Desde Sempre
Paula Marinho
Capítulo VI
Final de 1987
- Eu não vou poder ir.
- Como não vai pode ir? Vai ser o máximo. Faz pelo menos uns mil anos que os três colégios não se unem em um único acampamento de final de ano. É o evento do século!
- Eu sei que vai ser legal, Liz, e também sei que não poderei ir.
- Conversa! Eu me lembro de que você teve caxumba no ano passado. Mero azar...
- E no ano anterior? – Fabiana perguntou com algum divertimento.
- Ué... – Liz falou pensativa. – Você também não foi...
- Deixa eu te dar uma dica: eu nunca tive caxumba.
- Mas isso não é possível, Fab... Opa! É perfeitamente possível, sim. A sua mãe...
- Pois, é. Minha mãe nunca me deixou ir ao acampamento. Três dias sozinha é tempo demais longe da vigilância dela.
- Ai, meu São Cipriano, eu tinha esperança de que a marcação cerrada tivesse diminuído.
Liz se referia ao fato da mãe de Fabiana não mais implicar com as atividades esportivas da filha. Tudo graças ao novo padre alemão cujas idéias sobre saúde espiritual passava por uma boa saúde corporal que não dispensava os cuidados higiênicos de uma prática esportiva adequada. Está bem que nem a postura pró-esporte do padre fez D. Eulália julgar adequados o arremesso de peso e o lançamento de dardo para uma mocinha, mas, se a escola perdeu uma excelente atleta de campo no atletismo, ganhou uma jogadora nos esportes coletivos completamente relaxada do medo contínuo de ser descoberta.
- Poxa, Liz, uma coisa é a minha mãe achar que um pouco de esporte pode ser benéfico à educação de uma jovem senhorita, outra coisa é me deixar dormir fora por duas noites.
- Caramba, Fabi, eu nunca conheci uma pessoa tão cabeça dura quanto a sua mãe.
Fabiana apenas suspirou e acenou com a cabeça em conformidade.
- A não ser... – Liz sorriu daquele jeito maquiavélico.
- A não ser? – a morena perguntou já um pouco ansiosa com aquele sorriso que ela conhecia bem.
- A não ser a Irmã Maria.
- A Irmã Maria?!
- Minha cara Fabiana, só existe uma coisa maior que a tenacidade da Irmã Maria.
- O que?
- Deveras simples, meu caro e inocente "Watson"¹: a competitividade. Lembra de como ela fica quando estamos jogando?
- Ô, se me lembro. Ela grita mais alto que o ginásio inteiro.
- Exatamente! Então... Pode deixar tudo comigo.
- O que você vai fazer? – Fabi perguntou com uma réstia de esperança bem no fundo do coração.
- Te levar para o acampamento, oras.
- Como? Você sabia que me dá um certo medo quando você fala com essa convicção de "já está feito" mesmo antes de tudo acontecer?
- Bobagem! Eu confio em minhas invulgares capacidades e prometo que jamais usarei os meus poderes para o mal. Está bem assim?
- Liz!
- Relaxa.
- Como? Eu fico mais tensa que o Cascão frente aos planos infalíveis do Cebolinha².
- Com uma pequena diferença, Fabi: os meus planos dão certo.
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No último jogo do campeonato estudantil contra o Externato São José - uma partida de vôlei especialmente difícil, na qual a Irmã Maria quase perdeu a voz e a compostura no set decisivo - Liz deixou escapar logo após a euforia da vitória que havia escutado sem querer a Irmã Ana do São José dizer que a vitória mais significativa do ano não era aquela, e sim o troféu da tríplice coroa de vencedor dos jogos programados para o acampamento conjunto entre os colégios católicos da cidade. Este, incontestavelmente, um troféu de tradição.
- O troféu?
- É, Irmã, o troféu. Aquele mesmo que não enfeita a sala de troféus do colégio há cinco anos. Mas, não se preocupe, Irmã Maria, nós vamos recuperá-lo. Temos times melhores em diversos esportes. Bom...quero dizer, se tivermos Fabiana, é claro. Bobagem minha, obviamente. Fabiana vai estar no acampamento, não é mesmo?
Irmã Maria olhou com os olhos esbugalhados para a loirinha que se despediu com um sorriso cândido.
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Fabiana levou um susto quando abriu a porta da casa e se deparou com a Irmã Maria hirta como um poste perguntando polidamente por D. Eulália. Fabi fez entrar a freira e foi chamar a mãe, mas, infelizmente só conseguiu ouvir os cumprimentos polidos de praxe. Em seguida, as mulheres mais velhas foram para o escritório e Fabi ficou sozinha com a sua curiosidade mortal. Meia hora mais tarde, Irmã Maria saiu do recinto, despediu-se rapidamente de Fabiana e foi embora. A menina voltou-se para a mãe quase roendo as unhas de apreensão, mas D. Eulália nada falou de imediato. As novas vieram à hora do jantar.
- Fabiana?
- Sim? – a menina olhou para a mãe tentando aparentar serenidade.
- Irmã Maria veio falar do acampamento de fim de ano.
Atenção e mudez.
- Você vai.
Fabiana puxou o ar como num susto, mas disfarçou imediatamente e fitou a mãe com a maior fleuma que conseguiu. D. Eulália continuou:
- Com uma condição. Você vai dormir no dormitório com as freiras e se você fizer qualquer coisa minimamente inadequada eu serei informada imediatamente e seu passeio cancelado. Estamos entendidas?
Silêncio e estupefação.
Estamos entendidas, Fabiana?
- Cla-claro, mãe.
O resto do jantar correu lento para a ansiedade de Fabiana. Quando terminou, Fabi seguiu o mais rápido que pode para o quarto desejando ardentemente falar com Liz, mas ela não tinha telefone. A novidade teria que esperar até o dia seguinte. A morena fechou a porta do quarto atrás de si e relembrou mais uma vez as palavras da mãe. Um sorriso enorme começou a se desenhar em sua boca e antes que explodisse, correu para a cama e enterrou o rosto no travesseiro soltando o grito de alegria que lhe estava preso na garganta. Abraçou o travesseiro de lado sob a cabeça e olhou para a janela aberta. Nunca a brisa tépida do fim de primavera lhe parecera tão agradável. Em seguida, olhou para o teto e pensou que Liz deveria ter algum poder mágico recôndito. Era realmente uma incógnita como ela conseguia fazer as coisas acontecerem.
Absolutamente incrível.
Liz era
incrível.
1993
O primeiro dia do ano de 1993 amanheceu com uma chuva fina e insistente. Todos na casa levantaram tarde e meio contaminados pela manhã tristonha. Trocaram bons dias sonolentos e pouco loquazes. Liz e Taís tomaram café na cozinha, caladas. O certo é que após o episódio com Fabiana na praia, Liz ficara apenas mais uma hora na festa após a passagem do ano e pretextando uma dor de cabeça insuportável, despediu-se da namorada intrigada e um pouco chateada com aquela repentina mudança de humor. Mas é que, para Liz, a festa havia esvaziado de graça e sentido.
A manhã surgiu como a alma de Fabiana – escura e chorosa. A morena abriu a janela, reparou no céu cinzento e pensou que o firmamento era hoje a sua mais perfeita tradução. Não se lembrava muito bem do que acontecera depois da conversa na praia. Sabia que voltara para a festa e bebera uma taça de vinho por minuto até que Caio, preocupado, a levara sutilmente para o quarto para conversar.
A conversa não aconteceu.
Fabiana pediu para se deitar um pouco e quando o jovem médico a colocou na cama, a morena dormiu quase que instantaneamente. Caio apenas retirou-lhe os calçados, ajeitou-lhe o travesseiro e a coberta e a beijou com carinho. Fechou a porta do quarto pensando no que estaria acontecendo com a namorada nos últimos dias que a estava deixando tão perturbada.
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- Eu estou ótima, Taís! – Liz exclamou um pouco inquieta.
- Liz, você ficou estranha de repente ontem à noite e se levantou esta manhã como uma canção de Maysa – melancólica e dolente.
- Opa, cuidado, não ouse criticar a Maysa.
- Eu não disse que você acordou menos bela ou interessante, apenas um tanto...jururu.
Liz sorriu carinhosamente.
- Eu sei, meu bem. Não é nada. Apenas uma indisposição.
- Comigo? – Taís perguntou abraçando a namorada pela cintura e dando-lhe um beijo rápido nos lábios.
- Nunca. Eu já não sei se sobreviveria sem sua lucidez e calma cheias de delicadeza ou do seu humor tão preciso e agradável.
- Então, não viva. Venha morar comigo.
- Opa! Isso é um pedido? – Liz tentou brincar.
- Acho que está mais para uma simples constatação: a gente se dá bem, nossos sentimentos me parecem verdadeiros e mútuos, você passa mais tempo em minha casa do que na sua, e...bom...eu realmente sou louca por você. É, talvez seja um pedido, sim. Um pedido de início de ano. O que acha?
- É complicado – Liz tentou desconversar.
Taís soltou-a do abraço e a olhou com firmeza. Liz virou o rosto para a janela e explicou:
- Eu e Fabi moramos juntas há apenas um ano. Nós...Ela lutou muito por esta conquista junto a uma mãe que você nem queira saber o quanto é manipuladora e insuportável e que fez de tudo para que Fabiana não vivesse com a amiga que ela considera, na melhor das hipóteses, uma péssima influência: eu!. Não é justo abandoná-la agora.
- Ora, Liz. Pelo jeito que as coisas vão, eu duvido que a sua amiga fique mais um ano solteira. Meu irmão está mais do que amarrado. Ela também me parece bem disposta a um compromisso. Pelo que eu sei, até a mãe dela, que você disse que é insuportável, parece aprovar a relação. Logo...
De fato, Liz se lembrava, Fabiana havia levado Caio à casa da mãe ainda no meio do ano. Muito mais pela insistência do namorado do que pelo eterno receio da morena para com a mãe. Contudo, apesar da prevenção perene de D. Eulália, a estirpe irretocável e a carreira promissora de Caio não a desagradaram. Assim, o romance foi devidamente aprovado. Fabiana voltou feliz e aliviada e Liz, mesmo estando muito bem com Taís, não pode evitar que um ciúme sorrateiro lhe invadisse o estômago quando Fabi lhe contou dos bons auspícios da visita.
- Eu sei, Taís. Mas, ainda assim, eu não vou fazer isso com a Fabiana.
- Eu não entendo! – Taís falou mais alto que o normal elevando os braços em impotência. – Parece que só você que não nota que esta menin...que Fabiana está te tratando com uma irritação mal disfarçada há um bom tempo.
- Não é bem assim.
- Quase com impaciência!
- Não é nada disso. Você não a conhece.
- Poxa, Liz. Eu sei que ela é uma gracinha e, tudo bem!, tem toda a história da amizade de vocês e blá, blá, blá, mas será que esta convivência está dando mesmo certo?
- Eu...olha, Tá, não é que eu não queira morar com você, mas é que...é que eu não posso.
- Não pode ou não quer?
Silêncio.
- Fala comigo, Liz. Você parece grudada nessa menina. Uma siamesa espiritual, sei lá, uma dependente química. Você acha que eu não percebi que você ficou estranha depois que voltou da praia ontem à noite? Eu vi que a Fabiana foi atrás de você e...
Taís parou de falar e fitou a namorada como se tivesse pensado em algo pela primeira vez na vida. Liz sentiu o ventre gelar. Taís falou devagar.
- Fabiana também ficou esquisita e foi dormir quase dopada. Vocês mal se falaram agora pela manhã. Coisa estranha para duas melhores amigas. Liz...qual a natureza da relação de vocês?
- O que? Ora, todo mundo sabe, Fabiana é...
- É o que, Liz?
Os olhos verdes se encheram de lágrimas como se já estivessem cansados de reprimi-las. Taís abriu a boca em descrédito.
- Meu Deus!
- Taís, eu...
- Você a ama.
- É claro que eu a amo. Ela é a minha melhor...
- Não!
VOCÊ A AMA.
1987
Chegaram à chácara do colégio às dez horas de um sábado ensolarado. A pequena viagem de pouco menos de uma hora fora uma sucessão de pequenos eventos que ilustravam a alegre algazarra que começara desde o embarque dos alunos, para o desespero das freiras e trabalho dos professores que tentavam conter os empurrões, as piadas e a cantoria de duplo sentido que duraram todo o percurso.
Sentada em um dos ônibus ao lado de Liz que liderava o coro de vozes adolescentes descontroladas, Fabiana pensava no quanto havia perdido deste delicioso alvoroço. É certo que já havia experimentado o gostinho de pequenas excursões com o time da escola, mas nada parecido com aquela massa de jovens excitados e nem com aquele riso frouxo, meio sem sentido que tomava conta de todos os seus colegas.
Desceram.
A chácara se localizava à beira de uma represa calma e larga. Continha uma sede simples onde ficavam os aposentos das freiras, um balcão onde ficavam o refeitório e a cozinha e um enorme gramado que circundava tudo com um campo de futebol e uma rede de vôlei. Mais adiante, um pequeno bosque completava o lugar simples e agradável.
Aquele não seria um acampamento comum. Neste ano, o colégio receberia a visita de outras duas instituições católicas para a realização dos jogos de verão, tradição de mais de quarenta anos chamado pomposamente de Tríplice Coroa.
Os alunos se acomodariam em barracas de vinte lugares gentilmente cedidas pelo comando do batalhão do exército da cidade que sempre ajudava as freiras em tudo o que podia. Cada barraca seria vigiada por um professor que arriscaria a sanidade para conter duas dezenas de infernais adolescentes.
- Aonde você vai ficar, Liz? – Fabiana perguntou ao sair do ônibus.
- Numa daquelas barracas com bandeira vermelha. As barracas com bandeiras azuis são as dos meninos – explicou a loirinha segurando a mochila com uma das mãos e apertando o colchonete com o outro braço. – É uma bagunça a noite inteira. A professora encarregada da barraca quase vai à loucura – riu.
- Deve ser muito legal – Fabi comentou com um pouco de desapontamento.
Liz colocou a mão no ombro da melhor amiga.
- Ei, você está aqui, não está?
Fabiana olhou para aquele tumulto todo e respondeu:
- É. – abriu um sorriso maravilhoso para Liz que sentiu o ártico soprar-lhe no estômago. - Eu estou mesmo aqui, não é, Liz? E graças a você. Sempre graças a você. – Fabi disse e abraçou forte a pequena amiga.
- Tá, tá, Fabiana – Liz falou depressa afastando a amiga antes que suas pernas virassem geléia. - Tente parar de me esmagar e vamos nos acomodar.
Contudo, o Destino é uma entidade definitivamente muito irônica.
Logo depois da chegada, o belo dia de sol deu lugar a uma tempestade de verão digna de cinema catástrofe norte-americano. As barracas esvoaçavam ao sabor da ventania ensandecida e as pessoas se refugiaram no galpão onde a chuva levada pelo vento ainda conseguia açoitar as pernas dos mais próximos. Depois, despencou um aguaceiro ainda mais denso, embora sem o vento de antes. Por fim, a chuva dissipou-se da mesma forma que havia chegado e um sol de cegar apareceu como se nada tivesse acontecido.
As pessoas saíram para o gramado e se depararam com as conseqüências da intempérie. Galhos quebrados por toda parte, uma árvore caída perto do bosque. Alguns galões de metal que serviam de lixeira tombaram e espalharam lixo por todo lado, um deles rolara para a represa e boiava perto da margem. Felizmente, as barracas agüentaram bravamente, pois as amarras ainda soltas fizeram com que a lona se erguesse e permitisse ao vento passar por elas levantando-as como bandeiras, mas com as estacas firmes no chão. Como não tiveram tempo de se instalar, a maioria dos pertences dos alunos estavam ainda nos ônibus ou em mãos, de modo que quase nada se molhou expressivamente. No mais, aquela fúria natural só serviu para deixar os meninos ainda mais excitados como sobreviventes de um pequeno caos natural. Algo para se contar o resto da vida. Todos correram a limpar e a organizar alegremente o local. Ainda tinham muitas horas de sol e tudo estaria seco até à noite.
Mas nem tudo passou incólume pela chuva. A ventania arrancou parte do telhado da casa das freiras e molhou impiedosamente um dos quartos, deixando colchões e cobertores completamente encharcados e estes precisariam mais do que uma tarde para se secarem totalmente.
Após alguns minutos observando os estragos e dando ordens diversas, Irmã Maria se aproximou de Liz e Fabiana que ajudavam a limpar o chão do refeitório.
- Temos um problema. Estamos sem colchões e cobertores na casa. A maior parte está completamente molhada e não deve secar antes de amanhã. As irmãs se ajeitarão na sala e no quarto remanescente, mas estou com dificuldade em acomodá-la, Fabiana. E você sabe que nas barracas, junto com todo mundo, a sua mãe jamais permitiria.
A morena sentiu o estômago embrulhar imaginando que o melhor passeio que já fizera em toda a sua vida estava por terminar. Mas, a Fortuna estava disposta a ser benevolente com a jovem Fabiana. O professor de Educação Física que passava por perto falou para a freira.
- Eu trouxe uma barraca e um colchonete sobressalentes, se você necessitar, Irmã.
Mais do que depressa, a sagaz loirinha se adiantou:
- Eu e Fabiana podemos dormir na barraca do professor, Irmã Maria.
- Eu prometi à D. Eulália que Fabiana dormiria na casa junto com as freiras, Liz – a religiosa ponderou.
- É, mas ninguém poderia supor um temporal desses. Um dos quartos está sem teto e as irmãs já terão que se apertar nos cômodos que restaram e dividirem os poucos cobertores secos. Minha sugestão é a de que armemos a barraca do professor na área de frente à casa. Assim, tecnicamente, a Fabi irá dormir na casa.
A freira pensou por uns instantes. Olhos jovens e súplices a fitavam, esperançosos.
- Está bem.
As meninas sorriram abertamente e só não gritaram de alegria por medo de que uma efusão excessiva pudesse fazer a Irmã Maria mudar de idéia.
- Temo não ter uma coberta seca para você, Fabiana.
- Eu e a Fabi podemos dividir o meu cobertor por hoje, irmã – Liz ofereceu de pronto.
- Está certo. Mas, vistam agasalhos e meias para dormir. As noites por aqui podem ser muito frias, meninas. Não quero ninguém voltando para casa com um belo resfriado.
- Sim, senhora – as meninas responderam em uníssono.
- Se bem que... - Liz comentou com um sorriso maroto.
Fabiana e a freira a olharam, indagadoras.
– Se bem que... – Liz continuou. – Acho que vou colocar duas meias, irmã. Afinal, eu já sei que a "pequeeena" compleição física da Fabiana vai ocupar 90% do cobertor mesmo.
- Ora sua...! - Fabiana segurou o impropério diante da freira. Liz não se intimidou e emendou:
- Mas pode deixar, Irmã Maria. Não vou me furtar ao meu dever cristão de amparar uma sem teto involuntária.
- Como se você precisasse de mais do que meio metro de pano para se cobrir.
- Pelo menos minhas cobertas não se parecem com cortinas barrocas.
- Não mesmo. São guardanapos!
Liz já ia encadear uma resposta à altura quando Irmã Maria pôs fim às fingidas indignações.
- Meninas, chega! Voltem aos seus afazeres. Ainda preciso organizar um lanche, que terá de fazer as vezes de um almoço, minimamente decente. Vamos! Mãos à obra.
As horas passaram céleres na reorganização do acampamento. As pessoas trabalharam duro e ao final da tarde tudo estava recomposto. Os rostos felizes denunciavam a alegria de ver algo erguido pelo esforço conjunto.
De noitinha, Liz e Fabiana terminaram de arrumar a barraca, tomaram banho e se conduziram ao balcão para o jantar. Desnecessário dizer o tamanho do alarido dentro do refeitório. Para a felicidade de uma centena de adolescentes animados, os adultos permitiram a balbúrdia até certo ponto. Por fim, a Irmã Maria pôs fim à algazarra quando um bolinho de carne atravessou meio salão e quase acertou a Irmã Clara. Mandou os meninos organizarem o refeitório e se dirigirem para as respectivas barracas. Mas, antes de baterem em retirada, Liz ainda puxou umas duas músicas e azucrinou alguns colegas com brincadeiras espirituosas arrancando risadas de todos. Á caminho da barraca, Fabiana olhou para a pequena amiga tentando descobrir qual o segredo de tanta facilidade em se comunicar. Liz não fazia a menor força para ser ouvida. A loirinha caminhava com um sorriso na boca e o cabelo longo e solto balançava ao ritmo dos seus passos. Fabi sentiu uma vontade urgente de tocá-la e sem saber exatamente o que fazer, deu-lhe um peteleco na cabeça.
- O que é isso, Fabiana?
- Eu me lembrei do seu comentário para a Irmã Maria. Você não consegue mesmo se manter calada, né, sua matraca?
Liz sorriu e falou com um ar condescendente:
- As verdades devem ser ditas.
- Verdades?
- É a sina dos filósofos.
- Agora você é uma filósofa. Pois escute uma coisa, oh! encarnação loira de Platão, algum dia alguém vai filosofar um direto bem no meio da sua cara desaforada.
- Violência, violência. A arma dos incultos.
- Olha só quem fala! Você se esqueceu de que eu já vi você derrubar gente com o dobro do seu tamanho e do seu peso?
- Legítima defesa, cara Fabiana. Eu ainda prefiro o duelo de idéias – a loirinha falou colocando o indicador na têmpora.
- É... você é boa nisso também.
Liz elevou os ombros com uma fingida cara de enfado, abriu o zíper da barraca e se agachou para entrar. Olhos azuis brilharam de antecipação do divertimento.
- Mas ainda se veste na sessão infantil! – Fabiana bradou dando um empurrão em Liz que caiu dentro da barraca como um saco de batatas junto com uma gargalhada da morena. – Agora, a vingança dos titãs.
- Ai, Deus! Isto está mais para "Hulk esmaga" – gritou Liz antes de receber 1,80m de garota em cima de si.
Começaram uma luta de chão entre risadas abafadas e grunhidos de esforço, mas novamente Irmã Maria acabou com a contenda.
- Quietas ou eu irei pessoalmente fazê-las dormir.
As
meninas pararam na hora a algazarra, mas os risinhos baixos e pequenas provocações
prosseguiram ainda por alguns minutos. Uniram os colchões e estenderam
o único cobertor. Não colocaram agasalhos. Ambas concordaram
que não estava tão frio assim. Conversaram ainda alguns minutos
e adormeceram.
1993
- O que é que existe entre vocês?
- Nada. Você ficou louca, Taís. De onde você tirou isso? – Liz exclamou, nervosa, virando novamente as costas para a namorada e olhando o mar pela janela.
- De você, Liz. Do comportamento estranho da Fabiana também, mas principalmente de você. Veja bem, eu não estou perguntando isso só por mim, mas pelo meu irmão também que é simplesmente louco pela namorada. Responda!
- Nós não... – Liz achou melhor voltar-se para a namorada que a fitava com os olhos francos e expectantes. – Nós não temos nada, Taís, a não ser uma grande amizade. E antes que você conteste, sim, eu sou apaixonada por ela desde a adolescência. Mas, Fabi nunca correspondeu a este amor. Não como eu gostaria.
- Eu sabia.
- Não. Você não sabe de nada, Taís. Desculpe, mas não sabe. Eu não tenho ilusões quanto à Fabiana corresponder aos meus sentimentos. Nem sei se realmente tive algum dia. Todo este clima que você percebeu é fruto de uma conversa difícil e esclarecedora que tivemos na noite do revellon.
- Eu estou me sentindo uma idiota – Taís falou sentando-se na cama.
- Não se sinta, você não tem nada a ver com isso.
- Como não tenho, Liz?
- Ou melhor, não tinha.
- Ah, não tinha? E agora tenho? – Taís perguntou com ironia.
- Taís...a carga desse amor adolescente, que só me machuca e atrapalha, eu carreguei sozinha durante anos e só muito recentemente eu sinto o desejo de suprimir este entrave da minha vida. Sabe o porquê?
Taís ficou calada.
- Por sua causa. Por nossa causa.
Liz falou num sussurro:
- Isso se você ainda me quiser...
- Se eu quero você? É claro que eu quero. Eu amo você. Mas, eu não vou lutar contra um ícone juvenil se você não quiser fazer o mesmo. Se você não escolher o mesmo.
- Eu quero, Taís, e escolho a nós com toda sinceridade do meu coração.
Taís respirou fundo, olhou para Liz como se quisesse enxergar-lhe o mais íntimo sentimento e se levantou batendo os braços na lateral das pernas.
- Muito bem, então está resolvido. Vamos morar juntas o mais rápido possível. Podemos combinar tudo nas nossas tão esperadas férias que começam amanhã. Tudo bem?
Liz assentiu com um sorriso fraco. Taís a abraçou novamente e afagou-lhe os cabelos. Liz deitou a cabeça nos ombros da namorada e fechou os olhos.
- Liz, nós vamos construir a nossa vida sobre alicerces bem mais firmes que um amor juvenil. Eu prometo. Agora me conte, que diabo de conversa foi esta que você teve com Fabiana que a tensão nesta casa é quase palpável?
- Eu vou te contar. Juro. Só me dê um tempinho, tá?
- Ainda dói, não é? – Taís perguntou como uma afirmação amarga, dividida entre a vontade de amparar a namorada e o ciúme que a fazia ter ganas de sacudi-la.
- Entenda algo, Taís. Não importa o quanto ainda me atinja qualquer coisa relacionada à Fabiana. Eu apenas quero que você saiba que você é a minha namorada e a mulher por quem e para quem eu desejo me sentir plena para amar.
- É tudo que eu preciso ouvir, Liz. Tudo o que eu preciso é do seu querer.
Envolvida
pelo abraço da namorada, Liz se deu conta de que depois de muitos
anos e de tudo o que acontecera na sua vida, Taís era a primeira
pessoa com quem ela falara de seu amor por Fabiana. Ninguém jamais
soubera a não ser os boxes de chuveiro nos quais chorara boa parte
da sua vida. Agarrou-se em Taís com força e chorou um choro
sentido e calmo, desses que de tão longos não tem a menor
pressa.
1987
Alta madrugada e Liz despertou tremendo de frio. "Céus, não é que faz mesmo um frio danado neste lugar?", pensou. Tentou enxergar onde estava a mochila para pegar um agasalho. Lembrou-se de que ela estava do lado de Fabiana. "Droga!"
Pouco antes, Fabiana acordara com o desconforto do frio tomando as pernas longas. Passou a palmas das mãos sobre as coxas e as sentiu gélidas. "Se não fossem minhas eu seria capaz de imaginar que estas são as pernas de um cadáver", pensou com um toque de humor mórbido.
Do seu lado, Liz aventava a hipótese de ficar no lugar e não correr o risco de acordar a amiga, mas com apenas um leve movimento seu joelho tocou o cobertor que parecia estar molhado de tão frio e isso a fez pensar melhor. Moveu-se devagar e penosamente em direção à sua mochila.
Fabiana sentiu o movimento ligeiro da sua companheira de barraca aproximando-se com cuidado. Ficou quieta.
A loirinha chegou o mais perto que pôde de Fabi e passou os braços por cima da amiga tentando alcançar a mochila sem incomodá-la, mas no meio da empreitada, sentiu um calor gostoso que vinha do torso de Fabiana e sem maiores cogitações deixou-se ficar um pouquinho desfrutando daquela quentura confortável para, em seguida aconchegar-se junto ao corpo de Fabiana, encolhida e aquecida. Suspirou e ficou imóvel.
Surpreendida, a morena não se moveu por um par de minutos, mas ao sentir o calor da pequena amiga paulatinamente diminuir o desconforto que o frio lhe causava, virou-se em direção a Liz encolhendo as pernas e a envolveu como uma concha. A posição lhe pareceu quente e confortável. Assim permaneceu.
Quase adormecida, Liz virou-se de costas de modo a melhor se acomodar recostada na amiga. Com um suspiro, Fabiana a envolveu ainda mais achegada e pareceu cair no sono. Foi nesse momento que a loirinha despertou repentinamente. É que se dera conta de que todo o corpo de Fabiana envolvia o seu. Podia sentir-lhe as pernas, o ventre e até o leve movimento do tórax em cada respiração. Podia sentir os seios de Fabi em suas costas e o sopro do seu hálito no topo da cabeça. Não poderia dormir. Como dormir? Ficou momentaneamente tensa, mas a respiração pausada da melhor amiga a fez crer que Fabiana dormia profundamente. Relaxou e desfrutou daquela incrível sensação. Ousou mover um pouco os quadris e se encaixar ainda mais na morena. Nenhum protesto. Liz sorriu de prazer no escuro e pensou se este não era um dos dias mais felizes da sua vida. Adormeceu em seguida.
A alvorada as recebeu abraçadas de forma inusitada. Ambas haviam mudado de posição durante a noite e nem assim se separaram.
Fabi despertou levemente sentindo um peso agradável sobre metade do corpo. Foi quando se apercebeu de que tinha Liz acomodada no seu ombro, com o braço jogado sobre o seu peito e a perna em cima das suas. Ela, por sua vez, abraçava a amiga com os dois braços e descansava o queixo sobre a cabeça loira que lhe parecia sutilmente perfumada. Aquilo a intrigou muito, mas não ousou se mexer. A pequena amiga dormia um sono tranqüilo e, na verdade, aquela posição lhe parecia inacreditavelmente aprazível. Ela que nunca havia dividido a cama com ninguém em sua vida.
O calor suave do sol nascente já tomava conta da barraca.
Fabiana ainda não havia se mexido quando sentiu um suave movimento de Liz e um nervosismo estranho lhe tomou o sossego de tal forma que de súbito, a morena empurrou a companheira e falou:
- Mas você é uma folgada mesmo, né, Liz? Agora para dormir você tem que me matar sufocada.
Ainda sonolenta, Liz demorou um pouco para processar as palavras da amiga, mas como era de praxe, sua natural capacidade verbal se apresentou em um instante:
- Querida – a loirinha falou com voz de professora de etiqueta. – Seria preciso três de minha pessoa para conseguir sufocar este seu corpinho de...eu diria de mamute se os pobres paquidermes já não estivessem extintos.
- Eu não sou gorda, Liz!
- Tem razão, cara-pálida, tem razão. Imagino então que uma jubarte seja um bom exemplo.
- Uma baleia?
- Outro mau exemplo? Admito. Hum...Camelo? As corcovas poderiam ser esses seus peitões ultra-desenvolvidos.
- Aaaaaargh! Você vai pagar caro, língua de trapo – Fabiana gritou pulando em cima da loirinha como uma horda de bárbaros.
Liz estava pronta a gritar um comentário jocoso sobre como Fabiana adorava pular em cima dela quando ao se debruçar sobre Liz, Fabiana desceu com os alegados peitões justamente sobre o rosto da amiga que sentiu na face a maciez firme de uma par de seios de endoidecer. Calou-se. Nem ousou se mover. O peso de Fabiana sobre si. O cheiro da pele acobreada colada à sua. Os seios ao alcance da boca. Liz entreabriu a boca instintivamente... quando o sino para o café da manhã soou convocando todos a se levantarem e fazerem a higiene matinal antes do desejum.
Fabiana
se levantou de chofre procurando a mochila. Liz ainda ficou deitada alguns
minutos esperando o coração parar de dar pinotes como um potro
selvagem.
1993
No segundo dia do ano os dois casais se despediram dos pais de Taís e Caio e seguiram viagem de volta para casa. Liz e Fabiana estavam de férias até fevereiro. Caio tinha que trabalhar e Taís conseguira ajustar todos os pacientes – era fonoaudióloga – para depois do dia 15 de janeiro. Assim, Fabiana foi para a casa da mãe com a promessa de Caio de ir vê-la todos os fins de semana e Liz e Taís combinaram os próximos dias no sul da Bahia, numa casa que Taís possuía em Trancoso.
Liz e Fabi mal trocaram duas palavras nesse meio tempo e na hora da despedida, deram-se um abraço rápido e insípido.
A loirinha foi para o passeio com a namorada com o firme propósito de investir naquela relação e exterminar com o fantasma adolescente intangível e impossível que lhe retirara durante muito tempo a chance de ter outra pessoa.
Fabiana foi para a casa da mãe para ter todo o tempo do mundo para pensar naquele beijo na praia e na declaração de Liz. Não sabia o que fazer. Liz era provavelmente a pessoa que mais amava no mundo. Não sentia vergonha em admiti-lo. O pai estava morto. E a mãe? Bom, a mãe era uma imposição da vida. Não que ela não amasse a mãe de uma forma enviesada como tudo que o destino apronta, talvez por uma disposição cármica, para nos provar que o amor se faz presente mesmo nas situações mais adversas. Pois, esta mesma disposição cármica lhe trouxera Liz em quem, ela sabia, repousava boa parte do seu coração.
Sua Liz - aquele farol esverdeado que lhe indicava o porto seguro desde que se conheceram. Sua Liz - aquele sorriso resplandecente que lhe aquecia a alma em qualquer lugar que ela estivesse, que lhe acalmava o espírito em qualquer circunstância em que se encontrasse. Sua Liz namorava a irmã do seu namorado. Era lésbica! Liz havia dito que a amava...Que a amava! Não como uma amiga ou uma irmã. Disse que amava como...pensou no beijo. Não. Aquilo não estava certo. E, no entanto, aquele beijo fora tão macio e quente. Naquele momento, somente ela sabia, seu coração disparara como mil cavalarias e o estômago parecera fugir para algum lugar no vácuo espacial. Intenso, diferente, único...
"Não!", balançou a cabeça como se pudesse expulsar assim o pensamento impróprio. "Deve ter sido o susto e a surpresa. Só isso". Aquilo não estava certo. O certo era Caio. Tão terno e másculo. Boa família. Boa carreira. A mãe aprovava. Gostava muito dele. Era um bom namorado e seria um bom marido. Respirou fundo como se para firmar a convicção no que ponderava. Era isso! Quando voltasse das férias, falaria com Liz e desmancharia o equívoco da praia. Abriu a janela e sentiu os cabelos soprados para trás pelo vento brando da noite de verão. Olhou para o jardim pouco iluminado escondendo em sombras o verde das árvores bem cuidadas e, de repente, viu Liz aos dezesseis anos, numa tarde em um outro verão na chácara das freiras acenando com o braço em riste, orgulhosa e sorridente, depois da prova de remo. O vento varria os cabelos longos e loiros e o que se via era uma adolescente linda com os braços erguidos numa saudação vitoriosa sob o céu sem nuvens, brilhando um sorriso que transparecia a mais completa felicidade. Um sorriso que se dirigia a ela – Fabiana.
Uma saudade dolorida se instalou no peito da morena. Aquele fora o dia mais feliz da sua vida e Liz estava lá. Fabi havia imaginado que ela sempre estaria. Lágrimas lentas começaram a cair até se transformarem em choro abundante e incontrolável.
1987
Por volta das 9:00, os alunos do Externato São José e do Colégio São Tomás de Aquino chegaram. Os professores haviam preparado uma espécie de gincana que se pretendia divertida, mas que de fato escondia a imensa rivalidade atlética entre os colégios. Jogos de vôlei, futebol e queimada, prova de conhecimentos gerais e de precisão de arremessos, e, por fim, o remo no lago.
No decorrer do dia, as provas correram parelhas e, ao final das contendas, o desempate ficou para o remo.
A chácara não tinha daqueles barcos longos e rápidos de competição. Eram botes mesmo. Cada escola escolheria um campeão. Os dois colégios escolheram rapazes fortes e ágeis. Irmã Maria escolheu Fabiana. Os adversários sorriram confiantes. Era óbvio que, embora tão alta quanto os rapazes e sabidamente uma grande atleta, Fabiana era uma mulher. Alguns garotos da própria escola de Fabi ameaçaram um protesto. Impassível, Irmã Maria ignorou os comentários, anunciou a sua campeã e se sentou.
Liz sentiu o coração batendo na mão, mas algo na postura de Fabi colocando o colete salva-vidas a tranqüilizou. Aí estava: Fabiana era insegura em muita coisa, mas há muito tempo aprendera a confiar na sua inacreditável destreza física.
Liz observou a Irmã Luzia demonstrando à menina a forma de operar os remos com simetria e ritmo. Fabi escutava atentamente, bebendo as informações e assimilando sinergicamente os movimentos corretos. Depois, a morena passou os olhos pela torcida até encontrar os de Liz. A jovem loira tentou lhe retornar toda a força e confiança que conseguia.
Os competidores se prepararam.
Largada.
De início, Fabiana ficou para trás. Não conseguia encontrar o equilíbrio exato do barco e a perfeita coordenação das remadas. Os rapazes contornavam com força bruta qualquer falta de jeito e abriram uma boa vantagem logo nos primeiros metros. Mas, em instantes Fabiana entendeu a coisa e coadunando força, coordenação, ritmo e concentração começou a se aproximar. Seu barco deslizava cada vez mais rápido como se não precisasse de tanta energia como aparentavam necessitar os barcos dos outros competidores. Liz sabia que também havia força, e muita, nos movimentos de Fabiana, mas principalmente, havia menos desperdício. A loirinha via os músculos das pernas morenas flexionando e estendendo, fazendo esforço conjunto e coordenado com os braços morenos que se retesavam no esforço de cada remada. O rosto belo quedava-se concentrado e nem as gotas de suor abundantes que lhe escorriam pela fronte conseguiam modificar-lhe a feição.
Era realmente magnífico de se ver.
Liz abriu a boca em deslumbramento. O barco de Fabiana chegava cada vez mais perto e em poucos instantes as remadas cadenciadas sobrepujaram a força dos adversários que tentava desesperados não lhe permitir a ultrapassagem. Inútil. Firme e resoluta, Fabiana seguiu para uma vitória irretocável.
Gritos de alegria por todos os cantos. Colegas entravam na água para saudar a vencedora, para a loucura das freiras tentando conter os mais afoitos.
Liz não se moveu do lugar. Quando Fabiana olhou para ela, a loirinha apenas levantou os braços e sorriu luminosamente. A felicidade que Fabiana sentia era quase tangível. O sol brilhava. O mundo brilhava. Os olhos verdes de Liz brilhavam. Ah! Como a vida podia ser boa.
Á
propósito, foi a única vez que alguém viu a Irmã
Maria pular.
¹ Referência a Dr. John H. Watson, fiel amigo, companheiro de aventuras e narrador costumado das proezas de Sherlock Holmes, consagrado personagem do escritor britânico Sir Arthur Conan Doyle.
² Referência aos personagens da história em quadrinhos conhecida como Turma da Mônica de autoria de Maurício de Sousa.
Capítulo VII
1993
Liz chegou em casa no dia anterior à matrícula. Depois das férias na Bahia, a loirinha ficara no apartamento de Taís até a véspera de começarem as aulas. Era a primeira vez que entrava no cantinho que dividia com Fabiana desde de o final do ano.
O apartamento estava escuro. Liz deixou as malas no solo e avançou um pouco pela parede lateral acendendo as luzes. Sem perceber, passou os olhos por todo o pequeno lugar num misto de apreensão e esperança. Ninguém. Negou-se a admitir uma pontinha de decepção abrindo a janela com vigor desnecessário para arejar o apartamento há tantos dias fechado.
Sentia-se mais forte com relação à Fabiana. Na verdade, sentia-se mais forte com relação a Taís. O relacionamento delas estava muito bem e firme. Liz olhou para o porta-retratos sobre a pequena estante com a foto dela e de Fabi no último dia do memorável acampamento de fim de ano. A foto mostrava a loirinha sobre as costas de Fabi que a segurava de cavalinho. Ambas com um sorriso de pedir licença às orelhas. Liz pegou o porta-retratos e o visualizou mais de perto. Permitiu, então, emergir uma saudadezinha incômoda e onipresente como um mosquitinho de banana. De repente, deitou o porta-retratos e balançou a cabeça como a extirpar qualquer pensamento insidioso e, pior, reincidente. Pegou as malas. Deixou-as ao lado da cama e retirou apenas uma roupa de dormir. Foi tomar banho. Deitou-se sentindo um cansaço estranho como que antecipando um difícil embate emocional. Dormiu quase imediatamente.
Fabiana chegou bem tarde, por volta das duas da madrugada. Entrou o mais silenciosamente que pode. Depositou as malas ao lado da porta e imaginou se seria conveniente acender a luz. Decidiu ligar a lâmpada do banheiro que iluminava satisfatoriamente o recinto, mas não incidia diretamente em Liz que dormia. Tomou um banho rápido e se deitou com a discrição que lhe era peculiar. Liz não se moveu em nenhum instante. Deitada, Fabiana tentou vislumbrar a amiga através da penumbra. Só conseguiu enxergar a cabeleira loira que cascateava pelo travesseiro. Uma pontada fina de tristeza ameaçou encher-lhe os olhos de lágrimas, mas a morena respirou fundo e virou-se de costas para a amiga. Em alguns minutos, dormia.
Liz acordara no instante em que Fabiana pusera a chave na porta. Mas, preferira não se manifestar, embora sua respiração entrasse em greve bem naquela hora. Mumificou-se na cama. Uma covardia nova se instalara em seu peito tão acostumado a choques e perdas. Estava ali a única coisa que temia perder mais do que a si própria. Isso não mudara. Será que algum dia mudaria? "Ai, Deus. Deixe-me, Fabiana".
O dia chegou com a inevitabilidade do encontro consciente. Moveram-se na cama como se tivessem combinado acordar no mesmo instante.
Fabiana falou primeiro.
- Bom dia.
- Bom dia.
- É...bem...como foram as suas férias?
- Ótimas e as suas.
- Na casa da minha mãe? Bom...Você sabe... – Fabiana falou erguendo os ombros.
Ficaram num silêncio constrangido por alguns minutos. Liz quebrou o constrangimento.
- Hora de levantar. Eu ainda não sei onde vou estudar este semestre.
- Puxa, eu também não e... – Fabiana não terminou a frase, Liz já havia se levantado com enorme rapidez e entrado quase correndo no banheiro.
Atrás da porta a loirinha tentava não chorar. Que droga de conversa fora aquela? Onde estava a alegria que sempre permeava o reencontro de ambas? Onde a brincadeira, as conversas intermináveis cheias de saudades e novidades? "Meu Deus, eu quero a minha Fabi de volta". Mas ela sabia que nada mais seria como antes ou, na melhor das hipóteses, demoraria muito para que elas voltassem a ter novamente a mesma camaradagem. "Eu preciso tirá-la do meu coração. Eu preciso deixar de te amar, Fabiana. Eu não agüento mais!".
As primeiras semanas passaram céleres junto com a quantidade de coisas que tinham que fazer. Liz pegara mais matérias neste semestre, mal tinha tempo para almoçar durante a semana. Fabiana entrara no período mais apertado do curso e ainda tinha que se esforçar para estar à disposição de Caio quando ele arranjava um tempo na residência médica. A relação entre elas entrara numa calmaria cheia de presságios de tempestade. Para evitar o pior, falavam-se pouco e sobre assuntos banais. O capítulo praia jamais era mencionado.
Taís, por sua vez, tentava não pressionar a namorada com relação à mudança, mas após a quinta semana sem que Liz sequer tocasse no assunto, a moça abordou o tema.
- Eu já tenho o apartamento preparado para ajeitar as suas coisas, Liz. Quando você pretende se mudar?
A loirinha quase engasgou com a pizza.
- Mudar?
- É, mudar. Aquilo que nós combinamos nas férias, lembra?
- Eu...é...Não tenho tido tempo, Tá.
- Eu posso contratar uma firma para fazer a mudança.
- Eu jamais aceitaria isso de você. Eu ainda estou pensando em como vou conseguir dividir as contas com você tendo em vista os meus parcos rendimentos. Você sabe que eu tenho a renda das minhas aulas particulares que dão para as minhas necessidades imediatas, e assim vou levando até me formar e conseguir algo mais...mas um apartamento daqueles, naquele prédio sofisticado, não sei...
- Não inventa moda, Liz. O apartamento é meu, você não vai pagar aluguel do mesmo jeito que não paga no alojamento da universidade. As demais despesas não são muito maiores do que o que você gasta agora, e eu deixo você na faculdade todos os dias antes de ir trabalhar. Isso está me cheirando a desculpa.
- Que desculpa, Taís! Apenas não é tão simples assim.
- Não é simples você deixar a Fabiana, não é mesmo?
- Pare com isso. Nós já discutimos este assunto, além disso, eu mal falo com ela.
- Então.
- Eu...
Tais cruzou os braços e olhou firme para a namorada esperando uma resposta. Liz sentiu-se acuada como não se sentia desde a infância. A verdade era que ela sabia que o problema era mesmo Fabiana. Mesmo se encontrando tão pouco, mesmo trocando poucas e tolas amenidades, ela sabia que seu coração disparava quando via aquela cabeleira negra entrar no apartamento ou quando se levantava e Fabiana ainda estava em casa coando café de pijamas e o jeito tão típico com o qual ela abaixava a cabeça, olhava de lado e dizia bom dia com os olhos azuis tímidos fitando rapidamente e depois fugindo dos olhos de Liz. A verdade é que mesmo que ela quisesse com toda a força, mesmo que toda a sua razão gritasse para que se mudasse, ela não saberia dizer se realmente conseguiria viver longe de Fabiana.
- Eu...vou ver se dá para me mudar depois das primeiras provas, ok? Estou muito sobrecarregada por agora com todas essas matérias e tal, e eu preciso passar em todas para conseguir me formar mais cedo, você sabe.
- E quando serão essas provas?
- Abril – Liz falou baixinho.
- Abril ?!!! Mas nós estamos no início de março.
- Eu sei. Só que agora eu não posso mesmo, amor. Tenho que manter o foco e arranjar tempo para estudar mais do que já o fiz em toda a minha vida. Eu me mudo depois das provas bimestrais, está bem? – Liz sorriu daquele jeito capaz de tirar leite de rochas.
Taís suspirou.
- Está bem, maaaaas, provas terminadas e eu quero você todos os dias acordando ao meu lado, entendeu, Dona Liz?
- Perfeitamente, Dona Taís.
Riram juntas apaziguadas.
A vida de Liz e Fabiana seguiu no mesmo ritmo durante semanas. Liz não entendia muito bem porque continuava naquele apartamento com Fabiana. Por pouco não concordava com Taís de que vivia uma espécie de dependência espiritual. Fabiana era adulta, independente, namorava firme um rapaz que noventa e nove por cento das mães do mundo diria que se tratava de um bom partido e ela ali, indecisa, ponderando se deixava ou não essa pessoa para ir morar com uma mulher excepcional que a amava e respeitava. Não dava para entender mesmo. Precisava mudar aquilo.
Naquele dia, Liz saiu com a galera da faculdade. Brincadeiras, provocações mútuas e altas risadas a fizeram esquecer um pouco das duas mulheres de sua vida. Ao final da farra foi para casa. Fabiana ainda não havia chegado. "Deve estar com Caio", pensou não sem a conhecida dose de sarcasmo. O pequeno apartamento lhe pareceu grande demais para a sua repentina solidão. Abriu a geladeira e encontrou uma garrafa de vinho tinto que deveria estar fazendo aniversário na geladeira. Na hora lhe pareceu uma boa companhia. Em quinze minutos já estava na segunda taça. Mais quinze minutos e o vinho com os chopes de mais cedo já a faziam chorar copiosamente lendo uma poesia de Mário Quintana. Sentou-se na poltrona e praticamente desfaleceu tonta de lirismo, tristeza e álcool. Fabiana chegou uma hora depois e se deparou com Liz jogada na poltrona com uma taça de vinho ao meio deixada ao lado no chão. Seguiu reto, deixou a bolsa e os livros na cama e voltou para acordar a amiga, fazê-la tomar um bom banho e dormir em local adequado. Fabiana olhou para a Liz dormindo naquele abandono ao mesmo tempo confiante e desamparado dos bêbados. O cabelo loiro pendia tomando a grande parte da lateral da poltrona e a face relaxada do sono lhe conferia uma expressão de menina. Fabi se aproximou cheia de uma infinita ternura e tocou o rosto de Liz com cuidado e amor.
- Liz – chamou baixinho, abaixando-se em direção à amiga desacordada.
- Sabe o que eu queria fazer agora? – Liz falou de repente e como se estivesse acordada há tempos.
- O que? – Fabiana perguntou com um sorriso.
Liz abriu os olhos e abraçou com as mãos a face de Fabiana tão próxima à sua com imenso carinho.
- Dançar.
- Mas...não tem música.
- Mas, tem sim - a loirinha falou passando uma das mãos pelo pescoço da morena e trazendo-a devagar para si. - Ouça – sussurrou antes dos seus lábios se tocarem. ¹
Beijaram-se.
De súbito, a morena se desvencilhou como se tivesse levado um choque.
- Pare com isso! Por que você insiste em fazer isso? Por que você não entende, pelo amor de Deus!?
- Sabe o porquê? – Liz falou já de pé e tomada por uma raiva já conhecida, mas nunca dirigida à sua Fabi.- Porque você não deixa.
- EU!!!?
- É. Você. Porque você diz com a boca, mas fala de outras formas para eu não te deixar. Para eu não deixar de te amar do jeito que eu amo. Me chama com os passos, com os olhos, com cada droga de gesto. E depois me rechaça, me abomina, mas me quer.
- Você está ficando louca ou ainda está muito bêbada.
- Mesmo?- Liz foi se aproximando devagar. Contraditoriamente, a mulher vinte centímetros mais alta e muito mais forte foi se afastando até encostar-se à parede.
- Liz, você bebeu demais. Não está falando coisa com coisa.
- Sério? – a loirinha continuou a se aproximar até quase tocar Fabiana que se afastou de lado e sentou nervosamente na poltrona.
- Vamos conversar como duas pessoas civilizadas – falou passando as mãos nos cabelos negros. – Sente-se e resolveremos tudo como se deve.
- Vamos resolver, sim. – a loirinha falou avançando rapidamente e pousando ambas a mãos nos dois braços da poltrona, impedindo Fabiana de sair do lugar. – Vamos resolver agora! – disse chegando bem perto da boca de uma Fabiana assustada e mais excitada do que gostaria de admitir. – Diga-me, Fabiana Martins Couto, o que você mais anseia nesse momento?
- Quero que você saia de perto de mim.
- Jura? E o que é que você vai fazer com o seu coração disparado e com os seus olhos que não conseguem ver nada além da minha boca?
- Porque a sua boca é única coisa que eu consigo ver. Agora saia da minha frente, Liz.- Fabiana disse fechando os olhos e empurrando Liz com as mãos.
A loirinha firmou ainda mais os braços no encosto da poltrona.
- Saio, sim. Saio quando você confessar.
- Confessar o que, meu Deus?
- Confessar que, no fundo, você sente muito mais do que uma grande amizade por mim.
- Eu não sei do que você está falando.
- Eu estou falando disso.
Liz pegou o rosto de Fabiana com força e a beijou com raiva. Fabi tentou empurrá-la, mas algo na urgência e fatalidade daquele momento fez com as forças da loirinha se multiplicassem e ela sequer saísse do lugar. As bocas se fundiram como metal incandescente. Fluidas, naturais. Fabiana parou de lutar. Parou de pensar. As suas mãos longas envolveram o pescoço de Liz que se sentou no colo da morena sem pestanejar. Fabiana passou os braços pelo dorso da pequena loira e a trouxe para si. Foi um daqueles beijos perfeitos, quando os lábios se unem em tal confluência que parece que nunca estiveram separados, completam-se e exaurem-se.
Fabiana entrou com as mãos por baixo da camiseta de Liz e viajou a mão pela barriga irretocável com se quisesse ter feito isso toda a sua vida. Liz agarrava a morena pelos cabelos da nuca e sentia o corpo inteiro palpitar num desejo exasperado. Sem raciocinar, Fabiana buscou o seio da loirinha. Abraçou-o inteiro com a mão. Liz gemeu e trouxe o corpo ainda para mais perto da morena movimentando-o sensualmente.
De repente, Fabiana se levantou quase jogando Liz no chão.
- Não! Isso não está certo. Nunca mais se aproxime de mim!- Fabiana gritou e saiu batendo a porta.
Liz sentou-se na poltrona de novo e tentou sentir o que restava do perfume dos cabelos de Fabiana. Nada. Como nada significava o seu sentimento para Fabiana. Não tinha mais jeito. Ela tinha que se livrar desse encosto, dessa sina maldita de amar e amar e amar de um jeito que jamais seria correspondida. Naquela hora, Liz tomou uma decisão.
Durante dias elas não se falaram e se ignoraram como duas crianças emburradas. Entravam e saiam de um mesmo ambiente caladas, sem jamais se olharem. Um dia, Fabiana chegou mais cedo do que de costume. Coisa estranha para alguém tão metódica. Sem nada para fazer até um pouco mais tarde, Liz estava à vontade de shorts e camiseta sentada em frente à tv.
- Liz? – Fabiana chamou para a surpresa da loirinha.
- Sim - Liz respondeu tentando disfarçar o salto que o seu coração dera ao ouvir Fabi dirigir-lhe a palavra.
- Eu gostaria de conversar com você.
Repentinamente, como se adivinhasse que algo importante e desagradável viria daquele pedido de Fabiana, a loirinha saiu metralhando palavras numa velocidade alucinante.
- Que bom que você iniciou essa conversa Fabiana. Eu também tenho que falar com você. Olha, eu vou morar com a Taís. Eu sinto muito. Sei que não foi isso o que combinamos, mas aconteceu e pelo modo como vão as coisas entre nós ultimamente, acho que isso é o melhor a fazer e...
- Liz!
A loirinha se calou de súbito.
- Só para variar. Cale a boca!
Mudez.
- Eu vou me casar.
Coração no chão.
- Caio vai fazer uma especialização nos EUA e me pediu em casamento.
Coração, alma, peito, tudo no chão.
- Tudo aconteceu muito rápido. Viajaremos daqui a uma semana. Você ouviu?
- E o seu curso? – Liz conseguiu falar tirando um fio de voz não se sabe da onde.
- Nossa intenção é ficarmos três anos. Quando voltarmos, eu termino a faculdade. Além disso, não preciso ficar sem fazer nada por lá, não é mesmo?
- Claro. Primeiro o valoroso cavalheiro, depois a bem educada dama.
- Liz, pare com isso! Apesar de toda a nossa...confusão e tudo. Eu...Bom, você é muito importante para mim e ...pare de me olhar desse jeito, Liz. Caramba! Eu vou me casar!
- E daí?
- E daí que eu vou me casar e depois vou embora. Gostaria que...Gostaria que...
- Fala, Fabiana!
- Gostaria que você fosse minha madrinha.
- Nunca!
- Liz...
- Você deve ser louca, Fabiana. Depois de tudo o que aconteceu entre a gente e depois de tudo o que eu te falei você me vem com uma proposta dessas!
- Você é a minha melhor amiga. Eu achei que nós pudéssemos esquecer toda aquela loucura que aconteceu e...
- Cala a boca, Fabiana. Não diga mais nada, pelo amor de Deus!
Liz caminhou nervosa pela sala esfregando o rosto com as mãos com uma força do tamanho da sua angústia.
- Olha, eu estou muito bem com a Taís, sim. Eu vou morar com ela e realmente quero que tudo dê certo porque ela merece e, porra!, eu também mereço. Mas, por favor, Fabiana, tenha respeito por mim.
- Eu te respeito, Liz.
- Fabi, será que você percebeu mesmo o que aconteceu naquela praia, o que aconteceu nesta droga de apartamento? Não foi uma loucura. Foi real. Existiu! E você estava presente. Ô, se estava. Eu ainda sinto o calor dos seus...
- Liz!!
- Está vendo? Por quanto tempo você vai negar o que existe, o que existiu entre a gente? Chamar de loucura os nossos momentos? Negar a intensidade dos nossos beijos?
- O que existe entre a gente é uma grande amizade, Liz.
- Também. E também mais. Muito mais. E você sabe disso.
- Eu...não posso.
- Ah, Fabiana. Eu gostaria tanto, tanto de conseguir ao menos desgostar de você. Eu gostaria tanto que Deus te tirasse do meu coração. Só isso.
- Não diga isso – Fabiana falou já tomada por soluços.
- Me liberte, Fabi. Por favor.
- Não diga
isso – Fabiana saiu pela mesma porta que entrou, desta vez, como se fugisse
da própria sombra.
Fabiana
Fabiana saiu andando pelos jardins do campus com passos rápidos e sentou-se na escadaria do enorme prédio da biblioteca ainda aberta, mas com pouco movimento. Passou a mão nervosamente pelo longo cabelo e olhou para o céu expirando com força, tentando entender o que estava se passando.
Ela poderia ter impedido Liz. Poderia ter findado aquele beijo num instante. Poderia ter gritado que aquilo era um absurdo e tê-la afastado de si! Sim, poderia...Mas, não o fez ou demorou demais a fazê-lo. Por quê?
Agora, sozinha e pronta para entender o que estava se passando com ela mesma, não havia necessidade de sabotar o entendimento dos próprios sentimentos. A verdade mais absurda era o fato incontestável de que os beijos de Liz pareciam capazes de causar-lhe uma insanidade momentânea, um calor, uma excitação flamejante que a destituía de raciocínio.
De fato, fora assim desde o primeiro beijo...Sim, ela se lembrava. Ela se lembrava daquele primeiro beijo no jardim durante a festa dos seus quinze anos. Nunca admitira isso nem para o espelho, mas se recordava com vívidos detalhes do primeiro beijo da sua vida e da emoção profunda que ele lhe causara. De início, sentira vergonha durante vários dias de ter beijado e se deixado beijar daquele jeito por uma menina, depois, com o passar do tempo da mais plena normalidade de seu relacionamento com a melhor amiga, passou a atribuir o abandono com o qual se entregara aos lábios de Liz não só aos goles generosos de champanhe, mas também ao fato de sentir-se sempre tão segura e querida ao lado dela. Por fim, passara a se lembrar daquele episódio com menos pejo, embora de vez em quando se pegasse sonhando com o beijo, sobretudo naqueles momentos que antecedem o sono, quando a realidade e sonho se misturam na tênue linha entre o onírico e o desejo sem censuras.
Contudo, tinha que admitir que embora se sentisse sempre segura ao lado de Liz, isto não significava que se sentisse sempre confortável em sua presença. O termo conforto é bastante abrangente em termos emocionais. Havia momentos em que Liz a deixava extremamente nervosa, desconcertada. Sempre foram amigas e compartilhavam da intimidade habitual das amizades jovens e sinceras, mas o fato é que quando Liz a tocava sutilmente em ocasiões como, por exemplo, quando lhe amarrava o biquíni com os dedos resvalando a carne sensível das costas ou quando colocava uma mecha rebelde de cabelo negro atrás da orelha e lhe roçava delicadamente a face com os dedos ou quando encostava o nariz de leve no pescoço para sentir o cheiro de uma nova fragrância, ela não se sentia confortável. Não. Na verdade, enrijecia-se sensivelmente, arrepiava-se de modo incontrolável e normalmente começava uma brincadeira para disfarçar o embaraço.
Havia dias em que, chegando tarde da noite, encontrava Liz já dormindo daquele seu jeito enrodilhado na cama como se alguém ainda pudesse vir acordá-la com pancadas e Fabiana sentia uma vontade premente de tocá-la, de se deitar e abraçá-la como naquele acampamento em que dormiram tão grudadas que parecia que tinham nascido para dormir assim. Aliás, não se lembrava de jamais ter dormido tão bem em toda a sua vida a despeito da falta de comodidade.
E por último, a sua reação violenta à confissão de Liz de que namorava a irmã do seu namorado. O que fora aquilo? Tudo bem que ficara surpresa, talvez chocada, mas a confissão de Liz lhe soara como uma agressão. Por quê?!!
Imagens de Liz desde que se conheceram lhe atropelaram a cabeça até aquele momento, instantes atrás no apartamento, em que pouco ou nada faltara para que Liz a chamasse de hipócrita. Hipócrita? Será? O que realmente sentira quando soube que Taís a namorava? Por que se ressentia tanto com o tempo que Liz despendia com a namorada? Por que não resistira veementemente aos avanços de Liz, mas ao contrário, fora tomada por uma mal contida expectativa?
"Que loucura, meu Deus!".
Estava a um passo de se casar com um bom homem, de formar uma família, de tornar palpável um futuro sólido e promissor – tudo para o que fora educada durante toda a sua vida. Poxa! Estava prestes a deixar o país com o seu marido e talvez ficar anos sem voltar.
Anos sem ver Liz...
Pela primeira vez, Fabiana percebeu esta perspectiva em sua real dimensão e foi como se uma faca longa e aguda perfurasse-lhe o peito. Levantou-se imediatamente de onde permanecera pelo longo tempo de suas reflexões e seguiu a passos resolutos para algum lugar.
Já entendera o que se passava.
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Madrugada. Liz tentava dormir depois de chorar novamente por quase uma hora e de chamar a si própria de otária pela enésima vez por causa disso. Havia dois dias que tinham discutido. Fabiana não voltara para casa. Nesse ínterim, Liz já entendera o recado mais do que claro e já ajeitara a maior parte das suas coisas para se mudar para a casa de Taís. Foi então que escutou a porta do apartamento se abrir. O susto e a surpresa quase a fizeram soltar um grito abafado. Ouviu Fabiana entrar, ir até o banheiro e tomar um banho rápido. Percebeu o momento em que ela voltou ao quarto e esperou que ela se deitasse discretamente como sempre. Mas isso não aconteceu. Com calma e decisão, Fabiana caminhou até a cama de Liz, puxou a coberta e, sem pedir licença nem nada, deitou-se com a loirinha.
Impossível fingir que estava dormindo.
Assim, Liz virou-se para a amiga para indagar da ação inusitada quando, ao roçar-lhe o corpo tão próximo, a pulsação aumentada a ponto da taquicardia anunciou-lhe algo inimaginável. Incrédula, Liz levou lentamente a mão para tocar a mulher dos seus sonhos e ela estava nua. Nua! A mulher da sua vida estava nua em sua cama. Liz olhou para cima tentando ver os olhos de Fabiana através da penumbra do quarto, mas levou um beijo na boca.
- Fabi...
- Não fale – Fabiana sussurrou roçando os lábios na orelha de Liz.
- O que você...?
Impaciente, Fabiana deu-lhe outro beijo intenso e Liz não perguntou mais nada. Trouxe-a para cima de si, passando as mãos ansiosas pela extensão das costas morenas e apertando o corpo de Fabiana contra o seu enquanto a beijava quase com fúria.
Surpreendentemente determinada, Fabiana introduziu as mãos por dentro da camiseta de Liz na intenção clara de despi-la. Enfeitiçada, Liz deixou-se despir primeiro da camiseta e depois da calcinha, subjugada por aquela energia e iniciativa que a loirinha só havia visto Fabiana despender nos esportes e que agora como num acontecimento mágico estava direcionado apenas para ela.
Fabi a olhou e mesmo na semi-escuridão, Liz percebeu o brilho urgente naquele azul quase negro que lhe fitava de uma forma que nunca havia feito outrora. Sentiu a veemência daquele olhar e soube que jamais em toda a sua existência se esqueceria dele.
Abraçou a sua Fabiana.
Deitaram-se e os corpos nus se enroscaram perfeitamente e com uma imprevista calma dado o tempo em que levaram para se encontrar. Exploraram-se mutuamente com um prazer lento, bem perto do torturante. Roçaram-se. Navegaram uma no corpo da outra provocando encontros deliciosos de seios com seios e costas e bocas. Sexos com sexos e bundas e coxas. Percorreram-se, atravessaram-se como nautas sôfregas por terra desconhecida e encantada.
Liz beijava cada pedaço daquele corpo exato com a simplicidade acariciante dos encontros naturais, e quando os seus lábios encontraram com inefável delícia a parte interna da coxa firme de sua amada, Fabi gemeu e o mexer incontido dos quadris telegrafou à loirinha o pedido irrecusável: Liz abocanhou-lhe o sexo com firmeza e suavidade, delicadeza e volúpia. Beijou, sugou, lambeu-lhe o suco, o cheiro e o calor. Ouviu, fascinada, os sons irreprimíveis do prazer sensual que vinham da boca da mulher da sua vida, e então principiou o passar da língua cheia de lascívia no clitóris rijo de excitação com pungente lentidão para depois acelerar num crescente de força e ritmo até que a voz de Fabiana entrecortada por espasmos involuntários desatou num gemido longo o nome de Liz em meio a um gozo intenso.
A loirinha admirou Fabiana, sorvendo com os olhos a visão maravilhosa de sua amante de olhos fechados, rosto corado, respiração descompassada, lânguida e bela com os cabelos negros espalhados pelo travesseiro. Fabi abriu os olhos. Olhou para Liz com um desconhecido domínio e comandou com a voz rouca:
- Deite-se de costas.
Liz obedeceu e descobriu depressa o porquê da ordem. Fabiana debruçou-se sobre a sua bunda, beijando, mordendo, lambendo com uma volúpia intensa. Deitou-se por sobre a loirinha, encostou o púbis em suas nádegas e começou a se mover em requebros sensuais enquanto mordia o pescoço de Liz. A respiração descompassada em sua nuca, o corpo nu de Fabiana deslizando sobre o seu...nem em seus sonhos mais ardentes, Liz poderia supor a sensualidade daquele momento. Excitada à loucura, Liz virou-se de frente e agarrou a fonte do seu desejo com braços e pernas beijando-a com furor. Sentia vontade de ser consumida. Com uma compreensão intuitiva, Fabiana desceu a mão longa pela cintura de Liz e afagou seu sexo encharcado. Liz se contorceu de tesão. Fabiana massageou a fenda úmida enquanto sentia os movimentos impacientes do corpo de sua pequena amante. De repente e sem aviso, Fabiana penetrou-a com firmeza e a loirinha pensou que fosse desfalecer. Liz arremeteu o quadril em direção aos dedos longos e fortes sentindo o prazer subindo em ondas convulsas, trespassando-lhe o corpo como um dardo, tremendo nas pernas sem controle até o orgasmo.
Fabiana a abraçou.
Ficaram caladas sem palavras para o que havia acontecido. Fabiana acariciava com ternura os cabelos loiros abundantes. Liz passeava a mão pelo belo rosto moreno, pensando vagamente que tudo parecia uma película surreal. O dia começava a clarear. Liz firmou-se nos cotovelos com mil perguntas inscritas em seu rosto delicado.
- Fabi...
Fabiana a calou colocando a mão ternamente na boca de Liz.
- Não falemos agora, Liz. Por favor. Basta você saber que eu estou aqui e que sou sua.
- Minha?
- Sua.
Liz olhou para a mulher à sua frente.
- Minha – disse e beijou-lhe um e depois o outro olho de fartos cílios negros. – Minha – continuou beijando-lhe as faces e a boca adorada. – Minha...
A risada baixa e contagiante de Fabiana quando Liz começou a beijar-lhe o corpo fazendo cócegas provocantes em cada pedacinho de pele acobreada soou como a música aos ouvidos da jovem loira.
Beijaram-se por horas, fizeram amor, brincaram, riram como garotas que eram cheias de uma alegria quase insana. Dormiram agarradas ainda sorrindo.
Liz acordou no meio da tarde sem ninguém ao lado. Levantou sem jeito, um pouco tonta e seguiu até a cozinha procurando Fabi em todo canto. Na mesa, um bilhete. No peito um coração batendo um terrível presságio.
"Não volto mais. Vou me casar amanhã cedo com Caio numa cerimônia simples somente para os familiares. Não me procure, por favor... e me perdoe se puder. Essa é a minha vida. Mas, você foi a primeira. Sempre será".
"Eu te amo por toda a minha vida".
"Fabi".
¹ Cena e diálogo retirado ipsis litteris de Estranhos no Paraíso de Terry Miller. Mais uma singela homenagem.
Obrigada a todas pelos e-mails de elogios, sugestões e até pelos puxões de orelha, kkkkkkk. Enfim...agora só falta a conclusão. Como será o reencontro de Liz e Fabiana? Tchan-Tchan-Tchan-Tchan. Em breve, neste mesmo bat-site. Rsrs.
Um abraço carinhoso,
Paula.