DOCE
VAMPIRA
PARTE 3
Theodora
espichou suas longas pernas e apoiou o rosto na mão, fitando o rosto de Angel
com preocupação. Ela já estava em sua residência há dois dias. Ela havia sido
colocada na cama de Theodora pela própria vampira, que queria estar sempre
presente no processo da metamorfose de Angel.
Ela
sabia que no terceiro dia a febre daria lugar ao estado de coma, e no quinto
dia o processo atingiria o estágio de catalepsia, no qual Angel ficaria aparentemente morta e no final do sétimo dia
acordaria como vampira.
E a única maneira de interromper essa
mutação era a morte de Angel, com uma estaca no peito.
O pensamento de Angel sendo morta com
uma estaca enfiada no peito fez Theodora estremecer de pavor. Não! Angel não
podia sofrer essa morte horrível! Aquele corpo lindo, de curvas harmoniosas,
não podia sofrer essa violência! Os seios perfeitos não podiam ser
desfigurados, seria um crime!Ela iria viver! Seria uma vampira, viveria nas
sombras, nunca mais poderia ver a luz do sol, teria que receber sangue humano
para viver,atravessar
séculos sem fim, mas estaria viva.
Um soluço contido sacudiu o corpo de
Theodora. Seria o melhor para Angel? Ela não a culparia, cheia de ódio, por
carregar o peso de ser imortal? Atravessar séculos, milênios, presenciando as
desventuras dos seres humanos?A solidão secular. O sentimento acabrunhador de ser considerada um
monstro. Sabia o que era isso . Angel aceitaria
seu destino sem odiá-la?
Theodora suspirou. Tomou a decisão.
Angel viveria. Ela era tão jovem! Tão encantadora! Ela não podia acabar com uma
estaca no peito, seu belo corpo se decompor e virar pó. E ela seria a guia de
Angel nessa nova vida. A protegeria dos vampiros que gostavam de torturar
jovens como ela, por um sádico prazer.
Um gemido de Angel interrompeu seus
pensamentos. Ela balbuciou uma palavra, em seu delírio da febre. Theodora se
inclinou para ouví-la.
-Theodora... ele
quer nos separar...maldito... maldito
Dracul!
Theodora a
fitou espantada. Angel estava falando no idioma grego! E falava em Dracul, seu mais odiado inimigo, que a
tornara uma vampira!
Segurou a mão dela entre
as suas e sussurrou no ouvido dela, em grego:
-Angel, Dracul
não pode fazer mais nada contra você, ele está morto há
muitos anos.
-Não, ele está vivo! – Arquejou Angel –
E meu nome não é Angel! Meu nome é Selene! Você sabe disso, Theodora! Oh, pelos
deuses! Ele quer nos matar! Temos que sair dessa prisão!
Theodora contemplou a jovem febril com
um olhar onde se lia dor,surpresa e esperança.
-Selene?!
–sussurrou, incrédula – Você é minha Selene? A minha amada inesquecível?!
Angel entreabriu os olhos, fitou-a
dando um gemido angustiado.
-Por que não me reconhece? – disse,
entre arquejos – Como pode duvidar de mim? Sou eu, Theodora...a mulher que abandonou tudo...para
fugir com você...
Theodora começou a chorar, fitando
aquele rosto febriu. Ajoelhou ao lado da cama,
inclinando a cabeça sobre a mão que segurava, molhando-a com suas lágrimas.
-Selene! É você? Você voltou para mim?
É por isso que sinto novamente essa louca emoção, só em estar perto de você,
meu amor! Você veio das sombras da morte, através dos tempos, para reencontrar
a sua alma gêmea, minha amada! Oh, deuses imortais! Guardiães que deixaram minha
amada atravessar os portões dos Campos Elísios para
voltar ao mundo dos mortais e reviver,
para eu poder reencontrá-la! Obrigada, obrigada! – Soluçou.
Theodora adormeceu ali, ajoelhada,
esgotada em suas emoções contraditórias de alegria e medo.
cd
No
terceiro dia, Angel entrou em coma. Theodora não saiu do lado da moça,
segurando a mão dela, banhando seu rosto com toalhas frias, com uma devoção que
surpreendia os
seus criados. Durante o dia Theodora dormia ao lado de Angel seu sono comatoso,
e à noite, se postava ao lado dela sentada numa cadeira, cuidando da lourinha
como um cão de guarda, com um olhar tão feroz que os criados só
se aproximavam quando chamados.
E o quinto dia chegou. Angel
aparentemente parou de respirar, sua pele adquiriu um tom extremamente pálido e
parecia uma pessoa morta. Mas Theodora sabia que agora ela estava no estágio
final da metamorfose e quando abrisse os olhos, seria outra criatura da noite e
das sombras, com sua imortalidade só podendo ser interrompida por uma estaca em
seu peito ou o sol queimando-a até virar cinzas.
Theodora
ficou ao lado dela, vigiando como um cão fiel ao dono. Toda a
noite velando, fitando a aparente morta com tristeza, o corpo inerte na
penumbra da luz de um candelabro de prata com velas.
Como Angel estava linda naquela
imobilidade cataléptica! Seu rosto branco, imóvel,
como de uma estátua grega. Os traços angelicais em uma placidez de paz.
Theodora
havia pessoalmente trocado as roupas de Angel por um vaporoso “pegnoir” branco, para deixá-la em uma roupa mais
confortável em seu sono comatoso, e havia tido oportunidade de ver o corpo da
moça em seu esplendor. Mas ela o havia contemplado reverentemente, sentindo uma emoção
bem mais profunda que desejo sexual, uma emoção que nunca havia sentido em toda
sua vida de imortal. Não sabia avaliar o que sentia, mas sabia que queria
proteger Angel de qualquer mal que pudesse ameaçá-la.
-Minha
ninfa grega... Selene... – Sussurrou, debruçando-se para o rosto imóvel – Eu
estarei sempre protegendo-a... eu
fui a causa de sua transformação em um ser das sombras... Mas por todas nossas vidas, estarei
sempre ao seu lado, fazendo tudo para que seja feliz... se
é possível um ser como nós poder ser feliz...
Sexto
dia. Sétimo dia. E quando anoiteceu, Theodora acordou de seu sono comatoso e se
voltou para Angel, que ainda dormia. Pegou a mão dela e sentiu que não estava
mais fria. A temperatura subia, o coração voltara a bater normalmente. Logo ela
despertaria. Tinha de preparar-se para o despertar dela.
cd
Uma
música bem ao longe. Acordes suaves, um som que penetrou em seus ouvidos
relaxando-a. Angel teve
a sensação difusa que emergia de um casulo frio, no qual estivera como uma
lagarta transmutando em mariposa. Abriu os olhos lentamente, sentindo que
despertava de um sono profundo e sem sonhos. Primeiro viu tudo embaçado, desfocado, o que a
angustiou. Mas logo sentiu uma mão segurando a sua com infinito carinho e isso
a tranqüilizou. E aos, poucos, pôde distinguir um
rosto , que foi se tornando nítido . E a primeira coisa que viu foi o belo
rosto de Theodora, que lhe sorria ternamente, inclinado sobre o seu.
-Bem-vinda
de volta, Angel – Disse ela, com voz sussurrante – Não
tenha medo, está tudo bem...
Angel
tentou falar. Sentiu a garganta seca e só conseguiu soltar um som roufenho.
Theodora
já esperava por isso, e levou aos lábios dela uma pequena tigela com leite
morno, como à uma recém-nascida, sustentando a cabeça
dela com o braço esquerdo. De certa forma, era uma recém-nascida para a vida.
Angel
bebeu em pequenos goles, sentindo um doce bem estar com o líquido morno
descendo por sua garganta para suas entranhas. A tigela ficou vazia e ela
afastou a mão de Theodora com a sua, fitando o belo rosto da morena que a
fitava atenta.
-Eu
estou bem... – Disse, sentando-se na cama. Olhou surpresa para a roupa que vestia e
fitou Theodora confusa.
-Você
trocou minha roupa? E eu não acordei com isso?
Theodora
a fitou gravemente. Agora que vinha a parte delicada, falar a verdade sem fazer
Angel ficar desesperada.Não adiantava mentir. Ela tinha que saber sua nova
condição, para evitar os perigos inerentes ao que agora era.
-Você
esteve... em coma vários dias, Angel.
Angel
a fitou incrédula. Sorriu.
-Eu?! Em coma?! Por quê?
-Você
passou por uma...Transformação que alterou sua fisiologia – Disse, procurando
ser suave.
-Eu?
Passei por uma transformação? Qual?
-Bem...
você... agora é uma nova pessoa...
Angel
ficou fitando-a com ar expectante. Theodora parecia embaraçada, sem coragem
para esclarecer algo. Resolveu ajudá-la a ser objetiva:
-Theodora,
fale o que precisa dizer sem rodeios. Detesto rodeios. Acho que sinceridade e
objetividade sempre é o melhor caminho para se dizer algo.
Theodora
a encarou com ar resoluto.
-Muito
bem, você quer assim. Pois bem: A transformação por que passou a transformou em
uma vampira.Você acidentalmente engoliu meu sangue durante um beijo, quando
mordeu meu lábio, e se contaminou com meu sangue. Sou uma vampira, e você se
contaminou e passou por uma transformação durante sete dias. E agora acordou
como uma vampira.
Angel
ficou ouvindo-a perplexa, imóvel. Quando Theodora acabou, ela soltou uma risada
divertida.
-Oh,
Theo, que mente fértil! Já sei, você sabe que sou filha de Hugh
Reynolds, um conhecido caçador de vampiros, e está brincando comigo. Tudo bem
pode brincar, mas não vai conseguir me espantar.
Theo
a fitou nos olhos, pegando-a pelos ombros, o rosto sério e grave.
-Angel,
gostaria de estar brincando... que nada tivesse
acontecido. Mas aconteceu, e é importante você conhecer a verdade, porque você
tem que tomar certos cuidados para não arriscar sua vida. Angel, você é uma vampira agora. E
estou surpresa em saber que seu pai é um velho inimigo meu, Hugh
Reynolds.
Angel
continuou sorrindo, incrédula.
-Hei,
esquece que como filha de Hugh Reynolds eu sei tudo
sobre vampiros? Que a luz solar pode matá-los, bem como uma estaca no peito?
Não precisa alertar-me nada! Sei tudo, ouvi as palestras de meu pai centenas de
vezes! Mas quer saber o que acho disso tudo? Acho um monte de asneiras!
Vampiros não existem! Tudo não passa de uma invenção por causa do conde Dracul, que achava que beber o sangue de suas vítimas o
fortalecia! Bram Stoker
divulgou a lenda em seu livro e os filmes popularizaram o mito, mas tudo não
passa de uma mentira! Meu pai acredita nisso porque é impressionável e crédulo,
mas eu não!
Um
rosnado saiu da garganta de Theodora. Ela pegou Angel pelos ombros e a fez
encará-la, com os dentes caninos se aguçando e os olhos azuis se tornando
púrpuras. Sua voz soou rouca e cavernosa, fazendo Angel tremer de medo.
-Vampiros
não existem? Então, o que acha de mim? Acha que estou fingindo ser um deles?
Olhe bem para mim, Angel! Acha que é um truque minha transformação?
Estupefata
e cheia de medo, Angel a fitou de perto. Aquilo era real! E a verdade a atingiu
como um balde de água gelada. Theodora era realmente
uma vampira! Vampiros existiam!
Theodora
viu o medo nos olhos
de Angel e aquilo a fez parar. Sua ira passou em um passe de mágica e o lobo
voltou a ser um cordeirinho. Theodora percebeu que jamais teria coragem ou
vontade de fazer medo à Angel.
-Maldição! – Rosnou, largando Angel – Você é
muito cética! Acredita agora?
-S...sim... então...eu...
eu também... meus dentes...vão ficar assim? E os olhos... vermelhos?
-Só
em momentos críticos de ira e ameaçada. Não disse que sabe tudo sobre vampiros?
Angel
caiu sentada na cama, a cabeça entre as mãos.
-Então...sou agora uma vampira? Vou ter que viver nas sombras, nunca
mais ver a luz do sol, e ter que me alimentar de sangue? Oh, meu Deus! Eu não
merecia isso! _ Disse Angel desesperada.
Theodora
sentou ao lado dela na cama, passando o braço em seu ombro, puxando-a para seu corpo.
Angel pousou a cabeça no seu peito, chorando desconsoladamente.Theodora alisou
seus cabelos, falando baixinho em seu ouvido, procurando consolá-la:
-Veja
o lado bom disso tudo...você vai ter vida eterna...agora é um ser com uma força prodigiosa, ninguém pode
ameaçá-la...seus sentidos estão mais aguçados...pode caminhar por uma parede, nada pode detê-la.
Angel
afastou o rosto e a encarou com os olhos cheios de lágrimas.
-Vida
eterna! O que vou fazer com uma vida eterna? Não tenho mais objetivos, não
posso mais pensar em ser feliz, ter alguém que me ame...quem
é que vai querer amar uma vampira? A eternidade será um castigo, um peso que
carregarei vivendo uma eterna solidão!
Theodora
pegou as mãos de Angel entre as suas e as beijou fervorosamente, fitando-a .
-Angel...prometo que jamais ficará sozinha. Eu estarei sempre ao seu
lado. Nas noites frias de inverno ou
nas quentes de verão, protegendo-a e aquecendo-a em meus braços...isso, se ainda me quiser, pois fui a causadora de sua
transformação em um ser das sombras. Pode perdoar-me e deixar que eu esteja
sempre ao seu lado? – perguntou Theodora, humildemente.
Angel
fitou aqueles olhos incrivelmente azuis, aquele rosto fascinante pelo qual se
apaixonara fulminantemente. E sentiu instintivamente que aquela paixão tinha
uma estória mais profunda que o dia que conhecera Theodora. As palavras dela
tocaram a sua alma. Apertou também as mãos dela, entrelaçando os dedos nos
dela, e disse com voz cheia de emoção:
-Theo...
desde o momento que a vi, senti que era a mulher de
minha vida, o amor que eu esperava... e se o destino
quis assim, que eu me tornasse uma vampira, que seja você a compensação pelo
que perdi da vida... a luz do sol, a beleza dos dias,
meus amigos. Você será o prêmio pelo qual paguei um alto preço, mas vai valer à pena...
afinal, não é todo casal apaixonado que pode ficar
junto para sempre, sem que a morte os separe... – Concluiu, com uma ponta de
humor.
Theodora
rodeou o corpo de Angel com os braços e sussurrou, fitando-a bem de perto:
-Minha
Angel...você apareceu em minha vida para afastar a
solidão que me acompanhava por séculos... e agora será
minha companheira eterna...
Angel
rodeou o pescoço de Theodora
e seus lábios se encontraram em um beijo desesperado, aquele
beijo era muito mais que um simples carinho, mas sim o selo de um pacto de fidelidade, um
compromisso para juntas enfrentarem a assustadora eternidade.
cd
Theodora
levou Angel até o seu enorme banheiro, com ducha e banheira Jacuzzi.
Perto da banheira, um controle remoto que ligava uma enorme tv de plasma,
uma aparelhagem de som que tocava música clássica e uma câmera de circuito fechado de tv que
mostrava à cores na tv de plasma a
paisagem do Central Park. Theodora
indicou os aparelhos, sorrindo e dizendo:
-Bem,
você poderá ver o dia e o sol através da tv. Sei que não é a mesma coisa, mas
mata a saudade de ver o sol. E tem 150 canais de tv à
cabo, para ficar informada e se divertir.
Angel
sorriu tristemente.
-Ver
um mundo que morreu para mim.
-Está
enganada, Angel. É claro que de dia estamos em nosso sono comatoso, mas à
noite, podemos sair e nos misturar às pessoas normais. Lembre-se que foi numa
boate gay que nos conhecemos. Vamos, anime-se! Tome um bom banho quente, com sais
aromáticos.Depois do banho, vista um roupão e venha ao meu encontro no
quarto – disse Theodora, beijando
carinhosamente as mãos de Angel.
-Está
bem, estou sentindo mesmo que preciso de um bom banho quente.
-Vou
deixá-la agora. Fique à vontade, bela Angel – Disse Theodora, se retirando.
Angel
ficou só. Olhou em volta, aquele enorme banheiro, luxuosamente decorado.O mundo
de Teodora. Um lugar luxuoso... e frio. Faltava vida à aquele lugar. Pobre Theodora! Que vida triste!
Começou
a despir-se lentamente, pensativa. Olhou seu corpo refletido no enorme espelhos de cristal que quase tomava uma parede do banheiro, com
uma magnífica moldura dourada. Seu corpo continuava quase o mesmo. Um pouco mais magro, mais
pálido, pela metamorfose por que passara, mas aparentemente, sem nenhuma mudança
significativa.Mas sabia que agora era totalmente diferente. Um ser das sombras,
uma expressão eufemista para o termo vampira.
Tinha
que encarar essa realidade. Era uma vampira. Teria que se alimentar de sangue
humano! Não, não teria coragem de morder o pescoço de uma pessoa e sugar o
sangue! Preferia morrer! Jamais atacaria alguém para isso! Era uma crueldade, e
nojento!
Theodora
a ajudaria a resolver esse problema. Era havia prometido estar sempre de seu
lado, protegendo-a, orientando-a. Ela a ajudaria.
Angel
sentiu um grande alívio e a chama da esperança de avivou em seu coração.
Theodora seria sua guia e protetora. Com ela, não temeria nada, porque sentia
que ela era forte e a protegeria contra todo mal.Era impressionante a confiança
que depositava em Theodora. Mal a conhecia, mas algo em seu íntimo lhe dizia
que a bela mulher nunca lhe mentiria ou faria mal. Podia confiar nela com sua
vida.
-Theodora...
– Sussurrou – Eu a amo.
cd
Quando
Angel voltou ao quarto, encontrou Theodora de pé fitando a paisagem lá fora
através das vidraças. As cortinas de pesado veludo azul escuro haviam sido
afastadas, mostrando o céu de uma clara noite de lua cheia. Ela estava agora
vestida simplesmente com uma blusa de seda branca de mangas compridas e uma calça colante de malha, que moldava o seu corpo esguio e forte,
e com botas. Os cabelos estavam presos em uma trança.
Ela
voltou-se ao ouví-la chegar, apesar de Angel estar
usando um chinelo de tecido que não fazia ruído no espesso tapete.
Theodora
sorriu, vendo-a parada na porta observando-a, vestida com o enorme roupão de
banho branco, os cabelos ainda molhados.
-Aí
está você... – Disse, com voz suave e profunda – Aproxime-se, Angel...está se sentindo melhor?
Angel
avançou e notou um carrinho perto de uma mesa com
travessas cobertas com tampas de prata. Sorriu para Theodora, achando-a linda
com aquela roupa.
-Sim,
estou bem melhor, e também sentindo uma fome louca...o
que tem nessas travessas?
Theodora
fez uma mesura, inclinando-se e indicando a mesa posta para duas pessoas, com a
luz de um candelabro de prata com três velas.
-Tome
lugar à mesa, minha jovem dama...e me dê a honra de
acompanhar-me em uma frugal refeição.
Angel
a fitou sorridente.
-Oh,
quanta gentileza, Theodora...aceito o convite com
muito gosto...
Theodora
ligou uma aparelhagem de som discretamente em um nicho na parede com o controle
remoto e a suave música Fantasia on Greensleeves, de Vaughan-Williams,
encheu o ambiente docemente. Ela avançou e depositou o controle sobre a mesa e
puxou a cadeira para Angel sentar, como um cavalheiro.
Angel
sorriu deliciada, sentando-se e falando em tom divertido:
-Para
uma vampira, você é muito delicada, Theo...Não sabia que uma vampira podia ter
tão boas maneiras...
Theodora
se sentou diante dela e sorriu levemente.
-Bem,
há muito tempo não pratico minhas boas maneiras. Mas você merece, Angel.
Angel
a fitou curiosa.
-Por
que pensa assim? Mal me conhece!
Dessa
vez, Theodora a encarou séria, com seus magníficos olhos azuis, que a luz das
velas dava um tom lilás.
-Acha
isso, Angel? Ainda não sentiu dentro de você uma inquietante sensação que nós
já nos conhecemos há muito tempo? Eu senti isso desde que a vi, mas me recusei
a dar atenção à esse sentimento, até que a tive aqui
em minha casa, durante as noites de sua...transformação.
Angel
a fitou também séria, sabendo que Theodora não estava brincando.
-E
o que sentiu nesses dias, Theodora?
Theodora
falou com voz sussurrante, fitando-a com intensidade:
-Senti,
ou melhor, reconheci que havia reencontrado minha alma gêmea. Percebeu a
palavra, Angel? Não disse encontrei, eu disse reencontrei.
Angel
ficou boquiaberta por uns segundos e depois engoliu em seco, dando um sorriso forçado, tentando disfarçar a sufocante emoção que tomou
conta de seu ser.
-Oh!...está querendo assustar-me, Theodora? – Perguntou, com voz
insegura.
-Não,
Angel.Só quero que encare o que o destino fez com nossas vidas...esse destino tão caprichoso e imprevisível, resolveu nos dar
outra chance para sermos felizes.
-O
que quer dizer com isso?
Theodora
ergueu as sobrancelhas perfeitas, pousando a mão sobre a de Angel,
delicadamente.
-Angel,
ainda não percebeu? Somos almas gêmeas, que se conheceram há séculos atrás! Mas
o destino nos separou e eu fiquei sozinha por centenas de anos, tendo perdido a
esperança de encontrá-la, de ser novamente feliz!
Angel
a fitou estupefata. Theodora viu seu olhar incrédulo e retirou a mão da sua, fitando-a
com mágoa.
-Você
não acredita em mim.
-Bem...
Theodora...você há de convir que desde que acordei de
meu sono comatoso, como você disse, descobri que me tornei uma vampira... e agora, ainda mal refeita desse notícia, você me diz que
nos conhecemos séculos atrás?! Que somos almas gêmeas?
-Você
não acredita na lei da reencarnação, Angel?
-Theodora,
nunca segui nenhuma religião.
-Eu
também nunca fui uma pessoa religiosa, ainda mais depois que me tornei uma...vampira. Mas fui vencida pela evidência.
-Como
assim? – Perguntou Angel, intrigada, se servindo de uma fatia de carne na
travessa.
-Quando
você estava em sua fase de transformação, eu fiquei sempre ao seu lado. E você
teve momentos que começou a balbuciar meu nome, ficando agitada, e depois falou
coisas que me remeteram à meu distante passado, Angel.
-Oh!
Que coisas eu disse, Theodora?
Theodora
se inclinou para ela, falando fitando-a nos olhos com firmeza:
-Você
falava agitada que tinha que
tinha que fugir, que Dracul queria nos
separar.Que seu nome não era Angel, mas sim Selene. E que precisávamos fugir da
prisão. Tudo isso falando em grego antigo! Você acaso estudou essa língua?
Angel
a fitou espantada.
-Não
está brincando? Tentando pregar-me uma peça? Claro que não sei grego!Sei francês
e italiano, além do inglês, mas não sei uma palavra em grego.
Theodora
a fitou com impaciência.
-Angel,
não sou nenhuma adolescente para pregar peças!Após séculos vivendo nas sombras,
não tenho nenhum “ sense of humor”
para brincadeiras!Estou falando sério, você é a reencarnação de Selene, a minha alma gêmea, que veio acabar com a minha solidão secular!
-Bem...não quero discordar de você, mas...acho
isso tudo tão louco! De repente, minha vida deu um giro de 360 graus e estou tonta, estupefata, tentando assimilar essas mudanças. E
depois de saber que me tornei uma vampira, que você é uma também, tenho que
acreditar que sou a reencarnação de uma mulher!
Theodora fitou Angel com
compreensão e carinho, acariciando o
rosto da moça.
-Tem
razão, minha querida...você está passando por muita
coisa ao mesmo tempo, deve ser algo enlouquecedor...vou
conter-me e não vou dizer mais nada. Só quero que acredite que a amo, e estarei ao seu lado por toda minha vida... se você quiser.
Angel
sorriu, fitando-a apaixonada.
-Quanto
à isso, não tenho dúvidas, meu amor... eu estou apaixonada por você e quero sempre ter você junto à
mim. Se agora tenho uma eternidade para viver, que seja toda ela ao seu lado.
Seus
lábios se aproximaram. Theodora tomou aquele rosto amado entre as mãos e seus
lábios se uniram, se roçando, se esmagando, em um beijo apaixonado, um beijo
que era também a promessa de um amanhã cheio de amor.
Elas
se separaram com a respiração opressa, sentindo o desejo tomar seus corpos.
Angel fitou Theodora e falou, arquejando:
-Nunca
me senti assim... Theodora, quero ser sua... eu a desejo tanto!
Theodora
sorriu, acariciando os cabelos de Angel.
-Eu
também a quero muito, Angel...mas antes de tudo, você
precisa saber que de agora em diante, tudo que você sentir é muito mais forte
que um ser humano normal sente. A fome é mais intensa, a sede de sangue, o
prazer...seus sentidos cem vezes apurados...tudo é exacerbado. Você pode ouvir as asas de um morcego em
vôo, ver no escuro, sentir o cheiro de uma pessoa cem metros distante...isso é uma proteção para os perigos que nos cercam.
Angel
a fitou excitada.
-É
verdade! Quando entrei na sala, senti o
seu cheiro...um cheiro excitante, de couro, canela e
algo que não identifiquei, mas agora sei que é o cheiro de sua pele...e agora também... – Hesitou, ficando vermelha.
Theodora
sorriu divertida, dizendo:
-Você
está sentindo o cheiro de minha excitação. Eu também sinto o seu. Nós não
podemos enganar uma à outra, Angel. Ambas saberemos
sempre quando a outra estiver excitada.
-Que
ótimo – Disse Angel, beijando-a no queixo – Então, não precisarei dizer que
quero ser sua .
Theodora
a fitou ternamente.
-Nunca,
meu amor...mas antes de tudo...você
precisa receber no mínimo um litro de sangue. Seu corpo passou por uma
transformação que exauriu suas forças. Esteve em coma dois dias, ficou em
estado cataléptico em igual tempo, sem se alimentar...Seu sangue está
precisando de um reforço urgente.
Angel
a fitou aterrorizada.
-Pelos
deuses, Theodora! Não me diga que terei de sugar o pescoço de uma pessoa!
Prefiro morrer! É contra meus princípios morais, é nojento! Por favor!
Theodora
a abraçou, sorrindo, dizendo:
-Não
vai precisar fazer isso se não quiser, Angel. Eu sempre compro sangue no
mercado negro, tenho um estoque para seis meses! Você poderá receber o que
precisa numa transfusão.Oh, minha doce vampira... se a
ouvissem, meus criados iriam rir! Uma vampira com pavor de sugar um pescoço!
Angel
a fitou com os olhos arregalados.
-Seus
criados...são vampiros?!
-Não,
eles são lobisomens...se alimentam de pequenos
animais. Aves, ratos, coelhos...
-Ohhhhhh! – Fez Angel, apertando o estômago com a mão – Acho
que vou vomitar...
Theodora
riu.
-Venha,
vou levá-la para tomar sua primeira transfusão. Não precisará de outra em um
mês. E depois... você irá me conhecer melhor.
Angel
viu nos olhos de Theodora muito bem o que ela iria conhecer melhor da bela
vampira. E seu coração disparou.
Continua
na parte 4
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