A MULHER DO CHEFÃO
PARTE 3
Carla
colocou o par de óculos escuros e olhou-se criticamente no espelho. Estava bem
elegante, bela e fresca como uma garota de vinte anos. A pele fina e acetinada,
os lábios vermelhos mesmo sem pintura, macios e cheios, os cabelos fartos e
sedosos presos em um prendedor de marfim finamente cinzelado, o corpo esguio
com a blusa de malha e a calça comprida “bagg” de linho marron. De sandálias,
bem esportiva.
Há
quanto tempo não colocava roupas assim, descontraídas ! Sentia-se bem, mais
jovem e solta. E o motivo era Helen. Não queria estar mais bem vestida que ela,
criando uma distância social. Iria sair com ela e queria que se tratassem em um
mesmo nível social, sem a cerimônia entre patroa e empregada.
Pegou o
interfone e discou para o quarto de Helen. Ela atendeu no segundo toque, com
voz sonolenta.
-Alô,
quem é ?
-Helen,
bom dia. Sou eu, Carla.
-Oh!
Desculpe-me, ainda estava dormindo !
Carla
riu.
-Não há
nada a desculpar, Helen ! São apenas nove horas. É que estou ansiosa para sair.
-Vou
aprontar-me em um instante !
-Não
precisa apressar-me muito. Espero-a na frente da casa.
Carla
desligou de muito bom humor. Pegou sua bolsa de couro e saiu do quarto. Desceu
as escadas e deu de cara com Gino, com sua habitual cara fechada.
-O
signore Gianini quer falar com a signora. Ele a espera na biblioteca, signora
Gianini.
Carla o
fitou aborrecida.
-Agora
?! Droga, vou sair e Giancarlo escolhe logo agora para falar comigo ?
O
mordomo deu de ombros, com indiferença.
Carla
dirigiu-se para a biblioteca, contrariada. Havia ido dormir antes de Giancarlo.
Ele dormira em seu próprio quarto, o que a deixara ter uma noite tranqüila. Mas
agora já a procurava !
Abriu a
porta e entrou. Giancarlo estava de pé perto da janela e voltou-se ao vê-la
chegar, com olhar frio.
-Vai
sair ? – Perguntou.
-Vou
fazer compras. Quer falar comigo ?
-Sim.
Ontem, durante o jantar, viu alguma coisa estranha, que lhe chamasse a atenção
? Viu alguém lá fora da casa ?
Algo na
expressão de Giancarlo fez Carla omitir que havia visto Helen:
-Não.
Por que pergunta isso ?
-Um de
meus homens foi assassinado ontem, durante o jantar – Jogou ele, fitando-a
atento.
Carla olhou-o
em silêncio. Aquela notícia não a afetava nem um pouco. Era tão comum os homens
de Giancarlo aparecerem e sumirem daquela casa, e não tinha a menor simpatia
por nenhum deles. Se havia sido assassinado, pior para ele. Boa coisa não
fizera, para isso.
-Lamento
– Disse , friamente.
Giancarlo
a fitou com hostilidade.
-Sei
que não lamenta nada, Carla ! Mas saiba que desconfio que a sua guarda-costas
teve participação nisso !
Ela o
encarou assustada.
-Helen
?! Por que ela faria isso ? Por que a acusa ?
Giancarlo
sorriu friamente.
-Um
palpite meu. E ela é uma pessoa nova aqui, não sabemos muita coisa sobre ela. É
a principal suspeita. Mas vou descobrir quem fez isso, tenha certeza.
-Quem
foi que morreu ?
-Joe.
Um dos meus melhores homens.
Carla
sorriu, incrédula.
-Aquele
brutamontes ? Acha que uma mulher poderia dominá-lo ? Helen é uma boa lutadora,
mas não acha que seria incapaz de dominar aquele gorila ?
Os
olhos de Giancarlo se estreitaram.
-Uma bala
de pistola iguala todos os adversários, Carla. Um tiro preciso, no coração,
provavelmente de uma arma com silenciador, pois não ouvimos o tiro. Acharam Joe
no jardim. Ele havia sacado a arma, que estava há poucos passos dele. Só não
entendo por que não atirou e como foi desarmado.
Carla
encolheu os ombros com indiferença.
-O que
quer que eu faça ? Que despeça a moça por uma simples suspeita ? Você mesmo diz
que possui muitos inimigos.
-Sim,
tenho muitos inimigos, mas até ontem, nenhum atreveu-se a atacar-me em minha
casa ! Mas não vou despedir essa mulher, não ! Vou mantê-la aqui, sob nossas
vistas. Quero apenas que você mantenha o bico calado. Não confidencie nada a
ela, entendeu ?
A voz
soou ameaçadora. Carla encarou-o friamente.
-Entendi.
Posso sair agora ?
-Onde
vai ?
-Já
disse. Fazer umas compras, dar uma volta por aí.
-Humm...
está bem. Vamos manter a rotina, para ela pensar que está tudo bem. Pode ir. E
bico calado !
Carla
retirou-se, intimamente irritada e amedrontada . Giancarlo estragara seu bom
humor com aquela suspeita sobre Helen. Ele devia estar paranóico, suspeitando
de todas as pessoas que o cercavam. Não acreditava que Helen fôsse a autora
daquela morte. Ela não mataria um homem assim, sem motivo. Era uma boa
lutadora, mas ser uma assassina ! Não
era possível. Mas o pior é que Giancarlo estava cismado com ela. E sabia que
uma simples suspeita, para Giancarlo, era uma decretação de morte para a
pessoa.
Helen
estava aguardando-a ao lado do carro, recostada nele, de braços cruzados. De
óculos escuros, blusão branco e calça de malha azul-marinho, estava muito
atraente. Ela sorriu ao vê-la chegar, ficando mais bonita com aquele sorriso
luminoso.
-Bom
dia, Carla ! Aqui estou.
Carla
sorriu levemente. O vinco em sua testa chamou a atenção de Jean. O sorriso se
desfez e a olhou preocupada.
-Aconteceu
alguma coisa ? – Perguntou.
Carla
abanou a cabeça negativamente, abrindo a porta do carro do lado do motorista.
-Não
quer que eu dirija ? – Tornou a perguntar.
-Não, sente-se
ao meu lado- Respondeu Carla, entrando no carro.
Jean
deu a volta e instalou-se ao lado dela. Carla deu partida no Porsche vermelho.
Avançou pela alameda e o vigia na guarita abriu o portão para ela. O carro saiu
para a rua.
Jean,
voltada para ela , observava-a em silêncio. Carla estava visivelmente
contrariada. O belo rosto sério. Será que o marido já lhe contara sobre a morte
do segurança ? Será que já mandara despedí-la, por ser suspeita ? O melhor era
agir com naturalidade, puxar conversa, sem muitas perguntas. Sorriu e
perguntou:
-O que
há, Carla ? Nunca a vi tão séria. Aborreceu-se por eu estar dormindo, quando
ligou-me ?
Carla
suspirou, avançando pela rua principal em velocidade média. Olhou-a de relance.
-Não é
nada com você. É meu marido , que às vezes deixa-me irritada.
-Ah !.
. .
Rodaram
um bom tempo em silêncio. Carla engolfada em seus pensamentos e Jean achando
melhor manter-se calada, deixando-a falar quando quisesse.
-Acenda
um cigarro para mim, por favor... – Pediu Carla, depois de um certo tempo, com
suavidade – O maço está dentro do porta-luvas.
-Pois
não, Carla. . .
Jean
abriu o porta-luvas e apanhou um maço de Eve. Retirou o cigarro, acendeu-o no
isqueiro do carro e estendeu-o para Carla, que o pegou. Seus dedos se tocaram e
Jean sentiu um arrepio.
-Você
não fuma, Helen ? – Perguntou, dando uma tragada.
-Pouco.
-Não
quer fumar agora ?
-Não,
obrigada.
Carla
deu mais duas tragadas e amassou o cigarro no cinzeiro do carro.
-Eu também
fumo pouco. Só quando estou nervosa.
-Está
nervosa agora ?
-Um
pouco. Jean, sua arma tem silenciador ?
Jean
olhou-a atentamente. Então, era isso ! Agora sabia porque ela estava calada e
nervosa. Soubera do crime e suspeitava dela. Respondeu com naturalidade,
tirando o óculos e a fitando:
-Sim.
Não suporto o estampido de uma arma.
Uma
contração passou pelo rosto de Carla.
-E você
estava ontem no jardim, depois que falou comigo ?
Jean
hesitou, mas algo a fez dizer a verdade:
-Sim.
Carla
diminuiu a velocidade do carro e parou no acostamento, voltando-se para ela
pálida.
-Helen.
. . não devia dizer isso a ninguém, mas temo por você. Um dos seguranças de
Giancarlo foi morto ontem no jardim lá de casa, durante o jantar. E Giancarlo disse
que não ouvimos nada porque a arma era munida de silenciador.
Jean
ficou olhando-a em silêncio. Não sabia por que, mas não queria negar o fato
para Carla. Algo lhe dizia que ela não trairia sua confiança. Carla era mais
uma vítima de Giancarlo Gianini.
Ela a
encarou, fitando-a nos olhos. E pareceu ler neles a sua confissão, porque
perguntou, com voz contida:
-Por
que o matou, Helen?
A
pergunta não soou como uma acusação, mas como a pergunta de alguém que quer
certificar-se de algo. Jean resolveu dizer uma meia-verdade. E disse, em voz
baixa :
-Ele
queria violentar-me. Lembra-se que nos encontramos na piscina ?
Carla
assentiu, pálida, fitando-a com um olhar sombrio. Jean prosseguiu, sentindo-se
mal em mentir para ela :
-Dali,
saí para dar uma volta no jardim. Ele seguiu-me e me cercou junto às sebes.
Estava com raiva de mim porque eu o agredi durante a tarde.
Carla
repirou fundo.
-E por
que o agrediu ?
Jean
contou o que se passara à tarde. Carla mordeu os lábios, ao ouvir do que ele a
xingara. Quando acabou de contar, concluiu:
-E ele
então resolveu descontar a agressão, violentando-me. Com uma arma na mão,
mandou-me tirar a roupa. Eu obedeci, mas quando ele descuidou-se eu o desarmei
com um pontapé. Joguei-me no chão e atirei nele com minha arma, que estava
escondida atrás do cós da calça. Vi que o tinha matado e saí dali correndo e
voltei para o meu quarto. Não podia revelar o que havia acontecido. Ninguém
acreditaria em mim. Por isso fiquei calada.
Carla a
encarou nos olhos.
-E por
que contou-me a verdade, Helen ? Eu também posso não acreditar em você.
Jean
sustentou o olhar dela.
-Porque
não queria mentir para você.
Carla
tornou a respirar fundo. Em seus olhos havia agora revolta.
-O canalha.
. . eu, em seu lugar, faria o mesmo, se pudesse. Já imaginava que ele havia
merecido o que lhe aconteceu. Todos os homens de Giancarlo são perigosos e cruéis. Ele não seria uma
exceção.
Sua
expressão mudou para um temor visível.
-Você
corre perigo, Helen. Giancarlo está desconfiado de você. Se verificar que sua
arma tem um silenciador, terá certeza que foi você a autora do assassinato. E
quando souber com que calibre Joe foi morto e conferir com o de sua arma,
estará perdida. Terá que desfazer-se dessa arma.
Jean a
fitou com certa ternura.
-Por
que me diz isso, Carla ?
-Porque
temo pelo que possa lhe acontecer.
-Por
que teme por mim ? Nós mal nos conhecemos. Posso estar mentindo para você,
Carla. . . – Disse, suavemente.
Carla a
fitou confusa.
-Não
sei, Helen. . . só sei que não quero que nada de mal lhe aconteça.
Jean
sorriu. Apertou a mão de Carla com gratidão e soltou-a .
-Obrigaga,
Carla. Mas não se preocupe. Vou desfazer-me da arma. Tenho outra lá no quarto.
Estavam
estacionadas à beira do Lago Michigam. Carla o apontou.
-Aí
seria o lugar ideal para desfazer-se dela. Está com você ?
-Sim.
Espere-me aqui.
Jean
desceu do carro e dirigiu-se para a margem do lago. Tirou a arma do blusão, olhou-a
como que se despedindo dela e a jogou o mais longe que pôde. A arma caiu na água plácida e afundou.
Retornou ao carro e entrou, sentando-se.
-Pronto
– Disse, voltando-se para Carla – Está mais tranqüila ?
Carla
sorriu, engrenando o carro e saindo do acostamento devagar.
-Estou,
Helen. Sem essa prova, Giancarlo não poderá descobrir que foi você quem matou o
capanga dele.
-É,
mas suspeita de mim.
-Tenha
cuidado e não faça nada que a torne suspeita.
-Ok,
minha cúmplice – Gracejou Jean, sorrindo.
Carla a
olhou, imprimindo mais velocidade ao carro.
-Não
toquemos mais no assunto. Naquela casa, as paredes têm ouvidos. O mordomo é os
olhos e ouvidos de Giancarlo. Detesto-o !
-Por
que não o manda embora ?
-Eu
mando pouquíssimo naquela casa, Helen. Sou quase uma prisioneira. Tenho que dar
conta de todos os meus passos a Giancarlo.
-Carla,
não quero ser indiscreta, mas nosso relacionamento chegou a um ponto que posso
perguntar: o que a prende a um homem como Gianini ?
Carla mordeu
os lábios. Olhou-a de relance.
-Medo.
-Medo?!
-Sim.
Já tentei pedir o divórcio. Giancarlo deu a entender que me matará, se fizer
isso. Não porque me ama. Mas não admite dividir sua fortuna ou pagar pensão
para uma ex-mulher. Eu não exigiria nada disso, mas ele não acredita.
Jean
olhou-a chocada.
-Seu
marido é pior do que eu pensava, Carla.
-Eu
tenho medo e nojo dele, quando me toca. Mas não tenho coragem de enfrentá-lo.
Sou muito covarde, reconheço.
A voz
de Carla tremeu.
Jean
sentiu um desejo louco de afagá-la e confortá-la. Mas se conteve, falando
suavemente:
-Não é
uma covarde, Carla. É apenas uma mulher frágil, nas mãos de um patife perigoso.
Carla,
dessa vez, foi quem procurou sua mão e a apertou.
-Você é
tão compreensiva, Helen ! Finalmente tenho em quem confiar, desabafar o que
sinto !
Jean
sentiu o remorso dominá-la. Ela estava sendo tão amiga, e ela a enganava ! Mas,
o que podia fazer ? Não podia revelar a verdade, Carla descobrir que fôra
enganada por um assalto simulado para poder aproximar-se dela. Jean sentia que
estava se apaixonando e isso lhe dava medo. Mas era superior à sua razão. Não
adiantava pensar nos obstáculos que as separavam, que Carla talvez não
aceitasse aquele tipo de amor. Era algo muito forte, para combater.
Carla
estacionou em um shopping e foram
andando, olhando as vitrines. O olhar de Jean foi atraído por um blusão Donna
Karan de camurça exposto em uma loja e Carla notou.
-Gostou
do blusão ? – Perguntou – Tem bom gosto. É lindo. Um blusão Donna Karan é o que
existe de melhor.
Jaen a
fitou, surpresa. Sorriu.
-Você é
bem observadora, não ? – Respondeu – Sim, gostei.
Carla
parou e a fitou, puxando-a pela mão.
-Venha.
-Não,
Carla ! Essa loja é caríssima ! Nem vale à pena entrar !
Ela a
fitou com falsa severidade.
-Não
resista, Helen Stanfield ! É uma ordem !
E a
puxou com força. Jean a seguiu, desajeitada.
Uma
vendedora veio atendê-las, pressurosa.
-Desejam
alguma coisa ?
-Sim –
disse Carla, taxativa - Quero ver aquele
blusão exposto na vitrine, de camurça cinza.
Jean a
fitou nervosa.
-Carla,
não posso comprá-lo. . . – Disse, baixinho.
Ela
ignorou seu comentário. Olhou- a com um sorriso.
-Qual é
o seu manequim?
-Não
vou dizer. Carla, não ...
Carla voltou-se
para a vendedora.
-Apanhe
um de manequim 44. Creio que é o manequim de minha amiga.
-Um
momento, vou apanhá-lo.
A
vendedora afastou-se e Jean segurou Carla pelo braço.
-Carla,
vamos embora. . .
Ela a
fitou nos olhos.
-Você
não gostou do blusão ?
-Sim,
mas isso não quer dizer que eu vá comprá-lo !
-Fique
quieta, está bem ?
A moça
trouxe o blusão e disse, com um sorriso:
-Aqui
está, senhorita.
Carla
voltou-se para Jean.
-Vá
prová-lo, Helen.
Jean a
fitou atrapalhada.
-Eu já
disse...
-Experimente-o,
Helen.
-Carla.
. .
-Experimente-o,
por favor – Pediu Carla, fitando-a nos olhos de um jeito que Jean cedeu:
-Está
bem. . . mas não vou levá-lo.
Jean
foi até a cabine e experimentou o blusão, com Carla ao seu lado. Ele ficou
perfeito em seu corpo. Tirou-o e Carla disse para a vendedora:
-Pode
embrulhá-lo. Vamos levar.
-Carla
! – Tentou protestar Jean.
Mas ela
não a ouviu. Fez o cheque e entregou à vendedora, que sorriu pensando na
comissão que iria ganhar.
Carla
entregou a sacola com a roupa a Jean,
sorrindo.
-Ficou
lindo em você. É seu.
-Carla,
não acredito que deu-me um presente tão caro !
-Esse
blusão parece que foi feito para você.
-Mas,
Carla ! Não é certo, isso !
Ela
sorriu, saindo da loja.
-Por
que não é certo ? Quis dar um presentinho a você.
Jean a fitou nos olhos.
-Por
que, Carla ?
-Deu-me
vontade.
E
continuou andando, olhando as vitrines, como se não tivesse feito nada demais.
Como se fosse comum a patroa dar um presente caro à empregada.
Carla
comprou duas blusas de seda em outra loja e a fitou sorridente.
-Agora
vamos tomar um lanche.
Jean
sorriu, acompanhando-a até uma lanchonete.
-Pelo
menos essa despesa faço questão de pagar – Avisou.
Lancharam
sanduíches, batata frita e coca-cola. Carla, quando saíram, a fitou
alegremente.
-Há
quanto tempo não fazia isso !
Jean a
fitou.
-Isso,
o quê ?
-Lanchar
em uma lanchonete. Toda vez que saía, dois brutamontes mal encarados me acompanhavam.
Eu tinha vergonha de ir aos lugares com eles. Só ia ao cabelereiro e à uma
boutique. Evitava lugares assim, as pessoas ficavam nos olhando.
Jean a
encarou.
-Você
parece-me muito carente, não é ?
Ela
ficou séria.
-Acho
que estou apegando-me à você por
carência afetiva ?
-E
estou enganada ?
-Não é
só isso. Se fôsse somente carência, as criadas serviriam. Elas adoram
bajular-me. Afinal, sou a patroa.
-E o
que é que sente por mim, além de carência de uma amiga ?
O olhar
de Carla ficou confuso.
-Não
sei. . . só sei que sinto-me muito bem em sua companhia.
Jean
não perguntou mais nada. Carla fez mais uma compra, uma calça de linho.
Chamou-a na cabine, para dar sua opinião. Jean olhou-a vestida com a calça, as
curvas sensuais e perfeitas que mexiam com sua libido, e falou:
-Está
perfeita. Você tem um corpo lindo e tudo fica bem em você.
Ela
sorriu, lisonjeada. Olhou-a nos olhos.
-Acha
mesmo ? Espere, vai dar uma opinião mais precisa.
E Carla
despiu a calça, mostrando as coxas e pernas sensacionais, e a calcinha de renda
branca moldando os quadris redondos e o ventre chato, bem definido. Colocou as
mãos na cintura fina, fitando-a com um sorriso.
-Continua
achando meu corpo lindo, ou decepcionou-se ?
O olhar
de Jean a percorreu com uma expressão fascinada. Não pôde evitar externar no
olhar o que sentiu, em vê-la assim, tão desejável. E o desejo brilhou em seus
olhos.
-É mais
lindo ainda. . . – Disse , com a garganta seca.
Carla
sorriu maliciosamente. Captou aquele olhar cheio de desejo e admiração e foi
como se uma luz acendesse em sua mente. Helen a olhava como um homem olha para
uma mulher que deseja ! Ela gostava de mulher !
A
descoberta a deixou eufórica, com vontade de provocá-la. Pensou em Helen
beijando-a, acariciando-a . Era um pensamento agradável, que não a repugnou.
Helen, afinal de contas, era uma mulher linda e atraente.
-Bem,
vou levar a calça. – Declarou, pegando a peça de roupa.
Jean
engoliu em seco e falou, com voz rouca:
-Vou
esperá-la lá fora.
E saiu
apressada, como se estivesse com medo de ficar ali.
Voltaram
para casa. Jean estava calada e Carla ligou o cd do carro, colocando uma música
suave. Olhou para Jean.
-Sinatra
cantando Cole Porter, gosta ?
Jean a
fitou, saindo de seu silêncio.
-Muito.
Adorava os musicais com as músicas de Cole Porter. Era um ótimo compositor. E
Sinatra canta muito bem as músicas dele.
-Eu
também adoro. De vez em quando, revejo alguns musicais no dvd. Se quiser, vá ao
meu quarto assistir comigo.
Jean a
fitou curiosa.
-Gianini
não dorme com você ?
-Não.
Só às vezes me preocupa, para sexo. E confesso que gostaria que não fizesse
isso nunca.
Jean a fitou
emocionada. Uma mulher tão linda, ser tocada por um canalha como Gianini. . .
devia ser horrível para ela, que o temia. Ah, como gostaria de dar carinho à
ela, beijá-la, abraçá-la. . . descobrir como era numa cama...
Carla a
fitou de relance.
-Não
sei porque lhe falo tudo isso. É . . . tão íntimo ! Não sei nada de você. Não
vai falar-me ?
Jean
sorriu, os olhos fixos no belo perfil.
-Pergunte.
O que quer saber ?
-Você
tem alguém ?
-Bem. .
. mais ou menos. Tenho alguém a quem não amo mais e quero terminar tudo, mas é
difícil.
-Oh. .
. tem alguém. . . – comentou Carla, sentindo-se decepcionada e ficando surpresa
com esse sentimento – e se não ama mais, por que é difícil terminar ?
-Por
que trabalhamos juntos e ela. . .
-Carla
a interrompeu, excitada:
-Ela ?
É uma mulher ?
Jean
sobressaltou-se. Olhou-a assustada.
-Por
que acha que é uma mulher ?
-Você
disse “ela” !
-Eu ?
Não, você enganou-se ! –Protestou, sentindo as faces queimarem.
Carla a
fitou atenta, sorrindo.
-Se enganei-me,
por que está ruborizada ? - Perguntou,
divertida com seu visível constrangimento – Não se preocupe, Helen. Não sou
preconceituosa. Não vou condená-la.
Jean a
fitou. Ela sorria. Estava claro que percebera sua distração e não adiantava
agora tentar consertar. Era melhor ser sincera.
-Pois
bem, Carla. Eu disse “ela” mesmo – Disse, decidida – Vejo que não posso
esconder isso de você. É uma mulher.
Carla
foi pra o acostamento e parou o carro, olhando-a como se a visse pela primeira
vez.
-Como
você é misteriosa, Helen! Em pouco tempo estou descobrindo tanta coisa de
você! A cada momento , me surpreende.
Espero que não guarde mais surpresas dentro de você.
-Está
ficando com medo de mim, não é? Carla. . . você seria a última pessoa do mundo a
quem eu prejudicaria – disse, com calor – Eu a admiro muito ! A idéia que tem
medo de mim deixa-me muito triste !
Carla a
fitou nos olhos. Parecia confusa.
-Não
tenho medo de você, Helen. . . – disse, suavemente – até seria normal sentir
isso, já que você matou um homem e eu a conheço tão pouco. Mas não sei por que,
não tenho , e você me transmite um sentimento de confiança, de segurança, que
até então ninguém transmitiu-me. E mesmo agora, sabendo que tem essa
preferência sexual, não tenho receio. Eu notei isso lá na loja, quando olhou-me
na cabine.
Jean
enrubesceu. Ela percebera seu olhar de desejo !
Carla
sorriu, fitando-a nos olhos.
-Na
verdade, acho que essa opção sexual combina mais com você. Não consigo imaginá-la
amando um homem. Você é forte demais para ser dominada.
Jean a
fitou com alívio.
-Não
acha que sou uma pessoa. . . desprezível ? Não condena esse tipo de amor ?
Carla
sorriu divertida.
-Helen
! Sou uma mulher sem preconceitos, já disse ! Para mim, não é relevante com
quem você dorme ! O que devo levar em conta é a sua lealdade para comigo. Não
posso julgá-la.
Jean a
fitou decepcionada. Carla não a condenava, mas não parecia inclinada ao tipo de
amor que ela vivia. Para ela, era irrelevante com quem dormia. Isso significava
indiferença por sua vida sexual. Também, o que esperava ? Que ela fôsse cair em
braços, ao saber que gostava de mulher ?
-O que
foi, Helen ? Falei algo que não gostou ? Parece triste. . .
Jean
sacudiu a cabeça. Sorriu com esforço.
-Não.
Impressão sua. Vamos indo ? Seu marido deve estar achando que está demorando
muito.
-Certo,
meu anjo-da-guarda ! – Riu Carla, ligando o motor. O carro saiu maciamente.
Minutos
depois, aproximaram-se da casa. Carla a olhou, dizendo:
-Vá
mais tarde ao meu quarto. Quero que veja um filme que comprei, Chicago, ouviu
falar ?
-Sim,
com Catherine Zeta-Jones. Ela é belíssima. Mas Gianini pode não gostar de ver
uma empregada em seu quarto. Acho melhor evitar aborrecimentos para você e eu.
Carla a
olhou com tristeza.
-Está
bem, não quero complicar mais sua vida aqui. Então, amanhã vamos sair
novamente. Espere-me às duas da tarde em frente de casa, com o carro.
-Está
bem.
Chegaram
e passaram pelo portão de entrada. O vigia olhou para Jean e falou:
-O
patrão quer falar com você.
Carla e
ela se entreolharam. O carro avançou e parou diante da entrada da mansão. Carla
a fitou temerosa.
-Cuidado.
Pegue logo sua outra arma no quarto. Ele provavelmente vai querer ver sua arma.
Jean
assentiu e desceu do carro. Entrou com Carla e o mordomo a fitou com
reprovação. Não ligou. Subiu com Carla e despediu-se dela na porta do quarto.
Entrou no seu, pegou a arma na mala e colocou-a no casaco. Tornou a descer.
Gino a olhou com seu habitual ar lúgrube.
-O
signore Gianini quer falar com você.
-Já
sei. Onde ele está ?
-No
escritório – rosnou ele.
Jean
seguiu Gino, que adiantou-se. Ele lhe abriu a porta, com um olhar maldoso.
Devia estar pensando que ela ia se dar mal na entrevista com o chefe.
Jean
entrou e viu Gianini sentado na mesa, com um capanga ao lado dele. Ele ergueu a
vista e a fitou com frieza.
-Aproxime-se.
Jean
aproximou-se, olhando para ele sem medo. Parou diante da mesa e disse:
-Recebi
o recado que quer falar comigo. Aqui estou.
Ele
recostou-se na cadeira e cruzou as mãos sobre a mesa,olhando-a com suspeita.
-Quero
que nos mostre sua arma.
Jean tirou
a arma da cintura e estendeu para ele. Gianini não a pegou, fazendo um sinal
para a o capanga pegá-la. O homem a pegou e a examinou, tirando o pente de
balas. Cheirou o cano e olhou para Gianini, dizendo:
-Não
confere. Essa é uma Magnun, calibre nove
e meio. E não foi disparada recentemente.
O olhar
de Gianini mostrou sua decepção.
-Posso
saber por que quis ver minha arma ? – Perguntou Jean, inocentemente.
Gianini
a encarou irritado.
-Por
nada especial. Ontem à noite esteve nos jardins da casa ?
-Não.
Estava cansada e fui dormir cedo.
-Que
horas foi dormir?
-Deviam
ser umas nove horas.
-Alguém
a viu entrar para dormir ?
-Não.
Entrei pela porta da frente – mentiu.
Ele a
olhou franzindo o cenho.
-A porta
da frente é para uso meu, de minha mulher e de convidados ! Você deve usar
sempre a dos fundos.
-Está
bem, desculpe-me, É que a da frente estava mais perto, e estava aberta.
-Não
viu alguém no jardim ?
-Não.
Ele
contraiu os lábios.
-Tudo
bem, pode ir.
-Com
licença, senhor Gianini.
Jean
retirou-se em passos tranqüilos. Gianini ficou olhando-a retirar-se com
expressão fria.
-Você
ainda vai trair-se, cadela – ele rosnou.
Continua na
parte 4
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