AQUELA VEZ NA GRÉCIA
LETH CROSS
parte
1
O iate Baccus deslizava placidamente pelas águas azuis do mar
Mediterrâneo, próximo às ilhas gregas, destacando-se com sua imponência branca
de 100 pés de comprimento.
Os convidados se espalhavam pelo convés,
em chaise longues em volta da piscina, dourando seus corpos aos raios amenos do
sol que já começava a se por no horizonte, bebendo, conversando ou simplesmente
cochilando, depois de terem desfrutado de
um lauto banquete armado em um bufet sob a cobertura. Ainda havia montes
de caviar dourado, camarões em cascata, lagosta ao Thermidor ou em salada,
salmão defumado, ostras frescas e lulas crocantes, com delicados molhos
franceses, trufas e saladas diversas para acompanhar. Artísticas sobremesas
haviam feito a alegria dos paladares mais exigentes, acompanhadas de champanhe
Don Perignon, vinho francês, vodka russa e uísque escocês.
Recostada em uma chaise longue com uma
taça de champanhe esquecida na mão, em um biquini branco que ressaltava o
dourado de sua pele, Elizabeth Morton Singles olhava entediada para a linha do
horizonte, que quase se confundia com o céu.
Os cabelos louros e curtos se alvoroçavam
com a brisa marinha, descobrindo os delicados lóbulos das orelhas, que
ostentavam brincos de diamante em forma de gota. No rosto de traços simétricos
se destacavam os belos olhos verdes e a boca de lábios carnudos. Não era alta,
mas seu corpo era bem feito, com curvas harmoniosas: seios firmes de bom
tamanho, cintura estreita com abdômen definido, quadris arredondados, coxas e pernas fortes.
Em suma, não tinha a altura de uma modelo,
mas nem por isso deixava de ser bela e encantadora. Sua postura imponente,
resultado de aulas de balé, ajudava a parecer mais alta que era na realidade.
Elizabeth, ou melhor, Liz, como gostava de
ser chamada, era filha única e perdera a mãe quando tinha apenas cinco anos.
Como resultado disso, seu pai a mimara tanto que ela havia se tornado uma
mulher prepotente e orgulhosa ao extremo, se sentindo o centro do universo. E
os seus amigos bajuladores, que bebiam, comiam e se divertiam às suas custas,
reforçavam o seu temperamento imperativo. Se alguém a contrariasse, repelia
essa pessoa cortando as relações,
indignada.
Aos vinte e cinco anos era herdeira de uma
imensa fortuna. Seu pai havia falecido em um desastre de avião e ela havia se
tornado uma das mais ricas mulheres da América. Tendo tudo que desejasse, Liz
não tinha metas a atingir ou algo com que sonhasse ter. E depois de anos vivendo
no turbilhão de festas, viagens, conquistas, sentia-se ultimamente
inquieta, com um tédio invencível. Ela se perguntava o que a estava
deixando assim, se tinha tudo que desejava. Maldição, milhares de pessoas
dariam a alma ao diabo para possuírem o
que tinha ! Ela era invejada por milhares de pessoas!
Gianni aproximou-se sorridente e Liz ficou observando-o aproximar-se com olhar crítico. Com um metro e noventa de músculos bem delineados sob a pele bronzeada, cabelos louros até os ombros, rosto de beleza máscula, sorriso branco, tudo fazia dele um dos mais belos homens que já vira. Liz o havia conquistado na praia de Saint-Tropez, sem nenhum esforço. Apenas mandara um amigo chamá-lo para ir jantar no seu iate. Ele a olhara encantado e comparecera pontualmente para o jantar, muito elegante em um smoking. Ele havia sido extremamente encantador, divertido, e no final da noite, também mostrou ser exímio na arte de amar uma mulher, mesmo Liz obrigando-o a usar proteção. E ela o convidara para um cruzeiro pelas ilhas gregas, entusiasmada com sua performance. Mas estavam juntos há dez dias e ela já começara a se fartar da companhia dele. Gianni era lindo, divertido, gostoso numa cama, mas nada mais que isso.
Ele se ajoelhou ao lado dela e alisou sua
coxa, fitando-a nos olhos com um ar de galã em uma cena de amor.
-Princesa, está longe de mim desde que
acordou, pela manhã... – Disse, com voz sussurrante – Não quer ir comigo para a
cabine?
Liz sorriu, sabendo bem o motivo do
convite.
-Mais tarde... estou apreciando o por do
sol...
O olhar dele brilhou quando sorriu
maliciosamente.
-Por que não vamos vê-lo juntos, na
cabine? Vamos... prometo que vou tirar esse tédio que estou vendo em seus
olhos...
-Agora não, Gianni... depois, ok? Quero
ficar aqui pensando um pouco.
Ele sorriu com certa ironia, erguendo-se.
-Pensando? Pensando em quê, na nova jóia
que vai comprar, ou no novo vestido?
Ela o encarou surpresa.
-Acha que só penso nessas coisas?
-Acho... você tem tudo que deseja, porque
iria esquentar a cabeça com coisas sérias?
E dizendo isso, ele se afastou, irritado
pela sua recusa em ir para a cabine . Liz sentiu-se incomodada pelas palavras
de Gianni. Se era isso que ele pensava dela, ele a considerava uma idiota. E não
era! Falava cinco línguas, era formada em arquitetura, gostava de ler bons
livros!
Liz suspirou, desanimada. Era isso que
todos pensavam dela. Achavam que só pensava em adquirir coisas, que era uma
loura burra. Pois que se danassem! Não precisava deles para nada! Eles quem
precisavam dela. Com seu dinheiro, podia comprar tudo, até amigos!
O sol afundou no horizonte. Liz tomou o
último gole da taça de champanhe e ergueu-se. Iria para a cabine com Gianni.
Afinal, ele estava ali para satisfazer seus desejos. Mas depois de fazer sexo, como sempre acontecia,
sentia que o ato lhe dera um prazer puramente físico. Sua inquietação
continuava. Uma insatisfação emocional, como se faltasse algo que a fizesse
vibrar com todo o seu ser.
Seu psicanalista havia dito que isso
acontecia porque lhe faltava uma paixão
e amor verdadeiro, que preencheria todo seu ser. Ela havia rido, retrucando que
o amor só existia nos livros e filmes. Amor não era nada mais que atração
física, prazer sexual, na vida real. Quando acabava, era substituído por outro.
E ela sentia-se bem assim, conquistando quem a atraísse.
Ela desceu a escada e percorreu o
corredor. O iate possuía seis cabines, três de cada lado, todas decoradas com
conforto e luxo.
Quando passou pela cabina número 4, ouviu
gemidos. Parou, surpresa. Era a cabine que sua amiga Cristine ocupava. Ela
estava abalada com o término de seu casamento
e estava sozinha. Será que havia bebido em excesso e agora estava
passando mal?
Sem pensar mais, girou a maçaneta e abriu a
porta da cabine, entrando.
Gianni estava sentado na cama, com
Cristine ajoelhada diante dele, praticando sexo oral. quando Liz entrou, ela se
voltou assustada. Gianni apenas abriu os olhos, que estavam fechados, e a fitou
tranqüilamente. Ele falou com tom divertido:
-Feche a porta e venha participar, Liz.
Cristine ergueu-se com ar culpado ,
olhando para Liz que os olhava aturdida.
-Não é nada que você está pensando... –
Disse ela, com voz trêmula.
Gianni puxou Cristine pelo braço.
-Hei, vai deixar-me assim? Pode continuar!
Liz vai gostar de ver.Talvez até aprenda como dar prazer desse jeito, ela nunca
tentou!
Liz recuperou-se da surpresa. A ira surgiu
em seus olhos.
-Gigolô, bastardo! Traindo-me
descaradamente! E você, sua cadela, pensei que fosse minha amiga! – Gritou Liz.
-Liz, eu não tive culpa... ele entrou e...
-Não banque a ingênua, Cristine! – Disse
Gianni, erguendo-se e fitando a mulher com desdém – Estamos trepando há vários
dias! E você tem gostado muito!
Liz contemplava-os ali nus, e sua raiva
aumentava. Seu orgulho estava profundamente ferido. Ela, a milionária Elizabeth
Singles, linda e desejada por todos, ser traída por aquele gigolô pescado na
praia, um homem anônimo, um vulgar conquistador, que não tinha nenhuma qualidade
além de ser bonito e trepar bem! E ainda mais
com Cristine, uma idiota!
-Você é apenas um gigolô vulgar! - Jogou,
furiosa - Não estou surpresa com sua traição, esperava algo assim, de um homem
sem classe como você! E ainda mais, com uma mulher bem inferior à mim! Vocês
são iguais e se completam!
Gianni avançou, postando-se diante dela,
fitando-a com desdém, com as mãos na cintura.
-Por que essa raiva toda? Vai querer que
eu acredite que você nunca fez um "mènage à trois"? Você, que já trepou
com mais homens que eu com mulheres? Ora, Liz! Deixe de bancar a ofendida,
venha, vamos trepar, nós três! Prometo que você vai ficar louca de tesão! -
Propôs, com cinismo.
Ela o esbofeteou, gritando:
-Cafajeste, bastardo! Não me presto à esse
papel nojento, como pensa! Quero que saiam daqui, os dois!
O olhar de Gianni tornou-se duro e frio.
Deu uma violenta bofetada em Liz, que caiu no chão. Deu um chute no estômago
dela, que encolheu-se de dor, lutando contra a dor e náusea que a dominou, gemendo.
Gianni pegou seu calção no chão e o vestiu, fitando-a com desprezo. Depois a
pegou pelos cabelos e a forçou a fitá-lo.
-Cadela! Acha que pode humilhar e ofender
todos que a rodeiam, porque tem dinheiro? Pois sabe o que você é? Apenas uma
putinha endinheirada! O que a separa de uma puta reles é apenas o dinheiro! E
quer saber mais uma coisa? Você é ruim de cama! Uma mulher cheia de frescura,
que não sabe dar prazer à um homem! Cristine é muito melhor que você! Qualquer
puta é! Você só conquista um homem por causa do seu dinheiro, da boa vida que
oferece! Quem a conhece à primeira vista, até se engana, é bonita, não posso
negar. Mas basta alguém conhecer você melhor para acabar o encanto! Você é fria
numa cama, só espera receber prazer, sem dar nada em troca, como uma bela
estátua! Uma mulherzinha pedante, que se julga o centro do mundo, insuportável!
Vá em frente, cadela! Compre outro homem, mas tenha certeza que ele vai ficar
com você apenas pelo seu dinheiro!
Ele a empurrou para trás e saiu da cabine
tranqüilamente.
)))))))(((((((
Gianni e Cristine foram levados de lancha
para a ilha de Lefkada, de onde seguiriam para Atenas. Liz trancou-se em sua
cabine, depois de ver sua ordem ser cumprida, e como havia antes programado, o iate prosseguiu para Atenas.
Ainda sentindo dor pela agressão sofrida,
Liz remoia pensamentos opressivos, deitada na cama. A tripulação e amigos não
se atreveram a ir chamá-la para o jantar, sabendo que o humor de
Liz estava terrível, com a agressão e
traição que Gianni gritou para todos saberem, quando foi levado na lancha com
uma Marianne chorosa.
As cruéis palavras de Gianni ainda
ressoavam nos ouvidos de Liz. Ele conseguira ferir profundamente seu orgulho e
abalar sua autoconfiança de mulher. Seria verdade o que ele havia gritado para
todos ouvirem? Ela era mesmo uma mulher fria, ruim de cama, de gênio
insuportável, que só conseguia manter um homem ao seu lado devido ao seu dinheiro? Uma prostituta, que
só era melhor que as outras porque era rica?
Analisou sua vida sexual. Realmente, teve
que reconhecer que não praticava certos atos que suas amigas lhe contavam em
conversas íntimas. Achava degradante praticar sexo anal e oral, além de exigir
que seus parceiros usassem preservativo. Desde quando iniciara sua vida sexual
aos quinze anos de idade, exigia esse cuidado do parceiro, para se prevenir da
Aids ou de engravidar.
Maldição, todas as pessoas com bom senso
tinham esse cuidado! E não iria fazer com um homem algo que abominava, só para
contentá-lo! Sempre se achara uma mulher especial. E que um homem devia
sentir-se premiado em poder tocar, acariciar
e penetrar seu corpo. E agora,
aquele gigolô barato a arrasara com
aquelas palavras, colocando-a em um nível inferior à uma reles prostituta, em
dar prazer! Será que era isso que todos os homens achavam dela? Será que os
inúmeros homens que havia julgado conquistar com seu fascínio, apenas haviam
sido atraídos pela boa vida que proporcionava à eles e o orgulho de terem
trepado com uma mulher famosa?
Essa dúvida instalou-se em sua mente,
abalando sua autoconfiança profundamente.
Uma lágrima escorreu de seus olhos e ela
deu um soco no travesseiro. Ah, queria ser
por um dia apenas uma mulher comum, sem muito dinheiro, ou ter um nome famoso,
para ter certeza que podia conquistar um homem somente pelo que era como
mulher! Provar que aquele gigolô estava errado! Só assim voltaria a ter sua
auto-estima de volta.
Uma idéia foi surgindo aos poucos em sua
mente.
))))))((((((
Da janela do Electra Palace Hotel, Dafne Kortakis contemplava a deslumbrante vista da Acrópole batida pelo sol da tarde. Havia chegado a
Atenas durante a noite,
procedente da América, e só conseguira dormir por volta das duas da
madrugada. Em conseqüência disso, havia acordado às quatro da tarde e
havia faltado o café da manhã e o almoço. Estava faminta e também
ansiosa para andar
novamente pelas ruas,
comer o delicioso
Moussaká (prato grego popular,
com fatias de berinjela, carne de carneiro e queijo ao forno), ir à patissèrie
Sonia saborear café grego com as
famosas tortas e andar entre o povo ouvindo sua língua natal.
Sentia-se revigorada só em respirar
aquele ar marinho, em ver
a paisagem jamais esquecida. Por mais que vivesse em
cidades cosmopolitas como New York, Paris, Londres e Itália em uma vida trepidante, era ali que se
sentia mais viva, com sua gente.
Lembrou quando havia saído da Grécia, dez
anos atrás. Era apenas uma mocinha ingênua, arrastada por uma paixão, deixando
para trás uma mãe amargurada e preconceituosa, que prognosticara para ela um
futuro de sofrimento e fracasso, amaldiçoando-a por sua perversão, dramática
como toda grega. Mas ela vencera. A camponesa se tornara uma pintora de
sucesso. As melhores galerias de New York, Paris e Londres expunham seus
quadros e os vendiam por preços altíssimos, tornando-a uma mulher rica e famosa
no mundo das artes.
Mas ali em sua pátria, sentia-se apenas
como a filha do camponês Dimitri Kortakis, que o ajudava a pastorear ovelhas na
aldeia de Ano Merá, na ilha de Mykonos. Estava ansiosa para chegar à aldeia em
que havia nascido, mas ao mesmo tempo receava o momento de ver sua mãe. Todas
as cartas que havia mandado para ela durante anos não tiveram resposta. Será que ela ainda mantinha a palavra que
não a queria ver nunca mais?
Pretendia ir à Mykonos somente no dia
seguinte. Primeiro iria passar um dia em Atenas, como uma lenta imersão nos
costumes de sua gente. Precisava preparar-se para o impacto de ver sua mãe,
depois de tantos anos sem comunicação.
Se o seu pai estivesse vivo, como ficaria
feliz em revê-lo! Mas ele havia falecido há muitos anos atrás, quando ela era
uma adolescente. Dimitri Kortakis era um homem de um metro e noventa de altura,
forte como um touro, de negros cabelos encaracolados e olhos castanhos. Levava
uma vida dura, mas era alegre, reunindo os amigos aos domingos para comer,
beber e dançar, em alegres e ruidosas
festas.
A casa que seus pais
moravam também era uma pequena
hospedaria com quatro quartos, o que complementava a pouca renda com uma
pequena produção de amêndoas e criação de ovelhas, que não passava de trinta
cabeças. Dafne ajudava o pai
pastoreando as ovelhas, tosquiando e
ajudando a entregar as encomendas de leite, queijo e amêndoas nas tavernas da
ilha.
Sua mãe, Alika, era uma bela mulher, de cabelos azulados de tão
negros, pele alva e olhos azuis, um corpo esguio, mas forte. Ela morria de
ciúmes do marido, que era um homem atraente,
dono de um sorriso alvar que cativava a todos, principalmente as
mulheres. Muitas se deixavam envolver pelo seu charme quando ele viajava até a
cidade de Ermoupoli e outras litorâneas
para comprar mantimentos e vender seus
produtos. Mas mesmo dando suas escapadas do leito conjugal, Alika era a
única mulher que amava.
E ele adorava a filha, que tinha os mesmos olhos da mãe, o mesmo
rosto de beleza pura. Desde pequena, Dafne andava escanchada nos ombros fortes
do pai por toda parte. Foi ele quem a ensinou a pastejar as ovelhas, a montar,
a nadar e caçar. E também, escondido da mulher, a beber vinho tinto e ouzo, a
famosa e forte bebida grega feita com
resina.
O resultado dessa criação foi Dafne adotar muitos hábitos do pai, com a profunda desaprovação da mãe. Seu corpo flexível e forte pelos exercícios físicos abominava os trajes que as camponesas usavam. Em vez de longos vestidos e chalés, adotou sob protestos inúteis da mãe e jovial anuência do pai, calças compridas jeans e blusas de algodão, que usava com mangas arregaçadas até nos cotovelos. Botas de cano curto e uma boina vermelha de feltro, que usava desabada para um lado da cabeça.
Isso lhe conferia um aspecto totalmente diferente das outras
mocinhas, mas como era filha de um homem querido por todos , ninguém a
criticava por isso. Achavam-na excêntrica, mas comentavam isso com sorrisos
bondosos, admirando sua natureza expansiva, quando bebia com o pai e os amigos
dele nas festas dominicais, tocando buzuki ( instrumento musical grego) e dançando.
Suspirou, brecando suas lembranças.
Afastou-se da janela. Tudo isso era passado. Agora era uma mulher de vinte e
seis anos, experiente, segura de si, sem complexos pelo que era. Tinha
consciência de seu fascínio sobre as mulheres. E tirava proveito disso,
conquistando-as sem esforço. Bela, rica e inteligente, tornava sua sedução
fácil. O que não faltava era mulheres bonitas e curiosas para conhecer o amor
lésbico. As casadas entediadas também eram outra fonte de seu prazer.
Foi para o banheiro do
luxuoso apartamento. Despiu o robe de seda e entrou na Jacuzzi já cheia,
suspirando de prazer com o cheiro dos sais aromáticos.Era muito bom isso.
Estava tensa desde que recebera uma
carta de um advogado grego comunicando que precisava voltar à Grécia
para tratar de assunto referente à pequena fazenda de seus pais. O advogado a
aguardava em seu escritório em Mykonos.
Ela havia franzido as sobrancelhas quando
lera a carta. Na época da Internet, do telefone celular com alcance mundial, o
imbecil comunicar-se com ela por carta! Mas depois havia se lembrado que sua
mãe não sabia de seu endereço eletrônico, porque na fazenda não tinha
computador. E celular, para uma mulher arredia ao progresso, era um objeto
estranho. Então, viera à Grécia por causa dessa carta. Seria um sinal que sua mãe
queria voltar a falar com ela? Mesmo depois de tantos anos sem responder às
suas cartas?
Pensativa, acabou seu banho e enxugou-se,
olhando seu corpo criticamente no imenso espelho. Orgulhava-se de seu corpo.
Praticava natação e corria no Central Park quando estava em New York. Ali,
faria caminhadas . As ilhas gregas eram quase todas cheias de ladeiras e
escadas, um excelente exercício diário para manter a forma. As mulheres
gostavam de seus braços e coxas fortes, seu abdômen, costas e traseiro de músculos
aparentes sob a pele de seda. Tinha um corpo esguio e bem feminino, mas forte.
Vestiu calça comprida negra e blusa de malha colante sem mangas, também
negra. Calçou botas e arrematou com uma boina vermelha, sua marca registrada.
Possuía montes delas, de várias cores, mas as
prediletas eram as de cor
vermelha, porque contrastava
com seus cabelos negros.
Saiu do apartamento e desceu no elevador.
Estava cansada de estar no hotel sozinha. Estava há quatro meses sem ter sexo
com alguém. Precisava reativar sua vida
sexual, que ficara parada porque estava ocupada demais pintando para sua
próxima exposição. E também ninguém conseguira interessá-la nesse tempo.
Não iria comer no hotel, queria comer a
autêntica comida grega sem sofisticação.Saiu do hotel e foi caminhando pela
ruas cheias de gente no Plaka, bairro
da parte antiga da cidade, onde ficava a Acrópole. As ruas estavam cheias de
gente, turistas a maior parte.
Apreciou as lojinhas de souvenires, os bares. Depois de perambular pelo mercado popular na
Monastiraki, lembrando quando ia ali comprar lampiões para a estalagem de seu
pai, escolheu o restaurante Hermion para almoçar. Era um restaurante em meio a
um jardim, com mesas na varanda, amortecendo o calor que fazia.
Entrou sob os olhares de admiração de
alguns freqüentadores e sentou numa das mesas. O garçom veio rapidamente,
sorridente e Dafne pediu uma garrafa de água mineral e ouzo, o forte vinho de
resina. A bebida desceu pela sua garganta em um doce reencontro.
Tomou mais um copo antes de escolher seu
prato. O menu anunciava moussaká, kleftiko, stifado, souvlaki, kefthedhes e
pastitsio, como pratos principais. Como entradas, Tarama salata, Melitzano salata,
Tatziki, Dolmalakia e Imanbaldi.
Dafne escolheu como entrada Melitzano salata, salada de berinjela com
queijo Feta e azeitonas. Estava começando a degustar a salada quando uma mulher
entrou. Dafne não pôde deixar de admirá-la: as louras eram seu tipo. E aquela
loura era especial.
Essa tinha um porte imponente, um rosto de
anjo
e corpo de
sereia. Os cabelos loiríssimos
eram curtos, em um corte moderno, belos olhos verdes-mar, lábios perfeitos para
beijos, pele dourada de sol, corpo de
curvas provocantes acentuadas pela calça justa de jeans com cintura baixa, e o
top colante de malha negra,
deixando à mostra
o abdômen bem definido, o cinturão de metal nos
quadris. Calçava sandálias de couro, bem próprias para o clima quente.
Dafne suspirou. Com uma mulher dessas, poderia
se perder nos seus braços... mas é claro que ela devia ter um homem apaixonado,
era uma dessas mulheres que devia ter um monte de admiradores aguardando uma
chance.
Ela olhou em volta, com um olhar
indiferente aos olhares cobiçosos dos fregueses e avançou, sentando em uma mesa
das poucas mesas vagas. O garçom correu para servi-la, fazendo Dafne sorrir.
Ela falou em inglês. Deu para Dafne ouvir.
Uma voz aveludada, sexy, pensou, encantada.
Nos bons hotéis e restaurantes de luxo, os
garçons falavam inglês. Mas naquele restaurante popular, sem requinte, os
garçons só falavam grego, fazendo os turistas se entenderem por sinais . A
loura mudou para o idioma francês, mas o garçom continuou sacudindo a cabeça,
sem entender.
Dafne ergueu-se e se aproximou com um
sorriso amável. A loura a olhou com ar surpreso, como só agora a tivesse visto.
-Posso ajudá-la? – Perguntou em inglês –
Sei falar grego e notei que não consegue se fazer entender.
A loura sorriu, agradecida. Tinha um
sorriso belíssimo, com covinhas nos cantos da boca e dentes perfeitos e alvos.
-Oh, sim! Por Deus, já estava ficando
nervosa! Quero dizer ao garçom que desejo um vinho branco alemão.
-Bem... nesse restaurante popular, não sei
se possuem vinho alemão. Mas conheço um bom vinho grego branco, produzido na
ilha de Santorini, quer tentar?
-Sim, por favor...gelado, de preferência.
Dafne
voltou-se para o garçom e traduziu o pedido. Ele sorriu:
-Oh, sim, temos um ótimo vinho branco
grego, vou trazer. Gelado, como ela deseja.
Ele afastou-se e Dafne tornou a fitar a desconhecida. Ela a olhava
com um olhar avaliador. Seus olhares se cruzaram e a loura corou levemente, ao
seu olhar insistente, sorrindo.
-Obrigada...não sei o que faria para
comunicar-me com o garçom. Não quer sentar-se?
Dafne
sorriu, as mãos apoiadas no encosto da cadeira diante da loura.
-Acabei de ser servida com a entrada. Mas
se quiser, pode vir para minha mesa, se não espera alguém. Poderei servir de
tradutora para você.
A loura ergueu-se, parecendo entusiasmada
com o convite.
-Oh, fico muito grata. Estou só aqui na
Grécia e não imaginava a dificuldade que teria em não saber grego.
Dafne estendeu a mão, apresentando-se:
-Dafne Kortakis, muito prazer.
-Karen Adams – Disse a loura, apertando a
mão de Dafne.
Foi como que um choque as tivessem
percorrido, quando suas mãos se tocaram. Olharam-se procurando disfarçar a
surpresa daquela reação. Os olhos muito azuis de Dafne mergulharam nos olhos
verdes de Karen, fitando-se mudas por um momento. Foi Karen quem puxou a mão,
desviando o olhar, enrubescida.
-Venha – Disse Dafne, fazendo um gesto
indicando sua mesa.
Karen a seguiu, tentando achar uma
explicação pelo que sentira apertando a mão daquela mulher. Dafne Kortakis era
uma mulher de grande beleza e forte personalidade, dava para perceber. Os olhos azuis claros emitiam um magnetismo
animal, como os olhos de um lobo. Uma beleza exótica, que os trajes acentuavam.
Era uma pessoa incrivelmente atraente, mas era uma mulher. E Karen nunca havia
sentido nada parecido por uma mulher, apertando sua mão.
Dafne indicou a cadeira diante de si,
sentando-se. Karen sentou diante dela, com um gesto gracioso. O garçon viu
Karen na mesa e trouxe o vinho, servindo-a . Ela tomou um gole e perguntou:
-Você é grega nascida aqui, em Atenas?
-Não, nasci em Mykonos, uma das ilhas
cíclades. E você? É americana, não?
-Sim, sou de New York. Estou aqui fazendo
turismo.
-Oh. Quer provar a entrada que escolhi,
Karen? Há bastante para duas pessoas. Aposto que vai gostar.
Karen fitou a comida, sorrindo.
-Realmente, parece deliciosa. Vou aceitar.
Dafne chamou o garçom e ele serviu a
salada à Karen. Ela provou e fitou Dafne, sorrindo.
-Delicioso. Aprovei seu gosto.
Dafne retribuiu o sorriso, dizendo:
-Você precisa provar o moussaká,
um dos pratos principais. Ou
o Kleftiko, cordeiro grelhado e
marinado com limão, acompanhado com arroz à grega .
-Hummm... acho que vou deixá-la escolher.
Não conheço bem a cozinha grega.
Dafne fez o pedido do prato principal.
Moussaká. Explicou a Karen como era o prato e ela sorriu aprovadoramente. O
garçom levou para sua mesa o vinho que Karen havia pedido e Dafne ergueu a sua
taça, brindando sorrindo:
-Que esta sua estadia aqui na Grécia seja
inesquecível.
Karen ergueu também sua taça, fitando-a
com um sorriso encantador.
-Obrigada, Dafne. Todos os gregos são
assim simpáticos como você?
-Bem... geralmente sim... com algumas
exceções, como todo lugar. Está na Grécia há quantos dias?
-Cheguei ontem pela manhã. Mas não vi
ainda quase nada, passei o dia dormindo, estava com uma dor de cabeça horrível.
-Oh... lamento. Você veio só, ou em uma
excursão?
-Vim só. Não acho bom seguir um roteiro de
viagem escolhido por outra pessoa, e tendo de conviver com pessoas que não
conheço por vários dias. Por outro lado, viajar só é um pouco triste. Não ter
com quem dividir a beleza do lugar, não ter com quem conversar...
O Moussaká chegou e o garçom as serviu. Começaram
a comer. Karen fez uma expressão de contentamento.
-Hummm... delicioso. Seu gosto está
aprovado, Dafne.
Dafne sorriu maliciosamente.
-Meu gosto é infalível para descobrir boas
coisas, Karen.
Karen riu, continuando a comer. Ela comia de cabeça baixa, mas sentia o olhar de
Dafne sobre ela. E não se atrevia a erguer os olhos, perturbada com o efeito
daqueles olhos de cão Huski Siberiano sobre si. Era algo inimaginável até o
momento, uma mulher causar à ela aquela impressão. Ela, que já tivera homens
lindos e nunca se apaixonara, só os usando, estar sentindo aquela emoção por
apenas um olhar. Era uma coisa louca, mas queria estar com Dafne além daqueles
momentos. Talvez... estivesse precisando de uma amiga.
Dafne a olhava disfarçadamente, estudando-a. Karen tinha belas
mãos, gestos delicados, era uma mulher de maneiras muito mais finas que a média
dos americanos . Ela exalava classe por todos os poros. Estava usando uma roupa
que deixava pouco para a imaginação. Mas
não parecia vulgar, era o tipo de mulher que valorizava qualquer roupa
que vestia. Por que estava viajando sozinha? Como podia uma mulher como ela não
ter alguém que a acompanhasse até ao inferno, se quisesse? Sentia quase que uma
necessidade urgente de saber tudo sobre ela. Como vivia, do que gostava, se
tinha alguém...
Estava surpresa consigo mesma por estar
tão interessada por Karen. Nunca uma mulher a interessara tanto, em tão pouco
tempo. E tinha noção que depois do almoço, Karen se despediria e nunca mais a
veria. Isso a fazia pensar que o tempo com ela estava escoando contra sua
vontade. O que podia fazer, para vê-la outra vez?
-Karen, sei que não é de minha conta, mas
devo avisá-la que apesar de a Grécia
ser um país muito belo e cheio de história, tem também certos lugares perigosos
para uma mulher sozinha explorar, como em todo lugar. Tem também bandidos e uma
turista só é uma tentação para eles.
Karen a encarou com um olhar divertido,
parando de comer.
-Está tentando assustar-me, Dafne
Kortakis?
Dafne a olhou sentindo o rosto enrubescer.
-Absolutamente não. Apenas estou
alertando-a . O que ganharia com isso? – Perguntou, em tom ofendido.
Karen pareceu arrependida de sua suspeita:
-Desculpe-me... você tem razão. Tenho que
ter cuidado. E também há a barreira do idioma. Pensei erradamente que minha
língua seria muito conhecida aqui, pelo número de turistas que o país recebe. E
estou com dificuldade até de pedir uma refeição.
Dafne explicou, séria:
-Nos hotéis de luxo, nos shoppings e lojas
de grifes, assim como restaurantes e casas noturnas classe A, existem pessoas
que falam bem inglês, para atender os turistas. Mas o povo grego é simples e
dificilmente fala além do idioma grego. A classe rica fala mais de uma língua,
mas é uma classe pequena.
Karen a encarou sorrindo.
-Você fala inglês. Então, pertence à
classe dos ricos?
Dafne riu. Tomou um gole de sua bebida,
antes de responder:
-Meu pai era pastor de ovelhas e minha mãe
cuidava da pequena estalagem que eles possuíam. Sou de origem humilde. Sei
inglês porque vivo há vários anos em New York.
-Veio à Grécia à negócios, Dafne? –
Perguntou Karen, curiosa.
-Sim. Vim resolver um negócio de família. Estou em Atenas de
passagem, amanhã irei para a ilha de Mykonos.
-Faz muito tempo que não vem à Grécia?
-Sim, mais ou menos dez anos.
-Oh... é muito tempo! – Admirou-se Karen –
Naturalmente, vai rever os familiares e amigos, não? Tem família grande, aqui?
Dafne decidiu reverter o jogo e perguntou,
ao invés de responder:
-Você tem família grande, Karen? É casada?
Karen a fitou nos olhos, séria.
-Nunca me interessei por alguém à ponto de
casar-me. Sou filha única de pais divorciados.Tive várias aventuras, mas não
posso dizer que valeram à pena.
Dafne não esperava uma confissão assim, de
tipo tão íntimo. Ficou olhando-a em silêncio, sem se atrever a perguntar mais .
Karen a fitou firme nos olhos e continuou:
-Dafne, mal a conheço, só sei o seu nome e
que é grega, mas vive na América. Provavelmente, quando sairmos desse
restaurante, nunca mais nos veremos.Talvez é isso que me faça falar com você
sem reservas, ou talvez porque me sinta muito só. Seja o que for, Dafne, quando
você veio falar comigo em minha mesa, senti em você um calor humano, uma
instantânea simpatia, sentindo que alguém estava tentando ajudar-me mesmo sem
conhecer-me. E isso significa muito para mim, você nem pode imaginar o quanto.
Dafne sorriu, comovida com as palavras de
Karen. Ela estava desfazendo-se de sua reserva natural com uma estranha, para
confiar-lhe seus sentimentos, em um gesto de confiança. Sentiu um intenso
desejo de protegê-la e confortá-la. Algo lhe dizia que aquela mulher estava
passando por momentos difíceis.
-Pode abrir-se comigo, Karen. Tenho meus
defeitos, mas uma de minhas qualidades é saber ouvir e calar. E se puder
ajudá-la em algo, conte comigo. Está se sentindo deprimida por estar só?
Karen a fitou nos olhos e depois de uma
pequena hesitação, assentiu com a cabeça.
-Exato. Sabe, sempre vivi rodeada por
muitas pessoas. E há pouco tempo tomei a decisão de afastar-me de todos,
selecionar novas amizades. Mas é difícil enfrentar uma solidão ao qual não
estou acostumada.
Dafne percebeu que ela estava abrindo-se
para ela parcialmente, mas havia tanta coisa não falada nas entrelinhas dessas
frases...
-Você sofreu alguma decepção que a fez
afastar-se de seus amigos?
Karen sorriu com amargor.
-Falsos amigos, Dafne. Mas não quero falar
mais sobre isso, entende? Não quero recordar coisas que me machucam. Não me
leve a mal, por favor.
Os belos olhos de Dafne a fitaram
calorosamente. E Karen sentiu que não queria que o conhecimento delas
terminasse ali.
-Está hospedada em que hotel? – Perguntou.
-No Electra Palace Hotel Athens, na rua
Nikodimou. Por quê?
Karen sorriu, surpresa.
-Você está no mesmo hotel que eu! Que
coincidência! Está em que andar?
-No terceiro, no apartamento 305. E você?
– Perguntou Dafne, alegremente.
-No 410. Tenho uma proposta a lhe fazer, Dafne.
Que tal juntar-se à mim na exploração da cidade? Você seria a perfeita cicerone
para mim: agradável e confiável.
Dafne riu, com sua risada profunda e sexy.
-Sou agradável e confiável? Obrigada pelo
duplo elogio, Karen. Podemos fazer companhia uma à outra, mas como já disse,
amanhã embarco para a ilha de Mykonos, para tratar de negócios. Devo voltar
dentro de dois dias, no máximo.
Karen a fitou pensativa.
-Ouvi muita gente falar de Mykonos. Dizem
que tem uma ótima vida noturna, com casas noturnas, tavernas e restaurantes. Eu
poderia ir com você, se não houvesse algum inconveniente.
Dafne a encarou. Não seria bom levar uma
companhia, sem saber como sua mãe a receberia. Mas o fato é que estava
encantada com Karen e não queria afastar-se dela. Resolveu ser sincera:
-Ouça, eu vou visitar minha mãe, a quem
não vejo há mais de dez anos. Não sei como vou ser recebida, eu fui embora da
Grécia brigada com ela. Não quero que você seja maltratada por ela, que tem o
gênio tempestuoso e dramático que a maioria das gregas possuem.
Karen a fitou nos olhos.
-Isso não me amedronta, Dafne. Mas é claro
que não quero impor minha companhia à você. Se não quer que eu vá, tudo bem. Eu
aguardarei sua volta no hotel.
Dafne a fitou e não resistiu. As palavras
saíram de sua boca sem controle:
-Você não está impondo. E eu gostaria
muito que me acompanhasse à ilha de Mykonos. Lá há muitos lugares interessantes
para conhecer.
Karen sorriu encantadoramente, os olhos
brilhando .
-Ah, vai ser maravilhoso! Então, iremos
amanhã, ok?
-Certo. E hoje, você ainda pode conhecer
muita coisa aqui em Atenas. Vamos andar por aí.
Dafne pediu a conta ao garçom e pagou, sob
protestos de Karen. Saíram para as ruas do Plaka, sob o sol da tarde e os
olhares de admiração das pessoas por onde passavam. Eram uma vista chamativa,
uma loura e uma morena, ambas lindas e charmosas.
Dafne olhou para Karen disfarçadamente.
Engoliu em seco. Deus, aquele andar sexy bamboleando os quadris, os músculos suaves
do abdômen se movendo sob a pele sedosa, aquela mulher era uma tentação
ambulante! Como seria o contato daquele corpo contra o seu? E aquela boca
vermelha, que sabor teria? Como seria Karen na hora do sexo? Dominadora?
Submissa? Calada? Ou gostava de dizer coisas eróticas, gemer alto?
Os olhos de Karen se encontraram com os
seus e Dafne enrubesceu como se ela pudesse ler seus pensamentos. Desviou o
olhar pra a frente, perturbada.
Karen contemplou aquele perfil de traços
marcantes e belos, o queixo erguido orgulhosamente, aquele andar e altura
imponentes, o corpo de curvas provocantes movendo-se como se flutuasse, a roupa
negra e a boina vermelha lhe dando um ar exótico . Parecia uma deusa grega,
caminhando entre comuns mortais. Ela era muito atraente. Mesmo sendo mulher,
Karen reconheceu a força de atração que emanava de Dafne. Ela podia conquistar
quem quisesse, com aquela aura de sexo. Pela primeira vez entendia o que queria
dizer atração animal.
Karen sorriu. Se seus amigos pudessem ler
seus pensamentos agora, iriam ficar boquiabertos!
-Por que está sorrindo, Karen?
Pega de surpresa, Karen disfarçou:
-Oh!... É que... estamos fazendo sucesso.
Dafne olhou em volta e viu os olhares de
admiração sobre elas. Tornou a fitar Karen.
-É você quem atrai olhares, com seu charme
e tipo diferente – Declarou, sorrindo.
-Eu?! Não, acho que é você quem chama a
atenção. Tem uma beleza exótica.
Dafne a encarou com os incríveis olhos azuis.
-Não sou exótica. Tenho um tipo comum aqui na Grécia. Sou morena e magra.
-Tipo comum?! Você
pode ser tudo, menos comum! Dafne, você é completamente diferente das suas
conterrâneas!Você... tem coisas que elas não possuem!
Dafne sorriu
divertida, fitando-a nos olhos.
-Acha mesmo? Espero
que isso seja um elogio...
-Claro que é! – Disse
Karen, com ênfase – Você tem uma beleza exótica, dona de uma aura de
sexo...animal. Tem um andar felino, de pantera, e suas roupas expressam sua
personalidade forte e ... diferente.
Dafne jogou a cabeça
para trás e riu, uma risada profunda, sexy, mostrando os dentes muito alvos e
perfeitos. Ela sentia uma espécie de eletricidade entre elas. Como dois
fios que quando se tocassem, emitiriam
fagulhas elétricas. A atração forte que emanava de Karen a fazia conter-se para
não revelar o que sentia. O mistério que cercava a bela Karen a atraía ainda
mais. Como uma mulher tão linda estava ali na Grécia sozinha, sem alguém? De
que ela fugia, que a fizera afastar-se dos amigos? Quem a havia ferido?
Conteve sua
curiosidade e ansiedade, sabendo que não era chegada a hora de revelações.
Teria de deixá-la sentir-se mais confiante em sua amizade.
Foram à Acrópole. As
imponentes construções ainda conservavam a sua grandiosidade e beleza, mesmo no
estado atual, mutiladas e saqueadas através dos séculos, como os templos
de Erecteion, Atena Nike, Propileu, o Teatro de Dionísios e o mais
famoso deles, o templo Partenon.
Karen olhou tudo em
silêncio reverencial, sentindo a magia que tomava a todos que contemplavam
aquela obra magnífica, atestando a glória esplendorosa de um povo que havia se perdido nos séculos.
Dafne também estava
em silêncio, emocionada. Aquela paisagem era parte de sua vida. Ainda menina,
seu pai a trouxera ali e lhe contara a história daquelas construções. Falara do
estadista Péricles, dos filósofos Platão e Sócrates, do escultor Fídias, com um
orgulho que só um grego podia ter daquela idade de ouro da Grécia, berço da
democracia e da filosofia.
Desceram para a
cidade quando o sol começava a declinar no horizonte. Karen aceitou a mão que
Dafne estendeu, para equilibrar-se no terreno irregular. E sentiu um tremor
percorrê-la, como na primeira vez que se tocaram. Olhou para Dafne, que parecia
sentir a mesma coisa, fitando-a muito séria, a respiração parecendo em
suspenso.
Dafne soltou a mão de Karen assim que chegaram à
estrada. Tomaram um táxi e voltaram para o hotel. No elevador, se despediram,
marcando para jantarem juntas às oito da noite.
))))))((((((
Karen, aliás,
Elizabeth Singles, tomou um prolongado banho na Jacuzzi pensativa. Ali estava
ela, incógnita, tentando viver como uma pessoa comum, pelo menos por um tempo. E
havia conhecido Dafne, uma mulher tão misteriosa quanto ela. Dafne quase não
falara nada sobre ela. Mas inexplicavelmente, sentia uma grande confiança nela.
Dafne havia cruzado seu caminho como uma taboa de salvação para a sua solidão.
E a cada hora, sentia-se mais ligada à ela, de uma maneira estranha.O que seria
isso? Carência afetiva? Podia ser.Estava sentindo-se perdida, desde que seu
iate havia ancorado em Syros e ela havia desembarcado, avisando apenas ao
capitão que iria ficar em Atenas por uns dias e que ele guardasse segredo
disso. Sem seu “staff” de empregados para servi-la, conseguir o que desejasse,
tudo estava mais difícil.Não sabia grego e não havia calculado como era difícil
se fazer entender. Se não fosse Dafne...
Dafne... aquela bela
e atraente grega estava fazendo-a perceber coisas nela mesma que jamais
suspeitara. Por que aquela estranha emoção, quando se tocavam? Nunca sentira
nada igual, nem com um toque masculino. Será que estava se sentindo atraída por
Dafne, sexualmente? Não, era um absurdo! Sempre tivera prazer com os homens,
era bem feminina, não era uma lésbica!
Mas... e aquela
necessidade que sentia em estar com ela? Mal haviam se separado, e já estava
ansiosa para vê-la novamente.
Cerrou o cenho,
irritada consigo mesma. Quanta preocupação boba! Dafne estava apenas
preenchendo sua carência afetiva! Quando tivesse um belo homem ao seu lado, ela
seria apenas uma nova amiga!
O telefone tocou quando estava se enxugando. Pegou-o e atendeu, falando sem pensar, em seu habitual modo arrogante:
-Alô, Elisabeth
falando. Quem é?
-Elisabeth? Desculpe,
devem ter ligado para o apartamento errado.
Liz gelou,
reconhecendo a voz de Dafne. Maldição, como pudera ser tão distraída? Mudou de
tom, rindo forçadamente e falando:
-Dafne, sou eu,
Karen! Quis brincar com você, para ver sua reação!
-Karen, conseguiu
confundir-me! Não sabia que gostava de brincar assim com as pessoas!
-Oh, sou uma pessoa
muito brincalhona! Você ainda vai conhecer-me melhor! O que foi, já está pronta
para o jantar? Acabei de tomar banho.
-Já tomei banho e
estou pronta para jantar. E tive uma idéia: em vez de jantarmos no hotel, por
que não vamos jantar fora daqui? Conheço um lugar que serve uma excelente
comida grega e tem dançarinos de hassápiko.
-Hassápiko? Que é
isso?
Dafne deu sua
sexy risada.
-Esqueço que você não
conhece muito dos gregos. Hassápiko é a famosa dança que Antony Quinn executou
no filme Zorba, o grego. É uma dança tradicional que os gregos dançam, ao som do
buzuki, um instrumento musical com som parecido com bandolim.
-Hummmm...
interessante. Grande idéia. Vou aprontar-me e descerei dentro de meia hora, ok?
Ou prefere vir buscar-me em meu apartamento?
-Espero-a na
recepção. Até logo, Karen.
Dafne desligou e
ficou um momento olhando para o telefone, de cenho franzido. O modo como Karen
havia atendido o telefone não parecia ser uma brincadeira. A voz estava
arrogante e impaciente, dizendo que era Elizabeth. E ela falara o nome como se
fosse de alguém muito importante, com orgulho. E quando dissera que estava
brincando, mostrara na voz um tom forçado, sem naturalidade. Quem seria Karen,
na verdade?
Algo lhe dizia que havia
um mistério na vida daquela mulher, que não era nada comum. E ia desvendar esse
mistério.
Olhou-se cuidadosamente no espelho. A blusa de linho branca e a
calça comprida negra, também de linho,
lhe caíam perfeitas em seu corpo esguio. Abrira mão pela primeira vez da
boina, uma concessão para estar bem aos olhos de Karen. Os seus cabelos negros
estavam presos em uma única trança, mostrando a delicada nuca e ouvidos.
Perfumou-se com seu Eternity de Calvin Klein e saiu.
Liz surgiu na recepção meia hora depois, pontualmente. Dafne
levantou da poltrona e avançou, fitando-a encantada. Liz estava estonteante em
um vestido branco com finas alças, mostrando o colo e ombros dourados. O traje
moldava o busto e a cintura, mas se soltava depois com um transpasse sensual
que deixava entrever as coxas, quando caminhava nas sandálias prateadas, de
salto. Usava uma leve maquiagem, apenas sombra nos olhos e batom.
Dafne fitou aqueles risonhos olhos verdes e sentiu-se perdida
neles.
-Hei... – Disse Liz, sorrindo – Demorei muito?
-Demais! – Respondeu, impulsivamente. Enrubesceu e emendou: --
Isto é... só um pouco.
Liz a fitou divertida.
-Você enrubesceu. Não pensei que você fosse do tipo que se
embaraça com algo.
-Não estou embaraçada – Desmentiu Dafne, ficando mais vermelha
ainda.
-Tudo bem. Vamos indo?
-Vamos.
Liz caminhou ao seu lado, indiferente aos olhares
masculinos.Saíram para a rua e o táxi que Dafne havia chamado já estava
aguardando. Elas entraram e Dafne deu o endereço do destino delas:
-Vamos para o Pireu. Restaurante Makarious, na orla marítima, sabe
onde é?
-Perfeitamente, senhora – Respondeu o motorista.
Dafne fitou Liz sorrindo.
-Espero que o restaurante satisfaça seu fino gosto.
Liz a fitou subitamente séria, o sorriso congelando.
-Como sabe que tenho fino gosto?
Dafne a fitou com ar divertido.
-Pelas suas roupas, pelo seu perfume. Por quê?
Liz relaxou, sorrindo.
-Oh... obrigada, Dafne.
-Porque ficou tão tensa, Karen?
-Eu?... Está enganada!
-Estou mesmo? Será que enganei-me também em ouvi-la no telefone
dizer que era Elizabeth? – Jogou, fitando-a para ver o efeito de suas
palavras.Na penumbra do carro só deu para reparar Karen mordiscar o lábio
inferior. Sinal de nervosismo?
Depois de um certo silêncio, Karen suspirou e falou com voz tensa:
-Acho que levou à mal uma brincadeira minha.
Dafne não se convenceu com essa desculpa. Algo lhe dizia que ela
estava mentindo.
-Esqueça o que falei. É que acho você muito misteriosa.
-Eu, misteriosa? Por que?
-É uma mulher sozinha fazendo turismo no país. Uma mulher como
você poderia estar com mil admiradores em volta.
Karen sorriu, relaxando.
-Se acha isso por eu estar sozinha, devo pensar a mesma coisa de
você. É também uma mulher bonita e sozinha como eu.
Dafne riu, fitando-a nos olhos.
-Boa resposta! Sua lógica é impecável!
-Dafne, não fique preocupada ou pense mal de mim. Não sou uma
bandida fugindo da polícia, estar aqui em Atenas sozinha foi uma opção que fiz.
Apenas quero repensar minha vida. Vamos nos divertir sem dramas, ok?
-Você manda!
Chegaram ao restaurante. Ele era espaçoso, uma construção
mediterrânea com um palco e uma pista de dança rodeada de mesas, com uma
varanda com vista para o mar. Uma cantora grega cantava uma música nostálgica
sobre sua terra. O restaurante estava cheio e Dafne suspirou aliviada por ter
feito reserva. O maitre as conduziu à uma mesa na varanda e após se instalarem, Dafne pediu uma
garrafa de ouzo e água mineral com gás.
-O ouzo é uma bebida forte – Dafne avisou à Karen – muitas pessoas
o misturam com água gaseificada bem gelada. Assim se torna refrescante e o teor
de álcool é amenizado.
Karen a fitou sorrindo.
-Então vou bebê-lo com água. Estou com calor. Sabe, adorei o
lugar. E a cantora tem uma voz muito bonita. O que ela está cantando?
-Ela canta a saudade de sua terra, a ilha de Creta. Fala sobre
seus guerreiros heróicos, perguntando onde estão agora.
-E aquele instrumento que a acompanha, parece um bandolim, mas tem um som mais melodioso... como se
chama?
-É o famoso buzuki que já lhe falei.
-Oh, adoro tudo sobre a Grécia! Sempre gostei de mitologia grega,
da estória do povo grego. Li a
Odisséia, de Homero, quando tinha doze anos. E O Banquete, de Platão, aos
dezoito anos. É um livro interessantíssimo, a favor do homossexualismo e que
conta a origem das chamadas almas gêmeas. E adoro as peças gregas, como Fedra e Édipo Rei, que até hoje fazem
sucesso.
Dafne a fitou agradavelmente surpresa. Aquela mulher, além de
bela, era culta! Depois diziam que as mulheres belas ou louras eram burras! Karen era uma prova viva
que aquele preconceito era ridículo!
Conversaram sobre história grega, sobre teatro, costumes gregos,
as ilhas gregas e suas atrações... tudo isso regado à ouzo e mezedakia, uma
entrada de pequenos pratos variados com petiscos como: berinjela e carne picada, camarões fritos em azeite e
limão, pepino com iogurte, folhas de uva recheadas com carne picada, polvo e
lagosta grelhados, salada com pepino,tomate, pimentão, queijo feta e azeitonas
gregas.
Karen ouvia Dafne falar sobre a Grécia com verdadeiro
encantamento. A voz sexy dela, o belo rosto, com os magnéticos olhos, os gestos
das mãos para enfatizar as palavras, tudo a atraía de uma maneira inconcebível.
Sentia coisas por aquela
grega que nunca sentira por alguém, nem mesmo seus amantes. E junto à esse
fascínio, o medo. Ela não podia sentir aquelas coisas por uma mulher! Ela não
era uma lésbica! Não ela, Elizabeth Singles, uma mulher conhecida mundialmente,
que tinha um nome a zelar! Pensou no escândalo, nas manchetes dos tablóides, no
desprezo de seu tio Bruno, a quem amava como um pai. Não, não podia fazer isso,
entregar-se à uma paixão que arruinaria sua reputação.
-Karen, eu disse algo que não gostou?
Karen ergueu a cabeça e fitou os olhos que a olhavam preocupados.
Sorriu forçadamente, percebendo que havia estado de cabeça baixa, com seus
perturbadores pensamentos.
-Não. Por que perguntou isso?
-Parece aborrecida com algo, subitamente ficou fechada...
Karen desviou o olhar, incapaz de mentir fitando aqueles olhos
azuis. E encontrou os olhos de um homem que a fitavam com interesse. Ele
sorriu, quando seu olhar encontrou o dele. Era um homem bem atraente. Cabelos
negros e lisos jogados para trás em mechas, olhos castanhos, feições finas e
bronzeadas, destacando o sorriso branco. O corpo alto e atlético estava vestido
com um terno de linho branco, camisa com colarinho aberto e sem gravata, numa
elegância despojada. Parecia muito com Antonio Bandeiras e isso era um ponto à
favor dele.
Ali estava o que precisava para deter seus desejos estranhos. Um
homem atraente e elegante. Sorriu para ele.
Dafne olhava o flerte profundamente decepcionada. Também, o que
esperava? Que uma mulher inteligente, culta, extremamente feminina e sensual
como Karen estivesse interessada nela sexualmente? Ela só estava em sua
companhia por carência e solidão. Até aparecer um homem que a interessasse. E
ele acabava de aparecer, e ela não podia fazer nada. Mesmo sentindo um ciúme
louco, que a fazia desejar levá-la
dali, para Karen olhar só para
ela. Mas não podia. Impotente, viu ele aproximar-se e sorrir para elas.
-Boa noite, senhoritas – Disse, em perfeito inglês.
Dafne quase rosnou a
resposta, mas Karen respondeu com um brilhante sorriso:
-Boa noite!
Ele inclinou-se para ela, sorrindo. Logo percebeu a animosidade de
Dafne, que o fitava friamente.
-Aceita dançar comigo, senhorita?
Karen olhou para Dafne.
-Você se importa de ficar sozinha na mesa por uns momentos, Dafne?
Dafne a fitou séria.
-Claro que não, Karen. Divirta-se.
Karen ergueu-se e acompanhou o homem para a pista. A cantora havia
começado uma música suave, própria para dançar.
Na pista, o homem tomou Karen nos braços . Ela sentiu-se tensa,
nos braços de um homem diante de Dafne. E xingou a si própria, enraivecida.
Idiota! Por que sentia-se assim? Dafne e ela eram apenas conhecidas! E nem
sabia se Dafne também se sentia atraída
por ela ! Tinha que combater o que sentia. E queria provar a si mesma que podia
conquistar um homem atraente, sem ele saber que era uma milionária, com ou sem
a aprovação de Dafne!
Na mesa, Dafne olhava Karen nos braços do homem e seu coração se
apertava com o doloroso ciúme que a assaltava. A noite não prometia acabar
nada bem.
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