A  GAROTA  DA  MOTO

 

PARTE  11

 

Shane dedilhava na guitarra uma m�sica que havia composto em uma tarde chuvosa, esperando Diane chegar do trabalho. O jantar j� estava pronto esperando no forno, uma lasanha que havia feito com orgulho. Ela sorriu ao pensar o que diriam suas amigas. Shane, cozinhando?! Shane sem sair atr�s de uma mulher h� mais de dois meses?

 

         O fato � que a companhia de Diane havia feito bem � inquieta morena. Diane era uma mulher de personalidade forte, mas bem mais amadurecida que Shane. Ela sabia quando falar e calar. Ela sabia incentivar Shane a fazer coisas que a faziam crescer como ser humano, a se amar e confiar mais em suas pr�prias qualidades.

 

         Shane reconhecia que Diane era uma mulher maravilhosa, que podia fazer qualquer pessoa feliz. Mas como o cora��o e a raz�o raramente andam juntos, ela tinha por Diane apenas uma grande admira��o e carinho. A atra��o sexual morria � cada dia, sendo substitu�da por uma profunda amizade.

 

         Mas Diane n�o se sentia como ela. Diane, que antes encarava o sexo apenas como uma v�lvula de escape de tens�o e energia, agora descobria as del�cias do sexo entre mulheres e estava apaixonada por Shane. Se Shane n�o se esquivasse algumas vezes de seu apetite sexual, elas estariam a maior parte do tempo na cama, fazendo sexo durante horas. Diane havia terminado o romance com Tom e isso fazia Shane sentir-se culpada, por saber que ela havia sido o motivo dessa decis�o.

 

         Shane suspirou tristemente. Por que n�o conseguia amar Diane como ela merecia? Diane era linda, fogosa na cama, carinhosa, cheirosa, inteligente, decidida, forte, apaixonada por ela. Ent�o, devia se sentir a mais feliz das mulheres, por ser o objeto da paix�o dela. E corresponder com igual paix�o. Mas ao inv�s disso, s� sentia amizade por ela! E por que? Porque era uma idiota e ainda pensava em Morgan com saudade! Ainda a tinha em sua mente, n�o conseguia esquec�-la!

 

         -Imbecil! � Disse alto, com raiva. Era uma imbecil! Morgan devia estar nos bra�os daquele trouxa do Jonnathan, talvez at� j� esperando um filho dele! Maldi��o, tinha que esquec�-la! Tinha que tentar amar Diane! Esfor�ar-se para tirar Morgan de sua mente e amar a mulher maravilhosa que era Diane!

 

         Tr�s horas depois, Shane olhava para o re�gio com preocupa��o. Sabia que Diane havia ido ajudar seus colegas numa perigosa miss�o, surpreender uma quadrilha de traficantes de armas no seu covil. Ela havia dito que iria para casa logo que ficasse livre da miss�o. Mas j� passava das dez horas! Por que ela estava demorando tanto?

 

         Quando tocaram a campainha da porta, ela correu para atender, com um pressentimento ruim. Abriu a porta e um homem alto e corpulento de terno escuro a fitou gravemente.

 

         -Senhorita Shane MacPherson?

 

         -Sim, sou eu! Quem � o senhor?

 

         -Meu nome � Adam  Westh, sou colega de trabalho de Diane. Senhorita, lamento informar que ela foi ferida na miss�o que participou hoje e est� internada em um hospital  nesse momento, se submetendo � uma cirurgia.

 

         -Oh, meu Deus! � Balbuciou Shane, chocada com a not�cia � Leve-me at� l�, por favor! Foi ela quem o mandou? O ferimento � grave?

 

         -Calma, senhorita. Diane havia comentado comigo que uma amiga  estava morando em sua casa e se alguma coisa acontecesse com ela, sua amiga deveria ser avisada. Ent�o, vim fazer o que ela pediu. E quanto ao ferimento, sei que ela levou um tiro no ombro. N�o � um local mortal, mas ela perdeu muito sangue at� ser atendida pelos m�dicos.

 

         Shane correu at� o quarto,   pegou seu casaco de couro e voltou � sala.

 

         -Podemos ir, senhor.

 

 

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         Chegaram ao hospital em pouco tempo. Na recep��o, informaram que Diane ainda Estava na sala de cirurgia.

 

         O colega de Diane despediu-se. Ele tamb�m havia participado da miss�o e estava exausto, precisava ir para casa descansar. E a esposa dele o esperava.

 

         Shane sentou-se na sala de espera, tensa e desesperada. N�o sabia rezar, mas balbuciou:

 

         -Deus...d� outra chance a Diane...n�o sei rezar, nunca me ensinaram... mas estou pedindo agora... por favor...

 

         Uma hora se arrastou. E o cirurgi�o veio  com a not�cia, com ar cansado :

 

         -A opera��o correu bem. Acredito que a mo�a v� sobreviver.Mas ap�s o per�odo de setenta e duas horas, se n�o ocorrer complica��es, � que teremos certeza de sua recupera��o. Ela s� dever� despertar amanh�. Est� muito fraca, perdeu muito sangue. Sugiro que v� para casa descansar e volte amanh�, senhorita.

 

         Shane suspirou aliviada, mas ainda com medo. Diane s� estaria fora de perigo de vida ap�s 72 horas.

 

         -Posso v�-la ao menos por uns minutos, doutor?

 

         -S� por alguns momentos, atrav�s de um isolamento de vidro. Ela est� no CTI e n�o � permitida a entrada de visitantes.

 

         Shane aceitou a restri��o e p�de ent�o olhar Diane de longe, atrav�s do vidro isolante. N�o dava para v�-la bem. Diane estava coberta por um len�ol at� a cintura, mas ligada aos tubos do monitor card�aco e cateter com soro. O ombro e bra�o estavam cobertos com bandagens. Mal dava para ver o rosto p�lido.

 

         Shane voltou para a sala de espera. N�o iria para casa. Como poderia dormir, pensando em Diane em um hospital correndo risco de vida? Sentou em uma poltrona e ficou ali com o rosto apoiado na m�o, com o olhar perdido. J� passava de uma hora da madrugada quando caiu em um sono agitado. Os funcion�rios do hospital passavam e olhavam com curiosidade aquela bela mulher vestida  com casaco de couro e cal�a jeans adormecida.

 

         As quatro da madrugada ela acordou e foi ao toalete. Ap�s urinar, lavou as m�os e o rosto, observando seu rosto cansado. Enxugou-o com toalhas de papel e foi at� a cantina do hospital. Pediu um copo de caf� e o tomou aos poucos, sentada na sala de espera.

 

         As horas se arrastaram. Ela cochilava quando uma voz no sistema de som a despertou sobressaltada:

 

         -Senhorita MacPherson, compare�a ao balc�o da recep��o.

 

         Ela ergueu-se e olhou para seu rel�gio de pulso. Quase oito horas da manh�! Ela dirigiu-se para a recep��o  e identificou-se. A recepcionista consultou uma anota��o e informou:

 

         -A paciente Diane Davis j� despertou e foi transferida para um quarto, o trezentos e cinco, terceiro andar. Pode subir.

 

         Shane saiu quase correndo. Pegou o elevador com o cora��o aos saltos. Desceu no andar e percorreu o longo corredor, olhando os n�meros das portas, at� achar o desejado. Girou a ma�aneta e entrou.

 

         Deitada na cama, Diane a viu entrar e seus olhos brilharam. Ela deu um sorriso � Shane, que se aproximou lentamente. O al�vio de ver Diane j� de posse de suas faculdades mentais a fez sentir tanto al�vio que ficou lenta em seus movimentos. Sentou cuidadosamente na beira da cama e pegou a m�o direita de Diane, apertando-a suavemente e levando aos l�bios, dando um beijo suave.

 

         -Hei, querida... � Sussurrou Diane, fitando-a nos olhos. Ela estava p�lida e uma bandagem  cobria seu peito e ombro esquerdo. Um litro de soro estava ligado ao seu bra�o direito.

 

         -Diane... gra�as a Deus voc� est� viva ! Deus, como fiquei desesperada, quando soube o que havia acontecido com voc�!

 

         Ela sorriu fracamente.

 

         -Quase me apagaram... mas estou aqui...

 

         -Oh, Diane! Eu n�o sei o que faria, se eu a perdesse!

 

         Diane a fitou surpresa.

 

         -Voc�... sentiria... tanto assim, Shane?

 

         -Que pergunta ! Claro que sim! Voc� � uma mulher maravilhosa, Diane! Voc� tem sido a minha salva��o, a pessoa que impediu-me de fazer uma loucura quando Morgan foi embora! _ Disse, impulsivamente � Voc� � t�o boa, Diane! Merece tudo de bom da vida!

 

         O sorriso de Diane se transformou numa express�o de decep��o.

 

         -Oh... por isso sentiria minha falta... porque me acha boa...

 

         Shane acariciou o rosto dela, fitando-a confusa.

 

         -Acha isso uma coisa ruim?

 

         -N�o, Shane... mas preferia ter ouvido voc� dizer que sentiria minha falta porque me ama. Mas isso seria querer demais, n�o �?

 

         Shane apertou a m�o dela, fitando-a s�ria, nos olhos.

 

         -Diane, gosto muito de voc�. N�o da forma que eu gostava de Morgan, mas � uma forma de amor. O amor tem muitas formas, Diane. A minha em rela��o � voc� � tranquila, carinhosa, cheia de admira��o pelas suas qualidades.

 

         -Mas n�o � o amor-paix�o. Ser� que um dia voc� pode vir a amar-me da forma como sonho? Com paix�o?

 

         -Por que n�o, Diane? Voc� � uma mulher muito desej�vel, linda. Quem sabe se com o tempo meu cora��o se esvazia de antigos sentimentos e fica pronto para ser todo seu?

 

         Diane sorriu.

 

         -Vou ser paciente, Shane. Sei que preciso dar tempo � voc� para esquecer Morgan.

 

         -Shhhh... n�o fale muito, voc� ainda est� muito fraca.

 

         Por coincid�ncia, uma enfermeira entrou e avisou, sorrindo:

 

         -Sinto muito, mas ter� que sair agora, senhorita. A paciente precisa descansar. O doutor Cooler fez essa concess�o, deixando a paciente v�-la, porque ela estava muito agitada, perguntando pela senhorita. Mas o tempo acabou.

 

         Shane beijou Diane na testa e sorriu para ela.

 

         -Estarei sempre por perto, querida... quando me permitirem, virei v�-la.

 

         -N�o me esque�a, Shane... � Sussurrou Diane, fitando-a apaixonadamente.

 

         -Nunca, querida... at� breve...

 

         E Shane saiu, fechando a porta atr�s dela.

 

 

 

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         E assim foi. Shane ficou no hospital fazendo companhia � Diane, numa dedica��o total. Lia jornais e revistas para ela, dava comida na boca, ajeitava os travesseiros, velava seu sono e quando estavam � s�s, beijava-a suavemente, dizendo palavras de carinho.

 

         Uma semana depois Diane teve alta do hospital. O perigo de infec��o havia passado e o ferimento cicatrizava sem complica��es. Mas ainda tinha um per�odo para   recuperar-se totalmente, at� poder voltar a trabalhar.

 

         Shane a levou para casa e quando Diane entrou, foi recebida por uma corbeile de rosas amarelas de seus colegas de trabalho desejando uma r�pida recupera��o e outra de rosas vermelhas, de Shane, com um cart�o. Diane leu, emocionada:

 

         �Esse dia � muito especial, porque voc� voltou para mim, Diane. �

 

         Olhou para Shane, sorridente.

 

         -Que bela recep��o, Shane...

 

         Shane sorriu alegremente.

 

         -E voc� ainda n�o viu o almo�o que a espera, assim como a sobremesa.

 

         -Oh, o que �? Estou cansada de comer aquelas comidas ins�pidas de hospital!

 

         Shane fez uma pose imitando um maitre, empertigando o corpo.

 

         -Madame, teremos lasanha e salada, acompanhados por um delicioso suco de laranja. E como sobremesa, sorvete de ameixa, o seu preferido!

 

         -Oh, j� estou com �gua na boca! � Riu Diane � Mas primeiro vou tomar um banho, tamb�m estou cansada daqueles banhos de toalha do hospital. Voc� me ajudar�? N�o posso molhar a cicatriz.

 

         -Com prazer, minha querida.

 

         Foram para o banheiro. Shane ajudou Diane a se despir e viu a pequena cicatriz abaixo da crav�cula esquerda, perto do ombro. Ela havia emagrecido, mas seu corpo continuava lindo. Diane   puxou com a m�o sua cabe�a para baixo, unindo seus l�bios em um beijo profundo. Shane afastou-se rindo.

 

         -Calma, garota quente. Voc� est� convalescente. Nada de beijos que possam ativar sua libido.

 

         Diane sorriu com mal�cia.

 

         -Isso � pior que o tiro que recebi. Ficar perto de voc� sem poder fazer tudo que quero.

 

         -Depois descontaremos. Agora, vai tomar o banho para depois almo�ar.

 

         Diane entrou na banheira e Shane a banhou com cuidado e ajudou-a a vestir as roupas. Depois foram almo�ar e Shane serviu o prato de Diane, que a fitava embevecida.

 

         -Voc� � t�o doce, Shane. Obrigada por tudo que est� fazendo para mim. N�o sei o que faria sem voc� aqui.

 

         Shane a encarou sorrindo.

 

         -Voc� merece todo cuidado do mundo, Diane. E quero falar com voc� algo que estava pensando.

 

         Diane viu o olhar s�rio de Shane e � custo escondeu o medo que sentia. Falou tentando soar calma:

 

         -O que �?

 

         -Enquanto voc� estava no hospital, andei pensando muito em nossas vidas. Voc� exerce uma profiss�o muito perigosa. Meus temores se confirmaram, voc� quase morreu nessa �ltima miss�o. N�o tenho nervos para passar por isso novamente. N�o ag�entaria. E tamb�m estou cheia de ficar nesse apartamento sozinha. Preciso de espa�o, fui criada no campo!

 

         Diane a fitou, empalidecendo.

 

         -O que est� tentando dizer? Voc�... quer deixar-me?

 

         Shane a fitou surpresa.

 

         -N�o � nada disso, Diane! O que estou tentando dizer � que desejo que v� comigo para Dallas. Voc� largar esse trabalho perigoso e ir morar comigo. Minha fam�lia tem posses, criamos gado e temos uma casa enorme em Dallas, al�m de uma casa em Amarillo. Voc� poder� morar numa dessas casas comigo e viver uma vida tranquila.

 

         -Shane! Quer que eu largue meu trabalho, minha vida toda constru�da aqui, para ir viver �s suas custas?!

 

         Shane a fitou com ironia.

 

         -N�o estou vivendo aqui sustentada por voc�? Por que n�o pode ser invertida a situa��o?

 

         -Shane, � completamente diferente! Eu sou dona dessa casa, e a sua � dividida com sua irm�! Ela poderia n�o concordar com sua decis�o! E eu n�o saberia ficar sem trabalhar!

 

         -Minha irm� iria adorar ter mais algu�m em casa. E quem disse que voc� ir� ficar sem trabalhar? Dallas � uma cidade desenvolvida, voc� poder� montar uma academia de artes marciais. Ou trabalhar como detetive particular. Isso, se n�o quiser trabalhar na fazenda. Voc� j� morou em uma fazenda, sabe montar. E pode aprender a domar cavalos, la�ar gado desgarrado, ca�ar coelhos e patos selvagens.

 

         Diane n�o p�de deixar de rir.

 

         -Ou�a, estou de licen�a por dois meses. Vou pensar em sua proposta.D�-me uma semana para pensar. N�o gosto de tomar decis�es precipitadas.

 

         Shane a encarou s�ria.

 

         -Sei, n�o quer fazer o mesmo que Morgan fez, fugindo comigo e se arrependendo depois.  

 

         Diane a encarou, sem se abalar.

 

         -Exato. Por falar nisso, voc�s fatalmente ir�o acabar se encontrando nas ruas. Acha que pode superar isso?

 

         Uma sombra passou pelo rosto de Shane.

 

         -N�o posso ficar fugindo de meus problemas. E tenho que lidar com essa possibilidade. Morgan � uma p�gina passada de minha vida, que n�o quero retornar.

 

         -Isso iremos ver, Shane.

 

         Shane a fitou levemente irritada.

 

         -Voc� acha que sou fraca e n�o vou resistir aos belos olhos de Morgan, n�o �? Pois est� enganada! Morgan morreu, para mim!

 

         Os olhos de Diane agora expressavam temor.

 

         -Tenho medo porque sei que voc�  ainda  a ama.

 

         Shane apertou a m�o de Diane, fitando-a com falsa confian�a.

 

         -Com voc� ao meu lado, superaremos esse problema.

 

         -Espero que sim, Shane.

 

 

 

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         Morgan acelerou carro que havia alugado, na estrada que conduzia � fazenda Blue Star, em Amarillo, de propriedade dos MacPherson.Estava arrependida de n�o ter pensado em alugar um carro com ar condicionado, o calor estava insuport�vel.Ingenuamente havia escolhido um jipe antigo, porque sempre quisera dirigir um. Havia viajado at� Amarillo de avi�o e na cidade  havia alugado o jipe, depois de se hospedar em um hotel.

 

         Havia pensado muito antes de tomar essa atitude. Mas cada dia que passava, sua impaci�ncia e solid�o aumentavam, at� se tornarem insuport�veis.

 

         Agora estava totalmente s�. Depois que havia pedido o div�rcio de Jonnathan, seus av�s haviam rompido com ela. E suas amigas tamb�m se afastaram dela, depois que correu o coment�rio que ela havia abandonado o marido por uma mulher.E Jonnathan havia contribu�do para isso, contando o fato para Patr�cia, que logo tomara as dores do rapaz, que agora odiava Morgan, na t�pica rea��o de uma pessoa repudiada querendo vingan�a.

 

         Morgan havia esperado essa rea��o de seus av�s e de Jonnathan, mas o que a magoava era a falsidade de sua �melhor amiga� Patr�cia. Afinal, se conheciam desde crian�as e a considerava sua melhor amiga, para depois saber que Patr�cia a tra�a com o ex-noivo e agora estava contra ela e � favor dele, contando a todos �como Morgan era fria e sem cora��o por ter tra�do um rapaz maravilhoso como Jonnathan�.

 

         -Eles dois se merecem! � Ela pensou, enojada � E Jonnathan � um idiota, ele n�o percebe que contando a todos o que aconteceu o coloca em um papel rid�culo. Quantas pessoas devem estar rindo dele, por ser trocado por uma mulher.

 

         Felizmente ela n�o dependia de ningu�m, financeiramente. Havia recebido a sua heran�a dos pais e havia comprado uma mans�o em estilo mexicano, com piscina, quadra de t�nis, amplas �reas verdes com �rvores e gramado, o Porshe �ltimo tipo, al�m de ter investido vinte milh�es de d�lares.

 

 Estava muito bem financeiramente, mas e sua vida pessoal? Estava completamente sozinha, sofrendo a falta de Shane, a quem n�o esquecera. E estava cansada de esperar Shane   com o tempo repensar sua decis�o de ter terminado a rela��o que tinham  e voltar para ela. A saudade a corro�a dolorosamente e a deixava extremamente infeliz. Arrependia-se de ter deixado Shane sozinha em New Orleans, agora n�o sabia do paradeiro dela. Havia ido � casa dela tentar saber sobre ela com a irm�, mas um criado havia informado que n�o havia ningu�m na casa al�m dele mesmo e um jardineiro. A senhorita Sean MacPherson  havia ido para a fazenda de Amarillo e n�o tinha data para voltar.

 

         Morgan havia conseguido o endere�o da fazenda e agora estava � caminho para perguntar � irm� de Shane sobre ela.

 

         Uma placa amarela com uma estrela azul avisava que ali come�ava os limites da fazenda de propriedade da fam�lia MacPherson, sobre um portal de madeira. Morgan o ultrapassou e continuou dirigindo por vinte minutos numa estrada de terra que cortava campos sem fim com milhares de gados pastando placidamente perto do rio que margeava a estrada.

 

Vendo tudo isso, Morgan se conscientizou como os MacPherson eram ricos. Toda aquela terra f�rtil e os milhares de cabe�as de gado, atestavam isso. Engra�ado, Shane era t�o simples. Nunca havia falado sobre a fortuna da fam�lia. Ela n�o ligava para sua posi��o social ou possuir roupas e carros caros. Parecia uma hippie fora de �poca.

 

         Numa curva da estrada, a casa principal da fazenda surgiu � sua frente. E com sua aproxima��o, Morgan observou a constru��o s�lida e imponente, em meio � frondosas �rvores. Uma  imensa varanda tomava toda a frente da resid�ncia, uma prote��o contra o sol caustigante.

 

         Morgan parou o jipe diante da entrada da resid�ncia, desceu e ergueu a vista para a varanda, onde uma mulher a olhava espectante, de p�. O sol n�o permitiu Morgan ver direito a mulher e ela colocou a m�o acima dos olhos, mas s� p�de ver que a mulher era alta e esguia.

 

         -Bom dia! � Disse, em voz alta � Gostaria de falar com Sean MacPherson.

 

         -Quem � voc�? � Perguntou a mulher, com uma voz parecida com a de Shane. Pela voz, Morgan percebeu que ela era a irm� de Shane. Somente parentes bem pr�ximos podiam ter uma voz t�o parecida.

 

         -Meu nome � Morgan Lafayette. Posso subir para a varanda? O sol est� muito forte.

 

         -Ok, suba.

 

         Morgan subiu os cinco degraus e penetrou na sombra do alpendre. Pestanejou para acostumar-se � diferente luminosidade e olhou para a mulher. Quase n�o conteve um grito de surpresa.

 

         Sean MacPherson n�o devia nada em beleza � irm�. E era espantosa a semelhan�a com Shane, n�o sendo g�meas. Os mesmos cabelos negros e bastos caindo pelos ombros, os mesmos olhos azuis, se bem que com uma express�o bem mais tranquila, e os mesmos tra�os perfeitos.

 

 Era t�o alta quanto Shane, talvez um pouco mais magra, vestida com uma blusa de algod�o branca, com as mangas enroladas at� os cotovelos, cal�a jeans e botas de cano curto, marrons. A diferen�a dela para Shane era a apar�ncia de ter mais alguns anos e a melancolia dos olhos.  Shane era cheia de vivacidade, os olhos inquietos e atrevidos. Os olhos de Sean sugeriam a placidez de um lago, tranq�ilos e tristes.

 

         Morgan sorriu, impressionada. Elas eram muito parecidas! Sean, podia-se dizer, era Shane alguns anos depois. As MacPherson eram realmente lindas! Estendeu a m�o para ela.

 

         -Voc� � Sean, a irm� de Shane, n�o? Muito prazer.

 

         Sean sacudiu sua m�o com firmesa, fitando-a com curiosidade.

 

         -Sim, sou Sean, a irm� de Shane. Voc� conhece minha irm�?

 

         -Sim. Estivemos juntas em New Orleans h� dois meses atr�s.

 

         Sean soltou sua m�o e indicou uma  grande mesa de vime com cadeiras.

 

         -Sente-se. Aceita um suco de laranja gelado? Deve estar com sede, tendo dirigido sob esse sol.

 

         -Aceito, obrigada � Disse Morgan, puxando uma cadeira e sentando, cruzando as pernas vestidas com cal�a de linho branco � O calor realmente deu-me sede.

 

         Sean sentou numa cadeira ao lado da sua e balan�ou um sininho de prata. Uma criada mexicana veio atend�-la, momentos depois.

 

         -Si, se�ora...

 

         -Maria, traga uma jarra de suco e copos,  por favor.

 

         A mulher assentiu e foi cumprir a ordem. Sean olhou para Morgan atentamente. Era a primeira amiga de Shane que conhecia e estava curiosa. Era uma mo�a muito bonita e Sean notou que ela parecia ser uma mo�a bem educada, de classe. Simpatizou com ela, uma coisa incomum com seu temperamento.

 

         -Bem, a que devo sua visita, senhorita Morgan? � Perguntou Sean, fitando-a com um leve sorriso.

 

         -Bem, eu vim aqui saber se tem alguma not�cia de Shane.

 

         Sean a fitou decepcionada.

 

         -Oh, eu ia perguntar � voc� onde ela est� atualmente!

 

         Morgan a fitou profundamente decepcionada. Estava com tanta esperan�a da irm� de Shane ter not�cias sobre ela!

 

         -Ent�o voc� tamb�m n�o tem nenhuma not�cia de Shane? Ela n�o telefonou ou escreveu? � Perguntou, contendo-se para n�o chorar.

 

         Sean deu uma risada curta. Olhou para Morgan com ar sarc�stico.

 

         -Shane, dar not�cias? Vejo que n�o a conhece bem. Alguns anos atr�s ela sumiu de casa sem nenhum aviso. Eu fiquei desesperada, at� coloquei detetive particular para encontr�-la. E ele a descobriu em New Orleans tocando saxofone em um bar para ganhar seu sustento. Ela estava morando em um hotel de quinta categoria, com uma amiga. Como Shane ainda era menor de idade, eu a fiz voltar com uma amea�a: Ou voltava para casa ou eu a internava em um col�gio fora do pa�s. Ela voltou, mesmo contrariada. Mas agora, ela tem vinte e quatro anos. Eu n�o posso for��-la a voltar. E nem sei onde est�. Ela levou meu Cherokee, mas dessa vez vou esperar ela dar not�cia.

 

         Morgan n�o conseguiu mais conter sua decep��o. Come�ou a chorar, dizendo entre l�grimas:

 

         -Irrespons�vel � um termo ameno para Shane! � Explodiu, desesperada e revoltada � Ela destruiu minha vida e agora esqueceu-me!

 

         Sean a fitou, espantada com seu desabafo.

 

         -Shane destruiu sua vida?! Como assim?

 

         Morgan a fitou, mordendo o l�bio inferior, contendo seu desespero � custo.

 

         -Eu... n�o posso falar mais nada � Disse, com voz tr�mula.

 

         A criada chegou com uma bandeja com  a jarra e os copos, depositando tudo sobre a mesa e se retirando discretamente. Sean encheu dois copos de suco e estendeu um para Morgan, dizendo suavemente:

 

         -Tome, beba. Vai sentir-se melhor.

 

         Morgan ia recusar, mas viu a express�o imperativa de Sean. Pegou o copo e o tomou de uma s� vez, sentindo o l�quido gelado e doce refrescar sua sede. Pousou o copo na mesa e fitou Sean, indecisa do que falar. Sean a fitou com calma e disse, com voz tranq�ila:

 

         -Por favor, conte-me o que houve, Morgan.N�o sei muita coisa sobre a vida que minha irm� leva e talvez voc� me ajude a conhec�-la melhor. S� sei que Shane adora sair de moto e chega no outro dia em casa, com cara de quem est� com ressaca.Queria entend�-la melhor.

 

         Morgan suspirou, encarando-a ainda indecisa.

 

         -H� coisas muito �ntimas de Shane que n�o posso dizer, Sean.

 

         Sean a encarou com firmesa. Morgan notou que ela era uma mulher determinada e decidida, sob aquele ar contemplativo.

 

         -Existem coisas de Shane que n�o sei, mas suspeito. Ela nunca se interessou por rapazes. Eles sempre deram em cima dela, por causa de sua beleza e situa��o financeira, mas ela nunca quis nenhum deles. Pensei que isso fosse por ela ser traumatizada pela morte de nossa m�e, como eu sou. Mas essas fugas inexplicadas em que ela nunca diz para onde vai, voltando somente no dia seguinte, escondem com certeza alguma rela��o conden�vel que ela tem e n�o quer que eu saiba. Nunca perguntei nada, por Shane � muito fechada comigo. Mas voc� deve conhecer esse lado de Shane melhor que eu. Ent�o, diga-me. Tenha certeza que estou de mente aberta e n�o quero condenar ningu�m, s� quero entender minha irm�. Talvez com isso eu possa ser mais amiga dela.

 

         Morgan a fitou com admira��o. Sean mostrava que era sensata, calma e compreensiva. O oposto de Shane. Sentiu que podia confiar nela.

 

         -Est� bem, Sean. Vou contar tudo. Espero que voc� n�o seja preconceituosa e n�o nos condene.

 

         -N�o serei, prometo.

 

         Morgan come�ou a falar. Contou como havia conhecido Shane, como tinha sido o passeio, como ficara louca por ela, o reencontro, as brigas, a fuga para New Orleans, a amea�a do av�, sua volta para casa, o div�rcio, o rep�dio de seus av�s e amigos.S� omitiu as cenas de sexo.

 

         Sean a ouviu im�vel e em sil�ncio. Somente o rosto mudou de express�o. Passou da surpresa inicial � profunda consterna��o, percebendo o desespero na voz de Morgan.

 

         -E agora que destruiu minha felicidade, ela esqueceu que eu existo! � Morgan completou, baixando a cabe�a, com l�grimas nos olhos � Estou completamente s�, sofrendo! �s vezes penso em cometer uma loucura, acabar com esse sofrimento todo!

 

         Sean pousou a m�o sobre a de Morgan, em um gesto de consolo. Sentia-se comovida com o sofrimento da garota.Tinha que tentar ajud�-la a sair daquele desespero. Afinal, ela  havia largado um bom casamento, havia sido repudiada pela fam�lia e amigos, tudo por causa de Shane! Falou com tom comovido:

 

         -Coragem, Morgan... breve Shane voltar�, tenho certeza. Ela � irrespons�vel e louca em suas a��es, mas sei que ama esse lugar. E quando ela souber que nosso pai faleceu, ela vai ficar transtornada por n�o ter estado aqui. Ela vir� correndo de volta. 

 

         Morgan a fitou de olhos arregalados.

 

         -O pai de Shane faleceu?! Quando?

 

         Sean a fitou calmamente.

 

         -H� quinze dias. Isso j� era esperado, ele estava com o cora��o muito fraco. Pessoalmente, penso que agora ele finalmente descansou. E quem sabe se minha m�e o perdoou e agora est�o juntos?

 

         -Eu... nem sei o que dizer. Meus p�sames.

 

         -Obrigada. Ou�a, n�o adianta se desesperar. Se voc� se sente t�o s�, pode vir aqui passar alguns dias. A casa � enorme, possui cinco quartos. Voc� ter� com quem desabafar seus problemas e eu terei uma companhia agrad�vel para conversar, tamb�m estou sentindo-me muito s� ap�s a morte de meu pai.

 

         Morgan a fitou cheia de gratid�o.

 

         -Faria isso por mim? Oh, Sean, obrigada! Voc� � t�o boa! Voc� n�o se  sente inconfort�vel por saber que fui amante de sua irm�? � Perguntou, timidamente.

 

         Sean a encarou s�ria.

 

         -Morgan, acho que qualquer forma de amar � sempre melhor que o �dio. Eu gostaria de ter capacidade para apaixonar-me, amar algu�m, mas acho que n�o nasci para isso. Nunca me apaixonei por algu�m.

 

         Foi a vez de Morgan a fitar com seriedade.

 

         -Talvez a pessoa certa ainda n�o surgiu em sua vida. Voc� ainda � jovem e bela, Sean. Ainda tem chance para descobrir o amor. Eu sofro por amar Shane, mas penso que � o sentimento que d� sentido � vida.

 

         Sean sorriu.

 

         -Ent�o, aceita meu convite? Gostaria que aceitasse. Eu nunca tive uma amiga para trocar id�ias  e distrair-me, as minhas responsabilidades sempre me impediram disso. Meu pai  exigia de mim muita dedica��o. Agora que ele se foi, n�o sei o que fazer com o tempo que disponho depois do trabalho.

 

         Morgan ergueu-se.

 

         -Aceito seu convite com muita gratid�o, Sean. Preciso de uma amiga como voc�, sensata e compreensiva. Quando posso vir?

 

         -Hoje mesmo, se quiser.

 

         -Prefiro vir na semana que vem. Preciso voltar � Dallas para uma audi�ncia marcada sobre meu div�rcio. Vou resolver alguns neg�cios e voltarei na sexta-feira, que acha?

 

         Sean sorriu.

 

         - Perfeito, Morgan. Por que n�o vem de helic�ptero? Eu sempre freto um helic�ptero quando venho para c�. Constru� um heliporto h� dez minutos daqui e meu capataz me apanha l� em um carro. Telefone para mim dizendo a hora que vai chegar e irei peg�-la � Disse, estendendo seu cart�o para Morgan.

        

         -Oh... est� bem...eu telefonarei avisando � Respondeu Morgan, guardando o cart�o no bolso da cal�a � Adorei  conhecer voc�, Sean.

 

          -Estarei esperando seu telefonema.

 

         Trocaram um aperto de m�o e Morgan desceu as escadas, entrando no jipe. Acenou e partiu.

 

         Sean ficou olhando o carro sumir na curva da estrada, pensativamente. Como conhecia pouco sua irm�! Pensava que ela andava metida com drogas e com marginais, devido sua vida misteriosa. Era um al�vio saber que ela n�o estava fazendo nada que a levasse � ser presa. Shane era gay. Sabia que muitas fam�lias encaravam isso como se fosse a pior coisa que um filho ou irm�o pudesse ser. Muitos pais diziam que preferiam ter  um filho assassino, que um filho gay. Uma triste distor��o de valores de uma sociedade hip�crita, que n�o admitia  as diferen�as individuais. Por isso o arco-�ris era um perfeito s�mbolo dos gays: o mundo n�o era somente em preto e branco, haviam v�rias cores e tonalidades na natureza.

 

         E ela n�o iria nunca repudiar sua irm� por ser diferente.

 

 

Continua na parte 12

 

10/02/2003

 

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