A  GAROTA  DA  MOTO

LETH CROSS

  

 

PARTE 1

                                        

Sentada ao lado do noivo, Jonnathan Spencer Lorrigan,  Morgan Laffayette olhou o seu  avô e pensou o quanto ele ficava feliz, em meio a tantas pessoas importantes. A festa era para festejar seu noivado, mas quem era mais cumprimentado não era ela e o noivo, mas sim seu avô, o senador Laffayette. O prestígio dele era grande e podia ser medido  pelo número de convidados ilustres, como os grandes fazendeiros da região, o prefeito de Dallas, o governador do Estado do Texas, três deputados, cinco senadores e vários empresários.

 

A mesa do buffet regurgitava de iguarias finas trazidas de um conhecido restaurante francês  em um jatinho  fretado pelo seu avô, direto de Paris. Bebidas como uísque escocês, champanhe Don Perignon, vinhos da mais fina qualidade eram servidos por garçons com luvas, aos convidados em trajes de gala. Uma orquestra contratada para o evento tocava blues  e fox-trot em um palco montado no imenso centro do gramado da mansão, com uma pista de dança.

 

Morgan suspirou tristemente. Era sempre assim, desde que seus pais haviam falecido em um desastre de carro. Ela tinha na época apenas dez anos de idade e havia ido morar com os avós. Eles a haviam criado com regras severas e decidindo tudo de importante em sua vida: em que colégio estudar, quem devia ter como amiga, quem ela podia convidar para suas festas de aniversário, onde e com quem sair, os rapazes com quem podia ir às festas do Country Club, o curso na universidade.

 

Quando havia conhecido Jonnathan na universidade de Havard,  havia ficado aliviada em saber que ele seria aprovado pelo seu avô. Educado e culto, aluno brilhante, filho de um banqueiro riquíssimo, tudo que seu avô considerava correto para ela. Mas às vezes ela se perguntava se havia escolhido Jonnathan para namorar por ele preencher os requisitos de seu avô ou porque o amava mesmo.

 

Olhou para o noivo. Era um rapaz de traços aristocráticos, louro de olhos azuis, alto e atlético. Um rapaz atraente, que muita garota ficaria louca para conquistar. Por que então não sentia quase nada quando ele a possuía? Por que o toque das mãos dele, o contato do corpo, os beijos, não a emocionavam como deveriam? Ouvia sua amiga falar sobre sexo com o namorado dela e tudo que a amiga dizia sentir, ela não sentia .

 

Ali sentada, estava entediada. Naõ queria aquela festa, estava ali como um troféu de seu avô, para ser exposta e admirada como exemplo da família. Morgan Laffayette, a neta do senador Laffayette, um modelo para a sociedade local. Bela, distinta, educada e obediente.

 

Uma súbita raiva dominou-a. Era isso. E Jonnathan também aceitava as imposições de seu avô. Concordava com tudo que ele dizia, mesmo sabendo que ela muitas vezes não estava de acordo, como se estivesse com medo de contrariar seu avô. E aquela servidão do noivo a irritava. Passiva, já bastava ela. Queria que ele combatesse as imposições de seu avô, mas ele não se atrevia a fazer isso. Era um covarde!

 

Ela sentiu uma intensa vontade de fazer algo que seu avô não aprovaria. Aquela festa parecia mais uma convenção política, que uma festa de noivado! Seu avô não a deixara convidar quase nenhum amigo!

 

Ela ergueu-se e Jonnathan a fitou. Ela o encarou desafiadoramente.

 

-Vou sair . Quer vir comigo?

 

 Jonnathan a fitou como se  tivesse dito que ia ficar nua.

 

-Sair?! Morgan, é a festa de nosso noivado! Não ficaria bem sairmos, temos de estar presentes até o fim!

 

Ela o fitou com frieza.

 

-Eu já esperava essa resposta. Você é previsível demais. Mas eu vou sair. Estou cheia de ficar aqui nessa festa que meu avô armou para receber seus amigos. Eu não a queria, lembra-se?

 

Jonnathan se ergueu nervosamente.

 

-Morgan, que está havendo?  Está sendo insensata! O seu avô não vai...

 

Ela o cortou:

 

-Está bem, fique aí quietinho, nessa festa chata! Tchau, Jonnathan!

 

E ela afastou-se decidida. Ninguém prestou atenção à ela. Afinal, os amigos de seu avô e tinham comparecido à festa por causa dele, sem conhecê-la.

 

Atravessou a multidão e foi em direção ao portão principal da mansão, andando entre os inúmeros carros estacionados. Percorreu a alameda calçada com pedras e saiu pelo portão, que nessa noite estava aberto, guardado por seguranças. Eles a fitaram curiosamente e ela sorriu para eles, saindo pelos portões.

 

Morgan olhou em volta, indecisa sobre o rumo a tomar.  Queria apenas sair dali e ficar sozinha um pouco, estava se sentindo usada pelo avô. A noite estava amena e a lua cheia iluminava suficientemente a rua que era pouco movimentada naquele trecho. A mansão do seu avô tomava um quarteirão inteiro e diante da mansão havia uma praça. Ela havia brincado muito naquela praça quando era uma criança e visitava os avós, quando seus pais eram vivos. Sorriu com a lembrança e resolveu atravessar a rua para ir à praça.

 

Tinha dado dois passos na estrada, quando o ruído de uma moto feriu os seus ouvidos e subitamente o veículo surgiu na curva em alta velocidade. Ela mal teve tempo de dar um pulo para trás, caindo na margem da estrada, enquanto a moto passava.

 

Ela deu um grito   e ficou ali caída, com o coração disparado de susto.

 

A moto diminuiu a velocidade  bem mais adiante e fez uma volta, regressando. A lua iluminou o vulto de esguio e alto que  parou diante de Morgan e saltou da moto. Pelos contornos da silhueta, era sem dúvida uma mulher, dona de um corpo de curvas perfeitas.

 

A mulher se aproximou   e perguntou com um tom nervoso na voz, estendendo a mão para Morgan:

 

-Machucou-se? Por Deus, não deu para eu parar à tempo!

 

Era uma voz de contralto, aveludada e gostosa de ouvir. Morgan aceitou a mão oferecida e ergueu-se. Morgan sentiu um agradável aroma de couro misturado com uma colônia que não identificou. Ergueu o rosto para fitá-la. A mulher devia ser uns trinta centímetros mais alta que Morgan. Ela tirou o capacete da cabeça e os longos e sedosos cabelos negros caíram pelos ombros largos e à luz da lua, Morgan fitou aquele rosto de traços parecendo cinzelados, de malares altos, nariz reto, lábios cheios, queixo forte e perfurantes olhos claros, que brilhavam à luz da lua. Era um olhar direto e penetrante, que deixou Morgan confusa e insegura. Aquela estranha era a mulher mais linda que havia visto pessoalmente, com um rosto e corpo de deusa. Morgan sentiu uma estranha reação ao olhar aqueles olhos que a fitaram questionadores, com uma perfeita sobrancelha erguida.

 

-Estou bem, não me machuquei...obrigada... - Respondeu Morgan fracamente, batendo no vestido para tirar a poeira.

 

A estranha sorriu, com os alvos e perfeitos dentes brilhando na penumbra.

 

-Teve muita sorte. Quase a atropelei. Você foi muito imprudente, atravessando a rua com o sinal aberto...

 

A voz não soou com recriminação. Na verdade, ela parecia estar admirando sua imprudência. Morgan a fitou com curiosidade. Quem era ela? Morgan sentia que a mulher tinha uma forte personalidade e uma presença marcante.

 

-Bem, não aconteceu nada sério... - Comentou Morgan, mais para falar alguma coisa. Maldição, aquela mulher a fazia ficar sem pensar coerentemente, como uma idiota!

 

A estranha colocou as mãos na cintura esguia, fitando-a com um leve sorriso.

 

-O que faz aqui numa estrada deserta, sozinha?

 

Morgan a fitou indicando o portão da mansão.

 

-Moro aqui. Saí para ir até a praça.

 

A morena olhou para a roupa de Morgan. Percebeu que era um vestido de festa e de alta costura, branco. A dona do vestido era linda, com cabelos louros cortados em um corte da moda, um rosto de traços angelicais e belos olhos verdes.

 

-Ah...estou ouvindo música... está havendo uma festa em sua residência?

 

Morgan a fitou com ar petulante.

 

-Sim, a festa de meu noivado.

 

A morena a fitou surpresa.

 

-Festa de seu noivado? E seu noivo deixou-a sair sozinha?

 

-A festa está muito chata e não quis ficar lá - Declarou Morgan, com rebeldia na voz..

 

-Oh... uma garota de atitude... como é seu nome?

 

-Morgan Laffayette - Disse, com orgulho.

 

A morena ergueu as sobrancelhas, surpresa. Deu uma curta risada,  que Morgan classificou como sexy.

 

-Ora, ora! O bebê Johnson!

 

Morgan a fitou franzindo o cenho, confusa.

 

-Bebê Johnson? Refere-se à mim?

 

A morena deu outra risada e tentou ficar séria, mas um sorriso continuou brincando em seu olhar. Morgan a fitou intrigada e aborrecida.

 

-O que é tão engraçado?

 

-Você - Foi a direta resposta - Não sabe que seu apelido é bebê Johnson?

 

Morgan a olhou indignada.

 

-Quem disse isso? Eu nunca a vi antes, como sabe que tenho até apelido?

 

-Ah, não conheço a garota. Eu ouvi ela comentando com uma amiga, em uma lanchonete. Ela disse que Morgan Laffayette é a "enfant gatè" dos avós. Comentou que você é comandada por eles, que até seu noivo foi escolhido por seus avós - Completou a morena, rindo.

 

Morgan sentiu o rosto esquentar de raiva. Então, era isso que pensavam dela! Como se ela fosse uma idiota, um robô comandado! Mal pôde protestar, com a raiva que sentia:

 

-E você acreditou em um absurdo desse, sem conhecer-me?

 

A morena encarou Morgan, sorrindo divertida.

 

-Ah, acreditei, sim. Mas agora, tendo conhecido você, começo a duvidar. Pensava que você era diferente.

 

-Diferente, como?

 

-Com cara de otária. Mas vejo que tem um olhar inteligente e reage normalmente às situações. Essa carinha de zangada não é a de uma idiota. E ter saído da festa de seu noivado foi um belo ato de coragem.

 

Morgan não sabia se sentia-se insultada ou elogiada. A morena falava com tanta sinceridade, que não podia levá-la à mal. E o sorriso dela era tão caloroso, que a fez apenas protestar:

 

-Não sou uma idiota! Apenas procuro não aborrecer meus avós. Eles querem o melhor para mim.

 

A morena a fitou com um estranho brilho no olhar.

 

 

-Não duvido. Mas o que eles acham melhor para você pode não ser realmente o melhor . Se ama seu noivo, por que não está feliz com ele, na festa?

 

Morgan a encarou. Era uma boa pergunta. E nem ela sabia a resposta.

 

A morena tirou a luva de couro da mão direita  e a estendeu para Morgan, sorrindo.

 

-Acho que é hora de apresentar-me. Meu nome é Shane -Disse, omitindo o resto do nome. <

 

Morgan apertou a mão dela. Era uma mão macia e quente, que a fez ter um arrepio quando a tocou. Ficou surpresa. Nunca alguém, homem ou mulher, havia provocado aquela reação nela com um simples aperto de mão.

 

-Muito prazer, Shane... - Disse, com voz trêmula.

 

Shane largou a mão de Morgan e falou, fitando-a nos olhos:

 

-Ouça, já que não está gostando da festa de seu noivado, que tal sair comigo e se divertir um pouco? Estou indo para uma danceteria  interessante. Quer ir comigo? Isso é, se você não é mesmo o bebê Johnson que a apelidaram... - Completou com ironia.

 

Morgan se sentiu desafiada. Shane a fitava com desafio e Morgan retribuiu com um olhar altivo.

 

-Vou mostrar à você que sou dona de meu nariz, Shane - Declarou, entredentes  -  Vamos à essa danceteria.

 

 

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A Harley Davidson  negra modelo Fat Boy corria velozmente pela estrada. A potente máquina roncava, com sua potência sendo colocada à prova naquela velocidade louca.

 

Agarrada às costas de Shane, Morgan pensava o que a fizera aceitar aquele convite , vindo de uma estranha, andando em um veículo que nunca pensara um dia viajar, pelo medo que sentia, e para um lugar que nem sabia onde era.

 

O que a fizera acompanhá-la? Não sabia nada sobre ela, além do primeiro nome. O que aquela moça fazia na vida, como vivia, onde morava, era desconhecido.

 

E por que se importara com a opinião de uma estranha sobre ela?Por que queria provar à Shane  que não era tão dependente  de seus avós, o "Bebê Johnson" como havia sido chamada? Não tinha resposta à isso tudo.

 

Para se proteger do vento que chicoteava seu rosto, Morgan apertava sua cabeça contra as costas de Shane.E isso a fazia ficar mais unida ainda ao corpo dela, podendo sentir o perfume delicioso do corpo felino e flexível que parecia fazer parte da máquina que as conduzia, acompanhando todas as inclinações que a moto fazia nas curvas. Agarrada à ela, rodeando-a pela cintura com os braços, Morgan  sentia a maciez e quentura daquele corpo provocar nela uma estranha sensação.

 

Nunca havia estado em contato tão próximo de uma mulher, e aquele contato transmitia à ela sensações que nem Jonnathan alguma vez conseguira transmitir. Nunca antes tivera tanta noção de um corpo junto ao seu como agora. Cada movimento dos músculos do corpo que se movia junto ao seu a fazia tremer de excitação, sentindo uma louca vontade de apertar-se contra Shane ainda mais. Seu sexo latejava, denunciando o desejo que crescia em suas entranhas com aquele contato.

 

Eu enlouqueci - Pensou, surpresa consigo mesma.

 

A moto diminuiu a velocidade, saindo da estrada e entrando em um bairro de ruas pouco iluminadas. Minutos depois Shane parou a moto diante de um estabelecimento com  um  letreiro  em  neon  azul  que  anunciava  simplesmente: Halles Dance. O estacionamento da danceteria tinha mais motos que carros.

 

Shane tirou o capacete e sacudiu os cabelos, voltando-se para Morgan. Seus olhos estavam com uma expressão divertida.

 

-Vamos entrar, Baby. Será interessante você conhecer uma faceta da vida que ainda não conhece, na redoma que seus avós a colocaram.

 

Morgan desceu da moto, sentindo a perda da tepidez do corpo de Shane. Olhou-a colocar o capacete pendurado no guidon da moto e tirar as luvas de couro negro. Ela pegou Morgan pela mão e se dirigiram para a entrada da casa noturna. Um homem negro enorme  de blusão de couro estava diante da porta, mas afastou-se sorrindo e abrindo a porta para Shane entrar.O som da música alta veio até elas.

 

-Olá, Shane! -cumprimentou ele - Pode deixar, tomarei conta de sua moto como sempre.

 

Ela parou, sorrindo para ele.

 

-Obrigada, Andie - Disse, tirando do bolso dez dólares e dando ao homem - Conto com isso.

 

Morgan aproveitou para olhar Shane sob a luz da portaria. Era mesmo exótica e bela. O corpo de curvas perfeitas movia-se com graça e imponência, naquele macacão de couro  negro colante, complementado por botas de cano longo. Seus olhos eram de uma tonalidade azul-piscina, belos e magnetizantes.

 

Shane a puxou pela mão e elas entraram na danceteria.

 

Morgan parou, olhando em volta curiosamente. Nunca havia ido à uma danceteria antes. Seus avós diziam que era um ambiente  podre, em que rolavam drogas e sexo. O que viu foi uma pista cheia de gente dançando, luzes coloridas piscando dos estroboscópios, uma música pulsante que mexia com o corpo.

 

Shane a puxou pela mão, fitando-a sorrindo.

 

-                           Você estava morrendo de medo de andar de moto, não é, Baby? - Perguntou, com ar divertido.

-                            

Morgan fitou-a com o cenho franzido.

 

-Acho que não mereço mais esse apelido! Não vim com você?

 

-Ainda é cedo para mudar minha opinião, Baby. Vamos ver como se comporta aqui.

 

Shane conduziu Morgan para uma mesa onde duas mulheres estavam sentadas. Elas viram Shane chegar e sorriram.

 

-Shane! - Gritou uma delas, erguendo-se - Pensei que não viesse mais!

 

Shane parou diante dela, segurando a mão de Morgan.

 

-Tive um pequeno contratempo que atrasou-me - Declarou, sorrindo.

 

A mulher olhou para Morgan de cima à baixo, especulativamente. Sorriu com malícia, olhando para Shane.

 

-E que contratempo, hein, Shane? Por Deus!

 

Shane riu, passando o braço protetivamente pelos ombros de Morgan, como que para protegê-la.

 

-Jamie, ela não é do meio.Só veio conhecer. Vá devagar com suas palavras.

 

Jamie puxou uma cadeira para Morgan, como um homem faria.

 

-Sente-se, boneca.

 

Morgan sentou, olhando para a moça constrangida.Shane nem se dera ao trabalho de apresentá-las. Ela continuou de pé, conversando com a tal de Jamie.Morgan olhou para Jamie com mais atenção e notou que ela estava com roupas masculinas. Camisa  social de homem, gravata, um casaco e calças jeans. Os cabelos eram curtíssimos e não usava nenhuma pintura.

 

Desconfiada, olhou em volta mais atentamente. E percebeu que os casais que dançavam não eram homem e  mulher, mas sim duas mulheres. Ela estava em uma danceteria de lésbicas!

 

Olhou para Shane, chocada. Não era tão ingênua como Shane provavelmente pensava, para não saber a existência desse tipo de gente. O que a chocava era Shane a ter levado ali sem avisá-la! Como tivera coragem de a expor naquele lugar? Era uma delas? Tudo indicava que sim, pois não iria frequentar aquele lugar se não fosse uma delas!

 

Os anos de condicionamento dos avós incutindo preconceitos em sua cabeça levaram a melhor sobre Morgan. Ela olhou com medo em volta, como se fosse ser agredida sexualmente por alguém.

 

-Não fique com medo. Ninguém vai agarrar você. Pelo menos, se não quiser.

 

Morgan olhou para a moça que acompanhava Jamie.Ela havia feito esse comentário sorrindo para Morgan. Ao contrário de Jamie, ela era bem feminina na aparência, usando um vestido negro curto e maquiada.

 

-Não estou com medo - mentiu Morgan - Mas confesso que estou chocada. Nunca havia ido a um lugar como esse.

 

-Eu entendo. A primeira vez que vim aqui, fiquei chocada. Mas depois acostumei-me.

 

Morgan a fitou com reprovação.

 

-Bem, eu não quero acostumar-me a um lugar como esse.

 

A moça a fitou com um sorriso afetado.

 

-Eu também disse isso, mas estou com Jamie há dois anos.

 

Morgan a fitou sem entender.

 

-Está com Jamie? Como assim? Mora com ela?

 

A moça riu, esclarecendo:

 

-Eu e Jamie somos amantes há dois anos. Nós nos amamos.

 

Morgan emudeceu. Não sabia o que dizer. Olhou para Shane, que continuava a conversar com Jamie, rindo, de costas para ela. Impacientou-se. Levantou e pousou a mão no ombro dela. Shane voltou-se, sorrindo para ela.

 

-Está querendo uma bebida? Diga o que quer beber e vou pegar para você.

 

Morgan sacudiu a cabeça, irritada.

 

-Por que trouxe-me aqui, Shane? Acho que devia ter me consultado se eu gostaria de vir a um lugar desse tipo!

 

Shane a encarou deixando de sorrir.

 

-Não está gostando? Pensei que apreciaria ver algo diferente de sua vidinha pacata.

 

-Minha vida não é pacata, mas feliz! - Protestou, com irritação crescente - Estou noiva, acabei de formar-me em Havard em literatura e tenho uma vida muito boa!Não preciso conhecer esse lado sujo da vida!

 

Os olhos de Shane pareceram congelar.

 

-Oh,   parabéns... - Disse ela com ironia - Vai se casar ccom o amor de sua vida, ter belos filhos com o maridinho ... tudo muito certo e previsível como seus avós desejam.Isso, vá em frente, senhorita certinha.

 

Morgan a fitou sentindo o sangue ferver, com a provocação.

 

-E você? Se julga a tal, não é? Trouxe-me aqui para divertir-se às minhas custas, porque gosta de ridicularizar as pessoas decentes!

 

O olhar de Shane mostrou que isso a magoou.

 

-Está enganada, baby. Eu a trouxe aqui para que pudesse conhecer melhor o mundo que vive. Não imaginava que fosse preconceituosa.

 

-Oh, você pensa que eu não sabia da existência dos gays e lésbicas? Sou uma garota inteligente, Shane! Estamos no terceiro milênio! Não preciso vir num antro como esse para conhecer o que existe de sórdido no mundo!

 

Os olhos de Shane mostraram sua decepção com suas palavras.

 

-Você está sendo grosseira, com sua atitude superior. Devia ser mais sensível com as diferenças das pessoas.

 

Morgan olhou para as duas amigas de Shane, que a fitavam em silêncio. Reconheceu sua falta e suspirou, dizendo arrependida olhando para o chão:

 

-Está bem, reconheço minha falta, desculpem-me...não tenho o direito de ofendê-las com minhas impressões.

 

Shane sorriu, o olhar amenizando.

 

-Eu também errei, não a consultando se queria conhecer esse tipo de lugar - Disse Shane, pegando-a pela mão - Venha, vamos dançar. Verá que aqui é um lugar quase como outro qualquer e ninguém vai mordê-la.

 

Morgan pensou em recusar, devido ao seu  nervosismo. Mas dominou seu receio e seguiu Shane para a pista.

 

Shane voltou-se e a tomou nos braços. O sucesso de Shania Twain You're Still the One começou a tocar e Morgan estremeceu ao sentir o corpo dela contra o seu  e passou o braço pelo pescoço dela, curiosa com o que poderia sentir com um contato maior com Shane.

 

Um arrepio percorreu seu corpo quando se tocaram. Shane a segurou delicadamente pela cintura, sem apertá-la, deixando-a à vontade para se aproximar ou não.A outra mão segurava a sua contra o peito, transmitindo um calor gostoso que fez Morgan suspirar.Sem perceber, apertou-se mais contra aquele corpo macio e perfumado. Morgan percebeu a grande diferença do corpo de uma mulher para o de um homem, além do óbvio. O cheiro do corpo de uma mulher era suave e doce, o do homem era agreste e selvagem, onde um era macio, com curvas suaves e delicadas, o outro era duro e quase reto, o homem possuía pele áspera, enquanto a mulher possuía pele macia. Era uma completa oposição de cheiro e tato que deslumbrou Morgan. Gostou daquelas diferenças que sentia em Shane. Ela era muito atraente, reconheceu.

 

Novamente sem se dar conta do que fazia,descansou a cabeça no ombro de Shane.

 

A morena estremeceu e pousou o queixo na cabeça de Morgan, as narinas aspirando o cheiro dos cabelos dela.

 

Morgan fechou os olhos. Era tão bom dançar com Shane! Uma excitação absurda começou a crescer em seu corpo, contra sua vontade. Teve medo do que sentia.

 

Shane afastou o rosto e a fitou nos olhos, erguendo seu queixo com os dedos. Ela parecia perturbada, respirando pesadamente.

 

-Morgan... sabe que é linda? - Sussurrou .

 

Morgan a fitou com um sorriso malicioso.

 

-Você deve dizer isso para todas as mulheres que conhece. Você deve ser uma conquistadora terrível, Shane.

 

Shane sorriu e Morgan pensou que nunca havia visto um sorriso tão lindo como aquele.

 

-Não me julgue tão mal...estou sendo sincera. Você é uma garota que pode virar a cabeça de qualquer um.

 

-Vou fingir que acredito em você...

 

-Duvida? Posso provar isso? - Shane perguntou com uma voz rouca e aveludada, e um sorriso sedutor.

 

-Como?

 

Shane desceu o rosto e esmagou os lábios nos seus, em um beijo inesperado e ardente. Morgan estremeceu ao sentir aqueles lábios macios contra os seus, num beijo roubado. Mas dominou a emoção e empurrou Shane, fitando-a com reprovação. Shane sorria com malícia.

 

-Por que fez isso? Não lhe dei esse direito!

 

O sorriso de Shane se acentuou.

 

-Não gostou?

 

Morgan desvencilhou-se dos braços dela, não querendo admitir para si mesma que havia adorado aquele beijo macio e quente, que provocara em seu corpo uma excitação louca. O que sentia a assustou. Não era uma lésbica, para gostar do beijo!Fitou-a com frieza.

 

-Não, não gostei! - Afirmou, com ênfase - Está confundindo-me com uma dessas mulheres daqui, mas está enganada!

 

Shane deixou de sorrir. Seu olhar se congelou.

 

-Garota, não me julgo irresistível, mas sei quando uma mulher gosta do meu beijo! E você gostou, mas não é honesta para admitir isso.É tão dissimulada, que está noiva de um homem que não ama!

 

Morgan enrubesceu, fitando-a com raiva.

 

-Quem pensa que é, a dona da verdade? Você mal me conhece, para poder julgar-me!

 

Um brilho de cólera passou pelos olhos de Shane.

 

-Está bem, não vamos discutir mais. Você é do tipo que vive apenas de aparências, escondendo o que realmente deseja, o que realmente é. Pois case com o trouxa do seu noivo e prossiga com sua vidinha medíocre!

 

A mão de Morgan se abateu no rosto de Shane numa sonora bofetada. E antes que ela pudesse reagir, Morgan saiu correndo da danceteria.Na rua, parou indecisa, olhando em volta. Onde estava? Não conhecia aquele lugar, estava perdida! E não tinha nenhum dinheiro para pegar um táxi. Se é que naquela rua escura passava algum táxi...

 

Ficou com medo, mas não voltou para dentro daquele lugar.Estava furiosa com Shane. Aquela mulher imoral, que frequentava um ambiente de lésbicas!Claro, era uma delas!

 

Shane saiu da danceteria e olhou em volta. Seu olhar mostrou alívio quando a viu. Aproximou-se lentamente.

 

-Vamos embora - Disse, com expressão fechada - Vou levá-la para casa.

 

Morgan se afastou, andando pela rua.

 

-Morgan! Espere! Não pode ir por aí sozinha!- Chamou Shane.

 

Morgan não respondeu. Continuou andando, tropeçando no calçamento irregular.Andou uns dez metros quando ouviu a moto seguindo-a. O veículo a alcançou e Shane emparelhou com ela.Morgan nem a olhou, continuando a andar.Morgan subiu na calçada, atravessando a moto diante dela. Morgan parou e a fitou com raiva.

 

-Saia da minha frente!

 

-Baby, pare! É perigoso andar por aí sozinha, esta hora!

 

-Meu nome é Morgan! E não baby! E não quero andar com você, prefiro ir à pé para minha casa, a sentar nessa moto!Você não sabe respeitar uma pessoa!

 

Shane desceu da moto e a pegou pelo braço.

 

-Ok, seu nome é Morgan. Agora, suba na moto. Não quero ser responsável por você ser estuprada nessa rua deserta. Venha!

 

Morgan se desvencilhou com um puxão.

 

-                           Não vou! E não me toque!

-                            

Shane a fitou com raiva, colocando as mãos na cintura.

 

-Quer saber de uma coisa, garota mimada? Que se dane! Vou embora e você vai ficar aí sozinha!

 

Ela subiu na moto e a acelerou, afastando-se rapidamente. Morgan ficou olhando. Quando viu que Shane estava distante, um medo profundo a assaltou. Ela saiu correndo atrás, gritando:

 

-Shane! Espere! Eu vou com você! Volte!

 

A moto diminuiu a velocidade e parou.  Morgan aproximou-se correndo. Chegou perto de Shane ofegante, olhando-a com receio. Shane a fitou em silêncio e colocou o capacete. Respirou fundo e disse:

 

-Suba.

 

Morgan subiu na moto e rodeou a cintura de Shane. Ela arrancou, aumentando a velocidade aos poucos.

 

Não trocaram nenhuma palavra no trajeto de volta. Morgan acalmou e se arrependeu das palavras que havia dito para Shane, mas era muito orgulhosa para desculpar-se.

 

Seu corpo junto ao de Shane, sentindo a maciez, o calor e o suave perfume, a deixava extremamente excitada, e ela foi forçada a admitir que Shane a atraía como nunca alguém antes conseguiu.Era uma sensação tão forte que não podia lutar contra.

 

Shane parou diante do portão de sua residência, meia hora depois. Morgan desceu da moto e a fitou hesitante, sentindo a perda do delicioso contato do corpo dela.

 

-Apesar de tudo, obrigada pelo passeio... foi... diferente - disse, baixo.

 

Shane a encarou, através do visor do capacete. Não disse nada e arrancou com a moto. Morgan ficou olhando-a afastar-se até sumir na curva da estrada, se conscientizando  de repente que estava lamentando o modo como haviam se separado. Havia deixado seus medos comandarem seus atos e palavras e havia magoado Shane. E agora, percebia que gostaria muito de vê-la novamente.

 

continua na parte 2

 

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