Amor Pecador

Capítulo 3

Nasce o desejo.

Na cozinha, os empregados estavam calados já fazia um bom tempo.Ninguém tinha ânimo de abrir a boca, não depois do que foram obrigados a assistir.Germana fingia rever a lista de pratos para o jantar, enquanto punha Das Dores, a cozinheira, à par desse cardápio.Na mesinha que servia aos empregados, Damião, o motorista, se servia de um arroz com feijão interminável.Havia horas que ele ensaiava um almoçar sem fim, esperando que alguém soltasse algum comentário.Polindo, impaciente, os talhares, Regina ora bufava ora pigarreava, na esperança de quebrar aquele silêncio incômodo, mas todos tratavam de ignorar esses seus esforços ,e ela, por vezes, desistia para então insistir mais uma vez.Fora ela que abrira a porta para o patrão e que respondera a ele de quem era o conversível na entrada da casa.Como poderia adivinhar que Juan Diego ficaria tão exasperado?Ele seguiu direto para as escadas e, já na altura do corredor, sacou do cinto a pistola, que era tão brilhante quanto uma estrela.Regina não se conteve mais e largou uma dúzia de colheres que acabara de polir.O tilintado um pouco estridente chamou a atenção de todos:

_Será possível que só aqui não haja fofoca de cozinha?_a criada fitava especialmente Germana_ O que foi que aconteceu naquele corredor, pelo amor de Deus?

Todos os olhares voltaram-se para a governanta, que reforçou sua postura ereta e autoritária.Ela ainda tentou se ater a sua lista, mas, julgando-se vencida até pela própria vontade, guardou o bloquinho no bolso da calça.Tinha nos olhos o brilho comum dos fofoqueiros inveterados:

_ Meu povo, o senhor Bratcho ficou furioso com a visita daquela mulher, a tal que chamou de Mão de Ferro.Mal ela se virou, ele mirou a arma pra testa dela e eu pensei: valei-me Deus, vai morrer! E dali saiu milagre, juro pela Virgem!

Regina revirou os olhos, queria saber dos detalhes e se aborrecia com a valorização dada pela governanta à história:

_Sim, sim, mas e aí?O que foi que eles falaram?_Germana entortou as feições.A pressa da jovem criada lhe roubava toda a delícia de contar o ocorrido.Por fim, com a insistência dos outros dois que estavam por demais ansiosos, Germana suspirou e abriu mão da introdução que inventara.

_O patrão disse, na cara dela, que ela era uma desavergonhada, sem moral e que não a queria aqui de jeito nenhum.Aí, eu gelei, porque, eu juro, a mulher sorriu pro cano da arma.Parecia que era ela quem tinha o controle da situação.Ela disse que veio pra cá, isso na maior calma do mundo, porque o irmão dela, o senhor Edmund, pediu que ela "provasse" a menina Rosa Maria.

_Provar?Mas provar de que jeito?_Damião era um senhor baixo, de fortes traços indígenas e se escondia no seu largo uniforme cinzento.Ele costumava assediar Germana, que , ultimamente, não levava mais as coisas na brincadeira, e foi por isso que a entonação maliciosa dele a fez arreliar-se.

_Damião, seu atrevido!Se o senhor Juan Diego pega você falando indecências da filha dele, é capaz de não deixar nem que te enterrem!

_Ô, Germana, não me jogue praga! _ele se benzeu três vezes.

_Com certeza é pra saber se a menina sabe se comportar feito uma dama._opinou Das Dores, enxugando as mãos no avental._Há de ser isso, não é?

_Eu fico com o Damião._Regina sorria num misto de saliência e timidez.Os dois espalmaram um na mão do outro.

A governanta preferiu continuar com a narração antes que aquele debate atravessasse paredes e chegasse aos ouvidos de quem não podia:

_Então, meu povo ,ele quase dá um tiro nela.Eu vi o dedo dele escorrer no gatilho, fazendo aquele click.Ele disse que só não matava ela ali, porque tinham negócio, mas que por ele furava ela todinha de bala.

_ O que terá feito essa mulher pro patrão a odiar tanto?_Damião se mostrava cada vez mais interessado em Diana e, Germana, por um momento, agiu como se fosse atacada por uma crise de ciúmes.Ela o mirou como se quisesse com isso arrancar-lhe a cabeça.

_Deve ter haver com o que tem naquele quarto..._Regina falou pensando alto, mas, logo que se dera conta desse deslize, silenciou-se de um salto.Os outros três entreolharam-se, preferindo, por consenso anterior, guardar aquilo como não dito.Das Dores, percebendo o mal estar e também louca por saber o fim do conflito, quis retomar a conversa fazendo gesto para que Germana continuasse.Esta ainda olhou meio desconfiada para Regina antes de voltar a contar a história.

_ Sim, pois foi! Eu sei que essa mulher fez foi achar graça da ameaça.Ela riu de um jeito que eu quase caio na besteira de rir também.O senhor Juan Diego ficou da cor de uma pimenta e eu pensei que ele fosse ter um troço quando ela deu as costas pra ele e desceu as escadas toda alegre e faceira.

_Pois só pode ser o Cão pra não ter medo do secretário! Eu a vi descendo, bonita que só ela, de fato bem satisfeita._Damião coçava a testa com um dedo, dando a entender que forçava sua memória._Mas, Germana, ela chegou a ver a patroinha?

_Ai!, mas que homem pra perguntar!Já chega por hoje!Vai que aparece o patrão aí e ele resolve trocar de novo todos os empregados?Vamos cuidar do serviço que é melhor!_ Germana assim punha fim aos comentários, quase não conseguindo disfarçar, outra vez, o seu desconforto pelo interesse do motorista.

Todos entenderam que tinham mesmo muito trabalho a fazer e que se arriscavam ao falarem desse jeito na cozinha. Juan Diego, após a visita de Diana, almoçou com a filha, como era de praxe na quarta-feira, mas nem ele nem Rosa fizeram questão de comer. Ambos ficaram aliviados pelo fastio do outro e, sem cerimônia além da exigida, deixaram a mesa com os pratos ainda servidos. Rosa subiu para o quarto, único cômodo onde se sentia à vontade em ficar , e o pai pareceu seguir reto e dobrar à esquerda no corredor.Uma porta foi aberta e, rapidamente, fechada.Germana ouviu e baixou a cabeça como se o fardo de um segredo visitasse sua memória naquele instante.Regina ao vê-la indagou se estava triste, ou se o patrão havia brigado com ela, mas a governanta fez um gesto que não, ainda devotando um olhar para a porta do quarto de Rosa Maria.

 

Por mais que voltasse ao início do parágrafo, Rosa não conseguia compreender a leitura. A Bíblia, que antes era para ela tão familiar e tão simples, parecia-lhe agora ter as frases embaçadas, ter as palavras escritas noutro idioma.Seu corpo estava ali, ela podia sentir o peso do livro sobre as pernas e a ponta de seus dedos tocarem o chão, mas a mente estava perdida, distante, presa à outra pessoa, a Diana. Se antes fora difícil aquietar-se depois do impacto da voz dela em seu ouvido, tinha a impressão de ser quase impossível ver-se livre daqueles olhos, daquela boca, de toda a perfeição que era a imagem de Diana.E pensando assim, Rosa aos poucos se entregava ao prazer de lembrar da futura cunhada.Era uma satisfação nova para ela, um sentimento diferente envolto pela curiosidade, mas também pelo medo.Desse modo, ela protegida como estava no reduto dos sonhos, podia imaginar à vontade, a não ser, quando toda essa sensação de liberdade sublimava ante a consciência da onisciência divina.

Quando se lembrava desse conhecer superior, punha-se de pé desperta de si por breve momento, e sentia-se sufocada no quarto, assolada pelo desejo abrupto de escapar pelos muros da mansão e correr sem destino.Era como se um cavalo selvagem, adormecido até então em seu âmago, tivesse acordado prisioneiro e, furioso, tentasse a toda sorte escapar do cercado que o separa do mundo.Então, Rosa, tomada por esse desespero, corre à janela do quarto e ali busca sôfrega alguma brisa que lhe apascente a febre que, tal qual serpente de fogo, se apossa de seu corpo.Uma vertigem de calor irresistível que a abraça e a consome, fazendo-a sentir-se como na pele de uma bruxa pagã a espiar por seus desvios na fogueira.A consciência do que lhe ocorria ainda não a havia tomado, mas, apesar disso, não considerava o que se lhe passava como correto.

À medida que as horas se passavam e que a noite chegava, Rosa enchia-se de dúvidas.Queria poder conversar com alguém.Mais do que isso, queria poder confessar-se. Precisava de um apoio, de um conselho de alguém mais velho, mais experiente, alguém que já tivesse passado pelo que agora a devorava. No relógio sobre o criado mudo, eram cinco e quarenta da tarde.A fome, que até então a havia abandonado desde o final da manhã, retornou-lhe provocando roncos barulhentos no estômago.Aliás, ficar sem comer era algo muito difícil de lhe ocorrer, ainda mais quando o pecado da gula sempre lhe fora o mais complicado de evitar.Se bem que, ultimamente, assim pensava ela, ele parecia perder o trono para outro de teor bem mais capcioso.Rosa deixa o quarto, desce os degraus da escada, apressada, e segue rumo à cozinha.Chegando lá, ela encontra Das Dores já dando conta do jantar, e Regina que aproveitava o descuido da governanta para tirar uma folga do serviço:

_Olá!_ disse a menina às duas._ Tenho fome.Das Dores, você fez algum bolo?

A cozinheira tampa uma panela, que ela mexia com uma colher de pau, e sorri para a patroa, tendo o cuidado de repor alguns fios de cabelo para debaixo de sua touca.Regina puxa uma das quatro cadeiras da mesinha para que Rosa se sentasse ao lado dela:

_ Senta aí, mulher._ convidou a criada ante os olhos reprovadores de Das Dores, que, alvoroçada, vai até o armário e trás de lá um bolo de milho feito fazia pouco.Pôs também, na mesa, um conjunto de pires e xícara de louça, além da garrafa de café, para que Rosa pudesse se servir.

_Ué!, também não tenho barriga?_Regina contesta meio galhofeira e vai, ela mesma, até o armário, pegar sua louça e, depois, à geladeira, trazer leite e manteiga.A vizinha de vila agora se arrependia de ter indicado Regina àquele emprego.Ela era uma moça muito boa, mas o juízo era frouxo demais para entender que, naquela casa, o regime predominante era o do medo.

Rosa, em contraponto aos outros, simpatizava-se por esse jeito expansivo e trapalhão da criada. Aquela sim poderia ser uma amiga com quem poderia conversar, pois ainda não se intimidara por seu pai. E foi repetindo isso para si, numa alegria misturada a certa apreensão, enquanto mastigava com gosto meio bolo, que lhe ocorreu: talvez Regina lhe tirasse as dúvidas que a acossaram por toda tarde.Mas como pediria isso à criada e com que coragem, Rosa ainda não sabia.Era vergonhoso admitir essa sua falta, por pudor de se expor a alguém que ela mal conhecia e que não tinha o mesmo mérito de um padre em manter o que escuta em segredo.Regina, apesar da reputação, não era tão tonta e, também por já desconfiar de alguma coisa, quis adivinhar o porquê da menina a fitar com tanta aflição.Quando terminou de tomar seu café, ela mirou Rosa de soslaio e, aproveitando um momento que Das Dores se afastara, arriscou:

_Qual é o problema?Quer me perguntar alguma coisa?

As faces de Rosa enrubesceram, mas ela, para surpresa própria, balançou a cabeça dizendo que sim.Regina estremeceu de ansiedade.Aquela historia de Germana estava muito mal contada, remendava a criada para si mesma, e estava disposta a saber de tudo.A verdade é que sua curiosidade não tinha as raízes apenas na sua competência natural por fofocas, mas sim porque julgara Diana interessantíssima.Precisava juntar o maior número de informações possíveis a respeito dela e rezaria todos os dias para que a deusa voltasse àquela casa.O interesse da amada naquela menina pequena, sem sal e ainda por cima freira, a intrigava tanto que, por vezes, pegava-se já de invejas da patroa. Apesar desses pensamentos, não passava pela cabeça de Regina que Rosa pudesse sentir o mesmo que ela por Diana, justamente, porque a menina era quase uma santa.Queria mais era poder ajudá-la a se livrar do que lhe preparavam como sorte a prejudicá-la de alguma maneira.

Percebendo Germana se aproximar, Regina levantou-se e, quando se reclinou ao repor sua cadeira no lugar, disse por um canto da boca:

_Quando for meia noite, vá para a varanda da borda da piscina.Lá a gente conversa.

 

Desde as oito horas, quando tomara a benção do pai e subira para dormir, que Rosa contava os minutos, ansiosa por que o tempo passasse rápido.Já ensaiara como iria dizer sobre suas inquietações tantas vezes, que até sentiu-se tentada a desistir da aventura. Mas a idéia de permanecer com essas incertezas era mais intragável do que o medo de ser descoberta pelo pai ou mesmo de ser repreendida por Regina.Se voltasse a ver Diana, o que era quase uma certeza, uma vez que se casaria com o irmão dela, deveria saber conter esse pânico e depois esse calor que se apossam dela. Convencida dessa necessidade, Rosa olha mais uma vez para o relógio: marcava onze e meia. Faltavam ainda trinta minutos, calculou. A impaciência crescia e ela passou a ficar balançando as pernas imitando um pêndulo, para depois bufar e esfregar as mãos.Ajeitou o forro do vestidinho que usava como camisola,_rosa bebê, com estampa de minúsculos buquês de flores_ e então tirou e calçou de novo os chinelos ao pé da cama.Sua cabeça desviou-se instintivamente para o relógio: onze e quarenta:

_Ah, já está bom!, faltam só vinte minutos!Eu vou assim mesmo!_e dizendo isso, Rosa ergueu-se e, com cuidado abriu a porta do quarto.Com mais cuidado ainda, a fechou sem fazer o menor ruído e seguiu a passos de felino até a escada.Espiou se havia alguém, talvez seu pai fumando o seu charuto, mas todas as luzes estavam apagadas.Rosa desceu os degraus, cautelosa, e, quando se viu na sala, preferiu escolher a saída pela frente da casa que a pelos fundos.

Quando se viu fora da casa e foi recebida pelos ventos frios da noite, o coração de Rosa renovou-se.Sentiu o aroma das flores do jardim, o cheiro de asfalto vindo além dos portões e, por breve momento, sentiu-se livre, como um passarinho a descobrir o ferrolho da gaiola aberto.Fechou os olhos para melhor aproveitar a brisa e, só não se demorou mais nesse deleite, porque uma rajada mais forte de vento levantou até o meio das coxas o seu vestido; e ela depressa levou as duas mãos ao corpo a fim de cobrir-se. Sorriu por essa travessura da natureza e decidiu que se arriscaria mais vezes durante a noite, só para poder sentir-se livre como agora.Com o rosto risonho e planejando uma próxima fuga, Rosa atravessou o jardim. Seguindo por uma cerca viva, que ficava num canto mais recuado, pois queria também pisar na grama, Rosa não podia ver se Regina já a esperava na varanda, nem alguém que estivesse lá, poderia vê-la, escondida como estava pela escuridão.

As águas da piscina tremulavam ao sabor de pequenas ondas ditadas pelo vento e, devido à luz que vinha da rua, imitava uma sucessão de cordões de estrelas, que se iniciavam ricos para então sumirem apagados, já próximo às bordas. Rosa ainda admirou mais essa beleza da qual havia sido privada e, foi para melhor desfrutar dela que rodeou o final do jardim e saiu pelo outro lado da varanda, justo onde havia uma janela diretamente iluminada por um poste além do muro.Entre dois jarros de planta, que na hora, ela não pôde identificar as espécies, Rosa teve os movimentos paralisados. Seu coração saltou de tal forma que sentiu uma forte dor no peito e, rapidamente, suas mãos se enregelaram. Por um momento pensou que fosse desmaiar, mas para o seu horror a sensação inicial de letargia dissipou-se, dando lugar à, outra vez, aquele fogo já seu conhecido.A boca secou e seus olhos quase não piscavam.Custava-lhe acreditar no que via e no que agora escutava.

Deitada sobre a mesa de carvalho, estava Regina sem nenhuma peça de roupa.Os seios pontudos e morenos subiam e desciam com a sua respiração exaltada, os olhos lacrimosos perdiam-se no teto, enquanto seu corpo era levado para frente e para traz num ritmo violento, a ponto de fazer a mesa ranger.De sua boca escapavam leves gemidos que ora se acentuavam ora emudeciam e sempre que ela gemia alto, agarrava-se com força à borda, por vezes a descolar as costas da mesa.E entre as suas pernas arreganhadas, segurando-as com duas mãos fortes, estava Juan Diego. Seus olhos rutilavam nas sombras, enquanto ele bufava e gemia como um animal selvagem, apesar das calças emboladas nos calcanhares denunciarem sua humanidade. E ele comprimia o corpo de Regina no seu, cada vez com mais ânsia, e descia sobre os seios dela para lambê-los, sugá-los e isso era justo quando Regina mais se arqueava.

Há essa hora, Rosa, extasiada pelo que assistia, tinha o meio das pernas túmido, com uma estranha umidade a escorrer-lhe pelas coxas.E tomada por um desejo súbito, quase irracional, a que foi prontamente obedecido, levou uma das mãos por cima da calcinha, apalpando todo o seu sexo e, sem receio,passou a esfregá-lo. As duas pernas de Regina cruzaram-se na cintura de Juan Diego, que urrou ao debruçar-se de vez sobre o corpo da criada.A pressão que Rosa exercia-se era cada vez mais forte, até chegar a ponto de precisar da outra mão para apoiar-se no beiral da janela.Sua mente estava entorpecida, seu corpo inteiro agia sozinho, sem controle e ela, aos poucos, foi entreabrindo a boca, acompanhando seu ritmo com o movimento dos quadris.Quando atingiu o clímax, seu gozo foi tão intenso que a faz cerrar os olhos, e Rosa soltou o seu primeiro gemido de prazer, que só não foi ouvido, porque houve um de maior altura vindo da varanda.

Passados os tremores e, com a respiração mais compassada, Rosa teve a mente serenada outra vez e só então pôde julgar o que havia feito.Sua castidade fora violada.O receptáculo sagrado do espírito sofreu sua primeira mácula.Assistindo ao pai sair de cima de Regina, Rosa foi assolada por uma culpa e uma vergonha gigantescas, porque havia falhado com o seu Deus, porque havia ido contra o que mais julgava ser o correto.Seus olhos logo foram tomados pelas lágrimas que, como dois filetes tenros escorreram por suas faces.A menina ainda reparou na mão que usara para masturbar-se e sentiu a ânsia de decepá-la como punição.Aquele pecado precisava ser espiado e somente a sua dor compensaria a tristeza e a desonra as quais expusera Nosso Senhor Jesus Cristo.

Resoluta quanto a essa sentença, Rosa correu dali, assustada como um bicho arredio, refazendo o mesmo caminho da ida e, com pouco mais de um minuto, já havia chegado até seu quarto.Quando avistou o Cristo de gesso e o oratório, caiu em choro convulso e, inconsolável, prostrou-se de joelhos ante a imagem, beijando-lhe os pés tal qual uma Madalena arrependida.Passado algum tempo de pranto ininterrupto, Rosa lembrou-se do castigo.Foi até o guarda-roupa e dele veio até o oratório com um cinto de couro trançado nas mãos.Ajoelhou-se, desceu a camisola até a cintura e ,olhando fixamente para a expressão de sofrimento do Cristo martirizado, começou a açoitar-se nas costas.As lágrimas que lhe escorriam era um misto das dores do espírito e da carne e, enquanto sua boca tremia na tentativa de suportar a dor, Rosa passou a rezar um rosário.

Havia momentos que ela retesava as mãos e deixava escapar certo gemido, mas então se lembrava do ato que praticara e o cinto cantava em suas costas com ainda mais vigor.Foram tantas as vezes que ela se supliciou naquela noite que, quando o relógio do criado mudo marcou as dez horas, Rosa ressonava estendida no chão do quarto, com o sangue no dorso ainda fulgido.O rosto marcado pelo caminho das lágrimas ressequidas, apesar do sofrimento ao que foi exposta, não guardava expressão de dor, pelo contrário, até sorria.Povoando o mundo dos seus sonhos, a consolá-la estava Diana.Seu desejo era o de poder continuar a dormir, com Diana ali a acariciar-lhe os cabelos, mas um feixe de luz cruzou a janela e caindo sobre seu rosto a fez acordar.Logo que abrira os olhos deparara-se com a imagem de gesso, e foi com a antiga angústia que vestiu outra vez a camisola, fazendo careta quando o tecido roçou nas suas costas doloridas.

Ergueu-se com dificuldade e foi até o guarda-roupa, arrastando os pés, pôr o cinto no lugar. Todas as suas juntas estalavam, sua cabeça pesava e ela quase já não lembrava do sonho bom que tivera, enquanto que as cenas da noite anterior giravam em sua mente.Tinha os olhos inchados e a mão direita, a pecadora, pesada como se atada a grilhões de chumbo.Rosa ia procurar uma toalha de banho, quando avistou um passarinho a cantar na sua grade.Isso a fez sorrir e se aproximou da janela a tempo de vê-lo planar no ar e sumir-se na amoreira que ficava na frente da sua casa.Mas qual foi o seu espanto e a sua perturbação, quando, de repente, viu-se presa a um par de olhos poderosos, de um azul profundo e vivo.Em pé, a fitá-la da alameda, estava Diana Lancaster, perfeita, a vir tomá-la também fora do sonho.Rosa, a principio, pensou ser alucinação, mas mil batidas fortes na porta a convenceram de estar de fato bem acordada:

_Menina Rosa Maria?_Germana chamava, preocupada pela ausência de Rosa ao desjejum._O senhor Bratcho saiu cedo, vai passar o dia fora! Menina? Ele teve de cumprir com uns negócios, você pode ir ao jardim, isso não é bom?

Perdida naquele olhar invasor,que a impelia a total entrega, Rosa não podia responder aos apelos vindos da porta; quase não ouvia o que a governanta lhe dizia...

  Continua...

 

Sinceramente?Duvido muito que algum ser heróico tenha chegado até aqui.

Mas se você conseguiu e quiser me dar seu depoimento, meu endereço eletrônico é: [email protected]

 

Parte4

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