A MULHER DO CHEFÃO

PARTE 2

 

 

        Giancarlo Gianini ouviu sua mulher pacientemente, vendo-a contar o incidente que acontecera, com uma expressão impassível no rosto. Mas sua mente trabalhava analisando  os fatos: um roubo de principiante, uma reles batedora de carteiras. E uma mulher que havia surgido de repente, no papel de salvadora.

 

        Aquilo cheirava mal.Era algo muito coincidente, essa salvadora surgir do nada no momento certo. Sabia que ninguém mais, atualmente, se arriscaria por uma estranha, ainda mais uma mulher, fazendo o papel de heroína. Aquilo parecia planejado. Alguém estava tentando aproximar-se de sua mulher, ganhando sua confiança. Para quê? Evidentemente, para chegar até ele. Seria alguém instruída pela polícia? Provavelmente.

 

        E quando Carla falou em contratar a mulher, ele sorriu friamente. Por que não? Saberia quem era essa mulher, mandaria fazer um levantamento da vida dela e a teria sob controle. Era melhor assim, do que ficar imaginando quem ela era na realidade. Qualquer passo em falso que ela desse,  qualquer suspeita que ela estivesse espionando,  mandaria eliminá-la.

 

        Acendeu um charuto de Havana, onde mantinha ligações de contrabando, e sorriu para Carla inocentemente.

 

        -Muito bem, onde está sua heroína?

 

        Carla sorriu aliviada, vendo que Gianini não a contrariava em sua pretensão, o que era raro.

 

        -Mandei ela vir aqui hoje, às dez horas. Ela deve estar chegando. Não pude    avisar à você antes, porque chegou de madrugada e eu estava dormindo.

 

        -Tudo bem, não tem problema. Quando ela chegar, mande-a vir falar comigo. Estarei no escritório.

 

        -Então, vai contratá-la? Concorda?

 

        Ele ergueu-se do sofá e olhou pela janela do living, soltando uma baforada do charuto.

       

        -Claro, se ela for boa como diz...eu creio que ela servirá bem à você. Não queria escolher seus próprios seguranças?

       

        -Sim... obrigada, Giancarlo.

 

        Ele voltou-se e olhou-a especulativamente. Carla estava bela como sempre. O robe de seda delineava suas curvas perfeitas, os cabelos soltos formavam uma moldura esplêndida para o rosto belíssimo, mesmo sem nenhuma pintura.

 

        Sentiu o desejo se avolumar em suas entranhas. Há duas semanas não a possuía. As outras mulheres que tinha eram mais fogosas na cama, não tinham limites como Carla, mas não tinham o mesmo charme e classe, aquela sensualidade natural que o provocava.

 

        -Venha cá – ordenou, estendendo a mão.

 

        Ela o fitou hesitando. Conhecia aquele olhar de desejo. Quando o havia conhecido adorava ser olhada assim, mas agora não queria mais ser tocada por ele. Giancarlo agora era para ela como um estranho. Um homem violento e frio sob aquela máscara de refinamento.

 

        -Não ouviu ? Venha cá ! – Repetiu, impaciente.

 

        Carla aproximou-se, sentindo-se covarde e fraca. Tinha medo dele e não conseguia dizer o que sentia, para ele deixá-la em paz. Aquela calma dele poderia se  transformar em cólera violenta. Já presenciara isso.

 

        Ela parou diante dele, trêmula de medo, sabendo o que ele pretendia e com vontade de fugir.

 

        Ele pegou-a pelo pulso e a puxou contra si. Meteu a mão pela abertura do robe e apertou seus seios, desceu para as coxas, apertando-as, apertou as nádegas macias.

 

        Carla sentiu o pênis duro dele em suas coxas. Teve um estremecimento de asco.

 

        Giancarlo abriu seu robe com um arranco e a empurrou para cima da grande mesa da biblioteca. Abriu o cinto e a braguilha da calça, tirando o pênis para fora. Ergueu as pernas de Carla, colocando-as nos ombros, rasgou a calcinha com um puxão e olhou-a no rosto, sorrindo.

 

        -Assim é bem melhor, garota. – Disse – Sem frescuras.

 

        E a penetrou com força, fazendo-a gemer de dor.

 

        Carla sentia o membro dando estocadas em seu interior, sem sentir o menor prazer com aquele ato sem carinho. Giancarlo queria apenas satisfazer o seu próprio desejo, sem se importar com o que ela estava sentindo.

 

        Em menos de dez minutos ele grunhiu como um animal, despejando nela o líquido de seu prazer, espremendo-se contra ela. Afastou-se depois, fitando-a com um sorriso.

 

        -Você não gozou. Dê-me um tempo e recomeço.

        Carla ergueu-se, sentando na mesa e fechando o robe. Olhou pare o marido  tentando esconder seu nojo e irritação.

 

        -Não. Não gosto de fazer amor em cima de uma mesa.

 

        Ele puxou a cueca e a calça para cima, fechando-a . Sorriu com desdém, olhando-a .

 

        -Hum, você é muito fina para isso, não é ? – Perguntou, com ironia na voz.

 

        Carla saiu da mesa, ficando em pé, olhando-o séria.

 

        -Não vamos discutir coisas idiotas, Giancarlo. Vou para o meu quarto vestir-me. Quando a moça chegar, eu o avisarei.

 

        -Está bem, vá. Estarei no escritório.

 

        Carla saiu rapidamente. Estava louca para tomar um banho e livrar-se daquela sensação de estar imunda.

 

        Em seu quarto, jogou o robe para o lado e correu para o banheiro. Tomou um banho prolongado de ducha, esfregando o corpo com vigor. Estava se enxugando quando o interfone tocou. Atendeu e o mordomo avisou que uma certa Helen Stanfield queria falar com ela.

 

        -Ah, é a nova segurança ! – Disse, sabendo que isso iria irritar o mordomo – Mande-a esperar no living, Gino. Já vou descer, estou me vestindo.

 

        Desligou o interfone e escolheu suas roupas. Optou por saia preta e blusa de seda branca. Calçou sapatos de salto alto, passou baton, perfumou-se e escovou os cabelos rapidamente. Olhou-se criticamente. Estava ótima. Queria impressionar Helen, não sabia bem porque.

        Saiu e desceu as escadas, dirigindo-se para o living.

 

        Helen Stanfield estava em pé no meio do living, olhando em volta. Ao vê-la chegar, sorriu.

 

        Carla sentiu prazer em perceber nos olhos verdes dela uma evidente admiração. E reparou também quanto Helen era bela e atraente, mesmo naquelas roupas simples. Ela estava vestida com calças compridas de corte reto, de cor cáqui, blusa verde escuro e blazer da mesma cor da calça. Seu corpo bem feito valorizava as roupas que vestia.

 

        -Bom dia, Helen. Vejo que é pontual – Disse, aproximando-se.

 

        -Bom dia – Respondeu ela, sorrindo – Como vê, vim saber se ainda está disposta a contratar-me.

 

        Carla fez um gesto para ela sentar-se e se sentou diante dela, cruzando as pernas e sorrindo.

 

        -Claro que estou, Helen. Já falei com meu marido e ele quer falar com você. Fazer perguntas, as formalidades de sempre, nesses casos.

 

        Helen sorriu.

 

        -Entendo. Trouxe meus documentos, carta de apresentação... quer vê-los ?

 

        -Não. Mostre para Giancarlo. Isso é com ele. O que você tinha que me mostrar, já mostrou, com sua luta.

 

        Helen assentiu.

 

        -Tudo bem.

 

        Carla fitou-a avaliadoramente.

 

        -É casada, Helen ? Tem família ?

 

        -Não, sou solteira. E toda minha família mora em New Jersey, de onde sou.

 

        -Humm... ótimo. Isso é importante. Uma pessoa solteira, sem marido e filhos, pode trabalhar para mim em tempo quase integral. Mas claro que terá direito ao seu dia de folga e as noites livres. Ocasionalmente, quando eu sair à noite, ganhará extra. Concorda ?

 

        -Está ótimo, senhora Gianini.

 

        Carla não pôde evitar fazer uma cara de desgosto.

 

        -Oh, não me trate assim, por favor ! Trate-me apenas por  Carla.

 

        Helen sorriu.

 

        -Tudo bem, Carla.

 

        -Outra coisa. Terá que morar aqui. Isso é uma norma que Gianini não vai abrir mão.

 

        -Não tem problema. Moro em um hotel e será bom não ter mais essa despesa.

 

        -Está em Chicago há pouco tempo, Helen ? Mora em um hotel!

 

        -Sim, há um mês. Até ontem, estava em um outro hotel, mas mudei-me para outro melhor. É que estava economizando, e como surgiu essa oportunidade, resolvi melhorar de moradia.

 

        Carla comoveu-se. Ela estava mesmo contando com o emprego ! E sentia-se estranhamente perturbada por aquele olhar direto, que não se desviava de seus olhos. Era um olhar que explorava, analisava, como que querendo desnudar o seu íntimo. Um olhar que prendia.

 

        O mordomo entrou na sala e anunciou que o signore Gianini queria falar com Helen Stanfield, e que ela o seguisse  ao  escritório.

 

        Carla ergueu-se olhando para o mordomo com ar contrariado. Helen captou o aborrecimento dela.

 

        -Foi você quem disse que Helen está aqui à Giancarlo ?

 

        A pergunta soou cortante. O mordomo a olhou imperturbável, como que se isso não o afetasse.

 

        -Foi, signora Gianini.

 

        -Quem o mandou fazer isso ? Eu mesma ia avisá-lo, depois de entrevistar a moça ! Não precisa ficar tomando conta de quem recebo e ir cacarejar nos ouvidos de meu marido, seu intrometido ! – Desabafou Carla, irada.

 

        O mordomo empalideceu. Mordeu os lábios e fitou-a desajeitado.

 

        -Mas o signore Gianini mandou que  eu...

 

        -O senhor Gianini manda em seus negócios, nos empregados da casa mando eu ! Entendido ?

 

        O mordomo assentiu, pálido de raiva. Retirou-se erguendo o nariz atrevidamente.

 

        Carla olhou para Helen, que a observava em silêncio, séria.

 

        -Desculpe-me essa cena de mau gosto, Helen. Mas certos empregados atrevidos só conhecem o seu lugar quando se usa de dureza com eles. E esse aí é insuportável !

 

        Helen ergueu-se, sorrindo para ela.

 

        -Eu entendo, Carla. Quanto à mim, fique tranqüila. Uma qualidade que prezo é a discrição. Um bom segurança é neutro e discreto com os atos de quem recebe segurança. Só deve intervir em situações de perigo ou quando solicitado pelo patrão. Deve ser surdo e mudo com os atos do patrão.

 

        Carla sorriu, descontraindo-se.

 

        -Vejo que nos daremos muito bem, Helen. Venha. Vou levá-la até o meu marido. Quero estar presente à entrevista que ele fará à você.

 

        Helen a acompanhou através da casa enorme e luxuosa. Seu olhar tomava nota de tudo que a cercava, mas não pôde evitar de perceber o andar ondulante e sensual da bela Carla.

 

Entraram em um escritório luxuoso como todo o resto da casa. E Helen, ou melhor, Jean, olhou para o homem sentado atrás de uma mesa e seus olhos se estreitaram involuntariamente. Ali estava o assassino de seu pai, há poucos metros de distância. O odioso Giancarlo Gianini. Controlou-se para não deixar que ele percebesse a onda de ódio que a tomou de assalto.

 

        Já o conhecia de inúmeras fotos que vira, mas vê-lo ao vivo era diferente. A pose estudada, o olhar frio, o modo com que ergueu-se e sorriu, era mais evidente sua dissimulação.

        -Ah, eis aí a salvadora de minha mulher ! – Disse, com certa ironia, olhando-a de cima à baixo – Gostaria de tê-la visto em ação, para comprovar se é boa mesmo !

 

        Jean fitou-o nos olhos com desafio.

 

        -Quando quiser ver isso, senhor Gianini, poderá comprovar que sei defender uma pessoa.

 

        Ele sorriu com desdém.

 

        -Bem, você a defendeu de uma outra mulher, uma assaltante amadora... queria ver você defendê-la do ataque de um homem, um assaltante experiente. Aí eu queria ver se iria sair-se bem !

 

        -Giancarlo, você está substimando Helen sem conhecê-la !

 

        Protestou Carla, olhando-o com aborrecimento.

 

        Ele encarou a mulher e disse friamente:

 

        -Cale-se! Quem decide as coisas aqui sou eu! Não dê mais nenhuma opinião sem eu pedir.

 

        Carla fez uma expressão de contrariedade, mas calou-se. Jean percebeu que ela temia o marido.

 

        Giancarlo estendeu a mão para Jean.

 

        -Os documentos. Tem referências, porte de arma ?

 

        Jean tirou os documentos da bolsa e estendeu para ele. Giancarlo Gianini olhou tudo com atenção, com um rosto impenetrável. Devolveu-lhe os documentos e ficou com a carta de apresentação.

        -Bem, parece tudo em ordem – resmungou – Vou ficar com a carta. Você ficará em prazo de experiência. Durante esse tempo, receberá quinhentos dólares semanais.

 

        Jean o fitou séria.

 

        -Meu preço é oitocentos dólares semanais, senhor Gianini. Menos que isso, não posso aceitar.

 

        -Seiscentos dólares e não se fala mais nisso.

 

        -Oitocentos, senhor Gianin. Pode aceitar ou não.

 

        Ele sorriu forçadamente.

 

        -Durona, hein ? Gosto disso. Muito bem. Oitocentos dólares. Vai poder começar quando ?

 

        -À partir de agora, se quiserem.

 

        Giancarlo olhou para Carla, que se conservava calada.

 

        -Carla, discuta essas minúcias com ela. Podem ir.

 

        -Com licença, senhor Gianini – Disse Jean, retirando-se acompanhada por Carla.

 

        Carla a fitou com visível alívio, depois que saíram do escritório.

 

        -Seja bem vinda a esta casa, Helen. Viu, deu tudo certo ! Agora, vamos às minúcias, como disse Giancarlo. Temos nessa casa a ala dos criados, mas você é uma moça de certo gabarito, então colocarei você em um dos quartos de hóspede. Terá folga às segundas-feiras e as noites livres, com exceção quando eu for sair à noite, como falei anteriormente.

 

        -Quando você estiver em casa, o que farei nesse tempo ?

 

        -O que quiser.Naturalmente, tem áreas da casa que não convém estar: o escritório de meu marido, a sala de estar, a biblioteca e os outros quartos. Na piscina você poderá ficar, se eu a requisitar. Mas pode circular nos jardins e usar o salão de jogos, se não houver visitas.

 

        Jean a encarou, olhando-a nos olhos.

 

        -Não precisa alertar-me sobre isso. Sei o meu lugar. Vou até preferir ficar em meu quarto, lendo um livro.

 

        Carla enrubesceu de constrangimento. Achou que Helen se ofendera com as retrições e isso a fez sentir-se mal.

 

        -Oh, não interprete as coisas desse jeito ! – Protestou, com voz aveludada – Essas restrições não são ditadas por mim, mas sim por Giancarlo. . . e você verá que acima de ser minha segurança, será uma amiga, a única pessoa nesta casa com a qual poderei conversar e desabafar as muitas coisas por que passo.

 

        Jean sentiu naquelas palavras a solidão em que Carla vivia. Aquelas palavras deixavam transparecer que ela não tinha amigos, que o marido não ligava para ela e a mantinha ali como um objeto de luxo, sem nenhum calor humano.

 

        Passou a olhá-la de outro modo. Considerava-a até então uma puta de luxo, sem nada na cabeça a não ser desfrutar do dinheiro do marido mafioso, mas via agora que não era nada disso. Carla era uma mulher sensível, que temia o marido e vivia numa solidão enorme, à ponto de querer a amizade de uma estranha e sua empregada. Isso a comoveu. E percebeu que tinha vontade de abraçá-la e lhe falar coisas doces, para confortá-la. Sorriu, olhando para os belos olhos azuis e pensando o quanto ela era linda.

        -Sei que vamos nos dar muito bem, Carla. Será uma honra ser considerada sua amiga.

 

        Carla sorriu encantadoramente, olhando-a cheia de gratidão.

 

        -Vou mandar Gino, o mordomo, levá-la até seu quarto, para conhecê-lo. Hoje você cuidará de sua mudança e instalação, não precisará trabalhar. Quando eu precisar de você, a chamarei pelo interfone do quarto ou mando Gino chamá-la onde estiver.

 

        Chegaram ao salão de entrada e Carla chamou o mordomo com voz fria:

 

        -Gino, apareça!

 

        Ele apareceu, vindo de trás de uma coluna, com sua cara pálida e olheiras escuras, parecendo um personagem de filmes de terror. Devia estar escondido à espreita e Carla devia saber disso, pois não alterara a voz para chamá-lo. Jean deu razão à antipatia que Carla nutria pelo mordomo. Ele devia ser um espião de Gianini, um lacaio perigoso e fofoqueiro.

 

        -Leve a senhorita Stanfield para o quarto ao lado do meu. Ela o ocupará à partir de hoje.

 

        Ele a olhou surpreso.

 

        -A nova segurança não vai ficar  na ala dos criados ?! –Perguntou, em tom reprovador – Todos os seguranças ficam alojados lá !

 

        Carla ficou vermelha. Encarou-o com os olhos brilhando de raiva.

 

        -Dispenso sua opinião ! Cale-se e vá fazer o que digo !

 

        A voz soou cortante e fria.

 

        O homem fechou a cara e fez um gesto para Jean acompanhá-lo. Ela sorriu para Carla e seguiu o homem.

 

        Subiram a imensa escadaria de mámore e alcançaram o segundo pavimento, todo atapetado, com um imenso hall luxuosamente decorado com antiguidades italianas e móveis em estilo bizantino, para o qual davam várias portas.

 

        Gino abriu uma delas e resmungou:

 

        -Aqui está o quarto que a signora Gianini indicou para você.

 

        Jean entrou, olhando e fingindo ignorar a má vontade evidente dele.

 

        -O quarto da senhora é o da esquerda ou o da direita desse ?

 

        Ele a fitou de cara amarrada.

 

        -O da esquerda. E o do signore Gianini é ao lado do dela. Já deve saber que é proibido entrar em qualquer outro quarto que não seja o seu – Resmungou.

 

        -Já sei disso.

 

        Ele virou as costas e retirou-se.

 

        Jean suspirou e fechou a  porta do quarto. Olhou em volta. Era um aposento enorme, decorado com requinte. Paredes com papel forrado em tom azul e arabescos dourados. Quadros e tapeçarias Gobelin as decoravam e o tapete que forrava o chão era tão macio que poderia até se dormir nele confortavelmente. Cortinas de brocado, uma cama de madeira finamente entalhada com rosáceas, estátuas de bronze em tamanho natural nos cantos, vasos chineses antigos, tudo evidenciava a fortuna que havia sido gasta naquela decoração suntuosa.

 

        O dinheiro do crime era rendoso, pensou Jean, com desdém. Foi até uma porta envidraçada que dava para o exterior.  Abriu-a e saiu para uma sacada que se debruçava sobre um belo jardim. Olhou para o lado. Cada quarto tinha uma sacada igual ao seu. Numa fuga de emergência, poderia fugir por ali somente descendo por uma corda. A altura era de mais de cinco metros e pular fatalmente quebraria as pernas.

 

        Fechou a porta e abriu outra no canto do quarto. Dava para um banheiro luxuoso, completo, decorado em granito azul.

 

        Saiu do banheiro e procurou pelo quarto fios de microfones ocultos. Não achou nada. O telefone convencional era suspeito para usar, o melhor seria usar o seu  celular .

 

        Finda a inspeção, saiu do quarto e desceu para o pavimento inferior. No hall de entrada, o mordomo vigiava, com seu olhar lúgrube. Olhou-a e perguntou:

 

        -Vai sair ?

 

        Jean o olhou com indiferença.

 

        -Sim, vou apanhar minhas coisas no hotel que estava.

 

        -Identifique-se no portão. O segurança já sabe quem é você, mas isso é necessário quando sair e entrar.

 

        Jean saiu. Seu carro estava diante da propriedade, no lado de fora. Caminhou até o portão e um brutamontes de casaco de couro a olhou acintosamente, com um sorriso cavalar enfeiando ainda mais os traços grosseiros.

 

        -Olá, boneca... então, é a nova segurança da gostosona?

 

        Jean o fitou com fria indiferença. Ele estava diante do portão e impedia sua passagem com o corpanzil.

 

        -Sou Helen Stanfield, a segurança da senhora Gianini. Queira me dar licença. Quero sair.

 

        Ele não se moveu. Os olhos percorreram o seu corpo, com um sorriso debochado nos lábios grossos.

 

        -Você também é muito gostosa, boneca. Não acha melhor estar numa cama com um homem como eu, do que ficar pajeando uma cadela de luxo ? Poderemos nos dar muito bem.

 

        Jean o fitou duramente, o sangue fervendo de raiva.

 

        -Um cara escroto como você não é digno de servir à senhora Gianini. Ela não gostará de saber que um dos empregados   se refere à ela com esses termos baixos.

 

        Ele riu atrevidamente.

 

        -É mesmo ? Escute louraça, que tal usar esse belo corpo de um modo mais gostoso que lutar ? Acho que vai sentir mais prazer que...

 

        Jean não agüentou mais. Ergueu a perna repentinamente e deu um pontapé com força no baixo-ventre do brutamontes. Ele ficou branco de dor, o corpo agachou-se, com ele levando as mãos à genitália, gemendo.

 

        Jean abriu o portão e saiu, olhando-o com desprezo. Dirigiu-se para seu carro, abriu-o e entrou, dando partida.

 

        Pelo espelho retrovisor, viu um Ford negro seguindo-a. Sorriu com desdém. O idiota trabalhava mal. Vinha à dois carros atrás, pensando que ela não perceberia. Giancarlo Gianini tinha pessoas incompetentes trabalhando para ele.

 

        Ignorou a perseguição e foi até o hotel. Apanhou sua mala, pagou a conta e saiu. Colocou a mala no banco traseiro e olhou pelo retrovisor. O Ford estava estacionado três carros atrás. Jean saltou do carro e se aproximou do Ford displicentemente, fingindo olhar as lojas na calçada, com as mãos nos bolsos da calça. Mas parou diante da janela do motorista do Ford e inclinou-se, debruçando na janela. O homem a olhou assustado.

 

        -Escute, não acha que está perdendo o seu tempo seguindo-me? – Perguntou, com calma – Que tal ir tratar de sua vida ?

 

        O homem grunhiu e ligou a ignição, sem saber o que responder.

 

        Jean voltou ao seu carro, com um sorriso debochado. O Ford afastou-se rangendo os pneus. O homem havia ficado furioso. Jean riu e voltou tranqüilamente para a casa de Gianini, olhando a paisagem.

 

        Businou diante do portão. Outro brutamontes veio abrir o portão. Olhou-a pela janelinha no portão e ordenou:

 

        -Identifique-se !

 

        -Helen Stanfield, segurança da senhora Gianini.

 

        Ele abriu o portão e deixou-a entrar. Jean estacionou o carro numa área afastada da casa, pegou sua mala e dirigiu-se para a entrada. O mordomo abriu a porta, mas avisou:

 

        -A entrada para criados é nos fundos da casa. Dê a volta.

        Jean encolheu os ombros com descaso e fez o que ele mandou, aproveitando para olhar os arredores. Os lados da casa tinham janelas no primeiro pavimento. Por elas, poderia espionar o interior, à noite. Boa descoberta.

 

        Uma porta nos fundos ficava destrancada, para a entrada dos empregados. Jean entrou por ela e viu-se em uma enorme cozinha, onde duas cozinheiras preparavam o almoço. Elas a olharam com evidente inveja.

 

        -Que faço para ir para meu quarto, no segundo pavimento ?

 

        Uma delas respondeu, com má vontade :

 

        -Siga por aquela porta até o corredor. Ele vai dar perto da escada que conduz ao segundo pavimento.

 

        Jean seguiu a orientação e percorreu um longo corredor cheio de portas à esquerda. Ali deviam ficar os quartos dos empregados. Saiu ao lado da escadaria e subiu para seu quarto. Jogou a mala sobre uma poltrona e deitou na cama, pensativa, com a cabeça descansando sobre os braços.

 

        Ali estava ela, no antro do lobo. Tinha que tentar colher alguma coisa contra Gianini com urgência, antes que ele desconfiasse dela. Seria bom fazer uma visita ao escritório do criminoso, para ver se encontrava algo que o incriminasse. Depois, executaria a segunda  parte do plano, raptando-o. Mas para isso, teria de estudar a melhor hora para pegá-lo. O ideal seria quando ele estivesse dormindo.

 

        Pensou em Carla Gianini e suspirou. Ela martelava em seu pensamento, desde que a vira. E agora que a conhecia melhor, sentia uma imensa vontade de protegê-la daquele canalha que era marido dela. Como uma mulher tão bela e fina fôra se envolver com um homem como Gianini ? Ela tinha medo dele, percebera. E  era tão solitária ! Sentiu um enorme desejo de tomá-la entre os braços e beijá-la com calor. Como era linda, simpática, charmosa !

 

        Não queria analisar o que sentia, mas Carla a deixava sem fôlego, quando a olhava.

 

        Bateram na porta. Jean sentou-se na cama e olhou para a porta, alerta.

 

        -Quem é ? – Perguntou alto.

 

        -Gino ! Trouxe seu almoço !

 

        Jean ergueu-se e foi até a porta, abrindo-a . Gino a fitou carrancudo, com uma bandeja nas mãos.

 

        -A signora Gianini mandou-me trazer o seu almoço. Não entendo essa distinção, pois até eu, que sou o mordomo, faço as refeições na cozinha, como todos empregados ! Mas,  ordens são ordens! Aqui está. Na  próxima  vez,  vê se vai comer no local apropriado. Não vou ficar servindo-a no quarto – Rosnou ele.

 

        Jean o encarou, pegando a bandeja.

 

        -Não tenho culpa disso, Gino. Está bem. Irei comer na próxima vez na cozinha.

 

        Ele retirou-se e Jean fechou a porta com o pé. Levou a bandeja até uma mesinha, afastou o jarro de flores e colocou a bandeja. Curiosa ergueu a tampa de prata da travessa. Havia um bilhete dobrado. Pegou-o e leu:

 

                  “ Seja bem-vinda à essa casa. Que seja feliz aqui.

                                                   Carla”

       

        Jean sorriu. Guardou o bilhete no bolso da calça e olhou para a comida. Salmão grelhado, purê de batata com molho de nozes e torta de maçã para a sobremesa. Uma comida fina e deliciosa. Devia ser a mesma que Carla e Gianini estavam comendo. Ela estava tratando-a como uma hóspede da família, não como uma empregada. Por que essa consideração especial ? Será que sentia alguma atração por ela ? Não. . . estava julgando-a pelo que ela própria sentia. Carla apenas estava se mostrando agradecida pelo seu ato em defendê-la do assalto.

 

        Comeu com apetite a excelente comida. Depois, guardou suas roupas no imenso closet. Após terminar a tarefa, pegou o telefone celular e ligou o número especial que havia obtido.

 

        Melanie atendeu com voz neutra:

 

        -Alô.

 

        -Sou eu. Tudo bem por aí ? – Perguntou Jean.

 

        -Sim. Alguma novidade ?

 

        -Nenhuma, por enquanto. Amanhã ligarei novamente, para saber como vai nossa família.

 

        -Ok. A família vai bem, aguardando sua visita.

 

        -Ótimo ! Até amanhã.

 

        Desligou e tirou sua roupa. Foi para o banheiro e tomou um banho de ducha. Enxugou-se, vestiu um short de malha e uma blusa do mesmo tecido. Deitou na cama, pensativa.

 

        Durante o dia seria muito arriscado tentar excursionar pela casa. Havia os empregados circulando, poderia ser surpreendida. O melhor era descansar e à noite estar alerta para agir. Adormeceu logo, naquela cama confortável.

 

        Quando acordou, já era noite. Tomou outro banho, vestiu roupas de malha negra e sapatos de sola de borracha. Colocou a pistola na cintura e vestiu um casaco também negro. Olhou para o relógio de pulso. Oito da noite. Ia dar uma volta pelo jardim. Além de respirar ar fresco, veria o movimento da casa, pelas janelas laterais.

 

        O hall estava deserto, mas ouviu vozes no living. Milagrosamente Gino não estava por perto e saiu sem ser perturbada. A brisa fresca da noite bateu em seu rosto e revolveu seus cabelos.

 

        Na frente da casa havia cinco carros, demonstrando que os Gianini estavam com visitas.Por isso Gino não estava no hall, vigiando. Devia estar atendendo os convidados. Quem seriam ?

 

        Foi andando, fingindo estar passeando. Rodeou a frente da casa e chegou ao lado que ainda não estivera. Havia naquele lado uma imensa piscina rodeada de pára-sóis e chaise-longue. A piscina tinha um formato sinuoso, com águas cristalinas. Rodeada por um gramado bem cuidado, com estátuas de mármore em cada canto, representando ninfas nuas, dando um toque romântico ao cenário de sonho. Postes decorativos iluminavam a piscina com luz rosada.

 

        Jean parou à beira da piscina, sorrindo com ironia. O canalha do Giancarlo Gianini tinha um gosto estético exótico.

 

        -Também está com calor ?

 

        Jean voltou-se rápida, assustada com a voz inesperada.

 

        Carla a observava com uma taça   em uma mão e uma garrafa de champanhe na outra.  Lindíssima, em um vestido longo preto, decotado e justo, delineando seu corpo espetacular. O cabelo preso, maquiada, de saltos altíssimos, parecia estar participando de um jantar formal.

 

        Jean sorriu, descontraindo-se.

 

        -Não é isso. Vim dar uma volta para distrair-me.

 

        Carla despejou champanhe na taça e ofereceu para Jean.

 

        -Você gosta de champanhe ? Quer um pouco ? – Perguntou.

 

        Jean a encarou séria. Ela parecia já ter bebido bastante, pelo olhar meio desfocado.

 

        -Não. E acho que você já bebeu um tanto demais, desculpe-me a franquesa.

 

        Carla fez uma careta.

 

        -Ora, Helen, não seja tão séria ! Não me reprima também, já estou farta de repressão ! Agora, por exemplo, tenho que participar de um jantar com pessoas chatas e que não aprecio, para satisfazer o ego do meu marido. Saí disfarçadamente e vim tomar um ar fresco. Gostei de vê-la aqui. Assim, posso conversar com alguém interessante.

 

        Jean não pôde deixar de sorrir.

 

        -Obrigada pelo termo “interessante” . E também pelo almoço e o bilhete de boas vindas.

 

        -Gostou da comida ? Eu quem escolhi para você.

 

        -Adorei. Mas não acha que essa atitude vai despertar o despeito dos outros empregados ?

 

        Os olhos de Carla se encheram de desprezo.

 

        -Não se compare com essa ralé, Helen ! São todos uns brutamontes, uns assassinos ! Tenho nojo deles ! Odeio-os !

 

        Jean ficou calada, olhando-a . Ela calou-se, talvez arreendida de seu desabafo. Olhou-a com um sorriso agora. Um olhar de pantera.

 

        -Você fica muito bem de preto.

 

        Jean olhou-a nos olhos e rebateu:

 

        -E você está muito elegante com essa roupa.

 

        Ela sorriu encantadoramente, sustentando seu olhar.

 

        -Acha, mesmo ? É  um Versace. Giancarlo deu-me há um bom tempo atrás, mas só o estreei hoje. E valeu à pena, porque pelo menos você elogiou.

 

        -Seu marido não a elogia ?

 

        -Giancarlo ? Nem de porre ! Ele é um homem frio, acha que as mulheres são apenas um acessório para seu prazer !

 

        Ela a fitou subitamente séria.

 

        -Não sei por que estou contando essas coisas a você . . .

 

        Jean sorriu, tentando tranqüilizá-la. Carla estava ligeiramente embriagada e parecia estar precisando de alguém que ouvisse seus desabafos.

 

        -Fique tranqüila. Não vou comentar nada com alguém.

 

        Ela tornou a sorrir.

 

        -Não quer mesmo tomar uma taça de champanhe comigo ?

 

        -Não, Carla. Não gosto de beber de estômago vazio.

 

        -Ainda não jantou ? Gino não levou o seu jantar no quarto ?

 

        -Não, eu fiz um trato com ele, comer na cozinha como os outros empregados. É melhor assim. Não quero previlégios que despertem rancores contra mim.

 

        Ela a encarou franzindo a testa.

 

        -Quis dar à você um tratamento melhor. Não pensei que isto fosse trazer -lhe problemas.

 

        -Não trouxe, Carla. E fico agradecida à você pela gentileza. Mas acho melhor comer na cozinha, como os outros.

 

        -Eu a importunei com minha solicitude, não foi ?

 

        Jean a olhou calorosamente.

 

        -Você nunca me importunaria !

 

        Ela a fitou com dúvidas no olhar.

 

        -Nunca, mesmo ? Ou está querendo ser agradável com a mulher de seu patrão ? Não gosto de bajulação desse tipo.

 

        -Carla, não vejo você como a mulher de meu patrão ! Vejo-a como uma mulher carente de afeto, muito só. . . e muito simpática. . . e sinto-me feliz em poder ouvir seus desabafos, mostrando que confia em mim.

 

        Ela sorriu docemente.

 

        -Oh, você é muito perspicaz, capta as coisas no ar. . . É isso mesmo, Helen. Vivo de um jeito que não gosto, cercada de pessoas falsas e desagradáveis. Meu marido só vive imerso em seus negócios e sinto-me só e reprimida. E até então naõ tinha ninguém para conversar, desabafar minhas frustrações. E com você, sinto que posso fazer isso.

 

        -Por que comigo, Carla ? – Perguntou, fitando-a nos olhos.

 

        Ela a encarou confusa.Parecia uma criança perdida.

 

        -Não sei. . . é estranho. . . eu olho para você e sinto uma confiança que nunca tive com ninguém. . .

 

        Jean sentiu um súbito remorso. Carla confiava nela. E estava sendo enganada. Ah, se pudesse contar a ela quem era na verdade, o que pretendia ! Mas não podia.

 

        -O que foi, Helen ? Está com uma expressão triste !

 

        Jean sorriu, procurando espantar aquele pensamento.

 

        -Não é nada. Vai sair amanhã ?

 

        -Sim, estou pensando em fazer umas compras. Eu mandarei avisá-la.

 

        -Tudo bem. Boa noite, Carla.

 

        Carla ficou olhando-a em silêncio. Parecia estar analisando-a, procurando uma resposta para alguma dúvida que tinha. Jean sustentou aquele olhar, procurando não deixar transparecer sua admiração. Finalmente, ela disse, desanimada:

 

        -Bem. . . vou voltar para junto dos convidados. Até amanhã, Helen.

 

        Voltou-se e caminhou de volta para dentro da casa, com seu andar macio, deixando seu perfume no ar.

 

        Jean suspirou. Carl a deixava intimamente descontrolada. Tinha de lutar para ela não perceber o quanto ela a atraía. Dela emanava uma atração tão grande, que só de olhá-la, ficava excitada.

 

        Sacudiu a cabeça. Tinha que esquecer Carla e pensar em coisas práticas. Carla havia dito que Gianini estava jantando com convidados. Quem seriam eles?

 

        Esgueirou-se silenciosamente para porta onde Carla entrara. Dali dava para ver todo o salão, era uma porta envidraçada larga, que dava para a piscina. Foi pelo lado, olhando escondida, para não ser vista. Esticou o pescoço, com o corpo ao lado da porta. Viu os convidados e surpreendeu-se.

 

        O juiz Wekman, um homem bastante conhecido pelo público em seus ataques verbais ao crime organizado, que já havia julgado muitos mafiosos, estava ao lado de Gianini e sorria de algo que Gianini segredava em seu ouvido. E um conhecido inspetor de polícia, Norman Cleave, inclinava-se para o juiz, para também ouvir Wekman.

 

        Jean tornou a recuar a cabeça, mordendo os lábios, lamentando não estar com sua máquina fotográfica disfarçada em isqueiro. A foto do juiz e do inspetor jantando com Gianini seria uma autêntica bomba, que provaria o envolvimento deles com o crime organizado. Não podia perder essa oportunidade de ouro !

 

        Afastou-se da porta silenciosamente e voltou a seu quarto pela porta dos fundos. Apanhou em sua bolsa o isqueiro-câmera e voltou quase correndo para o local de onde os observara. Dessa vez, aproximou-se quase agachada. Viu uma janela mais afastada da porta e dirigiu-se para lá. As cortinas da janela estavam parcialmente fechadas, mas a abertura era suficiente para se ver boa parte do salão.

 

        Pegou seu isqueiro-câmera e mirou a minúscula objetiva para o local onde os homens estavam. Acionou o disparo, tirando uma foto dos três.O juiz rindo de algo que Gianini dizia. Bateu cinco fotos em sequência e guardou o isqueiro no bolso do casaco, voltando-se para retirar-se, mas esbarrou em um homem que sorria maldosamente.

 

        Jean quase gritou de susto. Reconheceu o homem instantâneamente. Era o brutamontes que ela agredira durante a tarde.Os olhos dele brilhavam ferozmente.

 

        -Ora, ora ! A louraça é uma espiã ! O patrão vai gostar de saber disso ! – Disse ele, sacando de uma pistola e apontando para ela.

 

        Jean o encarou, sentindo-se perdida. Gianini quando visse as fotos que havia tirado, iria mandar eliminá-la.

 

        Ele sorriu de satisfação.

 

        -Eu estava de olho em você desde aquele chute que me deu no saco, sua cadela. E jurei que você iria pagar isso. E vai ser mais cedo que eu esperava – disse em tom ameaçador.

 

        Jean pensou rápido. Tinha de afastar-se dali o quanto antes, mesmo com o brutamontes, para evitar ser vista pelos outros capangas de Gianini. Com vários deles, não teria chances. Com aquele gorila, ainda podia tentar algo.

 

        Sorriu para o gorila, erguendo as mãos.

 

        -Ok, você me pegou – disse baixinho – vamos, entregue-me logo. Será melhor do que sofrer uma vingança sua. Você provavelmente iria levar-me para um canto e estuprar-me, o que seria pior que morrer nas mãos de Gianini.

 

        Ele a fitou surpreso, depois riu.

 

        -Sem querer, deu-me uma boa idéia, sua cadela. Acha pior ser estuprada por mim ? Pois é isso que vou fazer, antes de entregá-la a Gianini. Você vai acertar as contas comigo ! Ande ! Vamos para o outro lado da casa. Lá tem um bom lugar para vingar-me de você ! E não tente nada, ou leva um tiro na cara ! Anda, cadela !

 

        Ele havia caído em sua conversa. Jean avançou e foi seguida por ele, dirigindo-se para o jardim. Seu cérebro trabalhava rapidamente, pensando no que fazer para escapar. Tinha de ficar alerta para o menor descuido dele.

 

        O brutamontes a  seguia há três passos atrás, com a arma apontada para sua cabeça. Chegaram ao jardim e Jean voltou-se lentamente de frente para ele. Ele sorriu, os olhos percorrendo seu corpo.

 

        -Aí, boneca. . . agora nós vamos nos divertir um pouco. Tire a roupa. Mas cuidado com as mãos.

 

        Jean olhou-o com dissimulado terror. Queria que ele pensasse que estava com muito medo, sem tentar reagir.

 

        -Por favor. . . – disse, com voz trêmula – faço tudo que você quiser. . . mas não me mate !

 

        Ele riu, deliciando-se com o medo dela.

 

        -Ah, agora está com medo, não é, sua cadela ? Anda logo ! Tire a roupa, não tenho muito tempo !

 

        Jean baixou as mãos lentamente e tirou o blusão devagar. Jogou-o para o lado e levou as mãos à blusa. Ergueu-a lentamente, descobrindo os seios duros e eretos sem sutiã.

 

        O homem arquejou, os olhos pregados em seus seios. Jean viu o desejo dele avolumar-se sob a calça. Ele a olhava como um touro no cio.

 

        -Depressa, boneca. . . – arfou ele – estou louco de tesão. . .

 

        E ele levou a mão à braguilha da calça. Tentou desabotoá-la com a mão esquerda e não conseguiu.

 

        Ele então trocou a arma de mão, para abrir a calça. Foi um gesto de segundos, mas Jean estava esperando isso.

 

        Com rapidez fulminante, ela ergueu a perna e seu pé atingiu a mão dele com violência, fazendo a arma dele escapar da mão e voar longe.

 

        O homem deu um grunhido de surpresa. Olhou-a indeciso, se corria para pegar a arma ou a atacava de mãos limpas.

 

        Mas Jean já havia pensado na próxima ação. Ela jogou-se no chão e rolou, retirando sua pistola da cintura, na parte de trás do corpo, onde ele não percebera.

 

        -Maldita cadela ! – Gritou ele, pulando para ela.

 

        Ela mirou a arma e disparou, com o tiro atingindo-o no meio do pulo. O homem caiu sobre ela, no chão.

 

        Em pânico, Jean debateu-se sob o corpo dele, tentando escapar. Então, notou que ele não se movia. Ele havia caído sobre ela já morto.

 

        Empurrou-o para o lado com esforço. Ele rolou, ficando imóvel, meio de lado, com os olhos abertos.

 

        Ela ergueu-se arquejando, sentindo a tensão estremecer o seu corpo. Se fosse mais lenta dois segundos, ele a teria dominado e então, não teria mais nenhuma chance.

 

        Olhou-o ainda com um resto de pânico. Reparou que o tiro o tinha atingido na altura do coração. Havia sido uma morte fulminante, motivada por um tiro preciso. Pensou, respirando fundo, como havia sido importante o seu treino de tiro ao alvo, uma modalidade de treinamento para agentes importantíssima, numa situação como aquela, em que sua vida dependia de rapidez e precisão.

 

        Vestiu a blusa e o blusão. Guardou a arma no cós da cintura e olhou em volta. Os arbustos impediam que alguém os visse da casa e sua pistola era provida de silenciador. Ninguém percebera nada, mas não queria arriscar-se mais. Correu abaixada de volta para os fundos da casa. A cozinha devia estar com gente e optou em entrar por uma janela. Viu uma às escuras e escolheu-a.

 

        Com uma técnica que aprendera, a abriu em dois minutos. Pulou para dentro e olhou em volta. Era um quarto pequeno e estava mesmo desocupado. Devia ser dos empregados. Atravessou-o e entreabriu a porta olhando em volta. Ninguém no corredor. Saiu e fechou a porta com cuidado para não fazer ruído.

 

 Avançou rapidamente pelo corredor e em pouco tempo já estava de volta ao seu quarto. Fechou a porta sem acender a luz e despiu-se. Em seu peito havia uma enorme mancha de sangue do brutamontes que matara. Tomou um banho de ducha e lavou a blusa suja de sangue no lavatório. Colocou-a pendurada em um porta-toalha para secar, aliviada pela blusa ser negra e não aparecer o vestígio de sangue. Vestiu um pijama e enfiou-se entre as cobertas, adormecendo logo, cansada pela noite agitada que tivera.

 

                                                                                                 

Continua na parte 3

 

 

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