A  MULHER  DO  CHEFÃO

 

  Leth Cross

 

Parte  1

 

CAPÍTULO 1

 

             Quando o corpo do inspetor York baixou sepultura, os companheiros que lhe foram prestar as últimas homenagens olharam para a filha dele e mais uma vez admiraram o seu autocontrole. Esperavam ver Jean York finalmente irromper em lágrimas, não suportando mais conservar a máscara de pedra com que assistia à cerimônia, mas ela continuou com o mesmo olhar fixo nos olhos verdes, sem mover um músculo do belo rosto.

 

        Eles sabiam que ela estava sofrendo profundamente a perda, sabiam que o inspetor York tinha adoração pela filha, que retribuía com grande afetuosidade. Ela havia entrado para a polícia de Chicago para seguir a mesma carreira do pai. E havia sido aprovada nos exames com nota máxima, sem favoritismo, e em pouco tempo havia se tornado uma das melhores agentes no combate ao crime organizado de Chicago, igual ao pai.

 

        O inspetor York havia sido brutalmente assassinado devido à sua determinação em combater a Máfia, que dominava o crime em Chicago. Em sua última missão conseguira desmantelar um importante grupo que traficava drogas, colocando vários traficantes na cadeia. E o chefão Giancarlo Gianini ficara furioso, prometendo vingar-se do inspetor. E uma semana depois dessa ameaça, o corpo do inspetor York foi encontrado na margem do lago Eire, amarrado, com sinais de tortura e tiros de grosso calibre.

 

        A polícia sabia perfeitamente que aquilo havia sido obra dos homens  de Giancarlo Gianini, mas não podiam fazer nada para levá-lo às barras dos tribunais. O chefão tinha um excelente álibi e conhecia muita gente influente, para poder ser preso sem provas concretas.

 

        Jean assistia o encerramento da cerimônia com o rosto impassível porque não tinha lágrimas para chorar. O ódio que sentia dominava todos os outros sentimentos. Somente um pensamento agora motivaria suas ações: vingar-se do gangster que havia ordenado o assassinato de seu pai.

 

        Ela sabia das ameaças que pairavam sobre seu pai e inúmeras vezes havia lhe pedido para afastar-se daquele caso, que ele se aposentasse, já que podia fazer isso. Mas seu pai sorria e dizia que ele era um osso duro de roer e ninguém conseguiria pegá-lo. Em seus trinta anos de polícia já se acostumara com ameaças de bandidos. Que eles não se atreveriam a tentar matá-lo.

 

        Mas dessa vez, ele havia se enganado.

 

        A cerimônia terminou e ela, depois dos cumprimentos dos colegas, voltou-se para se retirar. Tom Worth, seu parceiro de trabalho, se ofereceu para levá-la para casa. Ela recusou o oferecimento fitando-o com impassividade.

 

        -Não precisa, obrigada, Tom. Vim em meu carro e Mel está comigo.

 

        -Tem certeza que pode dirigir?

 

        -Absolutamente. Não se preocupe. Agora preciso ir, Tom. Bye.

 

        Ele encolheu os ombros, desajeitado. Como em todas as ocasiões como essa, as pessoas ficam sem saber o que dizer e ansiosas para tudo acabar, mas por formalidade oferecem seus préstimos, ficando aliviadas com uma recusa.

 

        -Até breve, Jean. Meus pêsames.

 

        Jean assentiu e se afastou com passos lentos para a saída. Uma chuva fina caía, tornando o dia mais triste ainda.

 

        Melanie a esperava dentro do carro, fumando nervosamente. Ela não quisera ir até a sepultura ver o enterro, alegando que se sentiria mal. Jean não insistira. Sabia que ela não gostava muito de seu pai. Não devia estar sentindo a morte dele.

 

        Ela a viu chegar e suspirou aliviada. Jean abriu a porta e entrou, sem olhá-la. Girou a ignição e o motor roncou, ao pisar no acelerador, dando partida, ansiosa para sair daquele lugar que só inspirava tristeza e saudade.

 

        -Como está, Jean? – Perguntou Melanie.

 

        Jean olhou para ela com olhar crítico.

 

        -Como espera que eu esteja? Que pergunta idiota!

 

        -Não precisa ser tão agressiva! Só estou preocupada com o que está sentindo!

 

        Jean olhou-a com a fisionomia fechada. Não estava disposta a discutir ou ter paciência com Melanie. Ela, em todas as situações, adorava fazer papel de vítima.

 

        -Não me encha a paciência, Melanie! – Disse, com voz seca – Acha pouco o que estou passando? Tenho todo o direito de ficar agressiva e de mau humor. Você não é nem um pouco compreensiva!

 

        -O que devo fazer? Ficar calada, igual à uma muda? Não sou culpada da morte de seu pai, para ficar agredindo-me!

 

        -Chega! – Gritou Jean, entredentes – Cale a boca e me deixe em paz! Ou então, suma de minha vista!

 

        Melanie fechou a cara e recolheu-se a um silêncio ressentido. Jean ultimamente estava se comportando de um jeito insuportável, nervosa e agressiva. Bem diferente de quando a conhecera.

 

        Há quanto tempo estavam juntas? Há mais de três anos eram amantes. E nesse tempo, notara em Jean uma transformação de mulher apaixonada em uma mulher indiferente e irritadiça.

 

        Reconhecia que a culpa era inteiramente sua. Tudo por causa de seu ciúme excessivo, sua possessividade extrema.

 

        Tentava se controlar, mas se pegava repetindo as mesmas falhas, ditadas pelo seu temperamento: reclamava quando ela lia, implicava com a mania dela ouvir música por horas à fio, desconfiava de todos que a cercavam, achando que Jean poderia traí-la a qualquer momento.

 

        Jean, normalmente bem humorada, às vezes explodia e gritava que não agüentava mais aquilo. Não podia levar em casa um amigo, nem visitar ninguém, isolando-se por causa dela. Não agüentava as cobranças de atenção, não podia dedicar-se a nada que gostava. Ela a sufocava com seu ciúme doentio e possessividade.

 

        E agora, sentia uma satisfação secreta por saber que Jean ficara só. Tinha ciúmes do amor que ela dedicava ao pai, odiava quando ela ia religiosamente aos domingos jantar com ele. Nunca Jean a deixava ir junto, alegava que aquela noite era somente dela e de seu pai, para conversarem. Agora, aqueles jantares heviam acabado.

 

        Havia conhecido Jean durante as provas para agente da polícia. Olhara para aquela moça de rosto angelical e corpo atlético, de cabelos louros e dona   de incríveis olhos verdes e se apaixonara fulminantemente. Aproximou-se dela com  o pretexto de que precisava de ajuda em alguns exercícios e Jean lhe sorrira com simpatia, prometendo treinar com ela. Tornaram-se inseparáveis nos treinos e quando passaram nas provas, convidou-a para comemorar em sua casa. Começariam a trabalhar na semana seguinte.

 

        Ela havia criado um clima romântico para o jantar comemorativo. Luz de velas, vinho, música suave. Fizera um assado caprichado e se insinuara com olhares, uma conversa sobre sexo, contando suas experiências, que deixara Jean excitada. E quando a beijou inesperadamente no sofá, Jean a olhara vencida pelo seu charme, sua beleza, sua sexualidade à flor da pele. Confessara que também se sentia atraída por ela e a apertara nos braços com emoção.

 

        Melanie a levou para o quarto e a bela Jean não havia resistido. Foi uma noite de sexo louco, na qual a conquistou definitivamente. Jean confessou que já havia tido experiências anteriores, mas nunca conhecera uma mulher com tais requintes sexuais. Estava totalmente apaixonada e em um mês se mudou para casa de Melanie, inventando para o pai que ficava muito só quando ele trabalhava à noite. Ela e Melanie formavam uma dupla policial e tinham os mesmos dias de folga. Se o inspetor York desconfiou do que havia entre elas, nunca demonstrou. Aceitou a explicação, mas Melaine notou que  desde esse dia, ele começou a tratá-la com frieza. Não falou nada para Jean, porque sabia que ela iria defender o pai e achar que ela estava implicando com ele.

 

        -Melaine, chegamos! Não vai sair do carro?

 

        A voz impaciente de Jean a trouxe ao presente. Olhou-a e a viu já com a mão na tranca da porta do carro, prestes a descer.

 

        -Oh, estava distraída! – Respondeu, abrindo a porta e descendo do carro.

 

        Jean saiu e bateu a porta, olhando-a impaciente.

 

        -Se não se apressar, vamos nos encharcar nessa chuva.

 

        Melanie bateu a porta do carro e a encarou com raiva.

 

        -Não vou suportar seu mau humor, Jean ! Será que só sabe falar comigo com brusquidão?

 

        -Não seja sensível, Mel – disse Jean, subindo os degraus do prédio, que a levavam à entrada – Quem deveria ficar assim seria eu.

 

        Melanie a seguiu com ar contrariado.

 

        Subiram os lances de escada até o segundo andar. Jean abriu a porta e entraram. O apartamento era pequeno, mas confortável. Melanie tinha bom gosto para decoração.

 

        Jean tirou a capa e pendurou-a no cabide da entrada, uma pequena saleta que introduzia à sala de estar. Passou para a sala em passos largos e foi até a estante, apanhando um copo e a garrafa de uísque. Colocou três dedos e tomou a bebida em dois goles.

 

        Melanie sentou no sofá e esfregou as mãos.

 

        -Que frio! Dê-me um pouco de uísque.

 

        Jean tornou a colocar bebida no copo e estendeu para ela.    Sentou ao lado e olhou-a séria.

 

        -Mel, você gosta realmente de mim?

 

        Melanie a fitou surpresa.

 

        -Claro que sim! Por que essa pregunta?

 

        -Quero saber se está solidária comigo em minha perda.

 

        -Na morte de seu pai ? Claro, Jean ! Sinto tanto quanto você. Seu pai era um bom homem.

 

        Jean sorriu amargamente.

 

        -Não precisa exagerar. Mas acredito que esteja solidária ao meu sofrimento e revolta. Meu pai foi assassinado covardemente, brutalmente.

 

        -Sei disso e estou também revoltada, Jean. Não conhecia bem seu pai, mas acho que ele não merecia esse fim.

 

        -Eu vou punir o assassino, Mel. E quero sua ajuda para isso. Concorda ?

 

        Melanie a fitou intrigada. Os olhos de Jean brilhavam com a determinação fria.

 

        -O que pensa fazer ? Giancarlo Gianini está fora do alcance da justiça. Ele foi esperto e não há provas contra ele.

 

        Jean ergueu-se e a fitou revoltada.

 

        -Provas ! Não preciso delas para saber que ele foi o mandante do crime ! Eu vou fazer a minha justiça, Mel. Com ou sem a sua ajuda.

 

        -Não me recusei a ajudá-la! Mas gostaria de saber o que pretende fazer.

 

        Jean a  encarou.

 

        -Raptá-lo e executá-lo, depois que obtiver uma confissão completa dele sobre os seus crimes e as ligações que tem com outros criminosos. Só assim me sentirei em paz.

 

        -Jean, está louca? Somos apenas duas mulheres e ele é um chefão da Máfia! Anda sempre com vários seguranças armados até os dentes! Como pensa em pegá-lo?

 

        Jean sorriu, um sorriso frio.

 

        -Todo mundo tem um ponto vulnerável, Mel. E Giancarlo Gianini deve ter o seu. É só descobrir que ponto é esse.

 

        -E como vai descobrir isso?

 

        -Investigando. Por enquanto, só sei que ele é o chefão da Máfia em Chicago, que comanda as zonas do crime e mandou assassinar meu pai por vingança. Tenho que saber tudo dele. A sua vida pessoal, onde reside, quem o cerca. E com todos os dados, descobrir o ponto vulnerável dele e armar uma armadilha.

 

        Melanie sacudiu a cabeça, receosa.

 

        -Jean, quer ter o mesmo fim de seu pai? Está querendo se meter com um homem perigosíssimo, que não tem piedade com seus inimigos.

 

        Jean a olhou com frieza.

 

        -Está com medo de ajudar-me? Não tem importância. Vou conseguir isso sozinha. Pode ficar aí se encolhendo de medo!

 

        Melanie ergueu-se irritada com o comentário.

 

        -Eu não me neguei a ajudá-la! Só estava tentando colocar um pouco de bom senso em sua cabeça, mas vejo que é inútil! Você está dominada pelo ódio  e sei que não vai desistir dessa idéia louca. Muito bem, vou ajudá-la no que puder. Não quero que pense que sou covarde.

 

        Jean sorriu, olhando-a com gratidão.

 

        -Eu sabia que podia contar com você, Mel. Obrigada.

 

        -Tem um plano em mente?

 

        -A única coisa já decidida é o local para onde pretendo levá-lo. Lembra daquela cabana que meu pai usava para pescar, em Milwalkee, à beira do lago Michigan? É lá que vou aprisionar Gianini, até obter a confissão dele e executá-lo.

 

        Melanie franziu o cenho.

 

        -Aquela cabana abandonada? Ela não serve para prender uma pessoa igual a Gianini, Jean! Ele fugiria facilmente!

 

        -Não se fizermos algumas pequenas modificações: vedar as janelas com táboas, colocar um cadeado na porta do quarto e alarme. A casa é ideal, porque é afastada e ninguém ouvira os gritos de Gianini ou tiros.

 

        -Bem, com essas modificações, servirá para um cárcere. Mas não poderá mantê-lo lá muito tempo. Os capangas dele o procurarão em todos os lugares e poderão encontrá-lo.

 

        -Dois dias, Mel. Em dois dias, ele não resistirá ao tratamento que pretendo dar à ele. Vomitará tudo que sabe.

 

        Melanie a olhou com ar decidido.

 

        -Muito bem, vamos então providenciar essas coisas na casa. E depois pensaremos como pegá-lo.

 

-Vamos fazer uma lista de materiais. Vamos levar mantimentos, toalhas  de

banho, cobertores e  principalmente, munição  para uma  emergência. Barris de pólvora, rastilhos, dinamite, dois fuzis e munição para eles.

 

        Melanie a fitou admirada.

 

        -Meu Deus! Vai travar uma batalha? Para que tudo isso ?

 

        Jean sorriu friamente.

 

        -Se outros ratos forem atraídos para a  armadilha, quero  recebê-los  como

merecem. Vamos fazer a lista. Amanhã iremos  comprar tudo  e  ir    na  casa

fazer o trabalho inicial.

 

        Sentaram-se  e  começaram  a anotar  em uma  folha  a  lista de material.

Ficaram  horas  discutindo  detalhes e Melanie  olhava  para companheira  com admiração pela sagacidade dela em pensar em tudo.

 

***************

 

        No dia seguinte, bem cedo, foram  comprar  os  materiais  e  mantimentos.

Escolheram um outro bairro para as  compras,  onde  ninguém  as  conhecia. Na

casa de armas e munições, Jean  mostrou  seu  distintivo  de  policial  e  o  dono

sorriu, comentando:

 

        -Caramba!  Vão acabar  com um exército  de  criminosos?  Dois  fuzis  com

alto alto poder de fogo, dinamite, pólvora, munição!

 

        Jean sorriu friamente.

 

        -Não, só vou caçar ratos.

 

        -Ratos?!

 

        -Sim. O senhor não imagina como há ratos em Chicago!

 

        Ele balançou a cabeça, incrédulo.

 

Com   tudo  da  lista,  ela  e  Melanie  rumaram  para  Milwalkee.  Quando

chegaram,   Jean  descarregou  tudo  e  Melanie  guardou  a  munição  em um 

armário  na  cozinha.  Jean  serrou  as   táboas  e   as   colocou    nas   janelas,

pregadas com  pregos  reforçados. Instalou o  cadeado  pelo  lado  de  fora  da

porta do quarto e instalou um alarme. Caso Gianini  tentasse  forçar  a  porta, o

alarme  dispararia.  Tirou  todos os  objetos  do quarto, com exceção  da  cama.

Gianini não teria  nada  para  tentar  arrombar  a janela.

 

Melanie  veio  ao  seu  encontro  e  olhou sua obra, com olhar crítico.

 

-É,  Gianini    poderá  escapar  daqui se puder transformar-se no Hulk!

Comentou, sorrindo.

 

        Jean a olhou, sorrindo.

 

        -Já guardou tudo?

 

        -Sim. Tudo onde mandou.

 

        -Então, podemos ir. Já  testei  tudo. A  janela, a  porta  com  cadeado  e o

alarme. A ratoeira está pronta para receber aquele canalha.

 

        -É, a parte mais fácil já foi feita.

 

        -Vamos embora. Hoje mesmo  vou passar  na  polícia e  pedir o  dossiê  de

Gianini para ver.

 

        Recolheram as ferramentas, fecharam a casa e foram embora.

 

        Á noite, Jean foi ao setor de arquivos e  pediu  a  pasta  com  o  dossiê  de

Giancarlo Gianini ao arquivista. Ele a olhou com certo constrangimento.

 

        -Desculpe, Jean, mas  não  posso  atendê-la.  Os  dossiês  não  podem  ser

retirados sem ordem do chefe.

 

        Jean olhou-o decepcionada.

 

        -Que droga! Onde posso obter alguma informação desse homem?

 

        -Danny, que opera o computador. Você pode dar uma olhada no programa

dele,  se  ele deixar.  Tem  todas  as  fichas   dos   criminosos  e   suspeitos  de

crimes de Chicago.

 

        Jean  foi  procurar  Danny,  um  rapaz  magro  e  com  o  rosto  cheio   de

espinhas. Talvez, tivesse chance com ele. Já  havia  notado  que   ele sempre  a

olhava com visível admiração.

 

        Entrou na sala de computação e Danny a olhou com aquela  cara  de  lobo

em pele de  cordeiro.  Ficou  vermelho  quando  ela  debruçou  na  mesa  dele,

apoiando as mãos.

 

        -Olá, Danny – Disse Jean, dando seu melhor sorriso.

 

        -Olá, Jean... – Respondeu ele, quase engasgando.

 

        -Danny, preciso de um favor seu.

 

        Ele sorriu como se tivesse recebido um convite para ir para a cama com ela.

 

        -Um favor? Pois não, Jean! É só pedir !

 

-Preciso ter acesso à ficha de Giancarlo Gianini. Pode fazer isso por mim ?

 

        O sorriso dele morreu.

 

        -Oh... isso é irregular... para ter acesso a esses dados, tem...

 

        -Já  sei... –  disse  Jean,  suspirando – seu  chefe  tem  de   autorizar. Mas,

Danny... deixe de lado essa formalidade, só essa vez, por mim...

 

        Ela agora falava com ele bem perto, olhando-o nos olhos. Danny ficou mais vermelho   e capitulou:

 

        -Está bem, mas seja rápida... se meu chefe ver, vou levar uma suspensão.

 

        Jean sorriu para ele docemente.

 

        -Você é um rapaz muito gentil, Danny. Não vou me esquecer desse favor.

 

        Ele digitou um código e clicou  no  ícone  ”abrir arquivo”  e  em  seguida 

digitou  o  nome  de Giancarlo Gianini. O rosto dele apareceu na tela.

 

        Danny clicou sobre a foto  e  os   dados  de  Giancarlo Gianini  começaram   a

A encher a tela:

 

NOME: GIANINI, GIANCARLO.

IDADE: 45 ANOS, NASCIDO EM 5/NOVEMBRO/1949

NACIONALIDADE: AMERICANO, DE ORIGEM ITALIANA

LOCAL DE NASCIMENTO:  LITTLE ITALY, NOVA IORQUE .

PROFISSÃO: EMPRESÁRIO

ESTADO CIVIL: CASADO

FILHOS: NÃO TEM

ENDEREÇO: MASTERSON AVENUE, 2544

 

        Jean anotou o endereço e olhou para Danny.

 

        -Danny, existe dados da família dele?

 

        Danny assentiu:

 

        - Sim, quer verificar isso?

 

        -Sim , por favor.

 

        Danny sorriu, surpreso.

 

        -Engraçado... pensei  que   estivesse mais  interessada  na  ficha  criminal 

dele.Temos todos os  negócios  escusos   dele   em  uma   lista. É  só clicar em  

Atividades Criminais.

 

        -Isso estou cansada de saber.

 

        Danny digitou Vida Familiar e na tela  apareceu  o  rosto  de  uma  mulher

belíssima. Cabelos negros caindo  pelos  ombros  em  ondas  reluzentes,  olhos

azuis, grandes e  expressivos,  nariz  reto, encimando  uma  boca  sensual,  de

lábios polpudos e  vermelhos, maçãs do rosto altas, o  queixo  forte e   angular,

tudo formando um conjunto de exótica beleza.

 

        Jean a fitou, impressionada. E  lamentando  que  uma  mulher  tão  bonita

 fosse de um canalha como  Gianini. Aqueles olhos prendiam, fascinavam.  

 

 

        -Mostre a ficha dela, Danny.

 

        Danny clicou na foto e a ficha da mulher de  Gianini apareceu na tela:

 

NOME: GIANINI,CARLA.

IDADE: 28 ANOS, NASCIDA EM 10/DEZEMBRO/1966

LOCAL DE NASCIMENTO: ILLINOIS, CHICAGO

PROFISSÃO: SECRETÁRIA

ESTADO CIVIL: CASADA

FILHOS: NÃO TEM

ENDEREÇO: MASTERSON AVENUE, 2544

 

        Jean olhou para Danny, que aguardava.

 

        -Só tem essas informações sobre ela ?

 

        Danny a fitou.

 

        -Só. A mulher do criminoso não é muito importante  para a  polícia. A

lista criminal, sim.

 

        Jean gravou na mente aquele rosto e nome. Era por  ela  que  iria começar.

 

        -Obrigado então, Danny. Qualquer dia desses  trarei  um  presentinho para

você, pelo favor que me fez.

 

        Ele abriu um sorriso de orelha a orelha.

 

        -Foi um prazer, Jean! Não precisa de presente nenhum!

 

        -Tchau, garoto – Disse, afastando-se.

 

        Serviu-se de café na máquina no  corredor  e  foi  para  sua  sala.  Melanie

a  olhou  com   cumpricidade,  quando   entrou.  Jean  olhou  em  volta,  vendo

que  não   prestavam   atenção   à   ela  e  debruçou-se  na  mesa  de  Melaine,

apoiando as mãos.

 

        -Consegui – sussurou – Vamos sair.

 

        Melanie ergueu-se e olhou para Miles e Davison, dizendo:

 

        -Eu e Jean vamos sair. Voltaremos à tarde.

 

        Davison sorriu para Melanie.

 

        -Isso,  distraia   um  pouco  a   cabeça  de  Jean.  Ela  está  muito  abatida

com o que aconteceu.

 

        Elas saíram. No carro, Melanie a olhou ansiosa.

 

        -E então, Jean ? O que conseguiu?

 

        Jean a olhou sorrindo.

 

        -O endereço do patife e o nome  da  mulher  dele.  Ela  pode  ser o  ponto

 fraco que desejávamos. É por ela que vou começar.

 

        -O que pretende fazer?

 

        -Primeiro, estudar  os  hábitos  dela.  E  depois,  tentar  fazer  contato.  Ela

 poderá revelar alguma particularidade do marido que nos ajudará a pegá-lo.

 

        Melanie a fitou preocupada.

 

        -Espero que saiba onde  está  se  metendo,  Jean.  Essa  mulher  deve  ser

 perigosa.

 

        Jean fez uma expressão de desprezo.

 

        -Que nada! Deve ser uma puta de luxo! Quem  é  mulher  de  um  homem

como ele, só  deve  viver  fazendo   compras  e  satisfazendo  na  cama  aquele

filho da puta!

 

        Melanie a olhou rindo.

 

        -Puxa! Até a mulher de Gianini não escapa de sua raiva!

 

        Jean  apertou  os  lábios.  Era   isso   mesmo.  Tudo  que  dizia  respeito  à

 Gianini  lhe  causava  raiva.  E  a  mulher  dele,  que  ia   para  a   cama   com

 aquele desgraçado, era outro alvo de sua raiva. Raiva, não. Ódio!

 

 

CAPÍTULO  2

 

Carla Gianini colocou a pulseira de brilhantes  que  Giancarlo  lhe  dera  de

presente de aniversário no pulso e girou-o,  observando  o  efeito  das  luzes  na

jóia. Os diamantes incrustados na platina brilharam, lançando faíscas cintilantes.

 

        Ela fez uma expressão de enfado  e  retirou  a  jóia  do  pulso,  tornando  a

guardá-la  no  estojo  de  veludo  negro.  Aquela  pulseira,  como  tantas  outras

jóias que possuía, era como ela: bela, despertando  cobiças,  mas    podia  ser

admirada  por  poucas  pessoas  em  raras  ocasiões,  tornando  a  ser   fechada

em um cofre, longe de todos.

 

        Aquela  casa  era  o  seu  cofre.  E  sabia  que  era  bela,  o  espelho  e  os

 homens lhe haviam dado  essa  certeza.  Mas  sua  vida,  ali  trancada  naquela

 mansão enorme, era triste e solitária.

 

        Giancarlo  a  deixava  ir  ao  cabelereiro  e  fazer  compras,  mas sempre

acompanhada de dois seguranças, dois brutamontes que a faziam ficar nervosa

e irritada. Raramente recebiam convidados, mas mesmo nessas ocasiões, pouco

se divertia. Os convidados eram homens mal encarados, ou então já casados, acompanhados pelas esposas que a olhavam com inveja.

 

        Aos vinte e oito anos, sentia-se deprimida e  insatisfeita  com  a  vida  que

levava. Era como uma ave presa  em  uma  gaiola  dourada. Podia ter tudo  de

material que desejasse, menos sua liberdade.  Giancarlo  dizia  que  não  podia

expô-la porque era  a  mulher  de  um  chefão, que  possuia  muitos  inimigos.

Poderiam tentar atingí-lo através dela.

 

        Mas Carla sabia que esse não era o principal motivo. O motivo maior era o

ciúme de Giancarlo. Certa vez, quando fora com ele a um cassino em Las Vegas,

um homem a  ficara  olhando  com  admiração  por  uns  momentos.  Giancarlo

notara e mandara o seu  capanga  retirar  o  homem  do  local  e  depois  Carla

soubera que o capanga dera uma surra em seu pobre admirador.

 

        Ah, se não tivesse sido ambiciosa ! Estaria ainda trabalhando duro em um escritório como secretária, mas com liberdade para fazer as coisas que gostava.

Ir ao cinema, dançar, jantar em simpáticos restaurantes, ter a companhia dos

amigos, fazer ginastica numa academia noturna...

 

        Mas havia conhecido Giancarlo em um bar noturno, onde fora com amigos,

e ele a convidara para dançar e a  deslumbrara  ao  pagar  a  conta  de  todos,

depois demandar servir champanhe à vontade  ao  grupo. Havia  se  despedido

dela beijando-a galantemente na mão e lhe pedira o telefone.

 

        No primeiro encontro, ele a veio buscar numa limousine negra e levou-a ao

melhor restaurante de Chicago, onde o  maitre  e  os  garçons  o  cercaram  de

atenção, mostrando como ele  era  importante. E  vieram  depois  as  flores,  os

presentes caros, o alto estilo de  vida. Não  pensou  duas  vezes  quando  ele  a

pediu em casamento, duas semanas depois. Giancarlo era um homem  atraente,

rico e a tratava como uma rainha. O que podia querer mais ?

 

        Agora, sabia. Sua liberdade para fazer o que gostava, um homem que  lhe

desse mais atenção. Logo depois  do  casamento,  ele  começou  a  deixá-la  de

lado. E  raramente  dormia  em  casa. Quando  Carla  se  queixou, ele  a  havia

olhado friamente e dissera:

 

        -Você tem tudo que quer. Era uma mulher pobre, sem ter onde cair morta,

 e eu casei-me com você. Escute, você é  muito  bela,  minha  querida. É  muito

 bom trepar com você. Mas, por mais bela que seja, não  espere  que  eu  deixe

meus negócios de lado por sua causa. Nenhuma  mulher  vale isso. Vai ter  que

acostumar-se à  essa  vida  e  ser  grata  por  eu  tê-la  escolhido  entre  tantas

mulheres que me desejavam.

 

        Carla o olhara  chocada  com  aquelas  palavras. Ele  a  humilhara,  estava

dizendo que ela era inferior à ele e devia ser agradecida por ter sido escolhida !

 

        Saíra  do  escritório   dele  arrasada. E  não  se queixara  mais,  para  não

ouvir novamente aquelas palavras.

 

        Giancarlo  continuara  com  sua  vida  agitada,  viajando   muito  e   pouco

Parando  em  casa.  Quando  a   procurava   para  fazer  amor, era  agora  sem

muitos preâmbulos,  sem  nenhum  romantismo,  um   ato  que   deixava  Carla

deprimida,  sentindo-se  um  mero  objeto  de  prazer.  Ela  sentia   que  ele   a

cobiçara e a tomara para mulher como um belo troféu  ao qual se deseja  e   se

esforça para conquistar e depois esquece numa prateleira, só para exibir.

 

        Não era essa a vida que desejava. Há dois anos estava  casada  e  sua  vida

transcorria assim. A monotonia a fazia ficar  deprimida,  desanimada, infeliz. 

insinuara a Giancarlo a hipótese de um divórcio entre  eles.  Giancarlo  a  olhara

com frieza e dissera, enfático:

 

        -Um homem como eu não se divorcia. Não vou dar parte de minha  fortuna

por uma sentença que um juiz filho  da  puta  proferir. E  nem pagar  pensão  a

uma mulher para que viva o  resto da  vida às  minhas  custas,  enquanto    a

outros homens. Eu só admito a hipótese de ficar viúvo, entendeu, minha querida?

 

        Carla  o  ouviu  amedrontada,  sentindo  a  ameaça  daquelas  palavras.  E

entendeu que o divórcio era uma coisa  impossível de pretender dele, a não  ser

que não se importasse em ser assassinada por ele.

 

        Sabia que ele seria capaz disso, ao ver os olhos frios com  que  ele a  fitara.

Sabia que o marido tinha contato com o mundo do crime, percebera isso com  o

passar do  tempo,  depois   que   se   casara.  Muitos  homens  conhecidamente

mafiosos frequentavam as festas na casa, ficando na maioria das vezes trancados

no escritório de Giancarlo em misteriosas conversas.

 

        Mas  nunca  quis   se  envolver  com isso. No início,  considerava  o  marido

apenas um homem que  não tinha  muitos  escrúpulos   na  forma   de   ganhar

dinheiro. Mas agora sabia que ele era capaz de muito  mais: não  teria  também

escrúpulos em mandar liquidar quem se interpusesse em seu caminho.

 

        Isso lhe causara medo e repugnância pelo marido. Era uma  tortura  agora

submeter-se à posse dele, quando a  procurava,  felizmente  muito   raramente.

Suspeitava que não era a única mulher na vida dele. Giancarlo ia muito aos seus

cassinos e lá o que mais havia eram mulheres ansiosas  e  disponíveis  para  um

homem atraente e  rico. Pois  que  tivesse  quantas  quisesse ! Até  gostaria  de

saber disso. Pelo menos, ele não a procurava muito para seus impulsos sexuais.

 

        Ela saiu de seus pertubadores pensamentos  e  olhou  para  o   relógio  na

parede.   Apertou  os  lábios  e  pegou  o  interfone,  apertando   um  número.

Atenderam  e  ela falou com  certa  impaciência:

 

        -Gino, o carro já está pronto ?

 

        Uma voz com forte sotaque italiano respondeu, neutra:

 

        -Si, signora Gianini. . Está diante da porta principal. Eu estava  esperando

Francesco e Luigi tomarem seus postos, para avisá-la.

 

        Carla fez uma expressão contrariada.

 

        -Aqueles  dois  brutamontes vão acompanhar-me  outra vez ? Ah, não! Não

agüento mais olhar para aquelas caras com cicatrizes ! Frank não está aí ?

 

        -Não, signora. Ele acompanhou o signore Gianini ontem e ainda não voltou.

 

        -Droga! Frank pelo menos é mais educado e  não  tem  jeito  de  gangster !

Ouça, essa é a  última vez que vou  admitir  sair  com  esses  brutamontes como

seguranças ! Quero que arrume  outros  mais  apresentáveis  para mim !  Tenho

até vergonha de andar com uns tipos como esses dois !

 

        A voz respondeu impassível:

 

        -Teremos que consultar o signore Gianini, signora.

 

        Carla bateu o interfone com raiva. Ela , a mulher  do patrão, tinha  de  ter

 direito de escolher os seus empregados ! Ia  exigir  isso  de  Giancarlo,  mesmo

que ele não gostasse ! Se não podia pedir o  divórcio,  então  queria  ao  menos

cercar-se de  pessoas  agradáveis  em  sua  prisão dourada ! Disso  não  abriria

mão, estava cansada de ser passiva em tudo.

 

        Saiu do quarto e desceu as escadas. Gino, o mordomo, a  olhou  com  sua

cara de múmia. Ela passou por ele como se o  homem  não  existisse, ou  fosse

transparente. Detestava-o . Sabia que ele tomava conta de tudo, para levar aos

ouvidos do marido. Era um antipático e fofoqueiro.

 

        Entrou no carro que a esperava na porta e deu uma ordem seca  aos  dois

brutamontes que estavam nos bancos dianteiros:

 

        -Para meu cabelereiro.

 

        Os dois homens  nem  olharam   para trás.  O  carro  saiu, percorrendo  a

alameda que levava à um portão  de  aço,  onde  havia  uma  guarita  com  um

segurança. Ele  abriu o  portão,  olhando  para Carla com  olhar  atrevido,  e  o

carro saiu para a rua.

 

        Há duzentos metros atrás, Jean e Melanie viram o carro sair. Estavam atrás

de um carro estacionado e Jean ligou o motor,  manobrando  com  habilidade e

saindo para seguir o outro carro.

 

        -Viu, fomos recompensadas pela nossa paciência – Disse Jean, sorrindo.

 

        Melanie a fitou.

 

        -Espero que eles não percebam que os estamos seguindo.

 

        -Não perceberão. A estrada é movimentada.

 

        O carro da frente passou quatro quarteirões e entrou em uma rua elegante

de Chicago. Parou diante de uma  loja  sofisticada.  Carla  desceu  do  carro  e

entrou na loja.

 

        Jean seguiu em frente e parou bem adiante, encostando no meio-fio. Olhou

pelo espelho retrovisor. Os seguranças aguardavam no carro.

 

        Jean olhou para Melanie.

 

        -Que tal ir até lá e ver  se apura alguma coisa ?

 

        Melanie a olhou suspirando. Saiu do  carro  e  dirigiu-se  para  a  loja  sem

 pressa.

 

        Entrou, depois de disfarçar  olhando  a  vitrine.  Era  um  salão  de  beleza

luxuoso, com uma recepcionista uniformizada que a olhou com um sorriso polido.

 

        -Em que podemos serví-la, senhorita ?

 

        Melanie olhou em volta. Carla Gianini acabava de sentar em  uma  cadeira,

para lavagem do cabelo. O salão era separado da recepção por  um  divisão  de

vidro  fumê. Na  vitrine  do  salão  haviam   vários  produtos  de  beleza,  como

shampoos, cremes, gel,  batons, pó compacto e perfumes, todos  franceses. Ela

tornou a olhar para a moça, que aguardava com um sorriso estático.

 

        -Gostaria de uma lavagem nos cabelos.

 

        -Tem hora marcada, senhorita ?

 

        -Bem... não. Sou turista. Ia passando  e  achei  o  salão  atraente,  imagino

 que fazem um bom trabalho.

 

        A moça sorriu cordialmente.

 

        -Geralmente  atendemos  com  hora  marcada,  mas  posso  dar  um  jeito.

Espere aqui, por favor.

 

        Ela entrou na outra parte e falou com um homem  alto  e  magro, vestido

Com  roupas  esportivas  elegantes.  Ele  olhou  para  Melanie,  avaliando-a , e

assentiu. A moça voltou e abriu-lhe a porta de vidro, dizendo:

 

        -Mr. Renaud vai atendê-la, mas não pessoalmente,  senhorita.  A freguesa

 que chegou antes da senhorita tem hora marcada e todas  as  segundas-feiras

 esse horário  é dela.

 

        Melanie quase abraçou a recepcionista pela informação.

 

        Mas apenas sorriu, agradecendo:

 

        -Não tem importância. Sei que serei bem atendida por outra pessoa.

 

        -Queria entrar, senhorita.

 

        Melanie   entrou   e  uma   mulher   uniformizada   a   recebeu   sorrindo

educadamente.

 

        -Bom dia, senhorita. Espero que não  se  importe  que  seja  eu  quem  vai

 atendê-la. Mr. Renaud está ocupado.

 

        Melanie sorriu para a mulher.

 

        -Não , absolutamente. Confio em suas mãos.

 

        -Obrigada. Queira sentar na cadeira, senhorita – Disse a mulher, indicando

a cadeira ao lado de Carla Gianini.

 

        Melanie sentou, procurando não olhar para Carla pelo espelho diante delas.

Mas ficou atenta à conversa dela com o cabelereiro, que colocara  a  cabeça  de

Carla inclinada para trás  em  um  escorredor  de   água  próprio,  ligando  uma

pequena ducha. A mulher  fez  o  mesmo  com Melanie, depois de  colocar  uma

toalha sobre os ombros dela.

 

        -Carla – Dizia ele, com forte sotaque francês – Seus  cabelos  são  perfeitos.

 Mas não quer mudar de shampoo ?  Tenho  um  lançamento    que  é   muito

bom. De Yves Saint-Laurent.

 

        -É de acordo com meus cabelos ?

 

        -Sim, para cabelos normais.

 

        -Está bem. Pode usá-lo.

 

        -Seu marido vai adorar o perfume do shampoo.

 

        Carla suspirou audivelmente.

 

        -Não sei se ele vai notar – Disse, com amargura.

 

        -Ora, Carla ! Não seja modesta ! Uma mulher bela como você, dizer isso !

 

        -Ele não vai notar, Renaud. E  eu não me importo com isso. Mas, mudando

de assunto, fui àquela boutique  que  você   recomendou-me.  Realmente,  tem

roupas lindas.

 

        -Ah, sim ? E como se sentiu, nelas? Maravilhosa, aposto !

 

        -Ainda não as peguei. Comprei umas peças,  mas  algumas  tive  de  deixar

para pegar depois, para os ajustes. Vou buscá-las amanhã.

 

        -Ah, você vai ficar muito linda com as roupas  da  Dolce  Y  Gabana!  Elas

 fazem o seu estilo !

 

        -Obrigada, Renaud. Você é muito gentil.

 

        A conversa prosseguiu, mas Carla não falou mais  nada  que   interessasse

 Melanie. Uma hora depois  ela  saiu,  com  os  cabelos  lavados  e   penteados.

 Dirigiu-se para o carro de Jean, que a olhou com um sorriso divertido.

 

        -Uau ! Você ficou chique, com esse penteado !

 

        Melanie sentou do lado dela, fazendo uma careta.

 

        -Chique, não é ? Pois saiba que por  esse  penteado  tive de   desembolsar

 cem dólares !

 

        Jean deu a partida no carro, olhando-a expectante.

 

        -A mulher de Gianini saiu na sua frente. E então ?

 

        Melanie a fitou sorrindo.

 

        -Valeu à pena o que paguei, Jean ! Descobri que ela  frequenta esse  salão

 todas as segundas, à mesma hora de hoje. E que  amanhã vai sair  novamente,

 para pegar umas roupas que comprou na boutique Dolce Y Gabana.

 

        Jean sorriu, eufórica.

 

        -Você é demais, Melanie ! Essas informações são preciosíssimas !Poderemos

montar um plano para  eu aproximar-me dela.

 

        -Outra coisa. Parece que Gianini não tem um bom relacionamento com ela.

 

        Jean a olhou interessada.

 

        -Por que acha isso ?

 

        Melanie contou  o  diálogo  de  Carla  com  o  cabelereiro.  Jean  a  olhou

pensativa.

 

        -Então, ela disse que ele não  iria  notar o  novo  perfume   do   shampoo 

e que ela  não se importava com isso... é, parece que ele não  liga  muito  para

ela... e isso não a atinge. Ótimo ! Mais um  dado  à  nosso  favor. Uma  mulher

desprezada é um inimigo em potencial. Pode até querer vingar-se  dele, se  for

traída.

 

        -Puxa, Jean ! Você pensa em tudo ! Teria medo de ser sua inimiga !

 

        Jean sorriu, aumentando a velocidade do carro.

 

 

 

CAPÍTULO   3

 

 

        Jean sentou-se na grande mesa de  reunião,  encabeçada  pelo seu  chefe

Steve Spader. Era um  homem  gordo  e  de  sorriso  bonachão,  mas por  trás

daquela aparência  inofensiva,  sabia  esconder  um  homem  inteligente,  ágil

e duro. Dizia que seu sonho era acabar com  o  crime  organizado e  para  isso

vivia, mesmo sabendo ser um sonho impossível.

 

        Jean  o entendia. Os tentáculos da  Máfia  ou  Cosa  Nostra,  quando  eram  

Cortados, se reproduziam no mesmo  número, só  que  com  pessoas  diferentes.

Era  uma  ramificação  criminosa  que  se  estendia  sorrateiramente  em  meios

meios insuspeitos, como policiais, políticos, juízes,  empresários  e  gente famosa

e aparentemente de vida limpa.

 

        Mas Spader parecia não  desistir. Seu  irmão  havia  sido  uma  das  vítimas

da organização. E isso ele não esquecia.

 

        Jean olhou-o e pensou que agora tinham uma coisa em  comum. O  mesmo

motivo gerando aquele ódio contra o crime organizado e a vontade de destruí-lo.

        Os demais agentes, colegas de Jean, olhavam para o chefe em expectativa.

Quando ele convocava uma reunião, o assunto era importante.

 

        Ele ergueu os olhos da folha de papel que estivera lendo e  suspirou. Fixou

os olhos em Jean e falou:

 

        -Meus pêsames, Jean. Não pude ir ao enterro. Estava participando de uma

reunião com o alto comando. Mas saiba que admirava muito seu pai e  lamento

profundamente a morte dele.

 

        -Eu sei. Obrigada – Respondeu, em voz baixa.

 

        Ele pousou as mãos gorduchas no tampo da mesa. Olhou em volta.

 

        -Bem. Chamei-os aqui para mostrar o resultado  de um  estudo  preparado

pelo departamento de estatística. Sabem  o  índice  de  crimes  de  morte   pela

Máfia este ano, que  ainda  não  chegou  ao  terceiro  trimestre ?    aqui  em

Chicago ?

 

        Ninguém respondeu e ele continuou:

 

        -Cento e sessenta  e  dois  assassinatos,  quinze   estupros, nove  subornos,

 sete seqüestros ! Mais de trinta por cento em relação ao  ano  passado ! Isto  é

inaceitável, para nós ! Isso quer dizer que o crime está avançando e dominando

cada vez mais ! E que nós estamos sendo imcompetentes para dominá-lo !

 

        Um silêncio pesado acompanhou as palavras  de  Spader. Todos  sabiam  o

que ele queria dizer: que a lei, representada por eles nas ruas, estava ineficiente

e acomodada.

 

        -Eu quero que cada um de vocês se esforce ao máximo. Eu exijo resultados,

no máximo à médio prazo. E médio prazo para mim, é um mês !

 

        Ele voltou-se para o assistente e fez um sinal. O assistente apagou as luzes

E  ligou  um   projetor  filme.  O  mapa  de  Chicago  apareceu  na  tela  móvel, 

suspensa em um tripé,com vários pontos vermelhos. A voz de Spader soou forte:

 

        -Aí tem o mapa da cidade, dividido por zonas. E cada ponto vermelho é um

 local onde  se  praticam  todo  tipo  de  crime:  venda  de  drogas,  prostituição,

esconderijo de armas e bandidos, etc. E cada zona é comandada  por um  chefe,

que é  subordinado à um chefão. Vamos conhecer esses chefes.

 

        A  cena  foi  mudada  para  um  homenzinho   magro,  de  óculos,  com ar

 desprotegido, sentado numa mesa comendo.

 

        -A zona oeste é comandada por este homem, Frank Martino. Tem negócios

ilegais de todos os tipos,  encobertos  pelo  serviço  de  negociante  de  bebidas.

Frank Martino domina a  prostituição  e  a  exploração  do  comércio,  vendendo

proteção. Quem não aceita  a exploração, sofre atentados e assaltos às suas lojas.

 

        A cena mudou para um homem gordo, com o rosto cheio de bexigas. Tinha

 uma expressão soturna, caminhando numa rua rodeado de seguranças.

 

        -Esse é Mariano Garpo. Controla a zona leste . Contrabando e venda  ilegal

de armas para o exterior. É esperto e tem ligações com  políticos. Já  respondeu

a vários processos, mas se livrou das condenações por falta de provas.

 

        O próximo a  aparecer  era  homem  magro,  calvo, de  olhar  duro,  lábios

 finos e cruéis. Spader continuou:

 

        -Victor  Massera.  Controla  a  zona  sul. Faz  segurança  para  mafiosos  e

executa pessoas por dinheiro. Também pratica raptos audaciosos e recebe altos

resgates. Responde a nove processos, mas se escuda com amigos na  política  e

justiça. Seu negócio aparente é uma distribuidora de revistas.

 

        Outro homem apareceu na tela. Um homem de cabelos com gomalina, um sorriso simpático, boa pinta.

 

        -Massimo Santera. Controla a zona norte. É dono de bordéis e trafica armas

 para fora do  país. Atua  em  portos  e  teve  sua  prisão  decretada,  mas  está

foragido. Foi esse indivíduo quem  teve  a  quadrilha  quase  toda  desmantelada

pelo falecido inspetor York. É um grande amigo pessoal de Giancarlo Gianini.

 

        A projeção mudou para a foto de  um  homem  que  Jean  conhecia  muito

 bem. Olhou-a com olhos frios e ouviu seu chefe dizer, desnecessáriamente:

 

        -E este é o chefão  de  todos  que  mostrei,  Giancarlo Gianini. Ele  controla

todos os outros e recebe trinta por cento de todos os  lucros  de  cada  zona  de

crime,  além   de  lidar  com  seu  negócio  de  cassinos,  tráfico  de  drogas   e

diamantes. É  um homem muito bem relacionado e só poderá prestar  contas  à

justiça quando houver provas concretas incriminando-o.

 

        O retrato mostrava um homem de mais ou  menos  quarenta  e  cinco anos,

de cabelos bastos e grisalhos, rosto  de  traços  finos,  mas  olhar  duro,  de  um

cinza metálico. O terno impecável e o colete de lã  lhe conferiam um aspecto de

executivo bem sucedido.

 

        Jean pensou, olhando para a foto:

 

        “-Você não perde por esperar, seu canalha.  Se  meu plano  der  resultado,

vou tê-lo em minhas mãos.

 

        A projeção terminou. Spader ergueu-se e olhou para todos com ar grave.

 

        -Os homens são esses. Vocês já ouviram  falar  sobre  eles,  mas  quis  dar

informações  precisas.  Vocês  vão  se  dividir  em  quatro  grupos.  Cada grupo

cuidará  de  combater  cada  chefe  em  suas  zonas  de  atuação.  Vou  querer

resultados dentro de um mês.  Provas,  prisões  em  flagrantes,  apreensão  de

mercadorias ilegais,  apreensão  de  grandes  quantidades  de  drogas,  armas,

tudo que contribuir para desmantelar as quadrilhas que esses homens  chefiam.

 

        Ele pegou uma folha de papel e leu com voz incisiva:

 

        -Thompson, Grant, Mackinley e Weston combaterão Frank Martino. O  líder

 será Grant. Malcon, Prescott, Steven, Hust. Combaterão Mariano Garpo. O líder

 será Prescott. Zimmer, Martin, Reynolds, Hollander. Combaterão Victor Massera.

O líder será Reynolds. Stack, Miller, Montgomery, Wayne. Combaterão  Massimo

Santera. O líder será Miller. Davison, Still,  Miles  e  York. Combaterão  Giancarlo

Gianini. A líder será York.

 

        Jean  nem  acreditou  naquela  designação. Ela  ia  ser líder  do grupo que

combateria Gianini ! O triunfo brilhava em seus olhos.Aquela missão moldava-se

como um presente ao seu plano.

 

        Spader lhe piscou um olho, sorrindo. Ele sabia que Jean se empenharia  ao

máximo, porque aquilo ia de encontro ao seu desejo de  vingança. O  velho  era

esperto. E a  honrava com a confiança de colocá-la como líder do grupo.

 

        Spader continuou:

 

        -Vocês têm carta branca para requisitarem o auxílio que for necessário. 

expedi   um   memorando   avisando   que   terão o poder  durante um mês de

requisitarem o que quiserem em armas, munição, helicópteros e   policiais. Mas

em contrapartida, vou exigir resultados depois desse prazo. Cada grupo adotará

o plano de ação que julgar mais conveniente. É só, senhores.

 

        Todos se levantaram da mesa e foram saindo, cada grupo formado logo começando a trocar sujestões.

 

        Miles e  Davison  se  aproximaram  de  Melanie  e  Jean,  trocando  olhares

significativos. Eram homens de grande experiência na polícia e Jean notou  que

eles procuravam esconder  o  desapontamento  de  serem  chefiados  por  uma

mulher com menos experiência que eles.

 

        -Oi, chefe – Disse Miles, com uma leve ironia na voz – Já tem algum  plano

de ação em mente ?

 

        Ela resolveu ignorar a pergunta irônica. Olhou-o séria  nos  olhos,  com  tal

firmesa que o fez desconsertar-se.

 

        -Não, Miles. Recebi a designação agora  e preciso de  tempo  para  pensar.

 Mas amanhã já terei um plano de ação, isso eu garanto à você.

 

        Davison sorriu-lhe. Era um homem mais dissimulado que Miles.

 

        -Isso foi um presente de Spader para você, York. Ele sabe  que  você  quer

 vingar a morte de seu pai e lhe deu todos os meios para isso.

 

        Jean não pôde evitar um brilho nos olhos.

 

        -Spader é um psicólogo. Sabe que me empenharei  ao  máximo. E  espero

que vocês também.

 

        Miles sorriu.

 

        -Pode contar com isso, Jean. Até amanhã, então.

 

        Os dois se afastaram, falando baixinho.

 

        Melanie olhou para Jean sorrindo.

 

        -Isso vai facilitar muito as coisas para você, não ?

 

        Jean a fitou pensativa.

 

        -No início, sim. Mas depois, poderão me atrapalhar. Miles e Davison vão se

grudar conosco e isso tolherá os meus passos. Mas vou pensar numa forma  de

mantê-los ocupados, para evitar esse transtorno.

 

        À noite, Jean planejou com Melanie o plano inicial. Usaria a ajuda de  Miles

e Davison, já que eles estavam no  grupo  para  combater  Gianini. Iria  explicar

à eles que tentaria uma aproximação com Carla Gianini para colher informações

sobre o marido dela, usando outra identidade. Essa parte do pano eles poderiam

saber, mas não o plano  do  rapto  e  execução  de  Gianini. Eram  policiais  que

nunca concordariam com o que pretendia fazer: justiça pelas próprias mãos.

 

        Só foram dormir de madrugada e Melanie já sabia o que iria  fazer  no  dia

seguinte. Miles e Davison fariam a parte mais fácil. Mas  ela  e  Jean  teriam  de

representar uma cena. Será que convenceriam Carla Gianini ?

 

 

CAPÍTULO   4

 

        Carla jogou o casaco de linho sobre  os  ombros  e  saiu  alegremente. Fôra

difícil, mas  convencera  Giancarlo  a  sair para  ir  à  boutique  Dolce  y Gabana

apanhar   sua  roupa  sem  guarda-costas. A   boutique   distava  apenas  cinco

quadras da mansão e a rua era bem  movimentada,  não  havia  perigo. E  sem

aqueles  brutamontes, sentia-se  mais  leve  e  solta. Sentia uma  rara  sensação

de liberdade.

 

        E o dia estava lindo, o sol brilhava, a brisa  fresca  acariciava  seus  cabelos

negros e longos. Sentia-se quase feliz. Seus olhos azuis luziam de contentamento.

 

        Pegou o Mercedes conversível e arriou a capota, deixando  o  sol  bater  em

seu rosto  e saiu devagar, saboreando a sua pequena liberdade.

 

        Ela percorreu a avenida cheia de carros e  gente,  olhando  tudo  com  uma

curiosidade nova. As lojas de artigos importados, as boutiques de  roupas  finas,

as   lanchonetes   coloridas   pelas  roupas  dos  jovens,  os  restaurantes,  tudo

transpirando  vida.

 

        Empolgada pelo movimento, resolveu  caminhar  no  meio  da  multidão  e

encostou o carro no meio-fio, estacionando-o. Pagaria  com  prazer  uma  multa,

para poder desfrutar daquela caminhada no meio das pessoas.

 

        Foi  caminhando  devagar,  respirando  com  prazer  o  ar  daquela   tarde

ensolarada. Os óculos escuros Armani  protegiam seus olhos da luz do sol, que se

derramava alegremente na paisagem e no seu rosto perfeito.

 

        Carla   estava   andando   distraída,   quando  sentiu  alguém  empurrá-la 

brutalmente. Gritou de susto, ao mesmo tempo que  caía  no   chão   duro   da

calçada. Viu uma mulher ruiva inclinar-se e pegar sua bolsa, saindo correndo.

 

        Tudo  aconteceu  tão  rápido  que  ela  ficou  olhando  surpresa  a  mulher

afastar-se, com os cabelos balançando ao vento. Então, recuperou a voz e gritou:

 

        -Peguem essa ruiva ! Ela roubou-me !

 

        Os transeuntes a olharam espantados, mas ninguém esboçou uma reação.

Ela ergueu-se num salto e correu atrás da mulher, que já se achava distante uns

cem metros dela. Carla estava de salto alto e isso  dificultava  sua  perseguissão.

A mulher ruiva estava de  tênis  e  calça  comprida  e  isso  lhe  dava  uma  boa 

vantagem  para fugir.

 

        -Segurem essa ruiva ! Ela roubou minha bolsa ! – Tornou a gritar.

 

        E Carla viu uma loura que vinha em sentido contrário da ruiva meter-se na

dela. Elas colidiram e a ruiva cambaleou,  tentou contornar a loura e continuar a

fuga. Mas a loura estendeu a mão e  a  segurou  pelo  braço. A  ruiva  deu  um

puxão, tentando se desprender, ao mesmo tempo que erguia a mão livre  para

o rosto da loura.

 

        Carla então presenciou um belo golpe de defesa da loura, que não era alta

como a ruiva, mas parecia bem segura de seus atos.

 

        Ela aparou o golpe com a mão direita, segurando a ruiva pelo punho e com

a outra mão a puxou  para a frente, ao mesmo tempo que erguia o  joelho,  que

chocou contra o estômago da fugitiva. A ruiva abriu a boca numa careta de dor

e caiu no chão, comprimindo o estômago com as mãos. Mas logo  recuperou-se

e se ergueu num pulo, olhando para a loura com fúria. Puxou  um  canivete  do

bolso da calça e investiu contra a loura, gritando de raiva.

 

        A loura girou o corpo com agilidade  espantosa  e  a  perna  direita  subiu,

atingindo com o pé a mão da ruiva, fazendo-a soltar a arma. Ato contínuo, com

a mão espalmada, deu um golpe certeiro, com a quina da mão, no pescoço da

ruiva, que desabou no chão  desmaiada.

 

        Carla já havia chegado perto  e  contemplava  a  loura  com  asssombro  e

admiração.Era incrível que aquela garota de rosto angelical e bem menor que a

ruiva, a havia dominado com tanta facilidade.

 

        A loura recolheu a bolsa do chão e o canivete. Endireitou o corpo e olhou

para Carla com um sorriso cordial.

 

        Carla olhou para os olhos verdes,  o belo  sorriso  de  dentes  perfeitos,  os

traços delicados, os cabelos curtos e louros como trigo maduro. Aparentava  ter

no máximo uns vinte e dois anos. Era  mais  baixa  que  ela  própria  uns  vinte

centímetros. Mas a calça justa de malha negra e o top branco  não  escondiam 

que seu corpo  era  forte,  com  ombros,  braços  e  pernas   com  musculatura

aparente como os de uma ginasta: forte, mas com curvas bem femininas. E ela

podia não ser alta, mas irradiava força e segurança com seu olhar direto.

 

        -Precisamos achar um policial para prender a ladra. Mas , eis a sua bolsa –

Disse, com voz modulada, estendendo-lhe a bolsa.

 

        Carla pegou a bolsa e sorriu para a moça.

 

        -Não sei como lhe agradecer. Foi a única pessoa que se dispôs a ajudar-me.

 

        -Não me custou nada. Já trabalhei como segurança pessoal  e  até  gostava

de lidar com esses tipos. Faz-me avaliar se estou bem em minha defesa pessoal.

 

        Carla a fitou vivamente interessada.

 

        -Trabalhou  como   segurança   pessoal ?  Estou  precisando   de  um  bom

segurança !  E  vi  que  você  sabe  proteger  alguém  muito  bem !  O  que  faz

atualmente ?

 

        -Estou desempregada – Disse  a  loura,  olhando-a  com  curiosidade – Está

 falando sério ? Precisa de um segurança?

 

        Dois homens se aproximaram e mostraram as credenciais.

 

        -Polícia – Anunciaram – O  que   houve  aqui ?  Por  que  essa  mulher  foi

 agredida por você ?

 

        A loura os olhou com tranqüilidade.

 

        -Essa  mulher  roubou  a  bolsa  dessa  senhorita.  Eu  a  vi  fugindo  e   a

 interceptei. Ela reagiu e tive que aplicar um golpe para dominá-la.

 

        Carla se adiantou para os policiais.

 

        verdade, senhores. Ela empurrou-me  e  fugiu  com  minha  bolsa.  Essa

 moça ajudou-me, dominando a fugitiva.

 

        Um dos homens ergueu as sombrancelhas, olhando –as.

 

        -Tenho que ver seus documentos, para anotar a ocorrência e autuar a ladra.

 

        Carla e a loura entregaram os documentos ao policial. Ele anotou os nomes

e endereços e devolveu os documentos, olhando para Carla com ar admirado.

 

        -É parente de Giancarlo Gianini ? – Perguntou.

 

        Carla ergueu o queixo, encarando-o.

 

        -Sou esposa dele.

 

        -Humm. Bem, estão  liberadas. Vamos  levar  a  mulher  para  a  delegacia.

Poderão registrar a queixa do assalto depois.

 

        Carla olhou para a mulher desmaiada.

 

        -Não vou registrar queixa. Ela  é  apenas  uma  pobre  infeliz  que  precisa

 ganhar dinheiro e escolheu a pior forma. Já  recuperei  minha  bolsa,  não  vou

 prolongar esse incidente. Acho que ela já foi castigada, com a surra que levou.

 

        -Bem... a senhora quem  sabe.  De  qualquer  forma,  ela  vai  passar  pelo

menos um dia no xadrez, até averiguarmos se ela tem ficha na polícia.

 

        E eles pegaram a mulher pelos braços e foram arrastando-a para um carro.

 

        Carla fitou a loura, que continuava ao seu lado,  estendendo a mão com um

sorriso.

 

        -Ainda não me apresentei. Meu nome é Carla Gianini.

 

        A loura retribuiu o aperto de mão, sorrindo.

 

        -E o meu é Helen Stanfield. Mas, estava falando sério, quando disse  que precisava de um segurança ?

 

        -Sim. E acho que você seria  a  pessoa  certa  para  trabalhar  para mim. É

corajosa, sabe lutar, tem uma aparência agradável  e  parece  ser  educada,  ao

contrário dos brutamontes que trabalham para mim.

 

        A loura fitou-a nos olhos, sorrindo.

 

        -Acho que podemos chegar a um acordo, quanto a isso.

 

        -Pagarei o que quiser. Faça seu preço.

 

        -Sou uma segurança classe A . Cobro oitocentos  dólares  por  semana. Sei

lutar  caratê, kickboxer, judô, atiro bem e farejo o perigo no ar.

 

        Carla tirou da bolsa um cartão e estendeu para Helen.

 

        -Procure-me amanhã, pela manhã. Acertaremos tudo. Tenho que consultar

 meu marido, mas por mim, o lugar é seu.

 

        Helen guardou o cartão no bolso.

 

        -Estarei em sua casa amanhã. Até lá, senhora Gianini.

 

        Carla ficou olhando Helen afastar-se com passos largos. Era impressionante

a rapidez com que ela  conquistara  sua  confiança. O  olhar  dela  era  direto, o

sorriso franco. E a ajudara  sem  ao  menos  conhecê-la. Falaria  com  Giancarlo.

Brigaria se fosse preciso, mas teria Helen  trabalhando para ela.

 

        Foi para a boutique com um sorriso nos lábios.

 

***************

 

        Jean, quem na verdade era a loura que se indentificara  com  o  nome  de

 Helen, continuou andando. No estacionamento próximo,  pegou o seu  carro  e

saiu lentamente. Cinco ruas depois, estacionou perto de uma esquina e ficou ali

tranqüilamente esperando.

 

        Sorriu, pensativa. O plano havia dado certo além do que esperava. Pensara

apenas em fazer amizade, mas  recebera  um  convite  para  trabalhar com ela !

Poderia estar perto de Gianini, escolher a melhor hora para pegá-lo ! E além  de

tudo, Carla Gianini era  uma  belíssima  mulher  e  muito  simpática. Gostara  de

conversar com ela. Podia ser uma puta, mas  era  fácil se  lidar com  ela.  Estava

com sorte !

 

        Um carro parou atrás do seu. Olhou pelo  retrovisor  e  saiu de  seu  carro,

dirigindo-se para o outro  sem  pressa. Abriu  a  porta  dianteira  e   sentou  ao

lado de Davison e voltou-se para trás. Melanie já havia retirado a  peruca  ruiva

e mostrava os verdadeiros cabelos castanhos lisos. Miles estava ao seu lado  e  a

fitava sorrindo.

 

        -Como está, Melanie ? – Perguntou – Bati com força ?

 

        Melanie fez uma careta.

 

        -Você exagerou um pouco, mas já me recuperei. E então ?

 

        Jean sorriu com ar vitorioso.

 

        -Tudo foi melhor do que eu esperava. Carla Gianini ficou muito grata pela

minha intervenção e impressionada. Ela ofereceu-me o emprego de segurança

para ela.

 

        Os homens riram e Melanie a fitou admirada.

 

        -Verdade ? Isso vai facilitar as coisas para você, não?

 

        Davison interveio:

 

        -Jean, será mais fácil e perigoso. Se Giancarlo Gianini ao menos suspeitar

de você, estará perdida, e nós não poderemos ajudá-la. Recuse esse emprego.

Basta ser amiga dessa mulher e colher informações sobre ele.

 

        Jean o fitou com tranqüilidade.

 

        -Obrigada pelo conselho, Davison, mas  vou  assumir  o  risco.  Eu estando

dentro  da  casa  de  Gianini  será  muito  mais  fácil  descobrir  coisas  que   o

incriminem.

 

        -Concordo com Davison – Disse Miles – Você pode perder a sua vida nessa

tentativa louca. Estará na boca do lobo. Até eu pensaria  duas  vezes  antes  de

arriscar-me assim.

 

        Jean o fitou com teimosia.

 

        -Estou consciente desse risco, Miles. Mas vai valer à  pena. Tenho  motivos

 que você não tem.

 

        -Sei, sua vingança pessoal. Mas a vingança  pode  nos  cegar, Jean. E  nos

 fazer esquecer de tomar certos cuidados.

 

        -Maldição, Miles! Vou fazer  o  que  acho  que devo fazer,  e  ninguém  vai

impedir-me! – Disse, bruscamente.

 

        Miles encolheu os ombros.

 

        -A vida é sua . Bem, vamos ver  se  Gianini  concorda  com  a  mulher.  Ele

mandará investigar tudo sobre você, tenha certeza disso.

 

        -Sei disso. E estarei preparada. Quero que vocês me arrangem documentos

 com  o  nome  de  Helen  Stanfield,   originária  de  New  Jersey,  documentos

comprovando  que  trabalhei  como  segurança  em   pelo  menos   três  firmas

conhecidas  e uma carta de apresentação. Vou hospedar-me ainda hoje em um

hotel barato, dizendo que cheguei de New  Jersey há uma semana. Vou precisar

desses documentos ainda hoje, à noite. Vou em casa apanhar algumas roupas e

devo encontrar-me com vocês dois no restaurante Benny, às oito da noite.

 

        -E depois?  Qual será o nosso trabalho ? – Perguntou  Davison,  aborrecido

 por fazer coisas sem importância.

 

        -Vocês ficarão à espera de instruções nas imediações  da  casa  de Gianini,

disfarçados em empregados de consertos em ruas.  Nos comunicaremos através

de nossos telefones celulares .

 

        -Ok. Mais alguma coisa ?

 

        -Não. Podem ir – Disse, olhando para Melaine – Você virá comigo.

 

        Ela e Melanie desceram do carro  e  eles  foram  embora.  As  duas  foram

para o carro da frente.

 

        Entraram e Jean   olhou para a outra, pensativamente.

 

        -Davison e Miles não estão satisfeitos em seguirem minhas ordens – Disse,

calmamente.

 

        Melaine sorriu com desdém.

 

        -Claro! Se julgam bem melhores  que  nós.  Devem  estar  humilhados  por

receberem ordens suas. Mas, o que vai  fazer,   se  for  contratada por  Gianini?

E eu ? Qual vai ser meu papel nessa estória toda ?

 

        -O que combinamos antes. Você vai ficar também na escuta, pronta para agir.   Quando eu tiver Gianini nas mãos, eu ligarei para você  e direi que não estou me sentindo muito bem e preciso dormir. Isso significará que vou sair com Gianini prisioneiro e você deverá estar esperando-me na esquina próxima da casa dele. Pararei meu carro ao lado dos seu e passarei com ele para o seu carro. Caso isso não seja possível, se eu tiver que sair em fuga com ele, você esperará os carros seguir-me e irá atrás, ajudando-me como puder.

 

        -Hum! Então  pretende  mesmo  levar  seu  plano  adiante,  mesmo  tendo

 conhecido Carla Gianini?

 

        Jean a fitou irritada com a dúvida.

 

        -Por que acha isso ? – Perguntou, em tom duro.

 

        -Bem, ela é muito bonita... e você pode se deixar levar pela lábia dela...

 

        -Não comece, Melanie! Então, acha que um belo rosto vai amolecer-me ? Você não me conhece mesmo! Mulher nenhuma me fará desistir de meus planos, muito menos a mulher de Gianini !

 

        -Tudo bem, tudo bem ! Foi só um comentário !

 

        Jean sorriu duramente e seus olhos se estreitaram.

 

        -Quando eu pegar aquele desgraçado, vou sentir-me a mulher mais feliz do mundo ! Ah, como ele vai penar ! Agora, vamos até nossa casa. Tenho que pegar roupas e objetos de uso pessoal, para hospedar-me em um hotel. E amanhã assumirei a identidade de Helen Stanfield. Gianini jamais descobrirá o embuste, porque essa mulher realmente  existiu. Ela trabalhou como segurança e veio para Chicago, onde morreu assassinada em um assalto.

 

        Melanie a fitou com admiração. Jean era um gênio!

 

Continua na parte 2

 

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