PARTE 9
O novíssimo Lexus
preto parou diante da mansão dos Burtons e Grahan desceu, batendo a porta. A
tarde estava fria e nevoenta, com a aproximação do outono.Bem própria para a
leitura de um testamento, pensou Grahan, com um sorriso amargo.
Ela estava elegantíssima em seu conjunto
de blazer e saia justa escuros, que destacavam sua pele clara e cintilante. Os
lábios polpudos e sensuais estavam pintados de um vermelho escuro, contrastando
com os olhos azuis cintilantes, lhe dando um ar de mulher fatal. As meias de
nylon e os scarpins negros de salto agulha
realçavam suas pernas longas e esculturais.
Grahan olhou em volta, percebendo os
três carros de luxo estacionados. Um Audi cinza, um BMW preto e uma Ferrari
vermelha.
Sorriu com sarcasmo. A família estava
toda ali, ávida para botar as mãos na herança de Michelle. Uma herança fatal,
motivo de sua morte. Abutres!
Grahan era agora uma outra mulher,
revoltada com o mundo, que lhe havia arrebatado a única pessoa que amara
inteira e verdadeiramente. Para ela, a humanidade era podre, com pessoas se
matando, traindo e mentindo por dinheiro e poder. Não confiava em mais ninguém, nem em Helen,
que a ajudara, mas com interesse em ter
seu amor. Era tudo um jogo de interesses!
Sua revolta com o mundo fez emergir das
profundezas de seu desespero uma Grahan cínica e fria, disposta a reverter o
jogo: Seu coração seria eternamente de
Michelle, fechado para novo amor. Sua necessidade de sexo seria saciada sem
nenhum outro sentimento além de desejo. Ninguém mais a faria sofrer por perder
a quem amava. Não suportaria passar por isso novamente.
Ela respirou fundo e caminhou em passos
decididos para a porta principal de entrada, onde um segurança estava postado.
Abriu a carteira de couro negro e retirou a convocação do tabelião. Parou
diante do homem e estendeu o documento, dizendo:
-Sou Grahan Gladstone. Fui convocada
para a leitura do testamento.
O segurança leu o papel e o devolveu,
abrindo a porta para ela entrar.
-Queira entrar, senhorita.
Grahan passou por ele e entrou. Do
vestíbulo, viu as pessoas no salão se voltarem para ver quem chegara.
Grahan se adiantou, olhando-os com o queixo erguido orgulhosamente. Cinco homens
e duas mulheres. Todos a olhando avaliadoramente, com expressões inexpressivas
escondendo suas reais emoções.
Um dos homens adiantou-se ao encontro
dela. Era um velho meio encurvado, mas de olhos ágeis e vivos. Estendeu a mão,
sorrindo.
-Senhorita Gladstone ? Sou o tabelião
Thompson. Muito prazer em conhecê-la.
Grahan deu um meio sorriso, apertando a
mão do velho. Ele, pelo menos, era cordial. Talvez, o único sem interesse pelo
conteúdo do testamento e do desfecho daquela reunião.
-Muito prazer, senhor Thompson.
-Só estávamos à sua espera, para a
abertura do testamento.
-Cheguei pontualmente. São cinco horas
da tarde.
Ele sorriu, pegando-a pelo braço e a conduzindo
em direção ao grupo, que a olhava em silêncio.
-Sei disso, senhorita. Mas as pessoas
aqui estão ansiosas. Venha, vou apresentá-la, pois soube que não conhece a todos.
O tabelião parou diante de um homem
grisalho e magro, que sorriu para Grahan cortesmente.
-Willian Kauffman, meu assistente.
Grahan apertou a mão do homem, que
inclinou-se levemente. Fino, pensou.
-Alfred Simpson, advogado da senhora
Burton.
O homem apertou sua mão com um olhar
frio. Um adversário.
-Antony Burton, filho da senhora Burton.
Um homem bonito, mas de olhar orgulhoso
e duro. Alto, cabelos castanhos, olhos
azuis e lábios finos, que não sorriram. Não lhe estendeu a mão. Adversário
frio, classificou Grahan.
-Gary Miller, marido da senhora Burton.
Grahan lembrou o que Michelle dissera
sobre ele. Era mesmo bem mais novo que Mary Burton. Podia ser filho dela. Era
alto e louro, com cara de conquistador. Olhou-a com evidente admiração, mas não
sorriu nem apertou sua mão. Dissimulado, pensou Grahan.
-Mary Burton, a mãe de Michelle Burton.
Ela olhou para Grahan com ódio.
-Já nos conhecemos, Wilfred – Disse, com
frieza.
-Ah, sim, esquecí-me. . . bem, senhorita
Gladstone, só falta apresentar-lhe April Burton, esposa de Antony Burton.
Grahan olhou para April, procurando não
externar a sua surpresa. April Burton era belíssima .
Uns olhos verdes como jóias raras,
brilhantes, lindos, fitando-a curiosamente. Traços perfeitos, uma boca que
parecia estar sempre pronta para beijar, cabelos louríssimos caindo pelos
ombros em ondas refulgentes. O corpo escultural com um vestido branco que
realçava suas formas perfeitas. Alta, quase da altura de Grahan, não precisou
erguer o rosto para olhá-la nos olhos. Não estendeu a mão e não lhe sorriu. Outra
adversária.
O tabelião olhou em volta sorrindo,
talvez procurando quebrar aquela tensão que a presença de Grahan causava. Ele
fizera o possível, apresentando-a à cada um. Não adiantara.
-Bem, vamos abrir o testamento. Todos os
interessados estão aqui.
Mary Burton falou secamente:
-Passemos à biblioteca, Wilfred.
Ela adiantou-se e todos a seguiram.
Grahan foi por último, pronta para rebater qualquer agressão verbal.
Entraram na biblioteca e Wilfred
sentou-se na cabeceira da enorme mesa de mogno, pousando a pasta que trazia
sobre a mesa. O assistente dele sentou ao seu lado e os demais sentaram nas
cadeiras restantes, com exceção à Grahan, que sentou em uma poltrona afastada
da mesa. Dali, podia ver a todos e se eles quisessem falar com ela, teriam que
voltar o rosto. Cruzou as pernas e acendeu um cigarro. Raramente fumava, só
quando estava nervosa, para relaxar. E ali sentia-se nervosa, mas o seu
nervosismo era interior. Na aparência, seu olhar era frio e suas mãos estavam
firmes.
Wilfred tirou um envelope lacrado da
pasta e começou a abrí-lo, assistido pelo seu assistente.
Grahan olhou para os Burtons, dando uma
tragada em seu cigarro. Seu olhar se fixou em April Burton.O seu novo modo
cínico e revoltado de encarar a vida a fez olhar a mulher como um brinquedo
para divertir-se. A outra Grahan sincera e desinteressada estava afogada numa
onda de revolta.
Que mulherão, April Burton! – Pensou.
Desde que conhecera Michelle, não se impressionava tanto com a beleza de uma
mulher. Ela tinha uma beleza invulgar.
April, como que atraía pelo seu olhar,
voltou a cabeça lentamente e a olhou. Grahan a fitou também, imperturbável, sem
demonstrar nenhuma reação àquele olhar furtivo que a percorreu. Ela voltou a
cabeça, deixando de olhá-la. Grahan teve vontade de rir, ao pensamento que lhe
veio: e se April Burton se interessasse por ela ? Seria engraçado, no mínimo.
Sua adversária. Ela devia saber de seu caso com Michelle, evidentemente. Só o
fato dela estar ali, sem fazer parte da família, já comprovava isso.
Wilfred pigarreou e disse, erguendo a
voz:
-Vamos dar início à leitura do
testamento que Michelle Burton ditou-me em seu gabinete na Burton Corporation,
no dia dois de junho de dois mil e quatro.
Todos olharam para o tabelião. Ele tomou
fôlego e começou, com voz sem entonação:
“- Eu, Michelle Burton, com vinte e nove
anos de idade, solteira, em total uso de minhas faculdades mentais e físicas,
perante o tabelião Wilfred Thompson, decido de livre e espontânea vontade fazer
de minha herdeira Grahan Gladstone, solteira, trinta anos, escritora, de 60% das
minhas ações da Burton Corporation. “
Uma exclamação de surpresa interrompeu a
leitura. Grahan olhou. A mãe de Michelle se pusera de pé, junto com o filho.
Ambos olharam para o tabelião, furiosos.
-Isso é uma brincadeira ! – Gritou Mary
Burton – Minha filha estava louca !
Antony Burton olhou para Grahan,
apontando-a . Ela o fitou imperturbável. Mas por dentro, tremia.
-Essa vagabunda seduziu a minha irmã ! E
agora vemos o que queria !
O tabelião fitou-os, imperturbável. Ele
devia estar acostumado com essas cenas
em leituras de testamento.
-Posso prosseguir a leitura ? –
Perguntou, calmamente.
Antony Burton hesitou, mas tornou a
sentar-se, puxando a mãe pelo braço. Ela sentou-se com uma expressão de ódio.
O tabelião pigarreou novamente e prosseguiu:
“ – Ressalvo que os dez por cento das
ações restantes do total de setenta por cento, faço doação de cinco por cento à
minha mãe, Mary Burton, e os outros cinco por cento ao meu irmão, Antony
Burton. Quanto aos meus bens imóveis, tais como: um apartamento na Quinta
Avenida, uma casa na praia de Malibu, faço deles herdeira Grahan Gladstone, com
tudo que neles se encontra, desde móveis à obras de arte. Esclareço que faço
essas doações à Grahan Gladstone pela dedicação, apoio e afeto manifestados em
vários momentos de dificuldades que passei, contra quem repudio qualquer ação
que venha frustrá-la de receber essas doações.
Minhas jóias, abaixo discriminadas, lego
à minha mãe: um colar de pérolas
cultivadas no valor de cem mil dólares. . .”
O tabelião continuou a descriminar as
jóias com voz sem entonação. Mas parecia que ninguém prestava mais atenção ao
velho, todos olhando para Grahan. Ela recebera o filé da herança. Mary Burton e
o filho, as migalhas.
Grahan notou o olhar de ódio de Mary
Burton. Ficou com o rosto impenetrável,
sem mover um músculo sequer. Mas dentro de si, aquela herança que Michelle lhe legara
fazia sua cabeça dar voltas. Era muito dinheiro e poder. Conseguiria manobrar
tudo aquilo ? Tinha até medo. E agora ela seria a principal suspeita da morte
de Michelle. Estava claro que todos iam pensar que matara Michelle por causa
daquele testamento. Ninguém acreditaria que o desconhecia.
Antony Burton também a olhava com ódio.
Até o entendia. Afinal , a herança da família ir parar em mãos estranhas, era
uma coisa difícil de engolir. E ele estava furioso com a migalha que recebera.
Queria mais.
April olhou mais uma vez para Grahan,
que leu naqueles olhos um interesse furtivo. Claro, ela sabia de sua
preferência sexual e agora que era a herdeira principal da empresa, tornara-se
importante aos olhos dela.
Olhou-a com um olhar cínico, encarando-a
nos olhos. Ela enrubesceu e desviou o olhar.
Gary Miller, o gigolô de Mary Burton, a
fitava com ar de conquistador. Para ele, as mulheres deviam ser uma fonte de
renda.
Voltou a olhar para April, esperando
novo olhar. Mas ela não voltou a fitá-la. Grahan não conseguiu prestar mais
atenção à leitura do testamento. Aquela bela loura a atraía. Olhava para as
longas pernas cruzadas, de meias finas,
e sentia-se invadida por pensamentos de luxúria.
O tabelião encerrou a leitura e
ergueu-se. Distribuiu cópias do testamento para Mary Burton e o filho,
entregando o original a Grahan. Sorriu para ela e disse baixinho:
-Parabéns, senhorita Gladstone.
Grahan ergueu-se. Nada mais tinha a
fazer ali. Todos já estavam de pé, com a família Burton discutindo acidamente o
testamento. Somente April se mantinha calada, ouvindo-os com um rosto
impenetrável. O olhar dela pousou mais uma vez em Grahan, que sustentou-o . Ela
tornou a desviar os olhos.
Mary Burton aproximou-se de Grahan, com
ódio no olhar.
-Peço que agora se retire de minha casa.
Sua presença é um insulto para nós. – Disse, com voz contida.
Grahan sorriu com cinismo, fitando-a nos
olhos.
-É
o melhor convite que me fez. Sua casa me faz mal.
Foi até o tabelião, cumprimentou-o ,
cumprimentou o assistente e dirigiu-se para a saída com passos provocantes, não
sem antes olhar de soslaio para April. Ela a seguiu com o olhar até sair.
Pegou o seu carro e saiu em disparada.
Estava com uma sensação de irrealidade. Aquilo era um sonho ? Não. O testamento
no banco ao lado comprovava os acontecimentos.
Ela agora era uma mulher rica, com
poder. Possuía sessenta por cento da Burton Corporation !
Mas essa idéia não a alegrava. Aquilo significava
que arranjara inimigos e o assasino de Michelle agora se voltaria contra ela. E
a polícia iria considerá-la com um bom motivo para ter assasinado Michelle. Que
ironia do destino ! Ela, que amava Michelle verdadeiramente, seria a suspeita
principal da morte dela.
Devolveria de bom grado aquela herança,
se a morte de Michelle tivesse ocorrido em circunstâncias normais. Não tinha
sede de poder e de muito dinheiro. Já achara aqueles duzentos e cinqüenta mil
dólares dinheiro demais, para suas ambições. Aquela herança traria em seu
rastro muita dor de cabeça e perigo. Mas queria respeitar a decisão de
Michelle. Se ela havia decidido que a mãe e o irmão não a mereciam, é porque
sabia de algo que não os tornavam merecedores desse prêmio. Tinha que respeitar
a decisão dela e tentar descobrir o responsável pelo seu assassinato. Aí,
tomaria uma decisão sobre a herança.
Do dinheiro que ela depositara em sua
conta, comprara aquele carro. Ainda tinha o bastante para comprar um bom
apartamento em New York.
O que faria com o apartamento da Quinta
Avenida ? Morar lá? Não, não teria coragem. Nem de vendê-lo, estava cheio de
recordações de Michelle. Ela o havia decorado, haviam morado juntas, tinha
roupas e objetos pessoais dela. Deixaria fechado, até resolver o que fazer.
E a casa em Malibu ? Não a conhecia, nem
estava interessada em conhecer. Tinha muito a fazer em New York. E a primeira
providência era contratar um bom advogado de sua confiança. Tinha certeza que
Mary Burton iria contestar o testamento na justiça. E provavelmente, acusá-la
de haver assassinado Michelle, sabendo da existência do testamento.
Lembrou de April Burton. Que mulherão !
Era a única coisa dos Burton que realmente a interessara. Mesmo com a lembrança
de Michelle em sua mente. Se não procurasse se interessar por alguém de
verdade, mesmo que sexualmente, ficaria louca. O que sentia por Helen era mais
pena e gratidão que desejo, por ela ser tão dedicada.
Helen. Estava na hora de sair da casa
dela. Quanto mais ficasse lá, mais difícil seria depois para ela se acostumar
com sua falta. Não estava apaixonada por ela e não queria que a relação se aprofundasse. Tinha que
afastar-se dela o quanto antes, pelo bem de ambas.
Estacionou o carro e apanhou o
testamento e a carteira, subindo para o apartamento. Abriu a porta e entrou.
Helen a esperava sentada no sofá, lendo
uma revista. Olhou-a ansiosa, erguendo-se.
-E então, Grahan ? Como foi, lá na casa
dos Burtons?
Grahan a fitou com um sorriso divertido,
fechando a porta. Parou e encarou Helen, que a fitava curiosa.
-Helen, querida. . . – Disse, em tom
afetado – Você está vendo diante de si a herdeira da Burton Corporation !
Helen fitou-a boquiaberta.
-Está brincando ! Não é possível !
-Não ? Então, veja o testamento – Disse,
estendendo o documento para ela.
Helen o pegou e leu. Acabou e olhou para
Grahan, que sorria. Estendeu o documento para Grahan em silêncio. Grahan o
colocou sobre a estante e ficou séria, sentando-se no sofá.
-Eu não esperava que Michelle fizesse
isso – Disse, passando os dedos nos cabelos – E na verdade, isso me amedronta.É
muito poder e dinheiro para mim. E agora, sou o alvo do assassino, além da
polícia achar que matei Michelle por saber desse testamento. É um bom motivo,
não é ? Eles não sabem que eu daria todo dinheiro do mundo para estar com
Michelle viva, ao meu lado.
Helen, sabiamente, ignorou a última
frase de Grahan.
-E o que pretende fazer ? – Perguntou.
Grahan fitou-a com preocupação.
-Primeiramente, arranjar um bom
advogado. É claro que a mãe de Michelle vai contestar o testamento na justiça,
com a acusação de que matei a filha, para ficar com a herança.
-Conheço um ótimo. Foi advogado do pai
de Michelle, era de inteira confiança dela. Foi afastado da empresa por
influência de Mary Burton, porque ele achava que Michelle é quem devia assumir
a empresa. Todo mundo lá na Burton Corporation sabe disso. Ele era o diretor do
departamento jurídico e conhece bem a empresa.
Grahan olhou-a interessada.
-Tem o endereço dele ?
-Sim. June também tem. Ele trabalha em
um escritório em Wall Street. Chama-se Jefferson Boderick.
-Vou procurá-lo logo que puder.
Ergueu-se do sofá. Olhou para Helen
avaliadoramente.
-Você não me pareceu contente com a
notícia de que eu herdei as ações da Burton Corporation. Por que ?
Helen a encarou.
-Por que ficaria ? Sei que agora você
vai sair daqui o mais depressa possível.
-Helen, lembre-se que nunca disse que
ficaria aqui indefinidamente. Um dia, teria que ir embora.
Ela a fitou com revolta.
-Está rica, não precisa mais de mim, não
é ? Pode voltar para o apartamento da Quinta Avenida, ou comprar outro tão suntuoso como ele.
Grahan irritou-se.
-Helen, pare com esse drama ! Nunca a
enganei sobre meus sentimentos, você aceitou nossa relação sem condições !
Helen a fitou com ciúmes e despeito, os
olhos cheios de lágrimas.
-Eu sei que não sou nada para você ! Sei
que só quis usar-me como uma tábua de salvação contra esse amor doentio que
sente por um cadáver ! Sim, porque Michelle não passa agora de um cadáver em
putrefação !
Grahan fitou-a chocada com a crueldade
dela.
-Helen, está perdendo a cabeça, com seu ciúme irracional ! Cale a
boca, antes que seja tarde demais !
Mas o ciúme é cego e irracional. E Helen
estava sentindo-o corroê-la por dentro, como ácido. E queria ferir Grahan,
ferí-la como ela a ferira ao dizer que preferia estar com Michelle à todo o
dinheiro do mundo. Aquilo penetrara em sua mente e aos poucos ia nublando sua
razão. O ciúme explodia agora incontrolável, em palavras escolhidas para
machucar:
-Não me calo mais ! Cansei ! Cansei de
ficar ouvindo-a dizer que ama Michelle ! Eu lhe dei amor, carinho, dedicação,
mas o que adiantou ? Você continua com seu amor mórbido por um cadáver ! É isso
que Michelle é ! Um cadáver em putrefação ! E você é uma louca, preferindo amar
uma mulher morta!
Grahan perdeu a cabeça. Esbofeteou Helen
com raiva, desespero, porque ela estava tentando destruir a lembrança
maravilhosa da mulher que ainda amava.
-Nunca mais diga isso ! – Gritou, diante
de Helen, que se encolhia no chão, olhando apavorada para ela, que parecia fora
de si – Nunca mais diga que Michelle é um cadáver em putrefação ! Em minha
mente ela sempre estará viva e linda !
-Você está louca, Grahan ! – Gritou
Helen, levantando-se e a olhando assustada – Está precisando de um psiquiatra !
Grahan a fitou com mágoa, raiva,
decepção.
-Se acha isso de mim, é melhor eu ir
embora agora !
Foi para o quarto com passadas furiosas
e abriu o armário que dividia com Helen, começando a tirar suas roupas. Colocou
tudo na sua mala, olhando em volta. Haviam alguns objetos pessoais como
perfumes e sapatos, mas aquilo não era indispensável. Compraria outros. O que
desejava era sair dali o quanto antes.
Saiu do quarto e voltou à sala. Helen
chorava no sofá. Parou diante dela e jogou a chave do apartamento sobre o sofá.
-Eis sua chave. Adeus, Helen.
Ela ergueu o rosto, fitando-a entre
lágrimas.
-Vá para o inferno ! – Gritou, entre
soluços.
Grahan saiu e bateu a porta. Como da
outra vez que discutiram, desceu pelas escadas. Pegou um táxi na calçada e
pediu ao motorista que a levasse para um hotel. Ele a olhou com um sorriso.
-Um hotel ? Conheço vários, dona. Mas,
por suas roupas , vejo que posso ir para um bem caro. Que tal o Plaza ?
Ela o fitou aérea, ainda furiosa.
-Está bem, esse serve.
O motorista arrancou. E durante o
trajeto, Grahan acalmou-se e foi possuída por uma grande tristeza. Era
triste, sair assim da casa de Helen. Ela
era uma boa garota. O defeito dela era não medir as palavras ditas numa crise
de ciúmes. Mas agora, não dava para continuar aquela relação. Helen falara
coisas horríveis e não poderia mais ter nada com ela, como se nada tivesse
acontecido. Fora melhor assim. O tempo a faria esquecer a paixão que sentia.
))))))))((((((((
A posse de Grahan na presidência da Burton
Corporation realizou-se dois meses depois, após ela ter vencido a batalha judicial
que travara com Mary Burton. Jefferson Boderick fora peça fundamental para essa
vitória. Era mesmo um advogado brilhante e refutara todas as acusações do
promotor com argumentos incontestáveis : o testamento era claro e válido. O
tabelião Wilfred ouvira de Michelle Burton a declaração que Grahan Gladstone, a principal beneficiária,
não sabia que estava fazendo aquele testamento e manteria isso em sigilo
absoluto, sem dizer à beneficiária a decisão que tomara.
O tabelião foi
convocado a depor e confirmou a declaração do advogado de Grahan: Michelle
Burton não queria que Grahan tomasse conhecimento do testamento, por que não
iria aceitar aquele benefício e poderia até sair da empresa.
Com esse
testemunho, a acusação de Mary Burton, de que contestava o testamento por
suspeitar que Grahan Gladstone assassinara a filha, para herdar a fortuna dela,
perdeu a credibilidade. A sentença foi favorável à Grahan e ela tomou posse no
dia seguinte.
Antony Burton
não compareceu à posse, o que Grahan já esperava. Nas reuniões da diretoria,
ele sempre mandava um representante.
Tinha uma sala no trigésimo andar, mas Grahan nunca o vira na empresa. E isso a
deixava aliviada. Afinal, era o irmão de Michelle e não gostaria de ter que
ficar em disputas verbais com ele.
E Helen ? Não
era mais sua secretária. June, como antes, é quem secretariava a presidente.
Uma semana depois que saiu da casa dela, Grahan havia telefonado para dizer que
gostaria que ficassem amigas, que mesmo depois da briga, tinha um carinho muito grande por ela. Que era grata
pela ajuda e dedicação que ela demonstrara no tempo que moraram juntas.
Helen havia
chorado, implorado para Grahan voltar. Quando Grahan negara, dizendo que era
melhor continuarem separadas, ela havia gritado que esquecesse que ela existia,
que Grahan era uma mulher fria e egoísta. Ou voltava para ela, ou esquecia.
Amizade, não queria ter com Grahan.
Grahan
desligara lamentando a decisão dela. Helen não entendia que não daria certo
aquela relação, porque não podia dar à ela o que queria: amor .
Se cruzaram na
sala das secretárias quando Grahan chegava, mas Helen mal a cumprimentava, com
ar frio. Ela voltara a ajudar June, porque não havia mais assistente na
presidência. Não tinham um contato direto de trabalho e Grahan gostava disso.
Seria horrível se isso fosse necessário, pois Helen parecia odiá-la agora.
Grahan sabia que o amor e o ódio são sentimentos bem próximos.
E agora, ali
sentada na mesa da presidência, Grahan pensava. Seus esforços para descobrir o
assassinato de Michelle até então se mostraram inúteis. Havia contratado um
detetive particular para investigar tudo que pudesse ajudar a desvendar o
crime, mas ele não fizera nenhum
progresso. Havia telefonado para Phil Scott, procurando saber como iam as
investigações, e tivera a surpresa de saber que ele havia pedido demissão da
polícia. O chefe de polícia que o substituía não estava muito interessado em
investigar um caso que já saíra das páginas dos jornais.
Algo lhe dizia
que a solução de tudo estava na família Burton. Lembrava que Michelle havia
dito que suspeitava de uma pessoa da família. Mas para descobrir alguma coisa,
tinha que se aproximar deles. Como ?
O telefone de
linha direta tocou. Grahan atendeu, pensativa.
-Alô.
-Grahan Gladstone
? – Perguntou uma voz feminina aveludada.
-Ela mesma.
Quem está falando ?
-Boa tarde,
Grahan. É April Burton.
Grahan levou um
choque. Ficou calada, sem saber o que dizer.
-Alô ? Está me
ouvindo, Grahan ?
Grahan
suspirou.
-Fale. Estou ouvindo.
-Gostaria de
conversar com você. Poderíamos nos encontrar no bistrô Le Comptoir, na rua 67 ?
-Bem. . . a que
horas ?
-Seis da tarde.
-Pode me
adiantar o assunto ?
-É pessoal. Até
às seis.
Ela desligou.
Grahan ficou imóvel, com o telefone na mão por um bom tempo, até desligar.
O Le Comptoir
era um restaurante com uma clientela selecionada, com pratos franceses dignos
de Paris. A fachada era despretenciosa, com cadeiras na calçada, mas seu
interior se notava o requinte da decoração, com mesas com toalhas brancas e
taças de cristal, centralizadas por delicados jarros de flores. As paredes em
tom pastel eram decoradas por reproduções de quadros franceses.
Grahan já o conhecia.
Desceu do carro em um estacionamento e andou uma quadra à pé, porque lá era
difícil arranjar vaga.
O maitre veio
ao seu encontro, quando entrou.
-Boa tarde,
senhorita.
-Há uma pessoa
à minha espera.
-Qual é o seu
nome, senhorita ?
-Grahan
Gladstone.
Ele sorriu,
consultando uma caderneta.
-Tenho
instruções para encaminhá-la à mesa de April Burton. Por favor, siga-me.
O maitre a
conduziu até uma mesa nos fundos, de poltronas estofadas. Grahan viu April
Burton sentada e ela sorriu , quando chegou diante dela. Assentiu com a cabeça
para o maitre, que se retirou discretamente.
Grahan sentou
diante dela, olhando-a com atenção. Ela estava linda, com um vestido de linho
branco . Devia adorar aquela cor. Aqueles olhos verde-água a olharam também
atentadamente, com um sorriso nos lábios perfeitos. Ela era refinada e cheia de
charme... como Michelle.
-Obrigado por
ter vindo, Grahan. . . – Disse, suavemente.
Grahan cruzou
os dedos sobre a mesa, olhando-a direto nos olhos.
-Fiquei curiosa.
O que uma Burton quer comigo ?
-Nada que você
não possa fazer, Grahan.
-O quê, por
exemplo ?
Ela riu
suavemente.
-Oh, como você
é direta ! Não quer pedir uma bebida ? O que você gostaria de beber ?
-Grahan tentou relaxar.
Realmente estava muito tensa.
-Ok, vou pedir
um martini seco.
Ela ergueu a
mão e um garçon surgiu por encanto. Pediu dois martinis. Apanhou uma carteira
de cigarro na mesa, de ouro, e acendeu um cigarro com um isqueiro finamente
trabalhado.Olhou-a nos olhos e Grahan leu neles uma admiração discreta.
-Você é uma
mulher admirável, Grahan. Quando surgiu lá em casa, fiquei impressionada.
-Impressionada
com o quê ?
-Sua coragem.
Enfrentou a todos com uma classe e frieza que surpreendeu-me.
Grahan sorriu
com ironia.
-Enfrentei
inclusive a sua frieza. Nem estendeu-me a mão para cumprimentar-me.
Ela enrubesceu
levemente. Sorriu, contudo, calmamente.
-Não podia agir
de outra forma. Os Burtons estavam furiosos com você.
-Nãp esqueça
que também é uma Burton.
-Sou, mas não
tenho os mesmos interesses deles. O poder, para mim, é indiferente.
Os martinis
chegaram. April ergueu a taça, olhando-a nos olhos.
-Ao nosso
conhecimento.
Grahan sorriu. Ergueu
também a taça e bebeu um gole. April a olhava com atenção, notando seus mínimos
gestos.
-Por que me
chamou aqui, April ? Foi Antony Burton quem a mandou ? O que deseja de mim ?
Ela sorriu com
admiração.
-Eu imaginava
que você era muito inteligente. Não me enganei.
-Sei muito bem
que esse rodeio todo está fazendo esconde um motivo maior, para ter-me
convidado para vir aqui. Seja direta. Economizará tempo e palavras - Disse, com
voz fria.
Ela a olhou
ofendida.
-Não está
apreciando a minha companhia ?
Grahan
debruçou-se para frente, olhando-a nos olhos com firmeza.
-Você é uma
mulher linda, April. Muito desejável. Sabe bem o que gosto e não preciso
disfarçar. Mas apreciaria a sua companhia se estivéssemos aqui por atração
mútua, mas não é esse o caso. Portanto, seja direta.
April baixou os
olhos. Quando os ergueu novamente, seu olhar havia mudado. Agora estava sombrio
como um lago escuro.
-Tony precisa
de um empréstimo de três milhões de dólares – declarou, com voz tensa – e a
Burton Corporation pode emprestar esse dinheiro, mas o liberará somente se a
presidente autorizar.
Grahan sorriu
com ironia.
-Então, é isso.
. . e ele sabe que não conseguiria essa autorização de mim e enviou você para convencer-me. . . porque sabe do
que eu gosto e mandou a mulher, bela e atraente, certo que eu não negaria,
envolvida pelo seu charme. . .
April, dessa
vez, enrubesceu violentamente. Mas continuou, como se não tivesse ouvido seu
comentário:
-Ele pagaria essa
quantia em três vezes, com juros.
-E as garantias
?
-Ele é
acionista da empresa. Parte das ações entrariam como garantia.
Grahan sorriu.
Tomou outro gole de martini. Olhou-a com um olhar especulativo, percorrendo os
olhos, a boca, desceu para os seios, as mãos. Voltou para o rosto. April estava
vermelha, fitando-a com certo embaraço.
-Você está
incluída no pacote ?
Ela a fitou
confusa.
-Como assim ?
Grahan sorriu
maliciosamente, olhando-a nos olhos.
-Perguntei se
você faz parte do trato. Claro, para eu concordar com isso, tenho que ter minha
compensação.
Ela dessa vez,
ficou pálida. Os olhos a fitaram acesos como duas tochas.
-Eu não estou à
venda ! – Disse, em tom indignado – Não sou objeto de prazer, Grahan Gladstone
!
Grahan ergueu
as sombrancelhas.
-Ah, não ? Que
pena ! Mas penso que seu marido acha isso. E canalha como é, enviou-a como
isca, mesmo sabendo que eu poderia querer algo mais com você. Minha resposta é
não, April. Não liberarei um centavo para Antony Burton. E você, perdeu seu tempo e jogou
charme à toa.
April ficou
olhando-a uns instantes em silêncio, assimilando suas palavras. Então,
surpreendentemente, começou a rir. Grahan olhou-a sem entender. Julgava que ela
depois do não, se levantaria furiosa e iria embora. Mas ali estava ela, rindo e
olhando-a até mais descontraída.
-Não estou
entendendo – confessou Grahan – Não está com raiva ?
Ela fitou-a, ainda rindo.
-Não ! Você é
mesmo uma mulher admirável, Grahan !
-Por quê ? –
Perguntou, suspeitosamente.
Ela parou de
rir e a encarou com amistosidade.
-Porque não é
uma idiota, que cai na conversa de uma mulher bonita. Você teve a mesma reação
que eu teria. Não gostei de Tony usar-me para tentar tirar-lhe esse empréstimo,
mas ele insistiu tanto que resolvi atendê-lo. Também, tenho os meus motivos
secretos.
-Motivos
secretos ? Quais, posso saber ?
Os olhos de
April mergulharam nos seus.
-Queria
conhecê-la melhor. Naquele dia, na mansão, você impressionou-me muito. Você
entrou com toda dignidade, com um ar de desafio que os fez calar. Mostrou sua
personalidade forte e corajosa. Eu, no seu lugar, teria mandado um
representante ou um procurador. Não teria coragem de encarar a todos, como fez,
sabendo o que eles pensavam de você.
Grahan sorriu,
olhando-a com admiração.
-Estou
começando a apreciar sua companhia – disse – estou vendo que você é bem
diferente de Mary e Antony Burton.
April lhe
sorriu.
-Então, peça
outro martini.
Conversaram um
longo tempo. April contou que havia se casado com Antony Burton muito jovem,
movida pela paixão. Mas, com o tempo, foi se decepcionando com ele. No início o
achava o máximo, mas com a convivência, descobrira que ele era um homem frio e
profundamente egoísta. Era viciado em jogo e muitas vezes a deixava sozinha
para ir para Las Vegas jogar e farrear. Estava precisando daquele empréstimo
para pagar dívidas de jogo. Vivia com ele ainda porque não tinha mais os pais e
não saberia viver sozinha. Na verdade, acomodara-se à situação.
Grahan falou de
algumas coisas de sua vida, antes de conhecer Michelle. Coisas superficiais,
que não a comprometiam.Trocaram números de seus celulares. April disse que gostaria
que se tornassem amigas. Grahan desconfiou dessa desculpa, mas aceitou o jogo.
Não tinha nada a perder, se ficasse alerta.
Cinco martinis
depois, April olhou para o relógio de ouro e lhe sorriu.
-Tenho que ir.
Tony está esperando-me.
Grahan percebeu
que o tempo tinha passado com rapidez. Eram oito horas. Há muito tempo não
apreciava tanto uma companhia. Porém, não insistiu para ela ficar mais. Chamou
o garçon e pagou a conta , deixando uma generosa gorgeta. April ergueu-se e ela
também. Caminharam para a saída lado a lado. April a fitou sorrindo.
-Você é tão
alta, Grahan ! É a primeira mulher que conheço que é mais alta que eu. E é
também muito elegante. As roupas lhe caem bem.
-Obrigada. Está
de carro ?
-Sim.
-É uma pena.
Poderia levá-la em casa.
Pararam na
calçada. Ela a olhou com um sorriso sensual.
-Posso
telefonar-lhe para sairmos outra vez ?
Grahan sorriu.
-Claro. Ficarei
esperando.
-Gostei de
conversar com você, Grahan. Não é como me falaram. Até outro dia.
Ela se afastou
caminhando pela calçada. Grahan ficou olhando-a até ela dobrar a esquina.
Então, foi buscar seu carro com um
sorriso no rosto.
Foi para casa,
um bom apartamento que havia alugado no
Soho. Sentia-se só, naquele apartamento enorme. Em New York não tinha
amigos, nem uma mulher para trocar uma palavra. Michelle lhe fazia tanta falta
! Seus carinhos, seus beijos quentes, sua loucura sexual.
Chegou em casa
e tomou um banho, vestiu um pijama e colocou no microondas um souflê de legumes.
Quando ficou pronto, colocou no prato e foi comê-lo com suco de laranja diante
da televisão.
Suspirou,
entediada. Então, era aquela a sua vida agora ! Trabalhar, cheia de
responsabilidade, e ir para casa sozinha e ficar vendo tv. Cheia de dinheiro e
com uma vida vazia. Iria ficar louca,
aquela solidão estava deixando-a deprimida. E se telefonasse para Helen,
dizendo que a queria novamente ? Tinha certeza que aquele ódio se transformaria
em amor.
Não. Não iria
dar esperanças à ela só por causa de sua carência.
Pensou em
April. Era belíssima, inteligente, agradável. Ela a atraía muito. Mas não era
amor. Não acontecera aquele encantamento quando vira Michelle. Ela seria apenas
uma mulher gostosa para possuir, matar seu desejo. Ah, Michelle... será que um
dia conseguiria esquecê-la ?
Pensou em
Antony Burton. Ali estava a chave do enigma da morte de Michelle. Ele parecia
estar desesperado por causa de dinheiro. Chegara a mandar a mulher falar com
ela. Será que havia sido ele quem mandara raptar Michelle ? E como não havia
dado certo, havia mandado matá-la , pensando em receber uma boa parte da
herança.
Maldição, tinha que descobrir se ele era o
assassino ou o mandante . E para isso, teria que aproximar-se da família
Burton. E April poderia ser útil para isso.
Foi dormir
pensando mil coisas. Mas com uma só certeza: usaria April para saber de alguma
coisa que lhe desse outras pistas sobre a morte de Michelle. Uma , já tinha :
Antony Burton era um jogador que perdia fortunas no jogo e estava com uma dívida enorme. Esse podia ser o motivo do crime.
Continua na parte 10
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