- No interior seguro da casa de Ang�lica
elas se jogaram cada qual em uma das extremidades do sof�. Cristine
estirou-se fitando as t�buas do forro. Ang�lica sentou-se
com as pernas entreabertas, os cotovelos apoiados nos joelhos e as m�os
enterradas nos cabelos e sustentando a cabe�a cujos olhos estavam
voltados para o ch�o. Ap�s alguns minutos do mais absoluto
sil�ncio, onde cada qual estava mais perdida que a outra nos pr�prios
devaneios, a loirinha pegou o celular e disse:
- - E a�? Vamos organizar a ida do Ariel pro
Rio?
- - Vamos. � respondeu Ang�lica demonstrando
cansa�o na voz.
- Cristine discou um n�mero e uma voz conhecida
a atendeu no outro lado da linha. N�o precisou muitas explica��es
para que a pessoa se colocasse � inteira disposi��o
para auxiliar no que fosse preciso. Combinaram que t�o logo tivessem
o hor�rio e o n�mero do v�o entrariam em contato novamente.
Assim que Cristine desligou Ang�lica disse:
- - Muito obrigada.
- - De nada. Mas voc� n�o tem porque
que me agradecer.
- - Tenho sim. Tu est�s me ajudando a proteger
o meu irm�o. O meu �nico irm�o.
- - E o meu aluno preferido.
- Ang�lica riu amorosamente enquanto se aproximava
de Cristine envolvendo-a num abra�o e lhe beijando os l�bios.
- Quando se desvencilharam, novamente Cristine foi
racional:
- - Segunda parte de nossa tarefa: fazer as reservas
no v�o para o Rio. Acho melhor tentarmos o de amanh�, afinal
hoje o delegado nos quer aqui.
- Ang�lica concordou:
- - Pode ser. De hoje para amanh� eu n�o
desgrudo o olho do cabe�udo.
- Cristine sorriu e estendeu o telefone �
Ang�lica para que fizesse a liga��o para a companhia
a�rea. Marcaram passagem para o v�o das oito horas da manh�
do dia seguinte. Cristine fez novo contato com sua amiga e s�cia,
Cynthia, e passou os detalhes da chegada de Ariel. Estava tudo acertado.
-
-
-
-
- �s treze horas em ponto o delegado Munhoz
adentrou na biblioteca seguido do Dr. Mendes. Instalou-se na grande escrivaninha
alinhando um bloco de papel cujas p�ginas estavam em branco, um l�pis
com a ponta muito fina e uma caneta dourada, a qual usaria para proceder
as anota��es que se fizessem necess�rias. O delegado
era um homem met�dico.
- Dr. Mendes sentou-se � sua frente e lhe
disse com voz abatida:
- - Que tarefa ingrata, Munhoz... Avisar a fam�lia
da mo�a foi muito desgastante.
- - Eu imagino, Adroaldo. Mas me ofereci para mandar
um dos meus homens.
- - Mas n�o seria de bom tom. � referiu o
advogado.
- - Realmente...
- - Munhoz, eu estou muito preocupado. As coisas
est�o ficando fora de controle. E n�s dois bem sabemos o que
est� havendo, ou pelo menos suspeitamos.
- O delegado co�ou a careca e respondeu:
- - Mas precisamos ter certeza.
- - Eu temo pela vida dela, Munhoz.
- - Mas Detetive Dacosta est� de olho nela.
� disse o delegado.
- - Sim, eu sei, mas mesmo assim tenho meus temores.
� continuou o advogado � E ela j� est� suspeitando de alguma
coisa, acredito que at� mesmo de Dacosta.
- - Ser�?...
- - Obviamente. Ela � uma mo�a esperta.
E isso sem falar no epis�dio da cobra.
- - Realmente Adroaldo, precisamos chegar a conclus�es.
E agora mais essa morte! De fato estamos correndo contra o tempo.
- O advogado assentiu denotando des�nimo.
- - Tu achas que o corpo de Adelaide ser�
liberado ainda hoje? � perguntou Dr. Mendes.
- - Acredito que sim. Provavelmente por volta das
dez horas da noite j� estar� liberado.
- - Ent�o podemos providenciar o enterro para
amanh�. A fam�lia quer velar o corpo.
- - Mas o caix�o ser� lacrado. At�
porque tu viste o estado que a mo�a ficou.
- - Eu sei.
- - Bom... Vou come�ar a ouvir essa gente.
� disse o delegado.
- Dr. Mendes se levantou e disse:
- - Quem tu queres que eu chame?
- - O Ariel.
- - Tudo bem. � respondeu o advogado. Antes de sair
virou-se e complementou � Munhoz, boa sorte.
- - Vamos precisar...
-
-
-
- Ariel entrou na biblioteca aparentando nervosismo.
O delegado tentou acalma-lo:
- - Ariel, eu sei que a situa��o ocorrida
hoje � bastante traum�tica, mas eu preciso conversar sobre
ela... Para que possamos pegar quem fez isso com a Adelaide.
- - Eu sei... � respondeu o adolescente � E como
� que eu posso ajudar?
- - Bom, eu gostaria que me contasses o que aconteceu
hoje pela manh�, tudo o que conseguires lembrar, cada detalhe, pode
ser?
- - Pode. � disse Ariel, iniciando um relato minucioso
do que j� contara anteriormente.
- O delegado ouvia e fazia alguns apontamentos em
suas folhas dispostas simetricamente sobre a escrivaninha. Por vezes secava
o suor da testa com um len�o de seda azulado. Apesar do frio o delegado
transpirava bastante.
- Ao final do relato de Ariel o delegado ainda perguntou:
- - E, Ariel, tu conseguiste ver algu�m, al�m
de Adelaide?
- - N�o.
- - Nem algum movimento, um vulto, uma pe�a
de roupa?
- - N�o. Depois que eu ouvi o tiro e vi a
Adelaide caindo eu fiquei apavorado e disparei pra casa. Eu fiquei com medo
de morrer.
- - Eu entendo. � assentiu o delegado � Ent�o
� s� isso, Ariel. Obrigado pela colabora��o.
- - De nada. O que eu puder fazer para pegar o desgra�ado
que fez aquilo, pode contar comigo.
- - Eu sei... � respondeu o delegado � Poderias chamar
a tua m�e?
- - Tudo bem.
-
-
- Regina sentou defronte ao delegado e cruzou as
m�os sobre o avental xadrez. Estava visivelmente abatida. Seu depoimento
n�o durou mais do que quinze minutos, visto que referia ter permanecido
na cozinha do castelo desde as sete horas da manh�, tomando conhecimento
de toda a situa��o pelo filho, no momento que o mesmo irrompera
correndo na cozinha. Sua vers�o foi confirmada mais tarde por Ang�lica
e Cristine, que estavam com ela quando Ariel chegara apavorado.
- - Regina, quem esteve na cozinha contigo?
- - Todos os que costumam estar de manh�:
o Morris, a Anemary, o Thom�z, o Henrique, a Adelaide... Depois o
James desceu pra tomar caf� e subiu de novo logo em seguida. E s�.
- - Algum deles conversou com Adelaide?
- - Todos. Comigo tamb�m. � respondeu Regina
� S� que... � e calou-se.
- - S� que???... � quis saber o delegado.
- - Nada. Bobagem.
- - O que foi Regina? O que te chamou a aten��o?
- - Henrique. Ele conversou de canto com a Adelaide.
Mas eles pareciam tranq�ilos. Conversaram amigavelmente, baixinho,
mas de uma forma aparentemente... branda. Mas eu n�o ouvi o que disseram,
e logo em seguida ele saiu.
- - E depois?
- - Bom, depois continuamos com nossos afazeres.
At� que eu disse que era preciso pegar alguns temperos na horta...
� disse Regina com voz entristecida. � Se eu n�o tivesse dito aquilo
a menina ainda estaria viva...
- - N�o se culpe Regina. Ningu�m tem
bola de cristal para adivinhar o futuro.
- - Ela logo se prontificou a ir... At� me
pareceu que ficou feliz. � disse a cozinheira.
- - Pois ent�o... � assentiu o delegado. �
Vai saber...
-
-
- O seguinte a ser ouvido foi Israel. O jardineiro
sentou-se cabisbaixo e suspirou profundamente. O delegado o encarou com
seriedade e disse:
- - Um doce pelo teu pensamento, meu amigo.
- - A vida �s vezes � injusta...
- - Ser�? � questionou o delegado.
- - Com certeza. Artur est� morto, agora a
Adelaide tamb�m. E depois? E o meu filho que presenciou parte do
incidente? E seja l� quem fez isso ir� ter a certeza que o
menino n�o o viu? Ou pensa que Ariel � um risco para sua identidade?
O que � que vamos fazer, delegado???
- - Eu ainda n�o sei, mas te garanto que vamos
saber. E o mais breve poss�vel.
- - Eu espero. Pelo bem de todos, eu espero.
- - Israel, tu viste alguma coisa que possa nos ajudar?
Aonde tu estavas hoje pela manh�?
- - Como fa�o todos os dias, eu fui para a
estufa logo depois do caf�. Sa� de l� quando a Ang�lica
e o Thom�z foram me buscar contando... aquilo tudo.
- - E algu�m esteve l� contigo?
- - N�o. Ningu�m.
- - E tu imaginas quem possa ter feito isso? � continuou
o delegado.
- - N�o fa�o id�ia. As pessoas
que vivem aqui s�o de confian�a.
- - Tem certeza?
- - Acho que sim...
- - Pois eu tenho as minhas d�vidas...
- Israel suspirou novamente.
- - Se lembrares de qualquer coisa, qualquer coisa
mesmo, me fale, por favor. � disse o delegado � �s vezes um mero
detalhe pode ser de muita utilidade.
- - Pode deixar � respondeu Israel.
- - Me mande o Thom�z aqui, por favor.
- O jardineiro levantou-se e dirigiu-se para a porta,
curvado pelo peso da ang�stia. Lamentava a morte de seu amigo, e
de Adelaide, por�m naquele momento temia pela seguran�a do
pr�prio filho.
-
-
- Na ampla sala do castelo os presentes encaravam-se
a cada vez que algu�m sa�a de dentro da biblioteca. O nome
do seguinte a ser ouvido era aguardado com ansiedade pelos demais. Thom�z
levantou-se e entrou na biblioteca, fechando a porta atr�s de si.
- O delegado o fitou amistosamente e apontou a cadeira
� sua frente.
- - E ent�o? � perguntou o delegado.
- - Por esta n�o esper�vamos � disse
o rapaz enquanto pegava um cigarro e o colocava na boca � Importa-se que
eu fume?
- - N�o.
- - Eu realmente estou espantado com o que houve.
- - Nem me fale � respondeu o delegado tamb�m
acendendo um cigarro. � E a�? Tu viste alguma coisa?
- - Nada. Absolutamente nada.
- - Aonde estavas pela manh�?
- - Fazendo o que me pediste. Mas acho que ela est�
desconfiada de que algo n�o est� nos conformes... � disse
o rapaz.
- - E por que tu achas isto?
- - Ela me questionou se eu a estava seguindo ontem...
- - Puta que pariu, Thom�z! � bradou o delegado
batendo na mesa � Tu est�s perdendo o jeito da coisa?
- - Claro que n�o Munhoz, mas a garota �
esperta. � retrucou o mo�o � E vamos combinar que basta ter somente
dois neur�nios para ver que algo n�o vai bem... � imposs�vel
n�o ver o que est� diante dos olhos...
- - Ent�o por que ser� que N�S
n�o conseguimos ver um pouco al�m do que est� diante
dos olhos???...
- Thomaz soltou uma baforada de fuma�a observando
o bailado da n�voa que se dissipava no ambiente e disse pensativo:
- - N�o sei... realmente n�o sei...
- - E � isso que temos o dever de descobrir,
guri. � emendou o delegado.
- Fez-se um sil�ncio na sala. O delegado continuou:
- - Onde Cristine ficou desde ontem?
- - Na casa da Ang�lica. Vieram direto pra
c� hoje de manh�.
- - Isso � bom. � disse o delegado. � Quero
essa menina o mais longe poss�vel do castelo. Esse lugar tem muitos
segredos...
- Thom�z assentiu com a cabe�a:
- - Mas enquanto ela estiver por aqui, pode ficar
tranq�ilo, eu estou atento.
- - Assim espero. � disse o delegado. � Me chama
a Valesca.
- O rapaz levantou-se apagando o toco de cigarro
no cinzeiro.
-
-
- Quando Valesca ouviu seu nome sendo pronunciado
chegou a prender a respira��o. Jo�o V�tor lhe
deu um aperto suave nas m�os, como que a encorajando a levantar.
Com gestos que beiravam a teatralidade a loira se p�s em p�,
ajeitou os cabelos por sob o chap�u de veludo verde-musgo e dirigiu-se
� biblioteca, como se estivesse desfilando numa passarela, passos
cadenciados e lentos. Adentrou e sentou-se na cadeira de espaldar alto,
na frente do delegado, sem que este houvesse lhe indicado o lugar. Cruzou
as pernas. Fitaram-se em sil�ncio, um sil�ncio quase perturbador.
O delegado a perscrutava de cima a baixo. Valesca se mexeu na cadeira, inquieta,
e disparou:
- - E ent�o, delegado? O que quer saber?
- - Algumas coisas... � respondeu o homem mais velho
pacientemente, co�ando o queixo, incitando a inquieta��o
desta.
- - O qu�, mais precisamente? � perguntou Valesca.
- - Bom... come�ando por algumas d�vidas
como... vejamos... � disse o delegado remexendo numa pasta de papel�o
que estava num canto da escrivaninha � Valesca... Valesca... da Silva dos
Santos. Esse nome lhe diz algo?
- A mulher loira empertigou-se:
- - Sim. � o meu nome de batismo. Scolari
� um nome... art�stico.
- - De guerra... � o que quer dizer?
- - Que seja, Munhoz! Mas o que isso tem a ver com
o assassinato dessa mo�a?
- - E quem disse que foi assassinato? � perguntou
o delegado.
- - Francamente, Munhoz, ningu�m se suicida
fazendo um rombo na cara! E a pobre teria enfiado a arma aonde?!
- - Pode ter sido um acidente.
- - Que seja! Mas o que � que EU tenho h�
ver com isso?
- - Pois � isso que EU quero saber. SE tu
tens algo a ver com isso.
- - Claro que n�o! Eu mal conhecia a mo�a.
- - Bom... mas voltando �s minhas pequenas...
d�vidas. Vejamos... Jo�o V�tor... Mascarenhas. Ele
� teu irm�o, n�o � mesmo? � instigou o delegado.
- Valesca ficou em sil�ncio.
- - N�o deveria ter o mesmo sobrenome? Ou
um deles?
- Novo sil�ncio de Valesca.
- - Isso me leva a crer que este rapaz � qualquer
coisa, menos teu irm�o.
- - �. � concordou Valesca baixando os olhos.
� Quer dizer, n�o �. N�o � meu irm�o.
- - E ele � o qu�?
- - Um amigo.
- - Que divide o quarto contigo?
- Valesca riu e respondeu ironicamente:
- - Se imaginasses quantos j� "dividiram"
o quarto comigo, meu querido...
- - Eu imagino. � respondeu o delegado. � Eu imagino...
Eu s� n�o consigo entender o que o Artur via em ti...
- - Bom... a� n�s j� vamos partir
para um assunto particular, que n�o te diz respeito.
- - Pode ser que te enganes. Os �ltimos dias
de Artur podem me dizer respeito sim!
- Valesca assumiu um semblante s�rio instantaneamente.
- - O que � que est�s querendo dizer
com isso?
- - Nada. Ou tudo. Depende. � disse o delegado.
- - Munhoz... A morte dessa mo�a tem algo
a ver com a morte de Artur?
- - Aqui sou eu quem faz as perguntas. � respondeu
o delegado secamente.
- - Mas pelas tuas coloca��es...
- - N�o tire conclus�es Valesca. Deixe
isso pra mim. Limite-se a responder o que te pergunto.
- - Tudo bem. � assentiu a loira.
- - Onde estavas hoje pela manh�?
- - No quarto. Acordamos tarde.
- - E estavas sozinha? � perguntou o delegado.
- Valesca o fitou com um ar de deboche:
- - O que � que tu achas???
- - Eu n�o acho nada. Quero que respondas.
- - Com o Jo�o V�tor. E antes que perguntes:
est�vamos trepando. Ali�s, uma trepada maravilhosa... As de
ontem � noite tamb�m. Pode ser at� que algu�m
tenha escutado alguma coisa... � respondeu Valesca ironizando.
- - E as vezes que "trepaste" com esse
sujeito nas barbas do Artur, tamb�m foram "trepadas maravilhosas"?
Ou tiveste a dec�ncia de n�o gemer alto o suficiente para que
ele percebesse??? � disparou o delegado alterando seu tom de voz, deixando
transparecer indigna��o.
- Novamente a loira empertigou-se tomando ci�ncia
da inadequa��o de sua coloca��o.
- - Eu nunca desrespeitei o Artur. � disse Valesca
em tom baixo � Nunca. Quer acredites nisso ou n�o. Aqui neste lugar,
enquanto ele era vivo, eu s� trepei com ele. Mesmo quando Jo�o
V�tor vinha junto. Nunca tive coragem de transar com ele sabendo
que Artur estava no quarto ao lado. Pode n�o parecer, mas eu tenho
a minha �tica. E embora n�o devas acreditar nisso, �
a verdade.
- O delegado permaneceu calado, olhando aquela figura
quase carnavalesca � sua frente. De fato era dif�cil acreditar
nela. Respirou fundo e continuou com suas perguntas:
- - Tu viste alguma coisa hoje pela manh�?
Mesmo que da janela do quarto?
- - N�o... Nada.
- - Valesca... � disparou o delegado � Tu achas que
Artur deixou alguma coisa pra ti em testamento?
- - N�o sei...
- - E o que fazes aqui ent�o?
- - Vim tirar a prova dos nove! Vamos ver o quanto
fui importante na vida de Artur.
- - Vamos ver... � respondeu o delegado pensativo.
- - Seria s� isso? � perguntou a loira.
- - S�. Por favor, pe�a para aquele
mo�o entrar.
- - Ele tem nome.
- - V�. � disse o delegado.
-
- Valesca levantou-se e alcan�ou a ma�aneta
da porta com a m�o, por�m antes de sair virou-se para o delegado
e disse num tom de voz denotando emo��o:
- - Munhoz, eu sempre respeitei o Artur... E sabe
por qu�?
- - N�o.
- - Porque a rec�proca sempre foi a mesma.
Nunca homem nenhum me tratou como ele, com respeito, mesmo sabendo quem
de fato eu fui... E o que eu j� fiz na vida. E isso ningu�m
al�m dele seria capaz de entender. Nem tu.
- E saiu fechando a porta atr�s de si. Munhoz
ficou meditabundo e fez algumas anota��es.
-
-
-
- Jo�o V�tor respondeu �s perguntas
do delegado com desenvoltura. Em nenhum momento negou o envolvimento amoroso
com Valesca, nem t�o pouco ocultou o fato de ter um caso com Valesca
h� bastante tempo, mesmo quando ela ainda estava com Artur. Referiu
a admira��o que a amante sentia pelo falecido, mesmo alegando
nunca haver entendido direito a rela��o que mantinham. Parecia
mais um pacto do que um romance, para ele. N�o saberia definir ao
certo. O delegado deteve-se mais em questionamentos acerca do passado do
que propriamente do presente, at� que o jovem questionou:
- - Dr. Munhoz, por que tantas perguntas sobre o
falecido?
- - Para entender a hist�ria como um todo.
- - Como assim? O falecido tinha algo a ver com a
copeira? Vai me dizer que a garota tamb�m tinha um caso com ele?!!
- - Mantenha-se, meu jovem! � vociferou o delegado.
- - Mas pelo que o senhor coloca...
- - Limite-se a responder �s perguntas, e
n�o tente tirar conclus�es sobre o que nem imagina!
- - Desculpe.
- - E hoje pela manh�? Tu viste algo que pudesse
estar associado � morte de Adelaide?
- - Nada. Acordamos tarde.
- - Isso eu j� sei. � disse o delegado secamente.
- - Bom, ent�o porque perguntou?
- - Para evitar detalhes s�rdidos... � respondeu
o delegado com uma cara enfezada.
- - Bem, o senhor quer saber se vi algo diferente?
- - Isso.
- - N�o.
- O delegado olhou para o teto e respirou fundo.
- - Ali�s...
- - O qu�? � empertigou-se o delegado.
- - Nada. Nada n�o...
- - Nada o qu�??? Fale. Qualquer detalhe pode
ajudar.
- - Bom. Eu tenho um sono muito leve. E uma coisa
que eu ouvi foi um baque seco, no andar de cima, como se fosse em cima do
nosso quarto. Mas n�o deve ter sido nada.
- O delegado franziu uma sobrancelha e pediu:
- - Por favor, tente descrever o barulho.
- - Uma porta. Isso. Tipo uma porta batendo. Uma
batida seca. Abafada. Como se fosse madeira.
- - Entendo... Mais alguma coisa?
- - N�o. Mais nada. Depois eu continuei...
- - Obrigado. Eu imagino o que deva ter continuado.
- - Eu voltei a dormir, delegado... � disse o jovem
com seriedade.
- - Muito bem. � s� isto. Me chame
o Dr. Mendes, por gentileza.
- - Pois n�o.
-
-
- O advogado sentou-se e ouviu atento o relato do
amigo.
- - Qual o quarto que eles est�o ocupando,
Adroaldo?
- - O da ala leste, no t�rreo... O pen�ltimo
� esquerda...
- - N�o me diga que �... � gaguejou
o delegado.
- - Exatamente. � disse o advogado categoricamente.
- - Isso limita um pouco as coisas.
- - Talvez. Mas chega a ser assustador. � disse Dr.
Mendes pensativo.
- - Mais tarde, sem maiores alardes, eu gostaria
de subir at� o quarto de Artur. � disse o delegado.
- O advogado assentiu com a cabe�a.
- - Agora quero falar com o Morris. � disse Munhoz.
-
-
- O mordomo permanecia em p� diante do delegado,
como se estivesse preste a servi-lo. O olhar treinado para fixar-se num
ponto qualquer e permanecer impass�vel at� que recebesse alguma
ordem.
- - Por favor, sente-se Morris.
- O mordomo pareceu ficar desconfort�vel com
o pedido, por�m mesmo a contra gosto instalou-se ereto na cadeira,
com as m�os postas lado a lado sobre a cal�a de uniforme cuidadosamente
frisada.
- - Morris... H� quanto tempo trabalhas aqui
mesmo?
- - H� muitos anos, senhor, mais de dez.
- - �s natural da Fran�a mesmo?
- - Sim senhor.
- - E como aprendeu o idioma t�o facilmente?
- - Eu j� falava portugu�s. Trabalhei
durante anos na casa de um amigo do Sr. Artur, brasileiro, que vivia em
Paris com a fam�lia. Depois fomos para os Estados Unidos por um ano.
E de l� eu vim para o Brasil.