Doce Vampira

Leth cross

 

Parte 2

 

6 de junho, 22:30 horas

 

        Angelina ficou imersa naquele encantamento, vendo a mulher alta e misteriosa caminhar até o balcão e pedir uma bebida.

 

         Theodora pediu um Blood Mary e tomou um longo gole, voltando-se e olhando para a lourinha que a observava. Em seus lábios surgiu um sorriso afetado. Aquela lourinha estava sob seu encanto. E era surpreendente também aquela garota a atrair tanto. Afinal, ela não era seu tipo! Sempre gostara de mulheres altas como ela, de seios fartos, bem sensuais. E aquela lourinha...parecia ingênua demais para seu gosto.

 

         Maldição, Theodora, deixe de ser idiota! Já devia saber que essas mulheres com carinha de ingênua é que são as mais safadas! – pensou, fitando a lourinha da cabeça aos pés. Ela não era alta, mas que corpo curvilíneo! O top de couro deixava à mostra o abdômen musculoso,  a saia curta de couro mostrava as coxas fortes e pernas apetitosas. E o rosto... aqueles olhos claros, brilhando, no rosto de traços delicados...hummm... 

 

         Theodora sorriu com malícia, os olhos cravados na lourinha.

 

         -Oh, minha pombinha... – Sussurrou – O lobo mau vai devorar você...de todas as maneiras...

 

         Uma nova música começou a tocar. Scandalous, com Miss Teeq. Theodora confiantemente se aproximou da lourinha com a mão estendida, um sorriso sensual nos lábios e um convite nos olhos azuis.

 

So, so, so, Scandalous…

You know you wanna sing with us

Tha’s why you know you should be scared of us

Non stop looks to kill

Straight  talk sex appeal

One touch gives me chills and we ain’t  even close yet

Rough neck  all around

Inking all over town

Show me how you get down

Cos we ain’t even close yet

 

 

         Angelina ergueu-se, colocando sua mão naquela mão de dedos longos e elegantes, fascinada por aqueles olhos azuis que brilhavam na luz negra. Não podia resistir à aquele olhar, aquele rosto tão belo. E quando sua mão foi envolvida pela outra bem maior, ela sentiu como que uma corrente percorrer seu corpo. E se deixou ser envolvida nos braços da estranha, que a puxou contra seu corpo pela cintura, e a outra mão segurando a sua com possessividade.

 

         Angelina sentiu uma intensa onda de desejo, com a coxa da bela estranha atrevidamente insinuada entre as suas, apertando contra seu sexo. Abraçou o pescoço da estranha, sentindo um cheiro exótico, de almíscar misturado com couro de fina qualidade, e algo mais indefinível, talvez o cheiro da pele da estranha, um cheiro  deliciosamente embriagador.

 

         Elas se moveram em perfeita sincronia, ao som do rap com uma batida sensual. Seus corpos se tocando sensualmente, no ritmo da música, como um só. Olhos nos olhos, até que Angel pousou a cabeça no ombro da morena, com a sensação que pertencia à aquele lugar, que pousara a cabeça ali inúmeras vezes.

 

         Theodora aspirou o cheiro dos cabelos da lourinha, fechando os olhos. Delícia pura! Um cheiro de fêmea, de limpeza, de um suave perfume. Enfim, um conjunto de cheiros que formavam o cheiro da mulher  encantadora.

 

         Contrário aos seus costumes, pela primeira vez quis saber o nome da mulher que tinha nos braços, que não evitava o contato de seu corpo, pelo contrário, se entregava em seus braços confiantemente, a cabeça encostada no seu peito.

 

         -Olhe para mim.

 

         A voz não soou como um pedido, mas sim como um comando. Angelina quis revoltar-se, não atender, mas como negar uma ordem daquela voz profunda e aveludada, que fazia arrepios em seu ouvido?

 

         Assim, ergueu o rosto e fitou os fascinantes olhos que a olhavam atentos.A morena sorriu, mostrando alvos e perfeitos dentes, que luziram como pérolas. Ficaram se fitando imóveis, a música acabou e entrou outra . Os casais dançavam em volta delas, mas elas os ignorava, como se estivessem sozinhas.

 

         Theodora a puxou para um canto do salão pela mão e a fitou com admiração.

 

         -Linda... – Disse Theodora, sinceramente – Um rosto angelical.

 

         Angel riu, achando graça.

 

         -Angelical? Nunca me disseram isso. Acaso sabe meu nome, e está fazendo um trocadilho sem muita imaginação?

 

         Theodora a fitou confusa.

 

         -Trocadilho? Por que acha que estou fazendo isso? Como é seu nome?

 

         -Meu nome é Angelina, mas pode chamar-me por Angel.

 

         Theodora ergueu as sobrancelhas, admirada e divertida.

 

         -Oh, estou surpresa, não sabia seu nome! Mas acho perfeito. Bem de acordo com você.

 

         Angel tornou a rir.

 

         -Não se engane com aparências. Não sou nada angelical. Tem muitas mulheres que até dizem que sou... uma diabinha.

 

         -Adoro diabinhas também. Mas para mim você pende mais para anjo. E aliás, meu nome é Theodora.

 

         -Theodora...um nome forte, personalíssimo, como você. É grego, não?

 

         -Sim...mas, porque não saímos daqui para nos conhecermos melhor? Ir a um lugar mais tranqüilo, tomar um drink e conversar... – Disse Theodora impulsivamente, e se interrompeu, pensando alarmada: o que estou fazendo?! Eu, Theodora Kymadakis, convidando uma mulher para sair e conversar! Nunca fiz isso! Eu simplesmente as tomo e uso! Essa mocinha tem algum encantamento? É uma bruxa?

 

         Angel a fitou atenta, fitando aqueles olhos fascinantes, percebendo que Theodora estava perturbada com algum pensamento. Mal a conhecia, mas pela primeira vez na vida, sentia que estava totalmente apaixonada, que não podia negar nada à aquela mulher. Isso era inédito, mas era algo que não tinha forças para lutar contra. Ela, Angelina Reynolds, que não ficava com uma mulher mais que uma semana, porque não conseguiam prender seu coração, estava ali à mercê de uma completa estranha! E teve medo dela se arrepender da proposta e ir embora. Então, respondeu ansiosa:

 

         -Sim, podemos ir... 

 

         -Você tem certeza? – Perguntou Theodora, arrependida do seu impulso, mas também não querendo decepcionar aquela mocinha – Afinal, mal me conhece...

 

         -Sempre tive  certeza do que queria, Theodora. E sei que quero conhecer você melhor – Disse Angel, com olhar determinado.

 

         Oh... a garota não era a bonequinha bobinha que pensava...por trás daquele rostinho ingênuo se escondia uma mulher de personalidade, que sabia o que queria – Pensou Theodora, encantada. E contra suas regras, tomou a atitude que sua condição não permitia, procurar conhecer melhor uma pessoa que não era como ela:

 

         -Vamos indo então – Disse, pegando a mão de Angel e se dirigindo para a porta do clube.

 

            Na rua, Theodora parou, indecisa. Onde levar Angel? Para o seu  refúgio, no famoso edifício Dakota, perto do Central Park? Ou para um hotel? Decidiu para o seu refúgio. Seus servos estariam dormindo e não perceberiam elas chegarem.

 

         Angel notou a hesitação dela e perguntou curiosa, segurando-a pelo braço:

 

         -O que foi? Parece indecisa...

 

         Theodora a fitou sorrindo.

 

         -É que estava pensando onde poderia levá-la.   

 

         Angel sorriu, fitando-a nos olhos.

 

         -Conheço vários hotéis que recebem bem duas mulheres e não fazem perguntas.

 

         Theodora ergueu as sobrancelhas, com ar divertido.

 

         -Oh, pelo que vejo essa carinha de anjo é só aparência...  

 

         -Ei, não sou promíscua, se está pensando isso – Protestou Angel, fitando-a franzindo o cenho – Só vou para a cama com uma mulher depois que a conheço melhor. Meus casos podem não durar, mas não vou para a cama sem conhecer com quem estou.

 

         Theodora tomou seu rosto entre as mãos e a fitou sorrindo.

 

         -Tudo bem, Angel. Nada disso  tem  importância. Eu vou levá-la para minha casa.Tem algum problema?

 

         -Com você eu vou a qualquer lugar, Theodora... – Declarou Angel, olhando a bela morena com olhos apaixonados.

 

         Ah, pombinha, se você soubesse! O lobo mau está em pele de cordeiro! – Pensou Theodora, quase lambendo os lábios.

 

          -Então vamos indo. Você veio de carro?

 

         -Não, vim de táxi.Essa área é difícil de achar estacionamento.

 

         -Ótimo, eu estou com o meu,  acompanhe-me...

 

         Theodora a conduziu até uma Mercedes negra   estacionada no outro lado da rua e abriu a porta traseira para Angel entrar, fazendo um floreio com a mão.

 

         -Entre, bela Angel.

 

         Angel entrou e sentou, observando que havia um motorista uniformizado ao volante.Theodora fechou a porta e deu a volta, se sentando ao lado de Angel.Deu uma ordem curta para o motorista e o carro saiu com seu potente motor ronroneando suavemente.

 

         Angel  estranhou o motorista não ter aberto a porta para elas, nem dizer um boa noite, mas se Theodora não se importava, não era ela quem iria ligar. Olhou para o perfil de Theodora, fascinada. Aquela mulher tinha um fascínio que a deixava surpresa consigo mesma. Nunca ninguém a impressionara tanto...

 

         Sorriu. A quem estava tentando enganar? Estava mais que fascinada, estava louca por aquela mulher sexy que mal conhecia. Se Theodora quisesse, se entregaria à ela ali mesmo, sem se importar com o motorista .Era tão louco o que sentia! Sempre fizera um jogo com suas  conquistas, para depois se entregar. Com Theodora, se sentia impotente para fazer isso.

 

         Theodora a fitou, voltando o rosto, com um sorriso predatório. Angel tomou o rosto dela entre as mãos e  puxou-o para baixo, suas bocas se esmagando em um beijo ardente, cheio de paixão.

 

          Theodora emitiu um som primal, como uma pantera, sugando a boca de Angel, suas línguas se alisando, as mãos vindo para sua cintura  , levantando-a do banco como se fosse uma boneca de algodão e a pousando em sua coxa. A mão foi para o seio de Angel, bolinando o  bico  sobre o top de couro, com dedos práticos.

 

         Angel gemeu dentro da boca de Theodora, apertando-se mais contra ela. A mão de Theodora desceu e alisou suas coxas, insinuando-se entre elas, a ponta dos dedos tocando a calcinha já úmida da excitação de Angel.

 

         Theodora soltou um baixo grunhido, enfiando os dedos longos dentro da calcinha e tocando o clitóris molhado. Angel se contorceu em seu colo, puxando a cabeça de Theodora para mais contato de sua boca, sentindo os dedos da morena bolinar seu clitóris com um jeito maravilhoso, deixando-a louca.

 

         -Oooohhh! – Gemeu, afastando a boca, abrindo mais as pernas. – Mais! Com mais força, enfie, enfie!

 

         Theodora conteve-se, fitando Angelina com um sorriso sensual.

 

         -Agora não, minha coisinha gostosa... uma boa refeição deve ser degustada aos poucos... ainda é cedo...

 

         Angel a fitou com a respiração opressa.

 

         -Refeição?Degustada? Oh, não brinque comigo, Theo! Estou louca por você e não posso esperar mais! Eu vou explodir, se não me fizer gozar logo!

 

          Angel puxou o seio de dentro do top e o ofereceu à boca de Theodora.

 

         -Venha, chupe ele todo, Theo...

 

         Theodora passou a ponta da língua pelos lábios, fitando o seio firme e de biquinho rosado.

 

         -Hummmm... eles são naturais, ou você colocou implantes de silicone?

 

         Angel a fitou ofendida. Tornou a colocar o seio dentro do top.

 

         -Que pergunta idiota! Claro que são naturais! Não preciso me encher de silicone, se acaso suspeita disso!

 

         Theodora sorriu, acariciando a abertura de Angel lentamente.Enfiou dois dedos lentamente, sentindo os músculos vaginais de Angel se contraírem em volta deles, a vagina macia, molhada, quente.

 

         Angel fechou os olhos, apertando-se contra os dedos de Theodora, começando a mover os quadris para se impalar ainda mais .

 

         -Oohhh! Mais! Mais, Theo! – Gemeu Angel.

 

         Theodora enfiou mais um, depois mais outro, elastecendo-a ao máximo, o polegar no clitóris massageando, enquanto empurrou com força. Angel aumentou a velocidade de seus quadris, sentindo aqueles dedos longos se mexendo em seu interior, levando-a à completa loucura. Pouco se importando se o estranho motorista a estava vendo pelo espelho retrovisor, o que sentia a despia de qualquer outro sentimento que não aquela necessidade de ser possuída por Theodora.

 

         Theodora sentia a excitação da garota a alcançar em ondas e logo se sentiu também excitadíssima.Baixou a vista para as coxas fortes, sua mão se movendo no sexo em fogo, e soltou um grunhido gutural.

 

         -Chegamos, minha ama – disse o motorista, com voz baixa.

 

         Theodora continuou a empurrar seus dedos, sentindo os primeiros tremores do êxtase de Angel. E a garota então estremeceu violentamente e a beijou com loucura, mordendo sua boca, no estertor do orgasmo. Theodora sentiu o dente de Angelina em seu lábio inferior.  Empurrou-a, jogando-a sobre o banco, levando a mão ao lábio.

 

         -Não devia ter feito isso, menina! – Disse com voz dura,  com o coração aos saltos.

 

         Angel a fitou com evidente receio e arrependimento.

 

         -Oh! Desculpe-me! Eu...descontrolei-me...nem percebi o que fazia!

 

         Theodora abriu a porta e desceu do carro em um salto, transtornada. A lourinha a havia mordido! Se apenas uma gota do seu sangue havia sido engolida por ela, a garota estava contaminada! Iria se tornar uma vampira!Maldição!

 

         Parou, surpresa consigo mesma. Já havia mordido tantas mulheres! E nunca se importara se elas haviam se tornado vampiras, porque estava se importando agora?

 

         -Está bem... – Rosnou, se inclinando e estendendo a mão para Angel  – Venha, desça do carro.

 

         Angel aceitou a mão e saiu do carro, só então notando que haviam entrado na área de estacionamento do edifício Dakota. Olhou para Theodora com admiração.

 

         -Você mora aqui?

 

         -Sim. Vamos entrar.

 

         -Oh, esse edifício me fascina! Sempre quis entrar aí, era onde morava John Lennon e onde filmaram o filme O Bebê de Rosemary, um cult de Roman Polansky!

 

         Theodora a fitou sorrindo, pegando-a pela mão.

 

         -Já ouvi falar nisso. Foi o que me atraiu em morar aqui, gosto de ambientes que possuem uma história.Venha.

 

         E as duas entraram no edifício, de mãos dadas. O segurança a fitou com um sorriso polido em seu posto, mas intimamente pensando que daria um braço para poder ter uma daquelas mulheres. Eram dois tipos diferentes, mas ambas lindas e com corpos que deviam ser uma gostosura.

 

         Angel olhava o hall de entrada com ar curioso, em estilo art deco.Era impressionante os arcos do teto, a iluminação com lustres antigos, o chão de granito polido em tons escuros.

 

         Pegaram o elevador e Theodora apertou o botão da cobertura. O velho elevador começou a subir lentamente.Angel abraçou a cintura de Theodora, pousando a cabeça em seu ombro, suspirando. Theodora inclinou a cabeça, fitando-a e aspirando o cheiro dos cabelos louros com deleite.

 

         -Estou louca por você, Theodora...

 

         Theodora sorriu, passando o braço pelos ombros dela e apertando-a contra o corpo.

 

         -Logo vai poder me mostrar isso, pombinha...isto é, Angel...sem ninguém além de eu e você.

 

         -É mesmo? Você mora aqui sozinha?Não tem ninguém mais?

 

         -Ah, eu tenho cinco criados. Meu apartamento é um triplex, então dá muito trabalho para conservar tudo limpo e arrumado.Mas estamos indo direto para a cobertura, então ninguém nos perturbará.

 

         -Não sabia que esse edifício antigo possuía triplex.

 

         -Esse prédio é grande, mas foi projetado com muitos cômodos pequenos.Muitos compradores resolveram ampliar esses cômodos derrubando as paredes e fazendo de três, um só. E também compraram apartamentos próximos, transformando em duplex ou triplex. Eu fiz isso e transformei três apartamentos em um só.

 

         -Já li algo sobre isso. John Lennon fez isso também e chegou a anexar mais um apartamento só para guardar os seus casacos de peles e dos de Yoko Ono!

 

         Chegaram ao último andar. Elas saíram do elevador e acessaram um vestíbulo forrado com um grosso tapete vermelho e paredes com papel em tom  azul da prússia. Ladeando a entrada, duas górgonas de pedra, semelhantes às da antiga catedral de Notre Dame, em Paris.

 

         Theodora fez uma mesura, abrindo a porta de mogno com entalhes e dois anjos . E o som alto de uma música explodiu em seus ouvidos:

                    

 

Cause this is thriller, thriller night,

And no one’s gonna save you from the beast about to strike

You know it’s thriller, thriller night,

You’re fighting for you life inside a killer ,

Thriller tonight…

 

O rosto de Theodora se contraiu de surpresa e raiva.

 

-Michael  Jackson   novamente!   Rosnou,  empurrando   a   porta,  que   se   abriu

completamente –  Maldição!!!!

 

       Ela entrou e Angel a seguiu, curiosa. Elas desceram as escadas correndo para o pavimento inferior .  E a cena diante dos seus olhos   fez  Angel parar surpresa, não acreditando no que via:

 

         No meio de um imenso salão decorado com móveis antigos de cor escura, extremamente luxuoso, cinco estranhas pessoas dançavam imitando a coreografia do famoso videoclip Thriller, cantada e dançada por Michael Jackson há mais de vinte anos atrás. Eles se moviam em perfeita sincronia, com suas roupas escuras, cabelos desgrenhados e profundas olheiras no rosto pálido.

 

         -PAREM COM ISSO, FILHOS DE UMA BACANTE!!!! – Berrou Theodora, com o rosto transtornado de raiva.

 

         As cinco pessoas pararam de dançar imediatamente e olharam com evidente temor para Theodora, que desceu as escadas com passos furiosos e se colocou diante deles com as mãos na cintura, as pernas afastadas, numa pose ameaçadora.

 

         -E PAREM ESSA MALDITA MÚSICA!!!! – Gritou Theodora.

 

         Uma moça alta e magra, de cavernosos olhos e lábios com um baton vermelho cor de sangue correu e baixou completamente o som do player sobre um aparador e olhou para Theodora com receio. Seus cabelos ruivos caíam pelos ombros magros, parecendo precisar de uma boa lavagem e escovada há meses.

 

         Angel observava a cena com curiosidade. Aquelas pessoas pareciam crianças pilhadas em uma travessura, todas encolhidas ao olhar de Theodora.Teve pena deles. Estavam apenas se divertindo, imitando o clip de Michael Jackson. E estavam perfeitos! As roupas, a maquiagem que os faziam parecer zumbis, a dança...

 

         Ela encarou Theodora e falou com voz sedutora, alisando o rosto da alta mulher:

 

         -Oh, eles estavam dançando tão bem, Theo! Como pode ficar aborrecida com a performance deles? Eles são o máximo! A maquiagem está perfeita, as roupas, a coreografia... eles são admiráveis artistas, Theo!

 

         Os cinco se entreolharam admirados.

 

         -Hã? Maquiagem? Nossas roupas? Artistas? – sussurrou um deles.

 

         -Quem são eles, Theo? – Perguntou Angel, fitando os dançarinos.

 

         Theodora rodou os olhos.

 

         -Angel, deixa eu resolver esse problema? Eles são meus servos e me devem obediência! Eu os proibi de dançar essa música ridícula! E eles continuam!

 

         Angel a fitou com reprovação.

 

         -Servos?! Theodora, está pensando que possui um feudo e eles são seus servos?!Acorde, Theodora! Estamos no século 21! Terceiro milênio! Não estamos na idade média, nem em algum país feudal! Estamos em New York, na América! Que tem demais eles dançarem para se divertirem?

 

         -Mas, Angel! Eles devem obediência a mim, não podem fazer coisas que não aprovo quando estou ausente! – Gemeu Theodora, gesticulando para enfatizar seu argumento.

 

         Os servos fitaram Theodora incrédulos. A poderosa Theodora justificando-se com uma pessoa, ao invés de pegá-la pela garganta e sacudi-la como um cão raivoso?! Suas cabeças se juntaram, para confabularem:

 

         -Nossa mestre está dominada! – Sussurrou um dos criados, muito magro, com olheiras roxas, pálido e os cabelos negros espetados.

 

         -Ela está é abjetamente caída por essa lourinha – Disse a ruiva, cheia de inveja.

 

         -A lourinha impediu que nossa mestre nos agredisse – Sussurrou outro, fascinado. Era troncudo, careca e com um terno apertado e curto.

 

         -Mas a lourinha pensa que estamos maquiados! Ela não sabe que somos assim mesmo! – Sussurrou outro mais, um homem de queixo e nariz proeminente, os ralos cabelos eriçados,  com um olho de vidro azul e o outro verdadeiro castanho.

 

         -Mesmo assim, a lourinha parece estar do nosso lado – cochichou o último, um anão gordinho – é importante tê-la como nossa aliada!

 

         -PAREM DE COCHICHAR COMO MATRONAS FOFOQUEIRAS!!!! – Gritou Theodora, enraivecida, apontando a porta – E sumam daqui, depois eu vou ter uma conversa com vocês!

 

         -Ah, não, Theo! – Disse Angel, se colocando entre a alta mulher e seus servos, com as mãos na cintura – Eles são uns artistas e estavam fazendo uma performance perfeita! Não pode impedi-los de fazer algo tão lindo!

 

         Theodora a fitou incrédula.

 

         -Fazer algo tão lindo?! Acha a coreografia de Thriller uma coisa linda?!

 

         -Claro que sim, paixão! E vou fazer parte dessa dança, você não vai ficar brava comigo, não? Sempre desejei dançar isso! – Declarou Angel, acariciando o rosto de Theodora.

 

         Theodora sentiu-se derreter com a carícia. Quase babou.Era espantoso como aquela lourinha estava dominando-a, e em tão pouco tempo! O que será que ela tinha, será que  o líquido de seu orgasmo  continha um feitiço? Estava a cada momento desejando-a mais, só pensava em possuir aquela mulher de todas as formas possíveis.

 

         -Uh...pode dançar...mas só um pouco, que tenho planos para nós em meu quarto – Concordou, pegando a mão de Angel e a beijando.

 

         Angel sorriu vitoriosa e se voltou para os criados, que a fitavam com sorrisos estranhos.

 

         -Vamos lá, pessoal! Som na caixa! Coloquem a música!Vamos dançar!

 

         A ruiva correu até o player e aumentou o volume. A música estrondou no ambiente e eles começaram a dançar. Angel se colocou ao lado do careca, que era o melhor dançarino, e começou a sacudir o corpo no ritmo da música, e imitando os passos do clip famoso.

 

De braços cruzados, Theodora observava Angel com atenção. A lourinha tinha jeito para a coisa, estava acompanhando a coreografia muito bem!Pena que ela estava dançando aquela música que odiava, porque  achava que mostrava uma aberração que não era verdade, como zumbis que saíam de túmulos.Achava o clip uma palhaçada, mas seus criados adoravam dançá-lo, para seu desgosto.

 

         Angel dançava com prazer, sacudindo o corpo, dando passadas, movendo os braços em poses grotescas. E subitamente, começou a sentir um fogo interno queimar seu corpo. O que era aquilo? A sensação aumentou, ela parou de dançar e colocou a mão na garganta. Tentou pedir ajuda, mas caiu para a frente, sendo sua queda aparada por Theodora, que já tinha percebido o mal-estar dela e pulou como um gato para socorrê-la.

 

         Theodora a segurou nos braços e a transportou até um sofá, depositando-a com cuidado. Se voltou para os criados que haviam parado de dançar e as olhavam expectantes.

 

         -Parem essa música ! – Gritou, fitando-os com olhar ameaçador.

 

         Ela se voltou  para Angel, se ajoelhando ao lado dela. Angel estava desmaiada, respirando com dificuldade, os olhos fechados, pálida e suando profusamente. Já conhecia aqueles sintomas. Maldição! Angel estava contaminada!

 

         Para maior certeza, abriu um olho dela com o polegar, erguendo a pálpebra. A íris estava dilatada, a pupila com um fulgor avermelhado. Outro indício. Abriu os lábios dela com os dedos e fitou atentamente os dentes dela. Os caninos estavam um pouco pontudos, outro indício decisivo para seu diagnóstico.

 

         Os criados haviam se aproximado silenciosamente e observavam a cena, cheios de curiosidade. E viram tudo.

 

         Theodora acariciou o rosto pálido de Angel. Um profundo gemido saiu de sua boca, vibrante de culpa:

 

         -Maldição!!!! Por que me mordeu, Angel? Por que teve de fazer isso? Por que engoliu meu sangue? Agora está contaminada! Maldição! Maldição!

 

         Os criados se entreolharam. A lourinha estava contaminada! Agora, o processo era irreversível, ela iria entrar em coma, depois em estado cataléptico, e finalmente, acordar como uma vampira, no espaço de sete dias! A não ser que Theodora interrompesse o processo fincando uma estaca no coração da moça, matando-a antes da completa mutação.

 

 

Continuará na parte 3

 

 

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