Parte 4
Marla encontrou Soogh
diante do painel de controle da nave.
Ele a viu chegar
e a fitou com ar preocupado.
-O que houve, Marla? Está com um olhar
tão triste!
Marla percebeu que não
podia enganar seu amigo sobre seu humor. Ele a conhecia há muito tempo .
-Bem, Soogh... realmente, as coisas para
mim não estão indo bem.
-O que há? É essa missão, não é?
Marla optou pela explicação mais fácil:
-São problemas pessoais. Estou
apaixonada por quem não devia.
Soogh fitou-a surpreso.
-Você, apaixonada?! Quem é a pessoa que
conseguiu esse prodígio?
Marla enrubesceu e baixou os olhos.
-Jana, a mulher do coronel Blue.
Soogh arregalou os olhos.
-Marla! Você acabou de conhecê-la!
Marla o fitou com tristeza.
-Não, eu a conheci ontem,
no Centro Sexual. Ela enganou-me, Soogh. Disse que era uma hetaira, que estava
apaixonada por mim. Ela não disse a verdade, que era mulher do coronel Blue,
nem que estaria nessa missão. Estou suspeitando que ela é uma espiã.
-Maldição! Sinto muito,
Marla. Depois de tanto tempo sozinha, você apaixonar-se por uma mulher
comprometida, ainda mais com o coronel Blue!
-Mas estou tentando esquecê-la, Soogh.
Estou muito decepcionada.
-Bem, diante disso tudo, acho o mais
razoável.
-Bem, vou comer alguma coisa no refeitório.
Quer acompanhar-me?
-Não posso. O coronel
pediu-me uma lista da carga embarcada e está vindo buscá-la. Você pode
trazer-me alguma coisa para comer?
-Alimento natural, ou o pacote
nutritivo?
-Alimento natural.Detesto comer
aquelas esferas gelatinosas de nutrientes, imitando sabores! Prefiro leite,
ovos e legumes. Pode chamar-me de
glutão, mas adoro comer bem.
Marla riu.
-Tudo bem, glutão, vou trazer essas
coisas para você.
Marla saiu da cabine e
dirigiu-se para o refeitório. A equipe comia ali, menos os soldados-cyborgs,
que só consumiam energia.
Entrou no salão, que
estava cheio. Cada chefe de equipe comandava cinco pessoas,
o que fazia um total de quarenta pessoas na tripulação.
Foi até a prateleira com
alimentos e escolheu um pacote de comida
gelatinosa para ela e um pacote de
leite, ovos, salada e torta de maçã para Soogh. Colocou tudo numa bandeja e ia
retirar-se quando ouviu uma voz chamando-a. Voltou-se e viu Jana sentada em uma
mesa com Noelle.
A médica geneticista fez um sinal para
que se aproximasse.
Marla as fitou indecisa.
Noelle insistiu e Jana apenas a olhava com uma expressão indecifrável. Resolveu
ir até elas. Não por Jana, mas por Noelle. Não podia ser rude com a
geneticista, já que iriam trabalhar juntas, e além disso, Noelle era uma bela
mulher. Era tempo de Jana ver que não estava desprezada, como devia pensar.
Aproximou-se e notou que
Jana evitou seu olhar, fingindo concentrar-se na comida. Ela era adepta da
comida espacial. Espetava as esferas gelatinosas com um garfo.
Já Noelle, sorriu-lhe sedutoramente.
-Sente-se conosco, capitã. - Disse
Noelle - Dê-nos o prazer de sua companhia.
Marla sorriu para ela, pousando a
bandeja na mesa.
-É muito amável, doutora Sky. Está bem.
-Oh, trate-me por Noelle, detesto ser
chamada por meu segundo nome!
Marla sentou diante delas. Noelle olhou
sua bandeja, admirada.
-Oh! Vejo que gosta de comer bem,
capitã!
Marla a fitou, abrindo o pacote de
alimento.
-Não vou comer tudo isso.
A comida natural é para o piloto Soogh, que não pôde vir aqui.
-Ah! Eu só podia estar enganada,
pensando que você iria comer tudo isso!
Marla ergueu uma sombracelha.
-Por que devia estar enganada?
Noelle a encarou com um olhar
insinuante.
-Por que tem um físico muito certinho,
capitã... Melhor dizendo, perfeito. Muita gente já deve ter dito isso a você.
Marla enrubesceu, por Jana
ter ouvido aquele flerte evidente. Seu olhar correu para ela. Jana havia parado
de comer, com o garfo suspenso diante da boca. Seria impressão sua, ou estava
vendo naqueles olhos a chama do ciúme? Ela fitou Noelle com o cenho franzido,
os olhos luzindo. Olhou para Marla e pareceu controlar-se, levando a esfera à
boca. Baixou os olhos.
Marla sentiu uma intensa
satisfação com a reação dela. Era bom ela provar o mesmo que lhe provocara, com
suas mentiras. Olhou para Noelle e sorriu maliciosamente.
-Acha isso de mim? Mas
devo dizer que seu corpo não fica nada a dever, comparado ao meu.
Noelle sorriu luminosamente, fitando-a
com vivo interesse.
-Obrigada, capitã. Um elogio seu é uma
honra para mim.
Jana ergueu-se subitamente. Seu olhar
estava brilhante de raiva contida e comprimia os lábios nervosamente.
-Vou indo. Preciso
verificar uns equipamentos. - Declarou, saindo antes que alguém pudesse retrucar.
Noelle olhou para Marla, que comia
calmamente.
-O que houve com ela?
Marla sorriu para ela.
-Não sei. Provavelmente, sentiu falta do
marido.
Noelle riu.
-Falta daquele
brutamontes? Duvido disso. Sabe, não consigo acreditar que eles se amam. São
tão diferentes! Para mim, Jana está com ele por ambição.
Marla a fitou com dureza.
Algo dentro dela se revoltou ao ouvir Noelle falando mal de Jana.
-Doutora, o que mais
detesto em meus subordinados é eles fazerem comentários maldosos ou intrigas sobre
colegas! Mantenha-se ocupada com seu trabalho e guarde suas conclusões para
você mesma!
Noelle abriu a boca em
surpresa .
-Eu...uh.. desculpe, isso
não vai acontecer mais.
-Vamos mudar de assunto.
Então, como está o seu projeto de trabalho em Marte?
-Está indo bem, vou testar
o desenvolvimento de algumas plantas alimentícias que foram manipuladas
geneticamente para se desenvolverem no solo marciano. Elas se alimentarão de
ferro, que é rico no solo marciano, e adaptadas para a composição química da atmosfera
marciana.
Conversaram sobre o
trabalho de Noelle e Marla acabou a refeição. Despediu-se dela e dirigiu-se
para a cabine com a comida de Soogh.
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Durante o resto da viagem, Marla viu Jana poucas vezes. Em todas essas
vezes foi para discutir seu trabalho, em reuniões da equipe. Ela parecia
evitá-la e Marla achou melhor assim. O que devia agora ocupar seus pensamentos
era a missão.
Estavam quase chegando ao
planeta, quando Marla e Soogh perceberam no radar a aproximação de duas naves.
Marla comunicou ao coronel
Blue o evento e ele veio à cabine acompanhado por Jana.
Ele parecia excitado com a notícia.
-Capitã, já fez contato
com as naves? - Perguntou ele, aproximando-se.
-Não. Estou aguardando sua
decisão para os procedimentos.
-Faça o contato agora.
Marla ligou o rastreador
de contato. Falou com voz clara:
-Nave Titã, código de
contato ZY72242. Pedindo identificação de naves aproximando.
Momentos depois, veio a
resposta pelo comunicador de bordo:
-Identificação negada.
Ordenamos que a nave Titã siga nossa escolta para a cidade de Castor.
Marla olhou para o coronel
Blue.
-Não devemos obedecer. Não
sabemos o que pretendem. Temos que reagir.
O coronel Blue sorriu
astutamente.
-Não, vamos fazer o que
mandam.
Marla o fitou incrédula.
-Coronel, numa situação
dessa o manual de procedimento manda que ...
-Não questione minhas
ordens, capitã.
Jana a fitou nos olhos com
um olhar determinado.
-Obedeça, capitã. Uma
batalha agora seria suicídio.O coronel Blue tem poder para alterar o
procedimento padrão.
Marla a fitou friamente.
Depois, para o coronel.
-Coronel, espero que eu
não tenha de ficar discutindo normas de procedimento com meus subordinados.
Saiba que o que decidir, será de sua inteira responsabilidade.
O coronel sorriu
debochadamente, o que irritou Marla ainda mais.
-Faça o que eu digo,
capitã. Jana tem razão. É o melhor procedimento.
-Coronel, é o comandante
dessa missão. Respeito isso e não vou discutir suas ordens, mesmo que não
concorde com elas. Mas ainda sou a capitã dessa nave e exijo o mesmo respeito
que concedo a um superior. Se a tenente Jana se julga no direito de tomar
decisões sobre a nave e o senhor concorda com isso, a hierarquia e disciplina
acabaram. Eu nunca convivi com desorganização, coronel. Tenho um nome a zelar.
Se não reconhece a minha autoridade e prefere seguir as idéias da tenente Jana,
demito-me da missão.
Ele a fitou surpreso.
Depois, sorriu forçadamente.
-É a primeira vez que um
subordinado meu me dá um ultimato e me censura!
-É apenas uma atitude para
resguardar minha autoridade, coronel. Espero sua decisão. Agora.
Ele riu.
-É corajosa, capitã. Gosto
disso. Mas você vai seguir uma ordem minha, não uma sugestão dela. E a ordem é
não reagir.
-Muito bem. Farei o que
quer.
O comunicador voltou a
receber uma mensagem das naves:
-Ordenamos que permitam a
acoplagem de uma de nossas naves. Queremos ir à bordo.
Marla olhou para o coronel. Ele assentiu.
Minutos depois, uma das naves fez o acoplamento
com a Titã. E vários homens armados com canhões de laser penetraram na Titã.
Eles tinham o rosto cobertos por capacetes espaciais e macacões protetores
azuis. Um deles falou pelo microfone do capacete:
-Quem é o comandante da nave?
O coronel Blue adiantou-se.
-Sou eu. Coronel Blue.
O homem o fitou.
-Tenho ordens para levá-lo para nossa nave e à sua
mulher. Quem é ela?
Jana adiantou-se.
-Sou eu. Jana.
-Vamos indo. A nave deve seguir-nos e pousar em
Castor, no nosso espaçoporto.
Jana e o coronel
seguiram os homens sem protestar. Pouco depois, o acoplamento se desfez
e a Titã prosseguiu seu caminho, depois de Marla dar a Soogh as novas
coordenadas.
Marla não podia evitar de se preocupar com Jana,
apesar de tudo que havia acontecido. Estava claro que as naves eram do governo
rebelde de Castor. E Jana e o coronel Blue haviam sido transferidos para a nave
dos rebeldes como reféns, numa garantia que a Titã seguiria a ordem. Mas havia
uma pergunta no ar: por que os rebeldes haviam escolhido Jana, e não ela, a
capitã? O homem havia sido bem específico: tinha ordens para levar o coronel e
sua mulher. Então, os rebeldes sabiam que o coronel tinha uma esposa.
Anoitecia em Castor quando a Titã pousou no espaçoporto da cidade .
Castor era protegida por uma cúpula
transparente como Worldsea, na Terra. A
cúpula tinha uma imensa comporta para lançamentos e chegadas de naves, que não
permitia que a atmosfera mortal do planeta
penetrasse na cidade.
Quando a Titã saiu da comporta e estacionou na
área de pouso do espaçoporto, Marla ordenou a Soogh a despressurização da nave.
Logo que terminou o procedimento, ela anunciou no comunicador:
-Atenção, tripulantes da Titã. Fizemos um pouso de
emergência na cidade de Castor. Estamos aguardando ordens para os próximos
procedimentos. Até segunda ordem, estão proibidos de sair da nave . Repito,
estão proibidos de sair da nave. Aguardem novas instruções.
Ela desligou e olhou para Soogh, que a fitava
espectante.
-Soogh, você fique alerta. Vou sair e fazer uma
inspeção por aí. Preciso certificar-me que o coronel e Jana estão bem.
Ele a fitou com preocupação.
-Marla, não é melhor esperar? E se os rebeldes
atacarem você?
-Não creio que farão isso. Nós fizemos tudo que
eles queriam. Tenho que ir, Soogh. Não posso ficar inerte, esperando os
acontecimentos. Levarei um rastreador em meu cinto, assim você poderá saber
onde estou.
-Ok, capitã. Mas tenha cuidado.
Marla colocou o capacete de proteção, colocou uma
pistola de raio paralizante na cintura e saiu da nave pela rampa trazeira, no
final da nave.
O espaçoporto estava com várias naves pousadas e
havia um pelotão de soldados castorianos em volta da Titã. Um dos homens, com
uma divisa de capitão, a percebeu e ordenou, com voz ameaçadora:
-Não se mova!
Marla o fitou erguendo uma sombracelha.
-Sou a capitã Marla Flash, da nave Titã. Quero
saber onde estão meus companheiros, o coronel Blue e sua esposa.
Ele sorriu com desdém, aproximando-se.
-Não está em situação de querer nada, capitã.
Entregue-me sua arma e não tente nada.
Marla pesou sua situação. Ali havia mais de trinta
homens armados. Seria loucura reagir. O melhor era concordar com a ordem e
aguardar os acontecimentos. Pegou sua arma com movimentos lentos e estendeu
para o homem. Ele sorriu astutamente.
-Jogue no chão e a chute para cá.
Marla fez o que ele mandou. Ele recolheu a arma e
a olhou sorrindo.
-Uma arma paralizante... sempre quis uma dessas.
-Ei, essa arma é minha - Disse Marla - não a estou
presenteando a você.
Ele a fitou irritado. Aproximou-se e encostou a arma
em seu peito, olhando-a de perto. Um sorriso mostrou seus dentes tortos.
-É muito atrevida, capitã... talvez precise
aprender quem manda aqui.
Ele ergueu o punho para agredir a capitã. A sua
tentativa foi percebida e Marla agiu fulminantemente. Ela pegou-o pelo pulso,
girou e o puxou com força. O homem voou sobre seu ombro e se estatelou no chão.
Ele a fitou furioso e humilhado, esticando a mão
para a arma caída no chão.
-Maldita! Vai pagar por isso!
-Parem com isso! - Uma voz gritou atrás de Marla.
Marla voltou-se, ainda em sua pose defensiva. E
ficou paralizada com a visão.
Uma mulher toda vestida em negro, com uma máscara
cobrindo quase todo o seu rosto, aproximava-se, seguida por dois homens. Seu
andar era imponente e sensual, com a roupa aderida ao corpo mostrando todas as
curvas sensuais, uma capa negra que era presa em seu colo por um broche de ouro
com uma efígie de pantera, botas negras de cano longo quase até os joelhos. A
máscara era um capacete negro brilhante, que vinha até o meio do rosto, só
deixando ver os olhos, a boca e o queixo.
Era uma figura impressionante e Marla esperou
imóvel até ela parar diamte de si, fitando-a com uns olhos muito azuis. Sua
boca bem feita, de lábios vermelhos, estava contraída com uma expressão de
aborrecimento.
-O que está havendo aqui? - Ela perguntou, no
idioma marciano.
Marla conhecia o idioma, era obrigatório, em sua
profissão. O idioma marciano era desdenhado em Worldsea, mas as colônias
marcianas de Pólux e Castor o usavam com orgulho. Era uma forma de expressar o
orgulho de ser marciano e frisar a nacionalidade independente.
-Esta mulher agrediu-me, Pantera Negra - Disse o
capitão, levantando-se do chão.
Ela o olhou e tornou a olhar para Marla.
-É verdade o que ele diz?
Marla encolheu os ombros, fitando a mulher sem
medo. Não ia se intimidar por ela ser a Pantera Negra.
-Eu me defendi. Ele tentou agredir-me primeiro.
-Ela estava sendo atrevida comigo - Defendeu-se o
capitão, com voz irritada.
-Tenha compostura, capitão Jex! - Disse a Pantera
Negra, com certa irritação na voz - Essa não é a melhor forma de receber nossos
aliados! Pode retirar-se com sua escolta, já tenho tudo sob controle.
O capitão obedeceu docilmente. Marla percebeu que
a mulher tinha uma liderança indiscutível sobre seus subordinados.
Ela voltou-se para Marla e um sorriso surgiu em
seus lábios.
-Bem, agora podemos nos apresentar adequadamente.
Sou a Pantera Negra e comando o exército de Castor e provisóriamente, o governo
da cidade.
-Sou a capitã Marla Flash, da nave Titã. - Disse
Marla, dando um leve cumprimento, com a cabeça.
O sorriso continuou nos lábios da Pantera Negra.
-Seja benvinda à cidade de Castor, capitã. Já
estive conversando com o coronel Blue na nave e sei que vocês vieram oferecer
ajuda à minha causa. Era o que precisávamos, armas mais modernas e uma nave
mais poderosa para combates.
-Pantera Negra, onde estão o coronel e sua mulher,
Jana? Eles vão continuar em seu poder? Eles são reféns?
Um brilho divertido iluminou aqueles olhos azuis.
-Eles não são reféns, capitã. Eles foram levados
para o palácio do governo, para um descanso merecido após a viagem
interplanetária. Breve você os verá. Está também convidada a descansar no
palácio.
Marla hesitou. Podia ser uma armadilha. As
primeiras ações do exército de Castor não haviam sido muito amigáveis. E se a
Pantera Negra apenas queria se apropriar das armas e da nave, matando sua
tripulação? Ela podia estar desconfiada daquela ajuda de pessoas pertencentes a
Worldsea. Ela não parecia ingênua ou idiota.
A Pantera Negra percebeu sua hesitação. Falou com
voz desafiante:
-Não confia em mim? É esta a amizade que nos oferece? Eu podia ter invadido a nave
quando nós a interceptamos e ter matado toda a tripulação. Tenho homens que
sabem pilotá-la. Mas estamos confiando que são amigos que vieram ajudar-nos. E
serão tratados como tal. Tem minha palavra.
Marla decidiu-se. Não podia demonstrar
desconfiança para a mulher. Tinha era que conquistar a confiança dela e para
isso, tinha que mostrar que estava sem prevenções.
-Muito bem, na ausência do coronel, tenho que
tomar decisões no lugar dele. Minha tripulação ficará na nave até eu encontrar
com o coronel e saber o que ele decidirá. Devo ir com você agora, ou devo
aguardar aqui na nave?
-Venha comigo, capitã. Poderá descansar e falar
com o coronel.
Marla ligou seu comunicador de pulso e falou:
-Soogh, está ouvindo?
-Estou na escuta, capitã - respondeu o piloto.
-Soogh, vou acompanhar a Pantera Negra até ao
palácio do governo de Castor. O coronel Blue e sua esposa estão lá. Fique no
comando até eu voltar. A tripulação deve permanecer na nave, até segunda ordem.
-Quem é a Pantera Negra? - Perguntou Soogh,
confuso.
-É a chefe dos rebeldes de Castor, Soogh. Ela está
aqui comigo. Até breve, Soogh.
Ela desligou e olhou para a Pantera Negra.
-Podemos ir.
A Pantera Negra fez um gesto com o braço,
sorrindo.
-Venha, capitã. Tomaremos minha nave para
transporte interno.
Marla seguiu a mulher, que era protegida por dois
oficiais. Foram até uma pequena nave que era dez vezes menor que a Titã. Marla
conhecia aquele modelo. Era usada para pequenas distâncias, dentro das cúpulas
das cidades. Comportava apenas seis passageiros.
Eles entraram na nave e Marla os seguiu. Os dois
homens sentaram no terceiro conjunto de poltronas, atrás da Pantera Negra. Ela
sorriu para Marla.
-Sente-se ao meu lado, capitã.
Marla sentou ao lado dela, afivelando o cinto de
segurança. A Pantera Negra falou no intercomunicador autorizando a partida.
Momentos depois, a nave se ergueu do solo e partiu.
Na claridade do interior da nave, Marla pôde ver a
mulher melhor. Tinha uns olhos muito azuis, a boca de contorno sensual, o
queixo meio quadrado, com uma covinha. A pele parecia ser macia e sedosa, pelo
menos a pele do rosto e pescoço, que estavam expostas.A Pantera Negra
parecia ser uma mulher de grande beleza,
pelo que deixava ver. As mãos estavam cobertas por luvas de couro negro. Um
perfume que Maela não identificou exalava suavemente dela. Marla sentiu uma
atração pela mulher e isso a confundiu.
-Chegaremos em quinze minutos, capitã. - A mulher
disse, fitando-a.
Marla a encarou.
-Estou curiosa. Sempre apresenta-se assim, com um
capacete escondendo seu rosto? - Perguntou Marla, atrevidamente.
A Pantera Negra sorriu ligeiramente.
-Não. Somente em público e em algumas ocasiões
privadas. Nem todos podem ver meu rosto, principalmente quando lido com
possíveis inimigos. É uma proteção para preservar minha segurança.
-Considera-me então uma possível inimiga?
-Isso só o tempo dirá.
Ela falava sempre no idioma marciano, que tinha
estranhas inflexões. Gostaria que ela falasse em sua língua, mas seria um
pedido que poderia insultá-la. Um marciano era muito orgulhoso de seu idioma.
Sentiu uma grande empatia por ela. A mulher era envolta numa áurea de mistério que
atraía, além de mostrar uma personalidade franca e dominadora. Era uma líder
nata.
E sua missão era traí-la! Isso a revoltava. Seu
caráter se rebelava com o papel que iria ter que fazer.
Ela notou seu olhar e a olhou também, atentamente.
-Gostei de você, capitã. Parece ser uma pessoa
leal. Já o coronel Blue, não confio muito. Algo me diz que ele é dissimulado e
prepara-me uma armadilha. Diga-me: Qual é o interesse que ele tem para
ajudar-me? Ele é mesmo um dissidente de Worldsea que acha o governo do
presidente com falhas graves?
Marla a fitou com reserva. O que podia responder,
sem trair a confiança de seu país?
-Pergunta isso à pessoa menos indicada, Pantera
Negra. Sabe que sou subordinada ao coronel , além de ser uma cidadã de
Worldsea.
-Você também é uma dissidente de Worldsea?
-Eu sou apenas a capitã da nave. Faço o que meu
superior ordena.
A Pantera a fitou com ironia, sorrindo. Os dentes
branquíssimos e perfeitos brilharam.
-Uma boa resposta, capitã. Não mente, nem delata
seu superior. Uma atitude correta, como eu esperava.
-Esperava? Por que? Não me conhece, para ter uma
idéia sobre meu caráter!
A Pantera ficou séria. O olhar não se desviou do
seu, provocando em Marla um arrepio. Ficou surpresacom isso. Como podia ter
essa reação com essa mulher, se amava Jana, apesar de tudo? Ela finalmente
respondeu, desviando o olhar:
-Tenho o dom de conhecer as pessoas pelo olhar. E
o seu é direto e franco.
Marla sorriu forçadamente, sentindo-se intimamente
culpada.
-Cuidado não enganar-se.
Ela tornou a fitá-la e disse com ênfase:
-Não me engano nunca! Por isso, continuo viva. Meu
irmão não ouviu meus avisos e perdeu sua vida. Eu sei que tem muita gente entre
meu próprio povo que deseja minha morte, capitã. São pessoas covardes e
interesseiras, que querem agradar ao governo de Worldsea para terem vantagens e
poder.
Marla sentiu o remorso dominá-la, por ter aceitado
a missão. Se ela soubesse o que tinha de fazer! Será que teria coragem de
traí-la? Olhou para o rosto semi-coberto. Como seria o resto dele? Pelo pouco
que mostrava, devia ser belíssimo. Belo como o de Jana.
A lembrança dela a entristeceu. Jana era do
general Thor. Ela a havia enganado. Nunca a teria para si.
-Está triste, capitã? Por quê?
Marla a encarou tentando disfarçar sua tristeza,
sorrindo.
-Não, apenas preocupada .
-Preocupada com o quê? Com o seu futuro? Aliás,
você sabe que agora não poderá mais voltar para Worldsea, a menos que queira
ser julgada por uma corte marcial e certamente executada. Você e toda a
tripulação são agora considerados traidores em seu país. O que a motivou a
seguir a decisão do coronel Blue? Você podia ter se rebelado e não ter seguido
as ordens dele.
-Não houve tempo para isso - mentiu - o coronel
apenas nos disse que nossa misssão era trazer à cidade de Castor um
carregamento de armas para a facção leal ao nosso governo. Quando a Titã foi
interceptada, foi quando soube que ele
havia se juntado aos rebeldes.
-Então, você não concorda com a decisão dele. É
uma inimiga minha.
Marla a fitou nos olhos. Pela primeira vez, foi
sincera em suas palavras.
-Não me sinto como sua inimiga. Na verdade, acho
sua causa justa. Você é uma patriota, que quer preservar o bem de seu povo.
A Pantera sorriu.
-Vejo que tem sua própria opinião, capitã. Isso é
bom. Então, posso considerá-la também uma aliada?
-Talvez, Pantera Negra - Declarou Marla, pensando
como evitar de trair aquela mulher. A verdade é que sabia que não teria coragem
para fazer isso. Estava além de sua lealdade a Worldsea. Primeiramente, ela tinha
de ser fiel à sua consciência, que lhe dizia que a causa daquela mulher era
justa. E Jana? Qual seria a posição dela, naquela missão?
-Pantera Negra, o que achou da mulher do coronel
Blue?
A pergunta pareceu pegá-la desprevinida. Ela a
fitou em silêncio. Marla a encarou.
-Não quer responder?
Ela colocou a mão sob o queixo, fitando-a
pensativamente.
-Por que quer saber disso?
-Uma curiosidade minha.
-Bem, não prestei muita atenção à ela. É uma bela
mulher e parecia assustada. É tudo que posso dizer sobre ela. Agora, devolvo a
pergunta: o que você acha dela?
-Parece ser uma boa profissional.
-Não, como mulher.
Marla a fitou embaraçada, enrubescendo
violentamente.
-Como mulher? Bem... pergunte ao coronel Blue, que
deve saber melhor que eu.
-Você a acha atraente?
-Eu... bem... não sei...
-Está muito reticente, capitã. Você é
heterossexual, apenas?
-Não. Sou homossexual, como metade de nossa
população em Worldsea.
-Então, responda-me. Está interessada nela, como
mulher?
-Eu? Não, absolutamente... ela é mulher do
coronel. E não me interesso por mulheres que não são livres. É uma questão de
princípio meu. Não sinto nada por Jana - Afirmou quase com raiva, lembrando como ela a
enganou.
A Pantera Negra a fitou profundamente nos olhos.
-Não está sendo sincera, capitã. Seus olhos dizem
outra coisa. Por que está mentindo? Tem medo que eu conte ao coronel? Tem minha
palavra que tudo que falarmos aqui, ficará entre nós apenas.
-Já disse, Jana é a mulher do coronel. E isso me
basta para não pensar nela como mulher.
-Seria um motivo frágil, se gostasse realmente
dela, capitã. Um casamento pode ser desfeito.
-Seria um motivo frágil se eu achasse que valia à
pena! - Marla declarou, incapaz de esconder a frustração em sua voz.
A Pantera desviou o olhar para a janela da nave,
que estava baixando em uma plataforma diante do palácio do governo. Era uma
construção em forma piramidal, com vários terraços, circundado por um luxurioso
jardim com plantas adaptadas da Terra. Um imenso lago artificial com aves
exóticas trazidas de Worldsea dava vida e beleza ao lugar.
-Estamos chegando, capitã.
Pouco depois a nave pousou e elas
desembarcaram.Dirigiram-se para a entrada do palácio, guarnecida por duas
fileiras de dez homens armados. A Pantera Negra fez uma saudação erguendo o
punho fechado e atravessaram a entrada, subindo uma rampa. Atravessaram um
enorme salão decorado com paredes mostrando imagens da topografia marciana em
alto relevo e pegaram um tubo elevatório que as conduziu a um andar superior.
Desceram e Marla se viu cercada por quatro portas de aço em um vestíbulo. A Pantera
simplesmente ordenou:
-Portal três, abra.
A porta deslizou para o lado, abrindo
silenciosamente.
Identificação por voz - pensou Marla.
Entraram e Marla observou em volta. Havia um enorme
sofá circular de cor branca, uma cascata vinda do teto em um canto, enchendo um
repucho oval com águas cristalinas. Numa mesa de centro, havia vários tipos de
frutas em bandejas. Uma enorme porta dava para um terraço, mostrando a cidade.
-Aqui é minha sala de descanso - Disse a Pantera
Negra - Vou tomar um banho e virei encontrá-la.
-E o coronel Blue e Jana? Quando os verei?
-Eles já devem estar dormindo. Amanhã os verá.
Espere-me aqui.
Sem mais, a Pantera Negra saiu por uma porta no
canto do salão. Marla suspirou e se dispôs a esperar. Foi até o sofá e sentou.
Olhou para as paredes. Eram decoradas com cenas de mulheres dançando ou fazendo
amor. Se tinha alguma dúvida da preferência sexual da Pantera Negra, isso já
havia dissipado com a decoração.
E agora? O que faria, diria a verdade à Pantera,
ou evitaria denunciar o plano do coronel e de seu presidente? Seria leal à
Pantera, seguindo sua consciência, ou seguiria sua lealdade ao seu país, mesmo
sendo uma missão suja, por motivos políticos?
Continua na parte 5
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