LETH CROSS
PARTE 1
O temporal desabava
com toda sua fúria, de um modo assustador. A visão era quase nula, naquela
estrada que serpenteava pelo vale, numa subida íngreme e sem nenhuma luz.
Trovões e relâmpagos fustigavam o espaço, como se a cólera de Deus tivesse se
abatido sobre aquele lugar.
Em meio a toda
aquela tempestade, Graham praguejava baixinho, procurando não deixar o pânico
dominá-la. Com os diabos, como poderia ter advinhado que iria acontecer aquela
tempestade, durante a subida para sua casa de campo, em Montain Nanuet? Quando
saíra da cidade, o céu estava azul, com nuvens brancas como algodão !
Considerava-se uma
boa motorista e conhecia bem o lugar, mas não era uma heroína! Nunca pegara uma
tempestade como aquela dirigindo, ainda mais numa estrada deserta e perigosa.
Dirigia na velocidade mínima, mas ainda assim, corria perigo. Podia cair uma
árvore sobre o carro, podia rolar alguma pedra ,podia ser atingida por um
raio...isso tudo sem falar da água que descia pela estrada aos borbotões, vinda
da montanha. Ainda bem que seu Land Rover era um carro robusto, com tração nas
quatro rodas. O veículo sacudia-se, enfrentando valentemente a fúria dos
elementos.
Graham desejou
estar em sua confortável casa, lendo um bom livro ou escrevendo, tomando uma
xícara de chocolate quente. Mas ali estava, sozinha, trêmula de medo,
enfrentando aquele temporal, porque resolvera fugir de Cindy. Ela insistia em
uma relação que não dava mais e o jeito fora fugir. Deixá-la entender de uma
vez por todas que não queria mais suportar os ciúmes, o humor irascível, as
paranóias de uma mulher problemática.
Graham tinha uma
longa experiência naquele tipo de relacionamento. Cindy fora mais uma em sua
vida que só lhe trouxera de bom os momentos de sexo. Aos trinta anos, sentia-se
desiludida tanto das mulheres, que preferia ficar só. Tinha sensibilidade e era
romântica, mas só conhecera mulheres vazias, sem o algo especial que procurava
encontrar numa mulher: inteligência, sensibilidade, gostos afins, alguém que a
fizesse amar loucamente, preenchendo tudo que precisava em uma amante para ser
feliz.
Iria ficar em sua
casa de campo até resolver
seu problema com Cindy.Não iria voltar para aquele
apartamento que dividia com ela. Deixara lá muita coisa, como seus livros,
discos, algumas roupas e outros objetos pessoais. Mas não voltaria para
pegá-los, não valeria à pena. Havia apenas deixado uma carta falando de sua
decisão em deixá-la, porque tinha certeza que se fosse falar pessoalmente sobre
a separação, Cindy teria feito mais uma de suas cenas de mulher neurótica. O
melhor era recomeçar sua vida alugando outro apartamento, partindo do zero.
Felizmente, ela não sabia da existência de sua casa de campo. Por experiência,
Graham a conservava incógnita de suas amantes. Ali era seu refúgio secreto,
para onde corria quando tinha problemas
com seus casos amorosos.
Seus olhos
cinza-azulados se estreitaram com o clarão de um relâmpago. Os lábios carnudos
e vermelhos se estiraram em um sorriso de quem se pega em falta. Deus, com um
temporal daqueles, se distraindo pensando em sua vida com as mulheres!
Dobrou a curva da
estrada cuidadosamente. Mal conseguia enxergar cinco metros à sua frente. A
água da chuva escorria pelo pára-brisa aos borbotões, dificultando a visão.
Um vulto surgiu à
sua frente, iluminado pelos faróis do carro. Graham apertou os olhos, aguçando
a visão. Seria impressão, ou era mesmo uma pessoa na estrada, debaixo daquele
temporal? Não era impressão. Lá estava, no meio da tempestade, um vulto
cambaleando e acenando.
Graham diminuiu a
velocidade, com medo. Quem seria, que se expunha naquele tempo, naquele lugar
deserto, numa estrada perigosa, à pé? Seria alguém que se acidentara? Era o
mais provável. Só um acidente exporia uma pessoa ali, com aquele tempo.
O vulto desabou no
chão. Graham parou o carro, com receio de atropelar aquela pessoa. Ficou
parada, olhando. O vulto não se mexia. Tinha de saltar do carro e
socorrê-lo.
Um pensamento a
alertou: e se fosse uma armadilha, para um assalto? Pensou por alguns
instantes, indecisa. Era um risco, ir socorrer a pessoa. Mas, quem ficaria
naquele temporal aguardando um carro passar para assaltar, numa estrada de tão
pouco movimento? E se fosse alguém ferido gravemente? Precisaria de socorro
urgente. Por outro lado, o vulto estava deitado no meio da pista e se fosse
desviar-se, teria de passar pelo mato rasteiro na margem, com o perigo do carro
atolar ou virar.
-Mas que inferno! Só faltava isso, para
completar as dificuldades! -Praguejou, baixinho.
Pegou o seu casaco
de camurça, vestiu-o e abriu a porta do carro.A água da chuva caiu sobre ela
com violência. Correu ao encontro do vulto. Tinha de ser rápida, para não
molhar-se até os ossos. Parou ao lado e notou que era uma mulher. A saia estava
colada ao corpo, mostrando as coxas sujas de lama. Ela estava caída de bruços,
com o rosto voltado para o lado. Graham abaixou-se e tocou-a no braço, gritando
para se fazer ouvir naquele
temporal:
-Consegue levantar-se?
A mulher tentou
erguer-se. Graham puxou-a pelos braços, ajudando-a. Ela cambaleou e Graham a
encostou em seu corpo, passando o braço pela cintura dela e colocando o braço
esquerdo dela em volta do seu pescoço.
-Vamos! Pode
caminhar? - Tornou a gritar.
Apoiando-se em
Graham, ela deu alguns passos trôpegos. Graham notou que ela era bem mais baixa
que ela, mas a lama a tornava escorregadia, dificultando segurá-la. Colocou o
braço dela sobre seus ombros, segurando-o pelo pulso, e a apoiou em seu corpo.
Foi arrastando a mulher sob a forte chuva até o carro. Encostou-a nele,
enquanto abria a porta do passageiro. Então, empurrou a mulher no banco. Mas
com a forte chuva, não viu bem e a mulher bateu com a cabeça na porta do carro
e caiu no banco toda mole. A pancada devia tê-la desmaiado de vez.
-Merda! - Xingou
Graham, batendo a porta, mas tendo o cuidado de colocar as pernas dela para
dentro, antes. Rodeou o carro correndo, abriu a porta e jogou-se no banco.
Fechou a porta, ofegante. Estava agora toda molhada, tremendo de frio e cansada
com o esforço. Mas o que tinha de fazer já estava feito.
Olhou para a
mulher. Não era uma boa coisa olhá-la. Estava coberta de lama da cabeça aos
pés. A chuva havia retirado parte da lama, mas ainda estava bastante suja. Só
dava para ver que era branca e tinha os cabelos claros. Havia desmaiado e
mantinha-se imóvel, com o rosto caído para o lado. Será que estava ferida? Não
dava para ver, com tanta lama e na escuridão da noite. Não podia descobrir isso
agora. Tinha que prosseguir.
Colocou o carro em movimento. O temporal continuava forte e tinha de
prestar a máxima atenção na estrada.
Durante mais de uma
hora, Graham prosseguiu debaixo do temporal. Então, notou que o fenômeno foi
diminuindo de intensidade, até se tornar uma simples chuva fina. Os relâmpagos
e trovões cessaram e a visibilidade ficou bem melhor, fazendo-a aumentar a
velocidade do carro. Deu um suspiro de alívio quando avistou o atalho que
levava até o seu rancho. Entrou nele com cuidado e prosseguiu por mais quinze
minutos. E o seu rancho surgiu à sua frente, iluminado pelos faróis do carro.
Graham suspirou aliviada. Sobrevivera ilesa à tempestade e finalmente chegara.
Parou diante da
casa de madeira rústica e desceu, rodeando o carro. A chuva continuava, mas não
era mais um problema. Abriu a outra porta e olhou para a mulher. Continuava
inconsciente. Teria que carregá-la para a casa. Seria melhor antes abrir a
porta da entrada e acender as luzes, para depois levá-la.
Dirigiu-se para a
casa com passos apressados. Abriu a porta e entrou. Acendeu as luzes da sala e
foi até o quarto. Apanhou dois cobertores no armário de roupa e voltou à sala.
Estendeu um cobertor no enorme sofá de couro cru e saiu. Foi até o carro e
debruçou-se para a mulher. Ela gemeu, quando a tocou. Bom, pelo menos, estava
recuperando-se. Pegou o braço dela e passou-o pelo seu pescoço. Puxou-a pela
cintura, rodeando-a, e colocou a outra mão sob os joelhos dela. Tirou-a do
carro, intimamente praguejando. Por que justamente ela tivera o azar de
encontrar aquela mulher? Além da tempestade que passara, agora aquilo!
Carregou
a mulher apressadamente, antes que ela escorregasse para o chão. Entrou na
casa, levando-a direto para o sofá.
Então, deixou-a cair sobre o móvel. Ela ficou com as pernas pendentes.
Ergueu-as, estirando-as. Pronto. Tarefa cumprida. Agora, tinha de despí-la
daquelas roupas sujas e enxarcadas. Desabotoou a blusa, brigando com os botões
escorregadios de lama. Abriu-a, passou um braço por trás das costas dela,
ergueu o tronco e tirou a blusa, jogando-a no chão.
Agora, a
saia. Puxou-a com esforço, rasgando-a, já que o ziper enguiçara. Por último, o
sutian e a calcinha, também enxarcados. Mas, mesmo sujos de lama, deu para
notar que eram peças caras, de renda
francesa.
Graham sorriu.
Seria uma dama, a ilustre desconhecida? Olhou para o corpo nu. Tinha contornos
bem feitos, mas não dava para avaliar bem com aquela sujeira. Foi até o
banheiro e apanhou toalhas, sabonete, esponja e um balde com água quente do
chuveiro. Levou tudo para a sala e puxou uma cadeira para perto do sofá,
sentando-se. Molhou a esponja na água, passou o sabonete e começou a tarefa de
tirar a lama daquele corpo.
Começou pelo rosto.
E se surpreendeu quando retirou a lama e foi revelado os traços delicados, as
sombracelhas arqueadas e naturais de desenho perfeito, os cílios longos e
espessos, o nariz reto, a boca de lábios carnudos e vermelhos, o queixo
delicado, a pele cremosa . Era um rosto que a encantou.
Empolgada, Graham
prosseguiu rapidamente. Cada pedaço do corpo que surgia, demonstrava a beleza
delicada daquela mulher, as formas perfeitas.
-Estou
desenterrando um tesouro... - Falou baixinho, emocionada com a descoberta.
Limpou o corpo
todo, deixando por último as mãos
de dedos finos e elegantes, pequenas em comparação às suas. Quando
acabou de limpar os pés, afastou-se para olhá-la, como um escultor ao
contemplar o término de sua obra.
Que seios belos!
Cheios e redondos, com auréolas e biquinhos rosados, duros e insinuantes, como
duas frutas saborosas. O ventre chato, o púbis coberto de pêlos delicados
alourados, as coxas e pernas fortes, bem torneadas, os pés delicados. Olhou
para os ombros, os braços, tudo formando um conjunto belíssimo. Só faltava agora
lavar os cabelos dela, para completar sua obra.
Ela abriu os olhos
subitamente e Graham viu um par de olhos verdes de mar tropical, translúcitos e belíssimos. Mas o medo nublou
aqueles olhos, quando se fixaram em Graham. Ela sentou-se bruscamente e ao se
ver nua, cruzou os braços sobre os seios,
olhando-a em pânico. Graham fez um gesto apaziguador e sorriu, tentando
acalmá-la.
-Não tenha medo -
Disse - Agora está tudo bem.
Ela abriu a boca,
olhando em volta. Tornou a fechá-la e a fitou cheia de suspeitas.
-Onde... onde estou?
A voz saiu cheia de
receio. Mas Graham apreciou aquela voz suave.
-Eu a recolhi na
estrada. Você estava acenando na chuva, pedindo ajuda, e desmaiou. Trouxe-a
para minha casa - Explicou Graham, suavemente.
-Quem é você?
A pergunta soou
como uma acusação. Graham suspirou.
-Sou Graham
Gladstone.
-Por que estou sem
roupa?
-Eu as tirei.
Estavam enxarcadas de lama.
Ela a encarou com o
cenho franzido.
-Não precisava
fazer isso. Eu mesma podia cuidar disso, quando acordasse.
Graham perdeu a
paciência. Olhou-a séria e falou com frieza:
-Escute, garota!
Não quero que me agradeça por ter tirado você lá da estrada, debaixo do maior
temporal, por tê-la arrastado até aqui, por tê-la limpado da sujeira que
estava. Mas espero que se mostre ao menos delicada!
Ela ficou olhando-a
em silêncio. Pareceu cair em si. Sorriu fracamente, mostrando dentes alvos e
perfeitos.
-Desculpe-me... não
quis parecer mal-educada e mal-agradecida. É que passei momentos horríveis,
ainda estou fora de meu normal.
Graham sorriu
também. Entendeu-a. A moça estava desorientada, pelo que havia passado.
-Tudo bem. Pode
contar-me o que aconteceu? Por que estava naquela estrada sozinha, naquele
temporal?
Ela passou a mão
pelos cabelos. Fitou-a assustada.
-Jesus, o que tenho
nos cabelos?
-Lama. Estava toda
coberta de lama. Eu ia lavar os seus cabelos, quando você despertou.
Ela pestanejou,
confusa. Olhou para Graham com uma humildade que a comoveu.
-Posso... posso
tomar um banho? Uma ducha?
Graham sorriu.
-Claro! Já pode
fazer isso. Vou apanhar minha mala no carro, tenho roupas que acho que lhe
servirão. Espere aqui.
Ela tornou a cobrir
os seios com as mão. Graham jogou o outro cobertor para ela.
-Enrole-se no
cobertor. Está frio. Quer ir logo para o banheiro?
Ela assentiu,
pegando o cobertor e o jogando nas costas, transpassando-o no corpo. Ergueu-se
do sofá e a fitou em espectativa.
-Venha, vou mostrar
onde fica o banheiro - Disse Graham, adiantando-se. Ela a seguiu, subindo o
lance de escadas até o segundo pavimento da casa. Pararam no corredor, com três
portas. Graham as indicou, explicando:
-Aquela é a porta
do meu quarto. A outra, do meu escritório. E a última, a do banheiro.
Empurrou a porta e
entraram. O banheiro comportava uma banheira, um box com ducha, uma bancada de
mármore, um pequeno armário e vaso sanitário. Era pequeno, mas com uma
decoração alegre, de flores amarelas nos azulejos de cor creme.
Olhou para a moça,
que a fitava atentamente.
- Pode entrar. Vou
apanhar roupas para você vestir, no armário tem toalhas limpas.
Saiu, fechando a
porta. Desceu as escadas e saiu da casa, correndo até o Land Rover e apanhando
sua mala, a mochila e a bolsa. Fechou a porta do carro e voltou para casa,
debaixo da chuva fina.Levou tudo para seu quarto. Abriu a mala e escolheu um
conjunto de trainning de malha grossa. Juntou um par de meias de lã e uma
calcinha nova., voltando ao banheiro. A porta do box estava fechada e o vapor
da água quente deixara o vidro fôsco, impedindo que Grahan visse a moça tomando
banho. Isso era bom. Não queria constrangê-la. Depositou as roupas em cima da
bancada e anunciou:
-Está tudo aqui, em
cima da bancada. E no armário encontrará toalhas e chinelos. Use o que quiser.
-OK! - Gritou a
moça, sobre o som da água - Obrigada, Grahan!
Grahan saiu do
banheiro e fechou a porta. Voltou ao seu quarto e olhou-se no espelho da
parede, sorrindo. Estava imunda, toda suja de lama. A lama do corpo da moça
tinha sujado-a toda. Até em seu rosto tinha lama. Devia ser do cabelo dela, que
encostara em seu rosto quando a carregara para dentro da casa. Ela devia ter se assustado com o seu aspecto.
Separou peças de
roupa para seu uso. Calças jeans desbotadas, camisa de flanela, meias e
calcinha. Guardou o resto das roupas no armário, pegou a valise com os vidros
de perfume, desodorante, sabonetes, pasta dental e shampoo e a colocou perto
das roupas separadas, para levá-los para o banheiro. Pela porta aberta do
quarto, viu a moça sair do banheiro já vestida, esfregando vigorosamente os
cabelos com uma toalha. Ela menor do que pensava. As roupas sobravam nas mangas
e na barra da calça comprida. Ela tivera que dobrar a roupa nesses pontos, sem
que isso a tornasse menos encantadora. Os chinelos de couro sobravam nos pés
delicados. Tinha um encantador ar juvenil, com os cabelos louros alvoroçados.
Ela a viu olhando-a
e se aproximou, parando na porta, sorrindo.
-Olá... que bom
voltar a sentir-me limpa! Agora, sinto-me outra!
Grahan sorriu,
pegando suas roupas e a mochila.
-Agora, quem vai
tomar banho sou eu! Estou imunda!
Ela a fitou
sorrindo.
-Posso descer para
a sala de estar?
-Claro, espere-me
lá. Se quiser, pode ligar a televisão.- Respondeu Grahan, olhando para a massa
de cabelos louros.
Foi para o banheiro
e tirou a roupa suja, jogando-a na máquina de lavar.Entrou no box e abriu a
torneira, suspirando de satisfação com a água quente caindo sobre ela. Pensou
então que a moça nem tinha ainda lhe falado como se chamava. Parecia assustada
e desconfiada, mesmo agora que estava em segurança . Pois iria desvendar o
mistério dela.
Sorriu. A
sua velha mania
de ver mistério
em tudo, devido
à sua profissão
de escritora de contos policiais. O melhor era se concentrar em seu
banho.
Depois de um banho
prolongado, enxugou-se e se vestiu. Penteou os cabelos negros e curtos,
perfumou-se e voltou ao quarto, onde pegou um par de tênis e o calçou.Desceu
para o pavimento térreo,
pensando que estava
faminta. A moça estava parada perto do aparador, com um
porta-retrato nas mãos,
fitando-o atenta. Ao ouvir seus passos
voltou-se rapidamente e a olhou assustada, jogando o porta-retrato sobre o
aparador, como que pêga em um ato reprovador.
Grahan sorriu para
ela, percebendo a tensão da moça.
-Assustei-a?
Ela sorriu,
parecendo descontrair-se.
-Sim, estou ainda
muito tensa.
-Não há mais
motivo, garota. Como se chama? Ainda não sei o seu nome -Disse, parando diante
dela, com as mãos na cintura.
Ela pareceu
hesitar, mas falou:
-Oh, desculpe-me...
meu nome é Maureen... Maureen Smith.
-Maureen, estou com
muita fome. Que tal comermos alguma coisa?
Ela assentiu,
fitando-a com certa timidez. Grahan a fitou nos intensos olhos verdes.
-Está mesmo se
sentindo bem? Pode ajudar-me a apanhar as compras que fiz, no carro?
-Sim, claro...
-Então,
acompanhe-me.
Foram até o carro e
apanharam os quatros sacos de mantimentos que Grahan havia comparado. Grahan
deu dois à ela para carregar e pegou os outros. A chuva fina havia passado e
regressaram à casa sem contratempos.Grahan colocou os pacotes sobre a mesa da
cozinha e começou a retirar os mantimentos, sob o olhar atento de Maureen.
-Temos pão de
centeio, aveia, bacon, hamburguer, ovos, frango, legumes e bolo de milho... o
que quer comer? - Perguntou Grahan, fitando-a. Ela sorriu, um sorriso mais
relaxado.
-Qualquer coisa,
Grahan. Você é muito gentil.
-Que tal uma sopa e
alguns sanduíches de hamburguer? O tempo está frio e uma sopa cairia bem.
-Tudo bem.
Grahan separou
cenouras, batatas, nabos e quatro hamburgueres. Colocou os legumes numa
travessa e começou a descarcar as batatas. Maureen sentou-se em uma cadeira e
ficou olhando-a em silêncio, atentamente. Grahan resolveu interrogá-la:
-Não vai me contar
como foi parar naquela estrada, debaixo do temporal?
Ela pareceu se
contrair.
-Oh, desculpe-me...
já devia ter explicado isso. Eu estava dirigindo uma motocicleta... o temporal
desabou de repente. Tentei prosseguir, mas a motocicleta derrapou e caí.
-Não vi nenhuma
motocicleta na estrada - Declarou Grahan, encarando-a.
Ela a fitou com
certa insegurança.
-A motocicleta
deslizou para o mato. Por isso, sujei-me de lama.
Grahan olhou-a,
estranhando que uma mulher estivesse dirigindo uma motocicleta de saia, sem
botas e casaco de couro, num clima frio como aquele. Não era adepta de
motocicletas, mas sabia que quem as dirigia, homem ou mulher, usava a
vestimenta própria para proteger-se do frio. E o capacete? E as luvas? Se ela
os estivesse usando, não os perderia no acidente. Maureen estava mentindo. O
por quê, não sabia.
-Você estava indo
para onde? - Perguntou, cética.
-Estava descendo a
estrada. Ia para a cidade.
-Alguém está
esperando-a? Se quiser, pode telefonar, avisando o que aconteceu. O telefone
está na sala.
Ela baixou o rosto,
fugindo do seu olhar.
-Não, não há alguém
esperando-me. Estou de férias e estava passeando sem destino.
-De onde você é?
Ela ergueu o rosto,
fitando-a.
-De Nova Iorque. E
você, Grahan? Não mora aqui, não é?
-Não. Sou da
Filadelfia. Venho para cá quando quero ficar só, para ter
alguma idéia para
meus livros.
Ela a fitou
surpresa.
-É escritora?
-Sou, escrevo
romances policiais. Tenho um contrato com uma editora de livros de bolso, que
me obriga a escrever um livro a cada dois meses. É um trabalho cansativo, mas
ganho razoavelmente.
Ela a fitou
especulativamente.
-Gosta do que faz?
-Bem... eu gostaria
de escrever algo mais literário, mas falta-me tempo e editor. Os livros de
bolso são mais rentáveis, dizem. Formei-me em Administração, mas descobri que
sentia-me mais realizada escrevendo, depois que venci um concurso na faculdade.
E parti para isso. Mas um dia eu vou poder dedicar-me à boa literatura. É o meu sonho.
Maureen sorriu, com
admiração no olhar.
-Aposto que
conseguirá, Grahan.
Grahan olhou-a,
curiosa. Queria saber mais sobre ela. Maureen a fascinava. Era linda,
misteriosa. Os cabelos, agora secos, emolduravam o seu rosto perfeito como uma coroa de ouro.
-Você é só, Grahan?
-Bem, tenho uma
irmã, mas ela é casada e mora no Canadá.
-Quantos anos você
tem?
-Trinta. E você?
-Vinte e sete.
Sorriram uma para a
outra. Grahan olhava aquele rosto angelical e sentia-se cada vez mais atraída.
Ah, Maureen!... Se soubesse de seu sentimento... provavelmente fugiria de medo.
Mas... quem era Maureen? O que fazia na vida? Por que mentira para ela, sobre
como havia ido parar naquela estrada? Estava mesmo de férias?
Colocou a sopa no
fogo. Fritou os hamburgueres na chapa e colocou-os em uma travessa. Então, sentou-se
em uma cadeira e olhou para Maureen. Ela a fitou sorrindo.
-Maureen, quer uma
dose de uísque? Acho que precisamos de uma bebida para esquentar. Está muito
frio.
-Aceito.
Grahan ergueu-se e
apanhou a garrafa no armário e dois copos. Olhou-a.
-Quer gelo?
-Não, puro mesmo.
Grahan colocou o
uísque nos copos e estendeu um para Maureen. Tornou a
sentar diante dela.
-Ao nosso
conhecimento - Brindou.
Maureen ergueu o
copo com um sorriso e depois tomou um gole.
-Grahan, você já
foi casada? Pelo que entendi, agora você está só.
Grahan a encarou
séria. Tomou um gole da bebida, antes de responder:
-Não, nunca fui
casada.
-Mas você é uma
mulher bonita e atraente. Nunca amou alguém, com quem quisesse casar-se?
Grahan fitou-a com
um sorriso irônico.
-Já amei, sim. Mas
não ao ponto de querer casar-me. E não com a intensidade que desejaria. Sempre
faltou algo.
-O que faltou? -
Perguntou ela, com olhar atento.
Grahan desviou a
vista daqueles olhos curiosos. O que podia dizer? Que as mulheres que tivera
eram fúteis e vazias?
-Não sei.
Tornou a olhá-la.
Maureen agora a fitava gravemente, séria.
-E você? - Jogou -
Não tem alguém a quem ame?
-Não... nunca amei
alguém. Tive algumas experiências... mas amor de verdade, não. Não tive a sorte
de sentir-me amada, ainda.
Grahan achou a voz
dela amarga. Nos olhos dela pareceu ver lágrimas. Ela fechou os olhos, suspirou
e tomou o resto do uísque. Colocou o copo sobre a mesa e a encarou com tristeza.
-Nós somos duas
mulheres solitárias, não é?
Grahan riu, à
aquela declaração. Maureen a fitou surpresa.
-Por que riu? Não é
verdade?
Grahan ergueu-se,
fitando-a divertida.
-Quanto à você, não
sei. Mas eu, solitária? Não é verdade. Estou sozinha por opção.Tem uma pessoa
que insiste em ficar comigo, mas não quero. E nunca tive problema sobre
interessar-me por alguém e não ser correspondida.
Ela a fitou com
certa tristeza.
-Felizarda... não
posso dizer o mesmo, no sentido de já ter tido alguém que me amasse de verdade.
Já tive muitas decepções.
-Isso é
surpreendente, numa mulher como você - Disse Grahan, impulsivamente.
Ela a fitou sem
entender.
-Surpreendente? Por
quê?
-Porque você é
muito atraente...
Ela sorriu,
radiante.
-Acha mesmo? Não
está falando isso para agradar-me?
Grahan a fitou com
calor. Inconscientemente, seu olhar revelou toda a admiração que ela lhe
provocava.
-Não, é o que vejo.
Você é uma mulher muito bonita. Tem tudo para agradar um homem.
Ela corou e baixou
os olhos. Tornou a fitá-la, sorrindo encantadoramente.
-Obrigada, Grahan.
Nunca ouvi alguém dizer-me isso, assim.
Grahan sorriu.
-Assim, como?
Ela a fitou nos
olhos.
-Com tanto calor e
sinceridade. Sinto isso em você.
Grahan olhou-a,
pensando se não tinha deixado transparecer demais a sua admiração. Destampou a
panela e viu que a sopa já estava cozida. Apagou o fogo e olhou-a com menos
calor.
-A sopa está
pronta. Vamos comer, estou morrendo de fome.
Serviu a sopa para
Maureen e serviu-se. Apanhou pão e mostarda e sentou diante dela, que a fitava atentamente.
Começaram a comer. Um silêncio incômodo
caiu sobre elas. Grahan sentia o olhar de Maureen sobre si, insistente. Parecia estar analizando-a. Ergueu os olhos
do prato e encontrou os olhos azuis fixos nela. Maureen lhe sorriu.
-A sopa está uma
delícia - Disse ela, olhando-a nos olhos.
-Obrigada. Mas sei
que não sou uma boa cozinheira. Só sei fazer coisas simples. Decididamente,
cozinhar não é minha função preferida.
-E o que gosta de
fazer, além de escrever?
-Ver tv, ler,
dançar. Estar com os amigos, fazer esportes. Pratico natação três vezes por
semana em um clube na Filadélfia.
-Ah!... notei que
tem um corpo de atleta - Sorriu Maureen - Está explicado.
Grahan riu da
observação. Ergueu uma sombracelha, intrigada.
-Corpo de atleta?
Como assim?
-Seu corpo
transmite força e vitalidade.
-Hum... deve ser
por causa de minha altura. Tenho um metro e oitenta.
Maureen a fitou
pensativa.
-Não é só por isso.
É algo que não sei definir.
Grahan sorriu, sem
ter o que dizer.
-Tem muitos amigos,
Grahan?
-Alguns. Uma meia
dúzia.
-Escritores como
você?
-Não.
Grahan deu uma
resposta curta, não querendo se estender sobre isso. Não queria expor sua vida
muito. Não sabia quase nada de Maureen. Olhou-a pensativa. Ela era esperta.
Fazia perguntas, ao invés de responder. Era uma tática astuciosa. Não lhe
deixava chance de fazer suas perguntas. Mas ia mudar aquilo. Se Maureen era
esperta, ela também era.
-O que faz na vida,
Maureen? Disse-me que estava de férias.
Ela sorriu, meio
confusa.
-Oh! Você ainda não
sabe nada de mim! Desculpe-me... estou de férias do trabalho. Sou... secretária.
-É mesmo? E gosta
do seu trabalho?
-Um pouco... é
cansativo.
-Mora só, ou com a
família?
-Moro com minha
família. Minha mãe, meu padastro, meu irmão e sua mulher.
-E o que faz para
divertir-se?
-Oh... gosto de
esquiar, de equitação, de ler bons livros, de ir a concertos de jazz , ir ver
apresentações de balé e viajar.
Grahan a olhou
surpresa.
-Caramba! Seus
divertimentos são caros! Para quem mora em Nova Iorque, é preciso ter muita
grana para fazer tudo isso!
Ela a fitou confusa
e ruborizada.
-É mesmo? Eu...
acho tão comum...
-Bem, se seus pais
têm posses, isso é possível.
Maureen ergueu-se e
se espreguiçou, parecendo uma gata.
-Estou
cansadíssima, Grahan. Onde poderei dormir? A casa só tem um quarto, não?
-Sim, mas posso
fazer sua cama no sofá da sala. É bem espaçoso.
Ela a fitou com um
súbito medo no olhar.
-Sozinha na sala?!
Não, por favor, Grahan!
Grahan sorriu,
divertida com o medo dela.
-Tem medo? Aqui não
tem fantasmas ou ladrão, não se preocupe.
Ela a fitou
suplicante. Grahan notou que ela realmente estava com muito medo.
-Não brinque, por
favor! Grahan, deixe-me dormir em seu quarto, com você! Eu durmo no tapete, não
vou incomodá-la!
Grahan ergueu-se,
olhando-a surpresa. Ela parecia uma criança pedindo ajuda, em meio a um
pesadelo. Aproximou-se dela, segurando-a pelos ombros. Os olhos medrosos a
fitavam com ansiedade.
-Calma, Maureen.
Por que esse medo todo? Está bem, você vai dormir comigo. A cama é espaçosa.
Apenas pensei que preferiria o sofá a dormir com uma estranha. Ela acalmou-se e a fitou nos olhos,
intensamente.
-É estranho... mas
parece que eu a conheço há muito tempo... você me transmite confiança. Um modo
simples de ver as coisas, sem dramas... um calor humano que nunca senti em
alguém.
Grahan sorriu.
Afastou-se e começou a recolher os pratos da mesa. Nem haviam tocado nos
hamburgueres. Guardou-os na geladeira e lavou os pratos e talheres, enxugou as
mãos e pendurou o avental. Voltou-se para Maureen. Ela a observava atenta,
prestando atenção aos seus menores gestos.
-Acabei. Também
estou exausta. Vamos dormir.
Subiram as escadas,
depois de apagarem as luzes da sala e da cozinha. Maureen a seguiu em silêncio.
Abriu a porta do quarto, acendeu a luz e fez um gesto para Maureen entrar.
Então, lembrou do quadro. Mas era tarde demais. Devia tê-lo tirado da parede
antes de Maureen entrar ali. Maureen entrou no quarto e olhou em volta, curiosa.
O quarto era
espaçoso, com as paredes forradas com papel cinza e flores azuis.Em uma parede,
os armários embutidos. Na outra, atrás da cama de ferro batido, um quadro de um
metro e meio de largura, representando duas mulheres nuas se beijando. Grahan
olhou para Maureen, rubra de embaraço. Fora um presente de uma mulher que
tivera. Ela a presenteara com o quadro dizendo que as mulheres pareciam com
elas, uma loura e outra morena. Maureen olhou em volta e seus olhos se
prenderam no quadro. Fitou-o demoradamente, inclinando a cabeça para o lado.
Não pareceu chocada, como Grahan esperava. Olhou finalmente para Grahan e
sorriu. Os olhos se desviaram para o tapete azul, para a poltrona de veludo e
voltaram a fitá-la.
-É um quarto muito
aconchegante e confortável, Grahan. Gosto da cor azul.
Grahan desviou-se
para o armário, apanhando dois cobertores e lençóis. Puxou a colcha que forrava
a cama, dobrou-a, estendeu os lençóis, os cobertores, e apanhou travesseiros e
forrou-os, colocando-os na cama. Maureen a observava em silêncio.
-Tenho pijamas que
servirão em você - Avisou, olhando-a.
-Não tem camisola?
- Perguntou ela, com um sorriso. Grahan enrubesceu.
-Não. Prefiro
pijamas. E o clima daqui é sempre frio.
Maureen sorriu
candidamente.
-Dê-me somente a
parte superior do pijama. Não sinto frio nas pernas.
-Tudo bem.
Apanhou um pijama
de flanela cinza e uma camisa de outro, de seda azul. Estendeu-o para Maureen.
-Acho que este dará
em você.
Maureen o pegou e
colocou sobre a cama. E começou a tirar a roupa. Tirou a blusa, descobrindo os
seios perfeitos, puxou a calça comprida, sentando-se na cama para acabar de
tirá-la. De calcinha apenas, estendeu a mão para a blusa do pijama.
Grahan a olhava
paralizada, em estado de choque. A naturalidade de Maureen a pegara
desprevinida. Aquela nudez, a visão inesperada daqueles seios perfeitos, do
estômago bem definido e coxas fortes, deixara seu coração aos pulos no peito.
Ela a encarou,
vestindo a blusa do pijama. Tinha um ar divertido nos olhos e na boca, como se
estivesse se divertindo com sua reação à sua nudez.
-E você, não vai
trocar de roupa? - Perguntou, com voz suave.
Grahan engoliu em
seco. Olhou-a confusa.
-Oh, claro... vou,
sim...
Foi saindo para o
banheiro, quando ela a chamou. Voltou-se. Maureen se erguera e abotoava o
pijama, olhando-a com um ligeiro sorriso.
-Está com vergonha
de mim? Vai trocar-se no banheiro?
Grahan parou,
olhando-a. Imaginou se Maureen estava percebendo o seu embaraço e se divertindo
com ele. Resolveu agir naturalmente.
-Eu, com vergonha?
Absolutamente!
Maureen acabou de
abotoar o pijama e meteu-se na cama, embaixo das cobertas, olhando-a em
expectativa. Grahan respirou fundo. Não iria fazer papel de idiota. Tirou a
blusa e a calça rapidamente.
Apenas de calcinha, apanhou o pijama e o vestiu, olhando para Maureen. Ela a
olhava atenta. O sorriso sumira de seus lábios sensuais. Grahan apagou a luz e
deitou ao lado dela, evitando tocá-la.
-Grahan...
-Sim...
-Posso continuar
aqui por alguns dias? Não vai mandar-me embora amanhã?
A voz soou medrosa.
-Depende...
Ela voltou-se para
seu lado. O joelho dela encostou na coxa de Grahan, quente e macio.
-Depende de quê?
-De você não se
importar de ter como companhia uma pessoa que passa a maior parte do tempo
escrevendo.
-Oh, claro que não!
Então, posso ficar?
-Pode...
Grahan sentia
aquele joelho queimar em sua coxa. Afastou-se disfarçadamente.
-Oh, Grahan, que
bom! - Disse Maureen, estendendo a mão e apertando a sua. Grahan estremeceu ao
contato daquela mão quente e macia.
-O que foi? -
Perguntou Maureen.
-Tive um arrepio de
frio - Mentiu.
Ela soltou sua mão.
Ficaram em silêncio. O coração de Grahan batia descompassado. Estava imóvel,
com medo de encostar em Maureen. Não sabia o que poderia acontecer, se isso
ocorresse. Nunca lhe acontecera aquilo. Dormir com uma mulher desejável, sem
poder tocá-la. Era uma tortura o desejo que sentia de agarrá-la.
Finalmente, ouviu o
suave ressonar de Maureen. Voltou-se de costas para ela, tentando não pensar na
presença dela. Mas era difícil. O suave perfume dos cabelos dela, o calor que
emanava daquele corpo, tudo a fazia sentir aquela proximidade excitante. Custou
a dormir, mas finalmente o cansaço a venceu. Dormiu profundamente e sonhou que
olhava para Maureen e a via transformar-se em uma outra mulher, a qual não
conseguia ver o rosto. Ela lhe
estendia a mão e não conseguia alcançá-la, então gritava.
continua na parte 2
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