HERANÇA FATAL

Parte 5

 

 

 

A Burton Corporation ficava em um suntuoso edifício em Wall Street, em um dos trechos mais nobres. O edifício de quarenta andares era todo de vidro fumê, com o logotipo da empresa no alto, um disco  negro com as letras B e C douradas e entrelaçadas.

 

         Michelle desceu do táxi com Grahan e sorriu levemente ao vê-la olhando para a luxuosa entrada com ar impressionado.

 

         -Depois da minha posse, teremos a limousine da presidência com motorista para buscar-nos em casa, Grahan . – Comentou.

 

         Grahan a fitou sorrindo. Michelle havia colocado um blazer  rosa salmão, com saia preta,, meias e sapatos de saltos altíssimos negros. Um par de brincos de ouro completava sua elegância feminina e envolvente.

 

         Grahan não ficava atrás, em elegância. Vestida com um “tailleur” cinza –pérola, blusa de seda branca, meias e sapatos de salto alto negros, tudo comprado nas melhores lojas de New York, completados por uma maquiagem leve e pequenos brincos de diamantes, presente de Michelle. Estava parecendo mesmo uma executiva de alta classe e sentia-se bem naquelas roupas. Correspondia ao que Michelle queria dela.

 

         -Vamos ?  - Perguntou Michelle, esperando-a .

 

         Grahan olhou-a e assentiu. Entraram no prédio e avançaram pelo sagüão até  onde duas recepcionistas uniformizadas elegantemente de negro, que as receberam com sorrisos cordiais.

 

         -Desejam falar com quem, senhoritas ?

 

         Michelle sorriu quase imperceptivelmente.

 

         -Sou Michelle Burton. A diretoria está à minha espera. E esta é Grahan Gladstone, minha assistente.

 

         As recepcionistas a olharam surpresas e impressionadas. Verem Michelle Burton em pessoa era um fato raro, mas se recuperaram e chamaram o segurança, que estava ao lado.

 

         -Acompanhe as senhoritas Burton  e Gladstone até o elevador privativo, Joey.

 

         O segurança   procurou  dar  o  melhor  sorriso,  fazendo  um  gesto  para  que  elas  o seguissem.

 

         -Por favor, senhoritas. . .

 

         Elas o seguiram até um conjunto de elevadores. Ele retirou uma chave do bolso e abriu o último elevador, fazendo uma mesura para que entrassem. Michelle entrou, seguida de Grahan, e ele acionou o elevador, explicando:

 

         -Este elevador é privativo da presidência, senhorita Burton. Só pára no andar da presidência e somente o presidente e eu temos a chave. É para lá que vai, não é ?

 

         -Sim. Providencie duas chaves, Joey. Uma para mim e outra para minha assistente, a senhorita Gladstone.

 

         Ele assentiu, pressuroso. Em menos de um minuto chegaram  ao andar e o elevador abriu as portas. Michelle olhou para o segurança, saindo de elevador.

 

         -Que andar é esse ?

 

         -O quadragésimo.

 

         -Obrigada.

 

         Um  homem  magro  de  cabelos  grisalhos,  vestido  com  um  impecável  terno  escuro, estava no hall esperando-as e estendeu a mão para Michelle com um sorriso cordial, mas seus olhos demonstravam seu mal-estar.

 

         -Seja bem-vinda, Michelle ! Minha secretária  avisou-me   de sua chegada e fiz questão de vir recebê-la pessoalmente !

 

         Michelle apertou a mão dele e voltou-se para Grahan, que se  conservava alguns passos atrás.

 

         -Henry, esta é Grahan Gladstone. Grahan, apresento-lhe Henry Parson, o presidente da Burton Corporation.

 

         Ele estendeu a mão para Grahan com um sorriso frio.

 

         -Muito prazer, senhorita. Conheço-a pela tv, por ocasião da libertação  de Michelle.

 

         Grahan sorriu para ele, apertando a mão gelada.

 

         -Igualmente, Parson.

 

         Ele olhou para o relógio de pulso.

 

         -Bem,  faltam  quinze  minutos  para  começar  a  reunião.  Querem  aguardar em  meu gabinete ?

 

         -Não, Henry – Disse Michelle – Viemos mais cedo para conhecer as instalações desse andar. Ainda não as conheço. Sua secretária pode nos mostrar tudo ?

 

         Ele sorriu forçadamente.

 

         -Lógico. . . venham, sigam-me.

 

         Ele abriu uma porta de vidro fumê onde se lia em letras douradas: RECEPÇÃO.

 

         Michelle e Grahan entraram e se viram em uma luxuosa sala , com quadros abstratos, toda atapetada e com várias poltronas de couro negro e uma mesa, onde uma recepcionista já os aguardava em pé. Henry nem a olhou, dizendo impessoalmente:

 

         -Aqui é a recepção, onde qualquer pessoa que queira falar com o presidente deve anunciar-se.

 

         Michelle sorriu para a recepcionista, que a olhava com um sorriso cordial.

 

         -Como se chama , senhorita ?

 

         -Marge, senhorita Burton – Respondeu, respeitosamente.

 

         -Muito prazer, Marge.

 

         Olhou para Henry, que as olhava contrafeito.

 

         -Continuemos, Henry.

 

         Ele atravessou a sala e abriu uma porta, anunciando:

 

         -A sala das secretárias.

 

         Entraram. Em uma sala também bem decorada, duas moças impecavelmente vestidas os olharam, sentadas atrás de duas mesas. Elas digitavam em dois computadores, mas se ergueram interrompendo o trabalho.

 

         -Minhas secretárias, June e Helen – Disse Henry, agora mais pessoal – Senhoritas, estas são Michelle Burton e Grahan Gladstone.

 

         Michelle aproximou-se e estendeu a mão. Elas a apertaram com certo constrangimento, mas sorriram cordialmente.

 

         -Muito prazer, garotas – Disse Michelle.

 

         -June é a principal e Helen a sua auxiliar – Informou Henry, com voz fria.

 

         Michelle voltou-se para ele displicentemente.

 

         -Pode deixar-nos com suas secretárias, Henry. Quero dar umas palavrinhas com elas. Pode ir ver se todos já chegaram, enquanto isso ?

 

         Ele a olhou contrariado, mas assentiu e saiu da sala.

 

         Michelle olhou para June e Helen, que se conservavam de pé como que aguardando uma ordem.

 

         -Uma de vocês poderia mostrar-nos as instalações do andar ? Quero saber como estão distribuídas as salas.

 

         Grahan olhou para June. Era alta e esguia, os cabelos presos em um coque, maçãs do rosto salientes, olhos negros. Era mais atraente que bonita. Parecia ser uma secretária discreta e competente, à primeira vista.

 

         Helen era loura, de olhos azuis. Tinha traços delicados e um corpo bem proporcionado. Olhava-a com evidente curiosidade, talvez imaginando quem era Grahan Gladstone. Era mais bonita que June, mas não parecia ter a forte personalidade da outra.

 

         June olhou para Helen, adiantando-se.

 

         -Vou mostrar as salas, Helen – Disse – Por favor, atenda aos telefones enquanto faço isso, está bem ?

 

         Virou-se para Michelle com um sorriso cordial.

 

         -Acompanhe-me, por favor.

 

         Abriu uma porta do outro lado da sala.

 

         -Este é o gabinete da presidência. Possui esta entrada e outra direto para o hall da recepção. Entrem, por favor.

 

         Michelle e Grahan passaram por ela e entraram. O gabinete era enorme, todo decorado com requinte. Todo em tom cinza, com poltronas de couro vermelho, uma mesa de ébano, quadros valiosos e uma estante decorativa de mogno.

 

         Michelle aproximou-se da mesa. A cadeira acolchoada de couro vermelho era confortável e luxuosa.

 

         June informou, com voz impessoal:

 

         -O telefone possui três linhas diretas e uma ligada ao computador com linha na internet. E esse computador tem um programa que comanda as portas do gabinete, abre o bar embutido, liga a música ambiente em cincos estações programadas e o dvd e tv. Basta ligar o computador e clicar  no ícone  de cada função – Explicou, olhando para Michelle com  um ar de eficiência e segurança.

 

         -Quer que faça uma demostração ?

 

         -Agora não, June. Depois, vou aceitar.

 

         Ela assentiu e prosseguiu, abrindo uma porta.

 

         -Aqui há um banheiro completo e sauna, além de um pequeno aposento para descanso.

 

         Michelle olhou para Grahan e foi olhar. Era um banheiro luxuoso, com a banheira de hidromassagem, ducha, uma câmara para sauna comportando até três pessoas e um quarto com uma cama de casal, um pequeno armário embutido e frigobar.

 

         Saíram e June ainda informou:

 

         -Temos também uma cozinha com “chefs” se revezando em dois turnos, preparando pratos para o presidente e eventuais convidados. Isso torna as reuniões de emergência menos desgastantes e economisa o tempo que seria gasto para se ir jantar fora.

 

         Levou-as até a cozinha moderníssima, onde um homem preparava camarões flambados em vinho branco. Michelle o cumprimentou e saíram.

 

         -Agora só falta a sala de reuniões. Onde a diretoria está à sua espera, senhorita Burton.

 

          Michelle olhou para June com ar decidido.

 

         -Pois então, abra-a, June.

 

         June abriu a porta e Michelle entrou. Grahan não a acompanhou,mas ela voltou e pegou-a  pela  mão,  puxando-a . Grahan  entrou  desajeitada,  sabendo  o  quanto  era  irregular sua presença ali.

 

         Na enorme sala, sentados diante de uma imensa mesa, vinte homens as olharam entrar. Henry Parson ergueu-se e as olhou com seu sorriso frio.

 

         -Senhores, eis Michelle Burton !

 

         Aproximou-se e a tomou pelo braço com ar protetor.

 

         -Venha, vou apresentá-la aos diretores.

 

         Michelle desvencilou-se da mão dele. Avançou e foi apertando a mão de cada um, enquanto Henry lhe dizia o nome de cada.Quando acabaram, Henry indicou uma cadeira ao lado dele.

 

         -Queira sentar-se, Michelle. É um prazer presidir essa reunião ao seu lado.

 

         Michelle olhou-o friamente.

 

         -Miss Burton, Henry Parson – corrigiu ela , seca.

 

         Ele empalideceu. Sentou-se, agastado.

 

          Michelle ficou em pé. Como Grahan estava, em um canto da sala, olhando-a com admiração e aprovação.

 

         Ergueu a voz, que soou clara:

 

         -Senhores ! Convoquei essa reunião para comunicar que destituí meu procurador e hoje, considerando que possuo setenta por cento das ações da Burton Corporation, estou assumindo a presidência e controle das empresas !

 

         Todos a olharam atônitos. Depois do choque da notícia, começou a se formar um burburinho de comentários.

 

         Michelle olhou para Grahan. Ela sorriu e fez um gesto para que esperasse.

 

         Um dos diretores ergueu a mão, Michelle olhou-o e sorriu, indicando-o com um gesto.

 

         -Nosso diretor de finanças quer falar. Vamos ouví-lo ! O burburinho cessou. Todos olharam para o homem. Ele olhou para Michelle com ar divertido, como se ela fosse uma criança que repentinamente irrompera numa reunião de adultos.

 

         -Senhorita Burton – falou, com sarcasmo – Não está sendo um pouco precipitada ? Sabemos que não possui a menor experiência em dirigir qualquer empresa, ainda mais uma empresa desse porte.

 

         Ela o olhou duramente.

 

         -Realmente, não tenho, senhor. Mas meu pai não tinha também nenhuma, quando meu avô morreu e lhe legou as ações. E meu pai triplicou o tamanho das empresas, consolidando-as. Isso porque era inteligente e corajoso.

 

         O homem sorriu.

 

         -Mas as empresas eram menores. E seu pai era um homem. . . empreendedor.

 

         Michelle entendeu. Estava insinuando que ele era, além de mulher, não tinha capacidade de iniciativa.

 

         Sorriu friamente, com um olhar felino.

 

         -Minha  capacidade  vai  ser  avaliada  com  o  tempo.  E posso ser mulher,  mas  tenho coragem  suficiente  para  propor o seguinte: quem não quiser se enquadrar em  minhas diretrizes, apresente em vinte e quatro horas seu pedido de demissão. Começando a contar de agora.

 

         Um silêncio sepulcral caiu na sala.

 

         Michelle olhou para aqueles homens imóveis, que a olhavam incrédulos. Deixou-os digerirem a ameaça e voltou a sorrir.

 

         -Mas se quiserem colaborar comigo, aguardo o relatório de cada um sobre suas respectivas diretorias, com problemas e sugestões, no prazo de três dias, a contar de hoje. É só, senhores.

 

         Os homens começaram a se levantar. Henry Parson a olhou abatido.

 

         -Antes de ser presidente da empresa, era engenheiro químico da Chemical Burton. Vou apresentar-lhe minha demissão também desse cargo.

 

         Michelle o olhou com um sorriso.

 

         -Não foi nada pessoal contra você, Henry. Apenas quero assumir meus negócios. Se interessar a você, vou lhe dar o cargo de diretor dessa subsidiária. Sei que é competente e   agradeço o tempo que ficou na presidência da Burton Corporation. Tem, como os outros, vinte e quatro horas para pensar.

 

         -Vou pensar – disse, juntando seu resto de orgulho – Agora vou esvaziar as minhas gavetas para que possa instalar-se no gabinete.

 

         -Só vou ocupá-lo amanhã. Hoje, poderei ficar em outro local.

 

         -Não é preciso. Tenho pouca coisa minha no gabinete. Dê-me quinze minutos.

 

         -Ok, Henry. Pense em minha proposta.

 

 Estendeu a mão para ele. Henry apertou-a sem rancor, sorrindo levemente. Michelle não esqueceu que seu pai lhe dizia que ele era um ótimo administrador na Chemical Burton.

 

         -Boa sorte no cargo , miss Burton.

 

Ele saiu. Michelle olhou em volta. Todos haviam saído. Só Grahan continuava em um canto, olhando-a sorrindo, de braços cruzados.

 

         -Venha para cá – chamou suavemente, sentando-se em uma das cadeiras – Que achou de minha atuação, Grahan ?

 

         Grahan aproximou-se e sentou ao lado dela, olhando-a com admiração.

 

         -Foi melhor do que eu esperava, Michelle. Você foi segura e conseguiu abalá-los. Já viram que não vão poder criar-lhe embaraços e terão que respeitá-la.

 

         -Obrigada, mas o mérito é seu. Orientou-me em como agir em cada reação deles.

 

         -Era uma reação esperada, Michelle. Você, com essa cara de mocinha desprotegida, chegar dizendo que ia tomar as rédeas da Burton Corporation, foi demais para eles.

 

         Michelle riu.

 

         -Estou gostando do jogo, Grahan. É uma sensação fascinante, sentir aqueles homens todos acatarem  as minhas decisões.

 

         Grahan a encarou séria.

 

         -O poder é fascinante. Mas também é perigoso, não se esqueça. Você vai ter que provar sua competência e vencer os desafios e armadilhas que surgirão. Notou que seu irmão não compareceu à reunião, apesar de ser um dos diretores ?

 

         Michelle a fitou, deixando de sorrir. Uma sombra passou pelos seus olhos.

 

         -Notei. E sei que ele fez isso como um protesto pela minha decisão de presidir a empresa. Mas com sua ajuda, vou mostrar à ele e à minha mãe que posso gerir meus negócios.

 

         -Claro que sim, Michelle. Agora, vamos ter muito trabalho. Primeiro vamos examinar a lista das pessoas que compõem a diretoria, examinar suas gestões e indentificar os diretores nomeados por sua mãe. Será preciso para isso contratar uma firma idônea para que faça uma auditoria. Trabalharemos em conjunto com eles.

 

         -Concordo. E as secretárias ? Serão confiáveis, ou estarão contra nós, deixando vazar informações aos nossos possíveis inimigos ? Sabe bem que elas têm acesso a documentos importantíssimos.

 

         -Vamos examinar as fichas delas. Não podemos exagerar e as despedir sem que mereçam.. Não devemos nos deixar dominar por uma paranóia, achando que todos conspiram contra nós.

 

         Michelle olhou-a com súbita malícia.

 

         -Sei, está com receio de ser injusta com elas. São tão bonitas, não é ? E por falar nisso, o que sentiu ao vê-las ?

 

         Grahan a encarou, erguendo as sombrancelhas.

 

         -Achei que são finas e elegantes. A competência delas, provarão com o tempo. E suas fichas funcionais nos darão boas informações sobre a experiência delas.

 

         -Hum. . . não se sentiu atraída por elas ?

 

         Grahan a olhou com ar surpreso e aborrecido.

 

         -Michelle, vim para cá somente com a intenção de ajudá-la. Estou apenas interessada nisso. Não sou uma tarada sexual, que não pode ver uma mulher bonita sem ter más intenções. Se você pensa isso de mim, se não acredita que a amo e só você me interessa, não tenho nada a fazer aqui.

 

         Michelle olhou-a em silêncio, sentindo cada palavra. Aqueles olhos azuis  a olhavam com mágoa e ofendidos.

 

         -Desculpe, Grahan. . . – falou, com humildade – Estou sendo uma idiota. Prometo que não vou mais fazer esse tipo de pergunta. Confio em seu amor.

 

         Grahan sorriu. Apertou sua mão e ergueu-se.

 

         -Vamos ver se o gabinete está disponível ? Também precisamos achar uma mesa para mim.

 

         Michelle olhou-a sorrindo.

 

         -Você pode ficar provisóriamente em meu gabinete.

 

         -Só nos primeiros dias. Senão, quando tudo se aquietar, nós não trabalharemos mais – disse, com malícia.

 

         Voltaram ao gabinete. Parson já havia saído. Michelle abriu as gavetas da mesa e verificou que estavam vazias.

 

         Michelle sentou-se na cadeira e apertou o interfone. June atendeu.

 

         -June e Helen, venham até aqui, por favor.

 

         Michelle desligou e olhou para Grahan, que se sentou em uma poltrona.

 

         -Escolha sua secretária – disse, impessoalmente – duas , para mim, é muito.

 

         June e Helen entraram e não demonstraram surpresa em ver Michelle sentada na mesa da presidência. Deviam ter sido avisadas por Henry.

 

         -Pois não, senhorita Burton. . . – disse June, permanecendo de pé, junto com Helen.

 

         -Sente-se – disse Michelle, indicando as poltronas.

 

         June e Helen se sentaram com elegância discreta.

 

         Michelle sorriu-lhes.

 

         -Já estão à par da mudança na presidência, não ?

 

         Ela assentiram.

 

         -Bem, não conheço o trabaljho de vocês. Mas se forem competentes como penso serem, e principalmente, leais,vão permanecer nos cargos. Gostaria de ver as suas fichas funcionais.

 

         June ergueu-se e foi até um arquivo na sala. Apanhou uma pasta e estendeu para Michelle.

 

         -Nossas fichas funcionais estão aí, senhorita Burton.

 

         Michelle abriu a pasta. Tirou duas fichas com curriculum  vitae anexos. Passou a vista rapidamente e olhou para Grahan.

 

         -Dê uma olhada, Grahan.

 

         Grahan ergueu-se e apanhou as fichas. Leu atentamente, sem pressa, sentando-se ao lado de Michelle.

 

         June Asting. Vinte e oito anos, divorciada, formada em administração de empresas pela Universidade de New York. Trabalhou em três firmas conceituadas, como secretária, até ser admitida na Burton Corporation, como secretária do chefe do departamento de recursos humanos. Sua ascensão dentro da firma fora gradual, por mérito. Tinha cinco anos na empresa.

 

         Helen Wacker. Vinte e seis anos, solteira, formada em ciências contábeis, pela Universidade de Boston. Havia sido admitida na empresa há três anos, indicada por agência de emprego , para o cargo de assistente administrativo. Foi promovida por indicação do chefe da contablidade, depois de ser testada com outras candidatas ao cargo de secretária.

 

         Grahan ergueu-se e  devolveu as fichas a Michelle.

 

         -Como deve ter visto, estão no cargo por mérito profissional, Michelle. Têm um bom currículo e formação adequada aos cargos que ocupam. Mas a decisão é sua.

 

         Michelle sorriu. Guardou as fichas na pasta e olhou para as moças, que permaneciam expectantes. Notou que as mãos delas estavam apertadas, denunciando o nervosismo da aprovação ou não dela.

 

         -Vão continuar nos cargos, senhoritas. Mas uma de vocês vai ser a secretária de Grahan, que é minha assistente. Grahan, quem escolhe ?

 

         -Helen – Respondeu Grahan, sem hesitar.

 

         Michelle olhou para a moça e anunciou:

 

         -Helen, à partir de agora é a secretária de Grahan, mas não perderá sua comissão de secretária da presidência. Qual é o seu salário?

 

         -Oitocentos dólares semanais.

 

         -E o seu, June?

 

         -Mil dólares semanais.

 

         -Muito bem. Vocês duas terão um acréscimo de dois mil dólares no salário mensal. June, faça um memorando para o DP com esse ajuste e traga-o para eu assinar. E quero também a relação de todos os membros da diretoria com seus dados completos, para hoje. Pode retirar-se para fazer o que pedi.

 

         June assentiu e saiu, com uma expressão de satisfação. Helen permaneceu, impassível. Michelle a fitou sorrindo.

 

         -Devo dizer que para nós, você é tão importante quanto June. Se Grahan tivesse escolhido June, você seria minha secretária. Não se sinta prejudicada com a escolha, porque Grahan é o meu braço direito. O que ela decidir em seu favor, não me oporei. Grahan, agora a palavra é sua.

 

         Grahan sorriu para Helen e ergueu-se, parando diante dela.

 

         -Apenas vou exigir de você lealdade e dedicação. Nos primeiros dias vou trabalhar nessa sala com a senhorita Burton, até ser providenciada uma sala para mim. Sabe se há alguma disponível, que não esteja sendo usada?

 

         -Sim. Neste mesmo andar – sorriu Helen – A sala do assistente de mister Parson . Mas ele nos havia orientado antes de vocês chegarem para não mostrar essa sala à vocês.

 

         Grahan e Michelle a fitaram surpresas.

 

         -Ele pediu isso a vocês? – Perguntou Michelle, franzindo o cenho – Por que ?

 

         Helen sorriu maliciosamente.

 

         -Bem... é melhor que vejam. Podem acompanhar-me?

 

         -Claro! – Disse Michelle, erguendo-se – Vamos agora!

 

         Helen abriu a porta do gabinete e elas a seguiram. Passaram por June, que digitava no computador. Grahan percebeu o olhar divertido que ela e Helen trocaram.

 

         -Voltamos logo, June – Disse Michelle.

 

         Ela atravessou o corredor e no final Helen abriu uma porta sem placa indicativa, parando ao lado e fazendo um gesto com a mão para que entrassem.

 

         Michelle entrou, seguida por Grahan. Era uma sala enorme, com paredes negras e forrada por um felpudo tapete vermelho. Um sofá de couro negro enorme estava diante de um rack com uma tv com tela de plasma de 50 polegadas, vídeo e dvd ligados à  caixas de home theatre. Em uma das prateleiras, diversos dvd’s e fitas de vídeo. Um frigobar completava o ambiente que logicamente não era destinado ao trabalho.

 

         Graham aproximou-se e pegou alguns dvd’s e fitas, olhando as capas. Tudo era de filmes pornô. Olhou para Michelle, que também olhava as capas boquiaberta. Não pôde conter o riso.

         Michelle abriu o figobar e viu as garrafas de champanhe Don Perignon e de vodca russa. Ela voltou-se para Helen, que se mantinha séria com evidente esforço.

 

         -Quem usa essa sala, Helen?

 

         -O filho de Parson, Mike. Ele é um jovem de vinte e dois anos.

 

         -Quero falar com ele agora! Vá chamá- lo!

 

O rosto de Michelle estava vermelho de indignação. À custo continha sua raiva.

 

-Bem, isso será difícil, srta. Burton. Ele está no Hawaí.

 

Michelle ergueu as sobrancelhas.

 

-No Hawaí?! Ele está de férias?

 

-Não... ele está em uma viagem de negócios, pela Burton Corporation.

 

Michelle fitou Grahan, que ria da resposta de Helen. Ela voltou a fitar Helen com uma expressão zangada.

 

-Mande alguém retirar ainda hoje todos esses objetos daqui. As fitas e dvd’s devem ser queimados. O resto deve ser doado para uma instituição de caridade. Parson ainda se encontra na empresa?

 

-Não, ele já saiu com seus objetos pessoais. Disse que voltaria amanhã para falar com a senhorita.

 

 -Quando ele chegar, mande-o vir falar comigo imediatamente.

 

          Michelle saiu da sala acompanhada por Grahan, com passadas decididas. Entrou na sala das secretárias  e dirigiu-se para June:

 

         -June, digite uma carta de demissão para Mike Parson, com data de hoje. E expeça uma cópia  por fax para onde ele se encontra, comunicando a demissão e proibindo qualquer despesa à partir de hoje, em nome da empresa.

 

         -Pois não, srta. Burton. Farei isso agora.

 

         Michelle entrou no gabinete  com Grahan e fechou a porta. Grahan sentou em uma poltrona, rindo. Michelle a fitou aborrecida.

 

         -O patifezinho usava uma sala da empresa como sala de diversão! – Disse, com raiva – Imagino o que ele fazia ali. Devia até trazer mulheres para as farras. E ainda teve o desplante de ir para o Hawaí às custas da empresa! É claro que Parson acobertava esse procedimento! Ele orientou as secretárias para esconder a sala de nós! Vou despedí-lo também!

 

         Grahan parou de rir e a fitou séria.

 

         -Calma, Michelle. Não se precipite. Vamos ver o que o velho tem a dizer sobre isso. Dê sempre às pessoas uma chance de defesa, para não ser injusta.

 

         -Tudo bem, mas sabe o que acho? Que isso é um indício que a administração da empresa está de rédeas frouxas. Assim como o filho de Parson, muita gente deve estar em cargos decorativos, com altos salários! Isso precisa ser investigado!

        

         -Sem dúvida, Michelle. Vamos investigar tudo com uma auditoria. Gente como esse rapaz é um parasita sugando a empresa.

 

         -Mas a demissão do filho de Parson está de pé. Essa decisão é irrevogável.

 

         -Concordo com você. Parson merece um crédito, pelo seu passado, mas seu filho não tem desculpa por usar as instalações da empresa como área de lazer sexual.

 

         O interfone tocou, com June avisando que o almoço estava pronto e se elas gostariam que fosse logo servido. Michelle concordou e minutos depois um garçon entrou com um carrinho com bandejas,  pratos e talheres, taças  e um balde com bebida. Ele sorriu para elas.

 

         -Bom dia, senhoritas. Sou James. Todos os dias vou serví-las. O nosso “chef”  de plantão pediu que mandassem uma lista de seus pratos preferidos.

 

         Michelle retribuiu o sorriso ao simpático garçon uniformizado.

 

         -Bom dia, James. Só que de hoje em diante, você servirá a mesma comida também para nossas secretárias. Avise à elas. Caso elas não queiram o serviço em um determinado dia, peçam que avisem pela manhã. Não será uma obrigação almoçar na empresa, mas sim uma opção. A lista mandaremos amanhã, hoje estamos muito ocupadas.

 

         -OK, senhorita. Posso servir?

 

         -Não, deixe que nós mesmas nos servimos. Pode ir, James.

 

         -Ok. Por favor, avisem à srta. June quando deverei retirar o carrinho.

 

         O garçon saiu e fechou a porta. Michelle ergueu-se e foi até o carrinho, levantando as tampas das bandejas, sorrindo com prazer.

 

         -Humm... camarões empanados, souflè de legumes, torta de morango para sobremesa e vinho branco alemão...um almoço caprichado. As garotas vão gostar desse serviço oferecido.

 

         Grahan sorriu, aproximando-se . Abraçou Michelle por trás, pressionando-se contra o traseiro firme e redondo, os lábios beijando o pescoço macio.

 

         -Você é uma boa chefe. Aumentou o salário delas  e  agora, vai dar à elas  almoço  classe A . Assim, elas vão amar serem nossas secretárias.

 

         Michelle estremeceu e encostou-se em seu corpo, inclinando a cabeça para trás.

 

         -Acertou, amor. Estou usando a psicologia administrativa: um funcionário satisfeito produz mais e é mais dedicado. Mas agora, vamos nos concentrar em nós... é tão bom ter você assim, perto de mim...

 

         Grahan beijou-a levemente no rosto, as mãos alisando seus seios. Michelle voltou-se em seus braços, ficando de frente, olhando-a apaixonadamente.

 

         -Sabe há quanto tempo quero lhe dar um beijo? Desde que saímos de casa.

 

         Grahan a apertou contra seu corpo, olhando para os lábios sensuais.

 

         -Vamos ver se o baton não sai mesmo – Disse, com voz rouca.

 

         Ela desceu o rosto e esmagou os lábios naquela boca entreaberta, que tanto a atraía. Suas línguas se tocaram e se acariciaram, sugando, em um beijo sensual. O beijo se prolongou até que se afastaram sem fôlego. Michelle ofegava, a paixão brilhando nos olhos verdes. O baton continuava intacto. Michelle sorriu e começou a dar beijos rápidos em seu queixo, pescoço, dizendo baixinho:

 

         -Humm... é tão bom beijar você... mais gostoso que qualquer comida...

 

         Grahan sorriu, afastando-a delicadamente.

 

         -Acredito em você, mas estou faminta e quero comer comida, meu anjo.

 

         Michelle sorriu também, soltando-a.

 

         -Está bem... escapou, por enquanto... mas eu provei que o baton não sai.

 

         Grahan riu, pegando um prato.

 

         -Sem dúvida, esse baton resiste bem... mas vamos comer, Michelle.

 

         Almoçaram com apetite a comida. O “chef” era mesmo  um excelente cozinheiro. Quando acabaram, ficaram bebendo o vinho gelado entre carinhos. Michelle excitou-se e chamou-a para ir até o quarto de descanso. Grahan fingiu que não estava muito interessada com a idéia só para ouví-la  insistir com aquela voz sedutora. Mas acompanhou-a e entraram no quarto e fecharam a porta. Michelle olhou para a cama, forrada com uma colcha de peles. Afastou-a e descobriu lençois finos de cetim. Ouviu Grahan rir e voltou-se para ela. Grahan tirava o blazer com cuidado.

 

         -Por que riu?

 

         -Estou imaginando o velho Parson aqui fazendo sexo com uma mulher. Quarto de descanso! A mim não engana! Acho mesmo é que ele transava com uma das secretárias! Ou com as duas... – Brincou Grahan, para descontrair Michelle.

 

         Michelle riu também, desabotoando seu blazer.

 

         -Parson, com as secretárias?! Não seja maldosa, Grahan! Duvido que ele consiga ainda transar com alguém! Ele deve estar impotente, já tem mais de setenta anos! Mas, deixe a vida sexual de Parson para lá, minha taradinha... tire essa roupa e venha cá, estou impaciente para tê-la nua em meus braços... você está tão “sexy” com essa roupa...mas fica mais ainda sem ela.    

 

Grahan tornou a rir, colocando as mãos na cintura.

 

         -Ah, a taradinha sou eu, não é? Mas você quem teve a idéia de vir para o quarto fazer amor, em pleno expediente! Isso é muito irregular, minha querida!

 

         -Somente hoje, Grahan... – Disse Michelle, com adorável ar malicioso – Precisamos relaxar, hoje ficamos muito tensas na expectativa de enfrentar a diretoria.

 

         -Tem razão, meu anjo... então, dispa-se também...

 

         Elas se despiram se fitando com desejo. Nuas, se abraçaram e Grahan a puxou para a cama, sentando-a em suas coxas fortes. Michelle enterrou o rosto em seus seios, respirando o doce aroma de seu corpo, as mãos enterradas em seus cabelos, enquanto Grahan alisava seu corpo com as mãos trêmulas de desejo. Michelle mordiscou seu pescoço suavemente, sussurrando:

 

         -Você tem um corpo tão forte, Grahan... tão bonito... sinto-me sumir nele...

 

         Grahan ergueu seu rosto com a mão e a beijou profundamente, abraçando-a pela cintura. A sua mão desceu para o sexo em fogo de Michelle, sentindo-a deliciosamente molhada.

 

         Michelle gemeu, abrindo as pernas e montando na coxa de Grahan, esfregando-se lentamente, molhando-a com seu desejo. Rodeou a cabeça de Grahan com as mãos, beijando-a delirantemente na boca, o corpo tremendo.

 

         Grahan deitou, puxando-a contra seu corpo. Michele continuou montada sobre sua coxa, movendo-se lentamente, beijando-a . As mãos de Grahan foram para os seios dela, manipulando os biquinhos já endurecidos. Michelle afastou o rosto, fitando-a com um olhar apaixonado.

 

         -Grahan! – Exclamou, com os dentes trincados – Você me deixa louca!

 

         -Eu a amo, Michelle... seja minha... totalmente...

 

         -Eu já sou toda sua, amor... veja como me faz ficar... estou toda molhada para você...

 

         A voz rouca de desejo de Michelle a excitava tremendamente. E aquele rosto se transformando, dominado pela paixão, era aumentava o desejo de Grahan.

 

         -Penetre-me, Grahan... – Gemeu Michelle, intensificando seus movimentos de vai-e-vem na coxa de Grahan – Estou quase ... oh, Grahan!

 

         Grahan  desceu a mão direita numa carícia até o sexo em fogo de Michelle. Ela impalou-se em seus dedos, movendo-se agora frenética, respirando em curtos haustos, de olhos fechados.

 

         -Mexa mais...assim... – Disse Grahan, também excitadíssima. Sua voz gutural, com o desejo.

 

         Michelle movia-se agora alucinada. Ela inclinou-se para a frente, com as mãos se apoiando nos ombros de Grahan, que a segurou pelo quadril com a mão esquerda. Michelle começou a estremecer, falando frases desconexas, fora de si:

 

         -Amor... delícia... amo... oh, não agüento mais!

 

         Ela se contraiu rigidamente, os dentes cerrados, as mãos apertando os ombros de Grahan, que sentiu os músculos vaginais de Michelle se contraindo em torno de seus dedos. Era o êxtase da mulher amada e Grahan sentiu-se arremessada numa onda de prazer, atingindo também o orgasmo em tremores violentos. Michelle desabou sobre ela e tentou deitar ao lado, mas Grahan a abraçou, beijando a testa suada.

 

         -Não amor... fique aqui, pertinho de mim – Disse, carinhosamente.

 

         Michelle enterrou o rosto em seu pescoço, respirando fundo, dizendo com voz cheia de emoção:

 

         -Grahan... amo-a cada vez mais...

 

         -Eu também a amo muito, minha Michelle...

 

         -Então, deixe-me agora ter você... seja toda minha...

 

         Suas bocas se grudaram em um beijo ardente e recomeçaram. Não importava onde estavam, o trabalho que as esperava, nada era mais importante que se amarem. Ah, o amor! Como nos faz cometer loucuras! Quando se ama, tudo o mais perde importância diante do poderoso sentimento de entrega ao ser amado. E Michelle e Grahan estavam apaixonadíssimas. A idéia de que algo poderia separá-las era impensável. O seu amor seria mais forte que todos os obstáculos.

 

 

Continua na parte 6

 

        

 

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