Desde Sempre
Paula Marinho
CAP�TULO VIII
2007
- Pelo amor de Deus! N�o ouse colocar esta foto horrenda no
meu editorial.
- Mas, a foto est� �tima, Liz. Seus cabelos ainda estavam
longos, mas...
- Eu pare�o que engoli uma espada, Theo. Pior do que isso,
parece que a espada entrou por outro orif�cio. Use a foto que eu escolhi para
ilustrar a orelha do meu livro. O Dalmo tem o arquivo.
- Certo...mas, nesta
aqui voc� parece mais s�ria.
- Nesta a�, eu pare�o a m�mia de Tutanc�mon.
Fa�a o que eu pedi, por favor.
- Ok, ok. Mas eu acho que nesta voc� est�
melhor...
Liz mal ouviu o coment�rio que se perdeu no burburinho
incessante da reparti��o do jornal que mais parecia um formigueiro em escala
gigantesca. Ali�s, tudo em um grande jornal parece ser enorme e, sobretudo,
veloz: a not�cia n�o espera. N�o era diferente no �Di�rio da Cidade�. Liz olhou
em volta com um sorriso de quem se sente � vontade em meio �quela barafunda
aparentemente desconexa. Em seguida tornou os olhos verdes para a sala do
editor-chefe. Ele a chamara ainda de manh� e marcara um hor�rio para a primeira
hora da tarde, mas n�o adiantara o assunto. Liz esperava que n�o fosse nada
ligado ao tempo cada vez menor que se dedicava ao Di�rio. Contudo, a op��o por
privilegiar as mat�rias ligadas � revista semanal que tamb�m fazia parte do
grupo coadunava-se mais com o tempo de que necessitava para a conclus�o de seu
primeiro livro que, esperava, n�o fosse o �ltimo. Enfim, aquela reuni�o serviria
tamb�m para que ela explicitasse a inten��o de cessar as suas atividades junto
ao jornal.
Bateu levemente na porta de vidro. O chefe a olhou por sobre
os �culos.
- Entre, Liz.
- Boa tarde, Carl�o. Aqui estou � disse
erguendo ambos os bra�os.
- Sente-se, querida. Como est� o livro?
- Quase
pronto para ser publicado. Devo estar fazendo a d�cima nona revis�o � riu
nervosa. - Mas sei que preciso entreg�-lo antes que resolva encontrar o vig�simo
pequeno defeito. Acho que estou um pouco nervosa, mas... Bom, n�o foi para isso
que voc� me chamou aqui, foi, Carl�o?
- Sempre direta. N�o, Liz, n�o foi para
isso, embora eu me interesse por seu livro e sua carreira, sim.
Liz
apenas sorriu e balan�ou a cabe�a.
- Bem, primeiramente, eu estou
percebendo sua clara tend�ncia em colaborar mais com a revista do que com o
jornal. Estou errado?
- N�o, mas, veja bem...
- Calma. Eu sinto pelo
jornal que perder� uma jornalista de garra, mas eu concordo que o seu perfil se
amolda mais a uma publica��o semanal. N�o vejo problemas quanto a isso.
Liz
suspirou visivelmente aliviada. Carl�o continuou:
- E para corroborar esta
minha opini�o, eu tenho um trabalho urgente para voc� ligado � revista e que
significar� uma bomba editorial equivalente a um furo jornal�stico de primeira
linha.
Liz se empertigou na cadeira e fixou no chefe os olhos verdes
atentos.
- Trata-se de uma entrevista exclusiva com uma das
personalidades mais importantes e arredias do cen�rio mundial. Uma das maiores
benem�ritas das comunidades necessitadas da �frica e da Am�rica Latina, t�o
competente e generosa quanto reclusa. Ningu�m at� hoje conseguiu uma exclusiva
com ela. Pois bem, ela aceitou falar conosco, desde que a entrevistadora seja
voc�.
Liz enrijeceu a mand�bula antecipando o impacto no seu
cora��o.
- Confesso que por esta eu n�o esperava, Liz. Talvez voc� possa
me elucidar esta estranha condi��o. De qualquer forma, Fabiana Hathaway s� quer
falar com voc�!
**********
Liz entrou no seu apartamento sentindo um cansa�o extremo
como h� muito n�o sentia. Na verdade, a sua vitalidade invej�vel sempre lhe
rendera tanto a admira��o dos colegas quanto uma s�rie de brincadeiras sobre
como ela deveria ser movida por pilhas alcalinas enquanto o resto da humanidade
se virava com as �amarelinhas�. No entanto, agora, ap�s quase quinze anos, ela
sentia uma forte vontade de se esconder no box do banheiro.
- Fabi...-
sussurrou.
Fazia muito tempo que n�o dizia este nome deste
jeito.
Entrou para o banheiro para tomar uma ducha forte que quase sempre
lhe renovava o vigor ap�s um dia exaustivo. N�o podia negar que a not�cia lhe
pegara de surpresa, mas ainda n�o sabia exatamente como se sentia em rela��o a
isso. Gostaria de falar com Ta�s, mas ela estava em um congresso na Espanha.
O casamento durara mais de cinco anos e Liz sentia orgulho de como
rela��o terminara � com respeito e carinho. N�o que n�o tivesse do�do. Doera
demais. Mas, ambas encararam o inevit�vel com eleg�ncia e, o melhor, com
ternura. Ta�s era uma grande amiga e fora por ela que soubera, um ano depois do
t�rmino de ambas, sobre o fim do casamento de Caio e Fabiana. N�o que ela
procurasse not�cias de Fabi. Muito pelo contr�rio. Desde a �ltima e fat�dica vez
em que se viram, Liz n�o mais tocou no nome da sua amiga de juventude. Ta�s
respeitava este limite e elas tiveram um relacionamento maravilhoso enquanto
durou.
Do casamento de Fabiana com Eric Hathaway, ningu�m precisou
contar a Liz. O mundo todo soube do enlace de uma das maiores fortunas dos
Estados Unidos com a bela brasileira. Os Hathaway eram figurinhas carimbadas no
jet set internacional, embora Eric, o mais velho, sempre fosse por demais
reservado e aparecesse nos notici�rios muito mais por suas a��es humanit�rias �
frente da Hathaway Foudation do que por suas conquistas amorosas � como, por
exemplo, o irm�o, Lucas.
Ali�s, o casamento com Fabiana Couto talvez
tenha sido o m�ximo de exposi��o a que Eric se submetera desde que herdara a
fortuna dos pais. Eric morrera em 2002. Desde ent�o, Fabiana Hathaway � a
presidenta da funda��o que leva o nome do marido e que cresceu consideravelmente
sob a sua dire��o.
Fabiana Hathaway jamais dera uma entrevista
exclusiva. Esta seria a primeira vez. E para uma revista brasileira, com uma
jornalista brasileira. Um furo. A chance de uma vida. Mas, era a Fabi, a sua
Fabi...
- Que sua Fabi! � Liz gritou sozinha desligando a ducha com for�a
� Ela n�o � mais a sua Fabi. Nunca foi! Trate de agir como uma profissional, Liz
Mello, e fa�a a droga desta entrevista.
**********
- Sra. Fabiana? � o atendente do escrit�rio da Funda��o no
Brasil falou com voz t�mida.
- Sim. � Fabiana respondeu com um sorriso
simp�tico. Achava agrad�vel o jeito brasileiro de chamar as pessoas pelo
primeiro nome. Acostumara-se por anos a ser chamada pelos sobrenomes dos maridos
e, agora, ouvir o seu nome de batismo na voz de seus compatriotas soava-lhe
ador�vel.
- A comiss�o que representa a Comunidade da Vila Nova j� chegou.
Posso faz�-los entrar?
- Pode, sim, Ed... � Edson, n�o?
- �, sim, senhora.
Vou pedir que entrem.
A comunidade que representava uma grande �rea que
abrangia pelo menos cinco bairros da periferia seria uma das beneficiadas por um
dos programas de educa��o para jovens carentes patrocinados pela Funda��o.
Sempre que poss�vel, Fabiana preferia receber os representantes das comunidades
pessoalmente. Sua no��o do que era educa��o - uma das diretrizes da
funda��o - era a de que o ensino n�o deve jamais ser apartado da realidade
social na qual est� inserido o aluno. Estes encontros sempre deixavam Fabiana
animada, mas neste momento os seus pensamentos estavam em outro lugar. A esta
altura, Liz j� deveria saber da sua proposta � revista. Aceitaria? N�o conseguia
evita um frio no est�mago nem um leve mal estar de apreens�o. Abriu a gaveta da
escrivaninha. O porta-retratos. Duas adolescentes risonhas. Ela nunca se
esquecera. Nunca! Em nenhum desses quatorze anos de separa��o.
1987
A comemora��o da vit�ria regada a litros de guaran� foi o
ponto m�ximo da vida de Fabiana at� ent�o. N�o houve um �nico colega ou
professor que n�o tivesse vindo cumpriment�-la.
Irm� Maria amea�ava a
sua beatitude com um semblante que denotava claramente a presen�a de um dos sete
pecados capitais: o orgulho.
Por fim, na hora do jantar, Liz teve que
bancar a guarda-costas de celebridade para evitar que metade do acampamento se
sentasse na mesma mesa que Fabiana. Era a gl�ria. Fabiana estava nas
nuvens.
Na hora de se deitar, Liz e Fabi foram para barraca com meio
mundo de assuntos para desenvolver. Arrumaram os colchonetes (Fabiana j� havia
conseguido um para si) e os cobertores. Vestiram os agasalhos, porque j� tinham
id�ia do frio que fazia de madrugada e se deitaram conversando felizes e
animadas. Uma hora depois o assunto morreu, Liz virou-se para o lado com um boa
noite e a morena virou-se para o outro balbuciando a mesma coisa.
Aquietaram-se.
Uma hora depois e nenhuma delas havia dormido, embora mal
tivessem se movido. Liz estava tomada por uma ansiedade incompat�vel com o sono.
Fabiana sentia-se intranq�ila como se algo indefinido a incomodasse. A menina
mais alta ousou se mover estendendo as pernas e deitando-se de costas. Foi como
se uma senha tivesse aberto o direito ao movimento para as habitantes da
barraca. Imediatamente, Liz tamb�m se virou e encostou a perna na perna de Fabi.
Apesar da barreira dos cobertores, o calor do contato foi delicioso.
A
comporta estava aberta.
Os minutos seguintes foram de intensa
movimenta��o. Parecia que para ambas nenhuma posi��o era suficientemente
confort�vel. Viravam-se, mexiam-se, levantavam e abaixavam os bra�os at� que
este samba do crioulo doido semi-adormecido terminou por desalinhar os
cobertores a tal ponto que os corpos se tocaram. Pararam. Como num pas de
deux em perfeita sintonia ambas foram se movendo com lentid�o e
cumplicidade at� que ficassem novamente na posi��o da noite anterior � abra�adas
� perfeitamente cientes da procura m�tua... perfeitamente concordes de que na
manh� seguinte ambas creditariam a posi��o em que se encontravam ao acaso
privilegiado pelos caprichos do sono.
Ap�s este acampamento, Fabi
adquiriu o inusitado h�bito de dormir abra�ada a um travesseiro.
2007
O escrit�rio da casa de Fabiana (por algum motivo ela
preferira fazer a entrevista em sua resid�ncia) era s�brio e confort�vel, embora
deixasse transparecer um luxo discreto em sua simplicidade. Liz sentou-se numa
das poltronas de couro de frente para a imensa porta de madeira que separava o
recinto de uma das salas da mans�o. Liz tentava contornar o nervosismo
observando minuciosamente os objetos decorativos que compunham o
ambiente.
O barulho de passos e vozes f�-la levantar-se imediatamente da
poltrona. Estremeceu. Fabiana vinha caminhando vestida com roupa de
equita��o acompanhada do secret�rio que anotava cada recomenda��o que vinha da
sua boca. O tempo havia sido pr�digo com ela. Fabiana estava mais linda do que
jamais fora. Continuava com o mesmo porte atl�tico evidenciado pelas cal�as de
montaria coladas nas pernas longas e fortes, mas o rosto perdera os contornos
arredondados da juventude e agora detinha um corte anguloso, preciso e que
talvez se diria r�spido, se n�o fosse suavizado por formas t�o equilibradas e
femininas que a faziam certamente uma beldade.
Fabiana sempre fora
linda, mas a maturidade a tornara bel�ssima.
Al�m disso, havia nela agora
uma aura de seguran�a e decis�o. Cada ordem ou simples pedido pareciam cercados
de uma autoridade t�o natural quanto a delicadeza que sempre cercara os seus
m�nimos gestos. Ent�o, a morena retirou o chap�u, desfez o coque e soltou os
longos cabelos pelos ombros num gesto t�o peculiar que Liz se arrepiou
imediatamente. �N�o � poss�vel, n�o depois de tanto tempo�, a loirinha pensou
consciente de que repetia uma sensa��o antiga e praticamente
esquecida.
Foi ent�o que Fabiana a viu. Nos olhos azuis reluziu algo como
um susto. Daquele tipo de sobressalto que nos ocorre mesmo quando j� esperamos
por algo e mesmo assim aquilo nos surpreende incontrolavelmente.
Para
Liz, embora detendo a vantagem de ver Fabiana antecipadamente, fitar aqueles
olhos novamente assemelhou-se a um soco bem aplicado na boca do est�mago.
Espantou-se com a sua ansiedade e intimamente se recriminou. De imediato,
assumiu uma face profissional e aguardou a presen�a de sua entrevistada com uma
serenidade erigida por anos de of�cio.
Fabiana dispensou o auxiliar e
caminhou para Liz com uma firmeza e cad�ncia que disfar�avam o seu cora��o em
disparada. Como sua Liz estava bonita, segura e serena! Ela pouco lembrava a
adolescente ativa, mas um tanto agressiva que fora a sua melhor amiga. Ali
estava uma mulher cheia de uma confian�a madura. Os cabelos agora curtos
evidenciavam ainda mais os tra�os delicados e os olhos verdes que ainda
continuavam t�o francos e diretos de como ela se lembrava. Fabiana j� havia se
informado sobre Liz. Sua pequena amiga era agora uma jornalista respeitada.
Estava para lan�ar um livro. N�o fora dif�cil justificar porque ela a exigira
pessoalmente.
O que Fabiana n�o sabia era que Liz se esfor�ava
sobremaneira para aparentar tranq�ilidade. Esperara ficar um pouco inquieta e
mesmo desconfort�vel com este encontro, mas n�o imaginara chegar ao ponto de
perder o ritmo da pr�pria respira��o. Inspirou e expirou compassadamente e se
acalmou. Mais um benef�cio que os anos de yoga lhe proporcionavam num instante
t�o perturbador.
Fabiana parou na frente de Liz.
Independente do
medo de como seria recebida, principalmente depois da forma com que fora embora
da vida de Liz h� anos atr�s, Fabiana exibia um sorriso quente ainda que um
pouco tr�mulo.
Liz n�o sabia o que fazer. Ali estava a melhor amiga que
j� tivera em toda a sua vida. Ali estava mulher que amara e desejara
alucinadamente por tanto tempo que n�o se lembrava de uma outra �poca em que n�o
tenha amado Fabiana. Ali estava a pessoa que a ferira de modo t�o avassalador
que nem anos de terapia, trabalho e a certeza de ser ignorada sepultaram o
sentimento antigo e inc�modo que ainda lhe acompanhava como lhe confirmava agora
o seu cora��o opresso.
E, no entanto, ali estava ela tendo que elevar a
cabe�a de novo para olhar Fabiana nos olhos e mais uma vez sentir-se em pleno
afogamento.
N�o era poss�vel! N�o mesmo! Firmou o pensamento em algo
concreto como as regras confort�veis da urbanidade, mas antes que estendesse a
m�o num cumprimento civilizado, Fabiana a abra�ou. Liz ficou im�vel por um
momento, surpresa. Mas Fabi envolveu-a com seus bra�os longos colocando o queixo
na cabe�a loira com aquela velha intimidade h� tempos esquecida e Liz a abra�ou
pela cintura aconchegando a face no peito largo, aspirando o cheiro gostoso do
colo de Fabiana.
Parecia um sonho. Fabiana n�o sabia o que sentia com
mais intensidade: vontade de rir, de chorar, de abra��-la mais forte ou de
beij�-la continuamente. Apenas sabia que gostaria de que o tempo lhe concedesse
uma r�stia de eternidade naquele exato momento. S� um pouquinho...
Liz
fechou os olhos e permitiu-se aninhar novamente naqueles bra�os outrora t�o
queridos, mas uma avalanche de sentimentos que amea�ou escapar-lhe do peito
dando saltos perigosos e mortais sobre a sua raz�o e, principalmente sobre a sua
m�goa que, ressurgida, bradava indignada bem do meio da garganta, a fez
enrijecer imediatamente e p�r fim �quele id�lio de primeiro encontro. Separou-se
de Fabiana e amea�ou um cumprimento mais formal que, no entanto, saiu um tanto
brusco.
- Oi, Fabiana, como vai?
- Eu...muito bem, obrigada.
Voc�...seus cabelos est�o curtos � Fabiana respondeu meio atrapalhada.
- Pois
�. Mas...voc� n�o acha que ficou bom?
- N�o! Quero dizer, eu adorava o seu
cabelo longo, mas ficou muito bom, muito bom mesmo. Voc� est�
linda...
Liz ficou um tempo sem saber o que dizer, mas emendou o que lhe
veio � cabe�a.
- Obrigada. Voc� est� mais forte.
- Ah, �. Exerc�cios.
Equita��o e kick boxing.
- Voc� lutando? Gostaria de ver isso.
Fabiana
riu.
- Eu pratico h� alguns anos e ao contr�rio do que voc� possa pensar,
eu sou muito boa.
- N�o duvido. Voc� sempre foi muito boa em tudo que se
prop�s a fazer.
- Voc� me conhece bem.
Este coment�rio fez Liz
enrijecer-se e imediatamente procurar se lembrar do motivo de sua
visita.
- Isso me lembra do que vim fazer aqui � falou com voz neutra e
profissional.
- Claro � Fabiana respondeu polidamente escondendo a decep��o
com a mudan�a do rumo da conversa por tr�s do melhor verniz social. - A
entrevista.
- Isso, a entrevista.
- Bem, Liz, acredito que voc�
esteja ciente de que a revista achou interessante e eu concordei em fazer n�o
apenas uma entrevista, mas uma s�rie de reportagens sobre mim e a funda��o.
-
Sim, eu estou ciente. As reportagens sair�o em quatro edi��es seguidas
abrangendo desde aspectos da sua vida pessoal at� a sua atua��o � frente da
Funda��o Hathaway nos �ltimos tempos.
- Exato.
- Isso ser� muito bom para
a revista, voc� sabe. Diversas publica��es no mundo inteiro tentam uma �nica
entrevista de meia p�gina com voc� h� anos.
- N�o gosto de publicidade vazia
e muito menos de ass�dio � minha vida �ntima. Se algu�m quer saber sobre a
funda��o, tenho excelentes equipes formadas apenas para prestar este tipo
informa��o.
- Certo...Ent�o, porque agora? � Liz perguntou de chofre e quase
dizendo: �Por que comigo?�.
- Eu... � Fabiana hesitou, mas sorriu de modo
cativante e falou pendendo a cabe�a para o lado de um modo t�o seu e que Liz
jamais se esqueceria nem que vivesse duzentos anos. � N�s n�o podemos fugir para
sempre, n�o � mesmo, Liz?
- Certo... � Liz concordou debilmente abaixando a
cabe�a e se sentindo estranhamente embara�ada. - Bem, por onde vamos come�ar,
Fabi...ana?
- Eu acredito que voc� tenha um roteiro.
Liz
assentiu com a cabe�a e Fabiana continuou:
- Eu gostaria apenas que
come��ssemos a falar primeiramente sobre os projetos que pretendemos implementar
no Brasil para depois adentrarmos a minha vida pessoal. Eu gostaria de me
ambientar primeiro. N�o estou acostumada a falar sobre mim.
- Eu sei... � Liz
falou baixinho e Fabiana preferiu ignorar o coment�rio embora seu cora��o tenha
do�do apertado no peito.
- Amanh�, ent�o? � Fabiana perguntou.
- Pensei
que f�ssemos come�ar agora.
- Desculpe, Liz, n�o posso. Tenho uma audi�ncia
com o governador daqui a uma hora e de tarde vou a uma reuni�o r�pida em
Bras�lia com representantes de algumas organiza��es que pretendem uma parceria
com a funda��o. Amanh�, ao mesmo hor�rio, voc� pode?
- Claro, Mrs. Hathaway,
eu estou a sua inteira disposi��o � Liz n�o conseguiu evitar um tom de
ironia.
- Eu...pode ser em outro hor�rio, se voc� quiser, Liz � Fabiana disse
com o antigo rubor de timidez tomando-lhe o rosto.
Liz se arrependeu na
hora, menos pela possibilidade de ofender a pessoa que representaria o maior
furo de reportagem da revista em que trabalhava (entrevista pela qual o seu
editor daria um dos olhos de bom grado, isso para n�o lembrar do acr�scimo
consider�vel em seu curr�culo de jornalista) e mais pelo fato de descobrir que a
m�nima possibilidade de magoar Fabiana ainda a feria sensivelmente. Levantou-se
um pouco contrariada.
- N�o. Este mesmo hor�rio est�
�timo.
Fabiana levantou-se tamb�m.
- Ent�o, at� amanh�,
Liz.
Liz apertou a m�o estendida e preparou-se para sair com Fabiana a
acompanhando educadamente.
- N�o precisa me acompanhar, Fabiana. Voc� tem
um compromisso importante em poucos minutos. Eu conhe�o o caminho. Eu a vejo em
breve � Liz falou rapidamente e seguiu a passos firmes para a porta.
N�o
olhou para tr�s. A proximidade de Fabiana a deixava nervosa. Contudo, at� que o
primeiro encontro n�o fora t�o mal assim, pensou. Imaginara de tudo nos �ltimos
dias. Desde chorar constrangedoramente at� dar um soco bem no meio do rosto de
Fab...Mrs. Hathoway. Ou mesmo agir com um profissionalismo impass�vel e
impression�-la com sua frieza. Bem... nada disso acontecera. Eram duas mulheres
adultas agora. Seu lindo e infeliz amor de juventude era apenas isso: um amor de
juventude. Liz respirou fundo e ligou o carro bem menos apreensiva do que quando
chegara, mas um pouco mais triste.
**********
Liz chegou alguns minutos mais cedo e ficou aguardando sua
entrevistada no mesmo escrit�rio do dia anterior. Pouco tempo depois, ouviu a
gargalhada rara e cristalina de Fabiana que se aproximava falando ao celular.
Ela parecia relaxada e se divertindo muito porque avistou Liz e pediu com um
gesto brando que ela aguardasse um pouco. Fabiana falava em ingl�s e com um
sorriso terno pairando nos l�bios. N�o estava com a roupa de montaria. Ostentava
um vestido leve de ver�o que lhe ca�a com gra�a e eleg�ncia, sand�lias de
salto igualmente despojadas, mas exalando bom gosto, cabelos soltos brilhantes e
uma maquiagem t�nue. Fabiana nunca precisara de muita maquiagem, pelo contr�rio,
seus tra�os j� eram marcantes, seus contornos precisos. Seria redund�ncia.
Fabiana desligou o telefone celular.
- Desculpe-me, Liz, era um
querido amigo com quem n�o falava h� muito tempo.
Liz apenas meneou a
cabe�a condescendente e perguntou:
- Podemos come�ar?
- Por favor �
Fabiana respondeu reparando no jeans claro e na blusa de al�as que a jornalista
usava. Liz se vestia de forma simples e correta como sempre, al�m de parecer
muito mais jovem do que Fabiana sabia que era sua idade. Na verdade, o corpo
perfeito de Liz ganhara mais justeza e equil�brio com os anos e os cabelos
curtos cuja franja lhe ca�a constantemente sobre os olhos lhe conferiam um ar de
menina sapeca para quem s� faltava o sorriso. E Liz sorrira tanto em outro
tempo... contudo, nos �ltimos dois dias e at� agora, Fabiana n�o tinha avistado
nem a sombra de um sorriso.
- Muito bem � Liz ligou o gravador e come�ou com
as perguntas.
- Sra. Fabiana Hathaway, a Funda��o, antes da gest�o de Eric
Hathaway e posteriormente com a sua pr�pria, possu�a uma clara inten��o de
apoiar projetos ligados � produ��o cultural erudita e agora possui uma tend�ncia
principal voltada para a educa��o global de jovens carentes em diversos pa�ses
do chamado terceiro mundo. Por que a mudan�a?
- Antes de mais nada, Liz, devo
dizer que a Funda��o ainda ap�ia a produ��o art�stica dita erudita, mas de fato
esta j� n�o � a principal converg�ncia de nossa atua��o. Eric pensava e eu
tamb�m penso que a educa��o � a maior porta para a emancipa��o das pessoas e,
atrav�s delas, dos povos. �, efetivamente, uma pr�tica de liberdade que tem o
cond�o de abrir as portas para uma vida melhor.
- Mrs.
Hathaway, s�o mais de vinte anos de Funda��o e quase cinco anos sob a sua
dire��o, por que somente agora o Brasil, sua terra natal, � privilegiado com a
aten��o da Hathaway Foundation?
- Boa pergunta, Liz. A verdade � que
quando a funda��o mudou seu foco de atua��o, n�s direcionamos os nossos esfor�os
primeiramente para o continente mais pobre do mundo : a �frica. Porque Eric
acreditava que todo o mundo, especialmente Europa e Am�rica, possui uma enorme
d�vida para com aquele continente. N�o obstante, chegar�amos indubitavelmente na
Am�rica Latina e no Brasil, n�o somente porque � o meu pa�s natal, mas porque o
Brasil tem um problema hist�rico cr�nico de vilip�ndio � import�ncia fundamental
da educa��o. E aqui estamos.
Liz balan�ou a cabe�a aparentemente
satisfeita com a resposta e j� abria a boca pra fazer a pr�xima pergunta quando
Fabiana continuou:
- Pessoalmente, contudo, eu compreendi que j� era a
hora de voltar pra casa. Melhor. J� era hora de resgatar a minha
casa.
Liz olhou imediatamente para Fabiana n�o somente pelo coment�rio
intrigante, mas pelo tom com que ela fizera aquela declara��o: terno, aveludado,
quase uma car�cia. Liz baixou os olhos encabulada. Estava louca para perguntar o
que Fabiana entendia por sua casa, mas sentiu que estaria pisando em terreno
minado.
- Certo. � comentou lac�nica. Quais s�o os principais projetos
nos quais a funda��o est� engajada agora no Brasil? � continuou.
Fabiana
n�o conteve uma leve express�o de desapontamento, mas rapidamente come�ou a
discorrer sobre o que Liz perguntara. O restante da entrevista transcorreu
pautada nos projetos da funda��o. Uma hora depois, o secret�rio pessoal de
Fabiana se aproximou discretamente.
- Mrs. Hathaway, o motorista j� a
est� aguardando.
- Obrigada, Simon. Mais uma vez pe�o desculpas, Liz, mas
tenho um compromisso daqui � pouco.
- Com um senador ou um ministro, Mrs.
Hathaway? � Liz perguntou de repente imitando o sotaque pomposo de Simon,
reempossada de seu antigo humor preciso e sarc�stico.
Deliciada, Fabiana
gargalhou sonoramente.
Por sua vez, Liz apreciou com mais prazer do que
admitiria aquela risada de poucas e caras lembran�as e olhando para aquele rosto
antes t�o amado aberto num sorriso largo, de olhos fechados e com a cabe�a
levemente jogada para tr�s, Liz sentiu uma imensa ternura invadir-lhe o cora��o.
E foi t�o forte e inesperado este sentimento que Liz percebeu l�grimas lhe virem
aos olhos. Um bolo lhe obstruiu a garganta, um peso esmagou-lhe o peito. A
loirinha levantou-se num salto, balbuciou despedidas apressadas e saiu como se
corresse de uma sala de tortura.
Liz entrou no carro e partiu um pouco
atordoada com o que sentira. J� n�o achava que estava t�o segura assim de sua
frieza de �nimo. Alguns quarteir�es depois, parou o carro sentindo a respira��o
dif�cil como se estivesse com um ataque de asma. Ainda com as m�os no volante e
os olhos verdes assustados, come�ou a solu�ar devagar. Segundos mais tarde,
chorava incontrolavelmente.
CAP�TULO IX
Duas horas.
Fabiana n�o conseguira dormir.
O que dera em Liz
para sair daquele jeito? Precisava controlar a sua ansiedade, mas era dif�cil
conter a vontade de abra��-la, resistir � tenta��o de toc�-la, de faz�-la sorrir
ou de retirar carinhosamente a franja rebelde de sobre os olhos verdes. Quando
Liz fez aquele coment�rio t�o t�pico e espirituoso, Fabiana teve uma vontade
quase invenc�vel de agarr�-la e ench�-la de beijos, de estreit�-la nos bra�os e
pedir que a perdoasse, que a amasse novamente como antes. Contar-lhe do seu amor
que resistiu � sua covardia e preconceito e que permaneceu bravamente em sua
alma e por fim a libertou. Contudo, como perder o medo terr�vel de que Liz
jamais a quisesse de novo?
Duas horas.
Liz n�o conseguira dormir.
Chorara
compulsivamente por muito tempo. Subestimara a for�a emocional de ver Fabiana
outra vez. Precisava se controlar. Terminaria esta s�rie de entrevistas o mais
r�pido poss�vel e daria um jeito de nunca mais ver Fabiana Couto ..., Fabiana
Hathaw...sei l�! Descobrira da forma mais brusca poss�vel o quanto aquela mulher
ainda era capaz de desequilibra-la. Mas n�o teria o cora��o destro�ado
novamente. Nunca mais!
**********
Liz chegou como sempre, alguns minutos adiantada. A
governanta a atendeu com um recado:
- Mrs. Hathaway pede que a senhorita
a aguarde um pouco porque ela se atrasar� alguns minutos. A sede da Funda��o em
Nair�bi foi v�tima de um atentado � bomba h� algumas horas e Madame est� com os
seus diretores na �frica em conversa por v�deo confer�ncia.
- Meu deus! �
claro que aguardo. Se voc� puder, diga-lhe que n�o precisa se apressar.
A
governanta anuiu educadamente e se retirou. Meia hora depois, Fabiana apareceu,
triste e abatida. Liz conhecia bem aquele jeito consternado de andar com os
ombros ca�dos de quando ela se sentia impotente e infeliz.
Olharam-se
compreensivamente.
Fabi bateu os bra�os nas pernas em resigna��o e
cansa�o.
- Eu acho que n�o conseguirei responder �s suas peguntas hoje,
Liz. Desculpe.
- Tudo bem...
- Boa parte do pr�dio foi destru�da.
- Eu
sinto muito.
- Mubawa morreu.
- Mubawa?
- Ele chegou na nossa porta
quando tinha doze anos. Eu estava com Eric em Nair�bi naquele dia. Os pais de
Mubawa tinham sido assassinados. Ele perdera um dos bra�os, estava maltrapilho e
sub-nutrido, mas era t�o vivaz, inteligente e decidido, apesar da trag�dia que
fora a sua vida. Pediu para morar e comer em troca de trabalho. N�s o acolhemos.
Ele cresceu, aprendeu e agora era um dos nossos mais competentes e leais
colaboradores. Mubawa era uma inspira��o para todos e meu amigo...
Nessa
hora, a voz de Fabiana tremeu.
- Fabi, o que eu posso fazer?
Era a
primeira vez que Liz a tratava pelo diminutivo carinhoso que ela mesma
inaugurara. Fabiana n�o ag�entou. Virou de costas e colocou as m�os no rosto
chorando. Sem pensar muito no que estava fazendo, Liz avan�ou para ela e a
abra�ou por tr�s colocando a rosto delicadamente de encontro �s suas costas.
Para Fabiana, era um misto de dor e alegria. A sua Liz finalmente a abra�ava
espontaneamente ainda que numa hora de desespero. Tirou as m�os do rosto e
pousou os bra�os nos bra�os de Liz que lhe enla�avam a cintura. Suspirou em meio
�s l�grimas.
Liz fechou os olhos aspirando o cheiro dos cabelos fartos e
negros. Fabiana fechou os olhos sentindo amplamente aquele cora��o batendo de
encontro � sua pele. Nenhuma delas se deixou levar por pensamentos outros sen�o
o de estarem abra�adas com uma cumplicidade antiga, mas nunca esquecida. Uma
infinidade de minutos se passaram antes que os passos diligentes da governanta
as fizessem se separar.
- Mrs Hathaway? Liga��o de
Nair�bi.
Fabiana passou as m�os pelos olhos �midos, respirou fundo e
olhou para a governanta, mas antes que dissesse qualquer coisa, Liz
adiantou-se:
- Olha, Fabiana, eu volto amanh� ou num outro dia que lhe
for conveniente.
- N�o! - Fabi exclamou, para depois falar com mais calma. -
Quero dizer, ser� que voc� pode ficar comigo mais um pouco? Eu tenho quase
certeza de que se trata de Mwai, meu diretor em Nair�bi, que quer falar sobre os
funerais e outras quest�es legais atinentes. Eu estou...Eu estou...Por favor,
Liz?
- Claro.
- Obrigada.
Liz seguiu Fabiana at� outra parte da
casa onde havia uma mesa de reuni�es e uma aparelhagem moderna de v�deo
confer�ncia. Um senhor distinto de uns sessenta anos aparecia na tela. Fabiana
sentou-se e pediu que Liz se sentasse ao lado dela. Mwai realmente come�ou a
falar sobre quest�es legais relativas aos falecimentos e por causa disso,
inevitavelmente, ele teve que tocar algumas vezes na brutalidade das mortes e
citar nomes queridos em frases no passado. Sem pensar, Fabiana buscou a m�o de
Liz e a apertou. Mas, mesmo visivelmente emocionada, ditou ordens e tratou dos
detalhes com firmeza.
Liz olhou para a amiga com admira��o. Como
predizera na adolesc�ncia, Fabiana se transformara numa mulher extraordin�ria.
N�o conseguiu conter uma onda de orgulho que se traduziu num aperto involunt�rio
na m�o que abra�ava. Fabiana percebeu e sem pausar a frase que dirigia ao seu
interlocutor, correspondeu ao aperto e ainda passeou o polegar suavemente pelo
dorso da m�o da loirinha que n�o conseguiu deixar de se arrepiar.
Perigo!
Perigo�, gritou-lhe a consci�ncia, mas ainda assim, Liz manteve a m�o no lugar
at� que a conversa findasse.
Despediram-se com um cuidado diferente dos
�ltimos dias. Em meio � tristeza, Fabiana percebeu esta t�nue mudan�a e
permitiu-se sentir esperan�a. Fabiana pediu alguns dias para recompor a sua
unidade na �frica. Combinaram o pr�ximo encontro para a semana seguinte.
**********
Dez da noite.
A TV apresentava mais um seriado
americano com infind�veis cenas de persegui��o de carros. Fabiana mal prestava
aten��o ao quadrado luminoso iluminando debilmente o quarto. Ap�s o terr�vel
incidente na �frica, ela voltaria a rever Liz na manh� seguinte. Os dias cheios
a fizeram esquecer um pouco de sua amiga, mas as noites a faziam sempre voltar
os pensamentos para ela. Desligou a TV e abra�ou o travesseiro, pronta para
outra longa noite insone. Rememorou pela mil�sima vez as �ltimas rea��es de Liz.
Uma intui��o de guerreira lhe dizia que j� era a hora de agir com um pouco mais
de agressividade. Este pensamento retirou-lhe definitivamente o pouco de sono
que ainda poderia ter. Levantou-se e seguiu para a cozinha para preparar um ch�.
Precisava pensar.
Dez da noite.
Liz n�o havia revisado uma �nica
linha durante todos esses dias. Seus pensamentos s� tinham uma �nica
destinat�ria. Frustrada e irritada consigo mesma, prometera-se passar um longo
per�odo em Trancoso t�o logo terminasse a s�rie de entrevistas. Bastaria pedir
as chaves da casa de praia � Ta�s. Ela as cederia de bom grado. Era isso:
terminar o trabalho, tirar uns dias de descanso e Fabiana voltaria a ser uma
lembran�a eventual. Virou para o lado e tentou dormir.
**********
No outro dia, Liz foi recebida mais uma vez pela governanta
com um aviso incomum.
- Srta. Liz, Mrs. Hathaway pediu que lhe
avisasse que a aguarda na piscina.
Liz estranhou a novidade, mas
tranq�ilamente se deixou conduzir pela governanta. Chegou na �rea da piscina at�
mesmo um tanto curiosa. Era realmente uma propriedade muito grande. Passou os
olhos pelo jardim bem cuidado, a decora��o de bom gosto, a enorme piscina...Sim,
a piscina. Fabiana vinha subindo pela escada com um sorriso t�mido nos l�bios.
S� o sorriso...porque n�o havia nada de t�mido naquele biqu�ni. Para quem
esperava um mai� atl�tico e recatado de uma nadadora, Fabiana apareceu com um
modelito min�sculo digno de domingo em Ipanema.
Liz engoliu em seco. O
que era aquilo, meu Deus?
Aparentemente alheia ao efeito que estava
causando, Fabiana terminou de subir a escada enrijecendo suas coxas
maravilhosas. A barriga parecia o sonho almejado por qualquer personal trainner.
Os bra�os torneados, os seios firmes seguros pelo biqu�ni revelando as curvas
perfeitas do colo moreno. Os cabelos negros molhados, jogados para tr�s. Os
olhos azuis l�quidos e ternos olhando para Liz.
Haja controle!
Liz abafou uma exclama��o, mas sabia de antem�o que deveria estar
vermelha como um tomate maduro. Se Fabiana percebeu o seu embara�o, n�o
demonstrou.
- Eu vivo te pedindo desculpas, n�o �, Liz? Eu n�o tive tempo
para os meus exerc�cios costumeiros esta manh�, ent�o resolvi nadar um pouco.
Espero que voc� n�o se importe.
- Eu? N�o! Claro! Quero dizer, claro que n�o.
Uau...digo, nadar! Puxa, �timo. �timo exerc�cio.
- Obrigada. Em poucos
minutos eu retorno, tenho um arm�rio com algumas roupas aqui na casa da piscina
para essas eventualidades � Fabi disse e saiu andando com sua perturbadora
beleza para dentro da casa.
Desarmada, Liz s� conseguiu acompanha-la
caminhando lentamente at� o interior da casa da piscina. Antes de entrar, a
morena trouxe a m�o para as costas e desamarrou o biqu�ni deixando por breves
segundos que Liz admirasse as costas nuas e principalmente se lembrasse do que
elas escondiam. A loirinha sentiu uma vontade premente de se jogar na �gua fria
da piscina.
Fabiana sorriu delicadamente.
Quando Fabiana voltou de
banho tomado e vestida simplesmente de jeans e camiseta, a conversa versou
basicamente sobre o atentado e Fabiana n�o se furtou a falar abertamente sobre o
acontecido, muitas vezes com vis�vel emo��o, derramando com sinceridade suas
impress�es � respeito da brutalidade daquele ato. Liz ficou satisfeita com o
resultado e marcaram para o outro dia, infelizmente adiado porque a presidente
da Hathaway Foudation teve que viajar para a sede em Nova York. Ficaram cerca de
dez dias sem se ver.
Durante aqueles dias, Liz p�de preparar,
formular, desistir e reiterar as perguntas que faria � Fabiana sobre a sua vida
pessoal nesses anos em que n�o tiveram qualquer contato. Na verdade, Liz n�o
sabia se gostaria mesmo de saber determinadas coisas e estava profundamente
incomodada com isso. Contudo, incomodada mesmo a loirinha estava com o fato de
que a const�ncia dos seus pensamentos n�o era exatamente sobre os seus
sentimentos quanto �s revela��es que Fabiana poderia fazer durante a entrevista,
mas num pequeno detalhe. Pequeno mesmo...o biqu�ni. Ah!, aquele
biqu�ni.
Os sonhos de Liz foram povoados por aquela min�scula pe�a de
vestu�rio. Os seus pensamentos tinham a cor azul turquesa daquele biqu�ni.
Recorreu ao Yoga, �s t�cnicas de respira��o, � concentra��o, ao
equil�brio e ao fim dos dez dias, estava mais tranq�ila. De fato, entendera que
n�o adiantava renegar que Fabiana a perturbava, afinal, ela fora grande amor da
sua adolesc�ncia e era bonita como o diabo, mas tamb�m a magoara profundamente,
o que tamb�m lhe afastava a indiferen�a que pretendia manter. Ent�o, o que tinha
a fazer era trabalhar com agilidade profissional e naturalidade pessoal.
Foi assim que adentrou novamente a casa de Fabiana
Hathaway.
Quando entrou na aconchegante sala de estar privativa para onde
foi conduzida, Liz j� a encontrou esperando-a sentada lendo um livro com
um par de �culos pendendo na ponta do nariz. A loirinha n�o conseguiu controlar
a aproxima��o de uma alegria inconveniente ao v�-la, mas n�o tentou evit�-la de
todo. Precisava encontrar um jeito de trabalhar mais relaxada, mais solta como
era, ali�s, o seu estilo.
- Voc� usa �culos!
- S� para ler. De longe,
continuo enxergando como uma �guia � Fabiana respondeu com um sorriso
luminoso.
- Nani-n�. Desculpas esfarrapadas para o avan�o implac�vel da idade
- Liz falou correspondendo ao sorriso.
O cora��o de Fabiana se aqueceu.
Aquele era o sorriso que lhe fora sempre dirigido em outros tempos.
-
Preparada, Mrs Hathaway? Ou Vossa Senhoria precisar� de um reconfortante ch� de
camomila antes de iniciamos as perguntas? - Liz perguntou com aquele meio
sorriso maroto que ela detinha quando estava fazendo tro�a.
- Preparad�ssima!
- Fabiana falou com anima��o, mal suporrtando a alegria de ver a sua Liz t�o bem
humorada.
- Muito bem, vamos � carga.
Mas antes que Liz pudesse
verbalizar a primeira pergunta, o secret�rio adentrou o recinto. Liz n�o p�de
conter um pensamento ligeiramente homicida. �L� vem este empertigado pomposo
atrapalhar o meu trabalho�.
- Perdoe-me, Mrs Hathaway, mas Monsier
Fran�ois Fillon a aguarda ao telefone.
- Meu Deus, eu espero para falar com
ele h� tr�s dias.
Liz abriu a boca espantada.
- Fran�ois Fillon, o
primeiro ministro franc�s?
- Espero que ele tenha uma boa not�cia para mim -
Fabiana falou j� se levantando. - Liz, voc� me aguarda um instante? Vou
atend�-lo no escrit�rio.
- Claro!
Fabiana saiu apressada deixando Liz
pensando sobre as rela��es que Fabiana mantinha com os poderosos do mundo.
�Caramba! Que moral!�. Fabiana demorou cerca de meia hora e quando voltou tinha
um pedido de desculpas estampado no rosto perfeito. Liz se adiantou.
- J�
sei, j� sei. Teremos que adiar novamente.
- Mil perd�es, Liz. Preciso enviar
partes importantes do projeto que contar� com a parceria do governo franc�s o
mais tardar amanh� para a assessoria de Monsier Fillon. Podemos nos
encontrar daqui a dois dias, por favor?
- Tudo bem. Mas, me diga uma coisa, o
primeiro-ministro telefonou pessoalmente? Uau!
- Fran�ois � um
gentleman.
- Fran�ois? Como voc� trata o Bush? Georgie?
J�nior?
Fabiana riu com gosto.
- O presidente Bush tamb�m � muito
educado.
- Meus sais! Nem vou perguntar se voc� conhece o Dalai Lama.
- De
fato, eu...
- Ah, n�o, Fabi. Deixa pra l�. Daqui a dois dias ent�o. Ao mesmo
hor�rio?
- Ao mesmo hor�rio e obrigada pela compreens�o.
- Eu � que
agrade�o. Voc� sabe que vai representar um salto quantitativo e qualitativo sem
precedentes para a minha revista, Fabiana. Compreens�o � o m�nimo que eu preciso
ter.
- Desculpe, Liz, mas o salto da sua revista � o menor dos meus
interesses. A sua compreens�o � mais importante do que qualquer revista.
Liz olhou para a morena imaginando o que dizer, mas n�o conseguiu pensar
em nada. Essas tiradas repentinas de Fabi a inquietavam porque carregavam uma
aproxima��o perigosa e al�m do que Liz considerara aceit�vel quando resolvera
ser um pouco mais natural.
- Certo. Ent�o eu j� vou indo. At� depois de
amanh� � disse com voz inexpressiva.
Quando ela saiu, Fabiana ainda ficou
um tempo sentada na poltrona olhando para a parede. Isso n�o ia ser f�cil. Mas,
quando mesmo ela achou que seria? Levantou-se e cuidou de chamar o seu staff
para uma reuni�o importante. Tinham 24 horas para adequar o projeto ao que o
ministro lhe requisitara. O tempo urgia.
Dois dias depois e Liz foi
recebida novamente pela governanta com o agora menos extraordin�rio �Mrs
Hathaway a aguarda na piscina�. Mais preparada, Liz apenas visualizou de relance
o corpo moreno deslizando sobre a �gua e tomou-se de redobrado interesse pelas
plantas do jardim ao lado da piscina. Ouviu Fabiana sair da �gua e mesmo que
sentisse uma enorme vontade de olhar aquele corpo maravilhoso, firmou a aten��o
em uma samambaia como se ela fosse a �ltima da esp�cie. E o fez com tanto afinco
que quase deu um pulo quando Fabiana falou a cent�metros do seu ouvido.
-
Bom dia, Liz. Voc� pode me acompanhar aos meus aposentos?
Pega de
surpresa, Liz virou-se bruscamente para quase tocar o rosto nos seios mal
escondidos pelo biquini. Inspirou com tanta for�a que sentiu vertigens.
- Qu..que?
- Voc� pode me acompanhar at� o meu quarto, por favor? Eu
tenho l� algumas fotos e documentos que poder�o ilustrar as informa��es que
darei hoje.
- Eu...ora, voc� pode pedir para algum dos seus empregados
traz�-los � sala ou ao escrit�rio, n�o pode?
- Posso, claro. Mas eu
preferiria a sua ajuda para filtrar as coisas que s�o mesmo necess�rias ao
assunto que trataremos daqui � pouco.
- Eu...n�o sei...� muito...
-
Liz, por favor. A verdade � que...bem, voc� pode julgar a minha sensibilidade
excessiva, mas eu n�o gostaria de ver determinadas coisas manuseadas por
estranhos, mesmo que sejam empregados de confian�a. S�o coisas pessoais demais.
- Eu...est� bem.
- Obrigada � Fabiana disse com simplicidade vestindo um
roup�o.
Seguiram pela escada e viraram � direita at� os aposentos de
Fabiana. O quarto era enorme como tudo naquela casa, mas era curiosamente
despojado.
- Se voc� n�o se importa, Liz, eu vou tomar um banho r�pido.
Sente-se e fique � vontade. Ligue a televis�o, se quiser. N�o demoro - Fabiana
disse e entrou no banheiro.
Liz se sentou
na beirada da cama meio sem jeito pensando em como em t�o pouco tempo o quarto
j� parecia ter o cheiro de Fabiana.
A morena entrou no banheiro
consciente de que Liz estava a poucos metros dela compartilhando de uma
intimidade que elas n�o tinham h� anos. A verdade � que a inspira��o para o
convite ao seu quarto surgira na hora. Nem saberia dizer como sustentara aquela
argumenta��o t�o improvisada, mas dera certo. Agora, precisava ter coragem.
Entrou no chuveiro.
Liz passou a m�o pela colcha macia segurando a
vontade de se deitar e aspirar o cheiro dos travesseiros. Ela sabia que estava �
beira de um abismo e contava com a proximidade do fim desses encontros e a
certeza de que provavelmente nunca mais a veria novamente para n�o cair.
Contudo, neste instante sentia-se perigosamente sens�vel. Liz se levantou e
andou pelo quarto impaciente com os seus pr�prios sentimentos. Fabiana saiu do
box procurando a toalha. Do �ngulo formado pelo espelho, Fabiana a viu primeiro.
Confiando nos caprichos do acaso, postou-se meio de lado como se n�o estivesse
percebendo nada e come�ou a se enxugar. Segundos depois, Liz a notou. Quase
perdeu o f�lego quando viu pelo espelho aquela mulher linda e nua se enxugando
devagar e desapercebida de que tinha uma perturbada audi�ncia.
Fabiana
enxugou o rosto, o pesco�o e os bra�os e depois desceu a toalha pelo tronco
contornando os seios lentamente e enxugando a barriga. Quando levou a toalha �s
costas, o sexo de aparados cachos negros apareceu. Liz sentiu o rosto em chamas
e para seu completo supl�cio ou del�cia, Fabiana voltou a toalha para a parte da
frente e passou a enxugar a carne tenra da virilha com delicadeza at� finalmente
tocar o centro da sua feminilidade fazendo Liz suar como se estivesse numa sauna
� vapor.
Era demais para um �nico e atormentado ser humano suportar com
bravura. Ciente de que estava para explodir de tes�o, Liz se virou para a
parede, respirando com dificuldade.
- Fabiana, acabei de me lembrar de
que n�o chequei o material de grava��o. Desculpe, est� bem? Eu vou te esperar l�
embaixo � disse e saiu como se estivesse fugindo dos quatro cavaleiros do
apocalipse.
Andando depressa pelo corredor, Liz pensava freneticamente: �
O que foi aquilo, meu Deus? N�o � poss�vel que eu v� agir como uma adolescente
outra vez. Mas... Caramba! Como ela ainda consegue me deixar neste estado? Meu
S�o Pedro! Esta deve ser a prova��o dos m�rtires. Isso tem que acabar. E
logo�.
Depois que Liz saiu, Fabiana voltou para o quarto um pouco
decepcionada, mas decididamente esperan�osa com a sa�da intempestiva de Liz.
Talvez fosse poss�vel resgatar o seu grande amor.
E era
agora!
Fabiana seguiu atr�s de Liz minutos depois com uma resolu��o na
mente e o cora��o aos saltos, cheio de medo. Encontrou-a de costas mexendo com
menos cuidado que deveria no material que trouxera. Ela ainda respirava depressa
e as m�os nervosas deixaram o pequeno gravador cair no ch�o acompanhado de um
sonoro praguejar.
Fabiana se aproximou devagar e chamou com
simplicidade:
- Liz...
A loirinha fechou os olhos e n�o se
virou.
- Liz... - repetiu.
A jornalista virou-se lentamente como
um condenado � pena capital. Respirou fundo e olhou para a Fabiana. Nos olhos
verdes, a resigna��o com o inevit�vel.
Fabiana alcan�ou-a com tr�s
passos largos e a abra�ou pela cintura tirando-a do ch�o num mesmo movimento.
Liz a pegou pelo pesco�o, emaranhou as m�os nos cabelos ainda molhados e a
beijou.
Arrepio. Saudade. F�ria. Calor. Maciez. Raiva. Tes�o.
Fabiana
a agarrava erguida do ch�o como se nunca mais fosse solt�-la. Beijava seu �nico
amor arrebatadamente. N�o cabia em si de prazer misturado com a incredulidade
dos acontecimentos t�o arduamente esperados.
Liz sentia o peito tentando
se abrir como se houvesse nele uma explos�o que se expandisse milhares de vezes.
Chegava a doer. Se ela pudesse...se nunca mais precisasse abrir o
olhos...
Cessaram o beijo colocando a testa na testa da outra, caladas,
de olhos fechados, abra�adas na mesma posi��o.
Fabiana falou
baixinho:
- Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo.
Liz a escutou
silente. Em sua mente, um enredo tumultuado de imagens e palavras passavam
c�leres e indistintas. Imagens antigas e atuais. Palavras faladas e palavras
escritas.
- Solte-me.
- Liz?
- Solte-me.
Fabiana a soltou
relutante.
Liz pegou o material com calma recolocou-o na bolsa e foi
saindo do recinto.
- Liz, aonde voc� vai?
- Eu vou pedir a outro
jornalista para vir terminar a sua entrevista. Isso, se voc�... Se a senhora
ainda quiser, Mrs Hathaway. N�o me importa.
- Liz...porque voc� est�...? Liz,
me escute.
- Quer saber? Escute voc�, Fabiana! Eu n�o sei de onde voc� tirou
a id�ia de que poderia voltar e retomar aquilo que voc� desconsiderou com tanta
frivolidade.
- Voc� n�o sabe do que est� falando.
- N�o sei? Fui eu quem
ficou tentando como uma idiota imaginar porque voc� teria feito aquilo
comigo.
- Liz, por favor, eu que era uma idiota...
- Hip�crita!
-
Hip�crita, sim. E muito mais do que voc� quiser me acusar, pois eu sou
merecedora. Mas, n�o foi frivolidade ou desconsidera��o. Eu sofri. Muito.
-
Sofreu, sim. Nos bra�os do marido que voc� escolheu. E agora, veja s�, voc� pode
escolher sofrer numa casa de repouso na Su��a, se quiser.
- O que eu quero �
voc�.
- N�o...
- Escute, Liz...
- N�o...N�o fa�a isso.
- Perdoe-me.
Fique comigo.
- N�o! N�o, Fabiana. Para que? Para acordar amanh� ou qualquer
dia com um outro bilhete nas m�os e a alma em peda�os? Nunca! Nunca mais...Nunca
mais me procure, por favor.
Com o �nimo prostrado e os p�s colados no
ch�o, Fabiana p�de apenas ouvir os passos de Liz irem sumindo junto com as suas
esperan�as.
A partir de agora, realmente, ser� a conclus�o.
Escrevam.
[email protected]
Abra�os,
Paula.