A MULHER DO
CHEFÃO
Leth
Cross
Quando o
corpo do inspetor York baixou sepultura, os companheiros que lhe foram prestar
as últimas homenagens olharam para a filha dele e mais uma vez admiraram o seu autocontrole.
Esperavam ver Jean York finalmente irromper em lágrimas, não suportando mais
conservar a máscara de pedra com que assistia à cerimônia, mas ela continuou
com o mesmo olhar fixo nos olhos verdes, sem mover um músculo do belo rosto.
Eles
sabiam que ela estava sofrendo profundamente a perda, sabiam que o inspetor
York tinha adoração pela filha, que retribuía com grande afetuosidade. Ela
havia entrado para a polícia de Chicago para seguir a mesma carreira do pai. E
havia sido aprovada nos exames com nota máxima, sem favoritismo, e em pouco
tempo havia se tornado uma das melhores agentes no
combate ao crime organizado de Chicago, igual ao pai.
O
inspetor York havia sido brutalmente assassinado devido à sua determinação em
combater a Máfia, que dominava o crime em Chicago. Em sua última missão
conseguira desmantelar um importante grupo que traficava drogas, colocando
vários traficantes na cadeia. E o chefão Giancarlo Gianini ficara furioso,
prometendo vingar-se do inspetor. E uma semana depois dessa ameaça, o corpo do
inspetor York foi encontrado na margem do lago Eire, amarrado, com sinais de
tortura e tiros de grosso calibre.
A
polícia sabia perfeitamente que aquilo havia sido obra dos homens de Giancarlo
Gianini, mas não podiam fazer nada para levá-lo às barras dos tribunais. O
chefão tinha um excelente álibi e conhecia muita gente influente, para poder
ser preso sem provas concretas.
Jean
assistia o encerramento da cerimônia com o rosto impassível porque não tinha
lágrimas para chorar. O ódio que sentia dominava todos os outros sentimentos.
Somente um pensamento agora motivaria suas ações: vingar-se do gangster que
havia ordenado o assassinato de seu pai.
Ela
sabia das ameaças que pairavam sobre seu pai e inúmeras vezes havia lhe pedido para
afastar-se daquele caso, que ele se aposentasse, já que podia fazer isso. Mas
seu pai sorria e dizia que ele era um osso duro de roer e ninguém conseguiria
pegá-lo. Em seus trinta anos de polícia já se acostumara com ameaças de
bandidos. Que eles não se atreveriam a tentar matá-lo.
Mas
dessa vez, ele havia se enganado.
A
cerimônia terminou e ela, depois dos cumprimentos dos colegas, voltou-se para
se retirar. Tom Worth, seu parceiro de trabalho, se ofereceu para levá-la para
casa. Ela recusou o oferecimento fitando-o com impassividade.
-Não precisa, obrigada, Tom. Vim em meu
carro e Mel está comigo.
-Tem
certeza que pode dirigir?
-Absolutamente.
Não se preocupe. Agora preciso ir, Tom. Bye.
Ele
encolheu os ombros, desajeitado. Como em todas as ocasiões como essa, as
pessoas ficam sem saber o que dizer e ansiosas para tudo acabar, mas por
formalidade oferecem seus préstimos, ficando aliviadas com uma recusa.
-Até
breve, Jean. Meus pêsames.
Jean
assentiu e se afastou com passos lentos para a saída. Uma chuva fina caía,
tornando o dia mais triste ainda.
Melanie
a esperava dentro do carro, fumando nervosamente. Ela não quisera ir até a
sepultura ver o enterro, alegando que se sentiria mal. Jean não insistira.
Sabia que ela não gostava muito de seu pai. Não devia estar sentindo a morte
dele.
Ela
a viu chegar e suspirou aliviada. Jean abriu a porta e entrou, sem olhá-la.
Girou a ignição e o motor roncou, ao pisar no acelerador, dando partida, ansiosa
para sair daquele lugar que só inspirava tristeza e saudade.
-Como
está, Jean? – Perguntou Melanie.
Jean
olhou para ela com olhar crítico.
-Como
espera que eu esteja? Que pergunta idiota!
-Não
precisa ser tão agressiva! Só estou preocupada com o que está sentindo!
Jean
olhou-a com a fisionomia fechada. Não estava disposta a discutir ou ter
paciência com Melanie. Ela, em todas as situações, adorava fazer papel de
vítima.
-Não
me encha a paciência, Melanie! – Disse, com voz seca – Acha pouco o que estou
passando? Tenho todo o direito de ficar agressiva e de mau humor. Você não é
nem um pouco compreensiva!
-O
que devo fazer? Ficar calada, igual à uma muda? Não
sou culpada da morte de seu pai, para ficar agredindo-me!
-Chega!
– Gritou Jean, entredentes – Cale a boca e me deixe em paz! Ou então, suma de
minha vista!
Melanie
fechou a cara e recolheu-se a um silêncio ressentido. Jean ultimamente estava
se comportando de um jeito insuportável, nervosa e agressiva.
Bem diferente de quando a conhecera.
Há
quanto tempo estavam juntas? Há mais de três anos eram amantes. E nesse tempo,
notara em Jean uma transformação de mulher apaixonada em uma mulher indiferente
e irritadiça.
Reconhecia
que a culpa era inteiramente sua. Tudo por causa de seu ciúme excessivo, sua
possessividade extrema.
Tentava
se controlar, mas se pegava repetindo as mesmas falhas,
ditadas pelo seu temperamento: reclamava quando ela lia, implicava com a
mania dela ouvir música por horas à fio, desconfiava de todos que a cercavam,
achando que Jean poderia traí-la a qualquer momento.
Jean,
normalmente bem humorada, às vezes explodia e gritava que não agüentava mais
aquilo. Não podia levar em casa um amigo, nem visitar ninguém, isolando-se por
causa dela. Não agüentava as cobranças de atenção, não podia dedicar-se a nada
que gostava. Ela a sufocava com seu ciúme doentio e possessividade.
E
agora, sentia uma satisfação secreta por saber que Jean ficara só. Tinha ciúmes
do amor que ela dedicava ao pai, odiava quando ela ia religiosamente aos
domingos jantar com ele. Nunca Jean a deixava ir junto, alegava que aquela
noite era somente dela e de seu pai, para conversarem.
Agora, aqueles jantares heviam acabado.
Havia
conhecido Jean durante as provas para agente da polícia. Olhara para aquela
moça de rosto angelical e corpo atlético, de cabelos louros e dona de incríveis olhos
verdes e se apaixonara fulminantemente. Aproximou-se dela com o pretexto de que precisava de ajuda
em alguns exercícios e Jean lhe sorrira com simpatia, prometendo treinar com
ela. Tornaram-se inseparáveis nos treinos e quando passaram nas provas,
convidou-a para comemorar em sua casa. Começariam a trabalhar na semana
seguinte.
Ela
havia criado um clima romântico para o jantar comemorativo. Luz de velas,
vinho, música suave. Fizera um assado caprichado e se insinuara com olhares,
uma conversa sobre sexo, contando suas experiências, que deixara Jean excitada.
E quando a beijou inesperadamente no sofá, Jean a olhara vencida pelo seu
charme, sua beleza, sua sexualidade à flor da pele. Confessara que também se
sentia atraída por ela e a apertara nos braços com emoção.
Melanie
a levou para o quarto e a bela Jean não havia resistido. Foi uma noite de sexo
louco, na qual a conquistou definitivamente. Jean confessou que já havia tido
experiências anteriores, mas nunca conhecera uma mulher com tais requintes
sexuais. Estava totalmente apaixonada e em um mês se mudou para casa de Melanie,
inventando para o pai que ficava muito só quando ele trabalhava à noite. Ela e
Melanie formavam uma dupla policial e tinham os mesmos dias de folga. Se o
inspetor York desconfiou do que havia entre elas, nunca demonstrou. Aceitou a
explicação, mas Melaine notou que desde esse dia, ele começou a tratá-la
com frieza. Não falou nada para Jean, porque sabia que ela iria defender o pai
e achar que ela estava implicando com ele.
-Melaine, chegamos! Não vai sair do carro?
A
voz impaciente de Jean a trouxe ao presente. Olhou-a e a viu já com a mão na tranca da porta do carro, prestes a descer.
-Oh,
estava distraída! – Respondeu, abrindo a porta e descendo do carro.
Jean
saiu e bateu a porta, olhando-a impaciente.
-Se
não se apressar, vamos nos encharcar nessa chuva.
Melanie
bateu a porta do carro e a encarou com raiva.
-Não
vou suportar seu mau humor, Jean ! Será que só sabe
falar comigo com brusquidão?
-Não
seja sensível, Mel – disse Jean, subindo os degraus do prédio, que a levavam à
entrada – Quem deveria ficar assim seria eu.
Melanie
a seguiu com ar contrariado.
Subiram os lances de escada até o segundo andar. Jean abriu
a porta e entraram. O apartamento era pequeno, mas confortável. Melanie tinha
bom gosto para decoração.
Jean
tirou a capa e pendurou-a no cabide da entrada, uma pequena saleta que
introduzia à sala de estar. Passou para a sala em
passos largos e foi até a estante, apanhando um copo e a garrafa de uísque.
Colocou três dedos e tomou a bebida em dois goles.
Melanie
sentou no sofá e esfregou as mãos.
-Que
frio! Dê-me um pouco de uísque.
Jean
tornou a colocar bebida no copo e estendeu para ela. Sentou ao lado e olhou-a séria.
-Mel,
você gosta realmente de mim?
Melanie
a fitou surpresa.
-Claro
que sim! Por que essa pregunta?
-Quero
saber se está solidária comigo em minha perda.
-Na
morte de seu pai ? Claro, Jean
! Sinto tanto quanto você. Seu pai era um bom homem.
Jean
sorriu amargamente.
-Não
precisa exagerar. Mas acredito que esteja solidária ao meu sofrimento e
revolta. Meu pai foi assassinado covardemente, brutalmente.
-Sei
disso e estou também revoltada, Jean. Não conhecia bem seu pai, mas acho que
ele não merecia esse fim.
-Eu
vou punir o assassino, Mel. E quero sua ajuda para isso. Concorda
?
Melanie
a fitou intrigada. Os olhos de Jean brilhavam com a determinação fria.
-O
que pensa fazer ? Giancarlo Gianini está fora do
alcance da justiça. Ele foi esperto e não há provas contra ele.
Jean
ergueu-se e a fitou revoltada.
-Provas ! Não preciso delas para saber que ele foi o mandante
do crime ! Eu vou fazer a minha justiça, Mel. Com ou
sem a sua ajuda.
-Não
me recusei a ajudá-la! Mas gostaria de saber o que pretende fazer.
Jean
a encarou.
-Raptá-lo
e executá-lo, depois que obtiver uma confissão completa dele sobre os seus
crimes e as ligações que tem com outros criminosos. Só assim me sentirei em
paz.
-Jean,
está louca? Somos apenas duas mulheres e ele é um chefão da Máfia! Anda sempre
com vários seguranças armados até os dentes! Como pensa em pegá-lo?
Jean
sorriu, um sorriso frio.
-Todo
mundo tem um ponto vulnerável, Mel. E Giancarlo Gianini deve ter o seu. É só
descobrir que ponto é esse.
-E
como vai descobrir isso?
-Investigando.
Por enquanto, só sei que ele é o chefão da Máfia em Chicago, que comanda as
zonas do crime e mandou assassinar meu pai por vingança. Tenho que saber tudo
dele. A sua vida pessoal, onde reside, quem o cerca. E com todos os dados,
descobrir o ponto vulnerável dele e armar uma armadilha.
Melanie
sacudiu a cabeça, receosa.
-Jean,
quer ter o mesmo fim de seu pai? Está querendo se meter com um homem
perigosíssimo, que não tem piedade com seus inimigos.
Jean
a olhou com frieza.
-Está
com medo de ajudar-me? Não tem importância. Vou conseguir isso sozinha. Pode
ficar aí se encolhendo de medo!
Melanie
ergueu-se irritada com o comentário.
-Eu
não me neguei a ajudá-la! Só estava tentando colocar um pouco de bom senso em
sua cabeça, mas vejo que é inútil! Você está dominada pelo ódio e sei que não vai
desistir dessa idéia louca. Muito bem, vou ajudá-la no que puder. Não quero que
pense que sou covarde.
Jean
sorriu, olhando-a com gratidão.
-Eu
sabia que podia contar com você, Mel. Obrigada.
-Tem
um plano em mente?
-A
única coisa já decidida é o local para onde pretendo levá-lo. Lembra daquela
cabana que meu pai usava para pescar, em Milwalkee, à beira do lago Michigan? É
lá que vou aprisionar Gianini, até obter a confissão dele e executá-lo.
Melanie
franziu o cenho.
-Aquela
cabana abandonada? Ela não serve para prender uma pessoa igual a Gianini, Jean!
Ele fugiria facilmente!
-Não se fizermos algumas pequenas
modificações: vedar as janelas com táboas, colocar um cadeado na porta do
quarto e alarme. A casa é ideal, porque é afastada e ninguém ouvira os gritos
de Gianini ou tiros.
-Bem, com essas modificações, servirá
para um cárcere. Mas não poderá mantê-lo lá muito tempo. Os capangas dele o
procurarão em todos os lugares e poderão encontrá-lo.
-Dois
dias, Mel. Em dois dias, ele não resistirá ao tratamento que pretendo dar à ele. Vomitará tudo que sabe.
Melanie
a olhou com ar decidido.
-Muito
bem, vamos então providenciar essas coisas na casa. E depois pensaremos como
pegá-lo.
-Vamos fazer uma lista de
materiais. Vamos levar mantimentos, toalhas de
banho, cobertores e principalmente, munição para uma
emergência. Barris de pólvora, rastilhos, dinamite, dois fuzis e munição
para eles.
Melanie a fitou admirada.
-Meu Deus! Vai travar uma batalha? Para
que tudo isso ?
Jean sorriu friamente.
-Se outros ratos forem atraídos para a armadilha,
quero recebê-los como
merecem. Vamos fazer a lista. Amanhã iremos comprar tudo e
ir lá na
casa
fazer o trabalho inicial.
Sentaram-se e
começaram a anotar em uma
folha a lista de material.
Ficaram horas discutindo
detalhes e Melanie olhava para companheira com admiração pela sagacidade dela em pensar
em tudo.
***************
No dia seguinte, bem cedo, foram comprar os materiais e
mantimentos.
Escolheram
um outro bairro para as
compras, onde ninguém
as conhecia. Na
casa de armas e munições, Jean mostrou
seu distintivo de
policial e o dono
sorriu, comentando:
-Caramba! Vão acabar com um exército de criminosos? Dois fuzis
com
alto alto poder de fogo, dinamite, pólvora, munição!
Jean sorriu friamente.
-Não, só vou caçar ratos.
-Ratos?!
-Sim. O senhor não imagina como há ratos
em Chicago!
Ele balançou a cabeça, incrédulo.
Com tudo da lista, ela
e Melanie rumaram
para Milwalkee. Quando
chegaram, Jean descarregou
tudo e Melanie
guardou a munição
em um
armário na cozinha.
Jean serrou as
táboas e as
colocou nas janelas,
pregadas com
pregos reforçados. Instalou o cadeado pelo
lado de fora
da
porta do quarto e instalou um alarme. Caso Gianini tentasse forçar
a porta, o
alarme
dispararia. Tirou todos os objetos
do quarto, com exceção da cama.
Gianini
não teria nada para
tentar arrombar a janela.
Melanie veio
ao seu encontro
e olhou sua obra, com olhar
crítico.
-É, Gianini só
poderá escapar daqui se puder transformar-se no Hulk! –
Comentou,
sorrindo.
Jean a olhou, sorrindo.
-Já guardou tudo?
-Sim. Tudo onde mandou.
-Então, podemos ir. Já testei
tudo. A janela,
a porta
com cadeado e o
alarme. A ratoeira está pronta para receber aquele
canalha.
-É, a parte mais fácil já foi feita.
-Vamos embora. Hoje mesmo vou passar na
polícia e pedir o dossiê
de
Gianini
para ver.
Recolheram as ferramentas, fecharam a
casa e foram embora.
Á noite, Jean foi ao setor de arquivos e pediu a
pasta com o
dossiê de
Giancarlo
Gianini ao arquivista. Ele a olhou com certo constrangimento.
-Desculpe, Jean, mas não
posso atendê-la. Os dossiês não
podem ser
retirados sem ordem do chefe.
Jean olhou-o
decepcionada.
-Que droga! Onde posso obter alguma
informação desse homem?
-Danny, que opera o computador. Você pode
dar uma olhada no programa
dele, se ele
deixar. Tem todas
as fichas dos
criminosos e suspeitos
de
crimes de
Chicago.
Jean
foi procurar Danny,
um rapaz magro
e com o
rosto cheio de
espinhas.
Talvez, tivesse chance com ele. Já
havia notado que
ele sempre a
olhava
com visível admiração.
Entrou na sala de computação e Danny a
olhou com aquela cara de
lobo
em pele
de cordeiro. Ficou
vermelho quando ela
debruçou na mesa
dele,
apoiando
as mãos.
-Olá, Danny – Disse Jean, dando seu
melhor sorriso.
-Olá, Jean... – Respondeu ele, quase
engasgando.
-Danny, preciso
de um favor seu.
Ele sorriu como se tivesse recebido um
convite para ir para a cama com ela.
-Um favor? Pois não, Jean! É só pedir !
-Preciso ter acesso à ficha de Giancarlo Gianini. Pode fazer isso por
mim ?
O sorriso dele morreu.
-Oh... isso é irregular... para ter
acesso a esses dados, tem...
-Já
sei... – disse Jean,
suspirando – seu chefe tem
de autorizar. Mas,
Danny...
deixe de lado essa formalidade, só essa vez, por mim...
Ela agora falava com ele bem perto,
olhando-o nos olhos. Danny ficou mais vermelho
e capitulou:
-Está bem, mas seja rápida... se meu chefe ver, vou levar uma suspensão.
Jean sorriu para ele docemente.
-Você é um rapaz muito gentil, Danny.
Não vou me esquecer desse favor.
Ele digitou um código e clicou no
ícone ”abrir arquivo” e em seguida
digitou o
nome de Giancarlo Gianini. O
rosto dele apareceu na tela.
Danny clicou sobre a foto e
os dados de
Giancarlo Gianini começaram a
A encher
a tela:
NOME:
GIANINI, GIANCARLO.
IDADE: 45
ANOS, NASCIDO EM 5/NOVEMBRO/1949
NACIONALIDADE:
AMERICANO, DE ORIGEM ITALIANA
LOCAL DE
NASCIMENTO: LITTLE ITALY, NOVA IORQUE .
PROFISSÃO:
EMPRESÁRIO
ESTADO
CIVIL: CASADO
FILHOS:
NÃO TEM
ENDEREÇO:
MASTERSON AVENUE, 2544
Jean anotou o endereço e olhou para
Danny.
-Danny, existe dados da família dele?
Danny assentiu:
- Sim, quer verificar isso?
-Sim , por favor.
Danny sorriu, surpreso.
-Engraçado... pensei que
estivesse mais interessada na ficha criminal
dele.Temos
todos os negócios escusos
dele em uma
lista. É só clicar em
Atividades
Criminais.
-Isso estou
cansada de saber.
Danny digitou Vida Familiar e na
tela apareceu o
rosto de uma
mulher
belíssima.
Cabelos negros caindo pelos ombros
em ondas reluzentes,
olhos
azuis,
grandes e expressivos, nariz
reto, encimando uma boca
sensual, de
lábios
polpudos e vermelhos, maçãs do rosto
altas, o queixo forte e
angular,
tudo
formando um conjunto de exótica beleza.
Jean a fitou, impressionada. E lamentando
que uma mulher
tão bonita
fosse de um canalha como Gianini. Aqueles olhos prendiam,
fascinavam.
-Mostre a ficha dela, Danny.
Danny clicou na foto e a ficha da mulher
de Gianini apareceu na tela:
NOME:
GIANINI,CARLA.
IDADE: 28
ANOS, NASCIDA EM 10/DEZEMBRO/1966
LOCAL DE
NASCIMENTO: ILLINOIS, CHICAGO
PROFISSÃO:
SECRETÁRIA
ESTADO
CIVIL: CASADA
FILHOS:
NÃO TEM
ENDEREÇO:
MASTERSON AVENUE, 2544
Jean olhou para Danny, que aguardava.
-Só tem essas informações sobre ela ?
Danny a fitou.
-Só. A mulher do criminoso não é muito
importante para a polícia. A
lista
criminal, sim.
Jean gravou na mente aquele rosto e
nome. Era por ela que
iria começar.
-Obrigado então, Danny. Qualquer dia
desses trarei um
presentinho para
você,
pelo favor que me fez.
Ele abriu um sorriso de orelha a orelha.
-Foi um prazer, Jean! Não precisa de presente
nenhum!
-Tchau, garoto – Disse, afastando-se.
Serviu-se de café na máquina no corredor
e foi para
sua sala. Melanie
a olhou
com cumpricidade, quando
entrou. Jean olhou
em volta, vendo
que não
prestavam atenção à ela
e debruçou-se na
mesa de Melaine,
apoiando
as mãos.
-Consegui – sussurou – Vamos sair.
Melanie ergueu-se e olhou para Miles e
Davison, dizendo:
-Eu e Jean vamos sair. Voltaremos à
tarde.
Davison sorriu para Melanie.
-Isso,
distraia um pouco
a cabeça de
Jean. Ela está
muito abatida
com o que
aconteceu.
Elas saíram. No carro, Melanie a olhou
ansiosa.
-E então, Jean ? O que conseguiu?
Jean a olhou sorrindo.
-O endereço do patife e o nome da
mulher dele. Ela
pode ser o ponto
fraco que desejávamos. É por ela que vou
começar.
-O que pretende fazer?
-Primeiro, estudar os
hábitos dela. E
depois, tentar fazer
contato. Ela
poderá revelar alguma particularidade do
marido que nos ajudará a pegá-lo.
Melanie a fitou preocupada.
-Espero que saiba onde está
se metendo, Jean.
Essa mulher deve
ser
perigosa.
Jean fez uma expressão de desprezo.
-Que nada! Deve ser uma puta de luxo!
Quem é
mulher de um homem
como ele,
só deve
viver fazendo compras
e satisfazendo na
cama aquele
filho da
puta!
Melanie a olhou rindo.
-Puxa! Até a mulher de Gianini não
escapa de sua raiva!
Jean
apertou os lábios.
Era isso mesmo.
Tudo que dizia
respeito à
Gianini
lhe causava raiva.
E a mulher
dele, que ia
para a cama
com
aquele desgraçado, era outro alvo de sua
raiva. Raiva, não. Ódio!
Ela fez uma expressão de enfado e
retirou a jóia
do pulso, tornando
a
guardá-la no
estojo de veludo
negro. Aquela pulseira,
como tantas outras
jóias que
possuía, era como ela: bela, despertando
cobiças, mas só
podia ser
admirada por
poucas pessoas em
raras ocasiões, tornando
a ser fechada
em um
cofre, longe de todos.
Aquela
casa era o
seu cofre. E
sabia que era bela, o espelho e os
homens lhe haviam dado essa
certeza. Mas sua
vida, ali trancada
naquela
mansão enorme, era triste e solitária.
Giancarlo a
deixava ir ao
cabelereiro e fazer
compras, mas sempre
acompanhada de dois seguranças,
dois brutamontes que a faziam ficar nervosa
e irritada. Raramente recebiam
convidados, mas mesmo nessas ocasiões, pouco
se
divertia. Os convidados eram homens mal encarados, ou então já
casados, acompanhados pelas esposas que a olhavam com inveja.
Aos vinte e oito anos, sentia-se
deprimida e insatisfeita com
a vida que
levava.
Era como uma ave presa em uma
gaiola dourada. Podia ter tudo de
material
que desejasse, menos sua liberdade.
Giancarlo dizia que
não podia
expô-la
porque era a mulher
de um chefão, que
possuia muitos inimigos.
Poderiam
tentar atingí-lo através dela.
Mas Carla sabia que esse não era o
principal motivo. O motivo maior era o
ciúme de
Giancarlo. Certa vez, quando fora com ele a um cassino em Las Vegas,
um homem
a ficara
olhando com admiração
por uns momentos.
Giancarlo
notara e
mandara o seu capanga retirar
o homem do
local e depois
Carla
soubera
que o capanga dera uma surra em seu pobre admirador.
Ah, se não tivesse sido ambiciosa !
Estaria ainda trabalhando duro em um escritório como secretária, mas com
liberdade para fazer as coisas que gostava.
Ir ao cinema, dançar, jantar em
simpáticos restaurantes, ter a companhia dos
amigos, fazer ginastica numa
academia noturna...
Mas havia conhecido Giancarlo em um bar
noturno, onde fora com amigos,
e ele a
convidara para dançar e a
deslumbrara ao pagar
a conta de
todos,
depois
demandar servir champanhe à vontade
ao grupo. Havia se
despedido
dela
beijando-a galantemente na mão e lhe pedira o telefone.
No primeiro encontro, ele a veio buscar
numa limousine negra e levou-a ao
melhor
restaurante de Chicago, onde o
maitre e os
garçons o cercaram
de
atenção,
mostrando como ele era importante. E
vieram depois as
flores, os
presentes
caros, o alto estilo de vida. Não pensou
duas vezes quando
ele a
pediu em
casamento, duas semanas depois. Giancarlo era um homem atraente,
rico e a
tratava como uma rainha. O que podia querer mais ?
Agora, sabia. Sua liberdade para fazer o
que gostava, um homem que lhe
desse
mais atenção. Logo depois do casamento,
ele começou a
deixá-la de
lado.
E raramente dormia
em casa. Quando Carla
se queixou, ele a
havia
olhado
friamente e dissera:
-Você tem tudo que quer. Era uma mulher
pobre, sem ter onde cair morta,
e eu casei-me com você. Escute, você é muito
bela, minha querida. É
muito
bom trepar com você. Mas, por mais bela que
seja, não espere que eu deixe
meus
negócios de lado por sua causa. Nenhuma
mulher vale isso. Vai ter que
acostumar-se
à essa vida
e ser grata
por eu tê-la
escolhido entre tantas
mulheres
que me desejavam.
Carla o olhara chocada
com aquelas palavras. Ele a
humilhara, estava
dizendo
que ela era inferior à ele e devia ser agradecida por
ter sido escolhida !
Saíra
do escritório dele
arrasada. E não se queixara
mais, para não
ouvir
novamente aquelas palavras.
Giancarlo continuara
com sua vida agitada, viajando muito
e pouco
Parando em
casa. Quando a
procurava para fazer
amor, era agora sem
muitos
preâmbulos, sem nenhum
romantismo, um ato
que deixava Carla
deprimida, sentindo-se
um mero objeto
de prazer. Ela
sentia que ele a
cobiçara
e a tomara para mulher como um belo troféu
ao qual se deseja e se
esforça
para conquistar e depois esquece numa prateleira, só para exibir.
Não era essa a vida que desejava. Há
dois anos estava casada e
sua vida
transcorria
assim. A monotonia a fazia ficar
deprimida, desanimada,
infeliz. Já
insinuara
a Giancarlo a hipótese de um divórcio entre
eles. Giancarlo a
olhara
com
frieza e dissera, enfático:
-Um homem como eu não
se divorcia. Não vou dar parte de minha
fortuna
por uma
sentença que um juiz filho da puta
proferir. E nem pagar pensão
a
uma
mulher para que viva o resto da vida às
minhas custas, enquanto
dá a
outros
homens. Eu só admito a hipótese de ficar viúvo, entendeu, minha querida?
Carla
o ouviu amedrontada,
sentindo a ameaça
daquelas palavras. E
entendeu
que o divórcio era uma coisa impossível
de pretender dele, a não ser
que não
se importasse em ser assassinada por ele.
Sabia que ele seria capaz disso, ao ver
os olhos frios com que ele a
fitara.
Sabia que
o marido tinha contato com o mundo do crime, percebera isso com o
passar
do tempo, depois
que se casara.
Muitos homens conhecidamente
mafiosos
frequentavam as festas na casa, ficando na maioria das vezes
trancados
no
escritório de Giancarlo em misteriosas conversas.
Mas
nunca quis se
envolver com isso. No início, considerava
o marido
apenas um
homem que não tinha muitos
escrúpulos na forma
de ganhar
dinheiro.
Mas agora sabia que ele era capaz de muito
mais: não teria também
escrúpulos
em mandar liquidar quem se interpusesse em seu caminho.
Isso lhe causara medo e repugnância pelo
marido. Era uma tortura agora
submeter-se
à posse dele, quando a procurava, felizmente
muito raramente.
Suspeitava
que não era a única mulher na vida dele. Giancarlo ia muito aos seus
cassinos
e lá o que mais havia eram mulheres ansiosas
e disponíveis para
um
homem
atraente e rico. Pois que
tivesse quantas quisesse ! Até gostaria
de
saber disso.
Pelo menos, ele não a procurava muito para seus impulsos sexuais.
Ela saiu de seus pertubadores
pensamentos e olhou
para o relógio
na
parede. Apertou
os lábios e
pegou o interfone,
apertando um número.
Atenderam e ela
falou com certa impaciência:
-Gino, o carro já está pronto ?
Uma voz com forte
sotaque italiano respondeu, neutra:
-Si, signora Gianini. . Está
diante da porta principal. Eu estava
esperando
Francesco
e Luigi tomarem seus postos, para avisá-la.
Carla fez uma expressão contrariada.
-Aqueles
dois brutamontes vão
acompanhar-me outra vez ? Ah, não! Não
agüento
mais olhar para aquelas caras com cicatrizes ! Frank não está aí ?
-Não, signora. Ele acompanhou o signore
Gianini ontem e ainda não voltou.
-Droga! Frank pelo menos é mais educado
e não
tem jeito de gangster
!
Ouça,
essa é a última vez que vou admitir
sair com esses
brutamontes como
seguranças
! Quero que arrume outros mais
apresentáveis para mim ! Tenho
até
vergonha de andar com uns tipos como esses dois !
A voz respondeu impassível:
-Teremos que consultar o signore
Gianini, signora.
Carla bateu o interfone com raiva. Ela ,
a mulher do patrão, tinha de ter
direito de escolher os seus empregados !
Ia exigir isso
de Giancarlo, mesmo
que ele
não gostasse ! Se não podia pedir o
divórcio, então queria
ao menos
cercar-se
de pessoas agradáveis
em sua prisão dourada ! Disso não
abriria
mão,
estava cansada de ser passiva em tudo.
Saiu do quarto e desceu as escadas.
Gino, o mordomo, a olhou com
sua
cara de
múmia. Ela passou por ele como se o
homem não existisse, ou
fosse
transparente.
Detestava-o . Sabia que ele tomava conta de tudo, para levar aos
ouvidos
do marido. Era um antipático e fofoqueiro.
Entrou no carro que a esperava na porta
e deu uma ordem seca aos dois
brutamontes
que estavam nos bancos dianteiros:
-Para meu cabelereiro.
Os dois homens nem
olharam para trás. O
carro saiu, percorrendo a
alameda
que levava à um portão
de aço, onde
havia uma guarita
com um
segurança.
Ele abriu o portão,
olhando para Carla com olhar
atrevido, e o
carro
saiu para a rua.
Há duzentos metros atrás, Jean e Melanie
viram o carro sair. Estavam atrás
de um
carro estacionado e Jean ligou o motor,
manobrando com habilidade e
saindo
para seguir o outro carro.
-Viu, fomos recompensadas pela nossa
paciência – Disse Jean, sorrindo.
Melanie a fitou.
-Espero que eles não percebam que os
estamos seguindo.
-Não perceberão. A estrada é
movimentada.
O carro da frente passou quatro
quarteirões e entrou em uma rua elegante
de
Chicago. Parou diante de uma loja sofisticada.
Carla desceu do
carro e
entrou na
loja.
Jean seguiu em frente e parou bem adiante,
encostando no meio-fio. Olhou
pelo
espelho retrovisor. Os seguranças aguardavam no carro.
Jean olhou para Melanie.
-Que tal ir até lá e ver se apura alguma coisa ?
Melanie a olhou suspirando. Saiu do carro
e dirigiu-se para
a loja sem
pressa.
Entrou, depois de disfarçar olhando
a vitrine. Era um salão
de beleza
luxuoso,
com uma recepcionista uniformizada que a olhou com um sorriso polido.
-Em que podemos serví-la, senhorita ?
Melanie olhou em volta. Carla Gianini
acabava de sentar em uma cadeira,
para
lavagem do cabelo. O salão era separado da recepção por um divisão de
vidro fumê. Na
vitrine do salão haviam vários produtos
de beleza, como
shampoos,
cremes, gel, batons, pó compacto e
perfumes, todos franceses. Ela
tornou a
olhar para a moça, que aguardava com um sorriso estático.
-Gostaria de uma lavagem nos cabelos.
-Tem hora marcada, senhorita ?
-Bem... não. Sou turista. Ia
passando e achei
o salão atraente,
imagino
que fazem um bom trabalho.
A moça sorriu cordialmente.
-Geralmente atendemos
com hora marcada,
mas posso dar
um jeito.
Espere
aqui, por favor.
Ela entrou na outra parte e falou com um
homem alto e
magro, vestido
Com roupas
esportivas elegantes. Ele olhou para
Melanie, avaliando-a , e
assentiu.
A moça voltou e abriu-lhe a porta de vidro, dizendo:
-Mr. Renaud vai atendê-la, mas não
pessoalmente, senhorita. A freguesa
que chegou antes da senhorita tem hora marcada
e todas as segundas-feiras
esse horário
é dela.
Melanie quase abraçou a recepcionista
pela informação.
Mas apenas sorriu, agradecendo:
-Não tem importância. Sei que serei bem
atendida por outra pessoa.
-Queria entrar, senhorita.
Melanie
entrou e uma
mulher uniformizada a
recebeu sorrindo
educadamente.
-Bom dia, senhorita. Espero que não se
importe que seja
eu quem vai
atendê-la.
Mr. Renaud está ocupado.
Melanie
sorriu para a mulher.
-Não , absolutamente. Confio em suas
mãos.
-Obrigada. Queira sentar na cadeira,
senhorita – Disse a mulher, indicando
a cadeira
ao lado de Carla Gianini.
Melanie sentou, procurando não olhar
para Carla pelo espelho diante delas.
Mas ficou
atenta à conversa dela com o cabelereiro, que colocara a
cabeça de
Carla
inclinada para trás em um
escorredor de água
próprio, ligando uma
pequena
ducha. A mulher fez o
mesmo com Melanie, depois de colocar
uma
toalha
sobre os ombros dela.
-Carla – Dizia ele,
com forte sotaque francês – Seus
cabelos são perfeitos.
Mas não quer mudar de shampoo ? Tenho
um lançamento aí
que é muito
bom. De
Yves Saint-Laurent.
-É de acordo com meus cabelos ?
-Sim, para cabelos normais.
-Está bem. Pode usá-lo.
-Seu marido vai adorar o perfume do
shampoo.
Carla suspirou audivelmente.
-Não sei se ele vai notar – Disse, com
amargura.
-Ora, Carla ! Não seja modesta ! Uma
mulher bela como você, dizer isso !
-Ele não vai notar, Renaud. E eu não me importo com isso. Mas, mudando
de
assunto, fui àquela boutique que você
recomendou-me. Realmente, tem
roupas
lindas.
-Ah, sim ? E como se sentiu, nelas?
Maravilhosa, aposto !
-Ainda não as peguei. Comprei umas
peças, mas algumas tive
de deixar
para
pegar depois, para os ajustes. Vou buscá-las amanhã.
-Ah, você vai ficar muito linda com as
roupas da Dolce
Y Gabana! Elas
fazem o seu estilo !
-Obrigada, Renaud. Você é muito gentil.
A conversa prosseguiu, mas Carla não
falou mais nada que
interessasse
Melanie. Uma hora depois ela saiu, com
os cabelos lavados
e penteados.
Dirigiu-se para o carro de Jean, que a olhou
com um sorriso divertido.
-Uau ! Você ficou chique, com esse
penteado !
Melanie sentou do lado dela, fazendo uma
careta.
-Chique, não é ? Pois saiba que por esse
penteado tive de desembolsar
cem dólares !
Jean deu a partida no carro, olhando-a
expectante.
-A mulher de Gianini saiu na sua frente.
E então ?
Melanie a fitou sorrindo.
-Valeu à pena o que paguei, Jean !
Descobri que ela frequenta esse salão
todas as segundas, à mesma hora de hoje. E
que amanhã vai sair novamente,
para pegar umas roupas que comprou na boutique
Dolce Y Gabana.
Jean sorriu, eufórica.
-Você é demais, Melanie ! Essas
informações são preciosíssimas !Poderemos
montar um
plano para eu aproximar-me dela.
-Outra coisa. Parece que Gianini não tem
um bom relacionamento com ela.
Jean a olhou interessada.
-Por que acha isso ?
Melanie contou o
diálogo de Carla
com o cabelereiro.
Jean a olhou
pensativa.
-Então, ela disse que ele não iria
notar o novo perfume
do shampoo
e que
ela não se importava com isso... é,
parece que ele não liga muito
para
ela... e
isso não a atinge. Ótimo ! Mais um
dado à nosso
favor. Uma mulher
desprezada
é um inimigo em potencial. Pode até querer vingar-se dele, se
for
traída.
-Puxa,
Jean ! Você pensa em tudo ! Teria medo de ser sua inimiga !
Jean sorriu, aumentando a velocidade do
carro.
Jean sentou-se na grande mesa de reunião,
encabeçada pelo seu chefe
Steve
Spader. Era um homem gordo
e de sorriso
bonachão, mas por trás
daquela
aparência inofensiva, sabia
esconder um homem
inteligente, ágil
e duro.
Dizia que seu sonho era acabar com
o crime organizado e
para isso
vivia,
mesmo sabendo ser um sonho impossível.
Jean
o entendia. Os tentáculos da
Máfia ou Cosa
Nostra, quando eram
Cortados,
se reproduziam no mesmo número, só que
com pessoas diferentes.
Era uma
ramificação criminosa que se estendia
sorrateiramente em meios
meios
insuspeitos, como policiais, políticos, juízes,
empresários e gente famosa
e
aparentemente de vida limpa.
Mas Spader parecia não desistir. Seu
irmão havia sido
uma das vítimas
da
organização. E isso ele não esquecia.
Jean olhou-o e pensou que agora tinham
uma coisa em comum. O mesmo
motivo
gerando aquele ódio contra o crime organizado e a vontade de destruí-lo.
Os demais agentes, colegas de Jean,
olhavam para o chefe em expectativa.
Quando
ele convocava uma reunião, o assunto era importante.
Ele ergueu os olhos da folha de papel
que estivera lendo e suspirou. Fixou
os olhos
em Jean e falou:
-Meus pêsames, Jean. Não pude ir ao
enterro. Estava participando de uma
reunião
com o alto comando. Mas saiba que admirava muito seu pai e lamento
profundamente
a morte dele.
-Eu sei. Obrigada – Respondeu, em voz
baixa.
Ele pousou as mãos gorduchas no tampo da
mesa. Olhou em volta.
-Bem. Chamei-os aqui para mostrar o
resultado de um estudo
preparado
pelo
departamento de estatística. Sabem
o índice de
crimes de morte
pela
Máfia
este ano, que ainda não
chegou ao terceiro
trimestre ? Só aqui
em
Chicago ?
Ninguém respondeu e ele continuou:
-Cento e sessenta e
dois assassinatos, quinze
estupros, nove subornos,
sete seqüestros ! Mais de trinta por cento em
relação ao ano passado ! Isto é
inaceitável,
para nós ! Isso quer dizer que o crime está avançando e dominando
cada vez
mais ! E que nós estamos sendo imcompetentes para dominá-lo !
Um silêncio pesado acompanhou as
palavras de Spader. Todos
sabiam o
que ele
queria dizer: que a lei, representada por eles nas ruas, estava ineficiente
e
acomodada.
-Eu quero que cada um de vocês se
esforce ao máximo. Eu exijo resultados,
no máximo
à médio prazo. E médio prazo para mim, é um mês !
Ele voltou-se para o assistente e fez um
sinal. O assistente apagou as luzes
E ligou
um projetor filme.
O mapa de
Chicago apareceu na tela móvel,
suspensa
em um tripé,com vários pontos vermelhos. A voz de Spader soou forte:
-Aí tem o mapa da cidade, dividido por
zonas. E cada ponto vermelho é um
local onde
se praticam todo
tipo de crime:
venda de drogas,
prostituição,
esconderijo de armas e bandidos, etc. E cada zona é comandada por um
chefe,
que
é subordinado à
um chefão. Vamos conhecer esses chefes.
A
cena foi mudada
para um homenzinho
magro, de óculos,
com ar
desprotegido, sentado numa mesa comendo.
-A zona oeste é comandada por este
homem, Frank Martino. Tem negócios
ilegais
de todos os tipos, encobertos pelo
serviço de negociante
de bebidas.
Frank
Martino domina a prostituição e
a exploração do
comércio, vendendo
proteção.
Quem não aceita a exploração, sofre
atentados e assaltos às suas lojas.
A cena mudou para um homem gordo, com o
rosto cheio de bexigas. Tinha
uma expressão soturna,
caminhando numa rua rodeado de seguranças.
-Esse é Mariano Garpo. Controla a zona
leste . Contrabando e venda ilegal
de armas
para o exterior. É esperto e tem ligações com
políticos. Já respondeu
a vários
processos, mas se livrou das condenações por falta de provas.
O próximo a aparecer
era homem magro,
calvo, de olhar duro, lábios
finos e cruéis. Spader continuou:
-Victor
Massera. Controla a
zona sul. Faz segurança
para mafiosos e
executa
pessoas por dinheiro. Também pratica raptos audaciosos e recebe
altos
resgates.
Responde a nove processos, mas se escuda com amigos na política
e
justiça.
Seu negócio aparente é uma distribuidora de revistas.
Outro homem apareceu na tela. Um homem
de cabelos com gomalina, um sorriso simpático, boa pinta.
-Massimo Santera. Controla a zona norte.
É dono de bordéis e trafica armas
para fora do
país. Atua em portos
e teve sua
prisão decretada, mas
está
foragido.
Foi esse indivíduo quem teve a
quadrilha quase toda
desmantelada
pelo
falecido inspetor York. É um grande amigo pessoal de Giancarlo Gianini.
A projeção mudou para a foto de um
homem que Jean
conhecia muito
bem. Olhou-a com olhos frios e ouviu seu chefe
dizer, desnecessáriamente:
-E este é o chefão de
todos que mostrei,
Giancarlo Gianini. Ele controla
todos os outros
e recebe trinta por cento de todos os
lucros de cada
zona de
crime, além
de lidar com
seu negócio de
cassinos, tráfico de
drogas e
diamantes.
É um homem muito bem relacionado e só
poderá prestar contas à
justiça
quando houver provas concretas incriminando-o.
O retrato mostrava um homem de mais
ou menos
quarenta e cinco anos,
de
cabelos bastos e grisalhos, rosto
de traços finos,
mas olhar duro,
de um
cinza
metálico. O terno impecável e o colete de lã
lhe conferiam um aspecto de
executivo
bem sucedido.
Jean pensou, olhando para a foto:
“-Você não perde por
esperar, seu canalha. Se meu plano
der resultado,
vou tê-lo
em minhas mãos.”
A projeção terminou. Spader ergueu-se e
olhou para todos com ar grave.
-Os homens são esses. Vocês já
ouviram falar sobre
eles, mas quis
dar
informações precisas.
Vocês vão se
dividir em quatro
grupos. Cada
grupo
cuidará de
combater cada chefe
em suas zonas
de atuação. Vou
querer
resultados
dentro de um mês. Provas, prisões
em flagrantes, apreensão
de
mercadorias
ilegais, apreensão de
grandes quantidades de
drogas, armas,
tudo que
contribuir para desmantelar as quadrilhas que esses homens chefiam.
Ele pegou uma folha de papel e leu com
voz incisiva:
-Thompson, Grant, Mackinley e Weston combaterão Frank
Martino. O líder
será Grant. Malcon, Prescott, Steven, Hust. Combaterão
Mariano Garpo. O líder
será Prescott. Zimmer, Martin, Reynolds,
Hollander. Combaterão Victor Massera.
O líder
será Reynolds. Stack, Miller, Montgomery, Wayne. Combaterão Massimo
Santera. O líder será Miller. Davison, Still, Miles
e York. Combaterão Giancarlo
Gianini. A líder será York.
Jean nem
acreditou naquela designação. Ela ia ser
líder do grupo que
combateria
Gianini ! O triunfo brilhava em seus olhos.Aquela missão moldava-se
como um
presente ao seu plano.
Spader lhe piscou um olho, sorrindo. Ele
sabia que Jean se empenharia ao
máximo,
porque aquilo ia de encontro ao seu desejo de
vingança. O velho era
esperto.
E a honrava com a confiança de colocá-la
como líder do grupo.
Spader continuou:
-Vocês têm carta branca para
requisitarem o auxílio que for necessário.
Já
expedi um
memorando avisando que
terão o poder durante um mês de
requisitarem
o que quiserem em armas, munição, helicópteros e policiais. Mas
em
contrapartida, vou exigir resultados depois desse prazo. Cada grupo adotará
o plano
de ação que julgar mais conveniente. É só, senhores.
Todos se levantaram da mesa e foram
saindo, cada grupo formado logo começando a trocar sujestões.
Miles e
Davison se aproximaram
de Melanie e
Jean, trocando olhares
significativos.
Eram homens de grande experiência na polícia e Jean notou que
eles
procuravam esconder o desapontamento de
serem chefiados por
uma
mulher
com menos experiência que eles.
-Oi, chefe – Disse Miles, com uma leve
ironia na voz – Já tem algum plano
de ação
em mente ?
Ela resolveu ignorar a pergunta irônica.
Olhou-o séria
nos olhos, com
tal
firmesa
que o fez desconsertar-se.
-Não, Miles. Recebi a designação
agora e preciso de tempo
para pensar.
Mas amanhã já terei um plano de ação, isso eu
garanto à você.
Davison sorriu-lhe. Era um homem mais
dissimulado que Miles.
-Isso foi um presente de Spader para
você, York. Ele sabe que você
quer
vingar a morte de seu pai e lhe deu todos os
meios para isso.
Jean não pôde evitar um brilho nos
olhos.
-Spader é um psicólogo. Sabe que me
empenharei ao máximo. E
espero
que vocês
também.
Miles sorriu.
-Pode contar com isso, Jean. Até amanhã,
então.
Os dois se afastaram, falando baixinho.
Melanie olhou para Jean sorrindo.
-Isso vai facilitar muito
as coisas para você, não ?
Jean a fitou pensativa.
-No início, sim. Mas depois, poderão me
atrapalhar. Miles e Davison vão se
grudar
conosco e isso tolherá os meus passos. Mas vou pensar numa forma de
mantê-los ocupados, para evitar esse transtorno.
À noite, Jean planejou com Melanie o
plano inicial. Usaria a ajuda de Miles
e
Davison, já que eles estavam no
grupo para combater
Gianini. Iria explicar
à eles que tentaria uma aproximação com Carla Gianini para
colher informações
sobre o
marido dela, usando outra identidade. Essa parte do pano eles poderiam
saber,
mas não o plano do rapto
e execução de
Gianini. Eram policiais que
nunca
concordariam com o que pretendia fazer: justiça pelas próprias mãos.
Só foram dormir de madrugada e Melanie
já sabia o que iria fazer no dia
seguinte.
Miles e Davison fariam a parte mais fácil. Mas
ela e Jean
teriam de
representar
uma cena. Será que convenceriam Carla Gianini ?
Carla jogou o casaco de linho sobre os
ombros e saiu
alegremente. Fôra
difícil,
mas convencera Giancarlo
a sair para ir
à boutique Dolce
y Gabana
apanhar sua
roupa sem guarda-costas. A boutique
distava apenas cinco
quadras da mansão e a rua era bem
movimentada, não havia
perigo. E sem
aqueles brutamontes, sentia-se mais
leve e solta. Sentia uma rara
sensação
de
liberdade.
E o dia estava lindo, o sol brilhava, a
brisa fresca acariciava
seus cabelos
negros e
longos. Sentia-se quase feliz. Seus olhos azuis luziam de contentamento.
Pegou o Mercedes conversível e arriou a
capota, deixando o sol
bater em
seu
rosto e saiu devagar, saboreando a sua
pequena liberdade.
Ela percorreu a avenida cheia de carros
e gente,
olhando tudo com
uma
curiosidade
nova. As lojas de artigos importados, as boutiques de roupas
finas,
as lanchonetes
coloridas pelas roupas
dos jovens, os
restaurantes, tudo
transpirando vida.
Empolgada pelo movimento, resolveu caminhar
no meio da
multidão e
encostou
o carro no meio-fio, estacionando-o. Pagaria
com prazer uma
multa,
para
poder desfrutar daquela caminhada no meio das pessoas.
Foi
caminhando devagar, respirando
com prazer o
ar daquela tarde
ensolarada.
Os óculos escuros Armani protegiam seus
olhos da luz do sol, que se
derramava
alegremente na paisagem e no seu rosto perfeito.
Carla
estava andando distraída,
quando sentiu alguém
empurrá-la
brutalmente.
Gritou de susto, ao mesmo tempo que caía
no chão duro
da
calçada.
Viu uma mulher ruiva inclinar-se e pegar sua bolsa, saindo correndo.
Tudo
aconteceu tão rápido
que ela ficou
olhando surpresa a
mulher
afastar-se,
com os cabelos balançando ao vento. Então, recuperou a voz e gritou:
-Peguem essa ruiva ! Ela roubou-me !
Os transeuntes a
olharam espantados, mas ninguém esboçou uma reação.
Ela
ergueu-se num salto e correu atrás da mulher, que já se achava distante uns
cem
metros dela. Carla estava de salto alto e isso
dificultava sua perseguissão.
A mulher
ruiva estava de
tênis e calça
comprida e isso
lhe dava uma
boa
vantagem para fugir.
-Segurem essa ruiva ! Ela roubou minha
bolsa ! – Tornou a gritar.
E Carla viu uma loura que vinha em
sentido contrário da ruiva meter-se na
dela.
Elas colidiram e a ruiva cambaleou,
tentou contornar a loura e continuar a
fuga. Mas
a loura estendeu a mão e a segurou
pelo braço. A ruiva
deu um
puxão,
tentando se desprender, ao mesmo tempo que erguia a
mão livre para
o rosto
da loura.
Carla então presenciou um belo golpe de
defesa da loura, que não era alta
como a
ruiva, mas parecia bem segura de seus atos.
Ela aparou o golpe com a mão direita,
segurando a ruiva pelo punho e com
a outra
mão a puxou para a
frente, ao mesmo tempo que erguia o
joelho, que
chocou
contra o estômago da fugitiva. A ruiva abriu a boca numa careta de dor
e caiu no
chão, comprimindo o estômago com as mãos. Mas logo recuperou-se
e se
ergueu num pulo, olhando para a loura com fúria. Puxou um
canivete do
bolso da
calça e investiu contra a loura, gritando de raiva.
A loura girou o corpo com agilidade espantosa
e a perna
direita subiu,
atingindo
com o pé a mão da ruiva, fazendo-a soltar a arma. Ato contínuo, com
a mão
espalmada, deu um golpe certeiro, com a quina da mão, no pescoço da
ruiva,
que desabou no chão desmaiada.
Carla já havia chegado perto e
contemplava a loura
com asssombro e
admiração.Era
incrível que aquela garota de rosto angelical e bem menor que a
ruiva, a
havia dominado com tanta facilidade.
A loura recolheu a bolsa do chão e o
canivete. Endireitou o corpo e olhou
para
Carla com um sorriso cordial.
Carla olhou para os olhos verdes, o belo
sorriso de dentes
perfeitos, os
traços
delicados, os cabelos curtos e louros como trigo maduro. Aparentava ter
no máximo
uns vinte e dois anos. Era mais baixa
que ela própria
uns vinte
centímetros.
Mas a calça justa de malha negra e o top branco
não escondiam
que seu
corpo era forte,
com ombros, braços
e pernas com
musculatura
aparente
como os de uma ginasta: forte, mas com curvas bem femininas. E ela
podia não
ser alta, mas irradiava força e segurança com seu olhar direto.
-Precisamos achar um policial para
prender a ladra. Mas , eis a sua bolsa –
Disse,
com voz modulada, estendendo-lhe a bolsa.
Carla pegou a bolsa e sorriu para a
moça.
-Não sei como lhe agradecer. Foi a única
pessoa que se dispôs a ajudar-me.
-Não me custou nada. Já trabalhei como
segurança pessoal e até
gostava
de lidar
com esses tipos. Faz-me avaliar se estou bem em minha defesa pessoal.
Carla a fitou vivamente interessada.
-Trabalhou como
segurança pessoal ? Estou
precisando de um bom
segurança
! E
vi que você
sabe proteger alguém
muito bem ! O
que faz
atualmente
?
-Estou desempregada – Disse a
loura, olhando-a com
curiosidade – Está
falando sério ? Precisa de um segurança?
Dois homens se aproximaram e mostraram
as credenciais.
-Polícia – Anunciaram – O que
houve aqui ? Por
que essa mulher
foi
agredida por você ?
A loura os olhou com tranqüilidade.
-Essa
mulher roubou a
bolsa dessa senhorita.
Eu a vi
fugindo e a
interceptei. Ela reagiu e tive que aplicar um
golpe para dominá-la.
Carla se adiantou para os policiais.
-É verdade, senhores.
Ela empurrou-me e fugiu
com minha bolsa.
Essa
moça ajudou-me, dominando a fugitiva.
Um dos homens ergueu as sombrancelhas,
olhando –as.
-Tenho que ver seus documentos, para
anotar a ocorrência e autuar a ladra.
Carla e a loura entregaram os documentos
ao policial. Ele anotou os nomes
e
endereços e devolveu os documentos, olhando para Carla com ar admirado.
-É parente de Giancarlo Gianini ? –
Perguntou.
Carla ergueu o queixo, encarando-o.
-Sou esposa dele.
-Humm. Bem, estão liberadas. Vamos levar
a mulher para
a delegacia.
Poderão
registrar a queixa do assalto depois.
Carla olhou para a mulher desmaiada.
-Não vou registrar queixa. Ela é
apenas uma pobre
infeliz que precisa
ganhar dinheiro e escolheu a pior forma.
Já recuperei minha
bolsa, não vou
prolongar esse incidente. Acho que ela já foi
castigada, com a surra que levou.
-Bem... a senhora quem sabe.
De qualquer forma,
ela vai passar
pelo
menos um
dia no xadrez, até averiguarmos se ela tem ficha na polícia.
E eles pegaram a mulher pelos braços e
foram arrastando-a para um carro.
Carla fitou a loura, que continuava ao
seu lado, estendendo a mão com um
sorriso.
-Ainda não me apresentei. Meu nome é
Carla Gianini.
A loura retribuiu o aperto de mão,
sorrindo.
-E o meu é Helen Stanfield. Mas, estava
falando sério, quando disse que
precisava de um segurança ?
-Sim. E acho que você seria a
pessoa certa para
trabalhar para mim. É
corajosa,
sabe lutar, tem uma aparência agradável
e parece ser
educada, ao
contrário
dos brutamontes que trabalham para mim.
A loura fitou-a nos olhos, sorrindo.
-Acho que podemos chegar a um acordo,
quanto a isso.
-Pagarei o que quiser. Faça seu preço.
-Sou uma segurança classe A . Cobro
oitocentos dólares por
semana. Sei
lutar caratê, kickboxer, judô, atiro bem e farejo o
perigo no ar.
Carla tirou da bolsa um cartão e
estendeu para Helen.
-Procure-me amanhã, pela manhã.
Acertaremos tudo. Tenho que consultar
meu marido, mas por mim, o lugar é seu.
Helen guardou o cartão no bolso.
-Estarei em sua casa amanhã. Até lá,
senhora Gianini.
Carla ficou olhando Helen afastar-se com
passos largos. Era impressionante
a rapidez
com que ela conquistara sua
confiança. O olhar dela
era direto, o
sorriso
franco. E a ajudara sem ao
menos conhecê-la. Falaria com
Giancarlo.
Brigaria
se fosse preciso, mas teria Helen
trabalhando para ela.
Foi para a boutique com um sorriso nos
lábios.
***************
Jean, quem na verdade era a loura que se
indentificara com o
nome de
Helen, continuou andando. No estacionamento
próximo, pegou o seu carro
e
saiu
lentamente. Cinco ruas depois, estacionou perto de uma
esquina e ficou ali
tranqüilamente
esperando.
Sorriu, pensativa. O plano havia dado
certo além do que esperava. Pensara
apenas em
fazer amizade, mas recebera um
convite para trabalhar com ela !
Poderia
estar perto de Gianini, escolher a melhor hora para pegá-lo ! E além de
tudo,
Carla Gianini era uma belíssima
mulher e muito
simpática. Gostara de
conversar
com ela. Podia ser uma puta, mas
era fácil se lidar com
ela. Estava
com sorte
!
Um carro parou atrás do seu. Olhou
pelo retrovisor e saiu
de seu
carro,
dirigindo-se
para o outro sem pressa. Abriu
a porta dianteira
e sentou ao
lado de
Davison e voltou-se para trás. Melanie já havia retirado a peruca
ruiva
e
mostrava os verdadeiros cabelos castanhos lisos. Miles estava ao seu lado e a
fitava sorrindo.
-Como está, Melanie ? – Perguntou – Bati
com força ?
Melanie fez uma careta.
-Você exagerou um pouco, mas já me
recuperei. E então ?
Jean sorriu com ar vitorioso.
-Tudo foi melhor do que eu esperava. Carla
Gianini ficou muito grata pela
minha
intervenção e impressionada. Ela ofereceu-me o emprego de segurança
para ela.
Os homens riram e Melanie a fitou
admirada.
-Verdade ? Isso vai facilitar as coisas
para você, não?
Davison interveio:
-Jean, será mais fácil e perigoso. Se
Giancarlo Gianini ao menos suspeitar
de você,
estará perdida, e nós não poderemos ajudá-la. Recuse esse emprego.
Basta ser
amiga dessa mulher e colher informações sobre ele.
Jean o fitou com tranqüilidade.
-Obrigada pelo conselho, Davison,
mas vou
assumir o risco.
Eu estando
dentro da
casa de Gianini
será muito mais
fácil descobrir coisas
que o
incriminem.
-Concordo com Davison – Disse Miles –
Você pode perder a sua vida nessa
tentativa
louca. Estará na boca do lobo. Até eu pensaria
duas vezes antes
de
arriscar-me
assim.
Jean o fitou com teimosia.
-Estou consciente desse risco, Miles.
Mas vai valer à pena. Tenho motivos
que você não tem.
-Sei, sua vingança pessoal. Mas a
vingança pode nos
cegar, Jean. E nos
fazer esquecer de tomar certos cuidados.
-Maldição, Miles! Vou fazer o
que acho que devo fazer, e
ninguém vai
impedir-me!
– Disse, bruscamente.
Miles encolheu os ombros.
-A vida é sua . Bem, vamos ver se
Gianini concorda com
a mulher. Ele
mandará
investigar tudo sobre você, tenha certeza disso.
-Sei disso. E estarei preparada. Quero
que vocês me arrangem documentos
com
o nome de
Helen Stanfield, originária
de New Jersey,
documentos
comprovando que
trabalhei como segurança
em pelo menos
três firmas
conhecidas e uma carta de apresentação. Vou hospedar-me
ainda hoje em um
hotel
barato, dizendo que cheguei de New
Jersey há uma semana. Vou precisar
desses
documentos ainda hoje, à noite. Vou em casa apanhar
algumas roupas e
devo
encontrar-me com vocês dois no restaurante Benny, às oito da noite.
-E depois? Qual será o nosso trabalho ? – Perguntou Davison,
aborrecido
por fazer coisas sem importância.
-Vocês ficarão à espera de instruções
nas imediações da casa
de Gianini,
disfarçados
em empregados de consertos em ruas. Nos
comunicaremos através
de nossos
telefones celulares .
-Ok. Mais alguma coisa ?
-Não. Podem ir – Disse, olhando para
Melaine – Você virá comigo.
Ela e Melanie desceram do carro e
eles foram embora.
As duas foram
para o
carro da frente.
Entraram e Jean olhou para a outra, pensativamente.
-Davison e Miles não estão satisfeitos
em seguirem minhas ordens – Disse,
calmamente.
Melaine sorriu com desdém.
-Claro! Se julgam
bem melhores que nós.
Devem estar humilhados
por
receberem
ordens suas. Mas, o que vai
fazer, se for
contratada por Gianini?
E eu ?
Qual vai ser meu papel nessa estória toda ?
-O
que combinamos antes. Você vai ficar também na escuta, pronta para agir. Quando eu tiver Gianini nas mãos, eu ligarei
para você e direi que não estou me
sentindo muito bem e preciso dormir. Isso significará que vou sair com Gianini
prisioneiro e você deverá estar esperando-me na esquina próxima da casa dele.
Pararei meu carro ao lado dos seu e passarei com ele
para o seu carro. Caso isso não seja possível, se eu tiver que sair em fuga com
ele, você esperará os carros seguir-me e irá atrás, ajudando-me como puder.
-Hum!
Então pretende mesmo
levar seu plano
adiante, mesmo tendo
conhecido Carla Gianini?
Jean
a fitou irritada com a dúvida.
-Por
que acha isso ? – Perguntou, em tom duro.
-Bem,
ela é muito bonita... e você pode se deixar levar pela lábia dela...
-Não
comece, Melanie! Então, acha que um belo rosto vai amolecer-me ? Você não me
conhece mesmo! Mulher nenhuma me fará desistir de meus planos, muito menos a
mulher de Gianini !
-Tudo
bem, tudo bem ! Foi só um comentário !
Jean
sorriu duramente e seus olhos se estreitaram.
-Quando
eu pegar aquele desgraçado, vou sentir-me a mulher mais feliz do mundo ! Ah, como ele vai penar !
Agora, vamos até nossa casa. Tenho que pegar roupas e objetos de uso pessoal,
para hospedar-me em um hotel. E amanhã assumirei a identidade de Helen
Stanfield. Gianini jamais descobrirá o embuste, porque essa mulher realmente existiu. Ela
trabalhou como segurança e veio para Chicago, onde morreu assassinada em um
assalto.
Melanie
a fitou com admiração. Jean era um gênio!
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