Amor Pecador
ANASTACIA
Cap�tulo 4
Encontro Marcado
Diana mantinha o olhar fixo em Rosa, e desse modo devastava
seu �ntimo, percorrendo-lhe por dentro, conquistando-a com tal �nsia
invasora, que a menina n�o se ateve a receber Germana que entrara no
quarto.A governanta indagou-se, a princ�pio, pelo que podia haver de
t�o interessante na entrada da casa e iria perguntar isso � menina,se
antes n�o tivesse se assustado e emudecido de um grito.Como novos buqu�s,
na estampa da camisola, pequenas n�doas de sangue brotavam das costas
de sua patroa. De imediato, ocorreu-lhe que, antes de partir, Juan Diego dedicou
breve visita a sua filha, despedindo-se dela tal qual convinha a ele sua abjeta
natureza.Pobre crian�a!E tudo isso por conta daquela mulher, a quem o
patr�o tanto odiava e queria por tudo afastar da menina.At� agora,
as amea�as daquela voz sombria, que n�o podia ser outra sen�o
a do pr�prio Diabo,n�o se lhe sa�am da cabe�a.P�de,
naquele instante cruel, vislumbrar-se morta ao p� da escada, como se
j� estivesse em esp�rito,apartada de seu corpo pelo que a Diaba
apelidou _ e isso Germana nunca esqueceria_ de um aceit�vel acidente.
Preocupada com a dor que com certeza Rosa estaria sentindo, a governanta avan�ou
tr�s passos e lhe tocou o ombro.Sem querer, com esse gesto,Germana
esmagou uma ferida que h� pouco se fechara e isso fez Rosa tornar �
realidade, esquivando seu ombro ao mesmo tempo em que fugia da janela. Ainda
atordoada, a menina apoiou-se na parede visivelmente abatida. Reconheceu a figura
am�vel da governanta e isso fez-la animar-se a dar um sorriso; por�m,
a dor lancinante que a assaltara sobrepujou o al�vio de rever a amiga
e, por isso, deixou escapar a l�grima que ainda lhe restava. Tomada pela
culpa e mais aflita do que dantes, a velha criada foi at� ela e, carinhosamente,
passou a conduzi-la at� a cama:
_Mil perd�es, menina Rosa!_ a governanta pegava-a pelas m�os com
todo o zelo_ Bem que eu podia t�-la chamado, mas a senhora nem parecia
ouvir-me da porta!_ Rosa apenas lhe dedicou um olhar compreensivo, pois ainda
custava-lhe recobrar a fala_ Se eu soubesse...Oh, Virgem de Guadalupe, protegei
essa menina de fardo t�o pesado!_ e tendo-a sentado na cama, fez men��o
de examinar seus ferimentos.
_N�o, por favor n�o!_Rosa repeliu as m�os de Germana.O
pudor de ver-se despida na frente dela falou mais alto que a dor que lhe assaltaria
com esse movimento brusco. A governanta n�o se ofendeu com essa rea��o
da patroa, pelo contr�rio, tornou-se ainda mais preocupada com seu estado.
_Como n�o, menina? Se n�o tratar, vai acabar inflamando,... pode
at� dar febre!_ Germana foi ent�o ao guarda-roupa e de l�
trouxe toalhas que pousou ao lado de Rosa._ Precisa lavar bem lavado e passar
rem�dio._ dizia ela indo ao banheiro do quarto.O barulho de �gua
caindo dava a entender que ligara o chuveiro e foi com as m�os molhadas
que ela reapareceu_ Vamos, deixe-me ajud�-la a tirar essa roupa suja._
Germana, muito sol�cita, encontrou tamb�m o sabonete l�quido,
mas Rosa ergueu-se da cama e deu um passo para tr�s.
_Obrigada pelo que est� me fazendo , Germana, mas prefiro cuidar de mim
sozinha._ao dizer isso, Rosa cruza os bra�os sobre o busto dando a entender
que estava envergonhada.A governanta concordou com um aceno de cabe�a,
julgando-se meio lerda naquela manh�, pois como uma santa haveria de
ficar nua para outra pessoa? Desde a visita daquela mulher, resmungava ela para
si, que sua cabe�a andava frouxa de pensamento.Que ela n�o me
volte mais aqui ou vejo a hora dessa menina ficar a ver os ossos!
_Promete que vai limpar bem as costas?_ Germana entregava � mo�a
o sabonete.
_Sim.Voc� pode me trazer o rem�dio que eu mesma o passo tamb�m._Rosa,
com dificuldade, abaixou-se para pegar as toalhas._E, por favor, v� receber
a visita antes que ela venha aqui de novo.
Germana ao ouvir isso empalidecera e quase n�o se susteve nas pernas.Rosa
lhe falava com a calma de quem tem os nervos anestesiados pela dor, mas isso,
ao inv�s de sossegar aquele seu cora��o idoso, assombrou-a
mais ainda. A mo�a foi para o banheiro arrastando os chinelos e quando
j� fechava a porta, a governanta a impediu com um gesto.Como que se agarrando
ao �ltimo fio de esperan�a, Germana fez-se de desentendida, esperando
talvez pelo milagre de n�o ser quem ela j� esperava que fosse:
_A quem se refere, senhora?_agora estava explicado o porqu� da menina
sequer t�-la percebido entrar no quarto.Estava reparando o pesadelo se
repetir, a pobrezinha!Se o pai souber da impertin�ncia dessa mulher, �
capaz de...,n�o quero nem imaginar uma coisa dessas!
_Minha futura cunhada._Rosa respondeu finalmente, o que recaiu como um veredicto
de encrenca para a governanta._Diga-lhe a verdade, que n�o posso receb�-la._ao
lembrar-se da vis�o de Diana, Rosa exaltou-se levemente.
_Meu Pai..., � hoje!_e dito isso, Germana se retirou apressada do quarto
de Rosa Maria, fechando por tr�s de si a porta. Ao repassar os olhos
pelo derredor, soltou um largo suspiro, pois Diana, desta vez, resolvera n�o
ir �s vias de fato.Um pouco mais tranq�ila, por�m,ainda sob
o estado de tens�o, Germana foi a passos pausados at� o in�cio
do corredor.Ao tentar espiar j� dali onde aquela mulher estaria, inclinou-se
de um lado, mas nada p�de ver al�m de Das Dores, que parecia servir
ch� � megera na sala.
Sentada no sof�, ostentando uma pose imperiosa, Diana
Lancaster recebia a lou�a de bebida ao mesmo tempo em que n�o
deixava escapar de si o menor ru�do vindo das escadas.Trajava uma t�nica
de cetim de seda, da cor prata, combinado com um cinto de mesma cor e tecido.Por
baixo dessa pe�as, uma regata de malha cinzenta, a fim de minimizar o
decote sensual e uma bermuda de cetim de algod�o, que lhe ia at�
os joelhos.Do seu lado, podia-se ver ainda uma maxibolsa de couro acobreado
e uma sacola preta com um nome de grife gravado em seus dois versos.Diana respirava
eleg�ncia e poder, tal qual um majestoso felino a dar sua gra�a
� natureza.Germana descia os degraus da escada como se a cada passo seu
deixasse um pouco de si para tr�s, quando foi fulminada pelo olhar frio
de Diana. A criada fez men��o de voltar, mas n�o despregara
os p�s do ch�o e, nessa indecis�o pareceu ficar at�
a cozinheira indag�-la:
_E ent�o,Germana?Quando Rosa poder� descer?_Das Dores tamb�m
estava abalada, mas n�o tanto quanto a outra por agora puder retirar-se
� cozinha.Era bem verdade que n�o estava ali cumprindo suas fun��es,
mas Regina acordara com uma estranha indisposi��o, nem sequer
quisera deixar a cama.Talvez estivesse doente e sorte sua poder descansar neste
dia em que o patr�o passar� o dia fora. Sendo assim, como n�o
havia jeito, a cozinheira fora abrir a porta � Diana e lha indicou o
assento, apavorada pelo medo e pelo deslumbre que esta exalava.
A governanta soltou as primeiras palavras que lhe vieram, tentando desviar em
v�o os olhos dos da visita, que,como j� foi dito noutra ocasi�o,
adorava assistir � perturba��o que causava nos outros:
_Bem..., Rosa Maria n�o pode receb�-la agora. _ ao notar uma das
sobrancelhas de Diana arquear-se, o que Germana j� conhecia como pren�ncio
de encrenca, rapidamente corrigiu-se._ N�o que ela n�o deva ou
queira receb�-la, n�o, n�o; n�o � isso..._e
com a alegria da boa id�ia a vir-lhe na mente, completou._ Mas senhora,
veja que cabe�a a minha, esqueci-me que a senhora, muito elegantemente,
avisou-nos que viria neste hor�rio, e eu, como criatura lerda que sou,
n�o impedi que a patroinha se retirasse pra rezar...
Na verdade, Diana n�o se anunciara, outra vez uma atitude estranha de
sua parte.Ao ouvir a ironia vinda da esperta criada, percebeu que se precipitara
e isso a aborreceu.Pousou a lou�a sobre o centro de sala e ergueu-se,
sem no entanto perder a classe. Por breve momento, ficou sem dizer palavra,
at� que a voca��o pr�pria de ex�mia ca�adora
aflorou-lhe com um meio sorriso. Estava claro que viera ali no intuito de rever
a menina, quase que a saciar uma necessidade, mas para algu�m t�o
racional e calculista como ela, imaginar-se de amores por outrem era rid�culo,
sen�o pat�tico.Achou gra�a daquele seu preciosismo, daquele
passatempo que tanto a agradava.Edmund n�o poderia ter pedido �
pessoa melhor para cumprir com esse intento.Diana avan�ou dois passos,
o suficiente para chegar-se bem pr�ximo de Germana, que, sem perceber,
segurou-se num dos corrim�es da escada respondendo ao temor de v�spera:
_E quando isso termina?_Diana falava mansamente, apenas um disfarce para sua
excita��o, para seu desejo de outra vez subir aquelas escadas,
sem que agora nada bloqueasse o seu caminho.Mas, usando de um �ltimo
esfor�o, conteve-se.Chega de precipita��es, ou mais parecerei
com uma adolescente qualquer! E foi convencendo-se disso, que o melhor seria
dar corda para que se enforcasse a presa, que Diana estancou diante da governanta.
_Vai demorar um bocado.Sabe como �..., s�o muitos santos._e ainda
mais ousada, a criada remendou-se._Perd�o, senhora!
Diana teve de admitir a coragem daquela velha decr�pita, pois poucos
eram aqueles que a alcan�avam nessa virtude e isso lha agradou como o
rosnar de um c�o ind�cil, como um mendigo a pedir-lhe uma esmola
de morte.Germana, tendo-a t�o de perto, n�o p�de deixar
de reparar outra vez nos seus bra�os e ombros desnudos, por�m
agora com mais aten��o.Como � forte de m�sculos
essa rival do senhor Juan Diego!Parece mais uma jun��o de lutadora
de boxe com ganhadora de pr�mio miss do s�culo:
_N�o � para tanto._ disse Diana piscando de um olho, o que fez
a governanta arrepiar-se dos p�s � cabe�a. Estaria a Diaba
a ler seus pensamentos?_Vim por que soube n�o poder falar com Rosa ao
telefone.N�o � assim?_ela ent�o estala um dedo e Das Dores
a atende imediatamente, quase que por programa��o.A cozinheira
vai at� o sof� e, numa postura submissa, oferece a sacola preta
� Diana. _Entregue isto a ela.Como uma mocinha simples que �,
n�o deve ter vestu�rio apropriado a um almo�o... de neg�cios.
Germana ainda mirou a sacola meio confusa, mas a apanhou depois de quase t�-la
jogada na cara, por uma Diana impaciente.Quer dizer que a menina Rosa Maria
iria se encontrar com aquela mulher, longe de quem lha pudesse proteger do infort�nio?E
se o patr�o descobrir uma estripulia dessas...,ai!, eu n�o quero
nem pensar o que ele far� conosco!Mas h� de ser pouca coisa comparado
� pobre menina, que por conta de uma besteira que � ver essa peste,
apanhou feito burro de carga.E como ela poderia comparecer a um evento desse,
tendo as costas machucadas como estavam?S� a gra�a de Deus...,
n�o, Ele � que n�o pode estar metido nesse mar de lama.Germana
atarantada por tantos pensamentos, ficou como fora do ar, at� ser a vez
de Diana acord�-la com mais um estalar de dedos:
_H�?_a governanta ainda pensou de contar sobre a sa�de de Rosa,
mas n�o o fez.Diana poderia entender isso como mais uma de suas desculpas
e talvez lha encorajasse a praticar algum acidente aceit�vel._Pode deixar,
senhora!
_�timo._disse Diana voltando-se para receber sua bolsa que tamb�m
Das Dores lhe apresentava_ Meu motorista estar� aqui duas da tarde. N�o
quero saber de atrasos_ e mirando mais uma vez Germana, que engoliu em seco_
nem de esquecimentos.
_N�o h� raz�o pra preocupa��o, senhora!Oh,
n�o!A menina Rosa ir�; oh, se vai!_Germana acompanhou com certo
al�vio Diana afastar-se.Nas suas m�os, por�m, a sacola
que recebera ardia como se posta em brasa.Quando pensava que as coisas n�o
poderiam ficar piores, acontece alguma para prov�-la do contr�rio.O
que a menina Rosa vai dizer quando souber desse encontro marcado_ e logo com
quem _ era a menor de suas afli��es no momento.S� faltava
mesmo Juan Diego aparecer. Germana ao lembrar-se do patr�o fez o sinal
da cruz e o repetiu por mais uma vez vendo Diana atravessar a soleira de entrada
da casa.
Das Dores acompanhou Diana at� a porta e, mal a tinha fechado, virou-se
mortificada para a governanta, que terminava de descer da escada:
_E agora?_ Das Dores correu para a cozinha, sem esperar Germana ao menos respond�-la.Esta
entendera a atitude como prova do nervosismo da cozinheira e a seguiu, mesmo
assustada com tal sandice.Ao chegar na cozinha, encontrou Das Dores revistando
todas as panelas que tinha no fogo, ao mesmo tempo em que limpava as m�os
numa flanela.Germana acalmou-se por assistir algu�m mais inquieta que
ela e p�de, por isso, arfar num longo suspiro.
_Cad� a Regina que n�o est� aqui pra adorar a deusa grega
dela?_desde o primeiro momento que a governanta dava mostras de n�o ir
com a cara da nova criada.Julgava-a pregui�osa e cheia de mal�cias,
tanto � que agora podia jurar que Regina aproveitava a aus�ncia
do patr�o para abster-se do servi�o.
_Deve estar no quarto._respondeu Das Dores,ainda afobada, mas a lembran�a
da mo�a a fez mudar de humor._Ela me parece doente; tinha febre quando
a acordei hoje cedo._Germana arrependeu-se de ter levantado em falso daquele
jeito contra a mo�a. Ela, muito bonita e muito ing�nua..., n�o
demorou at� aparecer sofrendo de alguma coisa.Mas at� isso teria
de esperar.Antes tinha de resolver caso mais s�rio e urgente.Regina j�
era fato consumado.Seu dever agora era de impedir que mal maior acometesse �
menina.
_Depois eu vou l� falar com ela, mas antes, me v� a� a maleta
de primeiros socorros; que eu tenho de tratar da patroa._Germana falou sem perceber
o que dizia e foi s� ap�s a cara de espanto que fez a cozinheira,
que se corrigiu.N�o queria que ningu�m soubesse do que se passara
com a menina, isso s� iria deix�-la ainda mais envergonhada._Ralou
o joelho de uma queda, voc� acredita?
Demorou at� que Rosa conseguisse, a muito custo, limpar
todo o sangue das costas.Uma corrente r�sea escorria-lhe pelas pernas
bem torneadas, e ela mirava as �guas lembrando-se do triste mal que carregava
consigo, que era o de sangrar a todo m�s.Esfregou-se com o sabonete, depois
mais uma vez lavou as feridas e, terminado o asseio, concluiu que Germana dissera
mesmo o certo.A frieza do banho aliviou-lhe as dores como a retirar um peso
sobre si, e era esse justo o significado do mart�rio. A prova de seu
arrependimento, do seu temor a Deus e de sua devo��o �
Santa Igreja. Respirou aliviada por sentir-se limpa outra vez e passou a toalha
ao redor do corpo, pondo outra na cabe�a a fim de secar os cabelos.Quando
sa�a do banheiro, ouviu algu�m bater a sua porta. Estremeceu com
a possibilidade de ser Diana, mas logo a governanta se fez anunciar entreabrindo
um pouco a porta:
_Menina Rosa? Voc� est� vestida?_Germana estendeu o bra�o
para dentro do quarto, oferecendo a ela o kit de primeiros socorros.Rosa foi
at� a porta e tomou-o delicadamente da governanta, que tanto parecia
lhe querer bem.
_Obrigada.Vou descer pra tomar meu caf�._respondeu Rosa tentando disfar�ar
um inc�modo que aos poucos crescera dentro de si. Era mais uma d�vida,
um receio; mas que logo passara a ser insuport�vel ansiedade. E julgando-se
vencida por esse desejo ardente, balbuciou meio t�mida._Ela j�
se foi, Germana?_queria ouvir que n�o, para a sua ang�stia.Teimosa,
blasfemou pedindo a Deus que tudo estivesse bem.
_Sim, patroa._a voz da governanta sa�ra emperrada, como se houvesse engolido
uma tosse enquanto falava. Rosa sorrira ao ouvir aquela confirma��o,
mas, sem que pudesse evitar, uma tristeza abateu-se em seu semblante.Iria despedir-se
de Germana e cerrar a porta, quando aquela voltou a falar de s�bito._
Mas lhe deixou um agrado.
Rosa Maria, esquecida dos poucos trajes que usava, escancarou a porta e surpreendeu-se
por ver Germana com uma sacola preta nas m�os. Seu cora��o
disparara e ela n�o soube o que fazer ou o que dizer, sendo necess�rio
a governanta entrar por conta pr�pria, estendendo-lhe a sacola, coisa
que recebera quase deixando a toalha cair.Tomada pela curiosidade e por uma
alegria inexplic�vel, tratou de vasculhar o que lhe havia dado a cunhada
e seus olhos brilharam: um vestido de cetim lavanda mostrou-se do papel de embrulho
onde estava.Rosa o tomou nas m�os, maravilhada.Era ele de uma al�a
apenas e franzida, no qual ainda havia um pequeno broche a patchwork.A governanta,
meio que sem entender aquela satisfa��o da menina, ajudou-a com
a sacola, retirando de l� tamb�m uma caixa de sapatos e uma bolsinha
que imitava a cor verde, vermelho e preto do broche.Que estranho ser a patroa
t�o vaidosa!_pensava consigo Germana:
_Nossa, mas que lindo tudo isso!_Rosa notou a caixa de sapatos sobre a cama
e correu at� ela.Ao abri-la, viu o par de sand�lias da cor creme,
com um leve saltinho ao modo cl�ssico._Como ela sabia o n�mero
que cal�o?_a governanta quase deixa escapar que o Diabo tem l�
os seus informantes, mas ao inv�s disso preferiu terminar de contar a
bomba.
_A senhora foi convidada a um almo�o hoje... com a senhora Diana.Esses
agrados s�o para que possa ir como manda a etiqueta._Germana falava com
um s�rio pesar na voz.Desde que presenciara aquela conversa no corredor,
sabia bem al�m do que desejava uma mente tranq�ila.
Rosa n�o podia crer.Ficara visivelmente embevecida por aqueles presentes,
mas agora a situa��o era outra.Uma vez dentro de casa, ainda teria
como evit�-la, como fugir de algum imprevisto do qual j� nutria
certa suspeita.Mais que isso, ela teria Germana e os outros para lhe fazerem
companhia, para n�o deix�-la sozinha com...O que me vai acontecer
agora, meu Deus?Nunca havia sa�do de casa para canto nenhum que n�o
fosse o col�gio e, quando muito, para um m�dico.Onde seria esse
almo�o?Na casa dela?E estariam acompanhadas de mais algu�m ou
completamente a s�s?Um suor frio passou a escorrer pela testa de Rosa,
confundindo-se com as gotas d��gua do asseio.Seus olhos muito verdes
voltaram-se para a governanta, esperando que lhe dissesse algo mais e, de um
engasgo, murmurou quase em s�plica:
_ Ser� que posso dissuadir-me desse convite?_Germana olhou-a um tanto
que consternada por sua pureza de alma. Havia horas, como essa, que a governanta
desejava bater com a cabe�a, apenas para esquecer do que conhecia, do
que esperava acontecer.Gesticulou negativamente para a menina, que levou uma
das m�os � boca._Meu Deus, o que fa�o?_ Rosa tinha os olhos
marejados, as faces j� rubras pela afli��o que a arrebatava.
A criada baixou a cabe�a.Vencendo a relut�ncia que nascia de sua
distin��o religiosa, vieram-lhe palavras que, por ela, jamais
seriam ditas a Rosa Maria:
_ Por favor, senhora, v�!_e submetendo-se a um esfor�o ainda maior,
concluiu com voz sumida._Seu pai n�o ter� como saber...,acredite,
menina! Ser� melhor para todos,...para todos n�s._dito isso, Germana,
afogada em sua ang�stia e desgosto, n�o teve �nimo de amparar
Rosa Maria que, ainda inconformada, deixou-se cair sentada ao p� da cama.Por
um longo tempo, as duas permaneceriam mudas.O sil�ncio do quarto, quebrado
apenas pelo tic tac do rel�gio, que j� marcava as dez e meia...
Continua...
Sinceramente?Duvido muito que algum ser her�ico tenha chegado at� aqui.
Mas se voc� conseguiu e quiser me dar seu depoimento, meu endere�o eletr�nico �: [email protected]