A MULHER DO CHEFÃO

PARTE 4

 

 

      Jean passou o resto da tarde em seu quarto, pensando no próximo passo a dar. O cêrco estava se apertando. Tinha de agir  rápido,  antes  que  Gianini  pensasse  em  agir  contra  ela.

Ligou seu celular e discou o número de contato com os seus colegas policiais.

 

        Foi Davidson quem atendeu, com voz impaciente:

 

        -Finalmente! Já estávamos preocupados!

 

        Jean falou baixinho:

 

        -Não se preocupe, está tudo bem. Alguma novidade?

 

        -Vimos o pássaro desovar um filhote no lago, entendeu?

 

        -Sim.

 

-Ele foi abatido pelo caçador.

 

        -Entendi. E agora?

 

        -Continue aguardando. Posso falar com a garota?

 

        -Sim. Tchau.

 

        Melanie entrou na linha com voz ansiosa:

 

        -Você está bem?

 

        -Tudo bem. Ouça, amanhã à noite pretendo dormir cedo, entendeu?

 

        -Sim.

 

        -Então, até amanhã.

 

        Desligou e torceu para que Melanie tivesse entendido. Que amanhã à noite pretendia raptar Gianini, para ela esperá-la.

 

        Tomou um banho e deitou-se, pensando como agiria. O melhor era pegar Gianini dormindo, em seu quarto. Era a hora que ele estava sem os seguranças e seria fácil dominá-lo.

 

        Planejou um esquema para entrar no quarto e depois adormeceu. Acordou quando já era noite e vestiu-se, descendo para o jantar. Dirigiu-se para a cozinha.

 

        As cozinheiras estavam fazendo o jantar e a olharam com um olhar de despeito.

 

        -Oh, veio juntar-se aos criados? – Perguntou uma , com ironia – Gino nos disse que você só quer comer lá no quarto que conseguiu com a patroa!

 

        Jean fingiu não ouvir o comentário maldoso. Olhou para a outra, que mexia uma panela.

 

        -A que horas é servida o jantar?

 

        A mulher a fitou de cara amarrada.

 

        -Às oito. E vai ter que servir-se, aqui não servimos às pessoas iguais a nós!

 

        -Como se atreve a ser tão grosseira com minha segurança, Penny?

 

        Jean e as criadas se voltaram, surpresas. Carla, em um traje descontraído, de calça jeans e blusa de algodão, as olhava com uma expressão furiosa.

 

        Penny, a criada que respondera a Jean, olhou para Carla encolhendo-se.

 

        -Desculpe, senhora Gianini... é que essa moça é muito orgulhosa... Gino disse que...

 

        Carla avançou, com as mãos na cintura, olhando para Penny com um olhar que a fêz encolher-se mais ainda.

 

        -O que Gino diz não se escreve! É um idiota, e você está sendo mais ainda, por acreditar nele e fazer uma grosseria com quem não conhece! Está despedida!

 

        Jean resolveu intervir:

 

        -Carla, ela acreditou em Gino, mas o que fez não é tão grave assim! Deixe, ela não fará mais isso, não é, Penny?

 

        Penny olhou para Jean com olhar suplicante.

 

        -Claro que não, senhorita! Por favor, diga à patroa para não despedir-me! Preciso desse emprego!

 

        Jean olhou para Carla.

 

        -Carla, por favor, reconsidere. Ela já arrependeu-se do que disse.

 

        Carla a fitou mais calma.

 

        -Está bem, mas desde que ela peça desculpas à você e prometa que não vai repetir esse tratamento com você.

 

        Penny olhou para Jean quase chorando.

 

        -Desculpe-me, senhorita. Nunca mais vou tratá-la mal.

 

        -Está desculpada.

 

        Carla falou friamente:

 

        -Muito bem, está perdoada dessa vez. Mas não faça mais isso! Se eu souber que vocês trataram Helen mal, vão se ver comigo! Venha, Helen. Quero falar com você.

 

        Jean a seguiu para fora da cozinha. Foram até o living e Carla a fitou nos olhos.

 

        -Fui à cozinha chamá-la para jantar comigo. Gianini saiu para jantar com amigos e estou só. E quando cheguei lá, ouvi Penny falando aquela grosseria à você! Meu sangue ferveu, Helen.

 

        Jean sorriu, olhando-a emocionada.

 

        -Obrigada pela defesa, Carla. Mas não precisava, eu sei defender-me.

 

        -Não quero que ninguém a trate mal. Muito menos uma empregada minha!

 

        Jean a fitou com ironia.

 

        -Também sou uma empregada sua, Carla. Com maior status que uma cozinheira, mas ainda uma empregada sua.

 

        Ela a encarou fazendo uma expressão de revolta.

 

        -Como pode compará-las à você, Helen? Você é tão superior à elas! Uma mulher inteligente, bonita, fina...

 

        Jean riu, sentando-se em um sofá.

 

        -Sou tudo isso? Obrigada!

 

        Carla a fitou sorrindo. O mau humor passou.

 

        -Quer um drinque? Vou tomar uma dose de uísque.

 

        -Aceito o mesmo, com gelo.

 

        Carla pegou a garrafa no bar e preparou dois uísques. Aproximou-se e estendeu um copo para Jean, sentando-se ao lado dela, cruzando as pernas sensacionais. Jean as admirou disfarçadamente, sentindo um arrepio de desejo. Carla era uma mulher muito atraente.

 

        -O que Gianini queria com você? – Perguntou ela, preocupada.

 

        Jean tomou um gole do uísque e olhou para ela com gravidade.

 

        -O que você pensou. Ver minha arma. Ficou muito decepcionado quando viu que não era a mesma que matou o tal Joe. Fez-me algumas perguntas. Se estive na piscina e falei com você. Eu neguei. Aguarde, que ele vai perguntar isso a você também, para confirmar minha declaração.

 

        -Ele já perguntou. Ainda bem que eu disse a mesma coisa. Não sei por que Gianini parece antipatizar com você. Você salvou-me de um roubo!

 

        Sexto sentido, pensou Jean. Ele devia sentir seu ódio.

 

        Carla mudou de assunto. Falou de sua vida antes de casar. Das coisas que gostava. Jean descobriu que tinham muitos gostos em comum.Conversaram sobre vários assuntos amenos, durante o jantar servido no salão de refeições. Jean saboreou um medalhão grelhado com salada e um vinho tinto italiano de excelente qualidade. Gianini gostava de coisas finas. E tinha muito bom gosto em matéria de mulher. Carla era a prova disso.

 

        O jantar terminou e Jean ergueu-se se despedindo:

 

        -Agora vou subir para meu quarto, Carla.

 

        Ela a fitou decepcionada.

 

        -Já? Mas ainda é tão cedo !

 

        -Estou um pouco cansada – Mentiu. Era melhor ir logo. A presença de Carla a excitava e sabia que não podia tentar nada com ela. Era a mulher de seu inimigo. E tinha de pensar em coisas mais práticas, não em ficar desejando uma mulher que nunca seria sua.

 

        Carla a fitava atentamente.

 

        -Não me parece cansada, Helen. Mas, tudo bem. Não vou impor minha presença à você. Boa noite.

 

        E Carla afastou-se, saindo da sala de jantar. Jean suspirou e foi para seu quarto. Tirou a roupa, vestiu um pijama de malha, colocou a arma sob o travesseiro. Adormeceu depois de muito tempo, pensando como agiria na noite seguinte.

 

***********************

 

        Em seu quarto, Carla via um filme com olhar ausente. Sua mente estava ocupada com outra coisa. Helen. Ela não saía de sua cabeça, desde que a conhecera. Isso a surpreendia e atormentava. Que diabo, nunca sentira nada por uma mulher ! Por que então estava assim, enfeitiçada? Só queria estar perto dela, ouví-la, olhá-la! E como ficara eufórica em descobrir que ela gostava de mulher!   Como se revoltara ao ouvir a criada tratando-a mal ! Era como se a mulher tivesse insultado a pessoa mais importante de sua vida ! Deus, será que estava apaixonada por Helen ? Não, aquilo não podia estar acontecendo ! Devia ser somente carência sua. Curiosidade em conhecer o amor entre mulheres. Sim ! Era isso ! Mataria a curiosidade e não iria desejá-la mais.

 

        Foi dormir tanqüila, com essa conclusão.

 

        O dia amanheceu lindo. Carla ligou para a copa e pediu o desjejum no quarto e o comeu em uma alegre expectativa. Nesse dia, ia sair com Helen e abriria o jogo com ela. Teria aquela mulher na cama e acabaria com aquelas bobagens de achar que estava apaixonada por ela.

 

        Gianini não voltara para casa. Sempre ouvia quando ele chegava, pelo ruído do quarto. Ele devia dormir com uma das amantes que tinha. Que fosse para o inferno !

 

        Tomou um banho e passou a manhã cuidando-se. Escovou os cabelos, fez as unhas, escolheu várias roupas, indecisa, mas acabou optando por uma blusa de lã branca e calça cinza. O dia estava claro, mas o frio do outono que chegava aconselhava a vestir algo quente. Ouviu música para passar o tempo e descobriu, preocupada, que todas elas a faziam pensar em Helen.

 

        Às duas da tarde já estava pronta há muito tempo e desceu com um sorriso nos lábios. Nem a cara feia de Gino tirou seu bom humor.

 

        Helen a esperava ao lado do carro, como da outra vez. Estava com uma calça preta, blusa de malha verde-musgo e com o blusão de camurça que a presenteara. Sorriu ao vê-la chegar, olhando para o relógio de pulso.

 

        -Boa tarde, Carla. É de uma pontualidade britânica !

 

        Carla sorriu luminosamente, dando a volta no carro.

 

        -Hoje é você quem dirige.

 

        Jean a fitou sorrindo.

 

        -Não, tenho de ficar alerta com o movimento em minha volta e atrás. Uma segurança deve estar com os movimentos livres para uma emergência. É melhor você dirigir.

 

        -Tudo bem, mandona!

 

        Carla sentou ao volante e olhou-a sorridente, quando  Jean sentou ao lado dela.

 

        -Hoje vamos passear! E se possível, procurar um lugar onde se possa dançar- Disse, animada.

 

        Jean sorriu, olhando-a surpresa.

 

        -Dançar? A essa hora da tarde?

 

        Carla deu partida no carro. Fitou-a sorrindo.

 

        -Por que a hora poderia impedir-nos de dançar   ?

 

        -Acho que a melhor hora para dançar é a noite.

 

        Carla a fitou com malícia.

 

        -Você é dessas pessoas que têm hora para cada coisa, Helen? Que só fazem amor à noite?

 

        Jean enrubesceu, desviando o olhar para a frente.

 

        -Não me referi à sexo -  Defendeu-se – Falei em dança.

 

        -Sexo, dança. . . é tudo prazer, Helen. Não tem hora.

 

        Carla parou na guarita. O vigia olhou-a e abriu o portão. O carro saiu para a rua, dobrando à direita. Ela olhou para Jean, aumentando a velocidade do veículo.

 

        -E então, Helen? Não diz nada?

 

        Jean riu, fitando-a divertida.

 

        -Tem razão. Admito que perdi essa.

 

        -Vamos procurar um lugar onde possamos dançar? Nós duas?

 

        Jean olhou-a, pensando que ela estava brincando.

 

        -Nós duas dançarmos juntas?!

 

        -Claro, com quem mais eu iria dançar?

 

        Carla a fitava com um olhar inocente. Jean a fitou insegura.

 

        -Teria prazer dançando comigo?

 

        -Se você não pisar nos meus pés. . . – Sorriu Carla.

 

        -Carla, somos duas mulheres! – Disse Jean, sorrindo – Só  conheço um lugar onde duas mulheres poderiam dançar juntas sem escandalizar.

 

        -E onde é ?

 

        -Uma boite. . . de lésbicas.

 

        Carla riu, fitando-a divertida.

 

        -É mesmo? E está aberta a essas horas?

 

        -Sim. Abre às duas da tarde e fecha às duas da madrugada. Mas, prestou atenção no que falei? É uma boite de lésbicas!

 

-         Você já esteve lá? Tem certo nível?

-     

        -Já estive, sim. E posso dizer que a frequência é de pessoas de bom nível comportamental.

 

        -Então, vamos lá. Quero conhecê-la. Mostre-me o caminho.

 

        Jean deu as coordenadas, com o coração aos saltos. Carla queria dançar com ela, numa boite de mulheres ? O que estava havendo com ela? Ah, ia descobrir isso !

 

        Carla colocou um disco no cd do carro e foi cantarolando. Jean ficou olhando-a em silêncio, com receio de estar interpretando mal as atitudes dela. Carla devia apenas estar se sentindo livre por algum tempo e querendo aproveitar essas horas de liberdade, mesmo dançando com uma mulher. Ela havia contado, na noite anterior, que nunca mais havia dançado.

 

        Chegaram em pouco tempo e entraram. O clube tinha um nome francês, Le Femme, e uma decoração “ noir “. As paredes com  enormes posters de Marlene Dietrich no filme “Anjo Azul”, Greta Garbo em “Ninotchka” e Liza Minelli em “Cabaré”. Poltronas e mesas  ladeavam as paredes e a pista de dança era iluminada por spots coloridos, onde casais de mulheres dançavam.

 

        Foram conduzidas por uma garçonete vestida de frake até uma mesa. Carla sentou-se e Jean sentou ao lado dela, olhando-a para ver sua reação ao ambiente.

 

        Carla olhava tudo com ar curioso. Voltou-se para Jean e sorriu, tranqüila.

 

        -Parece que estou em plena era da segunda guerra mundial. O ambiente é exótico e tem o clima da década de quarenta.

 

        -Esse clima é proposital. Em Paris, naquela época, haviam muitos clubes assim – Respondeu Jean, ao comentário de Carla – Vi filmes antigos na tv que tinham essa decoração.

 

        A garçonete aguardava. Carla pediu um martini e Jean um creme de menta. A garçonete anotou os pedidos e afastou-se.

 

        Carla olhou para as mulheres que dançavam. Olhou para Jean, sorrindo.

 

        -É impressionante! Não sabia que havia algo assim aqui, tão perto de onde moro. Nunca ouvi falar desse clube. Como o descobriu?

 

        -Nas minhas andanças noturnas.

 

        -Vem sempre aqui?

 

        -Não. Só vim umas  duas vezes.

 

        A música era de fitas gravadas. Depois de um tango, entrou uma música francesa com Mireille Mathieu.

 

        Carla ergueu-se. Olhou para Jean e estendeu a mão.

 

        -Venha, vamos dançar.

 

        Jean ergueu-se, seguindo-a para a pista, sentindo uma deliciosa expectativa em tê-la nos braços.

 

        Ela voltou-se olhando-a nos olhos, enlaçando-a pela cintura. O corpo macio, perfumado e quente encostou no de Jean, movendo-se no ritmo da música. Jean a abraçou levemente, com medo de trair sua  emoção . Ela era tão perfumada, tão gostosa de abraçar ! Jean tremia de emoção, em ter aquele corpo desejado contra o seu, em olhar aquele rosto belíssimo tão próximo ao seu. Dava até para sentir o hálito quente e perfumado.

 

        Carla fechou os olhos e insinuou o corpo mais. O rosto  desceu e pousou no seu, macio e quente.

 

        Jean estremeceu, sem poder disfarçar. Carla lhe transmitia uma atração tão forte, que pensou que era impossível que só ela estava sentindo aquilo. Tal atração não podia ser somente de uma parte. Tinha de haver uma interação que fazia seus corpos produzirem aqueles choques que percorriam seu corpo.

 

        A mão de Carla subiu pelo seu pescoço e os dedos finos se enroscaram entre seus cabelos. Jean trincou os dentes, para não soltar o gemido que veio aos seus lábios.

 

        Carla afastou o rosto e a fitou. Leu nos olhos de Jean a febre que a estava tomando. Ela sorriu e passou os lábios pelo seu queixo, cariciosamente. Jean não conteve o gemido, dessa vez:

 

        -Carla ! ... – Gemeu, tremendo de desejo.

 

        Ela tornou a recuar, procurando seus olhos. Ficaram se fitando longamente, dançando, Carla olhando cada traço de seu rosto. Aproximou-se e esfregou o rosto no seu, dizendo depois em seu ouvido:

 

        -É incrível. . . não pensei que uma mulher pudesse transmitir-me toda essa sensação que sinto. Essa vontade louca que estou de dar-me para você. . .

 

        -Carla ! – Sussurou Jean, emocionada, quase sufocando de desejo, apertando-se contra seu corpo – Carla, estou apaixonada por você. . .

 

        Carla moveu-a contra o seu corpo, em um jogo sensual, provocando-a . Girou-a em seus braços, pondo-a de costas, as nádegas firmes e empinadas comprimindo-se contra seu sexo, as mãos em suas coxas. Ergueu a mão e virou seu rosto, seguando-o e esfregando os lábios nele e descendo para  o pescoço.

 

        Jean sentia-se febril, quase perdendo a noção do lugar onde estavam e com receio de fazer uma loucura. Sua vontade era entregar-se  ali mesmo, na frente de todas as outras. Carla estava sendo diabólica em provocá-la daquele jeito.

 

        Carla afastou-se bruscamente e disse, com voz fria:

 

        -Vamos voltar para a mesa. Contenha-se, Helen.

 

        Jean acompanhou-a com a cabeça zonza, o corpo latejando de desejo.

 

        Carla sentou-se e pegou o copo de martini, que já chegara. Tomou um gole e olhou para Jean com malícia, sorrindo.

 

        -Tome sua bebida. Está precisando.

 

        A voz soou com tom divertido. Jean a fitou, séria, com a súbita desconfiança de que Carla estava brincando com ela, divertindo-se com suas emoções, num jogo de sedução inconseqüente. Tomou um gole do creme de menta e procurou acalmar o tumulto que sentia em seu íntimo.

 

        Carla debruçou-se na mesa, sorrindo, fitando-a .

 

        -Estou surpresa, Helen. . . não sabia que você estava apaixonada por mim. É verdade mesmo, ou disse isso em um momento de exaltação ?

 

        Jean a fitou arrependida de ter demostrado seus sentimentos para ela.

 

        -Esqueça o que falei – Disse, secamente.

 

        -Por quê ? Arrependeu-se do que falou ?

 

        -Carla, você quer apenas brincar comigo. Conhecer esse lado da vida por curiosidade. Mas não sou um brinquedo e nem tapa-buracos de mulheres solitárias – Declarou, amargamente.

 

        Carla fitou-a surpresa e desconsertada.

 

        -Eu passei essa impressão ?! Pois você enganou-se!... Estou confusa, surpresa comigo mesma. Eu não esperava sentir o que estou sentindo, é algo muito perturbador. . . apenas quis refrear as minhas emoções. Mas, brincar com você ! Isso nunca passou pela minha cabeça.

 

-Espero que esteja sendo sincera. Porque não aceito  que me usem de nenhuma forma!

 

        Carla olhou-a profundamente nos olhos, perturbada. E sentiu que o que havia agora nela por Helen era uma coisa muito mais forte que simples desejo. Estava tentando enganar a si mesma em achar que tudo que sentia não passava de carência e curiosidade. Era algo muito mais profundo, que a fazia temer que Helen não a quisesse.

 

        -Oh, Helen ! Não me julgue tão mal ! Estou confusa, o que sinto está revolucionando minha cabeça, minha personalidade ! Estou com medo e preciso pensar sobre tudo isso !

 

        Dessa vez, foi sincera. E Jean leu nos olhos dela essa sinceridade. Pegou as mãos dela, apertando-as entre as suas, suavemente.

 

        -Não pense, Carla. Sinta, apenas. Diga-me o que sente, preciso saber se é parecido com o que sinto.

        Carla a fitou visivelmente perturbada e confusa.

 

        -É tão difícil dizer. . . só posso dizer que sinto-me irresistivelmente atraída por você. E eu não percebia isso. Conhecia-a e quis que trabalhasse para mim. Quando chegou, quis que ficasse perto de mim, no quarto ao lado. E preocupava-me com seu bem-estar, revoltei-me quando Giancarlo lançou suspeitas sobre você, alertei-a sobre o que se passava, não seguindo as recomendações dele, revoltei-me com a criada que a tratou mal... e quando soube de sua preferência sexual, exultei. E não paro de pensar em você. Quis enganar a mim mesma, achando que era carência e curiosidade o desejo de ser tocada por você. Vim aqui pensando assim. Mas o que senti ultrapassou minhas expectativas. Então, interrompi nossa dança e quis ser cínica. Mas foi tudo por medo... queria refrear o que sentia. E agora, não sei se vou conseguir. . .

 

        -Carla, não tenha medo do que sente... não se feche aos seus sentimentos...  – Sussurrou

Jean, emocionada com as palavras de Carla.

 

        Carla fitou-a com medo. Jean não resistiu mais e cedeu ao imperioso desejo que sentia. Puxou o rosto dela  contra o seu  e sua boca ansiosa esmagou-se naqueles lábios trêmulos e medrosos.

 

        Carla abandonou-se ao beijo. Àquele contato, suas resistências foram por terra, substituídas por um sentimento exaltado, tempestuoso, de desejo e paixão, que a fez retribuir ao beijo delirantemente, apertando-se contra ela, as mãos puxando-a ainda mais para si, a boca também roçando, sugando, mordiscando, apaixonadamente.

 

        Separaram-se aos poucos, olhando-se fascinadas. Carla engoliu em seco e falou com voz rouca pela emoção:

 

        -Vamos embora daqui. Eu quero você. Hoje, agora !

 

        -Carla, eu a amo. . . – Sussurrou Jean, pegando-a pela mão e erguendo-se. Jogou uma nota em cima da mesa e saiu, puxando Carla pela mão. Entraram no carro e Carla deu a partida, com a respiração ofegante.

 

        -Sabe onde há um motel por aqui ? – Perguntou Carla, sem olhá-la.

 

        -Há um há duas quadras daqui. Siga em frente.

 

        Ela acelerou. Chegaram logo ao motel. O recepcionista olhou-as maliciosamente, entregando a chave do quarto. Jean pegou-a e foram para o quarto. Abriu a porta e entraram.

 

        Mal fecharam a porta, Carla jogou-se nos braços de Jean, dominada pelo forte desejo que sentia por ela. Aos beijos, foram se despindo e caíram  na cama, em um beijo arrebatador.

 

        Carla abraçou-a, olhando-a com paixão e Jean a fitou também, fascinada.

 

        -Ama-me, Helen. . . faça o que quiser comigo. . . – Sussurrou Carla, alisando seu rosto.

 

        Jean beijou-a ardentemente, perdendo-se naqueles braços macios, sentindo a urgência do desejo dominá-las. E amou aquele corpo maravilhoso com loucura, beijando-o todo, lambendo, sugando, mordiscando, os dedos penetrando-a, alisando o ponto do prazer, arrancando gemidos de Carla, que se entregava delirantemente.

 

Carla gemia, as mãos acariciando-a, apertando, deslisando nervosas pelas costas dela, numa loucura de beijos sensuais, de movimentos sensuais do corpo, a boca procurando a sua em beijos apaixonados, também sugando, mordiscando, lambendo.

 

        Jean também gemia, extravazando o amor louco que sentia, as mãos acariciando cada palmo do corpo de Carla, a boca sedenta distribuindo beijos, chupões suaves, a língua despertando o gozo naquele corpo em chamas. Carla era ardente e a enfebrecia com sua lubricidade extrema. Voltou-se de costas para Jean e pediu, com voz rouca:

 

        -Pegue-me assim. . . quero sentí-la de todos os jeitos. . .

 

        Jean apertou-se contra as nádegas macias, movendo-se sinuosamente, devagar, sentindo Carla estremecer de prazer. Ela tornou a voltar-se de frente e abriu as pernas, abraçando-a toda, as bocas se esmagando. Sexo contra sexo, os corpos unidos se movendo no prazer.

 

        O êxtase chegou, fazendo Carla gritar, prendendo Jean com as pernas cruzadas em seu corpo, arqueando-se toda ao encontro de seu corpo, apertando-se em estremecimentos espasmódicos. Jean sentiu também seu orgasmo chegar, apertando-a nos braços, gemendo sua loucura:

 

        -Carla ! Carla ! Amor!

 

        Ficaram imóveis, abraçadas, sentindo um doce relaxamento, suas respirações se normalizando.

 

        Jean ergueu o rosto do peito de Carla e fitou-a, inebriada de felicidade. Carla sorriu, acariciando seu rosto com as pontas dos dedos.

 

        -Eu a amo, Carla. Estou apaixonada por você – Declarou.

 

        -Oh, querida. . . agora sinto que não poderei mais ficar sem você. . . Helen, o que fez comigo ! Mudou meu modo de pensar e sentir, tudo em um passe  de mágica ! Dias antes, se me dissessem que eu iria amar uma mulher, eu riria !

 

        -O amor nasce sem avisar, querida. Muda tudo que pensamos.

 

        -Ah, é tão bom amar você ! Nunca senti essa loucura, amando alguém. . . estou encantada, louca ! Você enlouqueceu-me. . .

 

        Beijaram-se com sofreguidão. Olharam-se apaixonadas, as mãos se acariciando. Os olhos de Carla se encheram se lágrimas. O rosto entristeceu.

 

        -Oh, Helen. . . não quero separar-me de você nunca. . . o que será de nós, quando Gianini descobrir nosso amor ?

 

        -Não pense nele agora, amor. Não estrague nossos momentos. Daremos um jeito.

 

        -Que jeito ? Giancarlo nos matará. . . eu o conheço bem.

 

        -Não pense nisso. Confie em mim.

 

        -O que poderá fazer ? Ele é mais forte, Helen. . . seus capangas são assassinos perigosos. Farão o que Giancarlo mandar.

 

        -Eu sei. Mas não tenho medo deles.

 

        Ela a fitou com incredulidade.

 

        -Não tem medo ? Quem é você, afinal, Helen ? É tão estranha a forma como surgiu em minha vida. . . agora começo a pensar nisso. E como conseguiu matar aquele homem. . . você parece ser uma pessoa acostumada a lidar com assassinos perigosos, com o perigo.

 

        -Sou uma segurança, não se esqueça.

 

        -Eu sei. Mas uma segurança não vive por aí matando pessoas. Você nem me abalou. E não tem medo de Giancarlo, mesmo sabendo quem o rodeia. Por quê ?

 

        Jean hesitou. Mas pensou que não podia revelar sua verdadeira identidade para Carla, por enquanto. Ela já estava bastante assustada com o pouco que sabia. Tinha de calar-se. Somente quando tudo estivesse acabado, poderia revelar-se.

 

        Assim, sorriu e abraçou-a, dizendo:

 

        -Gosto de desafios. Nunca tive medo de nada e não vou ter agora. Pare de pensar essas coisas e veja em mim apenas o que sou, Carla:  uma  mulher apaixonada por você.

 

        -Oh, Helen ! Tenho medo por você,  por mim !

 

        -Não tenha tanto medo. Viva o nosso amor. . . e deixe que o resto se resolverá.

 

        -Você é excessivamente otimista...

 

        À um centímetro da boca de Carla, sussurrou:

 

        -E você fala demais...

 

        Suas bocas se uniram. E a paixão voltou, avassaladora.

 

 

Continua na parte 5

                       

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