros, olhando-a atormentada e furiosa.

 

         -E April ? Você encontrou-se com ela várias vezes, levou-a ao seu apartamento ! Scott contou-me tudo ! Você traiu-me com aquela víbora ! Oh, como isso me doeu ! Como sofri, sem poder fazer nada ! Você com Helen e depois, com April ! Depois, ainda diz que me ama! Você é uma sem-vergonha, Grahan, uma traidora! Como pôde trair-me com elas? – Gritou, esbofeteando-a

 violentamente, com os olhos brilhando de ciúmes.

 

         Grahan, a fitou assustada, passando a mão no rosto que ardia.Nunca havia visto Michelle tão furiosa. Mas  passada a surpresa do ataque,  sentou-se na cama e a segurou pelos pulsos com força, gritando:

 

         -Andei com Helen e April, sim ! O que esperava ? Eu estava desesperada, perdida, sem saber o que fazer de minha vida ! Agarrava-me a quem me desse carinho e atenção ! Eu estava frágil e carente, sem objetivos ! Se ficasse só, pensando somente em você com o desespero que sentia, iria ficar louca !

 

         -Mas eu não a traí! Eu não estive com ninguém! – Gritou Michelle, com lágrimas nos olhos – Como vou poder confiar em sua fidelidade, depois disso?

 

         Grahan a segurou pelos ombros e a fitou gravemente.

 

         -Mas mesmo com elas, eu nunca a esqueci, Michelle! Elas nada representavam para mim! Meu lado afetivo estava tomado por você, eu sofria pensando em você, lembrando dos momentos que passamos juntas. . .

 

         -Mas você traiu-me ! Oh, Grahan ! Nesse tempo todo, não tive ninguém ! Só ficava angustiada, pensando em você, cheia de saudades e imaginando você com Helen e depois, com April ! Oh, eu morria de ciúmes e sofria, imaginando que você tinha me esquecido !

 

         -Michelle ! Ouça ! Eu a amo tanto que vou perdoá-la do que me fez passar. A angústia, a sensação de perda irremediável, o sofrimento desesperado. Você traiu-me de outra maneira, bem mais grave: enganou-me de uma maneira cruel, seja por que motivo for. Fez-me sofrer infernalmente. E agora me cobra esses deslizes que pratiquei, julgando-a morta ? – Falou, cheia de revolta.

 

         Michelle ficou olhando-a em silêncio, assimilando aquelas palavras. Baixou a cabeça, caindo em si.

 

         -Tem toda razão, Grahan. . . – Disse, com humildade – Só posso lhe dizer que errei tentando livrar-nos da ameaça que pairava sobre nós. Mas também sofri e você é a criatura que mais amo na vida, acima de tudo. Perdão, por tê-la feito sofrer tanto, Grahan. Eu a amo muito, demais. Quando Scott ligou para mim e relatou-me os últimos acontecimentos, quase enlouqueci de felicidade. A espera havia acabado ! Podia vê-la ! Mandei ele trazê-la para cá e vim também de helicóptero, ansiosa para estar diante de você.

 

         Grahan ergueu com a mão o rosto dela e fitou aqueles olhos verdes-mar e enterneceu-se. Ela fizera aquilo tudo para viverem sem ameaças. Valera à pena o sofrimento. Agora, nada impediria a felicidade delas.

 

         Abraçou-a carinhosamente. Michelle suspirou, aliviada, alisando seu rosto.

 

         -Vamos esquecer tudo isso, amor – Disse Grahan, deitando-se novamente com ela aconchegada ao corpo - O importante é que nos amamos e agora ficaremos sempre juntas.

 

         -Sempre, querida. . .

 

         -Mas você terá que desfazer essa mentira de sua morte. Deve confessar à polícia a sua verdadeira situação. Mesmo que isso complique Scott. Você não pode continuar a viver como um fantasma.

 

         -Scott à essas horas já deve estar fora do país. Ele já tinha tudo planejado. Já paguei a ele o dinheiro. Ele foi para a Europa, ser fazendeiro na Inglaterra. Ele sabia que eu retornaria à minha vida normal, quando tudo terminasse. E vou desfazer essa mentira, Grahan. Contratarei bons advogados e saberei arcar com as consequências de meu ato. Com você ao meu lado, enfrentarei tudo.

 

         Grahan a apertou nos braços, olhando-a embevecida.

 

         -Oh, Michelle ! Parece um sonho eu estar aqui, novamente com você em meus braços ! Naquele dia em que fui ao seu apartamento, quando vi aquela cama e as suas roupas, fiquei desesperada, pensando que você não existia mais para vestir aquelas roupas, que nunca mais a teria naquela cama, nunca mais veria seu olhar, ouviria sua voz, teria seus beijos.  E senti que ninguém poderia substituir o amor que eu sinto por você. Poderia ter qualquer mulher, mas nunca mais amaria a alguém como a amo. Você é a mulher de minha vida, eu a amo demais, Michelle.

 

         Ela a fitou fascinada.

 

         -Que coisas lindas me disse, amor. . . eu também só quero você, só amo você. A vida sem você é tediosa, sem graça, só sou feliz ao seu lado,querida...

 

         -Como estou feliz em tê-la novamente. . . parece um sonho. . .

 

         -Abraça-me mais, Grahan. . . quero você outra vez. Agora, você vai ver. . . – Sorriu ela, os lábios bem próximos dos de Grahan – Vou deixá-la de um jeito que não vai agüentar andar com mais ninguém. . .

 

         Grahan riu, feliz. Uma idéia lhe ocorreu:

 

         -Por que marcou nosso reencontro justamente aqui ?

 

         -Por que foi onde começamos tudo. E onde você achou que havia me perdido. Esse lugar tem um significado especial para mim . Agora, chega de conversa. . . beije-me, Grahan. . . faça amor comigo. . .

 

         Grahan beijou-a e estremeceu de emoção, sentindo a felicidade incomparável de ter Michelle.

 

 

 

E  P  Í  L  O  G  O

 

 

         April Burton e Gary Miller foram condenados a trinta anos  de prisão, por assassinato e rapto. Cumprem pena na  prisão estadual de New York.

 

         Scott continua foragido na Europa, vivendo muito bem em sua fazenda, com outra identidade.

 

         Mary Burton divorciou-se e tornou a casar com um homem vinte anos mais novo que ela.

 

         Helen, depois de desiludir-se do amor de Grahan, um dia revelou tudo  a June, numa crise de depressão. June ficou muito surpresa em saber que Grahan tivera um caso com Helen e era amante de Michelle Burton. Mas foi muito compreensiva com Helen e discreta com Grahan e Michelle. Aceitou tão bem a verdadeira personalidade de Helen, que acabou se tornando sua amante. Trabalham juntas em um clima de amor recíproco.

 

         Michelle apresentou-se à justiça, revelando todo o plano concebido por Scott. A imprensa noticiou com estardalhaço o reaparecimento da milionária que todos pensavam estar morta. Os advogados de Michelle habilmente mostraram ao juiz e ao público que ela apenas seguira um plano traçado por um policial experiente, desesperada com o clima de ameaça velada, depois do rapto que sofrera. Era uma vítima do medo de ser morta, o que se confirmara com os crimes de April e Gary Miller.

 

         Foi absolvida por um júri encantado com sua classe e beleza, ajudada pelo público, que a apoiou através de pesquisas de opinião pública.

 

         Discretamente, ela e  Grahan voltaram a residir no apartamento na Quinta Avenida, depois que a mídia desinteressou-se do caso. E voltou a presidir a Burton Corporation com firmeza e competência, agora sem a insegurança inicial.

 

         Grahan não quis voltar ao cargo de assistente. Preferiu começar finalmente um romance que há muito tempo  sonhava poder escrever. Com a ajuda e conhecimentos de Michelle, conseguiu um editor de renome para editar seu livro.

 

         Michelle lê as partes escritas e a estimula com comentários elogiosos  ou críticas construtivas. Brinca que logo será apenas o caso de uma escritora famosa.Ela chega em casa e conta à Grahan o seu dia de trabalho, não dispensando alguma sujestão de Grahan, que a ouve e trocam idéias sobre seus trabalhos com entusiasmo.

 

 

))))))((((((

 

         E no início da primavera, embarcaram em um luxuoso transatlântico com destino à Europa. Era a viagem longamente sonhada por Michelle, ao seu lado.

 

         No convés, vendo a cidade de New York ir se afastando, elas olharam uma para a outra com emoção.

 

         -É como se fosse realmente a nossa lua-de-mel, Grahan. . . – Sussurrou Michelle, apertando a sua mão – Ah, se fosse permitido nos casarmos ! Nós poderíamos mostrar a todos o nosso amor. Mas infelizmente, estamos no terceiro milênio e o mundo ainda se prende à preconceitos, que impedem o ser humano de se mostrar sem a máscara de hipocrisia.

 

         Grahan sorriu, fitando-a nos olhos.

 

         -Nada disso pode nos impedir de sermos felizes, querida. Porque criamos nosso próprio mundo em casa. E vai ser maravilhoso conhecer a Grécia ao seu lado.

 

         Michelle sorriu ternamente.

 

         -Quero que essa viagem seja perfeita, para você, meu amor... de minha parte, farei tudo para que seja inesquecível.

 

         -E como temos nosso mundo particular, podemos achar que é nossa lua-de-mel, Michelle. E como uma lua-de-mel tem de ser à sós, convido-a para ir comigo para o camarote.

 

         Michelle sorriu com malícia.

 

         -Vamos querida. . . vamos iniciar nossa lua-de-mel, como manda o figurino. .  

 

         E lá se foram elas, indiferentes aos demais passageiros que olhavam intrigados para aquelas duas mulheres lindas e femininas, que se fitavam nos olhos e pareciam estar em um mundo à parte, somente delas.

 

 

 

 

F   I   M

               

 

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