A Herdeira

Parte 3

 

Uma hist�ria de Rose Angel

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Agosto de 2006

 No interior seguro da casa de Ang�lica elas se jogaram cada qual em uma das extremidades do sof�. Cristine estirou-se fitando as t�buas do forro. Ang�lica sentou-se com as pernas entreabertas, os cotovelos apoiados nos joelhos e as m�os enterradas nos cabelos e sustentando a cabe�a cujos olhos estavam voltados para o ch�o. Ap�s alguns minutos do mais absoluto sil�ncio, onde cada qual estava mais perdida que a outra nos pr�prios devaneios, a loirinha pegou o celular e disse:
- E a�? Vamos organizar a ida do Ariel pro Rio?
- Vamos. � respondeu Ang�lica demonstrando cansa�o na voz.
Cristine discou um n�mero e uma voz conhecida a atendeu no outro lado da linha. N�o precisou muitas explica��es para que a pessoa se colocasse � inteira disposi��o para auxiliar no que fosse preciso. Combinaram que t�o logo tivessem o hor�rio e o n�mero do v�o entrariam em contato novamente. Assim que Cristine desligou Ang�lica disse:
- Muito obrigada.
- De nada. Mas voc� n�o tem porque que me agradecer.
- Tenho sim. Tu est�s me ajudando a proteger o meu irm�o. O meu �nico irm�o.
- E o meu aluno preferido.
Ang�lica riu amorosamente enquanto se aproximava de Cristine envolvendo-a num abra�o e lhe beijando os l�bios.
Quando se desvencilharam, novamente Cristine foi racional:
- Segunda parte de nossa tarefa: fazer as reservas no v�o para o Rio. Acho melhor tentarmos o de amanh�, afinal hoje o delegado nos quer aqui.
Ang�lica concordou:
- Pode ser. De hoje para amanh� eu n�o desgrudo o olho do cabe�udo.
Cristine sorriu e estendeu o telefone � Ang�lica para que fizesse a liga��o para a companhia a�rea. Marcaram passagem para o v�o das oito horas da manh� do dia seguinte. Cristine fez novo contato com sua amiga e s�cia, Cynthia, e passou os detalhes da chegada de Ariel. Estava tudo acertado.
 
 
 
 
�s treze horas em ponto o delegado Munhoz adentrou na biblioteca seguido do Dr. Mendes. Instalou-se na grande escrivaninha alinhando um bloco de papel cujas p�ginas estavam em branco, um l�pis com a ponta muito fina e uma caneta dourada, a qual usaria para proceder as anota��es que se fizessem necess�rias. O delegado era um homem met�dico.
Dr. Mendes sentou-se � sua frente e lhe disse com voz abatida:
- Que tarefa ingrata, Munhoz... Avisar a fam�lia da mo�a foi muito desgastante.
- Eu imagino, Adroaldo. Mas me ofereci para mandar um dos meus homens.
- Mas n�o seria de bom tom. � referiu o advogado.
- Realmente...
- Munhoz, eu estou muito preocupado. As coisas est�o ficando fora de controle. E n�s dois bem sabemos o que est� havendo, ou pelo menos suspeitamos.
O delegado co�ou a careca e respondeu:
- Mas precisamos ter certeza.
- Eu temo pela vida dela, Munhoz.
- Mas Detetive Dacosta est� de olho nela. � disse o delegado.
- Sim, eu sei, mas mesmo assim tenho meus temores. � continuou o advogado � E ela j� est� suspeitando de alguma coisa, acredito que at� mesmo de Dacosta.
- Ser�?...
- Obviamente. Ela � uma mo�a esperta. E isso sem falar no epis�dio da cobra.
- Realmente Adroaldo, precisamos chegar a conclus�es. E agora mais essa morte! De fato estamos correndo contra o tempo.
O advogado assentiu denotando des�nimo.
- Tu achas que o corpo de Adelaide ser� liberado ainda hoje? � perguntou Dr. Mendes.
- Acredito que sim. Provavelmente por volta das dez horas da noite j� estar� liberado.
- Ent�o podemos providenciar o enterro para amanh�. A fam�lia quer velar o corpo.
- Mas o caix�o ser� lacrado. At� porque tu viste o estado que a mo�a ficou.
- Eu sei.
- Bom... Vou come�ar a ouvir essa gente. � disse o delegado.
Dr. Mendes se levantou e disse:
- Quem tu queres que eu chame?
- O Ariel.
- Tudo bem. � respondeu o advogado. Antes de sair virou-se e complementou � Munhoz, boa sorte.
- Vamos precisar...
 
 
 
Ariel entrou na biblioteca aparentando nervosismo. O delegado tentou acalma-lo:
- Ariel, eu sei que a situa��o ocorrida hoje � bastante traum�tica, mas eu preciso conversar sobre ela... Para que possamos pegar quem fez isso com a Adelaide.
- Eu sei... � respondeu o adolescente � E como � que eu posso ajudar?
- Bom, eu gostaria que me contasses o que aconteceu hoje pela manh�, tudo o que conseguires lembrar, cada detalhe, pode ser?
- Pode. � disse Ariel, iniciando um relato minucioso do que j� contara anteriormente.
O delegado ouvia e fazia alguns apontamentos em suas folhas dispostas simetricamente sobre a escrivaninha. Por vezes secava o suor da testa com um len�o de seda azulado. Apesar do frio o delegado transpirava bastante.
Ao final do relato de Ariel o delegado ainda perguntou:
- E, Ariel, tu conseguiste ver algu�m, al�m de Adelaide?
- N�o.
- Nem algum movimento, um vulto, uma pe�a de roupa?
- N�o. Depois que eu ouvi o tiro e vi a Adelaide caindo eu fiquei apavorado e disparei pra casa. Eu fiquei com medo de morrer.
- Eu entendo. � assentiu o delegado � Ent�o � s� isso, Ariel. Obrigado pela colabora��o.
- De nada. O que eu puder fazer para pegar o desgra�ado que fez aquilo, pode contar comigo.
- Eu sei... � respondeu o delegado � Poderias chamar a tua m�e?
- Tudo bem.
 
 
Regina sentou defronte ao delegado e cruzou as m�os sobre o avental xadrez. Estava visivelmente abatida. Seu depoimento n�o durou mais do que quinze minutos, visto que referia ter permanecido na cozinha do castelo desde as sete horas da manh�, tomando conhecimento de toda a situa��o pelo filho, no momento que o mesmo irrompera correndo na cozinha. Sua vers�o foi confirmada mais tarde por Ang�lica e Cristine, que estavam com ela quando Ariel chegara apavorado.
- Regina, quem esteve na cozinha contigo?
- Todos os que costumam estar de manh�: o Morris, a Anemary, o Thom�z, o Henrique, a Adelaide... Depois o James desceu pra tomar caf� e subiu de novo logo em seguida. E s�.
- Algum deles conversou com Adelaide?
- Todos. Comigo tamb�m. � respondeu Regina � S� que... � e calou-se.
- S� que???... � quis saber o delegado.
- Nada. Bobagem.
- O que foi Regina? O que te chamou a aten��o?
- Henrique. Ele conversou de canto com a Adelaide. Mas eles pareciam tranq�ilos. Conversaram amigavelmente, baixinho, mas de uma forma aparentemente... branda. Mas eu n�o ouvi o que disseram, e logo em seguida ele saiu.
- E depois?
- Bom, depois continuamos com nossos afazeres. At� que eu disse que era preciso pegar alguns temperos na horta... � disse Regina com voz entristecida. � Se eu n�o tivesse dito aquilo a menina ainda estaria viva...
- N�o se culpe Regina. Ningu�m tem bola de cristal para adivinhar o futuro.
- Ela logo se prontificou a ir... At� me pareceu que ficou feliz. � disse a cozinheira.
- Pois ent�o... � assentiu o delegado. � Vai saber...
 
 
O seguinte a ser ouvido foi Israel. O jardineiro sentou-se cabisbaixo e suspirou profundamente. O delegado o encarou com seriedade e disse:
- Um doce pelo teu pensamento, meu amigo.
- A vida �s vezes � injusta...
- Ser�? � questionou o delegado.
- Com certeza. Artur est� morto, agora a Adelaide tamb�m. E depois? E o meu filho que presenciou parte do incidente? E seja l� quem fez isso ir� ter a certeza que o menino n�o o viu? Ou pensa que Ariel � um risco para sua identidade? O que � que vamos fazer, delegado???
- Eu ainda n�o sei, mas te garanto que vamos saber. E o mais breve poss�vel.
- Eu espero. Pelo bem de todos, eu espero.
- Israel, tu viste alguma coisa que possa nos ajudar? Aonde tu estavas hoje pela manh�?
- Como fa�o todos os dias, eu fui para a estufa logo depois do caf�. Sa� de l� quando a Ang�lica e o Thom�z foram me buscar contando... aquilo tudo.
- E algu�m esteve l� contigo?
- N�o. Ningu�m.
- E tu imaginas quem possa ter feito isso? � continuou o delegado.
- N�o fa�o id�ia. As pessoas que vivem aqui s�o de confian�a.
- Tem certeza?
- Acho que sim...
- Pois eu tenho as minhas d�vidas...
Israel suspirou novamente.
- Se lembrares de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, me fale, por favor. � disse o delegado � �s vezes um mero detalhe pode ser de muita utilidade.
- Pode deixar � respondeu Israel.
- Me mande o Thom�z aqui, por favor.
O jardineiro levantou-se e dirigiu-se para a porta, curvado pelo peso da ang�stia. Lamentava a morte de seu amigo, e de Adelaide, por�m naquele momento temia pela seguran�a do pr�prio filho.
 
 
Na ampla sala do castelo os presentes encaravam-se a cada vez que algu�m sa�a de dentro da biblioteca. O nome do seguinte a ser ouvido era aguardado com ansiedade pelos demais. Thom�z levantou-se e entrou na biblioteca, fechando a porta atr�s de si.
O delegado o fitou amistosamente e apontou a cadeira � sua frente.
- E ent�o? � perguntou o delegado.
- Por esta n�o esper�vamos � disse o rapaz enquanto pegava um cigarro e o colocava na boca � Importa-se que eu fume?
- N�o.
- Eu realmente estou espantado com o que houve.
- Nem me fale � respondeu o delegado tamb�m acendendo um cigarro. � E a�? Tu viste alguma coisa?
- Nada. Absolutamente nada.
- Aonde estavas pela manh�?
- Fazendo o que me pediste. Mas acho que ela est� desconfiada de que algo n�o est� nos conformes... � disse o rapaz.
- E por que tu achas isto?
- Ela me questionou se eu a estava seguindo ontem...
- Puta que pariu, Thom�z! � bradou o delegado batendo na mesa � Tu est�s perdendo o jeito da coisa?
- Claro que n�o Munhoz, mas a garota � esperta. � retrucou o mo�o � E vamos combinar que basta ter somente dois neur�nios para ver que algo n�o vai bem... � imposs�vel n�o ver o que est� diante dos olhos...
- Ent�o por que ser� que N�S n�o conseguimos ver um pouco al�m do que est� diante dos olhos???...
Thomaz soltou uma baforada de fuma�a observando o bailado da n�voa que se dissipava no ambiente e disse pensativo:
- N�o sei... realmente n�o sei...
- E � isso que temos o dever de descobrir, guri. � emendou o delegado.
Fez-se um sil�ncio na sala. O delegado continuou:
- Onde Cristine ficou desde ontem?
- Na casa da Ang�lica. Vieram direto pra c� hoje de manh�.
- Isso � bom. � disse o delegado. � Quero essa menina o mais longe poss�vel do castelo. Esse lugar tem muitos segredos...
Thom�z assentiu com a cabe�a:
- Mas enquanto ela estiver por aqui, pode ficar tranq�ilo, eu estou atento.
- Assim espero. � disse o delegado. � Me chama a Valesca.
O rapaz levantou-se apagando o toco de cigarro no cinzeiro.
 
 
Quando Valesca ouviu seu nome sendo pronunciado chegou a prender a respira��o. Jo�o V�tor lhe deu um aperto suave nas m�os, como que a encorajando a levantar. Com gestos que beiravam a teatralidade a loira se p�s em p�, ajeitou os cabelos por sob o chap�u de veludo verde-musgo e dirigiu-se � biblioteca, como se estivesse desfilando numa passarela, passos cadenciados e lentos. Adentrou e sentou-se na cadeira de espaldar alto, na frente do delegado, sem que este houvesse lhe indicado o lugar. Cruzou as pernas. Fitaram-se em sil�ncio, um sil�ncio quase perturbador. O delegado a perscrutava de cima a baixo. Valesca se mexeu na cadeira, inquieta, e disparou:
- E ent�o, delegado? O que quer saber?
- Algumas coisas... � respondeu o homem mais velho pacientemente, co�ando o queixo, incitando a inquieta��o desta.
- O qu�, mais precisamente? � perguntou Valesca.
- Bom... come�ando por algumas d�vidas como... vejamos... � disse o delegado remexendo numa pasta de papel�o que estava num canto da escrivaninha � Valesca... Valesca... da Silva dos Santos. Esse nome lhe diz algo?
A mulher loira empertigou-se:
- Sim. � o meu nome de batismo. Scolari � um nome... art�stico.
- De guerra... � o que quer dizer?
- Que seja, Munhoz! Mas o que isso tem a ver com o assassinato dessa mo�a?
- E quem disse que foi assassinato? � perguntou o delegado.
- Francamente, Munhoz, ningu�m se suicida fazendo um rombo na cara! E a pobre teria enfiado a arma aonde?!
- Pode ter sido um acidente.
- Que seja! Mas o que � que EU tenho h� ver com isso?
- Pois � isso que EU quero saber. SE tu tens algo a ver com isso.
- Claro que n�o! Eu mal conhecia a mo�a.
- Bom... mas voltando �s minhas pequenas... d�vidas. Vejamos... Jo�o V�tor... Mascarenhas. Ele � teu irm�o, n�o � mesmo? � instigou o delegado.
Valesca ficou em sil�ncio.
- N�o deveria ter o mesmo sobrenome? Ou um deles?
Novo sil�ncio de Valesca.
- Isso me leva a crer que este rapaz � qualquer coisa, menos teu irm�o.
- �. � concordou Valesca baixando os olhos. � Quer dizer, n�o �. N�o � meu irm�o.
- E ele � o qu�?
- Um amigo.
- Que divide o quarto contigo?
Valesca riu e respondeu ironicamente:
- Se imaginasses quantos j� "dividiram" o quarto comigo, meu querido...
- Eu imagino. � respondeu o delegado. � Eu imagino... Eu s� n�o consigo entender o que o Artur via em ti...
- Bom... a� n�s j� vamos partir para um assunto particular, que n�o te diz respeito.
- Pode ser que te enganes. Os �ltimos dias de Artur podem me dizer respeito sim!
Valesca assumiu um semblante s�rio instantaneamente.
- O que � que est�s querendo dizer com isso?
- Nada. Ou tudo. Depende. � disse o delegado.
- Munhoz... A morte dessa mo�a tem algo a ver com a morte de Artur?
- Aqui sou eu quem faz as perguntas. � respondeu o delegado secamente.
- Mas pelas tuas coloca��es...
- N�o tire conclus�es Valesca. Deixe isso pra mim. Limite-se a responder o que te pergunto.
- Tudo bem. � assentiu a loira.
- Onde estavas hoje pela manh�?
- No quarto. Acordamos tarde.
- E estavas sozinha? � perguntou o delegado.
Valesca o fitou com um ar de deboche:
- O que � que tu achas???
- Eu n�o acho nada. Quero que respondas.
- Com o Jo�o V�tor. E antes que perguntes: est�vamos trepando. Ali�s, uma trepada maravilhosa... As de ontem � noite tamb�m. Pode ser at� que algu�m tenha escutado alguma coisa... � respondeu Valesca ironizando.
- E as vezes que "trepaste" com esse sujeito nas barbas do Artur, tamb�m foram "trepadas maravilhosas"? Ou tiveste a dec�ncia de n�o gemer alto o suficiente para que ele percebesse??? � disparou o delegado alterando seu tom de voz, deixando transparecer indigna��o.
Novamente a loira empertigou-se tomando ci�ncia da inadequa��o de sua coloca��o.
- Eu nunca desrespeitei o Artur. � disse Valesca em tom baixo � Nunca. Quer acredites nisso ou n�o. Aqui neste lugar, enquanto ele era vivo, eu s� trepei com ele. Mesmo quando Jo�o V�tor vinha junto. Nunca tive coragem de transar com ele sabendo que Artur estava no quarto ao lado. Pode n�o parecer, mas eu tenho a minha �tica. E embora n�o devas acreditar nisso, � a verdade.
O delegado permaneceu calado, olhando aquela figura quase carnavalesca � sua frente. De fato era dif�cil acreditar nela. Respirou fundo e continuou com suas perguntas:
- Tu viste alguma coisa hoje pela manh�? Mesmo que da janela do quarto?
- N�o... Nada.
- Valesca... � disparou o delegado � Tu achas que Artur deixou alguma coisa pra ti em testamento?
- N�o sei...
- E o que fazes aqui ent�o?
- Vim tirar a prova dos nove! Vamos ver o quanto fui importante na vida de Artur.
- Vamos ver... � respondeu o delegado pensativo.
- Seria s� isso? � perguntou a loira.
- S�. Por favor, pe�a para aquele mo�o entrar.
- Ele tem nome.
- V�. � disse o delegado.
 
Valesca levantou-se e alcan�ou a ma�aneta da porta com a m�o, por�m antes de sair virou-se para o delegado e disse num tom de voz denotando emo��o:
- Munhoz, eu sempre respeitei o Artur... E sabe por qu�?
- N�o.
- Porque a rec�proca sempre foi a mesma. Nunca homem nenhum me tratou como ele, com respeito, mesmo sabendo quem de fato eu fui... E o que eu j� fiz na vida. E isso ningu�m al�m dele seria capaz de entender. Nem tu.
E saiu fechando a porta atr�s de si. Munhoz ficou meditabundo e fez algumas anota��es.
 
 
 
Jo�o V�tor respondeu �s perguntas do delegado com desenvoltura. Em nenhum momento negou o envolvimento amoroso com Valesca, nem t�o pouco ocultou o fato de ter um caso com Valesca h� bastante tempo, mesmo quando ela ainda estava com Artur. Referiu a admira��o que a amante sentia pelo falecido, mesmo alegando nunca haver entendido direito a rela��o que mantinham. Parecia mais um pacto do que um romance, para ele. N�o saberia definir ao certo. O delegado deteve-se mais em questionamentos acerca do passado do que propriamente do presente, at� que o jovem questionou:
- Dr. Munhoz, por que tantas perguntas sobre o falecido?
- Para entender a hist�ria como um todo.
- Como assim? O falecido tinha algo a ver com a copeira? Vai me dizer que a garota tamb�m tinha um caso com ele?!!
- Mantenha-se, meu jovem! � vociferou o delegado.
- Mas pelo que o senhor coloca...
- Limite-se a responder �s perguntas, e n�o tente tirar conclus�es sobre o que nem imagina!
- Desculpe.
- E hoje pela manh�? Tu viste algo que pudesse estar associado � morte de Adelaide?
- Nada. Acordamos tarde.
- Isso eu j� sei. � disse o delegado secamente.
- Bom, ent�o porque perguntou?
- Para evitar detalhes s�rdidos... � respondeu o delegado com uma cara enfezada.
- Bem, o senhor quer saber se vi algo diferente?
- Isso.
- N�o.
O delegado olhou para o teto e respirou fundo.
- Ali�s...
- O qu�? � empertigou-se o delegado.
- Nada. Nada n�o...
- Nada o qu�??? Fale. Qualquer detalhe pode ajudar.
- Bom. Eu tenho um sono muito leve. E uma coisa que eu ouvi foi um baque seco, no andar de cima, como se fosse em cima do nosso quarto. Mas n�o deve ter sido nada.
O delegado franziu uma sobrancelha e pediu:
- Por favor, tente descrever o barulho.
- Uma porta. Isso. Tipo uma porta batendo. Uma batida seca. Abafada. Como se fosse madeira.
- Entendo... Mais alguma coisa?
- N�o. Mais nada. Depois eu continuei...
- Obrigado. Eu imagino o que deva ter continuado.
- Eu voltei a dormir, delegado... � disse o jovem com seriedade.
- Muito bem. � s� isto. Me chame o Dr. Mendes, por gentileza.
- Pois n�o.
 
 
O advogado sentou-se e ouviu atento o relato do amigo.
- Qual o quarto que eles est�o ocupando, Adroaldo?
- O da ala leste, no t�rreo... O pen�ltimo � esquerda...
- N�o me diga que �... � gaguejou o delegado.
- Exatamente. � disse o advogado categoricamente.
- Isso limita um pouco as coisas.
- Talvez. Mas chega a ser assustador. � disse Dr. Mendes pensativo.
- Mais tarde, sem maiores alardes, eu gostaria de subir at� o quarto de Artur. � disse o delegado.
O advogado assentiu com a cabe�a.
- Agora quero falar com o Morris. � disse Munhoz.
 
 
O mordomo permanecia em p� diante do delegado, como se estivesse preste a servi-lo. O olhar treinado para fixar-se num ponto qualquer e permanecer impass�vel at� que recebesse alguma ordem.
- Por favor, sente-se Morris.
O mordomo pareceu ficar desconfort�vel com o pedido, por�m mesmo a contra gosto instalou-se ereto na cadeira, com as m�os postas lado a lado sobre a cal�a de uniforme cuidadosamente frisada.
- Morris... H� quanto tempo trabalhas aqui mesmo?
- H� muitos anos, senhor, mais de dez.
- �s natural da Fran�a mesmo?
- Sim senhor.
- E como aprendeu o idioma t�o facilmente?
- Eu j� falava portugu�s. Trabalhei durante anos na casa de um amigo do Sr. Artur, brasileiro, que vivia em Paris com a fam�lia. Depois fomos para os Estados Unidos por um ano. E de l� eu vim para o Brasil.
- E poderia me dizer por que veio de t�o longe?
- Por que fui convidado pelo Sr. Artur para trabalhar aqui.
- Mas deixou tudo por l�? Sua fam�lia...
- Eu n�o tenho ningu�m, senhor.
- Hum... entendo. Bem... Morris... � disse o delegado novamente remexendo em seus pap�is � Pelo que vejo aqui tu tiveste um problema bastante s�rio antes de vir para c�.
O mordomo sentiu as faces perdendo a cor gradativamente, por�m manteve a postura.
- O que tem a me dizer sobre isso? � continuou o delegado.
- Foi um acidente, senhor.
- N�o me parece que esfaquear algu�m at� a morte e cortar-lhe algumas partes do corpo possa ser considerado um acidente... � conjeturou o delegado.
- Mas foi em leg�tima defesa.
- Leg�tima defesa de quem? Pelo que me conste a v�tima n�o estava armado, ali�s, nem teve tempo de se defender.
- Eu tive meus motivos, senhor.
- E eu poderia saber quais s�o?
Morris baixou os olhos e calou-se por um tempo, para depois responder:
- O que posso lhe dizer � que aquele sujeito n�o valia nada. E teve o que mereceu. Eu fiz justi�a. Mas prefiro n�o falar sobre isso. Faz parte do passado. E o passado � irrelevante no momento.
- Ser� mesmo, Morris??? � questionou o delegado aproximando-se dele para for��-lo a levantar os olhos.
O mordomo encarou o delegado e pela primeira vez este �ltimo percebeu um lampejo de emo��o na figura do homem � sua frente. Seus olhos ficaram marejados de l�grima e ele respondeu quase que a meia voz.
- Com toda a certeza, senhor. O passado n�o importa mais. N�o h� como muda-lo, ou voltar atr�s para fazer diferente... Depois desse... incidente, o Sr. Artur me convidou para vir com ele para o Brasil. Eu aceitei, afinal nada mais me prendia por l�... em lugar nenhum...
- A n�o ser a justi�a. � disparou o delegado � E a pena de morte. Tu vieste para o Brasil fugindo da justi�a americana. Com direito a passaporte falso e tudo o mais! E Artur foi conivente com isso???
- Foi. � respondeu o mordomo secamente.
O delegado balan�ou a cabe�a.
- Por favor Morris, me fa�a entender essa hist�ria.
- Senhor, eu n�o quero falar sobre isso. N�o posso... n�o consigo... O que lhe asseguro � que o Sr. Artur conhecia meus motivos e me trouxe para c�. E desde ent�o eu devo a minha vida a ele, incondicionalmente. Quando ele se foi eu senti a solid�o de n�o ter mais ningu�m novamente...
- Novamente?...
O mordomo fechou-se como um cofre de banco. Sua express�o assumiu a costumeira frieza e rigidez. Perguntou com o mesmo tom de voz grave e sem emo��o:
- Deseja saber mais alguma coisa?
- Sim. Por acaso viste alguma movimenta��o diferente hoje pela manh�?
- Que tipo de movimenta��o?
- Qualquer uma que fugisse � rotina. � respondeu o delegado.
O mordomo pensou e respondeu:
- Que tenha me chamado a aten��o n�o.
- E o que fizeste desde a manh�?
- O mesmo de sempre. Acordei por volta de seis horas, tomei banho, me vesti e desci para iniciar minhas atividades. Encontrei Regina e Adelaide na cozinha, e Anemary na sala de jantar. A mesa foi posta para o caf� e James desceu por volta das oito horas. Mal tocou no caf�, alegando indisposi��o. Disse que subiria para seu quarto. Pediu que lhe levasse o jornal, pois pretendia ler no quarto, talvez dormir mais um pouco. A senhora Valesca e o senhor Jo�o V�tor n�o vieram para o desjejum, nem vi sinal dos dois. Acredito que estivessem em seus aposentos. Ap�s pedi a Henrique que fosse at� a cidade buscar uns mantimentos para a despensa, coisa pouca, que ele faria em menos de meia hora. Ele me pareceu meio contrariado, mas foi. Depois vi quando Regina pediu a Adelaide que fosse buscar uns temperos na horta.
- E isso era que horas?
- Umas nove e meia, nove e quarenta e cinco, mais ou menos. � respondeu Morris.
- E depois?
- Bom, depois fui organizar a sala de jantar, a biblioteca e o escrit�rio, at� que Regina veio falar comigo, muito nervosa, referindo que achava que tivessem matado Adelaide. Fui com ela at� a cozinha e encontrei a senhorita Cristine, Ang�lica, Ariel, Anemary e Thom�z.
- E Henrique?
- Ele chegou logo em seguida.
- E Valesca e Jo�o V�tor?
- Acredito que tenham ouvido o burburinho, pois quando fui cham�-los eles j� estavam vindo.
- E isso era que horas? � perguntou o delegado.
- Mais de dez, com certeza. Acredito que umas dez e meia.
- Sei... � disse o delegado fazendo algumas anota��es.
- E James, voc� o viu quando?
- Quando bati na porta de seu quarto para avis�-lo do ocorrido.
- E ele estava dormindo?
- Acredito que sim. Bati duas vezes at� ele atender. Estava com seu pijama ainda, o cabelo estava despenteado, creio que havia pegado no sono novamente. Esse rapaz n�o anda bem nos �ltimos dias. Desde que o tio morreu ele n�o conseguiu se aprumar, coitado... �s vezes eu o pego chorando pelos corredores. E eu entendo o que � n�o ter mais ningu�m...
O delegado o olhou perscrutadoramente. Morris manteve o olhar firme � sua frente.
- E depois? � quis saber o delegado.
- Bom, depois foi tudo muito confuso, um entra e sai... a pol�cia chegando, o Dr. Mendes com o senhor... enfim... o senhor estava aqui e viu.
- Morris, houve alguma coisa que lhe tivesse chamado a aten��o? Algo diferente, tipo algum barulho?... � perguntou o delegado.
- Como assim?
- Algum ru�do diferente no castelo?... � continuou o delegado.
- N�o... nada que me tenha chamado a aten��o, senhor.
- Ent�o est�. Muito obrigado Morris. � disse o delegado calando-se em seguida.
- Quer que eu chame mais algu�m?
- N�o. Preciso de dez minutos para um cafezinho...
- Vou providenciar, senhor. � disse o mordomo pegando o cinzeiro sujo e retirando-o dali para limpa-lo.
Morris era de fato um perfeccionista, quase tanto quanto ele pr�prio, pensou o delegado. Nesta feita Dr. Mendes entrou na biblioteca e instalou-se em frente ao amigo.
- E ent�o? Progressos?
- Mais ou menos. Digamos, informa��es promissoras... Vamos ver.
 
 
Morris bateu na porta da biblioteca suavemente, quase que imperceptivelmente, antes de entrar com a bandeja de caf�. "N�o me admira que as pessoas n�o ou�am suas batidas na porta pela manh�", pensou o delegado.
Munhoz e Mendes sorveram a bebida quente e o delegado acendeu mais um cigarro, sujando novamente o cinzeiro rec�m limpo por Morris.
J� passava das quatro horas da tarde e Munhoz queria conversar com todos da casa. A seguinte foi Cristine.
 
 
A jovem estava visivelmente abatida. O delegado seria breve com ela.
- A senhorita poderia me dizer onde estava hoje pela manh�?
Cristine desconcertou-se, por�m respondeu a pergunta.
- Na casa de Ang�lica. Eu... dormi l�. � disse a loirinha com a impress�o de que o delegado pudesse ler seus pensamentos e descobrir o quanto gostara de dormir l�.
Desviou o olhar na dire��o da parede. O advogado atribuiu sua rea��o ao nervosismo. Mal sabia ele.
- E depois voc�s vieram para c�?
- Sim, l� pelas dez horas, um pouco mais talvez.
- E o que ocorreu ent�o?
- Est�vamos na cozinha, com a Regina, rec�m hav�amos chegado quando Ariel irrompeu na cozinha, muito nervoso, despejando toda aquela hist�ria.
- E a senhorita por acaso n�o viu nada que pudesse ter lhe chamado a aten��o?
- N�o... � respondeu Cristine.
- Nem no caminho que fizeram at� aqui?
- N�o, nada... N�o encontramos ningu�m.
- Bem, a horta fica no outro extremo da propriedade mesmo. � disse o delegado � Para a sorte de voc�s...
Cristine empalideceu.
- Desculpe � disse Munhoz � N�o queria assust�-la.
- Tudo bem... Mas � que eu n�o havia pensado por este aspecto...
- Mas deveria. � disse o delegado.
- Por qu�??? � perguntou a jovem.
- Por nada, por nada. S� acho aconselh�vel ficar com os olhos bem abertos por esses dias, todos por aqui, n�o s� a senhorita.
- Ah... bom... � disse Cristine, embora n�o sentisse muita convic��o no complemento da coloca��o do delegado.
Ficou apreensiva e foi invadida por uma sensa��o de frio interno. Era medo.
 
 
 
A pr�xima a ser ouvida foi Anemary. A governanta, assim como Morris, n�o conseguiu relaxar ao ser convidada a sentar-se onde somente os patr�es se acomodavam. Sentia-se desconfort�vel pelo local e pelo teor da conversa. O delegado repetiu a pergunta que fez aos demais:
- A senhora...
- Senhorita.
- Pois bem, a senhorita viu alguma movimenta��o diferente na casa hoje pela manh�?
- N�o senhor. � respondeu a governanta categoricamente.
- Tem certeza?
- Absoluta.
- Poderia me descrever como foi sua manh�?
- Sim. Levantei-me pontualmente �s seis e meia. Tomei meu banho, arrumei-me e fui tratar dos meus afazeres.
- Senhorita... os seus aposentos ficam no t�rreo?
- Sim. Nas depend�ncias dos servi�ais, na ala norte.
- E por acaso a senhorita ouviu algum barulho diferente nesta manh�?
- Que tipo de barulho?
- Portas batendo... marteladas... estrondos.
- N�o senhor. N�o ouvi nada. S� o ronco do carro, quando Henrique foi at� a cidade, e depois quando voltou.
- E isso foi que horas?
- Huumm.. acho que l� pelas nove e meia.
- Certo, certo... � disse o delegado fazendo mais alguns apontamentos em suas folhas � E... senhorita, viu mais algu�m circulando pela casa pela manh�?
- N�o. A senhorita Cristine eu s� vi por volta das dez horas. O senhor James foi para o quarto depois do caf� da manh�. E aqueles... aqueles... parasitas, s� levantaram depois da not�cia da morte de Adelaide.
- Eu senti um certo... desacordo com a presen�a de Valesca e Jo�o V�tor aqui no castelo? � perguntou o delegado.
Anemary tossiu discretamente.
- Desculpe. Falei sem pensar. Mas at� mesmo o senhor soube a quem me referia...
- Soube... � concordou o delegado.
Novamente remexeu em seus pap�is e fitou a governanta tentando penetrar em seus pensamentos.
- Senhorita, h� quanto tempo trabalha aqui?
- H� mais de dezoito anos. � referiu orgulhosa.
- E veio parar aqui como?
- Bem, como o senhor sabe, eu sou inglesa. � respondeu a mulher empinando o nariz � E fui contratada pelo Sr. Artur numa de suas idas ao exterior.
- E o que a senhorita fazia na sua terra?
- Bem... eu era... acompanhante... de idosos.
- Acompanhante?...
- Sim.
- E ganhava bem para isso?
- O suficiente para me manter.
- E conheceu Artur como?
- Num caf�. Eu estava com uma amiga e ela conhecia o Sr. Artur, que estava de passagem por nossa cidade.
- E ent�o?
- Ent�o ele me fez um convite para trabalhar com ele. Na �poca a falecida senhora m�e dele ainda era viva. E eu vim para cuidar dela. E acabei cuidando de tudo.
- Dele inclusive?
- Como assim? � disse a governanta rispidamente.
- Por favor, n�o me interprete mal. Eu me referia a casa e aos servi�ais.
- Ah, bom. Sim. Acabei ficando respons�vel por tudo. Pelo menos at� a vinda de Morris. A� pude partilhar as responsabilidades com ele.
- E a senhorita... �... digamos... nutria algum sentimento por seu patr�o?
- Naturalmente. Admira��o.
- N�o... eu me refiro a algo mais... substancial. Paix�o.
A governanta levantou-se injuriada.
- Como ousa???
- Sente-se senhorita... e acalme-se.
- Como posso me acalmar??? Quem o senhor pensa que � para me dizer algo assim?
- Algu�m que achou isto junto com seus pertences. � respondeu o delegado estendendo um peda�o de papel para a mulher � sua frente.
Anemary pegou o que o delegado lhe estendia e ficou l�vida. Deixou-se cair novamente na cadeira. O delegado lhe estendeu mais alguns papeis. O primeiro era uma foto de Artur com Valesca, sendo que a loira estava completamente riscada, tendo o rosto desfigurado pela ponta da caneta esferogr�fica, sendo poss�vel, no entanto, reconhece-la pelo estilo. Os outros se tratavam de fotos do falecido, todas cuidadosamente guardadas dentro de um envelope perfumado.
- Como ousa mexer nas minhas coisas... � disse a governanta com a voz entrecortada � O senhor n�o tinha o direito...
- Tinha sim. Desde que fatos estranhos tenham acontecido a pol�cia pode investigar sim.
- Eu n�o estou entendendo...
- Senhorita, uma mo�a pode ter sido brutalmente assassinada.
- Mas o que ISTO tem h� ver com ela?... � perguntou a governanta levantando as fotos na dire��o do delegado.
Munhoz sentiu pena dela. A mulher forte estava fragilizada a ponto de quase desabar num choro compulsivo. Os olhos presos �s fotos e as m�os acariciando o contorno do rosto que lhe sorria no papel em preto e branco.
- Eu... eu sinto tanta saudade... � disse a mulher.
- Todos n�s sentimos. � completou o delegado.
- Todos nada! Essa desclassificada a� s� est� interessada na heran�a do senhor Artur. Ela s� o fez sofrer! Ela nunca mereceu o homem que teve! E tem o desplante de trazer o amante para c�! � ela que merecia estar morta, n�o a Adelaide!
- A senhorita matou a pessoa errada?
Novamente Anemary levantou-se num pulo:
- Eu n�o matei ningu�m!!! Eu juro! Eu estava aqui trabalhando!
- Sente-se senhorita.
A governanta despencou na cadeira e come�ou a solu�ar baixinho. O delegado estendeu-lhe seu len�o de seda azul, mesmo j� estando ensopado de suor. N�o tinha mais nada por perto mesmo que pudesse servir para secar suas l�grimas. E Anemary n�o era mulher que secaria as l�grimas, ou o que quer que fosse, na manga do uniforme. Pegou o len�o e assuou o nariz. O delegado fez uma cara de nojo. Por certo n�o usaria mais aquele len�o, pelo menos sem lav�-lo. Um pouco mais calma a governanta se p�s a falar:
- Delegado, de fato eu sempre fui apaixonada pelo Sr. Artur, mas ele nunca me olhou com os mesmos olhos apaixonados, ali�s, acho que nunca percebeu meu amor. Pensava tratar-se de dedica��o. Na verdade ele nunca teve ningu�m, at� que essa uma apareceu na vida dele. Eu nunca entendi o que ele via nela... T�o vulgar... T�o, t�o desclassificada... Mas mesmo assim eu nunca lhe disse nada... Eu n�o tinha o direito. E quando ele a mandou embora, duas semanas antes de morrer, eu fiquei radiante e pensei: eis uma atitude acertada. Mas a� aconteceu aquela trag�dia... e o fantasma de Valesca voltou para atormentar o pobre do Sr. Artur.
- Senhorita, eu n�o acho que ela o atormentava. Muito pelo contr�rio, acho que ela o distra�a bastante...
- Voc�s homens s�o todos iguais! � disse Anemary com amargura � S�o incapazes de ver as qualidades de uma mulher de verdade e se perdem por um par de pernas e seios.
- Senhorita! Mantenha-se. � repreendeu o delegado.
Anemary baixou os olhos, envergonhada.
- � s� isso delegado? Posso me retirar?
- Pode. E pe�a para Ang�lica entrar, por favor.
Antes de sair a governanta guardou cuidadosamente as fotos no bolso de seu uniforme, secou as l�grimas, aprumou-se e devolveu o len�o ao delegado. Este o depositou numa gaveta da escrivaninha, para n�o correr o risco de, impulsivamente, utiliza-lo novamente para secar a testa.
 
 
 
Ang�lica instalou-se na cadeira por onde os demais haviam passado. Fitou o delegado seriamente:
- Eu estou preocupada com o meu irm�o.
- Eu imagino que esteja.
- N�s vamos tir�-lo de circula��o por um tempo. � disse Ang�lica.
- � aconselh�vel. � respondeu o delegado � Ang�lica, Cristine estava contigo desde ontem?
- Estava. L� em casa.
- Certo. E tu n�o viste nenhum movimento suspeito hoje pela manh�?
- Nada. At� porque acordamos tarde � disse Ang�lica tossindo para disfar�ar seu titubear � e s� chegamos ao castelo depois das dez horas. E logo em seguida o Ariel chegou contando tudo aquilo.
- Sei, sei. E na vinda para c�? Algu�m no caminho? Algo que tenha chamado a tua aten��o?
- Nada. Absolutamente nada. � disse Ang�lica.
- Pois bem, minha filha, � s� isso ent�o. E... Ang�lica...
- Sim?
- Cuide-se.
- Pode deixar.
 
 
O pr�ximo a ser ouvido foi James. Este se apresentou ao delegado mais descolorido do que o normal. Estava quase que transparente. Sua testa transpirava e suas m�os estavam tr�mulas.
- Sente-se James, fique � vontade. � disse o delegado.
- Eu estou muito angustiado com essa situa��o toda...
- Todos estamos James. � respondeu o delegado � Mas vamos ver se conseguimos tirar essa hist�ria toda a limpo, certo?
- Certo. No que eu puder ajudar...
- Me diga, tu reparaste em algo diferente nesta manh�?
- Nada, delegado.
- Onde estavas?
- No meu quarto. Desci para tomar caf�, mas quase n�o consegui comer... Depois subi novamente, pois n�o me sentia bem. Deitei e dormi at� que Morris veio me chamar contando... contando que... � James suspirou � o senhor sabe.
- E tu n�o foste a mais nenhum lugar antes das dez horas?
- N�o. Eu estava dormindo, j� disse.
- �timo. E... James... Percebeste alguma atitude suspeita em algu�m? Hoje, ou em algum outro dia...
- Eu n�o estou lhe entendendo, delegado � respondeu o jovem empertigando-se na cadeira.
- Eu quero dizer desde antes de seu tio falecer.
- O senhor est� me dizendo que a morte do tio Artur est� ligada a de Adelaide?
- Eu n�o estou dizendo nada. Apenas fiz uma pergunta. E aguardo uma resposta.
- Mas foi uma pergunta evasiva. Que tipo de atitude suspeita?
- N�o sei bem... Digamos algo que tenha lhe chamado a aten��o.
- Sei l�. Na verdade tudo e todos por aqui sempre foram meio esquisitos. Veja o Morris, parece um personagem de filme de terror, um "senhor Adams". A Anemary tem jeito de psicopata. O Henrique � aquele sujeito calad�o, n�o diz nada, n�o sabe de nada. O Thom�z a gente mal conhece. O Tio Artur vivia no mundo dele. Aquela tal de Ang�lica vive metendo o nariz onde n�o � chamada. A Valesca e o Jo�o V�tor chegam a ser c�micos, de t�o burlescos que s�o. A Cristine eu tamb�m n�o conhe�o bem, n�o tenho opini�o formada. Bom, e eu n�o sou um tipo que se possa dizer que � muito soci�vel. Logo...
O delegado esbo�ou um sorriso:
- Belo panorama que tra�aste...
- Mas � a pura verdade. Aqui, de perto, ningu�m � normal.
- Bom, se lembrares de algum detalhe que possa ajudar a solucionar esse caso, por favor, me procure.
- Com certeza, delegado. Seria s� isso?
- Sim.
- Ent�o, com licen�a. Eu vou voltar para o meu quarto. Preciso me deitar.
- Tu devias procurar um m�dico, rapaz. Deves estar an�mico, ou sei l� o qu�.
- Vou seguir o seu conselho, delegado, talvez na semana que vem...
- �timo. Por favor, mande entrar o motorista.
 
 
Henrique estava visivelmente nervoso. Esfregava as m�os e n�o conseguia parar de balan�ar as pernas, num movimento repetitivo.
- Nervoso, Henrique? � perguntou o delegado.
- Um pouco...
- E por qual motivo?
- Nada...
- Nervoso por nada?
- Nada n�o. � por tudo. Por essa situa��o toda.
- Entendo... � disse o delegado. � Me diga onde estiveste hoje pela manh�. Mais precisamente ap�s as oito horas.
- Eu tomei caf� antes das oito, na cozinha. � Henrique tossiu � depois fui para a garagem, at� que Morris me pediu para ir at� a cidade. Fui num p� e voltei no outro. E logo que cheguei Morris veio me falar sobre... sobre a Adelaide.
- Tu havias marcado de encontr�-la? � questionou o delegado.
Henrique ficou p�lido e respondeu com um sinal afirmativo de cabe�a.
- Ficamos de nos encontrar no meio da manh�...
- Aonde? � perguntou o delegado.
- Nos fundos do castelo.
- E posso saber por qu�?
Henrique respirou fundo e se p�s a falar:
- Bem delegado, eu vou contar tudo. O senhor vai acabar descobrindo mesmo, todos v�o, ent�o...
- Descobrir o qu�?
- Bem, o corpo... foi para aut�psia, n�o � verdade?
- Foi. � respondeu o delegado.
- Ent�o... Bom... A Adelaide e eu... n�s... n�s est�vamos nos encontrando de vez em quando.
- De vez em quando?
- �. Muitas vezes, na verdade. Ela estava apaixonada por mim. E era uma mo�a bonita... A� o senhor sabe como �...
- Voc�s estavam tendo um caso?
- Namoro. Como ela gostava de dizer. � respondeu o motorista.
- Que seja. E da�?
- Bom. �... eu queria... contar pra ela algumas coisas da minha vida... coisas que ela n�o sabia ainda.
- Do tipo?
- Que eu n�o poderia casar com ela. � respondeu Henrique.
- E por qu�?
- Por que eu sou casado, delegado. Eu s� trabalho aqui por necessidade. O Sr. Artur paga, quero dizer, pagava bem, mas tenho mulher e filhos na capital. E vou acabar voltando para l�.
- Mas Adelaide n�o sabia disso?
- N�o. N�o consegui contar. Na verdade acho que ela n�o queria ouvir.
- Por favor, rapaz, me poupe. Apenas relate os fatos.
- Bom, delegado � continuou o motorista � Adelaide estava me pressionando para casar...
- Mas isso porque tu deste esperan�a a ela! � bradou o delegado.
- N�o s� por isso. Adelaide estava gr�vida...
- E por isso tu a mataste, desgra�ado??? � bradou o delegado esmurrando a mesa.
Henrique se levantou num pulo.
- N�o senhor! Eu n�o mataria ningu�m, muito menos uma mulher que carregava um filho meu! � disse o motorista caindo num choro compulsivo.
O delegado sentou-se novamente. Henrique tamb�m desabou na cadeira.
- Eu n�o seria capaz de fazer nada contra ela, delegado. Eu gostava muito dela. E ia assumir a crian�a. Eu j� tenho tr�s filhos com minha mulher e mais dois fora do casamento. E assumi todos. Com este n�o seria diferente. Eu s� n�o iria casar com ela. Eu amo a minha esposa.
- O senhor, ein??? � disse o delegado.
- Delegado, o senhor � homem, sabe como s�o essas coisas...
- Sei... Mas convenhamos que tu n�o fostes muito... �tico.
- E quando se tem tes�o a gente l� se lembra de �tica, doutor? � disse Henrique.
O delegado respirou fundo e apoiou a cabe�a na m�o.
- Pode ir. � disse o homem mais velho � E feche a porta ao sair, por favor.
 
 
O delegado juntou suas anota��es e as organizou na pasta, ap�s proceder uma leitura de todo o material. Dr. Mendes entrou na biblioteca depois de alguns minutos.
- Eu vou pra casa, Adroaldo. Estou cansado. Mas antes quero fazer uma vistoria tu bem sabes aonde.
- Tudo bem. Eu vou contigo. � disse o advogado.
- Mas conv�m n�o alardearmos muito.
- Vamos fazer o seguinte. Fique para a janta que a� a gente tem a desculpa de circulares por a�. Eu vou ficar por aqui hoje. Acho prudente.
- Certo. E fique de olhos bem abertos, amigo.
- Pode deixar.
 
 
Ao passar pela sala de estar o delegado olhou os presentes que ainda estavam sentados e reunidos no amplo aposento.
- Senhores, obrigado pela colabora��o. Todos est�o dispensados.
 
 
**************
 
 
Cada qual tomou seu rumo.
Ang�lica e Cristine ficaram juntas e foram para a casa da primeira, levando Ariel com elas. Passava um pouco das seis horas da tarde. O dia j� estava acabando. De novo chovia torrencialmente.
Ao entrarem na cabana tiraram as capas de chuva e o casaco pesado que Ang�lica havia emprestado � Cristine. Os guarda-chuvas ficaram escorrendo na pequena �rea de servi�o.
Ang�lica acendeu a lareira para abrandar o frio e a umidade. Em poucos minutos o ambiente aquecido ficou mais acolhedor do que quando chegaram. Cristine e Ariel ajudaram Ang�lica a preparar um lanche para eles. Enquanto comiam foi a morena quem iniciou a conversa com o irm�o:
- Ariel...
- O qu�?
- Eu estive pensando... ali�s, a gente esteve pensando � disse Ang�lica olhando para Cristine � Que talvez fosse melhor tu ficares uns dias fora...
- T�o querendo me tirar de circula��o?
- N�o... sim... � titubeou Ang�lica.
- Eu n�o sou idiota, mana. Eu to ligado no que ta acontecendo. Seja l� quem fez isso com a Adelaide pode querer me apagar tamb�m, n�o �?
Ang�lica respirou fundo e assentiu com um maneio de cabe�a.
- �.
Ariel baixou os olhos e suspirou.
- Mas a gente n�o vai deixar nada te acontecer, entendeu? Nada! � disse a morena categoricamente � Eu te prometo, meu querido.
Ariel sorriu melancolicamente.
- E o que foi que voc�s pensaram? � quis saber o adolescente.
- Bem... � respondeu Cristine � A gente pensou numa viagem ao... Rio de Janeiro.
Instantaneamente os olhos de Ariel se acenderam.
- Rio de Janeiro??? T�o brincando comigo, n�?
- N�o. Estamos falando s�rio! � disse Cristine � Eu at� j� falei com uma amiga minha que prontamente se disp�s a te hospedar.
- Amiga boazuda???
- Ariel! Faz favor! � repreendeu Ang�lica dando um safan�o no bra�o do irm�o.
Cristine gargalhou e respondeu:
- Posso te assegurar que � um mulher�o!
- Beleza! � disse Ariel ostentando um sorriso de orelha a orelha.
- Mas que n�o vai te dar a menor bola! � emendou Cristine tamb�m sorrindo � Ela � comprometida.
Ariel fez uma careta. Continuou:
- Mas que as cariocas se cuidem, afinal, vai ter Ariel na �rea!...
- Quanta pretens�o num corpo s�!!! � disse Ang�lica sorridente.
- Eu que sei, maninha... Eu que sei... � respondeu Ariel debochado.
- Ariel, - continuou Ang�lica desta vez com um tom de voz s�rio � tem uma coisa...
- O qu�?
- Que isso fique s� entre n�s, entendido? Mais ningu�m.
- Tudo bem.
- E tamb�m n�o quero que comentes isso no castelo. As paredes t�m ouvidos. � continuou a morena � Deixa que pro pai e pra m�e conto eu, ok?
- Por mim tudo bem. E eu vou quando?
- Amanh� bem cedo. A gente sai daqui antes das cinco horas. Tu embarca as oito, no Salgado Filho.
- Eu vou de avi�o???
- N�o, de asa delta, � boc�! � respondeu Ang�lica.
Ariel levantou de onde estava e abra�ou a irm� pelo pesco�o, cobrindo-a de beijos.
- Sai pra l�, � bab�o! � disse Ang�lica abra�ando-o com firmeza, fazendo as palavras destoarem completamente dos seus atos.
- Eu te amo, mana. � disse Ariel dando um aperto ainda mais forte em Ang�lica.
- Eu tamb�m te amo... muito... � respondeu a morena sapecando um beijo nas faces do garoto, dando-lhe em seguida uma chave de pesco�o e um croque nas orelhas.
- Ai, ai, ai... Ta vendo s� como ela me trata, Cristine??? � resmungou Ariel sorrindo e tentando se desvencilhar daquela pris�o amorosa.
 
 
Depois que terminaram o lanche os tr�s se dirigiram � casa dos pais de Ang�lica, para Ariel juntar alguns pertences para levar. Enquanto fazia sua mala o adolescente cogitava:
- Quanto tempo ser� que eu vou ficar l�?
- N�o sei, Ariel... � disse Ang�lica.
- E como � que vai ficar a escola? Vou perder muita mat�ria... Ainda mais agora que eu to arrasando em matem�tica...
Cristine olhou para o garoto e afagou-lhe os cabelos loiros carinhosamente.
- Querido, o importante agora � que fiques seguro � respondeu Ang�lica � Depois a gente v� o que vai acontecer com a escola. E certamente n�o ficar�s muito tempo, s� mesmo alguns dias. Digamos que s�o umas feriazinhas for�adas.
"Pelo menos � o que espero", pensou Ang�lica.
Ariel sorriu.
- N�o leva roupa de l�, n�o. � disse Cristine ao v�-lo separar alguns su�teres.
- Tu � um boc� de mola mesmo, - brincou Ang�lica � querendo levar roupa de l� pro Rio.
- Mas eu nunca fui l�... � justificou o jovem � N�o sei como � o clima.
- E tu n�o assiste televis�o, n�o? � continuou a morena provocando-o.
- Assisto, mas n�o me liguei...
- Ariel, - disse Cristine � basta um moleton e uma jaqueta. Leva mais camisetas e bermudas mesmo. E um cal��o pra voc� pegar uma praia.
- Ta�... T� gostando disso. Praia, sol, mulher de biqu�ni, peitos e bundas... T� indo pro para�so...
Tanto Ang�lica quanto Cristine tiveram de rir do garoto. A id�ia de mand�-lo para o Rio acabara atenuando o clima de tens�o e fazendo-o relegar a segundo plano todo o incidente daquele dia, e as implica��es decorrentes dele tamb�m.
T�o logo Ariel terminou de arrumar suas coisas, que se limitaram a uma mochila e a uma sacola de viagem, Regina abra�ou o filho e despediu-se dele. Enquanto Ariel arrumava suas coisas Ang�lica havia conversado com os pais.
- Vai com Deus, meu filho, - disse a m�e � e te cuida! N�o pega muito sol, passa filtro, n�o entra sozinho no mar, n�o vai no fundo, n�o sai sozinho, n�o vai te perder naquela cidade grande...
- Credo, m�e, isso at� parece um mau agouro! Eu sei me cuidar... J� sou um homem!
- Sei... � disse Regina � Que Deus te aben�oe.
- Fica com Deus tamb�m, m�e. E fica tranq�ila. Eu to legal.
- Que bom...
- Tchau, pai! � disse Ariel abra�ando Israel.
- Vai com Deus meu filho. E lembra do que a tua m�e te disse. E n�o vai me fazer passar vergonha na casa dos outros! Come com modos, n�o limpa a boca na toalha de mesa, toma banho todos os dias, penteia esse cabelo e escova esses dentes!
- Sim senhor, general! � disse Ariel batendo contin�ncia para o pai.
- E n�o me debocha, guri!
Ariel abra�ou o pai amorosamente.
- Deixa com o papai aqui, eu sou um homem educado...
 
 
Ariel foi com Ang�lica e Cristine para a cabana. Combinaram de sair cedo, para que ningu�m os visse, e para n�o perderem o v�o.
Ang�lica estendeu um colch�o ao lado de sua cama e antes de deitarem Ariel disse inocentemente:
- Cristine, pode deixar que eu durmo no ch�o. Dorme na cama com a Ang�lica. Mas te prepara pra ag�entar o bafo e levar alguns coices durante a noite.
- Raio de guri abusado! � disse Ang�lica enquanto jogava um travesseiro no irm�o que se esquivou e entrou no banheiro, trancando a porta por dentro.
Cristine foi obrigada a rir da cena, Ang�lica tamb�m.
- Voc�s sempre se tratam assim t�o... afetivamente? � brincou Cristine.
- Quase sempre, mas nos superamos quando tem plat�ia. � riu-se Ang�lica � Mas se concordas com as coloca��es dele posso fazer mais uma caminha no ch�o... do outro lado... � continuou Ang�lica com uma cara safada, diminuindo o tom de voz.
- Nem pensar... � respondeu Cristine no mesmo tom, falando ao p� do ouvido da morena. � Mas se a senhorita pensa em ousar me tocar com seu inocente irm�o dormindo ao lado, pode ir tirando o cavalinho da chuva...
Ang�lica sorriu maliciosamente, envolvendo Cristine pela cintura. A loirinha tentou se desvencilhar, olhando para a porta do banheiro, apreensiva.
- Fica tranq�ila... � disse Ang�lica enquanto ouvia o barulho do chuveiro sendo ligado � eu conhe�o o meu eleitorado. O tempo do banho e da punheta � suficiente pra gente matar as saudades...
- Ang�lica, pelo amor de Deus, n�o faz isso... � disse Cristine enquanto Ang�lica capturava sua boca num beijo s�frego e descia sua m�o na dire��o de seu sexo.
A morena abriu o fecho da cal�a de Cristine e deslizou seus dedos na dire��o do tri�ngulo de pelos dourados. Cristine arqueou o corpo, excitando-se com aquele contato intempestivo. Apoiou-se em Ang�lica enquanto esta a segurava fortemente e come�ava a acariciar seu sexo, j� molhado de excita��o. Cristine agarrou-se � Ang�lica, que a mantinha de p�, por�m escorando-a na parede do quarto. Ao sentir a umidade escorrendo entre seus dedos estremeceu e beijou Cristine mais intensamente, introduzindo dois dedos naquela cavidade receptiva e ardente. A loirinha apertou-se contra ela, abrindo mais suas pernas e facilitando o movimento dos dedos de Ang�lica. Cristine concentrava-se para n�o gritar e nem gemer alto. Quando Ang�lica retirou os dedos de dentro dela e passou a estimular seu clit�ris Cristine, num movimento r�pido e incontido, levou sua boca ao pesco�o de Ang�lica, sugando-a enquanto se esvaia em espasmos silenciosos de prazer.
Assim que os movimentos se abrandaram e Ang�lica sentiu a mulher em seus bra�os relaxar gradualmente, deixou-a firmar os p�s no ch�o enquanto se recompunha. A morena fitou-a nos olhos e sorriu satisfeita. Logo em seguida levou sua m�o ao pesco�o e disse no ouvido de Cristine.
- Acho que esse marcou...
Cristine sorriu e disse:
- Desculpa. Ou gritava ou procurava algo para ocupar a boca... Ali�s, falando em ocupar a boca...
Cristine, tamb�m num movimento r�pido, segurou Ang�lica e abriu o fecho de suas cal�as, puxando-as para baixo. O barulho do chuveiro permanecia cont�nuo e intenso. A morena encarou-a com mal�cia entendendo perfeitamente a inten��o de sua pequena amante. E naquele momento o que menos queria era fazer-se de dif�cil. N�o dispunham de muito tempo. Tirou uma das pernas da cal�a e sentou-se numa cadeira perto da porta, de vi�s para a porta do banheiro. Abriu as pernas sem cerim�nias deixando Cristine cara a cara com o que lhe parecia um n�ctar dos deuses. A loirinha ajoelhou-se e abocanhou o sexo de Ang�lica, enquanto esta se contorcia e a segurava pelos cabelos. Sua l�ngua penetrou na cavidade encharcada, bebendo da fonte dos prazeres e movendo-se para dentro e para fora. Sentia Ang�lica conter seus gemidos e controlar seu �mpeto de gritar de prazer. Ao perceb�-la prestes a gozar deteve-se com movimentos circulares de l�ngua, intercalados com sugadas intensas, no seu clit�ris intumescido. A morena projetou seu p�bis para frente e Cristine abocanhou-a de vez, sentido a explos�o do prazer em sua boca. O jorro quente em seu queixo fez com que se sentisse poderosa. S� uma mulher poderosa seria capaz de fazer aquela deusa grega gozar em sua boca t�o rapidamente. Lambeu sua cavidade vagarosamente, sentindo seu gosto e sua textura na pr�pria l�ngua. Estremeceu de prazer ao sentir aquele sabor. E se deu conta de que nunca havia feito amor daquela forma. Com tanta urg�ncia, completude, sincronia e cumplicidade. Levantou os olhos e mergulhou nas gemas azuis que a fitavam amorosamente. Esgueirou-se e sentou-se montada no colo de Ang�lica, de frente para ela, que a envolveu pela cintura, beijando-lhe a boca.
Ang�lica sentiu o pr�prio gosto na boca de Cristine. Afagou suas costas e aconchegou-a junto a si, num abra�o carinhoso. Ficaram naquele estado de in�rcia por alguns instantes, esperando que os cora��es voltassem � pulsa��o normal. Uma sensa��o de sonol�ncia gostosa as invadiu. Olharam-se nos olhos e sorriram.
Neste momento ouviram o chuveiro ser desligado e a voz de Ariel ao fundo, cantarolando uma m�sica do Biqu�ni Cavad�o. Levantaram-se de onde estavam e Ang�lica tratou de vestir as cal�as, tentando recompor-se. Cristine tamb�m ajeitou suas roupas. Ang�lica ainda a abra�ou furtivamente, sapecando-lhe mais um beijo na boca. N�o resistiu e disse em tom de brincadeira:
- Depois sou eu que tenho bafo...
Desta vez foi Cristine quem lhe acertou uma travesseirada. Ang�lica continuou:
- V� se n�o vai dar um beijinho de boa noite no meu irm�o... � riu-se a morena.
- Debochada... Pois fique sabendo que este n�ctar � maravilhoso para a pele, ta?...
- Bom, no que depender de mim tu podes dar continuidade a esse tratamento... sem problemas.
- Isso � uma promessa ou uma amea�a? � instigou Cristine.
- Depende...
- Do qu�?
- Se vai te causar prazer... ou dor... � respondeu Ang�lica.
- Bom... Prazer me causar� sempre... Dor, s� se eu resolver morder... E n�o vai ser em mim a dor...
- Aaaiii... � disse Ang�lica levando suas m�os entre suas pernas.
 
 
Ambas riram. Neste momento Ariel saiu do banheiro j� vestindo um pijama azul marinho. Cristine mal conseguiu disfar�ar, e antes que o rapaz desse "boa noite" entrou no banheiro, fechando a porta atr�s de si. Ang�lica riu para si mesma.
Ariel aninhou-se no seu colch�o. Depois de Cristine foi a vez de Ang�lica tomar seu banho e deitar-se. Cristine j� estava encolhida por sob as cobertas. A morena beijou a testa de seu irm�o dando-lhe boa noite. Levantou as cobertas e deitou-se ao lado de Cristine, encostando-se nela propositalmente.
Cristine girou o corpo, dando as costas para Ang�lica. Esta �ltima apagou a luz do abajur, deu um beijo em sua nuca e disse:
- Boa noite...
- Boa noite. � respondeu a loirinha sem se virar.
Ang�lica provocativa passou-lhe a m�o nas n�degas e em seguida tamb�m lhe deu as costas, por�m encostando-se nela. Realmente era mais seguro dormir naquela posi��o. Assim que pegou no sono Cristine instintivamente se virou para Ang�lica, aconchegando-se a ela. Sonolenta, a morena tamb�m se virou e abra�ou-a, aninhando-a junto ao peito. Dormiram abra�adas quase que toda a noite.
 
 
Quando o despertador tocou Ang�lica levantou-se num pulo, empertigando-se na cama instintivamente, o cora��o disparado, despertando de um sono conturbado onde cenas confusas a faziam sentir ang�stia. Seu movimento brusco despertou Cristine. Num instante a morena se deu conta da realidade a sua volta e levou a m�o ao ombro da loirinha, dizendo a meia voz:
- Vamos levantar, est� na hora.
Cal�ou suas pantufas de l� e chamou Ariel.
- Ariel... acorde... vamos nos arrumar. � disse a morena.
Ariel tamb�m despertou ligeiro. Estava excitado ante a perspectiva de viajar e conhecer o Rio de Janeiro. Tomou um banho r�pido e vestiu-se. Quando Ariel desceu sua irm� e Cristine j� o aguardavam prontas, com o caf� servido.
O rel�gio marcava 4:19h.
Antes das cinco horas estavam na estrada, no carro de Ang�lica. Chegaram ao aeroporto por volta de sete horas. As oito e dez o avi�o levantou v�o, levando um adolescente irrequieto rumo ao clima quente do Rio de Janeiro.
Antes das dez horas estavam de volta ao castelo. Ang�lica entrou na propriedade por um acesso lateral e muito pouco utilizado. Estacionou seu carro ao lado de sua cabana e juntamente com Cristine se dirigiram ao cemit�rio, para o vel�rio de Adelaide.
 
 
 
Conforme iam caminhando em dire��o � capela mortu�ria Cristine foi sentindo reavivarem-se suas lembran�as de uma semana atr�s, quando chegou para o vel�rio do tio. Sentiu-se desconfort�vel com aquelas recorda��es. Caminhavam lado a lado, cada qual segurando um guarda-chuva preto, pois de novo chovia intensamente. Ao cruzarem o port�o de ferro do campo-santo Cristine sentiu o desconforto avolumar-se dentro dela. Al�m do enterro do tio, recordava-se de sua ida furtiva � catacumba da fam�lia, encontrando-a descerrada. Lembrava tamb�m da figura grotesca que a amea�ara, enfim, precisou de todo seu autocontrole para n�o sair correndo daquele lugar. Ao menos se sentia protegida pela presen�a de Ang�lica e pela claridade do dia, mesmo turvado pelas nuvens carregadas.
Ang�lica e Cristine pararam por um instante na porta da capela. Inspiraram profundamente tentando coletar for�as do fundo da alma para conseguir cruzar o portal daquele lugar.
O caix�o estava colocado no centro, lacrado. Apenas uma coroa de flores pendia na parede do fundo. Ao lado do caix�o, numa cadeira de assento de vime, uma pequena mulher chorava encolhida e fragilizada pelo peso do desespero e da perda, e velava o corpo inerte da filha. Num banco lateral dois meninos de olhos arregalados e express�o assustada prestavam aten��o em todos os movimentos do local, por�m n�o se moviam de onde estavam. Cristine percebeu logo se tratarem dos irm�os g�meos de Adelaide. Conjeturou se as mentes infantis poderiam ter o exato entendimento do que ocorria naquele local, se tinham ou n�o consci�ncia da dimens�o da finitude humana, mais ainda, projetou-se anos atr�s quando ainda muito crian�a f�ra levada para ver os pais mortos. Apiedou-se dos meninos e sentiu um n� na garganta.
 
Foi Ang�lica quem teve a iniciativa de entrar e deu o primeiro passo na dire��o da m�e de Adelaide. Cristine seguiu logo depois dela, como que se amparando em sua sombra para conseguir mover-se naquele lugar.
Deram os p�sames para a m�e de Adelaide, que parecia estar em estado de choque. E n�o era para menos. Havia perdido al�m da filha, o esteio da fam�lia naquele momento. O pai de Adelaide f�ra deixado em casa, sendo cuidado por um familiar distante. N�o haviam contado a ele sobre a morte da filha, uma vez que alternava momentos de del�rio e de lucidez. Triste situa��o. E embora Dr. Mendes tenha garantido � m�e de Adelaide aux�lio no sustento da casa e na educa��o dos filhos pequenos, isto n�o traria sua filha de volta.
Quando o rel�gio marcou onze e meia o sino melanc�lico da capela soou, ecoando seu badalar mon�tono e funesto. O padre adentrou no recinto para fazer a encomenda��o do corpo. Logo em seguida o cortejo f�nebre percorreu o mesmo trajeto que Cristine havia percorrido na semana anterior. Havia apenas meia d�zia de pessoas no local. Os moradores e funcion�rios do castelo compareceram em peso, inclusive Valesca e Jo�o V�tor. Henrique parecia o mais abatido de todos. O delegado acompanhou o enterro de longe e Cristine teve a sensa��o que ele observava atentamente os presentes. Os familiares da falecida eram poucos e t�o logo o caix�o desceu � sepultura, na parte mais ao fundo do cemit�rio, Ang�lica e Cristine sa�ram dali. Estavam bastante cansadas e abatidas. Precisavam descansar.
Ao passarem pelo t�mulo do tio Artur, Cristine fez uma observa��o minuciosa dos arredores. Tentava vislumbrar, � luz do dia, o local de onde havia surgido a figura amea�adora de tr�s dias atr�s. N�o queria, por�m, chamar a aten��o de Ang�lica nem t�o pouco parecer obstinada, no entanto sentia que aquela situa��o ainda precisava ser esclarecida. Apesar de perscrutar o lugar discretamente, o olhar explorat�rio de Cristine foi captado por Ang�lica. Esta �ltima percebeu que deveria redobrar seus cuidados.
 
 
Mal haviam sa�do das cercanias do campo-santo o celular de Ang�lica tocou, indicando que uma mensagem de voz havia sido enviada. Instantaneamente a express�o da morena assumiu um ar circunspeto e preocupado. Tentando aparentar tranq�ilidade ouviu em sil�ncio a mensagem enviada. Desligou o aparelho e por instantes ficou em sil�ncio. Pareceu � Cristine que tentava procurar uma desculpa convincente para n�o deixar que soubesse do que se tratava a mensagem. Depois de instantes Ang�lica disse, tentando demonstrar naturalidade:
- Tine, eu vou precisar dar uma sa�da de novo. Mas n�o demoro.
- Tudo bem...
- Mas te pe�o que fiques no castelo, de prefer�ncia com a minha m�e, ou com o Dr. Mendes.
- Mas porque essas recomenda��es todas? � quis saber a loirinha.
- Nada. S� prud�ncia.
- Ang�lica, eu realmente n�o entendo algumas coisas que est�o acontecendo aqui. Voc� poderia me explicar?
- Explicar? Eu n�o tenho nada para explicar... N�o sei do que est�s falando... � respondeu Ang�lica tentando disfar�ar.
- Tudo bem... � desistiu Cristine, que j� havia percebido que quando Ang�lica se fechava n�o adiantava tentar capturar seus pensamentos. Era imposs�vel faz�-lo.
 
 
Ang�lica deixou Cristine na cozinha do castelo, na companhia de sua m�e, que havia sa�do antes delas do cemit�rio. Regina j� preparava o almo�o.
- Tine, tenta dormir um pouco depois do almo�o. Eu quero ver se retorno at� o final da tarde. Venho direto para c�. Pode ser?
- Pode. � concordou a loirinha que estava de fato cansada e precisava dormir um pouco.
- Ent�o, tchau. � disse a morena.
- Tchau.
 
 
***************
 
 
De fato ap�s o almo�o, que saiu por volta de uma hora, Cristine subiu para seu quarto. Estirou-se em sua cama, por�m n�o conseguiu pregar o olho. Virou-se de um lado para outro, intercalando pensamentos bons, onde os momentos de amor vividos com Ang�lica a faziam sentir-se nas nuvens, com outros pensamentos de ang�stia, onde o fantasma de seu tio parecia saltar da sepultura vazia pedindo-lhe ajuda.
N�o conseguia relaxar. Olhou seu rel�gio e viu que marcava quase quatro horas. A chuva havia se dissipado, mas o tempo continuava carregado.
Num �mpeto levantou-se e jogou seu casaco de l� por cima. Resolvera deixar o medo de lado e tirar algumas quest�es a limpo. Embora houvesse dito � Ang�lica que permaneceria no castelo, n�o podia deixar que aquelas d�vidas se avolumassem dentro dela, sem tentar alternativas para dissipar pelo menos algumas.
Desceu as escadarias do castelo e passou pela cozinha novamente. Ao descer cruzou por Anemary e por James ainda na escadaria. Na ampla sala de estar Valesca e Jo�o V�tor tomavam um ch�, servido por Morris. Ao sair pela porta dos fundos viu quando Henrique acompanhou sua marcha rumo a estrada principal da propriedade, cumprimentando-a quando passou por ele.
 
 
Cristine caminhou apressada na dire��o do cemit�rio, evitando pensar no que estava preste a fazer, movida mais pelo impulso do que pela raz�o. De fato estava indo sozinha a um lugar ermo, onde j� havia se sentido amea�ada anteriormente. No entanto precisava fazer aquilo, precisava ver aquele lugar � luz do dia.
Parou defronte ao port�o de grades altas com arremates de metal pontiagudos. Respirou fundo, olhou em volta e descerrou a pesada grade. N�o havia mais ningu�m ali. No ch�o do caminho principal ainda podia ver algumas p�talas de flores que foram levadas para serem depositadas sobre o t�mulo de Adelaide.
Caminhou decidida na dire��o da sepultura do tio, tentando dominar seus temores internos. Agu�ou o ouvido, no entanto escutava apenas o som seco do solado de suas botas de encontro �s pedras dispostas assimetricamente ao longo do corredor central. Instintivamente desacelerou sua marcha, detendo sua aten��o nas l�pides do caminho, tentando localizar mais algum parente. Quando se deu conta estava quase em frente ao t�mulo do tio. Na claridade do dia o ambiente n�o parecia t�o assustador. At� mesmo os semblantes dos anjos de pedra pareciam mais brandos naquele momento.
Cristine circulou ao redor da sepultura, abaixando-se e observando-a atentamente. Parecia intacta. Mas ela tinha certeza de t�-la visto aberta, n�o se enganara. Esmiu�ou mais detalhadamente o local at� que sua aten��o voltou-se para a borda esquerda do t�mulo, onde se via uma falha na pedra, como se fosse origin�ria de uma batida, ou da l�pide sendo arrastada por sobre ela. Passou a m�o na pedra e sentiu a superf�cie cortante, logo era uma falha recente na pedra. Se fosse antiga provavelmente n�o estaria com uma borda t�o incisiva. Al�m do qu� a colora��o da pedra naquela falha estava diferente do resto da superf�cie, j� escurecida pelas intemp�ries. Com certeza aquela lasca havia sido feita h� pouco tempo. Naquele instante teve a certeza de que o t�mulo do tio fora violado, pois aquela marca era exatamente onde se lembrava de ter visto a l�pide deslocada. Arregalou os olhos e sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. Empertigou-se e olhou em volta. Pareceu ter percebido um movimento ao fundo, por�m logo em seguida sua aten��o voltou-se para o lugar onde havia surgido a figura macabra que a amea�ara. Viu que a vegeta��o era cerrada naquele lugar, possibilitando ocultar algu�m facilmente. Aproximou-se vagarosamente do lugar, com os sentidos em alerta, prontos para reagir a qualquer movimento ou ru�do suspeito. Observou o ch�o enlameado e n�o distinguiu pegadas, afinal o terreno lavado pela chuva n�o poderia reter nenhuma evid�ncia de qualquer passante.
Cristine estava t�o absorta em seus pensamentos que nem percebeu uma figura que se aproximava silenciosamente atr�s dela.
Ainda tocando o ch�o umedecido com as m�os Cristine ouviu o ru�do de passos logo atr�s dela, abafados pelas po�as d��gua. Sobressaltou-se, por�m antes que pudesse levantar-se sentiu uma m�o firme a segura-la pelo bra�o e puxa-la para cima. N�o conseguiu emitir nenhuma palavra, emudecida pelo inesperado e pelo susto. Empalideceu e ao olhar na dire��o da m�o que a i�ava do ch�o deparou-se com a vis�o de olhos azuis t�o conhecidos.
- A senhorita pode me dizer o que est� fazendo aqui sozinha??? � perguntou Ang�lica n�o conseguindo disfar�ar a contrariedade e a irrita��o � Eu n�o te pedi para ficar no castelo?
Respirando aliviada Cristine respondeu:
- Voc� quase me matou de susto!!!
- E tu n�o respondeste � minha pergunta!
- Eu n�o te devo satisfa��es da minha vida! � respondeu Cristine exaltando-se devido ao tom de voz de Ang�lica.
A morena abrandou sua express�o e disse:
- Tine, tu n�o me deve satisfa��o da tua vida, mas eu te pedi...
- Pediu, mas n�o me disse o motivo! Eu n�o sou mais crian�a, Ang�lica! Preciso de explica��es!
- Mas eu n�o tenho explica��es... Mas preciso que confies em mim. Por favor...
Cristine tamb�m abrandou seu tom de voz.
- Tudo bem. Me desculpa. Eu t� uma pilha de nervos mesmo...
- Vamos embora daqui, vamos para casa. � disse Ang�lica.
- Eu preciso te mostrar uma coisa, vem aqui. � falou Cristine levando Ang�lica para junto do t�mulo do tio e mostrando-lhe a falha na pedra. � Olha aqui... Isso foi feito recentemente. A pedra foi arrastada.
- N�o sei... Isso pode ser antigo, j� devia estar a�. � disse Ang�lica.
- Claro que n�o! Olha a colora��o da pedra! E a superf�cie cortante!
- Bom. Pode ser... Mas n�o sei como...
- Ang�lica, pelo amor de Deus!!! Te liga! O t�mulo foi violado!
Ang�lica permaneceu calada. Cristine irritou-se:
- Voc� n�o acredita em mim mesmo! Nem vendo uma evid�ncia!
- Eu n�o disse que n�o acredito. S� estou pensando...
- Pensando no qu�???
- Nessa marca. Mas eu acho que tu podes ter raz�o sim.
- Ainda bem! Pensei que voc� continuava me achando louca!
- Eu nunca te achei louca. E tu sabes disso.
- Ta. Desculpa. J� disse que t� uma pilha de nervos.
- Olha... Vamos para casa. � disse Ang�lica olhando em volta, desconfiada � Depois a gente pensa sobre isso, com calma.
- Tudo bem.
Neste momento um estrondo enorme se fez ouvir, sobressaltando as duas. Como na noite em que Cristine estivera ali sozinha o c�u parecia querer vir abaixo novamente. Um segundo trov�o previu a enxurrada d��gua que estava por desabar. Ang�lica pegou Cristine pelo bra�o t�o logo percebeu um movimento na parte lateral do cemit�rio, coberta por um cap�o de mato denso. Pareceu-lhe ouvir um estalar de passos sobre um galho seco. Empertigou-se observando em volta atentamente, com a adrenalina invadindo sua corrente sang��nea.
- O que foi? � quis saber Cristine.
- Nada. Vamos. � disse Ang�lica conduzindo a loirinha firmemente pelo bra�o, quase que a empurrando na dire��o oposta, justamente para a vegeta��o cerrada de onde havia sa�do a figura macabra e amea�adora.
- Pra onde a gente ta indo??? � perguntou Cristine assustada.
- Vamos por aqui. Vamos cortar caminho.
- Eu n�o quero ir por a�! � disse Cristine empacando ao lado de Ang�lica.
- Mas � por aqui que a gente vai! � disse Ang�lica segurando Cristine fortemente pelo bra�o e empurrando-a para dentro da vegeta��o.
Neste momento a chuva come�ou a cair intensamente.
Ang�lica acelerou o passo, olhando para tr�s por vezes. Cristine mal conseguia acompanha-la. Ang�lica agu�ou o ouvido e percebeu passadas r�pidas atr�s delas. Iniciou uma corrida pelo meio do mato, arrastando Cristine que a acompanhava assustada e sem entender o que se passava.
- O que � que est� acontecendo? � gritou Cristine.
- Nada! Cala a boca e corre! Sen�o vamos tomar aquele banho de chuva!
Cristine mal conseguia acompanhar a marcha da morena que desviava dos galhos e dos troncos de �rvores. O cora��o de Ang�lica estava disparado e ela tentava correr cada vez mais r�pido, puxando Cristine e mantendo-a bem perto de si. A loirinha trope�ou e Ang�lica a amparou na queda. Neste instante Ang�lica ouviu um zunido passando rente ao seu ouvido. Seu olhar perspicaz captou o que Cristine n�o f�ra capaz de perceber: uma flecha passara rente a elas. Reconheceu o barulho e viu o movimento da vegeta��o ao lado delas sendo atingida. Num �mpeto suspendeu Cristine e disparou com ela pelo meio do mato. Desta vez n�o tomou o cuidado de desviar de galhos e troncos. Com agilidade pulava sobre eles e levava por diante o que estivesse � sua frente. Cristine era arrastada como um saco de penas na ventania. A chuva chegava a turvar a vis�o delas. O cora��o de ambas parecia querer saltar da boca. Correram por mais alguns metros, at� que se depararam com um obst�culo: o muro de pedras do cemit�rio.
Como um felino Ang�lica o escalou com um pulo. Pegou Cristine pela m�o e praticamente a fez voar sobre o muro, atirando-se para fora logo depois dela. Ao erguer-se pegou novamente a loirinha pela m�o e continuou a correr, desta vez na estradinha de ch�o batido que as conduziu at� a cabana de Ang�lica, a salvo.
Ao entrarem na cabana Ang�lica trancou a porta atr�s delas. Estavam ensopadas, dos p�s � cabe�a.
- O que foi que deu em ti, mulher??? � perguntou Cristine.
- Quis fugir da chuva...
- E quase acaba comigo! Olha s�, eu to toda lanhada! Ali�s, voc� machucou o rosto.
Cristine levou sua m�o ao rosto de Ang�lica que tinha um arranhado de galho seco em toda a extens�o da face direita. A pele ferida come�ara a arder. Por certo n�o havia sentido nada ainda pelo efeito da adrenalina. Agora, mais calma, sentia o corte a incomod�-la.
- Isso n�o foi nada. � disse Ang�lica.
- Como n�o? � preciso lavar e passar algo para limpar esse corte.
- Pode deixar que eu vou lavar no banho. Mas sobe primeiro. Tu est�s ensopada.
- Voc� tamb�m... Pode tomar banho primeiro. � disse Cristine.
- N�o. Vai tu.
- E que tal se a gente for junto?... � perguntou Cristine sorrindo-lhe com uma ponta de mal�cia, abra�ando-a pela cintura.
Ang�lica retribuiu o sorriso, por�m respondeu:
- Acho melhor n�o... Eu t� com um pouco de dor de cabe�a...
Cristine a encarou e tentou captar seus pensamentos. N�o reconhecia a Ang�lica voluptuosa com a qual convivera at� ent�o. "Bom, qualquer um tem direito a ter dor de cabe�a de vez em quanto...", pensou Cristine, tentando n�o polemizar nem encucar com a rea��o de Ang�lica. "E al�m do mais ela pode estar cansada da corrida", completou Cristine para si mesma.
- Sobe l�... e pega roupas secas no arm�rio, qualquer roupa. Depois eu subo. Vou tomar um caf� com uma neosaldina. Acho que eu to com TPM... � disse Ang�lica amorosamente.
- Ta. Mas vem logo. Eu te fa�o uma massagem nas t�mporas depois do banho. � disse Cristine � E prometo que me comporto!
Ang�lica sorriu e deu um beijo suave nos l�bios de Cristine. A loirinha subiu e enquanto tomava seu banho pensava no ocorrido: "Que coisa estranha... Parece que a Ang�lica fugia de alguma coisa... Mas do qu�? O que foi que ela viu e eu n�o? Se eu n�o a conhecesse diria que estava tentando, no m�nimo, me matar, nem que fosse de susto..."
 
 
Enquanto isso Ang�lica foi para a cozinha e botou �gua para esquentar. Assim que ouviu o barulho da �gua do chuveiro no andar de cima espiou na escada e pegou seu telefone celular. Discou um n�mero da mem�ria e assim que seu interlocutor atendeu relatou rapidamente o ocorrido, tomando o cuidado de que Cristine n�o a ouvisse. Desligou o telefone, guardando-o na bolsa. Tomou um cafezinho preto e subiu para o quarto levando uma bandeja com um chocolate quente e um lanche para Cristine.
Assim que Cristine saiu do banheiro Ang�lica entrou. Tomou um banho demorado, pensando no incidente de poucos minutos antes. "Foi por pouco, muito pouco", pensou, angustiando-se com o ocorrido. "Puta que pariu! At� quando vai esse inferno???", pensou Ang�lica, "e o pior, ou melhor, � que ela nem se deu conta do que aconteceu..." A id�ia de perder Cristine a deixou com o peito apertado e uma sensa��o de impot�ncia. Estava tensa, com medo, angustiada. Percebeu o quanto estava gostando de Cristine. Isto, por�m, n�o poderia interferir em seus planos e em sua miss�o.
 
 
Quando Ang�lica saiu do banheiro vestindo uma sa�da de banho atoalhada Cristine j� estava aninhada entre as cobertas, j� tendo devorado seu lanche.
- Vem aqui � disse a loirinha � Senta aqui na minha frente.
Ang�lica acomodou-se e Cristine posicionou-se atr�s dela, fazendo-lhe uma massagem nos ombros e depois ao redor dos olhos. Aos poucos a sensa��o de ang�stia foi se dissipando. Ang�lica aninhou-se na cama e Cristine a envolveu num abra�o. Adormeceram ap�s alguns minutos, quando o rel�gio marcava pouco mais de seis horas da tarde. A chuva continuava intensa e elas dormiram direto, at� o outro dia, tamanho o cansa�o em que se encontravam. Passaram a noite toda praticamente aninhadas uma nos bra�os da outra, instintivamente, numa atitude de acolhimento e prote��o.
 
 
 
N�o muito longe dali, quando a noite j� ia alta, dois homens se falavam ao telefone, num tom de voz exaltado.
- Afinal, aonde tu estavas metido???
- Eu j� disse... Sa� do meu posto por uns poucos minutos... Fui ao banheiro!
- E te deste conta que essa tua mijada podia ter custado a vida dela??? � gritou o homem mais velho.
- � claro que me dei conta! Mas aconteceu! Eu n�o tenho bola de cristal. Foi muito azar!
- Eu diria que no final das contas foi sorte! Sorte de voc�s dois! Sorte dela por n�o ter morrido e tua tamb�m, para n�o teres remorso pelo resto da vida!
- O senhor est� levando a coisa pro lado pessoal, delegado.
- N�o estou n�o! Estou somente zelando pela seguran�a de uma pessoa em situa��o de risco. Abra esses olhos Thom�z! O cerco est� se fechando e quem fez isso est� se dando conta do que est� acontecendo e do quanto estamos perto da verdade! Agora todo o cuidado � pouco. Entendeu?
- Entendi, senhor. Pode confiar em mim.
- Vou tentar...
O homem mais velho desligou o telefone e enxugou o suor da testa.
 
 
 
A manh� daquela quarta-feira despontou sombria e coberta por uma densa neblina. Ang�lica se mexeu na cama e procurou Cristine a seu lado, por�m em v�o. Percebeu que a mulher que adormecera a seu lado n�o estava mais ali. Sobressaltou-se, jogou um agasalho por cima e desceu a escada de madeira em passadas r�pidas e �geis. Respirou aliviada ao encontrar Cristine sentada � mesa, defronte a uma caneca de caf� fumegando, em estado t�o meditativo que nem mesmo percebeu sua aproxima��o. Suavemente abra�ou-a pelas costas, envolvendo-a num abra�o apertado. Beijou sua nuca e perguntou carinhosamente:
- Caiu da cama?
- N�o... S� acordei cedo...
- E por que n�o me chamou?
- Voc� estava dormindo t�o profundamente que n�o tive coragem de despertar minha bela adormecida...
- Huuumm... Que princesa mais condescendente... � brincou Ang�lica.
Cristine virou-se para ela abra�ando-a e repousando sua cabe�a de encontro ao ventre da morena, que permanecia de p�. Suspirou profundamente. Ang�lica tocou o queixo de Cristine, fazendo com que ela levantasse os olhos.
- O que foi? Qual o motivo desse suspiro?
- Eu n�o sei... Quer dizer... eu sei...
- E o que �?
- O testamento.
- Eu imaginei. � respondeu a morena.
- Daqui a algumas horas o meu mundinho pode virar de ponta cabe�a... � murmurou a loirinha.
- Fica tranq�ila. Tudo vai acontecer da melhor forma poss�vel. Eu tenho certeza.
- Pois eu gostaria de ter essa certeza toda. � disse Cristine � E tem esse monte de coisas acontecendo... a morte da Adelaide, entre outras coisas...
- Vamos fazer o seguinte, - respondeu Ang�lica tentando desconversar - vamos tomar o nosso caf�, tentar relaxar e aguardar a abertura do testamento. Deixa pra te preocupares depois... Se � que ter�s motivo para preocupa��es.
- Ta bom... � respondeu Cristine sorrindo timidamente.
Ang�lica abaixou-se e beijou os l�bios de Cristine com do�ura. Em seguida serviu uma caneca de caf� e sentou-se ao lado daquela pequena mulher de olhos verdes e com express�o apreensiva. Procurou de todas as formas desviar a aten��o de Cristine para assuntos corriqueiros, por�m de quando em quando se deparava com a loirinha fitando o nada, pensativamente.
Ang�lica aproveitou a manh� para ligar para Ariel, que j� estava agitando nas areias quentes da praia de Copacabana. Ficou aliviada ao saber not�cias do irm�o, e ter certeza de que estava bem e seguro.
A manh� arrastou-se morosamente e quando finalmente o rel�gio marcou onze e meia Cristine e Ang�lica foram para o castelo. Na hora do almo�o estavam todos presentes, inclusive Dr. Mendes. A refei��o ocorreu num clima tenso, onde pouco foi falado. Todos estavam ansiosos pelo que estava por vir.
Quando faltavam quinze minutos para as duas horas da tarde o tabeli�o portando o testamento de Artur chegou ao castelo. A pedido do Dr. Mendes todos j� estavam reunidos na biblioteca, inclusive os servi�ais.
O tabeli�o sentou-se � cabeceira da mesa tendo Dr. Mendes � sua direita e Cristine � sua esquerda. Na seq��ncia, ao redor da mesa, estavam Ang�lica, Valesca, Jo�o V�tor, Regina, Israel, Henrique, Morris, Anemary e James. Thom�z ficou esperando na cozinha, uma vez que se pressupunha n�o estar beneficiado no testamento do ex-patr�o, uma vez que o mesmo fora redigido antes de iniciar sua atividade profissional no castelo.
Os rostos denotavam apreens�o e nervosismo, principalmente o de Cristine e Valesca. Ang�lica tentava aparentar tranq�ilidade. Morris parecia desconfort�vel em seu lugar � mesa. Por certo sentir-se-ia melhor de p�, atr�s do Dr. Mendes, por�m a pedido deste ocupou o lugar indicado para ele. Valesca esfregava as m�os nervosamente, tendo os ossos dos dedos esbranqui�ados de frio e de ansiedade. James, sempre p�lido, tinha a testa suada e olheiras profundas.
Pontualmente �s duas horas o tabeli�o abriu o envelope escuro e lacrado que continha o testamento do tio Artur.
Podia-se ouvir o menor ru�do dentro daquele recinto, inclusive as respira��es aceleradas e os olhares apreensivos que acompanhavam a abertura daquele envelope cujo conte�do poderia mudar v�rios destinos ao redor daquela mesa.
Solenemente o escriv�o pigarreou e se p�s a ler o testamento. Inicialmente havia os termos legais que de fato n�o interessavam a nenhum dos presentes, at� que se iniciou a parte que prendeu a aten��o de todos:
- ..."e assim, eu, Artur Diaz Torres, deixo meus bens em testamento da seguinte forma: Para meus amigos Israel e Regina deixo dez hectares de terras, cont�guas � propriedade destes, na fronteira leste, com tudo o que ali houver, desde planta��es at� os animais e toda e quaisquer constru��o que haja naquele local".
Israel secou uma l�grima que rolava por sua face, sendo consolado por Regina. O tabeli�o continuou:
- "Para Morris, meu "fiel escudeiro", deixo a casa na praia de Torres e tudo o que h� dentro dela. Espero que te aposentes e possas realizar o teu velho sonho de viver perto do mar, pescando..."
Morris manteve-se est�tico. Apenas um pequeno e impercept�vel movimento de sua mand�bula fez com que os mais atentos percebessem um lampejo de emo��o naquele homem que parecia feito de pedras.
- "Para Anemary, esta pessoa t�o querida que dedicou tantos anos cuidando deste velho rabugento, deixo o apartamento em Londres, para que, quem sabe, retorne para sua terra, suas origens, uma vez que nada mais a mant�m presa a esta long�nqua p�tria".
Anemary secou as l�grimas e se deu conta que Artur sabia...
- "Para Henrique Romero deixo minha limusine. Acredito que poder� transforma-la num modo de ganhar dinheiro na capital e dar uma vida confort�vel para sua fam�lia".
Henrique baixou os olhos, mal acreditando que tamb�m tinha herdado alguma coisa. Sentiu-se agradecido.
- "Para Valesca, minha querida Valesca, deixo o apartamento na praia do Leblon, que considero a tua cara. Deixo tamb�m uma conta banc�ria com um montante de vinte mil reais. Vivi bons momentos a teu lado Valesca, e tenho certeza que, do nosso modo, fomos felizes juntos".
Valesca suspirou e sorriu para si mesma, contente por ter um lugar somente seu para morar e tamb�m emocionada pelo que acabara de ouvir. De fato jamais esqueceria Artur. Poderia at� mesmo dizer que Artur f�ra, do seu modo, o amor de sua vida.
- "Para o meu melhor amigo, Adroaldo, deixo minha cole��o de armas, sabedor que sou de que nutres uma especial admira��o por ela. Deixo tamb�m a casa onde funciona o escrit�rio de advocacia Mendes, na capital. E deixo o meu mais sincero sentimento de amizade e considera��o, o qual levarei para a eternidade".
Pela primeira vez Cristine viu o advogado derramar abundantes l�grimas pela perda de um grande amigo. O homem contido n�o conseguiu segurar a emo��o daquele momento. Era como se Artur estivesse ali presente. E como saber se de fato, em esp�rito, n�o estaria?
- "Para Ang�lica, minha querida afilhada, deixo o apartamento em Porto Alegre e o conjunto de salas e escrit�rios do centro da capital. Deixo tamb�m tudo o que est� no meu atelier, tintas, pinc�is e quadros, al�m da estatueta da V�nus que tanto admir�vamos. Deixo meu profundo sentimento paternal e levo as lembran�as da menina de cabelos negros que sorrindo voava no balan�o de cordas na figueira, a imagem mais pr�xima a uma filha que pude ter em vida".
Ang�lica respirou fundo, e sorriu. As l�grimas que escorreram de seus olhos azuis eram um misto de agradecimento e saudade.
- "Para James deixo a casa no centro de Doze Colinas e uma conta banc�ria com um montante de vinte mil reais. Espero que aprendas a te virar sozinho, meu rapaz, que a vida te ensine a ter iniciativas e a ser um homem de verdade, e n�o mais uma sombra deste velho amargurado e covarde. Aprenda a ser voc� mesmo, e n�o uma c�pia mal feita do que eu fui. Desejo sinceramente que a vida te reserve bons e felizes momentos".
James n�o moveu um m�sculo do rosto. Baixou os olhos e permaneceu impass�vel. Pensava consigo mesmo: "como sempre o padrinho preferiu a Ang�lica... Pra ela o apartamento de Porto Alegre, e as lojas, pra mim a casa mixuruca neste fim de mundo... Eu que sempre estive ao lado dele... Eu que devotei minha juventude e ele..."
Ang�lica, sentada diante de James, o encarava nos olhos. Tinha quase certeza sobre o que ele pensava. A rivalidade entre eles ficava mais acirrada a partir dali, ela bem o sabia, embora isto em nada a preocupasse.
- "E deixo este castelo e todos os meus demais bens m�veis e im�veis, al�m de uma carta que se encontra em anexo a este testamento, para minha �nica filha, Cristine Am�lie Dupret Torrez. E na falta desta ou na impossibilidade de assumir seu patrim�nio deixo o que lhe cabe � minha afilhada Ang�lica Bandera. E deixo expresso meu pedido de perd�o � Cristine pelo tempo perdido em v�o e por n�o ter conseguido chama-la de filha ainda em vida".
Neste momento todos os presentes entreolharam-se e um burburinho de vozes se fez ecoar na biblioteca. Cristine empalideceu e antes que corresse o risco de desfalecer Ang�lica a amparou, segurando-a pelos ombros. Boquiaberta, Cristine n�o sabia o que dizer. Parecia-lhe que a �ltima frase do testamento repetia-se como um eco dentro de sua cabe�a: "minha �nica filha, minha �nica filha, minha �nica filha, perd�o, perd�o, perd�o...".
O tabeli�o estendeu um envelope pardo para Cristine, tamb�m lacrado, o qual a loirinha pegou num gesto mec�nico. Todos se levantaram e, um a um, deixaram o recinto. Somente Cristine ficou sentada, im�vel, tendo Ang�lica e o Dr. Mendes a seu lado. Foi o advogado quem quebrou o sil�ncio:
- Cristine, tu est�s bem?
- N�o... � respondeu a loirinha � Eu estou qualquer coisa, menos bem...
Ang�lica apertou sua m�o, num gesto solid�rio. O advogado continuou:
- Podemos fazer alguma coisa por ti?
- N�o... acho que n�o...
Novo sil�ncio se fez.
- Tine... � disse Ang�lica � Vamos l� pra casa... A� tu podes ler tua carta com calma...
- N�o... Eu vou ler aqui mesmo... agora...
- Queres que eu fique? - perguntou Ang�lica carinhosamente.
- N�o... obrigada... eu preciso fazer isso sozinha...
- Tudo bem.
- N�o � nada pessoal... s� que...
- Eu sei. Eu entendo... � respondeu Ang�lica.
- Eu vou para o meu quarto. � disse Cristine.
- Eu vou ficar por aqui, ok? � disse Ang�lica � Se precisares de qualquer coisa � s� chamar.
- Fa�o minhas as palavras de Ang�lica. � disse Dr. Mendes.
- Obrigada. � respondeu Cristine levantando-se � Muito obrigada.
Com o envelope nas m�os Cristine subiu para seu quarto. Ang�lica e Dr. Mendes se entreolharam e suspiraram. Naquele momento nada podiam fazer por Cristine. Ela precisava descobrir a verdade, dita atrav�s do pr�prio pai, mesmo que depois de sua morte.
 
 
*******************
 
 
Cristine subiu vagarosamente, degrau por degrau, sem conseguir definir o que de fato estava sentindo naquele momento. Suas id�ias estavam confusas. Pai... seu pai... toda a sua hist�ria de vida poderia ser diferente do que imaginava at� ent�o. Precisava ler a carta que tinha nas m�os. Precisava entender sua vida, seu passado, a realidade que a cercava. Queria saber quem de fato era ela.
Abriu a porta do seu quarto e a fechou-a atr�s de si, trancando-a por dentro. N�o queria ser importunada. Sentou-se na cama como se estivesse com os sentidos anestesiados. Suas m�os estavam tr�mulas e molhadas de suor, apesar do frio.
Lentamente descerrou o lacre e retirou as folhas pautadas e escritas � m�o, com uma caligrafia sim�trica e levemente inclinada para frente. Respirou fundo e iniciou a leitura.
"Minha querida filha...
Se � que me permites chama-la assim. N�o sei bem em qual circunst�ncia esta carta lhe chegar� �s m�os. Talvez eu esteja a esper�-la em Doze Colinas, talvez n�o... � que alguns acontecimentos est�o fugindo do meu controle nos �ltimos tempos. Mas isto � irrelevante perto de que preciso contar-te.
Tudo come�ou h� trinta anos atr�s, numa das minhas viagens � Fran�a, a neg�cios. Nesta ocasi�o conheci a mais bela camponesa daquelas paragens, a tua m�e, Juliet. Confesso que me apaixonei perdidamente pelos seus olhos verde-esmeralda, ali�s, iguais aos teus... Bem, ela tamb�m se dizia apaixonada e eu a trouxe para o Brasil. Ela era de uma fam�lia humilde e acreditava que teria mais chances num pa�s estrangeiro do que em seu pr�prio. Ela n�o tinha dimens�o do quanto eu realmente possu�a em termos de bens materiais aqui no Brasil, meus pais no caso. O fato � que eu a trouxe para c� e estava disposto a viver com ela para sempre. Por�m, como nem tudo na vida s�o flores, aconteceu o inevit�vel: sua m�e acabou conhecendo meu irm�o Ademir, dez anos mais jovem que eu, mais bonito, mais vistoso, enfim, infinitamente mais sedutor para as mulheres do que eu. E o que eu mais temia aconteceu. Tua m�e acabou envolvida com ele. Eu fiquei desesperado, mas n�o adiantou. Ademir sempre foi persistente nos seus objetivos, muito diferente de mim. Eu, covardemente, desisti de lutar por tua m�e e me conformei em perd�-la. Ademir tratou de deixar nossa casa levando tua m�e junto, foram correr o mundo com o dinheiro de papai e mam�e. Depois de um ano eu soube que eles haviam tido uma filha. Eles nunca retornaram para casa. Enquanto havia dinheiro viajavam. Meus pais sempre superprotegeram Ademir e o mimaram por demasia. Isto fez dele um homem egoc�ntrico e irrespons�vel. E assim ele viveu e morreu. Depois de dois meses que eles foram embora recebi a primeira carta de sua m�e. Assim como a recebi a coloquei no fundo de uma gaveta, intocada, sem ter coragem de l�-la e ao mesmo tempo sem coragem suficiente para inciner�-la. Logo em seguida veio a segunda carta, e a terceira e a quarta... E assim, durante longos dois anos vieram cinco cartas. E todas elas permaneceram intocadas durante vinte e nove anos dentro de uma gaveta sombria.
Um belo dia eu soube do acidente que matou Ademir e Juliet. Soube tamb�m que a filha deles estava viva. A princ�pio meus pais pensaram em traz�-la para morar aqui conosco, por�m desconfiavam que poderias n�o ser filha de Ademir, afinal tua m�e havia trocado um filho pelo outro, e quem sabe o que mais poderia ter feito por a�. Cheguei a pensar em argumentar a favor dela, pois eu sabia que havia sido seu primeiro homem, eu tinha certeza disso, mas como estava com meu orgulho ferido achei melhor deixar as coisas como estavam. No entanto passei a custear todas as tuas despesas de moradia, vestu�rio, escola, enfim, tudo que precisavas, por�m sem nunca ter tido a coragem de te procurar. Por tr�s ocasi�es cheguei a te ver na escola de freiras em que viveste, no entanto nem sei se lembras... Na verdade, tu me lembravas tua m�e e eu ainda sentia uma dor muito profunda ao lembrar dela. Assim, na minha ignor�ncia, deixei o tempo passar... E hoje sinto que perdi os melhores anos de minha vida... uma pena, mas n�o se pode voltar no tempo.
Bom, acontece que o destino nos prega in�meras pe�as. As cartas de tua m�e ficaram guardadas, escondidas durante anos, at� que um belo dia... eu as reencontrei casualmente ao procurar um documento importante de um im�vel. E eu nem sei por que tive o �mpeto e a coragem de abri-las. Eu que sempre fui um fraco, um acovardado, um perdedor nato que sempre releguei minha vida pessoal a segundo plano escondendo-me atr�s do trabalho, estava ali, diante de simples cartas que poderiam ter mudado minha vida... Se tivessem sido lidas em tempo h�bil...
Na primeira carta tua m�e me falava nos problemas que vinha tendo com Ademir, com o desencanto que vinha sentindo, desde a primeira bebedeira deste, at� o primeiro tapa que levara. Na segunda carta se dizia arrependida e pedia para voltar para mim, principalmente porque tinha um motivo muito forte para isso: esperava um filho. Na terceira carta reafirmava que me amava e que o filho que carregava n�o era de Ademir, era meu. Na quarta carta contava que havia dado � luz uma menina e colocado o nome de Cristine Am�lie, e que era a crian�a mais linda que j� existira, e que era minha filha, mesmo que eu n�o acreditasse nisso. Implorava para voltar com o beb� e falava sobre a vida doidivanas que levava com Ademir. Questionava o porqu� de eu n�o responder suas cartas. Pedia que ao menos eu lhe dissesse se a perdoava ou n�o. Na quinta carta disse que tu estavas cada dia mais linda, e que n�o escreveria mais. Disse que esperava que um dia a vida me fizesse ver que ela falava a verdade. Pedia novamente que a perdoasse e desejava me ver feliz. E nunca mais escreveu uma �nica linha. Bom, a� eu s� soube not�cias de voc�s depois do acidente.
Ap�s ler as cartas eu tive vontade de morrer. E vi meu mundo desmoronar novamente. E vi que por causa da minha covardia eu condenei � morte a mulher que mais amei na vida. E me dei conta que afastei de mim o meu bem maior, minha pr�pria filha.
E, infelizmente, um covarde � sempre um covarde. Continuei sem coragem de te procurar. N�o imaginava como reagirias � dura e crua realidade. Tive medo que me rejeitasses e me culpasses pela morte de tua m�e, o que n�o deixaria de ser uma verdade... Assim achei mais f�cil contratar um detetive e fazer um exame de DNA sem que soubesses de nada. Hoje em dia � tudo muito f�cil, a ci�ncia � capaz de fazer milagres com um �nico fio de cabelo. E o resultado do teste foi o que eu j� esperava: de fato �s minha filha. Esta certeza me encheu de alegria e de desespero. Quanto tempo perdido... Como tudo poderia ter sido diferente...
N�o tive coragem sequer de tornar p�blico antes esta maravilhosa realidade: ter uma filha... Minha filha. Apenas poucas pessoas sabem disso, somente pessoas especiais que partilham h� muito tempo as esquisitices desse velho amargurado. E somente agora consigo te enviar estes escritos. A �nica coisa que te pe�o � que n�o me queiras mal. N�o pe�o nem teu amor, nem tua compreens�o, afinal n�o se pode dispensar estes sentimentos a um desconhecido. E eu tenho consci�ncia de que � isto que sou para ti. Gostaria que tivesse sido diferente... Mas n�o foi.
Quero te afirmar, no entanto, minha querida filha, que gra�as a ti hoje sou um homem diferente. Sempre fui um descrente. Um descrente das pessoas, um descrente dos sentimentos, um descrente de Deus. E hoje me dou conta de que a vida e as pessoas podem ser maravilhosamente belas, basta que saibamos nos abrir para a vida. E n�o sejamos ostras fechadas sobre n�s mesmos, como eu fui a vida toda. � preciso que tenhamos coragem e �nimo para enfrentar os obst�culos e para lutar pelo que acreditamos. E mais que isso, hoje posso te dizer que acredito na m�gica energia que move o mundo: o amor. E isto somente pelo fato de existires, afinal tu �s o fruto do meu grande amor... e a minha continuidade nesta exist�ncia. Atrav�s de ti, Cristine, percebi que de fato Deus existe.
Rogo sim pelo teu perd�o. Que tenhas a grandeza de esp�rito para entender a burrice e a pobreza da alma deste velho afligido por fantasmas imagin�rios por tantos anos. Desejo que sejas sempre a meiga criatura que �s. E desejo que sejas feliz. E quero que tenhas a plena certeza que te amo, do fundo do meu cora��o, mais que tudo que imaginei nesta vida.
Seja imensamente feliz, minha filha, e lute pelo que amas. Pe�o-te que fa�as isto por tua m�e e por mim. Fica em paz.
Teu pai, Artur Diaz Torres".
 
 
Ao terminar de ler a �ltima frase Cristine desabou num choro compulsivo, abra�ada � carta que acabara de ler. Era como se a torrente de l�grimas que jorravam de seus olhos desse vaz�o � explos�o dos sentimentos que pareciam brotar-lhe das entranhas, como a lava de um vulc�o em erup��o. Por certo se n�o chorasse seu peito arrebentaria. Havia ganhado e perdido um pai em menos de meia hora. Seu sentimento era de luto. Luto pelo sepultamento do que acreditava ser a sua hist�ria de vida. Luto pelo sofrimento de sua m�e e do seu pai. Luto pelo "eu te amo" escrito e que jamais seria pronunciado pela figura paterna.
Cristine p�de, entretanto, entender algumas lembran�as remotas de sua inf�ncia. Lembrava do rosto e do sorriso de sua m�e, mas havia quase que esquecido o semblante de quem achava que era o seu pai. Ademir de fato deveria saber que Cristine n�o era sua filha, afinal jamais a tratara como tal. E agora Cristine entendia o porqu�. Entendia o motivo do suposto pai nunca se aproximar dela e esquivar-se de suas tentativas infantis de aproxima��o. Pelo menos isto a deixava com menos sentimento de culpa, com menos sensa��o de ter feito algo para o pai, fato que j� tratara em terapia sem nunca haver conseguido elaborar. Neste ponto Artur lhe tirara um peso dos ombros.
Agora tinha um outro pai. E uma hist�ria de vida. Triste, mas uma hist�ria. E n�o mais fragmentos de lembran�as de um passado remoto e de um acidente que rompera todo seu contato com o que se podia chamar de fam�lia.
 
 
Passou-se mais de hora at� que Cristine conseguiu acalmar-se e decidiu descer para conversar com Dr. Mendes. Queria saber a verdade. Toda a verdade. E aquele era o momento.
Tratou de lavar o rosto e desceu a escadaria de pedra com passos decididos. Encontrou o advogado instalado no escrit�rio de Artur, tomando um ch� de hortel�. Ao v�-la o homem mais velho foi at� ela e a abra�ou com candura. Sentindo-se acolhida novamente Cristine chorou, copiosa e silenciosamente. Quando novamente recobrou a calma o advogado serviu-lhe uma x�cara de ch�. Enquanto sorvia o l�quido quente e adocicado Cristine come�ou seu interrogat�rio:
- O senhor por certo conhece o teor da carta que recebi.
- Acredito que sim. Embora n�o a tenha lido, creio que sei sobre o que se trata.
- E por que o senhor n�o me falou antes???
- Eu n�o tinha esse direito.
- Eu acho que tinha... Ali�s, tinha o dever de me falar sobre meu pai.
- N�o tinha n�o, Cristine. E tu sabes que tenho raz�o. Tu soubeste do modo como deveria ser, atrav�s do teu pr�prio pai, e n�o de terceiros.
Cristine baixou os olhos. Dr. Mendes continuou:
- Cristine, as coisas acontecem quando tem que acontecer. Isso � fato.
- Mas tudo poderia ter sido t�o diferente...
- Mas n�o foi. E n�o adianta lamentar por fatos do passado. � preciso viver o presente.
- Eu sei, Dr. Mendes. Mas tem sido t�o dif�cil... Eu ganhei e perdi um pai em muito pouco tempo...
O advogado assentiu com um gesto de cabe�a. Cristine continuou:
- E al�m do mais eu percebo que est�o acontecendo coisas estranhas aqui. E eu preciso saber o que �. O senhor precisa me contar. Agora.
Dr. Mendes respirou fundo. Sabia que cedo ou tarde precisaria conversar com Cristine sobre as circunst�ncias da morte do pai.
- Bom, minha filha, realmente n�s precisamos conversar. E acredito que o momento seja agora.
- Pois bem. Sou toda ouvidos. � disse Cristine enquanto cruzava as pernas e olhava atentamente para o homem grisalho � sua frente.
- J� faz algum tempo que Artur descobriu ser seu pai. Cerca de seis meses. Bom, depois desta descoberta ele retificou imediatamente seu testamento, designando-a como sua herdeira principal. Acontece que depois disso percebeu haverem mexido em sua gaveta e desconfiou que algu�m pudesse ter lido a c�pia do testamento, que ficava guardada em sua escrivaninha pessoal. Bom, at� a� tudo bem. S� que depois disso Artur deu por falta de duas armas de sua cole��o, uma pistola e um rifle de ca�a.
Cristine empalideceu:
- A arma que matou Adelaide... � disse a loirinha a meia voz.
- N�o sabemos ainda, afinal a arma n�o foi localizada. Tamb�m houve um epis�dio em maio, quando Artur perdeu os freios da caminhonete que dirigia. Ele acreditou ser uma simples falha mec�nica, eu tenho l� minhas d�vidas.
- Mas ent�o... Tio Ar... Meu pai pode ter sido... assassinado?
- N�o sabemos. Cristine, Artur tinha problemas card�acos e vinha sendo acompanhado pelo m�dico da fam�lia h� bastante tempo. Parece que sofreu um infarto.
- Parece??? Como parece??? � preciso ter certeza!
- Bom, depois houve a morte de Adelaide.
- E pode ter havido alguma rela��o com a do meu pai?
- Tamb�m n�o sabemos...
- Como n�o, Dr. Mendes??? E o delegado faz o qu� neste raio de cidade???
- Cristine, n�o temos evid�ncias, s� suspeitas... Talvez infundadas.
Cristine fitou o advogado pensativamente:
- Pois bem, realmente pode ser s� coincid�ncia. A morte do meu pai pode ter sido natural e a morte de Adelaide um acidente...
- Pode. Por�m... � emendou o advogado parando a frase no meio, pensando nas palavras que pronunciaria, afinal o que menos desejava era assustar Cristine e instaurar o p�nico naquele lugar.
- Por�m?... � perscrutou Cristine.
- Conv�m tomarmos certas precau��es.
- Como por exemplo? � quis saber Cristine.
- Prestarmos aten��o no que nos cerca.
- Dr. Mendes... � continuou Cristine � Se porventura essas suspeitas forem reais, ent�o... o respons�vel est� aqui ao nosso lado, dentro dos muros deste castelo?...
- Provavelmente.
- Meu Deus... � exclamou Cristine.
- Calma, minha filha, n�o vamos entrar em p�nico ou paran�ias. Vamos somente agir com cautela, certo?
- Tudo bem. Mas eu preciso que o senhor me mantenha informada de qualquer novidade.
- Pode deixar. E, Cristine... tome cuidado.
A loirinha suspirou e uma ruga de preocupa��o se fez em sua testa. Era inteligente o bastante para entender a dimens�o do que se passava. Instantaneamente come�ou a recapitular seus passos desde que chegara ao castelo e a rela��o que vinha mantendo com as pessoas naquele lugar. Muitas d�vidas come�aram a assolar sua mente. Em quem poderia de fato confiar? No Dr. Mendes? Em Ang�lica? Em Morris? Em Anemary? Em James? Em Valesca? De fato todos poderiam ter algum interesse por tr�s do que aparentavam. O pr�prio Dr. Mendes tinha acesso a toda a documenta��o de Artur. E at� mesmo Ang�lica... Ang�lica herdaria a fortuna do padrinho se ela n�o tivesse aparecido. E James? James n�o era um parente direto, mas nutria uma rela��o doentia e simbi�tica com o tio. E Morris? Sempre t�o infiltrado em todos os lugares... sempre t�o invis�vel. E Valesca? Valesca desejava herdar a fortuna de Artur e n�o fazia rodeios acerca disso. E Jo�o V�tor? Seria capaz de matar na tentativa de enriquecer a amante? E se seu pai houvesse sido morto? Como saber? D�vidas... Cristine estava mergulhada em d�vidas... E receios.
Resolveu subir para seu quarto. Queria descansar. Pediu licen�a para Dr. Mendes e se retirou do escrit�rio. No corredor cruzou com Ang�lica que se dirigiu a ela com o olhar brando e amoroso.
- Eu j� estava preocupada. Tu est�s bem?
- Voc� sabia sobre meu pai?
- Sabia.
- E porque n�o me disse nada?
- Achei que n�o devia. � respondeu Ang�lica com tranq�ilidade.
- Engra�ado... Todos se acham no direito de "achar alguma coisa", mesmo que diga respeito � minha vida!
- Tine... tu est�s abalada, e com raz�o. Mas por favor, n�o tente achar respons�veis por fatos que n�o podem ser mudados, e nos quais n�o t�nhamos como intervir...
Cristine baixou os olhos e suspirou.
- Desculpe. Voc� tem raz�o. Eu realmente preciso organizar as minhas id�ias.
- Vamos l� pra casa?...
- Eu preciso ficar sozinha... N�o � nada pessoal...
- Tudo bem, eu entendo.
- Eu vou ficar aqui. Vou para o meu quarto. Preciso descansar. E pensar.
- Certo... Olha, eu vou pra minha casa, mas qualquer coisa que precises, por favor, me chama, ok?
- Ok. � assentiu Cristine.
- Promete?
- Prometo.
- Ent�o at�...
- At�...
Ang�lica se virou e deixou Cristine sozinha, perdida em seus pensamentos. A loirinha entrou em seu quarto e novamente trancou a porta por dentro. Seus movimentos foram acompanhados discretamente por uma figura masculina que ajeitou sua arma de encontro ao corpo e posicionou-se estrategicamente num v�o no corredor de acesso ao quarto de Cristine. O final de tarde e a noite prometiam ser longos e sua vig�lia desta vez seria ininterrupta, a menos que recebesse alguma nova ordem do delegado.
 
 
Cristine tomou um banho e deitou-se sob as cobertas macias e quentes. N�o desceria para jantar. Estava sem fome. Talvez mais tarde pedisse alguma coisa para Anemary. Releu sua carta in�meras vezes e chorou outras tantas. Pensava no que estava vivendo, principalmente em sua rela��o com o pai morto e seu envolvimento com Ang�lica. Estava confusa. Apaixonada e confusa. De fato se apaixonara pela morena de atitudes arrebatadoras e olhar maroto, por�m no momento n�o sabia se poderia confiar plenamente nela. Lembrando da transpar�ncia de seu olhar suas d�vidas se dissipavam, no entanto analisando friamente a quest�o parecia-lhe que o mais prudente seria tomar cuidado. Acabou adormecendo, tendo um sono agitado e confuso.
 
 
Em sua cabana Ang�lica estava com o cora��o apertado. Desejava estar ao lado de Cristine e tinha consci�ncia do quanto os fatos estavam se avolumando e do risco que todos estavam correndo. Era preciso fazer algum movimento nas pe�as daquele jogo, mas qualquer atitude impensada ou de imper�cia podia por tudo a perder, inclusive vidas...
 
 
De seu quarto no castelo Dr. Mendes conversava pelo celular com um velho conhecido:
- Conversei com ela sobre Artur...
- E?...
- E o qu�?
- E ela?
- Reagiu conforme prev�amos. Na verdade � uma mo�a muito perspicaz e ficou desconfiada... Desconfiada de tudo e todos. � disse o advogado.
- Isso n�o deixa de ser bom. Assim ela fica atenta e pode facilitar a nossa miss�o.
- Tu tens certeza que ela est� segura?
- Absoluta. Tu sabes que eu confio no meu pessoal. E detetive Dacosta � especial. E est� de olho nela.
- Pelo menos isso me tranq�iliza.
- Eu sei.
- E o nosso "peixe"? � questionou o advogado.
- Espero que, como todo peixe, morra pela boca. Vamos ter que esperar, pois infelizmente o pr�ximo passo deve ser dele. Precisamos somente vigiar e triplicar nossa aten��o.
- Tu tens raz�o... Bom, eu vou tentar dormir.
- Adroaldo... Cuide-se.
- Pode deixar.
 
Parte 4
 
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