PARTE 8
Quinze
dias se passaram. Helen voltara a trabalhar, mas ligava para Grahan várias
vezes por dia, perguntando se estava bem, e precisava de alguma coisa. Vinha do
trabalho direto para casa, ansiosa para
estar com Grahan, sempre trazendo um
agrado para ela: bombons finos, biscoitos, frutas. Estava feliz em ter
Grahan ali em sua casa e demonstrava isso , sem poder conter-se.
Grahan
sentia a dedicação de Helen e se comovia
com isso. Mas passava os dias andando
pelo Central Park, onde se refugiava em um banco à beira de um lago, olhando
para a água plácida, pensando em
Michelle. Ou então, tentava escrever, mas sua inspiração se fôra. Via filmes na
tv, mas não conseguia prestar atenção à estória. Em suma, continuava sofrendo a
perda de seu grande amor, mas agora a dor era mesclada com a conformação que o
tempo traz, mas ainda sentia desesperadamente a falta dela, e a certeza que
nunca mais a teria nos braços a fazia sentir um vazio e tristeza infindas.
Evitava demonstrar sua dor à Helen. Não queria mostrar-se uma companhia chata, que só ficava deprimida. Ela estava tão alegre em tê-la em casa ! Devia ser muito carente, era uma pessoa muito só.
No fim
de semana, foram fazer compras, por insistência de Helen, que disse que ela
precisava ocupar sua mente. Compraram mantimentos para mais duas semanas,
lancharam em uma lanchonete e chegaram em casa cheia de pacotes, Helen rindo de
Grahan, que fizera questão de carregar a
maior parte e deixara um pacote espalhar-se no chão.
-Viu, eu
sabia que você estava exagerando ! –
Comentou Helen, vendo Grahan depositar sobre a mesa da cozinha os pacotes com
ar afobado, esforçando-se para não os deixar cair – Mas você é impossível,
Grahan ! Quer mostrar-se mais forte do que é, na realidade !
Grahan a fitou
com ar vitorioso.
-Mas eu
consegui trazer ! Vamos, admita que sou mais forte que você!
Helen riu,
fitando-a .
-Quem disse que
você é forte ? Quem a convenceu disso ?
Grahan a fitou subitamente séria.
-Michelle. Ela dizia que eu transmitia força e
vitalidade.
O sorriso de
Helen morreu. Olhou-a com ar sombrio.
-Ah ! Bem, vou
guardar esses mantimentos.
Grahan notou a mudança dela. E ficou olhando-a curiosa. Já havia notado que Helen não gostava que tocasse no nome de Michelle. Antes, pensava que ela temia que tivesse uma crise, lembrando de Michelle. Mas agora começava a desconfiar que o motivo era outro. Naqueles dias juntas, muitas vezes flagrava Helen fitando-a embevecida, na mesa do jantar, na sala, quando viam tv e no quarto. Será que Helen estava apaixonada por ela ? Se isso estava acontecendo, lamentava. Porque seu coração estava tomado pelo amor à mulher que mais amara na vida, e não poderia corresponder à paixão de Helen.
-Vou ajudar você a guardar as compras – Disse, pegando algumas latas de alimentos.
Ela sorriu,
parecendo recuperar o bom humor.
-Está
bem. E hoje vou fazer um jantar caprichado para você. Vamos comemorar sua vinda
para cá. Já faz quinze dias que veio.
-Comemorar
minha vinda ?! Helen, não sou tão importante assim, para merecer uma
comemoração !
Ela a
fitou nos olhos.
-Para
mim , é.
Grahan a
encarou, séria.
-Por que
sou importante para você ?
Helen
desviou o olhar, começando a guardar as compras no armário sobre a pia.
-Porque
gosto de você.
-Não sei
por que é tão boa comigo. Sou uma pessoa insuportável – Disse, olhando-a
atenta.
-Não,
não é. Você, quando quer, é uma pessoa muito
legal.
Grahan a fitou, vendo naqueles olhos um brilho estranho. Helen parecia querer dizer mais do que dizia.
A campainha da porta tocou. Grahan olhou para Helen, que se imobilizara e olhava para a porta de cenho franzido.
-Está
esperando alguém ?
-Não. .
. espere aqui, vou ver quem é.
Helen dirigiu-se para a porta e olhou pelo visor. Teve uma contração no rosto de aborrecimento. Era a sua antiga colega de trabalho, Susan. Uma devoradora de homens, que só aparecia em sua casa de ano em ano, para saber de sua vida e comentar com os outros.
Abriu a
porta com um sorriso contrafeito.
-Olá,
Susan.
Ela
sorriu largamente, abraçando-a como se fosse sua melhor amiga. Afastou-se em
seguida e a olhou apreciativamente, com sua falsidade habitual.
-Como você está bem ! Os anos passam e você continua a mesma garotinha, Helen!
-Obrigada,
Susan.
Ela foi entrando, rebolando os quadris marcados pela calça justíssima. Os cabelos ruivos estavam longos e bem cuidados como sempre.
Susan
era uma mulher bastante atraente e sabia disso. Os homens viviam em sua volta
como zangões em época de reprodução caçando a abelha-rainha. Os olhos verdes
eram atrevidos e convidativos, diziam eles.
-Querida, mudou os móveis da sala ? – Perguntou Susan, olhando em volta –Quando vim aqui a última vez, não eram esses!
-Mudei,
Susan. . . – Respondeu Helen, fechando a porta – Estou ocupada, guardando as
compras que fiz. Fique à vontade.
Ela
seguiu Helen e entrou na cozinha. Grahan a olhou, com algumas latas nas mãos.
Seu olhar estava indiferente, como se a chegada de Susan não a afetasse, o que tranqüilizou
Helen, que temia que Grahan se sentisse atraída por ela.
Já Susan
arregalou os olhos, surpresa.
-Oh,
está com visita !
-Não é visita,
Susan. Apresento-lhe Grahan Gladstone. Está hospedada aqui.
Ela
olhou para Grahan intrigada.
-Grahan
Gladstone. . . esse nome não me é estranho.
Grahan
depositou as latas na mesa e estendeu a mão, séria.
-Muito
prazer, Susan. Não creio que me conheça.
Ela
apertou a mão de Grahan e deu um gritinho.
-Ah! Já
sei! Vi você na tv com Michelle Burton! É isso! Quando ela foi libertada do
rapto! E depois que ela morreu, sua foto e a dela apareceram nos jornais, mais uma vez! Você era a . . .
amiga dela!
Grahan percebeu a ênfase maliciosa com que ela pronunciou a palavra “amiga”. Sabia o que ela estava pensando. Que era amante de Michelle, como os jornais haviam insinuado. Soltou a mão dela, voltando a colocar as latas no armário.
Susan
sorriu maliciosamente para Helen, que mordia os lábios, contrariada.
-Puxa, Helen ! Você aqui com uma celebridade, e não diz nada! Se eu não tivesse boa memória, nem ia saber quem é Grahan Gladstone!
-Susan, não toque nesse assunto, Grahan está cheia dos disparates que os jornais ficam noticiando!
Susan a
fitou, sorrindo maliciosamente.
-Tudo bem, querida. . . sei como são essas coisas. . .
-Sente-se.
Vamos acabar de guardar as compras e depois conversaremos.
Susan puxou
uma cadeira e sentou com afetação, cruzando as pernas. Helen recomeçou a
tarefa, ajudada por Grahan. Olhou-a de soslaio. Grahan estava séria, sem
prestar a mínima atenção à Susan. Mas Susan a olhava fixamente,curiosa.
-Helen,
como está de amor? – Perguntou Susan – Ainda está namorando o David ?
Helen
respondeu sem olhá-la:
-Não.
-Acabaram ?! Oh, não acredito ! Ele era louco por você ! Dizia que ia conseguir vencer a sua aversão ao casamento e fazer você aceitá-lo como marido.
-Eu não
o amava. E ele sabia disso.
-Oh, que coração frio! Um homem lindo como o David, e você o mandou passear ! Que desperdício !
-E você,
Susan ? – Perguntou Helen, com uma ponta de irritação na voz – Com quem está
agora, entre tantos que teve ?
Susan
riu, olhando para Grahan.
-Estou só, mas não por muito tempo. Esses homens são todos safados ! Lembra do Ralf ? Tão lindo, tão charmoso, mas quando teve que escolher entre mim e a mulher, ficou com ela, dizendo que fazia isso pelos filhos ! Mas tirei de letra, já conheço bem os homens !
Acabaram de guardar as compras. Helen sugeriu que fossem para a sala e Susan adiantou-se, rebolando os quadris. Helen a seguiu furiosa. Viu a intenção dela em provocar Grahan.
Grahan sentou no sofá e Susan sentou ao lado dela,olhando-a com um olhar insinuante. Helen tremia de raiva. Susan era uma piranha !
Procurou
controlar-se e ofereceu uma bebida. Grahan recusou, mas Susan a pegou pelo
braço, cheia de intimidade.
-Não
seja desmancha-prazeres ! Acompanhe-nos em um drink, Grahan !
Grahan
olhou para Helen, que as olhava de pé no
meio da sala.
-Está
bem, um uísque com gelo, Helen. – Concordou.
-O mesmo
para mim, querida ! – Disse Susan.
Helen
foi para a cozinha preparar as bebidas e ouviu Susan dizer para Grahan:
-Sabe ?
Acho que vou partir para as mulheres. Estou tão decepcionada com os homens !
Esforçou-se
para ouvir a resposta de Grahan, mas não conseguiu.
Susan deu uma risada. Isso incomodou Helen, que preparou as bebidas com rapidez e voltou à sala.
Susan
contava uma piada à Grahan, que ouvia com um leve sorriso, procurando ser
educada.
-Susan,
Grahan não gosta de piadas – Disse, estendendo os copos para elas.
Susan
olhou para Grahan.
-É mesmo
? Puxa, Grahan, apenas quis vê-la sorrir ! É tão séria !
Ergueu o
copo , em um brinde:
-Ao amor
! Estamos precisando disso !
Grahan
bebeu sem brindar. Olhou para Helen. Seu olhar estava com uma expressão fria.
Susan tomou
um longo gole e olhou para Grahan, sorrindo.
-Puxa,
como você é alta ! Tem um aspecto tão dominador !
Grahan a
fitou séria.
-Acha ?
É, já me disseram isso.
Susan
olhou para Helen, que continuava de pé olhando-as, bebendo seu uísque.
-Helen,
vamos animar o ambiente ! Coloque uma música !
Helen
olhou para Grahan.
-Quer
ouvir música, Grahan ?
Grahan
sorriu para ela.
-Esqueça
o que falei sobre música, Helen. Pode colocar.
Helen
escolheu um disco. Colocou a música, Don’t, com Shania Twain, de uma coletânea
de sucessos.
Grahan a
fitou nos olhos.
-Bem
escolhida. Gosto muito de Shania Twain.
Susan
ergueu-se e puxou Grahan pela mão.
-Vamos
dançar, Grahan. Você pode muito bem substituir um cavalheiro, é tão forte e
grande !
Grahan franziu
o cenho, soltando-se da mão dela.
-Não sei
se vai gostar de dançar comigo. Danço mal. E não estou com espírito para
dançar.
Ela
rodeou o pescoço de Grahan com os braços, sorrindo.
-Já
estou gostando e você vai se animar, garanto.
Grahan
não quis ser grosseira e deu os primeiros passos com ela. Susan colou-se em
Grahan, que colocou a mão na cintura dela.
-Oh,
como você sabe levar bem ! – Disse Susan, entusiasmada.
Helen ficou olhando, cheia de ciúmes. Susan colocava-se em Grahan descaradamente, movendo-se sensualmente e passando as unhas longas na nuca de Grahan, que parecia constrangida. Susan tentava olhar em seus olhos, mas Grahan era bem mais alta e mantinha a cabeça ereta.
Finalmente
a música acabou. Susan afastou-se, olhando para Helen, sorridente.
-Sua
amiga é o máximo ! Como dança bem !Vamos dançar outra, Grahan!
-Não, agora vou dançar com Helen – Declarou Grahan, ansiosa para livrar-se de Susan. A mulher parecia uma cadela no cio e sentiu repulsa por ela.
Grahan tomou um longo gole de uísque e se aproximou de Helen puxando-a pela mão e a
fitando com ar dominador.
-Venha dançar também.
Helen
hesitou, trêmula. Mas o olhar de Grahan não admitia recusa. Ergueu-se e ela a
tomou entre os braços.
Um estremecimento sacudiu o corpo de Helen, quando tocou o corpo de Grahan. Ela parecia elétrica. Helen sentiu-se amolecer nos braços dela, a mão quente e macia de Grahan segurando a sua contra o peito. Era bem mais alta que Susan e seu rosto conseguiu encostar no de Grahan, sentindo a maciez, o calor, o perfume delicioso. Deus, não ia conseguir disfarçar o que sentia ! Grahan ia notar sua emoção !
Grahan sentia os estremecimentos de Helen e agora comprovava sua suspeita. Helen estava apaixonada por ela. Aquela emoção que a estremecia era a confirmação disso. E o modo como ela a segurava nos braços revelava um carinho tão imenso, que não deixava margem para dúvidas.
Afastou-se
um pouco, fitando-a no rosto. Helen mantinha os olhos fechados, mas sua
expressão embevecida dizia tudo.
Sentiu-se como que traindo Michelle. Estava dançando com uma mulher, menos de um mês da morte de seu grande amor! E a mulher era Helen, demonstrando estar apaixonada por ela! Não, não podia fazer isso!
Afastou-se
repentinamente. Helen a fitou, abrindo os olhos. Havia fogo naquele olhar.
-O que
foi, Grahan ? – Perguntou ela, vendo sua expressão angustiada.
Grahan
olhou-a por uns instantes e voltou-se, colocando as mãos no rosto.
-Desculpem-me,
mas não estou passando bem – Disse, retirando-se para o quarto e fechando a
porta atrás de si.
Helen
ficou ali, sem saber se a seguia ou não.
-Que
mulher esquisita ! – Disse Susan, com despeito – Deve ser louca ! Acho que a
morte da amante a deixou assim !
Helen
olhou para Susan com indignação.
-Grahan
não é louca! Como se atreve a dizer isso de uma pessoa que mal conhece ?
Susan
ergueu-se, com olhar malicioso.
-Hum. .
. cuidado com essa mulher, querida ! Ela é uma conquistadora e você já está nas
malhas dela ! Bem, vou embora. Já percebi que estou sobrando. . . até outro
dia, querida.
Helen a
levou até a porta e fechou-a, quando
Susan saiu. Foi até a porta do quarto e
bateu, perguntando:
-Grahan
! Posso entrar ?
Ela não
respondeu. Nervosa, Helen girou a maçaneta e entrou.
Grahan
estava deitada de bruços na cama e não se voltou.
Helen
aproximou-se e sentou na beira da cama, pousando a mão no ombro dela.
-Grajan.
. . o que tem? Está passando mal ?
Grahan
girou o corpo, ficando de costas. O seu olhar estava frio.
-Tive um
mal-estar passageiro. Já passou.
Helen
suspirou de alívio.
-Oh,
graças a Deus. . . Grahan, quero pedir-lhe desculpas por Susan. Ela foi muito
inconveniente com você.
Grahan a
encarou, sentando na cama.
-Bem, devo
confessar que achei sua amiga uma chata. O que você tem em comum com ela ? Uma
mulher vulgar !
-Ela não é minha amiga ! Não a suporto. Ela trabalhou comigo anos atrás e sempre me procura para saber da minha vida , ela adora saber da vida dos outros ! Não passa de uma infeliz, os homens a usam e descartam, quando descobrem como é vulgar.
Grahan a encarou,séria.
-Conheci
tipos como ela. Adoram infernizar a vida dos outros e não percebem que sua
própria vida é uma porcaria.
Helen a
fitou intensamente.
-Gostei
de dançar com você.
Grahan
sorriu levemente, procurando suavizar o clima entre elas.
-Também
gostei, Helen. Você dança bem.
-Pensei
que você tivesse odiado.
Grahan
ergueu as sombrancelhas, inquiridoras.
-Por que
pensou isso ?
Helen
baixou os olhos.
-Você
parou de repente. . . agora sei o que foi um mal-estar. Mas na hora, imaginei
isso.
Grahan a encarou. Devia esclarecer a situação entre elas ? Ou continuar como se nada tivesse acontecido, que não percebera tudo que ela sentia ? Não, tinha que enfrentar a verdade. Helen merecia saber como se sentia, para deixar de esperar uma coisa que nunca poderia acontecer entre elas.
-Helen.
. . quero conversar com você seriamente.
Ela a fitou com receio nos belos olhos.
-O que
é, Grahan ?
Sua voz soou insegura.
-Você sabe que
ainda sofro com a morte de Michelle, não sabe ?
Ela a fitou
sombriamente.
-Isso é
evidente.
-Eu a
amava muito, não sei se vou conseguir esquecê-la. Se outra mulher
conseguirá isso. Porque Michelle era uma
mulher muito especial. Sabe, uma mulher com todas as qualidades que sempre
esperei encontrar em alguém: linda, carinhosa, meiga, sensual, com quem eu me
completava.
Helen a ouvia em silêncio. Seu rosto foi se transformando pelo sofrimento que aquelas palavras provocavam. Era duro, estar apaixonada como estava, ouvir a pessoa amada falar assim de outra. De uma mulher que havia morrido !
-Então ,
não posso prometer amor a ninguém. Se prometesse, estaria mentindo. Entende,
Helen ?
Helen a
encarou. Seu olhar estava revoltado pelo ciúme.
-Por que está falando tudo isso para mim ? Não quero saber o que sentia por Michelle ! Já estou cansada de saber ! Grahan, você esqueceu de viver ! Só sabe sentir esse amor mórbido por uma mulher que já morreu !
Grahan a fitou
nos olhos.
-O meu amor
pode ser mórbido, mas e o seu ?
Ela a fitou surpresa.
-O meu ? O que
sabe disso ?
-Helen.
. . sei que está apaixonada. É fácil de perceber. E vai continuar assim,
escondendo o que sente, amando sem esperanças ?
Ela a
encarou com uma expressão dolorosa. O disfarce de seus sentimentos estava se
desmanchando naquela máscara de sofrimento.
-Vejo que chegou a hora da verdade. Vejo que já sabe. Sim, Grahan, eu a amo. Desde que a vi lá na empresa, sentí-me atraída por você e com o passar dos dias, apaixonei-me. Mas nunca falei à você deste amor, nunca pedi nada a você !
-E não vai
pedir nunca ?
A voz de Grahan
soou rouca.
-Não. Sei que
não me ama, sei que é apaixonada por uma mulher morta – Disse, com amargor –
Mas não pode querer impedir-me de sentir o que sinto. O que quer ? Humilhar
-me, tripudiar sobre os meus sentimentoss ? Dizer que nunca sentiria por mim o
mais ínfimo desejo, porque não chego aos pés de
sua amada ?
Grahan a
segurou pelos ombros, com um olhar firme.
-Helen !
Jamais faria isso ! É o que pensa de mim ? Que sou uma mulher fria e cruel, que
teria prazer em humilhá-la ? Não, Helen. Não sou assim. Seu amor me comove,
você é uma mulher maravilhosa. Mas não posso amá-la, porque meu coração ainda é
de Michelle. Helen. O que gostaria de mim, não posso dar.
Helen a fitou
com olhos brilhantes.
-Você me
deseja, Grahan ? Diga! Sente pelo menos desejo por mim?
-Você é uma
bela mulher, Helen. Mas eu estou arrasada, cheia de sofrimento, sem nenhum
objetivo na vida, incapaz de amar outra mulher, entende?
Helen sacudiu a
cabeça negativamente, com olhar suplicante. Os olhos cheios de lágrimas, o
peito ofegando de emoção.
-Grahan ! Será
que não entende que eu a amo tanto, que me contentaria com o que pudesse dar-me
? Grahan, só quero poder amá-la, poder mostrar à você o meu amor, ser sua ! Se
sente desejo por mim, saiba que eu me daria à você sem pedir nada além disso!
Grahan a fitou
com fria revolta.
-Helen,
respeite meu sofrimento! Eu perdi o amor de minha vida, Helen! Ninguém me fará
esquecer Michelle! Eu não posso prender-me a ninguém, será que não percebeu
que estou como uma folha morta, sem
rumo na vida? Quem se aproximar de mim sentimental- mente, vai se ferir!
-Nada importa, se posso ser sua! ! – Disse, arrebatada, jogando-se nos braços de Grahan – Tudo valerá à pena, para ter você, Grahan! Eu a quero desesperadamente, quero ser sua, mesmo que me tenha só por desejo ! Sem pressões, sem cobranças!
Helen apertava-se contra ela, soluçando. Seu corpo tremia, as mãos apertaram o rosto de Grahan e subiram para os cabelos, enterrando os dedos neles, nervosas e suplicantes.
Grahan fechou os olhos e a apertou contra o corpo, contagiada com a paixão que explodia na voz de Helen. Ela sentia-se tão perdida e revoltada! Revoltada contra o destino que lhe havia arrebatado a pessoa que mais amava. O maldito destino, que agora jogava em seus braços outra mulher cheia de paixão, oferecendo-se à ela. O que devia fazer? Repudiá-la e sair dali e mergulhar na escuridão de seu sofrimento? Ou aceitar a mão que se estendia para ela com uma oferta de carinho e esperança? Ela estava afogando-se em sofrimento quando Helen surgiu em seu caminho como um raio na escuridão, fazendo-a reagir e tentar voltar a viver. E a gratidão a engolfou e a fez cometer um erro: subjugou-se à paixão de Helen.
Helen ergueu o rosto para ser beijada, a
boca entreaberta, os olhos suplicando.
Grahan desceu o rosto e esmagou a boca contra a outra que tremia. E a língua dela invadiu sua boca como que uma súplica de desejo. Sugou sua saliva, com as mãos trêmulas apertando-a, o corpo tremendo de emoção pelo desejo concretizado.
Grahan desceu as mãos, alisando e explorando as curvas e reentrâncias do corpo que se oferecia com loucura. A boca de Helen a sugava com ímpeto, como se quisesse sugá-la toda para si. Grahan se sentia perdida no mar de paixão que era o corpo de Helen se entregando, ela se grudava em seu corpo como se tivesse medo de Grahan a deixar.
Ah, se ela
fosse Michelle! Como ficaria feliz, cheia de desejo!
Não foi
preciso muito para sua mente desesperada formar a ilusão. De olhos fechados,
não foi difícil imaginar que era Michelle quem a beijava, quem a apertava nos
braços, que lhe sussurrava palavras de amor.
Grahan a puxou
para a cama. Suas bocas se desgrudaram
mas logo Helen a beijou pelo rosto todo,
ofegando:
-Meu amor. . .
meu amor. . . amo-a . . amo-a . . .
A mão de Grahan alcançou o interruptor da luz, ao lado da cama. No escuro era mais fácil pensar que estava com Michelle. Helen ergueu-se para se despir rapidamente e voltar para a cama nua e quente, caindo nos braços de Grahan.
Foi um ato cheio de desespero, cada uma pensando no que seria depois que a realidade voltasse.
O êxtase final.
As duas se deixaram ficar imóveis, esgotadas, sentindo o cansaço do ato
produzindo um delicioso relaxamento.
Grahan não sentiu remorso por ter usado Helen para fabricar sua ilusão. Ela não havia mentido, havia ssido honesta com Helen sobre o que sentia. Se ela aceitava uma relação assim, o risco dela era consciente.
Depois de um
longo silêncio, Helen falou, com sua voz cheia de felicidade:
-Grahan, como
me fez feliz ! Sinto-me como se estivesse nas nuvens. . .
-Cuidado para
não cair dessas nuvens, Helen – Respondeu Grahan, voltando o rosto para ela -
Lembre-se que não prometi nada à você. Um dia irei embora e se você iludir-se
comigo, vai sofrer muito.
-Grahan...
com o
tempo, não poderia amar-me
? Sou tão inferior
à Michelle, assim ? – Perguntou, humildemente, fitando-a com ansiedade.
-Que complexo é esse, Helen ? -- Perguntou, surpresa – Você não é inferior à Michelle, nunca disse isso ! Você é linda , uma mulher inteligente, desejável, amiga. . . mas eu não a amo. Essa é a diferença entre Michelle e você, para mim. Quando amamos uma pessoa, a vemos por uma ótica mágica, em que ela se torna perfeita.
-Mas então,
essa mágica pode repetir-se entre nós.
-Não acredito, Helen. Pra mim, o amor é à primeira vista. Quando vi Michelle, apaixonei-me instantâneamente. O amor se manifesta quando olhamos a pessoa desejada. Sentimos logo que vai ser diferente das outras relações. Ficamos dominados por um fascínio mágico. Quem diz que amou aos poucos, conhecendo a pessoa, está confundindo admiração pelo que essa pessoa é, com amor. O amor não tem lógica, amamos mesmo se o caráter da pessoa for o pior possível, porque não vemos os defeitos que os outros percebem, envolvidas na magia.
-Discordo.
Quanta gente reconhece qua a pessoa amada não presta, e continua amando-a !
Grahan sorriu.
-Isso não é
amor, é uma paixão doentia.
-Então,
acha que nunca poderá amar-se porque não aconteceu essa magia que diz entre nós
?
-Sim. Não
espere isso de mim, Helen. Só posso sentir por você desejo.
Ela a abraçou
com a paixão luzindo nos olhos.
-Pois
que seja ! Quero-a de qualquer jeito, Grahan ! Eu a amo e não vou privar-me da
felicidade de tê-la, mesmo que isso não dure muito tempo ! Viver é um risco,
Grahan. E ser feliz, também.
Grahan a fitou
com admiração, abraçando-a também.
-Disse
uma coisa certa, Helen. A felicidade é um risco que corremos, porque não dura
para sempre. Veja o que aconteceu comigo e Michelle. Nossa felicidade era tão
grande, e não durou muito. Tem razão. Viva o presente, que o futuro é incerto.
Mas agora, vamos dormir.
Helen
aconchegou-se em seus braços e fechou os olhos. Grahan permaneceu acordada,
pensando:
-Meu
Deus, o que fiz? Michelle... oh, Deus... eu a traí...
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A
campainha da porta tocou, despertando-as. Helen apanhou um robe de seda e
enrolou-se nele, olhando para Grahan, que a fitava assustada.
-Vou
atender. Fique aí.
Correu
para a porta e abriu-a, deixando a corrente de segurança. Um homem alto e
magro, vestido com um terno impecável, lhe sorriu. Trazia uma pasta de couro na
mão.
-Senhorita
Grahan Gladstone ? Sou Mark Ford, advogado. Posso falar com a senhorita um
instante ?
Helen
tirou a corrente e abriu a porta completamente, fazendo um gesto para ele
entrar. Ele passou por ela e parou no meio da sala. Helen fechou a porta e
voltou-se para ele.
-Não sou
Grahan Gladstone, ela está dormindo. Um momento. Vou chamá-la.
Ele sorriu, assentindo.
Helen
voltou ao quarto e fechou a porta.
Aproximou-se de Grahan, que sentara na cama, completamente nua.
-Um
advogado, Mark Ford, deseja falar com você. Está esperando na sala. Você o
conhece ? – Cochichou.
Grahan
franziu o cenho.
-Não.
-Ele não
me é estranho. Acho que o vi na empresa.
-Ah !
Deve ter vindo trazer a minha destituição ! – Disse, levantando-se – Mas como ele soube que eu estava
aqui ?
-Não
sei, somente eu e Phil Scott sabemos.
Grahan
vestiu suas roupas que estavam sobre a poltrona, rapidamente. Passou as mãos
pelos cabelos revoltos e foi para a sala, junto com Helen.
Mark Ford continuava no mesmo lugar. Ele lhe estendeu a mão, sorrindo.
-Senhorita
Gladstone, muito prazer. Sou Mark Ford, advogado.
Grahan
apertou a mão dele e fez um gesto para ele sentar, setando-se no sofá. Ele
sentou ao seu lado.
-Estou
curiosa sobre o motivo de sua visita, Mr. Ford.
Helen
avisou que ia fazer um café e saiu da sala.
Ford abriu a pasta que trazia e retirou duas folhas de papel, explicando:
-Venho
da parte de Wilfred Thompson, o tabelião depositário de Michelle Burton.
Estamos notificando as pessoas comtempladas para a abertura do testamento, que
será amanhã. Há vários dias estamos tentando encontrá-la, senhorita. Fui ao
apartamento que residia na Quinta Avenida, mas disseram que não estava mais lá.
-Como
conseguiu localizar-me ?
-Recebemos
um telefonema, dizendo para procurá-la neste endereço.
-Um
telefonema ? De quem ?
-A
pessoa não quis indentificar-se. Era um homem.
Grahan
estava surpresa e assustada. Quem sabia onde ela estava ? Somente Phil Ascott
sabia, e prometera sigilo. E por que o homem não havia se identificado ? E
agora, aquela notícia sobre a leitura do testamento ! Não era parente de
Michelle, sabia que somente as pessoas da família ou citadas em um testamento,
eram convidadas para a abertura do documento. E Mark Ford dissera que ela era
uma das contempladas !
Ele
estendeu as duas folhas de papel e uma caneta.
-Por
favor, assine as duas vias.
Grahan
olhou o documento. Era um convite para comparecer à leitura do testamento, na residência
dos Burton, às cinco da tarde do dia seguinte. A convocação era do tabelião
Wilfred Thompson.
Assinou
com a mão trêmula, pensando no que a esperava. Entregou os papéis ao advogado.
Ele devolveu-lhe a primeira via, dizendo:
-Esta
via é sua, para apresentar-se no local.
Levantou-se,
estendendo a mão.
-Foi um
prazer conhecê-la, senhorita Gladstone. Até amanhã.
Grahan
apertou a mão dele e levou-o até a porta. Ele se foi e ela fechou a porta,
suspirando. Não sabia o que pensar daquilo.
Helen
veio da cozinha, com duas xícaras numa bandeja e a fitou surpresa.
-Ele já
foi ? O que ele queria ?
Grahan a
fitou com preocupação no olhar.
-Veio
trazer uma convocação para a abertura do testamento de Michelle.
Ela a
fitou sombriamente.
-Sabe o
que isso significa, não ?
-Até certo ponto. Devo ser citada no testamento, como o advogado disse.
-Alguma
coisa Michelle deixou para você. Senão, não seria convocada. É... Ela a amava
mesmo. . .
Essa observação
irritou Grahan, que já estava nervosa com a visita do advogado. Olhou para
Helen friamente.
-Você tinha dúvidas disso ? Claro que Michelle me amava ! Eu sentia isso ! Era tão carinhosa, tão. . .
-Chega, Grahan ! – Gritou Helen, depositando a bandeja na mesinha e a fitando com ciúmes – Não agüento mais ouví-la falar de Michelle !
Helen se
descontrolou. Depois de uma noite de amor, não esperava ouví-la falar de
Michelle. E lá estava ela, desmanchando-se em elogios à falecida amante !
Grahan a
fitou surpresa com seu desabafo. Sua irritação aumentou. Olhou-a com
provocação.
-Vai agora proibir-me de falar em Michelle ? Já se julga dona de mim ? Está enganada ! Eu avisei que sexo não teria nada a ver com meus sentimentos ! Eu amo, adoro Michelle ! Para mim, ela continua viva ! E não será você quem vai impedir-me de falar nela.
Helen
reagiu impulsivamente. Ergueu a mão e esbofeteou Grahan com força, louca de
ciúmes e raiva.
A cabeça de Grahan virou para o lado, com o golpe. Ela voltou-se novamente e olhou-a com olhos flamejantes, as marcas dos dedos de Helen impressos em seu rosto.
Helen a
fitava paralizada, percebendo que agredira Grahan e arrependida do ato. Ela a
olhava em um misto de mágoa e raiva.
Grahan voltou-se e em passadas largas, abriu a porta e saiu, batendo-a com força. Helen começou a soluçar, jogando-se no sofá, murmurando:
-Oh,
Grahan. . . perdoe-me. . . oh, Deus !
Grahan
não esperou o elevador. Desceu pelas escadas, dominada pelo desejo de ir para
bem longe dali. Chegou à rua e olhou para os lados, indecisa. Mas logo tomou a
direita, andando apressada. Queria distância de Helen ! Ela a havia
agredido ! O que pensava ela ? Que já a tinha nas mãos ? Ela ia ver como
estava enganada !
Meteu a mão no bolso do casaco. Tinha uma nota no bolso. Tirou-a e olhou. Dez dólares, não dava para muita coisa. Mas continuou andando. Andou alguns quarteirões de cabeça baixa, indiferente aos trausentes que passavam. Aos poucos, foi se acalmando. Mas a mágoa contra Helen permaneceu. Nunca mulher alguma ousaria agredí-la ! Como ela pudera fazer isso ? Bem, tinha que reconhecer que também a havia provocado. Uma mulher apaixonada como Helen estava, só poderia ter aquela reação, ao ouví-la falar de Michelle daquele jeito. Mas não admitia agressões !
Inconscientemente,
dirigiu-se para a Quinta Avenida. Quando percebeu, estava diante do edifício
que morara com Michelle. Parou, olhando para a entrada, sentindo uma saudade
dolorosa daqueles dias felizes. Ah, Michelle ! Seria tão bom se ela estivesse
lá, à sua espera !
O
porteiro a reconheceu e veio até a porta, sorridente.
-Senhorita
Gladstone ! Que prazer, tornar a vê-la ! Vai subir ?
Ela o
fitou desajeitada.
-Não.
Não moro mais aqui. Nem tenho o cartão que abre a porta do apartamento.
-Mas foi
bom ter vindo aqui. Tenho uma correspondência para a senhorita.
Grahan o
fitou surpresa.
-Correspondência
para mim ? Onde está ?
-No
escaninho de correspondência da senhorita Burton. Pode pedir ao recepcionista.
Grahan
agradeceu e entrou, ansiosa. O
recepcionista a olhou educadamente.
-Bom
dia, senhorita Gladstone.
-Bom
dia. O porteiro avisou-me que há uma correspondência para mim no escaninho de
Michelle Burton, em nome de Grahan Gladstone. É o apartamento da cobertura.
-Um
momento.
Ele
abriu o escaninho e retirou um envelope pardo,estendendo-lhe sorrindo.
-Aqui
está . Endereçado à Grahan Gladstone.
Grahan
pegou o envelope, olhando a letra, com o coração descompassado. Estava escrito somente,
com letras de forma:
“ À
Grahan Gladstone, em mãos “. Não tinha remetente e nem havia sido postado nos
correios, porque não havia carimbo ou sêlo.
Abriu-o com mãos trêmulas. Dentro havia um cartão e uma folha de papel. Tirou-os, examinando. O cartão era o seu cartão magnético que abria a porta do apartamento. Michelle mandara trocar a chave por ele, que era mais seguro. Grahan tinha certeza que o havia deixado dentro do apartamento, quando viajara com Michelle para o rancho. Achara desnecessário levá-lo, porque Michelle já levava o dela. Como fôra parar nas mãos de quem o remetera ?
A folha
de papel estava dobrada. Desdobrou-a e leu:
“A
esperança é o caminho para a felicidade “.
Estava escrito em letras de forma, sem assinatura.
Leu a frase
várias vezes, tentando descobrir o sentido oculto da mensagem. Não conseguiu.
Olhou para o recepcionista, que a olhava curiosamente.
-Sabe quem enviou isso ? Não tem remetente.
-Foi um
garoto que entregou. Ele disse-me que haviam mandado entregar. Há algum
problema ?
-Conhece
o garoto ? Quando foi entregue isso ? – Perguntou, ignorando a pergunta dele.
-Nunca
vi o garoto antes. Era um desses meninos de rua, que fazem biscates. Faz dois
dias que entregou. Há alguma coisa errada ?
-Não. . . não é nada demais. . . é uma bricadeira que fizeram comigo. Obrigada.
Afastou-se,
enfiando os objetos no bolso do casaco. Em um impulso, resolveu subir até o
apartamento. Seus documentos estavam todos lá, com seus cartões de crédito e
talão de cheques.
Pegou o
elevador e subiu. Quando chegou ao andar, inseriu o cartão na ranhura da porta
e ela abriu. Entrou lentamente, ascendendo a luz da sala.
Estava tudo como antes. Parecia que nada fôra tocado, depois daquele dia fatídico. Foi até o quarto e olhou em torno. A claridade do sol estava cortada pelas cortinas cerradas. Abriu uma parte, para clarear o ambiente. Sentiu uma emoção dolorosa ao olhar para a cama. Ali, ela e Michelle haviam se amado tanto !
Foi até o closet e olhou para as roupas de Michelle penduradas, com vontade de chorar. Ela nunca mais vestiria aquelas roupas.
Tirou um conjunto do cabide. Michelle o usara para ir trabalhar, dois dias antes da morte dela. Pegou a roupa e cheirou-a, sentindo o perfume de Michelle nela. Aquele perfume delicioso, inesquecível !
Voltou ao quarto com a roupa e deitou-se na cama,apertando-a nas mãos. Alisou-a , cheirou-a mais e começou a chorar. Os soluços a sacudiam. Rolou na cama, sentindo uma saudade desesperada.
-Michelle.
. . Michelle. . . eu a adoro, não consigo esquecê-la! – Soluçava, agarrada nas
roupas dela.
Durante
muito tempo ficou ali, chorando sua dor. Acabou adormecendo, com a roupa de
Michelle encostada no rosto.
Quando acordou, já entardecia. Ergueu-se sobressaltada. Quanto tempo ficara ali ? Não sabia. Em sua saída brusca, deixara seu relógio no quarto.
Olhou
para o relógio digital perto da cama. Marcava três e meia da tarde. Tinha que
ir embora, já havia demorado demais ali. Se por acaso os parentes de Michelle a
encontras-sem ali, ia haver discussão.
Foi ao closet e dirigiu-se para a parte dele que guardava suas roupas. Michelle a havia presenteado com dezenas de “tailleurs”, blusas de seda, calças de tecido fino, de linha clássica, e roupas esportivas. Escolheu um “tailleur” preto com finas listras brancas, uma blusa de seda e um par de sapatos de salto fino. Precisava daquelas roupas para colocar no dia seguinte, quando fosse à residência dos Burton . Não queria ir lá mal vestida e ser alvo de crítica.
Foi a
uma gaveta e recolheu seus documentos, cartões e talão de cheques. Colocou tudo
em uma valise de couro e saiu do apartamento, depois de olhar uma vez em volta.
O
porteiro a saudou, quando passou por ele. Grahan pegou um táxi e deu o endereço
do seu banco. Tinha que apanhar algum dinheiro, estava quase à zero.
Michelle conversara com o gerente e a indicara para abrir a conta. Fôra uma espécie de fiadora, para Grahan ter todos os previlégios de um grande cliente. Mas Grahan apenas depositara o seu dinheiro, transferindo-o de sua conta em outro banco da Filadélfia. Recusara a oferta de Michelle, de engordar sua conta com dez mil dólares. Dois mil dólares era tudo que tinha lá.
Chegou
ao banco, perto de Wall Street. Pagou o táxi e entrou no imponente
estabe-lecimento. Dirigiu-se ao caixa e entregou o cartão magnético. O caixa a
olhou.
-Vai
sacar ?
-Sim.
Trezentos dólares.
-Digite
o código, por favor.
Grahan
digitou o código.
Ele
olhou para o visor e lhe sorriu.
-Só
trezentos dólares, senhorita ?
-Sim.
Ah, dê-me o saldo, por favor.
Ele
copiou o saldo do visor do computador e lhe estendeu. Grahan o olhou e seus
olhos se dilataram. Olhou para o caixa, que aguardava.
-Tem
certeza que o saldo é esse ? – Perguntou.
-Perfeitamente. Está aqui no visor. Duzentos e cinqüenta e dois mil dólares. Se quiser um extrato, pode retirar em qualquer máquina. Quer sacar mais ?
Grahan
sorriu, tentando disfarçar sua surpresa.
-Vou
sacar isso mesmo. Obrigada.
Ele registrou
a quantia, passou o cartão na máquina e o devolveu com três notas de cem.
Grahan as pegou e guardou no bolso. Dirigiu-se para uma das máquinas do banco e
colocou o cartão na fenda de leitura. Digitou seu código e tipo de operação
desejada. A máquina começou a emitir o extrato.
Grahan o
retirou, finda a operação. Olhou, ansiosa. O saldo conferia: Duzentos e
cinqüenta e um mil e setecentos dólares, descontados os trezentos que sacara.
Os duzentos e cinqüenta mil haviam sido depositados no dia nove de junho, na
véspera da morte de Michelle.
Não
haviam dúvidas, Michelle que mandara depositar aquela quantia em sua conta.
Para quê ? Não sabia que quando descobrisse, iria protestar e devolver ?
Cansara de dizer à Michelle que só aceitaria dela o salário pelo seu trabalho.
Era como
se ela advinhasse que ia morrer e tivesse lhe dado meios de sobreviver sem
problemas.
Guardou o extrato e saiu do banco. Tomou um táxi e deu o endereço de Helen. Foi pensando que havia algo que não entendia naquela estória: o cartão do apartamento, o bilhete com a estranha mensagem e aquele dinheiro na sua conta.
Foi uma Helen transtornada que lhe abriu a porta, quando chegou. Havia apertado a campainha, porque estava sem a chave.
Ela a
olhou com os olhos vermelhos de chorar, os cabelos revoltos, se jogando em seus
braços, trêmula e apertando-a .
-Grahan ! Graças à Deus, você voltou ! – Disse, com voz trêmula – Perdoe-me, Grahan. . . perdoe-me. . .
Grahan
sentiu sua mágoa esvair-se, ao vê-la tão desesperada. Empurrou-a delica-damente
e entrou, fechando a porta.
Ela
tornou a abraçá-la, pousando a cabeça no seu ombro.
-Grahan. . . como estou arrependida do que fiz ! Oh, como sofri, pensando que não voltasse mais !
Grahan
sorriu, com a mão livre alisando os cabelos dela.
-Calma,
Helen. . . já estou aqui. Controle-se. . .
Ela
afastou-se e a fitou aflita.
-Diga
que me perdoa, Grahan. . . nunca mais vou agredí-la.
-Isso discutiremos depois. Tenho coisas mais importantes para falar com você – Disse, passando por ela e dirigindo-se para o quarto. Chegou lá e colocou a valise sobre a cama. Sentou-se e olhou para Helen. Ela olhava para a valise, notando-a finalmente.
-Onde
esteve, Grahan ? De quem é essa valise ?
Grahan
falou com firmeza:
-Minha .
Estive no apartamento de Michelle. Apanhei alguns objetos meus.
Uma
crispação passou pelo rosto de Helen.Mas não disse nada.
-Venha
cá. Veja o que me entregaram na portaria. – Disse, tirando do bolso o envelope
com o bilhete e o cartão.
Helen
leu o bilhete. Olhou-a com o cenho franzido.
-Que
mensagem boba ! Quem escreveu isso ? E esse cartão, de onde é ?
-O porteiro do edfício avisou-me que havia uma correspondência para mim. Era esse envelope com o bilhete e o cartão magnético que abre o apartamento de Michelle. O recepcionista disse que foi um garoto quem entregou na portaria. E eu tenho certeza que este cartão estava no apartamento, quando fui para o rancho.
Helen
sentou-se na cama, em frente à Grahan, olhando-a intrigada.
-Que
estranho ! Como esse cartão chegou às
mãos desse remetente ? E quem será ele ?
-São
essas as minhas perguntas. A
família de Michelle
jamais faria isso
para mim. Quem mais teria acesso ao apartamento ? E o que quer dizer
essa frase no bilhete ? Para eu ter esperança ? Em quê ?
Helen
sacudiu a cabeça.
-Realmente,
é intrigante. Você não notou nada mexido no apartamento ? Nada de diferente ?
-Não, estava tudo como antes, pelo que pude perceber. Apanhei roupas para ir amanhã na casa dos Burtons, meus documentos e talão de cheques. Fui ao banco tirar algum dinheiro, e sabe o que descobri ? Que haviam depositado duzentos e cinqüenta mil dólares em minha conta !
Helen
arregalou os olhos, assombrada.
-Depositaram isso em sua conta ?! É muito dinheiro, Grahan ! Quem teria feito isso ?
-Desconfio que foi
Michelle. O depósito foi feito um dia antes dela ser assassinada. Quem mais
iria presentear-me com tanto dinheiro?
Helen
baixou a cabeça, triste.
-Com
tanto dineiro, você não precisa mais de mim. Pode até comprar um excelente
apartamento.
Grahan
sorriu, segurando as mãos dela entre as suas.
-Você
pensa que sou uma pessoa muito fria, não é ? Não, Helen. Vou ficar aqui, pelo
menos por enquanto. Como disse antes, não vou ficar aqui para sempre, mas esse
dinheiro não vai mudar minha decisão de ficar por algum tempo. Pelo menos, até
que tudo isso acabe.
Ela
ergueu o rosto, fitando-a .
-Tudo
isso, o quê ?
-Esse
mistério. Vou descobrir quem matou Michelle, nem que seja a última coisa que faça na vida.
-Grahan
! Você não é detetive, não vá meter-se nisso ! É perigoso, podem tentar matá-la também !
Grahan
olhou-a com decisão.
-Eu sei, mas vou tentar descobrir . Não tenho medo. Quem deve ter é esse assassino covarde, que matou uma mulher indefesa ! Vou tentar tudo para isso, Helen.
Helen debruçou-se para ela, soltando as mãos e espalmando-as em seu rosto, fitando-a preocupada.
-Grahan, não quero que nada de mal lhe aconteça. Eu não sei o que faria , se algo grave acontecer à você.
Grahan sorriu e a puxou pelos ombros, beijando-a, comovida pela preocupação dela. Helen correspondeu com toda emoção, tremendo. Sem parar de beijá-la, Helen levantou e sentou em seu colo, abraçando-a pelo pescoço, apertando-se contra seu corpo. Grahan hesitou. Não queria prosseguir com aquilo. Não devia alimentar a paixão de Helen. Mas ela sussurrou em seu ouvido, com voz embargada de emoção:
-Grahan,
tive tanto medo de você não voltar, de não me querer mais ! Possua-me ! Oh,
possua-me !
Grahan sentiu-se mais uma vez contagiada pelo desejo de Helen. Um desejo animal, ditado pela sua necessidade de sexo, onde o amor não tinha vez. Ela era uma bela mulher e a queria desesperadamente. E Grahan mais uma vez fraquejou, na ânsia de esquecer o seu sofrimento. Helen era como uma droga à sua dor. Possuindo-a, não sofria tanto, usando a ilusão de estar com Michelle. Era tão fácil, bastava fechar os olhos e deixar a imaginação voar. Deslisou as mãos pelo corpo dela, introduzindo uma entre as coxas, acariciando o sexo dela por cima da calcinha. Helen contorceu-se, a boca sugando a sua, alucinada.
Grahan
possuiu Helen com desespero. Em sua mente, era Michelle quem estava em seus
braços e isso a fez fazer loucuras. Sentiu o orgasmo tomar seu corpo e gritou, estremecendo violentamente. Abriu os
olhos e a realidade a atordoou, vendo a cabeça loura de Helen entre suas
pernas.
-Não...
– Disse, com voz rouca.
Sentou
na cama , sentindo as pernas fracas. Mas Helen continuou, até que gozou mais
uma vez. Então, deitou para trás e a puxou pelos cabelos. Helen veio rastejando
pelo seu corpo, lambendo-a. toda.
Deitou-se sobre ela, remexendo-se alucinada, gemendo. Grahan introduziu a mão
por entre os corpos e aprofundou os dedos no sexo dela, movendo-os com
dificuldade, sob a pressão que Helen fazia. Ela atingiu o orgasmo recurvando o
tórax para trás, gritando abafadamente. Depois, deitou ao seu lado com os olhos
fechados e uma expressão de plenitude celestial.
Grahan fechou os olhos. Sentiu-se culpada por mais uma vez ter cedido ao desejo. Sexo sem amor, uma fuga da realidade. Tão diferente de quando tinha sexo com Michelle! Com ela era uma entrega total, de corpo e alma. Com Helen, apenas uma tentativa de esquecimento, nos braços de uma mulher fogosa.
A
lembrança de Michelle a atordoou. Ela também era fogosa. Tanto ou mais que
Helen. Lembrou do dia em que foram ao cinema e tiveram que interromper o ato
sexual no banheiro. Como Michelle ficara louca, até chegar em casa e
entregar-se alucinadamente.
Ergueu-se
da cama. Helen a chamou, abrindo os olhos. Grahan voltou-se, olhando-a
calmamente. O desejo passara, só restando indiferença. Não a amava.
-Que é ?
-Fique
aqui comigo , amor.
-Vou
tomar um banho – Disse, dirigindo-se para o banheiro.
Entrou no banheiro e abriu o chuveiro. Tomou um banho longo, pensando como agiria na casa dos Burtons. Seria fina, indiferente e fria. Se a insultassem, simplesmente os olharia com desprezo. Enxugou-se, completamente desligada de Helen.
Quando voltou ao quarto, envolta em um roupão, encontrou Helen à sua espera. Ela sorriu, estendendo a mão.
-Como
demorou, amor. Venha para junto de mim. . .
Grahan olhou-a com indiferença. Não estava mais com vontade. Mas, como dizer isso a ela ? Não queria magoá-la. Nisso residia a diferença entre amar e desejar somente, pensou. Com Michelle, mesmo depois de se saciarem sexualmente, ficava horas inteiras beijando-a e acariciando-a . Cansada, mas cheia de amor. Com Helen, não. Acabava de saciar o desejo e não restava mais nada, de sua parte. O encanto acabava. Não sentia mais vontade de tocá-la. E era horrível fingir um carinho que não sentia.
Sentou-se
na cama, sorrindo.
-Não
quer tomar um banho ? Está fazendo calor.
Helen puxou-a num abraço, olhando-a com carinho. Beijou-a longamente. Grahan correspondeu, para ela não perceber sua indiferença. Ela afastou-se e a olhou apaixonadamente.
-Amo-a
Grahan. Por mim, ficaria o dia inteiro com você na cama. Hoje nem fui
trabalhar, preocupada com você.
Grahan
sorriu, erguendo-se.
-Ficaria
o dia inteiro na cama, e eu morreria de fome ! Sabe que não comi nada até agora
?
Helen ergueu-se, olhando-a surpresa.
-Oh !
Não sabia ! Vou preparar uma boa refeição para você ! Também não comi nada, não
tive cabeça para isso.
-Vamos
lá, vou ajudá-la – Disse Grahan, com uma ponta de remorso pelo pretexto que
usou para tirá-la da cama. Mas não agüentaria voltar para a cama com Helen,
pelo menos nesse dia.
Oh,
Michelle... – Pensou – Se fosse você quem estivesse aqui, eu ficaria amando-a o
dia e a noite inteira!
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