Amor Pecador

Anastacia M.P.

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Quinze minutos

Cap�tulo 2

Rosa ficou im�vel, por alguns segundos, com o telefone ainda no ouvido. A dona daquela voz arrebatadora, Diana Lancaster, estava h� poucos minutos, a poucos metros e se aproximando. As duas se encontrariam, e, ent�o.... Virgem M�e! O que aconteceria?Frases inteiras lhe faltaram. Rosa n�o conseguia compreender aquela sua paralisia por fora, nem, t�o pouco, aquela inquieta��o por dentro, e, cada vez que se esfor�ava em busca de uma resposta, mais se sentia presa naquela teia sonora que tornou seu pensamento. Tentou serenar-se iniciando um Pai Nosso, mas a cabe�a, para seu desespero, estava muito ocupada repetindo a voz de Diana, ecoando com o mesmo tom asfixiante.Nem a conhecia direito, e essa mulher j� n�o a deixava rezar. Sentiu um fio de suor a escorrer na testa e, ao levar uma das m�os, percebeu estar gelada.O que faria agora, senhor meu Deus?Ir at� a porta e ficar frente a frente com essa mulher? Nunca havia passado por algo assim antes.Nunca seu cora��o batera t�o r�pido ou ficara t�o fora de si. Mas, quem sabe, n�o estivesse fazendo um mau julgamento dela?E o que de errado haveria em sua futura cunhada que a fez pensar desse modo?Rosa sentia, mas as palavras n�o lhe queriam vir.
Foi com um ataque s�bito de seu ilibado cora��o que a mo�a ouviu a campainha tocar. De repente, aquele som delicado de sinos, que sempre a agradara, imitou-lhe uma das sete trombetas do Santo Ap�stolo Jo�o.Ela chegou!_ gritou para dentro de si. Sentiu as pernas adormecerem, a boca secar e o peito comprimir-se aflito.Pensou na irm� Guadalupe e de como ficaria feliz se ela estivesse ao seu lado.Certamente, iria receber dela um bom conselho.Viu, por fim, uma sombra surgir por baixo da porta, para, logo em seguida, crescer  pelo vidro emba�ado da lateral,  formando o que pareceu ser uma m�o.Rosa quis pedir � governanta que n�o fosse atender � porta e faria isso se, antes do menor gesto, a cabe�a n�o tonteasse e seu corpo pendesse para frente: iria desmaiar.
Germana n�o desperdi�ou mais tempo.Temerosa por seu emprego e, talvez, at� pela sa�de da menina, caso Juan Diego a descobrisse, saltou at� Rosa e arrancou-lhe o telefone pondo-o no gancho.Notou que a mo�a n�o estava bem e, depressa, a ergueu do assento e passou um de seus bra�os por seus ombros.A curiosidade por saber quem fora capaz de causar tanto em sua patroa lhe fez c�cegas nos l�bios, mas se conteve.J� bastava ela n�o ter podido evitar aquele incidente, pois, na hora, perdia tempo repreendendo Regina, a nova criada, que entrara no �quarto proibido�.Se havia falta maior do que vacilar com a vigil�ncia sobre Rosa, seria algu�m visitar aquele local sagrado. Somente Germana tinha a autoriza��o de entrar l� e limp�-lo, mas, mesmo assim, sob o olhar atento do patr�o.Nervosa, a governanta apressou o passo at� o p� da escada, que dava para os dormit�rios, arrastando Rosa Maria, que, para a sua sorte, era leve como uma crian�a. Estavam no quarto degrau, quando a campainha tocou pela segunda vez.Tamanho j� era o seu estado de ten��o, que Germana, ao ouvir o chamado repetindo, se desequilibrou e, por pouco, n�o caiu junto com Rosa que parecia em choque. Salvaram-se as duas, entretanto, por ter ,a governanta, segurado um dos corrim�es com toda a for�a que dispunha.
Aquilo fizera, finalmente, o seu cora��o idoso disparar de afli��o.Pensou em largar Rosa do jeito como estava,por�m, numa posi��o estrat�gica, e ir atender � porta, mas, no �ltimo segundo, desistiu. Juan Diego perceberia logo que algo de errado se passara , e, a santa menina, que n�o sabia mentir, iria entregar as duas, o que estava fora de quest�o acontecer.Sabia bem o porqu� do patr�o ter trocado todos os empregados e de como eles sumiram misteriosamente.A campainha tocou mais uma vez. Se tocasse pela quarta, n�o haveria mais sentido correr com Rosa ou n�o: estaria demitida por deixar o patr�o plantado na entrada da pr�pria casa.Um grito de desespero veio e parou na sua garganta, duas l�grimas escorreram por seu rosto em brasa ,e j� pedia ajuda aos c�us, quando Regina surge alvoro�ada. Essa criada, que Germana n�o sabia como havia conseguido o emprego por ser t�o trapalhona e, por vezes, burra, parecia-lhe agora como um dos anjos do Senhor. Dos mais tontos,� verdade, mas nem por isso menos salvador:
_Ningu�m vai abrir essa porta n�o?_Regina indagava como se morasse na casa.Se pudesse, Germana pularia dali e lhe daria umas tapas, mas, ao inv�s disso, subiu correndo a escada pondo antes Rosa no colo.
_Abra voc� e, por favor, n�o diga que me viu levando a menina Rosa Maria daqui, ouviu bem?_ sussurrava alto Germana, arfando com o esfor�o e temendo pisar em falso.
_Est� bem, est� bem!_resmungou Regina, endireitando-se toda e rumando para a porta.
Aquele era o seu primeiro servi�o, e j� come�ava trabalhando numa mans�o, constatava a jovem com uma ponta de orgulho.Daria o melhor de si e, quem sabe, um dia, n�o conseguiria trabalhar num desses hot�is famosos que ela via nos filmes americanos?Era o seu maior sonho.Por isso n�o contestou as recomenda��es da vizinha de vila, Das Dores, que, por sinal, era a cozinheira de Juan Diego: chegar �s 6 da manh�, de banho tomado e bem apresent�vel, para que o patr�o n�o se enganasse com sua beleza.Assim ela fez e, sem demora, foi aceita, sendo entregue � Germana para que tomasse conhecimento das regras da casa e, tamb�m, para que recebesse o uniforme padr�o.Ela, at� agora, n�o entendia a cara que fez o patr�o, quando este ouviu de Germana que, simplesmente, nenhum uniforme lhe servia.Ele estava de costas para a governanta, mas de frente para ela, ainda analisando-a. �O corpo � cheio de curvas, senhor! Fica apertado nos quadris e frouxo demais na cintura�. Regina imaginou ter perdido o emprego, mas, para seu al�vio, o patr�o mostrou-se compreensivo com esse infort�nio e quase at� lhe pediu desculpas.Disse que poderia trabalhar assim mesmo, que logo arrumaria um que lhe coubesse bem.Quanta boa vontade aquele seu patr�o tinha! Nem parecia o porco vil que soubera da boca dos outros.
Regina, desse modo, abriu a porta feliz e j� ensaiava uma sauda��o, quando seu olhar perdeu-se num colo firme e alto a sua frente.Subiu a cabe�a devagar, medindo, com os olhos pasmos, at� que altura do c�u aquele corpo iria, quando se deparou com um sorriso convencido e, acima dele, um par de olhos que, de um assalto, a fisgaram.Mas que dona bonita!_ foi o que p�de pensar admirada como estava. J� havia visto muitas mulheres lindas nos filmes e revistas, mas, assim, ao vivo, era a primeira vez.Por parte de Diana, no entanto, n�o se podia dizer o mesmo.Ela admitia ter ficado um pouco curiosa e at� ansiosa por conhecer a freirinha de seu irm�o, principalmente, depois daquele telefonema, mas, agora, a vis�o da menina era quase uma decep��o.Era estranho aquilo, como se tivesse esperado, inconscientemente, por outro tipo de beleza.Cabelos negros e escorridos at� depois dos ombros, pele da cor do jambo, olhos negros e l�bios grandes e carnosos.Diana desceu o olhar para o corpo bem esculpido de Regina e sorriu, com o canto esquerdo da boca, apostando que aquilo ainda seria bem divertido:
_Rosa, n�o vai me convidar para entrar?_Diana perguntou insinuante, mirando os olhos da criada redondos de espanto.Por conta daquela vis�o e de seu ju�zo fraco, Regina demorou a perceber que seu nome n�o era Rosa, e Diana com isso n�o se importara, pois j� estava acostumada a provocar rea��es assim.
_Sou uma das criadas da casa, senhora._ disse Regina, finalmente, mas logo se arrependendo, envergonhada do tratamento que empregara.Apesar de Diana ter trinta e cinco anos, aparentava bem menos._Por favor, entre!_ Diana sorriu. N�o por simpatia, mas pela surpresa: aquela n�o era Rosa.Ainda custava-lhe acreditar haver se precipitado, fato raro de acontecer.
Regina mal fechava a porta, quando tremeu ao sentir-se puxada de modo suave, por�m firme, pela dama de corpo atl�tico e perfumado que acabara de entrar.Uma m�o macia e grande prendia seu bra�o direito,obrigando-a a dar um giro.A criada estava com sua melhor cara de boba, e Diana adorou ver isso:
_Qual o seu nome?_o sotaque carregado dessa dona � lindo, devaneou Regina, enquanto sentia aquela m�o macia soltando-a, descendo por seu bra�o, alisando-o levemente:
_ �...�...Regi..gina.
Diana olhava para a criada s�ria, apesar de, ao mesmo tempo, parecer sorrir.Ajeitou, desse modo, uma mecha que desceu sobre o rosto de Regina com o movimento imposto.P�s, em seguida, esses cabelos para detr�s da orelha dela e percebeu quando a pobre arrepiou-se com mais aquele toque a raspar-lhe o pesco�o. Mas Diana sabia agora n�o mais se tratar de sua cunhadinha: uma pena!
_Regina..._a criada com o seu nome naquela boca sensual sentiu as pernas pedirem f�rias.
_Hum?_balbuciou extasiada.
_Onde est� Rosa?
Claro que, nesse momento, a boba n�o iria lembrar de nada que Germana lhe advertira como: n�o deixar Rosa Maria receber visitas, n�o ficar de conversa com visitas, nem dizer, para visitas, o mais recente aviso:
_Ela... foi para... o... quarto._a criada j� quase n�o tinha voz.Era casada, amava o seu marido e tinha um filho de seis anos, mas, se eles esperavam que lembrasse disso tamb�m, apostaram na pessoa errada.
Diana voltou a cabe�a de um lado e conteve o riso.Rosa fugia dela e isso lhe soou engra�ado: era tolice adiar o que j� era fato consumado, algo inevit�vel.Afinal, ela n�o iria casar com o seu irm�o?
Mas que doce mist�rio aquela menina lhe proporcionava, pensou Diana consigo e, como se isso a tivesse inflamado, tomou o rosto de Regina, contornando-o com as pontas dos dedos, para, por fim, segurar-lhe o queixo, erguendo sua cabe�a.A criada, por instinto, respondeu a mais aquele toque fechando os olhos e entreabrindo os l�bios.Diana sabia, exatamente, como fazer algu�m ceder aos seus encantos, porque era capaz de ler a alma das pessoas como ningu�m. Bastou por os olhos em Regina, por poucos segundos, para entender o que aquele corpo queria e como, mais tarde,

 poderia desfrutar de seu prazer:
_E onde fica o quarto?_Diana, mirando aquela boca que se oferecia, t�o �mida e c�lida, desejou provar-lhe o beijo, mas n�o seria prudente de sua parte fazer isso.J� bastava estar atr�s de Rosa sob os bigodes de um Juan Diego ausente.Aquela criada, por certo, seria amante dele, e n�o queria mais problemas al�m dos que j� estava disposta a criar.
_Ali...ali.._Regina tentava recordar da vistoria que fez na casa ainda naquela manh�. _Subindo a escada...vire � direita.
Ouvido o que queria, Diana reclinou-se sobre a criada, que alcan�ava um pouco abaixo do seu busto e tocou-lhe, suave, os l�bios com os dela. Sentiu aquele corpo pequeno, mas gracioso, vibrar a nota que n�o era outra sen�o a da completa entrega.Conteve-se, contudo,e abandonou Regina naquela posi��o desconfort�vel. A criada permaneceu como se posasse para algum pintor, ainda com a lembran�a viva daquela boca e daquele perfume que a enfeiti�aram. Somente, quando Diana tocou no corrim�o da escada, foi que a jovem voltou a si.N�o por ter-se percebido numa situa��o rid�cula, mas por ter sido desperta pela voz de sua nova ama:
_Obrigada._disse Diana subindo o primeiro degrau.

Enquanto deixara Regina ir receber quem pensava ser o patr�o, Germana, com Rosa no colo, precipitou-se pela escada e foi com al�vio que sumiu no corredor bem a tempo de ouvir a porta se abrir.J� ali suas pernas n�o suportavam o peso da mo�a que, mesmo sendo leve, cansou-a na subida r�pida dos degraus.Rep�s Rosa no ch�o, mirou-lhe o rosto para ver se estava bem e, foi soltando um longo suspiro, que percebeu a cor dela voltar.Mesmo assim, quis ter certeza:
_Menina Rosa Maria, voc� est� bem?_Germana precaveu-se lhe segurando os ombros._Posso deixa-la em seu quarto, tranq�ila?
A cor nas faces de Rosa sucedia porque ela, para j�bilo seu, livrara-se da sensa��o t�o estranha e intensa que a atordoara minutos atr�s.Ao ver que suas sand�lias pisavam sobre o tapete do corredor, que logo poderia refugiar-se em seu quarto, que estava salva; seu cora��o encheu-se de uma alegria n�o sentida desde que voltara a casa.Um sorriso largo, que fez seu nariz franzir um pouco, iluminou-a e, sem esperar consentimento de Germana, a abra�ou como se houvesse sido resgatada da morte.A governanta ficou confusa e surpresa com esse gesto e o retribuiu, sem , por�m, a mesma espontaneidade da mo�a.Era a patroa, pensou, e, al�m disso, n�o tinha a autoriza��o para sequer conversar com ela, quanto mais se dispor a agir de modo t�o �ntimo.Mas, agora, era ineg�vel que se simpatizara pela menina desde o come�o e que ficou feliz com esse carinho, mesmo sem entender direito o que havia feito para merec�-lo.Foi por ter lembrado de tudo isso que se desvencilhou dela, mais r�pido do que desejava, e, dando uma olhada para tr�s, conduziu Rosa Maria � porta do quarto:
_Oh, Germana!_ainda disse a mo�a quase sendo empurrada.
_N�o h� de qu�, menina.Agora fique aqui dentro_ dizia Germana abrindo a porta_ que eu vou receber o seu pai.
Rosa s� agora se dera conta que, para a governanta, a escondia do pai e n�o de Diana Lancaster. Pensou em desfazer esse equ�voco, mas, sentindo uma satisfa��o s�bita, n�o o fez:
_N�o se preocupe que eu ficarei bem calma..., para que ele de nada suspeite._disse Rosa, j� para Germana de costas, pois esta ia direto para as escadas novamente.Vendo-a assentir apressada com a cabe�a, Rosa entrou no quarto e fechou a porta.Seria bom se pudesse trancar-se tamb�m, mas o pai n�o lhe permitia ter chave alguma da casa.
Quando a governanta descia os primeiros degraus, certa de encontrar o patr�o na sala, foi tomada por um assombro.Ao inv�s dele, uma mulher de uma beleza ex�tica havia chegado.Como ela passara pelo port�o sem se anunciar, Germana n�o sabia e pouco com isso se importava , porque, vindo na sua dire��o, a mesma mulher subia as escadas.Com mais isso pondo � prova o seu emprego, depois de encontrar Regina no quarto proibido e de deixar a menina Rosa atender �quele telefone, tudo numa manh� s�, a governanta bloqueou a passagem da intrusa. Estava decidida a cessar de vez com esse ciclo de problemas, que quando pensava ter dado jeito em um, era respirar, para a� vir mais outro. Cruzou os bra�os e fincou os p�s na entrada do corredor, esperando que aquela mulher se intimidasse, percebesse que estava sendo indiscreta e sa�sse por onde havia entrado.Mas, qual foi a sua surpresa, ao assistir Diana subir com a mesma calma e s� parar um degrau abaixo dela, que, nem assim, fora capaz de impedir o olhar pesado que lhe dedicou do alto, obrigando Germana a abaixar a cabe�a:
_Saia da minha frente, vov�!_Diana amea�ou um pouco irritada, apesar dos dentes j� estarem cerrados.
_O senhor desta casa n�o est�!Volte outra hora, por favor!_a coragem da governanta de um metro e meio era louv�vel, mas talvez n�o fosse a mesma caso ela soubesse quem enfrentava.Teve sorte, por�m, por Diana estar com toda a sua paci�ncia dispon�vel.
_ Eu n�o vim aqui para falar com ele.Seja uma boa velhinha e saia!_Diana tentou afast�-la empurrando-lhe pelos ombros, mas Germana n�o cedeu.Isso fez uma sobrancelha arquear-se no rosto anguloso ,e olhos azuis se estreitarem.
_Aqui em cima s� est� a filha do senhor Juan Diego!_insistiu Germana, reparando que, na sala, o rel�gio de p�ndulo marcava quinze para as onze horas._Por favor, a patroa n�o recebe nenhuma visita!_Diana cerrou com for�a a m�o direita.O �mpeto de chutar a pobre governanta tentou-lhe, mas n�o estava ali para saciar esse seu lado negro.Quem sabe numa outra ocasi�o, consolou-se.
_Escute!_ Germana lhe ergueu os olhos, mas logo os baixou, uma vez que era de m� vontade que Diana se mostrava t�o compreensiva._Se voc� � demitida por seu patr�o, eu fa�o o mesmo com ele!Agora, pela �ltima vez, afaste essa sua bunda gorda, antes que ela saia rodando escada abaixo! _Germana a fitou, incr�dula do que ouvia, mas com o medo brotando nos olhos._Veja bem: cinq�enta anos, pernas curtas, a campainha toca, um passo em falso e sua vida miser�vel ceifada por mero acidente. Aceit�vel, n�o?
A voz sa�ra g�lida, usando pausas sem hesita��o, com a tranq�ilidade de um assassino a dar seu ultimato de morte.De repente, a menina Rosa, o emprego e, por fim, sua vida, tornaram-se t�o banais na boca daquela desumana, que Germana controlou-se para n�o chorar.Tinha a certeza de que ela n�o blefava, mesmo sendo esta a primeira vez que a via, pois parecia ser muito fina, al�m de cruel, e isso era o mesmo que se dizer amiga de Juan Diego.Outros como ela j� vieram � mans�o e a insultaram, a amedrontaram, mas nunca de forma t�o crua e direta.Suspirou angustiada.N�o p�de fazer nada al�m de recuar e encostar-se � parede, cedendo espa�o para que Diana passasse.Esta caminhou e parou em frente � porta da menina como se j� soubesse onde lhe procurar.Uma id�ia, ao ver isso,n�o escapou de Germana: se o Diabo fosse t�o bonito quanto diziam, ele seria tal qual essa mulher. Balan�ou a cabe�a logo em seguida, a fim de espantar esse mau pensamento, pois sabia que isso s� atrairia mais desgra�a.Virgem de Guadalupe, proteja a n�s todos!Deveria ter perguntado antes quem era essa mulher e o que queria,mas agora era tarde e s� podia contar com a sorte dela mal nenhum fazer � Rosa e que fosse breve, pois logo bateria as onze, hora certa do patr�o estar de volta da f�brica.

Assim que adentrara em seus aposentos, Rosa correu e postou-se em seu orat�rio_ um m�vel de madeira feito com suportes para cotovelo e joelho.Juntou as duas m�os e passou a rezar o Pai Nosso que, h� pouco, n�o conseguira.Quando o terminou, iniciou mais outro, para ent�o murmurar um Credo, que,de vez ,conseguira lhe aquietar o esp�rito.Suspirou frouxamente e, julgando-se agora em paz, levantou-se e beijou os p�s do Cristo de gesso que tinha a frente, sobre um pequeno trip�.Precisava confessar-se, pensou ela, dirigindo-se � cama e sentando-se na ponta.Fazia tempo tamb�m que n�o assistia � missa,e isso n�o era correto.O pai se mostrava ainda mais opressor do que na sua inf�ncia, pois nem por os p�s no jardim ela podia mais.Sentia falta do cuidado com as flores, do cheiro da terra, de ver a cada dia uma vida crescendo, pois assim se imaginava adorando a divina cria��o.Levantou-se e pensou buscar o livro que ganhara do pai, mas desistiu.Era melhor esperar at� a hora do almo�o, que j� estava pr�xima, e ent�o desceria para apanh�-lo sem o perigo de alguma surpresa.Passou mais um olhar pelo quarto at� que p�s os olhos em sua b�blia.Quem sabe n�o encontrasse ali, j� pronto, o conselho que ansiara receber da irm� Guadalupe?Foi at� a cabeceira da cama e tomou nas m�os aquele grande livro de capa preta, abrindo-o a esmo.Havia escolhido a sagrada escritura de S�o Tiago,em seu in�cio ,e leu um trecho do primeiro cap�tulo:
�Bem-aventurado o homem que suporta a tenta��o; porque, quando for provado, receber� a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam.�
Esse era um de seus passatempos favoritos: folhear a Palavra de Deus e colher dela,sem pensar, o primeiro vers�culo que visse.Resolveu que faria isso at� Germana bater na porta,lhe avisando que o pai chegara e que, portanto, sa�sse ela para almo�ar.Fechou a b�blia e, ao abri-la novamente, estava no livro de Salmos e desceu o olhar num trecho do salmo 31:
�Porque Tu �s a minha rocha e a minha fortaleza; assim, por amor do teu nome, guia-me e encaminha-me.�
Rosa ouviu passos no corredor:era algu�m que se aproximava.A governanta j� deve ter mandado embora aquela mulher_ pensava a menina consigo_ e vem me chamar para comer.Antes que
Germana entrasse,por�m, Rosa quis ainda folhear a b�blia por mais uma vez e leu uma passagem do livro de S�o Mateus, cap�tulo 26:
�Vigiai e orai, para que n�o entreis em tenta��o; na verdade, o esp�rito est� pronto, mas a carne � fraca.�
Tr�s batidas leves na porta.Rosa fecha carinhosamente a b�blia e a descansa sobre o criado mudo; ajeita o seu vestidinho branco,que subira um pouco,depois de Germana a por nos bra�os,e estendeu
a m�o � ma�aneta.Iria gir�-la quando percebeu o escapul�rio torto e ainda hesita por mais um pouco para ajeit�-lo.Beijou a imagem da Virgem Maria, desejando que o pai lhe dedicasse, pelo menos uma vez, uma palavra de carinho e, ent�o, abriu a porta:
_Rosa._Diana j� havia decidido, de antem�o, o que iria dizer e como iria agir, mas a vis�o da menina a desconcertou.O nome dela sa�ra quase como um assopro de sua boca.De repente, ela, que sempre fora uma mulher de a��o, que nunca vacilara frente a nada, viu-se afogada no mar raso e calmo que se abria no olhar daquela menina, a prometida de seu irm�o.
_Voc�?_Rosa perguntou, reconhecendo ser aquela a mesma voz que ouvira no telefone.Era ainda mais perturbadora e, de imediato , toda a quietude, que lhe veio com as ora��es, se dissipara.Ergueu a cabe�a para mirar a mulher e sentiu-se levitar, como se ganhasse asas e pudesse voar no c�u que eram aqueles olhos azuis.
As duas permaneceram assim: perdidas uma na outra, esquecidas do tempo t�o precioso.A sensa��o comum era a de que j� se conheciam, que , at� aquele momento, buscaram-se, para s� agora, finalmente, reencontrarem-se.Sentiram ser preenchido um vazio, que n�o sabiam existir dentro uma da outra.Era como se uma alegria intrusa germinasse e fincasse grossas ra�zes em seus cora��es, apossando-se dele, para ent�o uma t�mida roseira denunciar-se sobre todos os outros sentimentos. Aquele tempo que corria diante delas foi o exigido para que do talo se formasse o bot�o e dele desabrochasse a rosa do amor verdadeiro.Nascida do primeiro olhar, seria essa rosa a partir de agora a pr�pria vida, cobrando cada vez mais e sempre o ser amado, ainda sob a amea�a de, caso deste ser privada, correr o risco desse enla�o de ra�zes mostrar-se insuport�vel.Dependeriam uma da outra, batendo juntas um s� cora��o, mas, � medida que esse sentimento crescesse, conheceriam os seus espinhos e isso seria inevit�vel.
Enquanto as duas ocupavam-se daquele enleio, Regina fora atender outra vez a porta e deu bom dia ao patr�o que chegava de mau humor.Germana, l� de cima, percebera com horror que a infeliz criada dera com a l�ngua nos dentes e soube disso porque, j� da sala ,Juan Diego lhe fitou sombrio. Seus olhos cinzentos rutilaram um antigo �dio e, sem nem ao menos olhar para Regina, entregou-lhe o chap�u como um soco nos seios.O patr�o subia as escadas desabotoando o palet� e Germana pode ver, claramente, uma pistola em sua cintura.Ela olhou ainda para dentro, na esperan�a de avisar que Juan Diego se aproximava e que, com toda certeza, a rea��o dele n�o seria nada agrad�vel, mas estremeceu com Diana a arrastando para o meio do corredor.Ela ergueu os bra�os de Germana, deixando-os abertos e, r�pida, posicionou-se na sua frente com uma pose que ondulou ainda mais o seu corpo.A governa mirou-a assustada ,mas Diana p�s um dedo longo em seus l�bios, pedindo para que ficasse calada.Germana parecia que a impedia mais uma vez de ver Rosa e ent�o entendeu qual era o plano daquela mulher sagaz.A velha senhora pousou um olhar por cima dos ombros e avistou a porta da menina Rosa fechada e pensou que aquilo talvez desse certo, para o bem das tr�s.Quando se voltou, Germana j� tinha o corpo agitado por Diana, que o chacoalhava firme, bem a tempo da voz grave e feroz de Juan Diego ecoar como um rugido:
_Posso saber o que se passa aqui?!  

Continua...

 

 PARTE3

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