GUERREIRAS   ESPACIAIS

ESCRITO  POR  LETH  CROSS

 

Parte  1

 

Disclaime:  Esta é uma história Alt-Uber. Os personagens se assemelham `a uma dupla

 conhecida pertencente a Renaissance /MCA, mas não se infrige direitos autorais, por ser

                  uma história com personagens e texto de minha autoria sem visar lucro monetário.

      Aviso:  Esta história descreve explicitamente o amor e sexo entre pessoas do mesmo sexo.

                  Se isso vai contra o que pensa, ou você tem idade abaixo de 18 anos, NÃO A LEIA.

                      ********************************************************************

 

Prólogo

 

         Ano 2500. Depois de uma guerra nuclear, o clima do planeta Terra alterou-se de forma completa. Com a verticalização do eixo da Terra, com conseqüente inundações provocadas por maremotos, a geografia da Terra ficou limitada a uma grande nação, WORLDSEA, composta por apenas dois terços do seu antigo território conhecido por Estados Unidos da América, e por dois quartos da antiga América do Sul.

        Esse novo país multirracial, para lidar com a deficiência de água potável para a população, com sua tecnologia desenvolvida criou imensas plataformas espaciais como ponto de pesquisa e busca do precioso líquido em outros planetas do sistema solar. E em Marte encontrou a fonte dessa busca, em suas calotas polares.

        Duas colônias foram criadas em Marte, cada uma perto das calotas polares, para os empregados que faziam a  extração e transporte dos blocos de gelo para o planeta Terra. Mas com o passar dos anos, os empregados formaram famílias e o nascimento de pessoas em Marte se expandiu.  Essa geração se tornou nacionalista e contra a extração dos imensos blocos de gelo, dizendo que essa extração acabaria com a vida existente nas colônias. As calotas polares iriam ser extintas com a extração e as duas grandes cidades que nasceram da colonização pereceriam.

        O governo da cidade de Polux se mantinha favorável à extração. Mas o governo da cidade de Castor se negava a permitir a continuidade da extração, se rebelando contra o Governo Central de Worldsea. O governante rebelde de Castor decretou a cidade independente do Governo Central de Worldsea e o desafio foi respondido com intensos ataques do exército de Worldsea. O governante rebelde morreu em um desses ataques, mas sua irmã tomou o seu lugar na luta. Excelente estrategista, obteve várias vitórias nas batalhas e passou a ser idolatrada com o codinome Pantera Negra.

        É nesse ponto da luta que começa nossa história.

 

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        A nave Alpha V pousou na plataforma espacial da Cidade Azul, emitindo um silvo agudo produzido por seus motores movidos a energia nuclear.

        Marla Flash, a capitã da nave, olhou para o piloto Soogh e sorriu. Ela estava feliz pelo término da missão. Depois de sua viagem a Marte, no meio de uma guerra, havia conseguido chegar à Terra com sua preciosa carga de milhares de toneladas de gelo, intacta. Agora, só queria descansar da tensa viagem e passar o merecido mês de descanso em sua casa, na Cidade Verde. Mas antes de seu sonhado descanso, teria que apresentar-se ao comando, para entregar o relatório da missão.

        Na tela da nave apareceu a recepcionista do espaçoporto, dando as informações usuais para as naves que chegavam:

        -Bem-vindos à Cidade Azul. São precisamente cinco horas e dois minutos. A temperatura de nossa cidade é de vinte graus centígrados e a umidade relativa do ar é de quarenta por cento. Para seu conforto e bem-estar, nossa cidade dispõe de três mil moradias e dois mil alojamentos, dotados  de todas as instalações modernas: câmara para banho revitalizante,  câmara de dormir, câmara alimentar com mais de cinquenta tipos de alimentos preparados, tv holográfica e piscina térmica, tudo com música ambiental. Também contamos com um Centro Cultural e um Centro Sexual para o seu lazer. O Centro Cultural dispõe de teatros, cinemas, salas de concertos musicais, museus e bibliotecas. O Centro Sexual proporciona encontros de pessoas hetero, homo e bissexuais para a prática de diversas modalidades de sexo, atendendo o gosto individual, além de dispor de uma Unidade Reprodutora, com coleta de clones para a reprodução humana. Desejamos aos visitantes da Cidade Azul uma feliz estadia.

        A tela apagou e Marla apertou um botão em sua poltrona. O cinto de segurança retraiu, liberando-a. Ela ergueu-se e o piloto a imitou.

        Formavam um par de vivo contraste. Soogh era baixo, atarracado e de feições grosseiras.O cabelo espetado, a boca larga, lhe dava um ar rude, mesmo no uniforme de oficial. Mas sob essa aparência, Marla sabia que ele possuía um coração de ouro.

        Já a capitã Marla Flash era alta, com seis pés de altura, dona de um corpo escultural, e o uniforme negro e justo acentuava as curvas harmoniosas e as pernas longas, parcialmente cobertas com botas negras de cano longo. Os cabelos negros e longos emolduravam um rosto exótico, de maçãs altas e queixo forte, onde um par de olhos incrivelmente azuis se destacava. Era uma mulher bela e atraente, com seu porte imponente e orgulhoso, consciente de sua beleza.

        Ela ejetou um pequeno disco prateado do painel da nave, de seis centímetros de circunferência, e o colocou num pequeno estojo. Depois o colocou no bolso interno do uniforme. Acionou um botão no painel e falou, com voz grave e aveludada:

        -Nave despressurizada. A tripulação está liberada para desembarcar.

        Marla, como sempre, foi a última a sair, acompanhada por Soogh.

        Na sua mão, uma pequena mala com seus pertences pessoais. Olharam em volta, observando a pista de pouso com várias naves de carga. A cúpula que protegia a cidade dava um brilho difuso à luz do sol que se punha no horizonte. Somente o espaçoporto tinha uma abertura na cúpula, que se abria e fechava após a entrada e saída de naves, devido a poluição atmosférica exterior.

        -Marla, quer ir jantar comigo e minha mulher? - Perguntou Soogh, caminhando ao seu lado em direção à área de transporte - Ela está aniversariando hoje e pretendo levá-la para jantar com alguns amigos. Já conversei com ela no telecom e ela está esperando eu chegar.

        Marla sorriu para ele com seus dentes brancos e perfeitos.

        -Essa é a vantagem de você morar na Cidade Azul. Quando chega de uma missão, já está em casa. Eu não, tenho que viajar para minha cidade. Agradeço o convite, mas não sei se poderei ir. Ainda tenho que entregar o relatório da viagem ao nosso comando e não sei se serei liberada logo.

        Soogh sorriu, fitando-a com malícia.

        -O jantar terá muita gente interessante. Você está solitária, por que não vai? Poderá conhecer alguém que a interesse.

        Marla continuou a caminhar, deixando de sorrir.

        -Não quero ligar-me a alguém tão cedo, Soogh. Prefiro satisfazer minhas necessidades físicas no Centro Sexual. Lá, as pessoas sabem que somente o que as une por algumas horas é o desejo. Depois, se separam sem complicações.

        Soogh a fitou com pesar. Era evidente que ela ainda não se havia recuperado da perda  de Della, a mulher com quem ela havia se casado e vivido durante dez anos. Haviam se amado muito, até a morte de Della em um acidente numa missão espacial. Já faziam três anos que Della havia falecido, e Marla não havia se ligado a mais ninguém.

        Caminharam em silêncio até o ponto dos autodirigíveis. Ali, cada um iria para um diverso lugar. Soogh ainda insistiu:

        -Marla, volto a insistir. O jantar será no setor dez, número vinte. Poderá ir quando for liberada pelo comando, ficaremos lá até altas horas da madrugada.

        -Vou pensar, Soogh. De qualquer forma, obrigada pelo convite.

        Bateu no ombro dele amistosamente e se separaram. Soogh entrou em um autodirigível rumo à sua casa e Marla dirigiu-se para outro que chegava à plataforma. Entrou no veículo de forma cilíndrica prateado e colocou a mão em um sensor diante da poltrona, falando:

        -Capitã Marla Flash. Destino, Comando da Space Mission.

        Uma voz gravada saiu de uma abertura no painel:

        -Acesso permitido. Aguarde sinal da partida.

        Um silvo se ouviu segundos depois e o veículo fechou a porta e disparou em velocidade crescente sobre um trilho, teleguiado por um computador da central de tráfego terrestre. Em menos de cinco minutos começou a desacelerar, até parar em seu destino, numa plataforma diante de um edifício em formato de cúpula, sem janelas, com apenas uma porta de entrada. A porta do veículo deslizou, abrindo, e Marla desceu e se dirigiu para a porta de entrada da construção, guardada por dois soldados armados. Marla se identificou na tela sensora que fazia a leitura de retinas e entrou no edifício.

        O tubo elevatório a conduziu até o quinto andar, onde desceu e foi recebida por um cyborg ( ser artificial produzido em série), que a identificou com um leitor de retina portátil. Depois ele a olhou com seu olhar sem expressão, avisando:

        -Acesso permitido.

        Marla avançou por um corredor e parou diante de uma porta de blindagem espelhada. Ela sabia que a pessoa do outro lado podia vê-la, mas ela não podia ver quem estava lá dentro. Resignadamente, perfilou-se e declarou:

        -Capitã Marla Flash apresentando-se. Código ZZ60002.

        A porta abriu, deslizando para o lado e Marla avançou. A sala era enorme, com uma parede toda tomada por uma tela eletrônica, mostrando um mapa de Worldsea com vários pontos piscando, assinalando naves que pousavam e partiam. Sentados em volta de uma mesa de tampo metálico, estavam dois homens e uma mulher, que a fitaram.

        Marla aproximou-se e parou à cinco passos da mesa, perfilando-se e levando o punho fechado ao peito, na saudação militar.

        -Capitã Marla Flash apresentando-se para entregar o relatório da missão - Ela informou, formalmente.

        A mulher atrás da mesa sorriu. Era uma mulher magra, de traços aristocráticos e cabelos grisalhos, a comandante France. Marla tinha contato com ela apenas no início e final de cada missão, mas sabia que ela era dura e exigente com seus comandados. Os dois outros homens Marla não conhecia. Mas era evidente que eram generais do alto comando, pelo uniforme com cinco estrelas.

        -Capitã Flash, estes são os generais Thor e Blandy - a comandante France informou.

        Marla os fitou. Eles a olhavam com um frio olhar avaliador.

        O general Thor era magro, alto, com a cabeça completamente raspada, frios olhos azuis em um rosto de expressão orgulhosa. Marla conhecia a fama dele como homem truculento e áspero, temido pelos seus subordinados.

        O general Brandy era mais diplomata. Persuasivo em suas ponderações, era o homem de confiança do presidente, que o escalava sempre para missões de alto nível. Havia sido ele quem executara a famosa missão dos primeiros contatos com os venusianos, coroada de pleno êxito.

        Ele finalmente sorriu, olhando para Marla.

        -Aproxime-se, capitã. E pode ficar à vontade.

        Marla deu dois passos, abandonando a rigidez militar.

        O general Blandy  deu uma volta em torno de Marla, fitando-a atentamente e depois olhou para a comandante France.

        -Tem razão, comandante France. A capitã parece ser a figura ideal para a missão.

        A comandante France sorriu com satisfação.

        -Como eu disse antes, quando a vissem, concordariam comigo.

        Marla os ouvia em silêncio, intrigada. Figura ideal para a missão?Por que era importante a sua aparência? Mas não externou sua dúvida, aguardando.

        O general Brandy olhou para o general Thor.

        -O que acha,Thor? Concorda comigo?

        O general Thor olhou para Marla com um olhar atento e frio.

        -Concordo. É adequada. Já vi o currículo dela. É experiente e a aparência corresponde com o que desejamos.

        O general Brandy tornou a olhar para Marla.

        -Então, está aprovada. Capitã, quero que preste o juramento de fidelidade militar, antes de saber sobre a missão que a espera.

        Marla o encarou com curiosidade. O juramento de fidelidade militar só era realizado diante de um general quando a missão era ultra-secreta.

        Ele pegou o código militar e o colocou diante de Marla. Ela pousou a mão direita sobre o livro, perfilou-se e declarou com voz solene:

        -Juro com o penhor de minha vida honrar o código militar e seguir fielmente o que ele determina, para o bem de Worldsea.

        O general a fitou gravemente.

        -Agora, está sob juramento e deverá guardar segredo de tudo que souber aqui. Pode falar, general Thor.

        O general Thor cruzou os braços, numa pose arrogante. Olhou para Marla e começou a falar, com voz pausada e fria:

        -Você sabe que vive com um alto padrão de vida, como todos cidadãos de primeira categoria, capitã. Tem todas suas necessidades atendidas, como crédito para viver em uma bela casa equipada com todo conforto, comida de primeira e acesso a todos os divertimentos do Centro Cultural e do Centro Sexual. E além disso, disfruta do bem mais precioso: água pura, vinda das calotas polares de Marte. Como sabe, os cidadãos de segunda categoria, que inclue os criminosos e rebeldes, não possuem o seu padrão de vida. Eles moram na Cidade Cinza, sem a cúpula de proteção, respirando o ar poluído e bebendo água reciclada. Sua alimentação é inferior à nossa, não possuem centro cultural ou sexual para lazer.

        Marla o fitou em silêncio, pensando onde ele queria chegar com esse rodeio. Ele continuou, depois de uma pausa:

        -Você sabe também que apesar de sermos uma potência tecnológica, temos o nosso pé de Aquiles. A nossa fraqueza é a escassez de água potável, água sem poluição para nossa sobrevivência, que é importada de Marte. E sabe que a cidade de Castor se rebelou contra a extração de gelo da calota polar do norte, originando uma revolução que culminou com a decretação de independência pelo governante nomeado por nós, que nos traiu. Mas nós reagimos e atacamos a cidade, para dominar a rebelião. O governador traidor morreu durante o ataque, mas sua irmã assumiu sua causa e agora ela é a chefe da rebelião da cidade de Castor.

        Marla suspirou, encarando-o.

        -Sei de todos esses fatos como todo cidadão de Worldsea, senhor.

        O general sorriu com ar diabólico, erguendo o dedo indicador.

        -Ah, mas você não sabe que a rebelde Kyra, de codinome Pantera Negra, é uma homossexual.

        Marla o fitou sem se abalar. O que era um estigma centenas de anos atrás, era hoje aceito como normal. Muitas tradições do passado haviam sido abolidas: a religião, o casamento só entre uma mulher e um homem, a reprodução com a cópula do macho e da fêmea. A liberdade da preferência sexual agora era uma realidade, reconhecida por lei. Ninguém mais escondia ou se envergonhava de ser homossexual, sendo aceito pela sociedade tanto quanto um heterossexual.

        -Esse fato é um dado importante para o plano que concebemos - continuou o general - ela é uma líder perigosa dos rebeldes. Eles a idolatram como sua libertadora. Somente com sua eliminação conseguiremos quebrar o espírito de luta dos rebeldes. E é aí que você entra.

        Marla o fitou franzindo o cenho.

        -Como?

        -Vamos iniciar uma missão chamada Operação Estrela. Temos espiões infiltrados no meio dos homens que a Pantera Negra comanda. E eles a convenceram que existem dissidentes em Worldsea favoráveis à causa dela. Contaram a ela que um coronel dissidente vai raptar uma nave de carga militar com um grande carregamento de armas. E que vai desembarcar em Castor, para ajudar os rebeldes. Ela naturalmente está desconfiada dessa ajuda, mas como precisa de armas para a luta, aceitou a oferta.

        Marla o fitou com secreta impaciência.

        -E que papel vou desempenhar nesse plano, senhor?

        Ele sorriu cruelmente.

        -Essa nave seguirá amanhã para Marte. Você como capitã, eu disfarçado em coronel. É claro que ela vai nos receber com reservas. É aí que você entra. Conquiste a confiança dela com seu charme. Convença ela de nossa amizade. Uma mulher apaixonada é como um barco à deriva querendo ser governado. Você e eu nos infiltraremos no movimento e prepararemos uma armadilha para ela e seus seguidores.

        Marla o fitou decepcionada. Estavam convocando-a para uma missão suja, uma traição! Não conhecia a Pantera Negra, mas secretamente simpatizava com a causa dela. Ela queria preservar um bem imprescindível para a vida da cidade de Castor. E sabia que ela havia nascido na cidade, então era mais marciana que uma cidadã de Worldsea. Não podia ser considerada uma traidora do governo de Worldsea. A Pantera Negra estava apenas lutando pelo bem maior de seu povo. E agora, ela iria trair uma mulher que lutava por uma causa justa! Era revoltante o que o governo de Worldsea pretendia. E não podia recusar! Estava sob juramento militar, e se não concordasse com a missão, seria julgada sumariamente pela côrte marcial como traidora. E isso significava uma condenação certa, com desterro para a Cidade Cinza, para viver entre criminosos miseravelmente, ou até a morte.

        -Senhor, ninguém garante que a Pantera Negra vai ser conquistada por mim. O que os senhores consideram uma escolha adequada para o plano pode não ser do gosto da Pantera Negra  - Disse Marla, tentando fazê-los desistir de sua escolha.

        O general Thor sorriu maliciosamente.

        -Isso é uma hipótese remota, capitã. Você é o tipo dela. Toda população de Castor sabe que ela gosta de mulheres morenas, atléticas e de personalidade forte. Você é a escolhida para essa missão, capitã. Agora, um detalhe importante: ninguém na tripulação deverá saber minha verdadeira identidade. Serei apenas o coronel Blue.E para a tripulação, apenas estaremos transportando uma carga de armas para  a cidade de Polux, fiel ao nosso governo. Quando desviarmos a rota para Castor, diremos à tripulação que tivemos de fazer um pouso forçado por problemas técnicos. Depois, diremos que fomos coagidos a ajudar a rebelde. Quem se revoltar, será preso, sob alegação de desrespeito a ordem superior.

        -A tripulação será a usual? -Marla perguntou, derrotada.

        -Sim. Um biólogo, um médico, um geólogo, um engenheiro, piloto e capitão, além de meu comando. Os soldados serão cyborgs. São mais adequados para viagens longas: não consomem alimento e não ficam doentes ou cansados, como soldados humanos.

        O general Brandy então completou:

        -Capitã, quando cumprir a missão, será promovida a coronel, como prêmio pela sua missão. Amanhã, às dez horas da manhã, esteja na plataforma 104, de onde partirá a nave-cargueiro Titan. Apresente-se ao general... isto é, ao coronel Blue.

        -Sim, senhor.

        Ele sorriu.

        -Está liberada, capitã. Pode ir.

        Marla retirou do bolso o relatório e o entregou à comandante France.Fez sua saudação militar e saiu.

Marla estava decepcionada e revoltada pelo papel que iria fazer.Nunca antes fizera algo como isso! Era uma missão indigna, conquistar e trair uma mulher que só pensava no melhor para sua  cidade natal.

        Estava também decepcionada com o presidente de Worldsea. O povo não sabia, mas nos círculos militares e científicos corria a notícia que haviam descoberto uma alternativa para a extração de gelo em Marte. Havia um imenso lençol de água subterrânea em Marte, equivalente a um terço dos mares que haviam na Terra. O presidente não havia divulgado a notícia porque queria continuar a guerra contra a cidade de Castor. Ele queria mostrar à cidade rebelde que Worldsea não podia ser desafiada e aceitar a perda de sua colônia, mostrando fraqueza.

Era tudo um jogo político do presidente, sem se importar com as vidas que seriam perdidas.

Ela tomou o autodirigível e rumou para seu alojamento, no setor militar.

O alojamento tinha câmara de sono, de banho,de alimentação e uma pequena sala com música ambiental e tv holográfica. O essencial para uma oficial como ela.

Marla tomou um banho de ducha e depois passou pelo esterilizador, que secou seu corpo e eliminou qualquer bactéria na pele . Após estar completamente seca, escolheu em um painel a essência que usava. Uma nuvem de perfume envolveu seu corpo. Saiu da câmara e vestiu um uniforme limpo que tirou de sua mala. Calçou as botas, escovou seus cabelos e saiu.

Detestava os alojamentos. Eram frios e impessoais. Depois de dois meses viajando, lidando com cyborgs, queria ver gente. Resolveu ir ao Centro Sexual. Precisava de uma mulher para acabar sua abstinência sexual de dois meses.

 

                                            ********

O Centro Sexual tinha três entradas numeradas. Marla sabia que a entrada 1 era para pessoas heterossexuais, a entrada 2 para bissexuais e a entrada 3 para homossexuais. Ela dirigiu-se para a entrada 3 e um casal de cyborgs a recebeu, atrás de um painel.

-Código? - Perguntou a cyborg feminina.

-ZZ60002 - Respondeu Marla.

A ciborgh digitou o número. Depois fitou-a com um sorriso artificial.

-Acesso permitido. Mesa número 200.

Marla entrou no centro. Um corredor a levou a um vastíssimo salão iluminado por uma coloração rosada. Ali haviam mais de mil mesas, cada uma com um painel e duas poltronas. Inúmeros homens e mulheres estavam sentados nelas, bebendo Rizan, uma bebida afrodisíaca, pesquisando no painel à procura de uma companhia. Quem já havia encontrado a sua, conversava com a escolhida. Se a vontade fosse mútua, iriam para uma câmara particular para ter sexo.

Marla sentou diante da mesa designada e ligou o painel. Logo uma cyborg veio atendê-la, trazendo uma garrafa de Rizan e duas taças.

-Bem-vinda, querida - Disse a cyborgh, com uma voz sem emoção.

        Marla a olhou. A cyborg era como as outras de sua série, loura e bonita, mas com o sorriso automático e olhar sem expressão, que caracterizava os cyborgs. Ela afastou-se depois de servir a bebida.

        Marla tomou um gole da deliciosa bebida gelada. Tinha um sabor semelhante ao champanhe, mas não continha álcool.

        O painel emitiu um zumbido de chamada. Marla apertou o botão receptor e na tela surgiu o rosto de uma mulher morena.

        -Você interessou-me, número 200. Estou na mesa 130.

        Marla analizou aquele rosto. Era bonito, mas muito masculino para seu gosto.

        -Negativo - respondeu Marla.

        A mulher fez uma expressão decepcionada e a imagem saiu do painel.

        Marla acionou o rastreador de procura. Vários rostos com o números das mesas correspondentes  foram aparecendo no painel. Marla ficou olhando, bebericando sua bebida. Até então, nenhum a interessou.

        "Estou ficando muito exigente" - Pensou.

        Uma nova chamada zumbiu. Marla apertou o receptor e um rosto apareceu na tela, substituindo o outro que olhava.

        Marla interessou-se. A mulher era linda! Encantada, ouviu-a dizer:

        -Estou na mesa 120. Você interessou-me.

        A voz soava suave e doce. Marla ficou imóvel, admirando os belos olhos verdes, o rosto de feições delicadas, emoldurados por longos cabelos louros. Aqueles olhos verdes como esmeraldas a deixaram sem voz.

        A mulher franziu o cenho, decepcionada por sua falta de resposta.

        -Não a interessei, não é? Não gostou de minha apararência.Tudo bem.

        Ela saiu da tela antes que Marla pudesse dizer alguma coisa. Marla ergueu-se precipitadamente, afobada. Não podia perder aquela mulher! Talvez nunca mais a visse ali! Com passadas largas de ansiedade, foi à procura da mesa 120.

        Ela viu a mulher se levantando da mesa e dirigir-se para a saída. Correu e a alcançou, pousando a mão em seu ombro. Ela voltou-se com um olhar indignado, que suavisou quando viu quem era. Ficaram se fitando por uns momentos, em silêncio. Marla sentia-se como presa a um encantamento, olhando aqueles olhos lindos.

        Finalmente encontrou voz para dizer:

        -Vim procurá-la. Você entendeu mal o meu silêncio.

        Um sorriso adorável curvou aqueles lábios vermelhos e cheios.

        -Realmente? E o que eu deveria deduzir, com seu silêncio?

        Marla sorriu.

        -Que eu estava impressionada por você. Por favor, quer acompanhar-me até minha mesa?

        Ela a fitou sorrindo.

        -Bem... acho que a minha já foi ocupada. Eu a liberei encerrando o painel.

        -Então, aceite meu convite. Por favor?

        -Está bem. Vamos.

        Disfarçadamente, Marla a observou caminhando ao seu lado.Ela era mais linda pessoalmente.Era bem mais baixa que ela própria, mas o corpo era bem feito, com curvas harmoniosas. Estava vestida com uma túnica semelhante às antigas gregas do milênio 1, uma moda que as mulheres  haviam adotado em locais de lazer.

        Chegaram à sua mesa e Marla sentou em sua poltrona e a   mulher sentou na outra, ao lado da sua.

        -Meu nome é Marla. E o seu?

        -Jana.

        Marla serviu uma taça de rizan para ela. Jana a pegou com a mão trêmula, demonstrando que estava nervosa. Marla a encarou com admiração, tomando um gole de sua taça.

        -Está nervosa, Jana? Por que? Nunca esteve aqui antes?

        Ela a encarou com um meio sorriso.

        -Bem... realmente, nunca estive aqui antes.

        Marla a contemplou atentamente.

        -Entendo... você é uma heterossexual. Veio aqui para ter uma experiência. E agora, deve estar com medo de realizá-la.

        Ela a fitou nos olhos, séria.

        -Isso não a aborrece?

        Marla sorriu.

        -Por que me aborreceria? Você é linda e escolheu-me entre tantas outras. Não precisa ter medo. Sairá dessa experiência sem nenhum dano, se quiser continuar.

        Jana enrubesceu. Há muito tempo Marla não via isso em uma mulher. Achou-a adorável.

        -Eu... não sei como proceder nessa situação - sussurrou Jana.

        -Apenas relaxe. Prove o rizan.  

        -Que bebida é essa?

        Marla a fitou surpresa.

        -No setor hetero não a servem?

        Jana a fitou embaraçada.

        -Não sei.

        -Não sabe?! Jana, qualquer mulher jovem  solteira vem ao Centro Sexual para ter sexo. Você quer dizer que nunca veio ao Centro nem na parte dos heterossexuais?

        Ela a fitou nervosamente.

        -Não...

        -Você é casada? Ou com compromisso?

        -Eu... bem... não.

        Marla franziu o cenho. Se ela não era casada e não tinha compromisso com alguém, por que não vinha ao Centro Sexual?

        A resposta veio em sua mente como um raio. Ela era uma hetaira! Pertencia a algum homem poderoso de Worldsea! Uma hetaira era criada para pertencer a um homem . Ele pagava um alto valor no mercado negro para a compra de uma mulher virgem, intocada por qualquer pessoa. Esse mercado era fora da lei, o governo o combatia incessantemente, mas ele sobrevivia. As hetairas eram produzidas através de clonagem e geradas em úteros artificiais, em um lugar desconhecido pelo governo. Nasciam e eram criadas até os dezessete anos, quando eram vendidas. Para se ter uma hetaira, era preciso ter muito poder, para não ser questionada a sua posse.

        -Jana, você é uma hetaira! - Disse Marla, chocada.

        Ela a fitou com o cenho franzido.

        -Isso faria alguma diferença no que pretendemos fazer ?

        -Claro que faz! Percebe o que está fazendo?  Se o seu dono souber que esteve aqui, vai ficar furioso. Ele não perdoará sua traição e você poderá ter um castigo terrível! E depois, ele vai caçar quem esteve com você.

        Jana a fitou imperturbável. Sua voz era desafiante:

        -Está com medo? Eu não estou.

        -Não é medo. É bom senso. Não quero envolver-me em uma loucura.

        Jana ergueu-se, depositando a taça na mesa. Fitou-a com ar superior e frio.

        -Eu pensei que você fosse uma mulher corajosa, nesse uniforme da Space Mission. Mas enganei-me. A menos que ache que eu não valho o risco.

        Marla ergueu-se também, seus olhos azuis cintilando com o desafio e o insulto.

        -Está insinuando que sou uma covarde?

        Jana a encarou com desafio.

        -Não está com medo das consequências de ficar comigo esta noite?

        Marla ficou fitando-a, com as mãos na cintura. Acabou dando uma risada baixa.

        -Muito bem, aceito o desafio. Você vale o risco.

        Jana sorriu, os olhos enchendo-se de calor. O nariz pequeno enrugou, adoravelmente. Marla a tomou pela mão e sentiu-a tremer.

        -Vamos para a câmara de prazer?

        -O que é isso?

        -Você verá. Não vai tomar o rizan? É um afrodisíaco.

        -Não preciso disso. Vamos.

 

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      Continua na parte 2

 

 

 

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