Aquela
vez na Grécia
Parte 3
A ilha de Mykonos é a ilha mais
cosmopolita e popular da Grécia. Com dezessete praias em sua costa banhada pelo
mar Egeu, ela é muito procurada pelos turistas. Dessas praias se destacam
Paranormos e Paradise (parcialmente frequentadas por nudistas), além de Super
Paradise, muito frequentada por gays e nudistas , que desfrutam de suas boates,
bares e restaurantes. Sua vida noturna é intensa, com clubes gays, bares e
restaurantes oferecendo diversão, boa comida por preços razoáveis e bons
vinhos. O local mais badalado da ilha é Little Venetia, um recanto de bares e
restaurantes debruçados sobre o mar, onde pode se apreciar o magnífico por de
sol tomando ouzo, o famoso vinho grego.
Mykonos oferece também uma grande
variedade de lojas de roupas, joias, galerias de arte, souvenirs e artesanato,
em suas vielas estreitas, mas muito limpas, com piso de pedras e casas
impecavelmente brancas, com balcões floridos e pintados de cores alegres.
A maior celebridade de Mykonos é o
pelicano Petros, a quem todos os
pescadores alimentam e tratam carinhosamente, por ser o mascote da
ilha.
Mykonos é ligada à Atenas por uma
ferryboat, companhia de barcos que transportam os visitantes do porto de Pireu,
em Atenas, ao porto de Mykonos e vice-versa. Mas como essa viagem dura no
mínimo oito horas, pois vai parando em várias ilhas, quem tem condições
financeiras freta um helicóptero, ou compra uma passagem de avião, que faz o
percurso em apenas quarenta e cinco minutos.
E essa foi a opção de Dafne. A viagem
foi tranquila, com o dia com céu límpido e com um sol radiante, ela olhando a
belíssima manhã que se iniciava.
Dafne estava cansada pela noite pouco
dormida, mas radiante de felicidade, como o dia que nascia. Ela pensava nas
horas de amor que havia passado com Karen e continha-se para não ficar sorrindo
como uma idiota. A lourinha havia conseguido arrebatar seu coração em apenas um
dia, estava completamente apaixonada. Mal havia se afastado dela para sua ida à
Mykonos, e já estava sentindo a falta dela terrivelmente, parecia que lhe
faltava um pedaço de seu ser. Após anos sem entregar seu coração a qualquer
mulher, por mais linda e boa de cama que fosse, agora estava rendida pela
lourinha de olhos verdes.Iria ver sua mãe depois de vários anos sem uma palavra
trocada com ela por qualquer meio de comunicação, mas estava mais ansiosa para voltar para
Karen.
O helicóptero pousou no pequeno
aeroporto de Chora, centro de Mykonos, e Dafne se despediu do piloto, depois de
combinar a hora que ele devia chegar ali para buscá-la de volta para Atenas.
Ela pegou sua pequena bagagem e em um taxi se dirigiu para o endereço do
escritório do advogado que havia enviado a carta para ela, convocando-a a vir à
Grécia. Ficava na rua Mitropoleos, perto de Little Venetia.
Ela jamais viu o homem que a observava
desde que saiu do helicóptero, pegar o seu carro e seguir o táxi que a
levou para o centro de Mikonos.
Chegando ao seu destino, Dafne pagou o táxi e desceu do carro, conferiu
o número do prédio, olhando o envelope da carta. Número 220, sala 240.
-Muito bem... – Disse baixinho – Vamos
ver o que me espera, antes de ir ao encontro de minha mãe na vila Ano Merá...
Ela subiu os dois lances de escada,
pois o prédio não tinha elevador. Chegou a um corredor pouco iluminado e logo
localizou a sala. Na porta de madeira escura leu, em uma placa de metal :
Miklo Stravos –
Advogado
Direito imobiliário
Ela
apertou a campainha ao lado e depois de um pequeno intervalo um homem careca e
magro, de óculos de grau, vestido com um terno escuro. Ao vê-la, sua expressão
sisuda de abriu em um sorriso de dentes escuros pelo fumo.
-Bom Dia, senhorita! A quem devo o
prazer de ver?
Ela o fitou séria, sem retribuir o
sorriso.
-O senhor é Miklos Stravos?
-Sim. E você, quem é?
-Dafne Kortakis. Recebi uma carta do
senhor me convocando para vir à Grécia tratar de assunto de família e aqui
estou – Declarou ela, mostrando o envelope.
O sorriso do homem se alargou e ele se
afastou rapidamente para ela entrar.
-Dafne Kortakis! Sim, sim, eu me
lembro, escrevi uma carta para você! Entre, entre!
Ela passou por ele, olhando em volta
com desgosto. O ambiente tinha cheiro de cigarro, o tapete velho e desbotado
cheirava a mofo, a mesa estava lotada de pastas e um cinzeiro cheio de pontas
de cigarro e vários de plástico transbordavam da lixeira.
Ele percebeu seu olhar e retirou um
lenço do bolso, passando na cadeira diante da mesa.
-Oh, desculpe, estou sem faxineira...
sente-se, Dafne Kortakis!
Ela se sentou cuidadosamente, evitando
encostar suas calças na mesa empoeirada.
Ele
sentou diante dela, sorridente, a fitando como um lobo faminto.
-Aceita um café?
-Não,
senhor Stravos, estou com pouco tempo, vamos logo ao assunto: foi minha
mãe quem mandou o senhor entrar em contato comigo?
Ele a encarou subitamente sério.
-Sua mãe faleceu há mais de um mês,
senhorita Kortakis.
LLLLLLLLLLLLLLLLL
Karen, ou melhor, Elizabeth Singles, acordou
com o ruído do telefone tocando. Ela gemeu, estendendo a mão para o lado onde
estaria Dafne e só encontrou o vazio. Abriu os olhos lentamente, vendo que
estava sozinha na cama. O telefone insistia tocando. Levemente irritada pelo
ruído, estendeu a mão e pegou o telefone, falando com voz cheia de sono:
-Alô!!! Quem é?
-Senhorita Karen, o senhor Alexis
Palamidis está aqui na recepção e gostaria de falar com a senhorita – Informou
o recepcionista.
Elizabeth franziu o cenho. Alexis
Palamidis? Ah, aquele grego parecido com Antonio Banderas! Oh, por que havia
informado à ele onde estava hospedada? A última pessoa que queria ver ou falar
naquele momento era ele! E onde estava Dafne?
-Hum, acabei de acordar, Alexis... o que deseja falar comigo tão cedo?
– Disse, entre um bocejo.
Alexis deu uma risada.
-Bela Karen, vejo que liguei em uma má
hora, ainda estava dormindo. É que o dia está tão lindo, e pensei em lhe dar
uma tour por Atenas, para conhecer tudo com detalhes. Conheço os melhores
restaurantes, os melhores bares, lojas e danceterias...o que acha?
-Acho é que estou cheia de sono,
Alexis, e você realmente ligou em uma má hora – Disse Liz, friamente, sentando
na cama, totalmente nua – Preciso desligar agora, ligue mais tarde.
-Não tem problema, bela Karen, de
qualquer forma, vou deixar o meu cartão com a recepcionista, caso você queira
se comunicar comigo, estarei esperando seu telefonema.
-Ok, até mais tarde – Disse Liz desligando, sem a menor intenção de ligar
para o grego. Alexis podia ser um belo homem, mas ela já estava apaixonada por Dafne. Era
impressionante como a bela grega a havia conquistado em um tempo tão pequeno,
mudando seus conceitos sem muito esforço. E aquela noite de amor tinha sido o golpe final em suas defesas,
nunca sentira tanta emoção em se entregar à uma pessoa, e queria cada vez mais.
E não era algo somente físico, estava
sentindo tantas emoções inéditas, que estava surpresa e assustada. E onde
estava ela?
Levantou e foi até o banheiro, à sala
de estar, revistou tudo e não achou Dafne. Isso a decepcionou profundamente e
magoou. Então, Dafne a havia possuído inúmeras vezes, havia demonstrado tanta
paixão em seus atos e olhar, e agora havia saído sem uma palavra, deixando-a
ali sozinha, como se fosse uma prostituta que havia usado e não devia nenhuma
explicação ou despedida?
Em outra época, com outra pessoa, Liz não teria ligado a mínima, mas o
seu ex-amante havia conseguido destruir quase toda sua auto-confiança e estava
muito vulnerável à qualquer amostra de indiferença de um parceiro. E Dafne
estava demonstrando uma frieza que a magoou e enfureceu.
-Cretina... – Murmurou, abrindo as
torneiras da ducha e se metendo embaixo do jato de água morna – Nem para deixar
um recado... será que ela foi para Mykonos sem me acordar para acompanhá-la?
Tomou um banho prolongado e depois se
enxugou e se vestiu com um vestido de
linho verde. Perfumou-se, escovou
os cabelos usando também o secador e passou uma leve maquiagem, apenas contorno
nos olhos e baton de cor discreta. Teve uma idéia e ligou para a recepção.
-Recepção, bom dia.
-Bom dia. Sou Karen Adams, hóspede do
apartamento 410. Pode verificar se
deixaram algum recado para mim ?
-Um momento.
Liz esperou e um minuto depois o homem
respondeu:
-Sim, aqui tem uma correspondência para
a senhorita.
-Pode me dizer de quem?
-No envelope consta como remetente
Dafne, do apartamento 305.
O coração de Liz disparou de ansiedade.
Mas sorriu aliviada. Dafne não havia saído sem uma satisfação, havia deixado
recado.
-Alguém poderia trazer essa
correspondência junto com meu desjejum?
-Senhorita, são onze e trinta e cinco,
o desjejum só é servido até às dez da manhã. Mas podemos enviar um lanche, o
que gostaria?
-Ok, eu quero suco de laranja, torradas
e ovos mexidos – Pediu, sentindo uma súbita fome. Desligou e foi até a janela,
olhar o tempo. Realmente, estava fazendo um lindo dia de sol. Oh, por que Dafne
não a havia acordado?
Quinze minutos depois o lanche chegou em
um carrinho empurrado por um empregado do hotel. Liz deu uma boa gorgeta e
fechou a porta. Viu o envelope com o logotipo do hotel e o pegou ansiosa. No
envelope estava apenas escrito com caneta :
Para
Karen Adams – em mãos
Ela sentou numa poltrona e abriu o
envelope, retirando uma folha de papel com o timbre do hotel. Leu, ansiosa, o
bilhete de letras firmes e inclinadas para trás:
“ Karen,
Eu sinto
dizer isso, mas nossa noite juntas foi um erro. Eu estava sentindo-me carente e
por isso tive sexo com você. A verdade é que tenho uma pessoa a quem amo muito
e estou indo encontrá-la agora. Peço que não me queira mal pela minha fraqueza
, mas acho melhor não nos falarmos mais.
Sinceramente,
Dafne.”
Liz sentiu o sangue parecer gelar em
suas veias. Pálida, estarrecida, leu o bilhete várias vezes, sem poder
acreditar naquelas palavras tão frias, tão sem sensibilidade. Dafne, a mulher
que a havia beijado apaixonadamente na noite anterior, que havia vibrado em
seus braços e também a fizera vibrar com corpo e alma, era um monstro de
frieza!
Ficou ali imóvel, com o bilhete na mão,
por muito tempo, o olhar perdido. Depois, ergueu-se lentamente e com um brilho de
ira no olhar, ligou para a recepção.
-Recepção, boa tarde - Disse
recepcionista.
-Boa tarde. Um amigo meu, Alexis
Palamidis, deixou um cartão aí na recepção para mim. Por favor, dê-me o número,
eu quero telefonar para ele.
-Pois não, senhorita. Um momento.
LLLLLLLLLLL
Dafne saiu do escritório de
Miklos Stravos com o rosto triste. Sua mãe havia falecido e não tinha chegado à
tempo de vê-la, saber se a havia
perdoado do que achava “um pecado grave contra as leis de Deus”. Não adiantara tentar argumentar com a mulher
profundamente religiosa que era sua mãe, contra essa idéia.
O que havia descoberto com a entrevista com o advogado Mikro Stravos
era que sua mãe ao descobrir que estava com câncer no seio, o havia
procurado e entregado o seu endereço em
New York, que possuía devido às cartas que Dafne enviara nos primeiros anos de
sua partida. Ela passara uma procuração para o advogado vender seu imóvel,
quando ficara internada, para custear o tratamento. O advogado havia seguido as
recomendações e assim, o dinheiro da venda da estalagem havia sido gasto todo com o tratamento da
mulher em Atenas, e havia faltado dinheiro para o funeral e as custas dos
honorários dele, motivo pelo qual escreveu para ela.
Dafne havia se irritado com o homem, por tê-la feito ir à Grécia apenas
depois da morte de sua mãe. Suspeitou que ele havia exagerado na demonstração
dos gastos, mas como ele apresentou recibos de tudo, resolveu não se aborrecer
em uma discussão por motivos financeiros E pagou os dois mil euros que ele
cobrou para saldar as dívidas de sua mãe.
Fora do prédio, ela parou, indecisa. Eram apenas dez horas da manhã, e
ela havia marcado a sua volta para as cinco da tarde sua volta para Atenas. O
jeito era aproveitar para almoçar na ilha e ir visitar o túmulo de sua mãe. Ela
se dirigiu andando para pegar um táxi para primeiro ir ao cemetério da ilha.
Depois iria almoçar na vila Ano Merá,
onde havia a famosa taverna Vaguelis, de grande prestígio nas ilhas cíclades.
Era conhecida por ser a preferida do milionário grego Aristóteles Onassis, quando o famoso armador gastava seu tempo livre na ilha, e por
seus deliciosos frutos do mar grelhados. Quantas vezes havia estado ali com seu
pai, almoçando...
Ela foi até uma floricultura e comprou
um bouquet de rosas brancas, as preferidas de sua mãe. Depois, se dirigiu para
um ponto de táxi e tomou um para ir ao cemitério. Ela não percebeu um homem
próximo a olhando com um brilho nos olhos escuros. Ele havia a estava seguindo
desde que pousara em Mikonos.
LLLLLLLLLL
Tulio sorriu, vitorioso. Havia sido tão
fácil achar Dafne Kortakis! Havia ligado para amigos em Mikonos e mandara eles
vigiarem o aeroporto quando a mulher chegasse, dando uma descrição de
Dafne.Sabia que ela viria de helicóptero para a ilha por informação colhida no
hotel, fingindo ser um guia contratado por ela. Então, foi só ir para
Mikonos e colher a informação do
paradeiro dela, de um dos homens que ficara encarregado de seguí-la quando ela
chegasse no aeroporto. E quando Dafne
Kortakis saiu do escritório, foi fácil identificá-la. Dafne Kortakis era de um
tipo de mulher que se destacava em uma multidão, com sua beleza exótica.
Ninguém diria que era uma lésbica.
E agora ele estava seguindo o táxi que conduzia a mulher,
em seu carro alugado na ilha.
Viu ela descer do táxi com um bouquet
de flores na mão e entrar no cemitério local. O táxi manobrou na estrada e
voltou para a cidade.Tulio sorriu de sua sorte.Ela estava sozinha, no cemetério
deserto, naquela hora do dia! Ia ser muito fácil cumprir sua missão!
Dafne
encontrou com facilidade a cova de sua mãe. O enterro havia sido recente e a
cruz com o nome ainda estava bem legível. O cemitério era pequeno, a ilha tinha
pouco mais de 5.500 habitantes e o percentual de pessoas mortas era baixo. Ela
parou diante da cova e colocou o buquet de flores, se ajoelhando e fazendo uma
prece em grego, que sua mãe lhe ensinara.
De olhos fechados, não viu o homem se aproximar
sorrateiramente. Só quando ele parou atrás dela, Dafne sentiu a presença de
alguém atrás dela. Começou a voltar-se, mas um braço musculoso passou pelo seu
pescoço imobilizando-a e uma mão com um lenço tapou seu nariz. Ela se debateu,
mas estava em uma posição vulnerável e não conseguiu se libertar. Logo o efeito
do entorpecente contido no lenço a fez mergulhar na inconsciência. Dafne parou
de se debater e seu corpo amoleceu.
Tulio olhou para os lados e viu um
túmulo antigo há alguns passos. Ele a arrastou para lá segurando-a pelos braços
e a colocou atrás do túmulo, certificando-se que ninguém a veria facilmente,
colocando algumas coroas de flores já secas sobre o corpo dela. Limpou as mãos
no lenço e o jogou para o lado, sorrindo. Com aquela droga, ela iria dormir até
altas horas da noite no mínimo, e só poderia voltar para Atenas ao amanhecer.
Pegou a carteira que ela levava e abriu. Havia ali o passaporte, cheques de
viagem e dinheiro. Pegou todo o dinheiro e jogou a carteira perto dela. Só se interessava
por dinheiro, documentos e cheques eram comprometedores.
Saiu dali apressado, antes que algum
coveiro o visse.
-Bons sonhos, Dafne Kortakis... –
sussurrou, sorrindo – Se tivesse tempo, teria
me divertido com você um pouco... mas não posso abusar da sorte.
LLLLLLLLLLLLLLLLLLL
Alexis Palamidis deu um sorriso alvar
quando Karen/Elizabeth apareceu na
recepção do hotel e se dirigiu para ele, saindo do elevador. Ela estava linda em um vestido verde-musgo, ressaltando sua cútis
clara.
Alexis pegou a mão dela, beijando-a
galantemente e a fitando com admiração.
-Não imagina a alegria que senti quando
ligou para mim, Karen...
Ela deu um pálido sorriso.
-Olá, Alexis...eu agradeço você ter vindo ao meu chamado.
-Não agradeça, bela Karen, é um prazer.
Para atender um pedido seu, eu não mediria esforços. Venha, vamos sair, está
uma tarde linda – Disse, pegando-a pela mão.
Saíram. Alexis levou Elizabeth para seu
carro e perguntou cheio de gentileza:
-Quer ir em algum lugar especial? Quer
almoçar em um restaurante comigo?
-Não estou com fome, Alexis...na
verdade, estou precisando é estar em um lugar tranquilo, para pensar o que
fazer de minha vida – Disse, com olhar triste.
-Karen, então vou levá-la até um lugar
tranqüilo, que poderemos conversar e desfrutar de uma bela paisagem. Que tal?
-Tudo bem, Alexi – Concordou.
O fato é que Elizabeth estava profundamente decepcionada, ferida e
magoada com a suposta atitude de Dafne. Havia se entregado à ela sem restrições,
confiante que havia encontrado o amor de
sua vida, havia se sentido pela primeira vez totalmente plena, feliz, nos
braços de Dafne, para depois sofrer uma amarga desilusão. Isso doía mais que
qualquer coisa: Dafne não a queria mais! Devia não ter gostado de fazer amor
com ela. Oh, como ela havia sido fria! Em um bilhete, havia destruído tudo que
começara a se construir em seu coração: o amor, a confiança. Dafne não passava
de uma conquistadora sem escrúpulo!
Alexis a levou até sua casa, uma bela mansão na ilha de Naxos. Ele a
instalou na varanda, que se debruçava para a praia, em cima de um promontório,
de onde se descortinava uma magnífica vista . Ali, fitando a paisagem, Liz
acalmou-se. E ela abriu-se para Alexi. Falou de sua decepção com Dafne, a quem
havia se entregado cheia de paixão, para ser depois descartada pela volúvel
grega. Confessou sua verdadeira identidade, a humilhação se ver traída por um
gigolô, que a havia insultado, fazendo-a desejar encontrar quem a amasse pelo
que era, não pelo que tinha. Sua fragilidade emocional a fez desnudar sua alma para Alexis, querendo
consolo, querendo que ele a ajudasse a readquirir a sua auto-confiança.
E Alexi foi astuto em perceber o que
Elizabeth precisava e brilhante em seu papel de homem perdidamente apaixonado.
Beijou Elizabeth apaixonadamente e sussurrou em seu ouvido com voz persuasiva:
-Eu jamais poderia imaginar que você
era uma milionária quando pousei os olhos em você e apaixonei-me, Karen...ou
melhor, Elizabeth. Eu encantei-me com o seu olhar, o seu sorriso, sua voz. E
quando dancei com você, quando a tive em meus braços, percebi que havia
encontrado a mulher de minha vida. Eu quero você em minha vida para sempre,
Liz. E não desejo um tostão do seu dinheiro, por que o maior tesouro é você, a
mulher por quem estou apaixonado, louco de amor.
Elizabeth pousou a cabeça no ombro de
Alexi, suspirando, os olhos cheios de lágrimas.
-Ainda bem que encontrei você, Alexis. Um
homem que não é interesseiro, que gostou de mim sem saber quem eu era. Eu agora
vou esquecer minha triste experiência com Dafne e ir embora daqui. Se quiser ir
comigo, Alexis, está convidado. Vou para a Itália em meu iate, margeando o Mediterrâneo.
-Eu a seguirei onde quiser, Liz. Posso
deixar meus negócios na mão de meu irmão e tirar umas férias.
E ele a beijou ardentemente,
apertando-a nos braços fortes. Elizabeth entregou-se à aquele beijo, tentando
desesperadamente esquecer, tirar de sua mente o rosto de Dafne. E tentando
isso, entregou-se ao grego.
LLLLLLLLLLLLL
Dafne abriu os olhos lentamente,
sentindo sua cabeça tonta. Ela tentou sentar e sentiu sua cabeça girando,
provocando mais tonteira. Ela parou, respirou fundo e dessa vez foi mais cautelosa,
apenas ergueu a cabeça lentamente e olhou em volta.Estava escuro. Um cheiro de
mofo, de coisas estragadas veio às suas narinas e a fez ter uma contração de
nojo. Uma ânsia de vômito veio em seguida e ela se voltou de bruços, vomitando
na terra úmida sobre a qual estava deitada.
Ela ficou assim, apoiada nas mãos instáveis, até que se sentiu melhor.
Então, se ergueu e ficou de quatro, olhando em volta, tentando ver onde estava.
Não conseguia ver nada, estava escuro. Ela se arrastou pela terra uns poucos
metros e parou, sentindo-se tonta. Sentia-se muito mal. Além da tontura, seu
estômago doía, estava com enjoos e fraca. Caiu sobre a terra novamente e
mergulhou novamente na inconsciência de um sono povoado de pesadelos.
Um coveiro a encontrou pela manhã e
chamou a polícia. Os policiais notaram que ela estava sob o efeito de uma droga
e a conduziram ao pequeno posto de saúde . Ela foi medicada e em menos de meia
hora acordou, perguntando onde estava. Os policiais contaram onde a tinham
encontrado e Dafne relatou o assalto que havia sofrido.
-Realmente, encontramos um lenço alguns
metros perto de você com vestígios de droga nele. Estava exalando cheiro de
éter, deve ter sido usado para drogá-la. Encontramos também sua carteira com
seu passaporte e cheques de viagem. Se havia dinheiro, o ladrão levou.
-Eu trouxe apenas quinhentos euros, o
resto está guardado no cofre do hotel – Disse Dafne, se sentindo melhor com a
medicação.
-Senhorita Kortakis, tem idéia de quem
poderia ter feito isso com você? – Perguntou o policial.
-Não. Ninguém aqui me conhece, além do
advogado de minha falecida mãe. Eu acredito que o ladrão não me conhecia,
apenas teve a idéia de assaltar-me
quando viu-me sozinha no cemitério.
-Nós iremos investigar o ocorrido. Se
descobrirmos alguma coisa, a avisaremos, senhorita. Vai ficar aqui por quanto
tempo?
-Vou sair daqui o mais breve possível.
Se não houvesse acontecido esse assalto, eu teria voltado para Atenas ontem
mesmo. Vou fretar um helicóptero para transportar-me para Atenas o mais cedo
possível – Disse, pensando que precisava falar com Karen e explicar sua
ausência, ela devia estar preocupada com
sua falta de notícias.
Ela foi liberada pelo médico e os
policiais a conduziram até uma companhia de fretamento de helicópteros, sendo
atenciosos e gentis ao saber que Dafne era a famosa pintora grega nascida ali
na ilha. Ela conversou com o gerente, e em menos de uma hora já estava voando
de volta para Atenas.
Quando chegou ao hotel, pediu
imediatamente uma ligação para o quarto de Karen. A recepcionista avisou que a
senhorita Karen já havia encerrado sua conta e saído do hotel. Dafne a fitou
chocada.
-Saiu do hotel?! Quando? Para onde foi?
-Não sabemos, senhorita Kortakis.
Apenas a vimos sair .
-Ela não deixou o novo endereço para
mim? Um recado?
-Nada, senhorita.
Dafne sentiu como se o chão lhe
faltasse. Primeiro o assalto, agora isso!
Atordoada, fitou a recepcionista, que a fitava curiosa.
-Mas...ela saiu quando?Estava
sozinha?
-Ela saiu às oito da noite. Ela veio
acompanhada por um homem alto, de cabelos negros, de ótima aparência.
Uma luz se fez na mente de Dafne.
Alexis Palamidis! Ela estava com o grego!
-Acaso... ele se chama Alexis? –
Perguntou, em um fio de voz.
-Isso mesmo, eu a ouvi falando com ele
para ajudá-la a carregar suas malas.
Dafne se sentiu como se um balde de
gelo tivesse se abatido sobre ela. Karen a havia trocado por Alexis Palamidis!
Nem tivera a decência de falar com ela pessoalmente, para lhe dar o fora!
-Tudo bem. Obrigada – Disse, com voz
apagada.
Ela se afastou, se dirigindo para os
elevadores. Queria ficar só. Iria pedir uma garrafa de ouzo e se embebedar,
para aplacar aquela dor em seu peito. Se sentia como se um punhal estivesse
escavando seu coração.
Ela entrou no elevador e apertou o seu
andar. Felizmente estava só e pôde soluçar:
-Karen, oh Karen! Como pôde fazer isso
comigo?
No dia seguinte, Dafne embarcou de
volta para New York com o coração
partido e com a firme intenção de nunca
mais voltar à Grécia.
Continuará
na parte 4
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