A Herdeira

Parte 4

Uma história de Rose Angel

[email protected]

Agosto de 2006

 Na manhã seguinte Cristine despertou quando o relógio marcava mais de dez horas. Havia pegado no sono por volta das dezenove horas do dia anterior e acordado antes da meia noite. Nesta ocasião perdera o sono e revirara-se na cama até a madrugada, adormecendo quando já eram quase cinco horas. Chegou a pensar em descer para comer alguma coisa durante a noite, porém sentiu medo, preferindo ficar na aparente segurança de seu quarto. Também não quis perturbar o descanso da criadagem.

Espreguiçou-se na cama e foi até a janela, descerrando a cortina pesada. Mais uma vez avistou um dia nublado e sombrio. Pensou consigo mesma que naquela parte do mundo nunca deveria haver sol. De fato chegara há mais de semana e não houvera um único dia sem chuva e nebulosidade. Tinha a impressão de que havia esquecido como era a luminosidade solar. Desejou estar em seu apartamento no Rio, desejou passear no sol e na praia, desejou estar longe...

 

Angélica olhou-se no espelho antes de tomar seu café da manhã. Achou-se horrível, com olheiras e um aspecto que deixava transparecer a noite quase toda em claro. Tomou um banho demorado e fez seu desjejum com calma. Sentou-se na sala, com os pés estirados displicentemente por sobre o sofá. Leu o jornal e telefonou novamente para Ariel. Ficou feliz ao perceber a animação do irmão. Ele estava adorando as férias forçadas. Pelo menos alguém estava tranqüilo naquele momento.

O banho quente a fez relaxar e Angélica acabou pegando no sono, deixando cair o jornal das mãos. Dormiu por quase duas horas e ao despertar sentiu-se bem melhor.

Perto do meio dia foi para o castelo, encontrando Cristine instalada ao lado do fogão à lenha na cozinha, conversando com Regina.

- Bom dia. – disse Angélica para as duas.

- Bom dia. – responderam ambas.

- Como se sente? – perguntou a morena para Cristine.

Esta suspirou e baixou os olhos antes de responder:

- Nem sei... Bem. Mais ou menos.

- Isso era esperado. Tivestes muitas emoções de ontem para cá.

- Tive muitas emoções desde que desembarquei nesta cidade... – emendou Cristine encarando Angélica nos olhos – e descobertas.

A morena sorriu-lhe amorosamente.

- Gurias, vocês podem ir indo para a mesa, o almoço já vai ser servido – disse Regina.

As duas mulheres obedeceram prontamente e quando se instalaram à mesa já estavam presentes o Dr. Mendes, James, Valesca e João Vítor. Foi Valesca quem puxou conversa.

- Nós vamos embora depois do final de semana... Nada mais me prende a esse lugar.

- Eu já imaginava. – disse Dr. Mendes – E considero adequado.

- Pois então... Vamos viajar na segunda-feira, à tarde.

- Henrique pode levar vocês ao aeroporto. – disse o advogado.

- Que bom. – respondeu Valesca.

Fez-se um silêncio na mesa. Angélica observava James que evitava encará-la. Ouvia-se somente o tilintar dos talheres e dos copos. Logo depois do almoço Cristine foi para a biblioteca sendo acompanhada por Angélica. Dr. Mendes foi para a cidade e James retirou-se sem dar satisfações sobre o que faria naquela tarde.

Angélica serviu-se de um licor de Amarula e ofereceu uma dose à Cristine, que aceitou para acompanhá-la.

- E então? Um pouco mais tranqüila agora? – quis saber Angélica.

- Um pouco... De fato não tenho como mudar o que passou. Só posso lamentar.

Ficaram um pouco em silêncio saboreando a bebida forte e adocicada, até que Cristine disparou:

- Desde quando você sabia sobre mim?

- Fazem mais ou menos quatro meses.

- E o que foi que ele te disse?

- Que tinha recebido uma confirmação que o transformara num novo homem. Que se sentia imensamente feliz e ao mesmo tempo infinitamente revoltado consigo mesmo, por não ter tido uma atitude diferente há anos atrás.

- Foi exatamente isso que ele deixou por escrito. Angélica... Quem era de fato o meu pai?

- Eu já te disse. Um homem amargurado, esquisito, mas um bom homem. Uma pessoa honesta e correta. Uma pessoa com a qual eu gostava de partilhar vivências. Um ser humano consciente de suas próprias falhas e um conhecedor da natureza humana.

- Conhecedor tardio... – emendou Cristine.

- Pois é... Mas, Tine, vamos aprofundar esse assunto outra hora. Quem sabe a gente vai lá pra casa? Vamos conversar fora daqui?

- Por quê?

- Por que eu prefiro. Além do quê lá em casa a gente tem mais... privacidade – e sorriu provocativa.

Encarando aqueles olhos de um azul intenso Cristine não poderia dizer não. Sorriu e assentiu em acompanhá-la.

 

Percorreram o trajeto que separava a cabana de Angélica do castelo praticamente em silêncio, porém bastante próximas, uma vez que partilhavam o mesmo guarda-chuva. A garoa que caía era densa e se misturava à névoa de umidade que emanava da vegetação. Assim que cruzaram a porta da cabana Angélica abraçou Cristine pela cintura, trazendo para bem perto de si e afagando suas costas sedutoramente. Fitou-a nos olhos e sorriu. Cristine mergulhou naquele azul profundo e novamente suas dúvidas a respeito de Angélica se dissiparam. Quem a encarava com aquela expressão amorosa e autêntica seria incapaz de lhe fazer mal, mesmo que isso lhe custasse uma fortuna considerável, como era o caso.

Cristine retribuiu o abraço e procurou a boca de Angélica com a sua, ávida pelo beijo ardente que aqueles olhos azuis prometiam. As bocas se uniram e as línguas passaram a encenar um bailado sincrônico, as salivas se misturaram e os corpos roçaram-se numa ânsia incontida de paixão.

- Humm... eu já tava com saudade desse beijo... – disse Angélica com os olhos escurecidos de desejo.

- Eu também... muita...

- Vamos subir... eu quero te sentir toda...

- Isso é uma ordem?... – perguntou Cristine sedutoramente à meia voz.

- Um pedido... quase uma súplica...

Cristine novamente capturou os lábios de Angélica com os seus. Entre afagos e carícias subiram os degraus de madeira com pressa. Assim que chegaram no quarto Angélica ligou o ar condicionado para esquentar o ambiente. Despiram-se com a mesma urgência dos beijos. Acariciaram os corpos sem as barreiras impostas pelas pesadas roupas de inverno.

Angélica sentiu a umidade entre suas pernas aumentar assim que se deitou de costas na cama e Cristine ajeitou-se sobre ela, beijando seu colo e sugando seus mamilos intumescidos pela excitação. A loirinha encaixou seu sexo na coxa direita de Angélica e apertou sua própria perna de encontro à umidade de sua amante. Gemeram e contorceram-se de prazer. Mas elas queriam mais. Queriam sentir a essência uma da outra. Ajeitaram-se de modo que os sexos se tocaram e o jorro quente do prazer pôde se misturar enquanto os quadris se movimentavam rítmica e vagarosamente. O sentimento do toque das entranhas era algo que nenhuma delas conseguiria descrever em palavras e a sensação de delícia era tamanha que poderiam ficar naquele jogo erótico por um tempo incomensurável. Cada qual sentia o ponto do prazer da outra, endurecido e aumentado de tamanho pela excitação, e esfregavam-se aumentando o ritmo e a intensidade. O líquido quente que escorria e se misturava fazia com que os sexos deslizassem um de encontro ao outro com facilidade. Em dado momento elas não conseguiram mais segurar a iminente explosão de prazer e passaram a realizar movimentos de quadris cada vez mais rápidos e intensos, pressionando-se e gemendo alto. Angélica emitiu um gemido grave e gutural projetando-se para frente num espasmo de pura delícia e êxtase. Cristine, por sua vez gritou alto e contorceu-se num gozo prolongado e pleno. Fitaram-se nos olhos, cada qual encantada com a outra, e sorriram...

Abraçaram-se com força, sentindo pouco a pouco a pulsação voltar ao normal. Beijaram-se com ardor. E elas queriam mais...

Fizeram amor durante mais algum tempo e cochilaram abraçadas, aninhadas nas cobertas macias e aquecidas pelo calor do ar condicionado e pelo fogo da paixão que as unia.

 

Por volta das cinco horas da tarde Cristine despertou e passou a fitar o rosto da mulher adormecida a seu lado. A beleza de Angélica a encantava. De fato era a mulher mais linda que já vira na vida. E o que sentia ao amá-la chegava a doer, de tão intenso. E isto a estava deixando, no mínimo, preocupada em relação ao futuro. Sabia que deveria viver sabiamente o momento presente, porém não conseguia deixar de pensar no amanhã, principalmente quando se dava conta que desejava cada vez mais ter Angélica presente em sua vida. E embora a conhecesse há tão pouco tempo era como se já convivesse com ela toda uma vida.

Angélica, instintivamente sentindo-se observada, despertou de seu cochilo reparador. Deparou-se com os olhos verdes de Cristine a fitá-la bem de perto. Sorriu-lhe afetuosamente. A loirinha afagou o rosto de Angélica com a ponta de seus dedos, contornando a face e os lábios, vagarosamente.

- Você é a mulher bela que eu já conheci, sabia?

Angélica sorriu timidamente.

- Pára com isso... assim eu fico sem jeito...

- Mas é verdade... – insistiu Cristine.

- A verdade é que tu és a mais encantadora e bela mulher que eu já tive.

- E neste teu... rol, houve muitas? – brincou Cristine.

- Algumas...

- Ããh...

- Deixa de ser boba! Não foram tantas assim... – riu-se Angélica.

- Não é o que parece! – argumentou Cristine.

- E posso saber porquê???

- Sei lá... Pelo teu jeito assim... solto... espontâneo.

- Isso não quer dizer nada... Conheço muita carinha de santa que me dá de dez à zero...

- Isso é alguma indireta? – perguntou Cristine fingindo indignação.

- Imagina... – respondeu Angélica num tom de deboche.

Cristine jogou-se sobre ela e começou a mordiscar seu pescoço, numa brincadeira divertida, tentando imobilizá-la segurando-lhe os braços. Angélica deixou-se ficar presa e à mercê da investida de sua pequena amante, até que esta preferiu aprisionar-lhe os lábios e soltar seus braços vagarosamente, continuando a mantê-la cativa, porém pelos beijos e não pela força.

- Huum... eu adoro sentir a tua boca... – disse Angélica repleta de segundas intenções.

E Cristine sorrindo-lhe maliciosamente limitou-se a dizer:

- Ah é?...

E desceu sua boca lentamente pelo corpo de Angélica, lambendo e beijando cada parte daquele corpo moreno. Angélica se abriu para ela, dando-se por inteira para ser devorada por aquela boca ávida do gosto de seu sexo. Cristine mergulhou na cavidade quente e úmida, penetrando-a lentamente com a língua. Angélica gemeu alto e segurou sua cabeça amorosamente, passando-lhe a mão pelos cabelos loiros enquanto sentia a língua de Cristine a explorar suas entranhas e a sugar seu ponto de prazer com intensidade. Enquanto lambia e mordiscava suavemente seu clitóris passou a penetrá-la com seu dedo médio e indicador, em movimentos de vai e vem ritmados. De fato Cristine sabia como fazer uma mulher alcançar rapidamente o gozo. Mas não era isto que ela queria. Queria prolongar o prazer. Quando sentiu que Angélica estava preste a atingir o orgasmo cessou os movimentos de sua língua, afastando-se um pouco. A morena riu-se deliciada, entendendo perfeitamente a intenção de sua amante. Se ela queria um prazer maior, o teria. Angélica moveu-se rapidamente e posicionou-se ajoelhada em frente à Cristine, fazendo-a ficar na mesma posição. Levou sua mão ao sexo da loirinha e penetrou-a com firmeza e doçura, fazendo-a sentir também o poder e a agilidade de seus dedos. Sentiu seus dedos encharcarem-se e deslizarem suavemente em movimentos sincronizados de entra-e-sai. Cristine gemia e apertava seu sexo de encontro aos dedos de Angélica, fazendo com que a penetrasse bem fundo. Abria suas pernas e cavalgava nos dedos da morena avidamente, enquanto sentia a boca de Angélica a sugar-lhe tempestuosamente os mamilos endurecidos pelo desejo. Naquele desvario de volúpia Cristine passou a manipular com rapidez o ponto do prazer de Angélica que latejava a cada toque de seus dedos. Com movimentos cada vez mais intensos as mulheres não conseguiram mais segurar o gozo. E gritos de prazer ecoaram naquele final de tarde chuvoso. Depois do orgasmo desmoronaram nas cobertas, exauridas e satisfeitas.

Depois de uns minutos Cristine olhou para Angélica e disse:

- Eu estou me apaixonando por você... Aliás, já me apaixonei.

Angélica sorriu:

- E eu só posso te dizer que é recíproco.

- E isso é bom?... – instigou Cristine.

- Eu acredito que sim... – sorriu Angélica – É pelo menos, promissor.

- Que ótimo.

Ficaram em silêncio, fitando-se nos olhos. Depois de um tempo Angélica lentamente levantou-se.

- Vou tomar um banho. Depois vou descer pra fazer alguma coisa pra gente comer. Eu to com fome. – disse a morena.

- Eu também to com fome.

- É só um instantinho que eu já providencio alguma coisa apetitosa.

- Outra? – brincou Cristine.

Angélica riu-se olhando para Cristine com uma expressão marota. Entrou no banheiro e ligou a água quente.

Enquanto esperava Angélica tomar seu banho Cristine ficou pensativa. Se conjeturasse racionalmente a pessoa com maior probabilidade de querer tirá-la de circulação seria Angélica, afinal isto a tornaria uma mulher rica. Porém não conseguia conceber uma Angélica ambiciosa e dissimulada a ponto de fazer amor com ela com a intensidade que vinha fazendo e não nutrir nenhum tipo de sentimento. Angélica ostentava a verdade nos olhos. Mas algo nela não era totalmente transparente, e Cristine não conseguia precisar o quê. Por vezes ficava evasiva e parecia distante e preocupada.

Num ímpeto de curiosidade Cristine levantou-se e percebendo que o chuveiro continuava ligado aproveitou para olhar ao redor. Envergonhou-se por sua ousadia, porém não conseguiu controlar sua curiosidade, na verdade seu desejo de saber mais sobre Angélica.

Deu uma olhadela na direção do banheiro e percebeu que Angélica continuava deliciando-se com a água quente e abundante, sendo que cantarolava alegremente.

Cristine passou os olhos pelo quarto e abriu vagarosamente a porta do roupeiro, remexeu nas gavetas. Encontrou somente o esperado: calçinhas, meias, soutiens, cachecóis. Fechou as gavetas e foi até uma escrivaninha. Abriu a gaveta central e viu folhas em branco, canetas, material de escritório. Na gaveta superior lateral mais alguns materiais como canetas coloridas, clipes, cola, etc. Na do meio alguns documentos e fotos. Ao tentar abrir a gaveta de baixo percebeu que estava trancada. Abriu novamente a gaveta central procurando por algum indício de chave. Levou sua mão até o fundo da gaveta e encontrou um pequeno vidro decorado com algumas chaves dentro. Pegou a primeira e nada. A segunda também não. E foi tentando uma a uma. O barulho d’água permanecia contínuo. Quando faltavam somente mais duas chaves Cristine sentiu que a penúltima encaixou-se na pequena fechadura. Girou a chave tomando o cuidado de não fazer barulho e a fechadura de metal abriu-se com um estalido baixo e seco. Cristine prendeu a respiração. Olhou novamente na direção do banheiro, Angélica continuava seu cantarolar. Novamente envergonhou-se do que estava fazendo, mas era preciso. Aliás, estava se especializando em espionar segredos alheios, pensou enrubescendo ao lembrar da incursão no quarto de Artur.

Com a fechadura liberada Cristine puxou a gaveta com o máximo de cuidado para não fazer qualquer ruído. Segurando firme o puxador de madeira envernizada fez a gaveta deslizar para fora suavemente. Arregalou os olhos quando viu que na gaveta havia nada mais nada menos do que uma arma, uma arma e munição. Pegou o revólver e sob o cano de metal escuro e gelado repousava um envelope pardo. Constatou que estava sem lacre e abriu o mesmo para verificar seu conteúdo. O que viu fez suas pernas tremerem, mas manteve-se firme. Viu tratar-se de fotos suas, recentes, tiradas no Rio, na praia, uma seqüência de rosto e corpo num total de oito fotos. E aquela arma a cobri-las, ameaçadora e gélida. Assustada recolocou as fotos no envelope e repôs a arma no lugar. Tratou de fechar a gaveta e chaveá-la novamente. Recolocou a chave no pote e fechou a gaveta central. Seu coração estava disparado e novamente foi invadida por uma sensação de medo.

Acabara de fazer amor com uma pessoa que parecia querer eliminá-la. Não podia deixar o pânico tomar conta dela. Vestiu-se apressadamente e quando ouviu o chuveiro sendo desligado já estava pronta para descer a escadaria na direção da rua. Sem fazer barulho desceu rapidamente e saiu pela porta da frente, tomando o cuidado de não deixá-la bater após a sua passagem. Correu o mais rápido que pôde para o castelo. A noite já caíra sobre Doze Colinas. A garoa continuava ininterrupta, porém menos densa.

Cristine chegou ao castelo empalidecida. Passou por Anemary e pediu-lhe que levasse seu jantar no quarto. Pediu ainda que não deixasse ninguém importuná-la. E isso incluía Angélica e o Dr. Mendes.

Subiu e trancou a porta do quarto por dentro.

 

Ao sair do banheiro enrolada na toalha Angélica estranhou o fato de Cristine não estar aninhada nas cobertas. Sorriu e imaginou que a loirinha estivesse adiantando alguma coisa na cozinha. Vestiu-se e desceu.

Ao perceber que Cristine não estava no térreo chamou por ela:

- Tine!

Nenhuma resposta. Chamou novamente:

- Tine!

Só o silêncio. Procurou em volta, no pátio e entrou novamente, percebendo que a porta da frente estava destrancada. Subiu as escadas de dois em dois degraus e passou a examinar o quarto. Seu olhar perscrutador viu que Cristine havia pegado todas as suas roupas. Continuou sua observação e foi direto para sua escrivaninha, prevendo o que poderia ter acontecido. Ao abrir a gaveta central já percebeu que havia sido mexida. O potinho com as chaves não estava exatamente onde costumava colocá-lo. Angélica tinha uma lógica na arrumação de suas coisas. Necessidades de sua profissão. Foi direto para a gaveta de baixo e ao abri-la percebeu que fôra mexida também. O envelope e a arma estavam dispostos assimetricamente.

Fechou a gaveta. Sentou-se e respirou fundo, com uma expressão séria.

Ficou imaginando o que estaria se passando na cabeça de Cristine, aliás, sabia perfeitamente o que ela deveria estar cogitando. Agora tudo ficava mais difícil. O que faria agora? Como poderia remediar as evidências? Considerou mais adequado deixar as coisas como estavam, pelo menos naquele momento.

Por precaução foi até o castelo, para verificar se Cristine estava bem. Sua mãe lhe disse que ela havia subido ainda há pouco, e que estava indisposta e havia pedido para jantar no quarto. E não queria ver ninguém.

Angélica ficou um pouco mais tranqüila. Resolveu voltar para sua casa. Precisava realizar alguns contatos e pensar no que faria.

 

****************

 

A sexta-feira amanheceu ao som de trovoadas e uma chuva torrencial. Cristine despertou por volta do meio dia. Havia passado a noite praticamente em claro. Estava se sentindo um lixo, no sentido amplo da palavra. Dormira pouco e tivera um sono povoado de pesadelos, fantasmas e ameaças de morte. Sentia-se desprotegida e temerosa, sem um porto seguro, sem ninguém para recorrer. Estava pálida e com olheiras escuras. Se não tomasse uma atitude por certo enlouqueceria. Respirou fundo e tomou sua decisão: iria embora dali. Nada mais a prendi naquele lugar. Não havia porquê ficar num local onde se sentia ameaçada e solitária. Voltaria para sua casa no Rio, para a rotina de sua vida e de seu trabalho e tentaria colocar uma pedra sobre os acontecimentos dos últimos dias. E nada nem ninguém poderiam detê-la. Estava decidida.

Tomou um banho quente e renovador e desceu para almoçar. Encontrou a mesa já servida e os presentes já terminavam a refeição. Dr. Mendes levantou-se, desculpando-se:

- Desculpe-nos, minha querida, não sabíamos se descerias para almoçar ou se dormirias até mais tarde, por isso não a esperamos.

- Tudo bem... – disse Cristine não conseguindo encarar Angélica que estava presente e a fitava da extremidade da mesa.

Sentou-se e logo foi servida pelos serviçais. Angélica continuava a observar Cristine de soslaio, tentando aparentar naturalidade. A loirinha mal conseguiu tocar na comida. Valesca e João Vítor logo se retiraram da mesa, seguidos por James. Dr. Mendes tentou puxar conversa com Cristine, percebendo o clima de tensão que pairava no ar, mesmo sem entender o verdadeiro motivo deste. Cristine respondia com monossílabos. Angélica também tentou por duas vezes conversar com ela, porém as respostas eram mais evasivas do que as dirigidas ao advogado.

Cristine pediu licença alegando indisposição. Disse que iria para o quarto. Angélica a interpelou antes que saísse da mesa:

- Eu preciso conversar um minutinho contigo.

- Mas eu não me sinto bem agora. – respondeu Cristine.

- É só um minuto. Vamos até a biblioteca. Por favor.

Dr. Mendes observava as duas mulheres atentamente. Para não polemizar a situação Cristine assentiu com a cabeça:

- Tudo bem então.

A loirinha pediu licença ao homem grisalho e levantou-se, sendo seguida por Angélica. No trajeto do corredor Cristine pensava no que diria à Angélica. Não podia contar o que houvera, sob pena de ficar exposta e vulnerável. Tentaria arrumar uma desculpa convincente para justificar suas atitudes.

Após entrarem na biblioteca Angélica fechou a porta, o que causou um estremecimento em Cristine e uma onda de temor interno.

- O que foi? – questionou Angélica – Por que saíste lá de casa ontem? Eu fiz alguma coisa que te magoou? – continuou Angélica também tentando não deixar transparecer que sabia o verdadeiro motivo de sua reação.

- Não... não é isso... você não fez nada... – gaguejou Cristine – São coisas minhas...

- Que coisas?... – continuou Angélica.

- Já disse, coisas minhas, encucações... sei lá... é que... preciso pensar na minha vida no Rio... nas pessoas que deixei lá...

- Tu tens alguém lá?... – quis saber Angélica, deixando transparecer receio quanto à resposta da loirinha.

- Tenho. – mentiu Cristine, sem conseguir encarar a morena nos olhos – E por isso preciso pensar. O que aconteceu entre a gente foi... foi... intenso, mas não sei se foi o mais acertado...

- Entendo... – respondeu Angélica baixando os olhos e se dando conta de que aquela justificativa era uma desculpa. A morena resolveu facilitar a situação para as duas fingindo acreditar nas palavras de Cristine – Eu vou pra casa. Se precisares de alguma coisa...

- Ta. Eu peço. – respondeu Cristine secamente.

Angélica virou-se e saiu da biblioteca sem olhar para trás. Cristine desmontou. Seu peito parecia querer explodir de dor. Não sabia o que pensar. Estava apaixonada por aquela mulher e desconfiava que ela queria mata-la. Sentia medo. E solidão.

 

Enquanto caminhava na direção de sua cabana Angélica pensava consigo mesma: "boa desculpa... mas será que é desculpa mesmo? Ou ela uniu o útil ao agradável e me deu um senhor pé na bunda por conta de outra lá do Rio? Não... eu sei quando uma mulher faz amor comigo ou quando está só a fim de uma transa... Mas convenhamos que a desculpa foi boa... Agora preciso elaborar outra estratégia".

 

Cristine passou o dia todo em seu quarto. Desceu para o jantar e encontrou somente o Dr. Mendes e James sentados à mesa. Novamente a refeição transcorreu quase que em total silêncio. No final foi Cristine quem disse:

- Eu tomei uma decisão...

Os dois homens a encararam e a loirinha continuou:

- Eu vou embora. No mais tardar segunda-feira. Preciso tocar a minha vida...

- Mas... e os teus bens?... E esta propriedade? E os negócios? – questionou o advogado.

- Tenho certeza que posso confiar no senhor e em você, James. Gostaria que vocês dois tocassem os negócios para mim. Eu vou embora, vou voltar para a minha casa, para a minha vida. Está decidido.

- Bom... – disse James – ...no que depender de mim, pode contar comigo, prima.

- E comigo também, Cristine. – respondeu Dr. Mendes.

- Agora se me dão licença, eu vou voltar para o meu quarto, preciso começar a arrumar minhas coisas.

Os dois homens permaneceram na mesa.

- E essa agora? – disse James – Eu não imaginei que ela fosse embora. Pensei que ficaria aqui, tomando conta do que agora é dela.

- Eu também. – concordou o homem mais velho.

- Mas se ela quer ajuda, eu me proponho a dar, afinal somos uma família.

- É. – respondeu Dr. Mendes pedindo licença e também se retirando para seus aposentos.

 

 

De seu quarto o advogado faz uma ligação de seu celular:

- Alô? Sou eu. Precisamos redobrar a vigilância. Ela decidiu ir embora.

- Eu imaginei... – respondeu a voz do outro lado da linha – Mas está tudo sob controle.

- Eu espero. Espero sinceramente que esteja.

- Está.

- Se tu o dizes... – continuou o advogado – As próximas horas são decisivas. Nosso alvo vai mexer as peças no tabuleiro, a cobra vai dar o bote...

- Assim espero. O delegado já sabe da novidade?

- Já. Acabei de ligar para ele.

- Bom, preciso me preparar... A noite e o dia de amanhã prometem...

- É... Boa noite então. – disse o advogado.

- Boa noite.

 

 

Cristine tentou ler, porém sua atenção voltava-se constantemente para a figura de Angélica. Não sabia o que pensar. Aquela mulher era uma incógnita e isso a afligia quase a ponto do desespero. Mas tinha agido certo. Precisava se proteger. E isso começava pelo fato de ir embora. Arrumou alguns pertences e tentou conciliar o sono. Havia conseguido passagem aérea somente para segunda-feira. Embarcaria às quinze horas. Tapou o rosto com as cobertas, como que numa tentativa de esconder-se do mundo e da claridade dos relâmpagos que cortavam o céu de Doze Colinas. Ouvindo o barulho de trovões e de chuva abundante acabou pegando no sono.

Novamente do lado de fora de seu quarto uma figura escondida na escuridão começava sua vigília silenciosa.

 

 

No sábado Cristine despertou cedo, antes das oito horas, apesar de ter custado a pegar no sono na noite anterior. Novamente sentia-se mal.

Abriu a cortina de sua janela e viu que a chuva havia estiado. As nuvens cinzentas pareciam menos carregadas naquela manhã. Apesar da névoa matinal que ainda cobria os arredores podia perceber que o dia seria menos chuvoso que o anterior. Arriscava o palpite de que talvez até mesmo algum raio de sol pudesse dar o ar de sua graça naquele sábado, mesmo que esmaecido e sem intensidade. Esperaria para ver...

Desceu para tomar café e respirou aliviada ao perceber que Angélica não estava à mesa. Somente James, Valesca, João Vítor e Dr. Mendes. Anemary e Morris, em seus lugares costumeiros, serviam o café da manhã.

Cristine tomou seu lugar à mesa e serviram-lhe uma xícara de café fumegante. De sua posição na mesa pôde perceber quando Henrique cruzou o corredor que levava à cozinha e instalou-se junto ao fogão à lenha, conversando com Thomaz que tomava um chimarrão com Regina. Não conseguia ouvir o teor da conversa, porém percebeu que estavam bastante envolvidos e atentos no diálogo. Após dois goles de café disse:

- Já estou com as minhas coisas praticamente em ordem para viajar.

- Tu tens certeza do que estás fazendo? – questionou o advogado.

- Absoluta.

- Como eu já disse, podes contar comigo, prima. – disse James.

- Obrigada. Fico tranqüila com isto.

- Eu que agradeço a confiança. – respondeu James.

Cristine limitou-se a um balançar de cabeça e a um sorriso sem graça. Continuou:

- Vou aproveitar que o dia está mais limpo e pretendo ir até o cemitério agora de manhã. Preciso me despedir...

- Entendo... – disse Dr. Mendes – Eu posso ir contigo.

- Não, obrigada. Eu quero ir sozinha. Preciso me dar esse momento...

- Tudo bem então... – disse o homem mais velho.

- Pois nós também vamos embora na segunda-feira, não é João Vítor? – disse Valesca.

- Certamente... – respondeu o jovem.

- E eu também quero me despedir de Artur... – suspirou Valesca – Mas não hoje, talvez amanhã... quero comprar uma coroa de flores.

 

Cristine terminou seu desjejum e subiu até seu quarto. Pegou um agasalho mais quente e desceu novamente. Ao cruzar pelo corredor e cozinha não encontrou nem sinal do Dr. Mendes, James, Valesca, João Vítor ou quem quer que fosse. Somente Regina estava na cozinha, dando início aos preparativos do almoço.

Rumou a pé na direção do cemitério. No caminho colheu algumas flores do campo e seguiu pela estrada compassadamente, enquanto pensava nas situações que vivenciara nos últimos dias. De fato a manhã continuava nublada, mas não chovia no momento. No horizonte, bem ao longe, algumas nuvens escuras novamente pareciam querer aliar forças para derramar água abundante sobre a terra. Por conta das nuvens menos carregadas que pairavam sobre o castelo não levou guarda-chuva, nem tão pouco tomou conhecimento da cor escura do horizonte.

Caminhava devagar e pensativamente. Desejava ver a figura de Angélica, ao mesmo tempo em que sentia temor em encontra-la. Essa dualidade de sentimentos a consumia por dentro. Se ficasse mais tempo ali por certo enlouqueceria.

Movia-se sem pressa e observava a paisagem ao seu redor, a mesma paisagem cinzenta, úmida e carregada, que parecia imutável e sufocante. Naquele momento não sentia medo, apenas desconforto e mágoa. Não via a hora de voltar a sentir no rosto os raios do sol de sua cidade e o calor aconchegante da multidão de passantes que fervilhavam nas ruas de paralelepípedo do centro e nas amplas avenidas pavimentadas. Fechando os olhos conseguia quase que ouvir o burburinho e o tumulto do trânsito do Rio. Sorriu para si mesma. Ao mesmo tempo seu peito sentiu uma agulhada fininha ao se dar conta que provavelmente não tornaria a encontrar Angélica. Sua razão tentava convence-la de que isto era o melhor para sua segurança, porém sua emoção lhe incitava à dor e ao sofrimento pela separação.

Foi trazida de volta à realidade de seus devaneios quando uma rajada de vento mais forte agitou seu casacão de lã e fez revoar seu cabelo loiro. Estivera caminhando tão pensativa que nem se dera conta de quão rapidamente as nuvens escuras do horizonte haviam sido impelidas em sua direção e agora formavam um cobertor espesso e negro sobre sua cabeça. Resolveu ignorá-las uma vez que já se encontrava no portal do campo-santo.

Outra vez Cristine ouvia somente o som das próprias passadas de encontro ao calçamento de pedra do corredor central. Seguiu direto para a sepultura de seu pai.

 

 

Bem perto dali um rádio de comunicação foi acionado e vozes tensas puderam ser ouvidas:

- Alô, detetive Thomaz falando, câmbio.

- Na escuta, pode falar, câmbio – respondeu uma voz masculina e grave.

- Tudo correndo como o combinado. Nosso peixe está mordendo a isca, câmbio.

- Não perca de vista em nenhum momento, câmbio.

- Ok. Encerrando, câmbio.

 

O delegado secou a testa suada e fez uma ligação para seu celular:

- Adroaldo? Sou eu. Tudo está correndo conforme o esperado.

- Pelo amor de Deus, Munhoz, cuidado! Eu não me perdoarei jamais se algo acontecer a ela.

- Fica tranqüilo, está tudo sob controle.

- Eu vou me posicionar onde combinamos.

- Fique atento, Adroaldo. E não me saia desarmado!

- E eu lá sou idiota?

 

Passaram-se cerca de vinte minutos até que novo contato pelo rádio se fez ouvir:

- Thomaz, Thomaz, responda, câmbio.

- Na escuta, câmbio.

- Tudo bem? Cambio.

- Tudo...

- Porque esse titubear? Cambio. – exaltou-se a voz no outro lado do comunicador.

- Movimento inesperado do nosso alvo. Saiu do meu campo de visão... câmbio.

- COMO ASSIM? E FOI PRA ONDE?

- Parece ter ido para dentro da mata, câmbio.

- PARECE?... É PRECISO TER CERTEZA!

- Vou costear o muro do cemitério, câmbio...

Nesse momento a comunicação foi cortada. Um baque surdo se ouviu na vegetação rasteira e um corpo inerte foi arrastado para junto de um arbusto na beira da estradinha de terra.

- ALÔ, CÂMBIO, RESPONDA, THOMÁZ, RESPONDA, CÂMBIO!

Nenhuma resposta se fez ouvir. Nervosamente o aparelho intercomunicador foi novamente acionado:

- Alô, delegado, câmbio!

- Fale, estou na escuta, câmbio.

- Algo não corre bem, mudança de planos. Thomaz não responde. Acione seus homens já! Estou indo para lá agora! Câmbio final.

- Dacosta, espere, ouça... Dacosta! Dacosta! ... – nada mais se ouvia, porém mesmo assim o delegado concluiu a frase - ...Cuide-se.

Naquele momento uma figura esguia com os batimentos cardíacos acelerados e uma sensação de angústia no peito cruzava a mata nativa correndo o mais rápido que podia.

 

 

Cristine parou defronte ao jazigo da família e mais uma vez encarou os anjos de pedra que guardavam o corpo sem vida de seu pai e seus avós. Conjeturou consigo mesma o porquê dos destinos de certas pessoas serem palcos de tamanhos desencontros. Pensava ainda no quanto talvez pudesse ter sido feliz com seu pai. Lamentou não ser possível voltar no tempo...

Secou uma lágrima do canto de seus olhos enquanto sentia seus cabelos esvoaçarem com o vento forte que vinha do sul. Sentiu o cheiro de um perfume conhecido, mas limitou-se a fechar os olhos e deixar as lágrimas escorrerem abundantemente, acreditando ser fruto de sua imaginação. Levou suas mãos ao rosto e chorou copiosamente.

 

 

Dacosta corria desenfreada e cautelosamente por entre a vegetação espessa utilizando atalhos que tão bem conhecia. Sentia o contato rijo do metal da arma de encontro a seu tórax. Ao avistar os muros do cemitério parou por instantes e aguçou o ouvido. Silêncio. Tentou novo contato com Thomaz através do comunicador. Nenhuma resposta. Esgueirou-se até o sopé do muro e num pulo ágil segurou-se na borda, içando seu corpo lentamente até conseguir espiar para dentro. Certificando-se de não estar sendo observada pulou o muro com a agilidade de um felino e avançou na direção dos fundos quase que rastejando. De repente avistou os cabelos loiros de Cristine, de pé e sozinha junto ao túmulo de Artur. Respirou aliviada e aproximou-se cautelosamente.

O vento começou a soprar em rajadas fortes abafando os passos determinados e rápidos de Dacosta.

Cristine sentia a ventania a varrer os arredores e agitar seus cabelos e vestimenta, porém parecia querer ficar mais tempo ali, contemplando o monumento de pedras que abrigava os restos mortais de sua família. Encontrava-se tão absorta que nem percebeu a figura que se aproximava apressadamente por trás.

Sobressaltou-se ao sentir uma pegada firme no braço e tentou desvencilhar-se quando viu a expressão tensa de Angélica que lhe encarava e a abraçava imobilizando-a.

- O que significa isso? – perguntou Cristine tentando se soltar.

- Calma... vem comigo. – respondeu Angélica secamente e olhando nervosa para os lados.

- Como assim? Me deixa. Me larga. – disse Cristine agitando-se.

Angélica a segurou firme pelos ombros e a fez encara-la:

- Escuta aqui... por favor... me ouve! Vamos embora daqui. E fica perto de mim. – disse abraçando-a junto ao peito.

Cristine pôde então observa-la de frente e viu que vestia um colete preto com um emblema conhecido o peito.

- Me diz o que é que está havendo... – pediu Cristine com um tom de voz mais brando.

- Eu digo. Prometo. Digo tudo o que quiseres, mas longe daqui. Vem.

Nesse instante o ouvido apurado de Angélica percebeu um ruído atrás delas e sua visão periférica captou um movimento brusco na vegetação. Instintivamente puxou Cristine para o lado empurrando-a para trás do túmulo de Artur e protegendo-a com o próprio corpo, no exato momento em que um estampido surdo se fez ouvir acima do barulho da ventania.

Cristine sentiu o baque do corpo de Angélica contra o seu antes delas caírem no vão entre as duas sepulturas que as cercavam. O colete a prova de balas impedira o projétil de alojar-se na carne morena, porem causara um golpe seco que fizera Angélica quase perder a respiração. Mesmo assim permaneceu deitada sobre Cristine, empurrando-a cada vez mais na direção da lateral do túmulo. Outros estampidos ecoaram no vazio e fizeram ambas estremecerem e encolherem-se atrás da proteção de pedras. Com agilidade Angélica sacou sua pistola e desferiu dois disparos para o alto, para intimidar o agressor. Ouviram-se passos e Angélica girou sobre o próprio corpo, mantendo Cristine embaixo de si e aprontando-se para abater quem quer que se aproximasse. Nisto escutou uma voz conhecida gritando seu apelido de infância:

- Cacá!!! Cacá!!! Nãããããooo!!!

Angélica respondeu no mesmo tom:

- CHICO, TE ESCONDE!!! FICA AÍ!!!

Mas era tarde. Ouviu passos rápidos e uma sucessão de disparos. Enraivecida posicionou-se e ao avistar a figura disforme que corria na direção delas passou a atirar na direção de suas costas, tentando proteger-lhe a retaguarda.

Cristine não tinha tempo de raciocinar. A adrenalina a fizera perder a noção das coisas. Naquele momento era só instintos. E seu instinto maior lhe dizia internamente: "faça o que Angélica disser!". Ouviu o estampido ensurdecedor dos disparos e sentiu quando um corpo projetou-se sobre elas, abraçando-as e tentando servir de escudo para protege-las.

- Chico, tu ta bem? – perguntou Angélica observando um sangramento na altura do ombro do amigo.

- To! Chico veio cuidar da Cacá...

- Obrigada Chico, mas eu te disse pra ficar escondido...

- Mas tavam atirando na Cacá... e na moça bonita...

- Querido... – disse Angélica passando a mão no rosto do amigo.

Como o barulho dos tiros havia cessado Cristine virou-se e viu o homem que supostamente a atacara no cemitério. O mesmo semblante não lhe parecia assustador naquele momento. O casaco preto, até os joelhos, continuava a cobrir o corpo disforme, porém nada ameaçador naquele instante.

Ainda sem entender o que se passava Cristine ouviu vozes masculinas ao fundo e passadas pesadas vindo na direção delas.

- DACOSTA! TU ESTÁS BEM? – gritou o homem grisalho que se aproximava de arma em punho.

- TUDO BEM! CRISTINE ESTÁ AQUI COMIGO. E O CHICO TAMBÉM...

O delegado se aproximou e chegou até eles. Deu um cutuco na orelha de Chico e disse:

- Ô cabeçudo de uma figa! Ta querendo morrer???

- Eu nããão... Nem a Cacá...

- Mas a "Cacá" sabe se cuidar, ô cabeça de bagre! – emendou o delegado.

- Eu que cuido da Cacá....

Angélica sorriu e disse para Chico:

- Chico, olha só... Eu preciso da tua ajuda, pode ser?

- Pode! Chico ajuda!

- Fica aqui com a Cristine. E não desgruda dela! Não deixa ela se meter em confusão, ok!- e piscou para o amigo.

- Deixa comigo! – riu-se Chico pegando a mão de Cristine entre as suas – Ela fica junto!cccccB

Angélica levantou-se e acompanhou a movimentação de alguns agentes que corriam para o leste, perseguindo de perto o atirador que havia atentado contra elas. Neste momento Cristine pôde ver a inscrição da polícia nas costas do colete de Angélica, enquanto ela se afastava a passos rápidos, aparentando ainda sentir o baque nas costas.

Cristine permanecia estática e encarava surpresa a figura que segurava sua mão e lhe sorria amigavelmente, enquanto um filete de sangue ensopava o casaco negro na altura do ombro. Como pudera se enganar tanto, pensava consigo mesma. Ao mesmo tempo sua preocupação com Angélica não a deixava raciocinar direito. Também se enganara a respeito dela... De fato estava se sentindo uma cega. Não conseguira distinguir o que estava a um palmo de seu nariz. Sentia-se com um peso na consciência por não haver confiado na mulher que a amara de forma tão doce e intensa, e que poderia ter perdido a vida para protege-la. Sentia-se um monstro...

 

 

Com as mãos trêmulas empunhando a arma com a qual acabara de alvejar Angélica e Cristine e tendo a testa banhada de um suor gélido e pegajoso James corria feito um louco pela mata cerrada, tendo em seu encalço a equipe do delegado Munhoz.

Eficiente e cuidadosamente os homens se aproximavam cada vez mais, fechando o cerco ao redor de James. Este em dado momento se viu encurralado entre uma encosta de terra íngreme e o vazio do desfiladeiro de pedras que servia de redoma ao vale muitos metros abaixo. Virou-se na direção de onde viera e novamente empunhou a arma, fazendo mais alguns disparos na direção da mata. Ouviu-se o barulho dos policiais se protegendo atrás dos troncos de árvores e da vegetação espessa. Fez-se um silêncio. Depois de uns minutos de extrema tensão para todos o delegado Munhoz gritou:

- Baixe a arma, James! Entregue-se e tudo acabará bem!

- Bem para quem, delegado??? – gritou James descontrolado, novamente alvejando o nada.

Angélica rastejando aproximou-se do delegado.

- Deixe-me tentar, delegado.

- Não senhora! Tu já correste perigo suficiente hoje.

- Delegado, eu conheço esse cretino. Deixa pra mim.

O delegado Munhoz coçou a cabeça e respondeu:

- Bom... Me deixe chegar mais perto. Quero esse miserável na mira da minha arma. Depois é tudo contigo.

Novamente os comunicadores foram acionados e os agentes de Munhoz colocaram-se estrategicamente. James estava num local vulnerável, não tinha para onde fugir. Quando finalmente a equipe se posicionou Munhoz disse para Angélica:

- Agora vai. Mas, Angélica, ao menor esboço desse canalha eu meto chumbo!

- Não vai ser preciso, delegado, espere e verá. A gente pega ele sem problemas. Quero ver esse crápula apodrecer na cadeia. Morrer é pouco...

- Cuidado Dacosta... – advertiu o delegado.

 

Angélica falou em voz alta:

- James, baixa essa arma! Vamos conversar!

- EU NÃO TENHO NADA PRA CONVERSAR, VAGABUNDA!

- Tem sim! E vai ser melhor pra ti baixar a arma. Tu não tem saída, James.

James suava frio. Baixou sua arma e deu um passo para trás, sem se dar conta que se aproximava do abismo de pedras.

Angélica ergueu-se e de arma em punho caminhou na direção dele. Ao vê-la ele novamente apontou a arma em sua direção.

- Negativo James! Tu sabe que a minha pontaria é muito melhor que a tua, aliás, sempre foi. Tu morre antes de pensar em me acertar!

Aos poucos James foi baixando sua arma. Continuava trêmulo e à beira do descontrole. Angélica também baixou a arma.

- O QUE MAIS TU QUER DE MIM, DESGRAÇADA???!!! – gritou James – TU ME ROUBOU TUDO!!!

- Eu não te roubei nada, James, e tu sabes disso.

- Roubou sim, maldita! Roubou o carinho e a atenção do padrinho! Tudo era pra ti! O melhor presente, o brinquedo diferente, a atenção! Tudo era pra ti! Eu sempre fui o rejeitado, o coitado, o feio, o burro, o desajeitado...

- Tu estás sendo injusto com o padrinho...

- AQUELE VELHO MISERÁVEL NUNCA GOSTOU DE MIM!!!

- E foi por isso que tu o mataste?

- EU NÃO FIZ NADA!

- Fez sim, James... E nós sabemos que fez... A tua consciência sabe que fez... E faria novamente. Tu querias matar a Cristine.

- Aquela outra vagabunda??? Queria sim! E daí? Ela veio terminar de roubar o que era meu! – novamente James deu um passo atrás.

- Joga a arma no chão e te entrega. É melhor pra ti. – disse Angélica dando um passo na direção dele.

- PARADA AÍ! – gritou James – NEM MAIS UM PASSO! OU EU ATIRO!

Angélica estancou. O delegado colou o dedo no gatilho, aprontando-se para disparar um tiro certeiro.

- James, porque mataste a Adelaide?

- Eu não queria fazer aquilo!

- Mas fez...

- EU PENSEI QUE FOSSE A OUTRA MISERÁVEL! A USURPADORA! A FILHA BASTARDA!

- Ela não é bastarda, James... Tu és.

- CALA A BOCA!!! – gritou James tapando os próprios ouvidos – EU NÃO QUERO OUVIR NADA DISSO!!! EU VOU CONTAR TUDO PRO PADRINHO! TU VAI VER SÓ... ELE VAI TE BOTAR DE CASTIGO!!!

James havia se descontrolado e falava coisas sem nexo. Virou-se de frente pro abismo e gritou:

- EU TE ODEIO, ANGÉLICA!!! EU ODEIO AQUELA VAGABUNDA!!! EU ODEIO A MINHA VIDA!!! PADRINHOOO... ONDE ESTÁ O SENHOR???... EU QUERO QUE TU MORRAS, DESGRAÇADA!!!

Nesse momento James virou-se para Angélica e sacou a arma. Com agilidade a morena atirou-se ao chão e girou sobre o próprio corpo. Na fração de segundos que levou para disparar um tiro viu James pisar em falso no momento em que o projétil disparado pela arma de Thomaz lhe perfurou o abdome. Como que em câmera lenta o corpo esquálido pareceu pairar no vácuo antes de projetar-se nas profundezas do abismo de pedras. Thomaz ainda sentia a cabeça zonza e dolorida da pancada que levara pelas costas. Ao acordar amparado pelo delegado Munhoz recusou-se a voltar para o castelo, alegando condições para auxiliar na perseguição. Agora sentia que precisava de um médico. A descarga de adrenalina fizera a dor de cabeça voltar com mais intensidade. Mas ao menos valera a pena, pensava consigo mesmo, "acabou-se o verme".

 

Fez-se um silêncio absoluto até que vagarosamente Angélica conseguiu levantar-se. Na queda havia ferido a mão esquerda numa pedra pontiaguda, mas nada grave, apenas um corte superficial. Munhoz e os outros agentes aproximaram-se da beirada do penhasco. Bem no fundo o corpo de James jazia disforme e sem vida.

- Acabou. – disse Thomaz enquanto passava o braço ao redor do ombro de Angélica.

- Pois é... acabou. – respondeu a morena com o olhar fixo no nada.

 

 

Quando Munhoz e Angélica se aproximaram da entrada do cemitério, no caminho de volta ao castelo, Cristine correu na direção deles e abraçou Angélica:

- Graças a Deus vocês estão bem! – disse emocionada.

A morena retribuiu o abraço e respondeu:

- Pois eu faço minhas as tuas palavras...

Chico continuava ao lado de Cristine, sem arredar o pé. Neste momento Dr. Mendes veio ao encontro deles.

- Acabou. – disse Munhoz – Ele caiu no precipício.

- Quem afinal caiu no precipício??? – quis saber Cristine.

- James. – respondeu Angélica.

- James??? Mas então...

- Tine... a gente precisa conversar... eu prometi e vou cumprir. Mas eu preciso de um banho. E deitar um pouco... Eu vou pra casa agora... sozinha. Depois eu vou até o castelo. Vai fazer o mesmo. Descansa um pouco que a gente tem muito que conversar mais tarde...

- Ta... Angélica, a tua mão... ta sangrando...

- Isso não é nada. É só superficial. Não te preocupa.

- Angélica tem razão, Cristine – disse o advogado – vá descansar um pouco. Depois temos muito que conversar.

- Tudo bem...

 

**************

 

Na segurança e no aconchego de sua cabana Angélica tomou um banho demorado e deitou-se em sua cama macia adormecendo profundamente. Sonhou com Artur, e ele lhe sorria.

Cristine por sua vez não conseguiu pregar o olho. Continuava meio que em estado de choque. Também tomou um banho para relaxar, mas permaneceu acordada e pensativa. Logo mais saberia de toda a verdade. E sentia-se culpada por haver duvidado de Angélica, ao mesmo tempo em que sentia mágoa por Angélica não ter lhe contado a verdade desde o início, qualquer que fosse. Estava ansiosa para falar com a morena.

 

Por volta de seis horas da tarde Angélica entrou na cozinha do castelo e abraçou sua mãe, que já estivera em sua cabana para ver se a filha estava de fato bem.

- E o pessoal? – perguntou com voz cansada.

- No escritório. – respondeu Regina.

- Eu vou até lá.

 

Angélica encontrou Cristine e Dr. Mendes sentados frente a frente tomando um café, em silêncio. Entrou e cumprimentou-os com um aceno de cabeça.

- Sente-se, minha filha – disse o advogado – Estávamos aguardando por ti.

A morena acomodou-se ao lado de Cristine, que lhe sorriu afetuosamente e disse:

- Eu ainda não tive oportunidade de te agradecer...

- Não tem o que me agradecer.

- Tenho sim. Você salvou minha vida... E quase perdeu a sua.

- É o meu trabalho. São ossos do ofício. – respondeu Angélica a meia voz.

- Bom... – disse o advogado dirigindo-se à Cristine – então tu já sabes que Angélica trabalha na polícia, é na verdade a detetive Dacosta.

- Dacosta?... – perguntou Cristine – o sobrenome de teu pai não é Bandeira?

- É. Dacosta é por parte de mãe. Eu sou Angélica Dacosta Bandeira.

- Você nunca me disse...

- Tu nunca perguntou.

Fizeram-se uns segundos de silêncio e Dr. Mendes continuou:

- Cristine, nós queremos te contar esta triste história desde o começo.

- Por favor... Já não era sem tempo. – disse a loirinha.

- Tu já sabes como o teu pai tomou conhecimento acerca da tua existência. Bom, foi depois disso que se iniciou a sucessão de fatos que acabaram culminando com a sua morte.

- Mas então James realmente matou meu pai??? – perguntou Cristine com a voz entrecortada pela emoção.

- Não... quero dizer, sim, foi o responsável.

- Como assim???

- Deixe-me fazer o relato cronologicamente – pediu o advogado – Após ter ciência de tua existência Artur modificou seu testamento. Em meados de março percebeu que seus documentos haviam sido mexidos. Ele era um homem metódico e percebeu que alguém mexera em seus pertences, mais especificamente no testamento, na cópia deste. Ele ficou intrigado, porém não deu grande importância. Logo em seguida, no entanto, percebeu o sumiço de duas armas de sua coleção.

- Uma delas foi a que matou Adelaide?... – disse Cristine.

- Exatamente.

- Mas o que é que Adelaide tinha a ver com o testamento?

- Absolutamente nada. – respondeu o advogado, calando-se logo em seguida e baixando os olhos.

Percebendo o titubear do advogado Angélica continuou o relato:

- Na verdade aquele tiro que a matou não era pra ela... era pra ti.

- Pra mim???

- James confundiu vocês duas por causa do cabelo loiro e da capa de chuva. Ele pensou que Adelaide era tu.

Cristine escondeu o rosto com as mãos.

- Que horror!... – disse baixinho.

Respirando fundo Dr. Mendes continuou:

- Depois de dar falta das armas Artur conversou comigo e com Munhoz. A custo conseguimos convence-lo de contratar um segurança, no caso Thomaz, que também é policial, e de confiança do delegado. Na verdade concordou em contrata-lo após seu carro perder o freio. Nesse dia Artur começou a conjeturar que poderia ser algo sério, que poderia ter um inimigo dentro de casa. Provavelmente James percebeu a mudança no comportamento de Artur e passou a tomar cuidado com seus atos. Tudo parecia estar correndo bem até que Artur faleceu repentinamente, parecendo ser um ataque cardíaco. E não suspeitamos de James, pois nesse dia ele havia ficado na cidade o dia todo, não poderia ter feito nada. E Artur não tinha sintomas de envenenamento, nem de qualquer anormalidade. Angélica estava aqui no castelo, tirando uns dias de férias. Por uma questão de precaução resolvemos designa-la para ficar vigiando os teus passos, pois nosso temor era de que a pessoa que tivesse alguma coisa contra Artur pudesse atentar contra a tua vida. Até então não sabíamos quem era. Podia ser qualquer pessoa que circulasse pelo castelo, e os motivos poderiam ser os mais variados. Infelizmente não conseguimos salvar o meu amigo... – Dr. Mendes engoliu em seco – E o pior é que o motivo foi o mais óbvio de todos: dinheiro.

- Eu diria que não foi só isso Dr. Mendes... - interveio Angélica – Na verdade James queria mais que o dinheiro, queria o universo do padrinho. Ele era um doente, sempre foi. E eu sempre soube disso, mas confesso que subestimei o maldito... não acreditei que ele fosse capaz de matar.

- Mas como foi que ele matou meu pai? – insistiu Cristine.

- Eu já chego lá. – continuou o advogado – No dia seguinte ao enterro de Artur fui procurado por Angélica, que me trouxe um frasco de remédio para o coração que Chico havia achado enterrado no jardim.

- Só um aparte – disse Angélica – Chico mora aqui na cidade desde que nasceu. A mãe dele era uma andarilha e morreu quando ele era pequeno. Chico ficou um tempo na casa paroquial, até que pediu um serviço para o padrinho, para conseguir algum dinheiro. E acabou ficando por aqui. Ele é deficiente mental, mas tem autonomia e mora numa casinha nos fundos do cemitério. Por sua deficiência física, como vistes, ele é muito retraído e raramente sai da propriedade do castelo. Mas é um bom amigo, um fiel amigo...

- E eu pude ver o quanto... – respondeu Cristine emocionada.

Dr. Mendes continuou:

- Chico encontrou aquele vidro num pedaço de canteiro revirado recentemente, bem perto do castelo, e ele achou estranho. Inicialmente acreditamos tratar-se de algum tipo de veneno, pois continha o rótulo do remédio que Artur fazia uso. Imediatamente mandamos para análise na capital. Depois de recebermos o laudo onde constava ser placebo no lugar do remédio Munhoz pediu a exumação do corpo para autópsia, que não havia sido feita por total falta de evidências de crime. E foi esta movimentação que percebeste no cemitério à noite. Não queríamos fazer alarde, nem assusta-la, pois as evidências começavam a apontar para a possibilidade de um crime. Quando saíste do castelo para ir até o cemitério foste avistada por Chico, que correu na frente e nos avisou. Por isto não tivemos tempo de fechar a lápide. Queríamos poupá-la e também não levantar suspeitas e alertar o possível criminoso. Pedimos que Chico a detivesse antes de chegar à sepultura, mas foste mais rápida...

- Ele quase me matou de susto. Pensei que fosse... sei lá...

- Um monstro?... – instigou Angélica.

- É. – respondeu Cristine envergonhada.

- O resultado da autópsia foi o esperado. Não havia sinais da medicação que Artur fazia uso regularmente. Ou seja, James o matou de uma forma perversa, privando-o sem saber do remédio que poderia mantê-lo vivo e bem. Trocou o remédio por placebo sabe-se lá há quanto tempo. E isso jamais saberemos.

- Mas... como é que passaram a desconfiar dele? – perguntou Cristine.

- Pequenas coisas... mas tivemos a confirmação com o depoimento de João Vítor. Ele referiu ter ouvido um ruído estranho no andar de cima no dia da morte de Adelaide. E o quarto dele ficava bem embaixo do de Artur. Aí Angélica se lembrou da passagem de acesso à rua, através do atelier e do quarto anexo.

"O quarto dos horrores", pensou Cristine, "mas então eles sabem da existência daquela aberração e acham normal!"...

- Aí foi muito fácil concluir quem poderia saber de sua existência, ter tido tempo de usa-la e estar perto o suficiente para faze-lo sem ser visto.

- James... – disse Cristine à meia voz – o quarto dele é defronte ao do meu pai...

- Isso mesmo. – concordou Dr. Mendes – Tratamos de fazer uma busca ali na primeira ocasião em que James foi para a cidade. Encontramos as armas escondidas no corredor de aceso à rua. Inclusive a arma que matou Adelaide. Tentamos verificar a existência de digitais, mas não havia nenhuma. O miserável foi cuidadoso, deve ter manuseado com luvas. Logo, não tínhamos provas suficientes para enquadra-lo. Era preciso dar corda para que se enforcasse. E foi o que fizemos. Dacosta e Thomaz redobraram a vigilância, zelando por tua segurança Cristine. Até que resolvestes ir embora. James não podia mais esperar. Ele tinha conseguido eliminar Artur. Precisava eliminar a ti para herdar a fortuna do tio, tendo em vista é claro, acabar com Angélica também. A última parte do testamento de Artur foi mudada muito recentemente, deixando para Angélica os bens na falta da filha. Acho que Artur sabia quem era seu inimigo e queria dificultar as coisas caso algo lhe acontecesse, além de proteger as pessoas que mais amava: vocês duas. Bom, aí esperamos James agir. Ele estava sendo seguido de perto por Thomaz, porem subestimamos sua capacidade intelectual. Ele deve ter percebido alguma movimentação e pôs Thomaz a nocaute, na mata. Por sorte não matou o rapaz, estava com pressa, o alvo dele era outro. O resto da história tu já conheces Cristine.

- Mas como você conseguiu chegar antes dele, Angélica? – perguntou Cristine.

- Thomaz deixou de responder pelo comunicador e vi que algo não corria bem. – a morena encarou Cristine – e senti medo. E corri pelos atalhos que tão bem conheço...

Ambas baixaram os olhos. Dr. Mendes continuou:

- E a história toda se resume a isso. E eu me sinto impotente de não ter podido fazer nada pelo meu amigo... – secou uma lágrima que lhe escorreu pelo canto dos olhos.

Os três ficaram em silêncio. Depois de um tempo o homem grisalho pediu licença e se retirou do recinto:

- Preciso me deitar – disse cabisbaixo – amanhã é outro dia e precisamos tocar a vida para frente.

Angélica se levantou e deu um abraço e um beijo carinhoso no advogado.

- Boa noite. – disse Dr. Mendes.

- Boa noite – responderam ambas, permanecendo no mesmo lugar.

Quando a porta se fechou atrás do advogado elas se olharam e sorriram timidamente. Foi Cristine quem iniciou o diálogo:

- A sua mão... chegou a levar pontos? – perguntou olhando para a atadura de gaze.

- Não. Não foi nada sério, só um cortezinho. Acidente de trabalho... – e riu-se.

- Ficar ao meu lado foi só... trabalho? – perguntou Cristine.

- Não. A princípio foi, depois não mais. Passou a ser uma motivação para viver.

- E eu posso acreditar nisso?

- Deve. – respondeu Angélica.

- Mesmo entre tantas mentiras?

- Eu não menti.

- Como não???

- Eu só ocultei algumas coisas. E para tua segurança.

- E o que me contaste sobre ti? E o teu trabalho de bibliotecária???

- Eu sou bibliotecária! E ultimamente tenho trabalhado no setor administrativo sim. Eu não menti. Só não podia falar toda a verdade para não colocar a tua vida em risco! É muito difícil de entender isso???

- Não sei... Tem algumas coisas que eu não sei...

- Mas então pergunta que eu te respondo!

- Angélica, por que tu me arrastaste pelo meio do mato, feito uma louca naquele dia que eu estava lá no cemitério?

- Porque queriam fazer uma peneira de ti!

- Como???

- Eu dei falta de mais uma coisa no castelo, outra arma, o arco e flecha do padrinho. E se eu não chego naquela hora a senhorita estaria igual a uma almofada de costureira!

- E por que me deixaste pensar que eu estava enlouquecendo, quando eu realmente vi o túmulo vazio??? Você não podia ter me deixado naquela angústia!

- Tine... eu não podia te contar... eu precisava te proteger... pelo amor de Deus, entenda isso!

- Como me proteger??? Me deixando crer que estava ficando louca???

- Não. Simplesmente não deixando aquele maldito desconfiar de que estávamos na cola dele. A gente precisava pegar o crápula... e tu sabe disso.

Cristine calou-se para depois de instantes continuar:

- Você conhece o atelier do quarto do meu pai?

- Claro que conheço, passei muitos dias da minha infância ali.

- E você sabe quem é a mulher do quadro inacabado?

- Sei.

- Não é você, não é mesmo? É uma mulher loira...

- Não, obviamente que não sou eu.

- E você sabe quem é?... – duvidou Cristine.

- Sei.

- Quem é então?

- A tua mãe.

Cristine calou-se e baixou os olhos. Angélica também permaneceu calada, encarando Cristine.

- E você conhece a extensão daquele quarto?

- Claro. – respondeu Angélica – É o quarto contíguo que leva a um corredor subterrâneo de saída.

- E aquele quarto era usado pra que? Pra magia negra? Quem era afinal meu pai?

Angélica não conseguiu conter o riso.

- Magia negra? O que é isso, Cristine, tu bebeu?

- Então me explica o que significam aqueles animais mortos e o pentagrama invertido na chave da porta.

- Bom, pentagrama invertido eu não me lembro, deve ter sido colocado de forma errada pelo próprio James, sei lá, pendurado ao contrário na pressa... E quanto aos animais, bem o teu avô era taxidermista.

- Taxidermista???

- É. E o padrinho tinha horror daquilo. Ele gostava dos animais vivos e não empalhados. Mas era uma atividade até que instrutiva. O vovô costumava distribuir exemplares, principalmente pássaros, para as escolas e para a universidade, para estudo das espécies.

Dessa vez foi Cristine quem teve de rir da própria imaginação.

- Tine, nem tudo é o que aparenta... – disse Angélica sabiamente.

- Mas mesmo assim... você não tinha o direito de me deixar sem saber a verdade. – insistiu Cristine.

- A verdade é que eu me envolvi contigo de uma forma que não consegui controlar, deixando de lado todo o meu "profissionalismo". Acabei deixando o sentimento prevalecer sobre a razão. E me dei conta que gostei disso. A verdade, Cristine, é que me apaixonei por ti. De uma forma intensa e verdadeira. E disso tu não tens o direito de duvidar. E no que depender de mim essa história está apenas começando. Eu sinto que podemos ter incontáveis momentos de felicidade juntas. E não falo de grandes planos pro futuro, eu falo do presente, eu falo de momentos... a vida é feita de momentos. E é o que eu sinceramente gostaria que acontecesse. Mas eu não posso mais do que dizer isto olhando nos teus olhos. Acredite se quiser. E, Cristine, eu lamento pelo teu pai... se eu tivesse algum poder sobre a vida e a morte eu certamente daria um outro desfecho nesta história...

Cristine baixou os olhos e calou-se. Deu-se conta que também amava Angélica, porém estava magoada. Precisava de tempo para pensar.

- Eu preciso pensar... – disse à meia voz.

- Tudo bem. Tu que sabe. Mas tenha a certeza que eu jamais quis te enganar, ou te magoar, ou te deixar angustiada. Muito pelo contrário: eu quis te proteger e daria a minha vida para isso.

Olhou Cristine nos olhos, deu meia volta e saiu, deixando-a sozinha com seus pensamentos. Cristine desabou num choro compulsivo. Soluçou por bastante tempo.

Quando por fim resolveu sair do escritório encontrou Anemary do lado de fora da porta, aguardando-a.

- Senhorita, gostaria de comer alguma coisa?

- Não. Não tenho fome.

- Mas a senhorita precisa comer algo. Eu levo uma sopinha no quarto, pode ser?

- Pode. Eu vou subir.

- Eu levo a sopa já, já.

- Obrigada.

Cristine subiu e em menos de cinco minutos Anemary batia à sua porta. Ao sentir o aroma da sopa se deu conta que estava começando a ficar com fome. Alimentou-se e deitou-se na cama. Adormeceu depois de muito tempo a olhar para o teto.

Em sua cabana Angélica também fez um lanche e se recolheu. Estava exausta. Toda a musculatura de seu corpo estava dolorida. Tomou um analgésico e tentou conciliar o sono. Havia dito o que sentia para Cristine, toda a verdade. Não podia fazer mais nada além de deixa-la pensar e resolver suas crises existenciais sozinha. Agora tudo dependia de Cristine. Decidiu não forçar as coisas e esperar para ver.

 

*****************

 

No domingo Cristine permaneceu recolhida em seu quarto. Angélica também ficou restrita à sua cabana, nem sequer passou pelo castelo para saber notícias de Cristine. Continuava com seu propósito de dar tempo ao tempo e deixar Cristine colocar suas idéias em ordem, embora internamente seu desejo fosse o de bater no quarto da loirinha e toma-la nos braços, fortemente.

A noite caiu chuvosa e Cristine observava as gotículas de chuva escorrendo pela vidraça de sua janela. De seu quarto Angélica também observava a chuva. Seu peito estava apertado e mal conseguia controlar sua vontade de procurar Cristine. Mas não o fez.

 

Na segunda feira o céu continuava carregado, porém havia teto para o pouso e decolagem de aviões no Aeroporto Salgado Filho. Uma figura morena de porte elegante observava de longe a mulher loira passando pelo portão de embarque e acenando tristemente para o Dr. Mendes. Angélica havia seguido em seu carro para o aeroporto, bem cedo, antes mesmo de Cristine. Viu quando ela chegou acompanhada pelo amigo e ficou a observa-la furtivamente e ao longe, porém sem deixar-se ver.

Quando o avião tomou velocidade e o trem de pouso levantou-se do chão firme Angélica secou uma lágrima que teimava em escorrer de seu rosto. Encostou a testa e as palmas das mãos na imensa parede envidraçada e chorou. Era preciso agora voltar para casa, sozinha, e continuar a viver. E foi o que fez.

A bordo da aeronave a sensação de Cristine não era só de desconforto, era de mágoa, angústia e solidão. Pensara que se sentiria melhor voltando para casa, mas se dava conta naquele momento que isto não passava de uma ilusão.

 

*************

 

 

Quando o gigante voador de extensas asas metálicas deixou cair seu trem de pouso para tocar a pista do Galeão, Cristine suspirou profundamente. Estava de volta ao lar. Mas que lar?... Seu apartamento a esperava, assim como seu trabalho, porém agora se sentia parte também de outro lugar, um lugar longínquo e sombrio, onde uma mulher morena havia conquistado seu coração e a decepcionado a ponto de faze-la desistir de viver um grande amor.

Uma sensação de alívio a invadiu quando o avião diminuiu a velocidade e por fim estacionou para o desembarque dos passageiros. Sentia-se segura em terra firme.

Cristine distraiu-se enquanto tentava identificar sua bagagem na esteira rolante repleta de malas. Depois de localizar e pegar as suas, e coloca-las no carrinho metálico, dirigiu-se para a saída.

Duas caras conhecidas a esperavam para leva-la para casa. Cynthia e Ariel acenaram efusivamente tão logo a avistaram. Cristine retribuiu o aceno. O sorriso de Ariel fez com que Cristine se reportasse instantaneamente ao rosto de Angélica. Sentiu uma fisgada de mágoa no peito. Respirou fundo e tratou de abraça-los tentando disfarçar sua tristeza. Sentiu o olhar perscrutador de Cynthia.

No trajeto até o apartamento de Cristine, enquanto Cynthia dirigia em silêncio, Ariel tagarelava sem parar contando as novidades dos últimos dias.

- Tu não consegue imaginar a quantidade de gatinhas que eu azarei até agora! – dizia Ariel alegremente – Isso sem falar nas ondas! To adorando esse lugar. Pena que tenha de voltar para casa daqui a dois dias, por causa da escola... Mas ainda bem que terminou aquela novela de terror lá de casa. Eu falei com a mana ontem e ela me contou que foi o miserável do James que matou a Adelaide. Ainda bem que ele ta morto também, aquele bandido!

- Pois é... – concordou Cristine com um suspiro – Ainda bem que tudo terminou...

- Eu pensei que tu ia ficar mais tempo lá. – continuou Ariel – Ainda mais que o castelo agora é teu.

- Eu preciso me organizar, querido. A minha vida é aqui... – respondeu Cristine.

- Mas eu ia gostar se tu fosse morar lá! – insistiu o adolescente.

- Ta interessado numa professora de graça, né moleque? – brincou Cynthia tentando mudar o foco da conversa. – Quem sabe você vem para cá?

- Eu bem que queria, mas só se o pai, a mãe e a mana viessem junto. E eles não saem de lá!

Cristine olhou para o nada e Cynthia passou a contar as novidades do escritório, numa clara intenção de mudar o rumo da prosa. Ao chegarem no apartamento da loirinha subiram para deixar as malas e depois trataram de comer fora, pois já passava das duas horas da tarde.

Logo após o almoçarem Ariel foi para a praia, havia marcado de encontrar alguns novos amigos. Cynthia convidou Cristine para uma caminhada na orla. Andando vagarosamente pelas areias do Leblon Cristine sentia o calor do sol em seu rosto e isso a fazia sentir-se um pouco melhor, como que energizada pela força do astro-rei. Caminharam em silêncio até que resolveram tomar uma água de côco. Depois sentaram na areia, na beira da praia, e Cynthia puxou o assunto:

- Muito bem, amiga, agora me conta tudo o que houve... Quero saber tintin por tintin o motivo desses inúmeros suspiros e dessa carinha triste.

Cristine sorriu melancolicamente e começou seu relato. Estava mesmo sentindo necessidade de desabafar. Cynthia ouviu toda a história em silêncio. Por fim, quando o sol já havia se escondido por trás dos edifícios altos e uma coloração avermelhada indicava que a noite se aproximava, Cynthia aproveitou a pausa de Cristine e passou do monólogo ao diálogo.

- Tine, você quer saber a minha opinião a respeito de tudo isso?

- Por favor... – respondeu Cristine.

- Bom, eu te deixei falar, agora quero que me escute, ok?

- Tudo bem.

- Amiga, eu te conheço há um bom tempo... e quer saber?...Você está com uma crise de auto-piedade, está sendo infantil, imatura e descartando uma possibilidade de ser muito feliz por pura burrice!

- O que é isso Cynthia? Ta contra mim???

- Muito pelo contrário: eu tô a favor!

- Mas então você não assimilou nada do que te contei...

- Claro que assimilei! Você me contou uma história de família muito triste, em contrapartida a uma demonstração de amor incondicional! Minha amiga, a mulher com a qual você está "imensamente magoada" quase morreu pra te salvar! Acorda, mané! Não ta te dando conta que essa mulher te ama, não? Para de sentir pena de ti mesma. Tudo bem que a história da tua família é uma história fudida mesmo, mas a Angélica não tem culpa disso! E se ela não te contou tudo o que sabia foi pra te proteger, ô cabeça dura!

Cristine permaneceu em silêncio, olhando o mar. Cynthia continuou:

- Tine, tem situações na vida da gente que não dependem de nós... E a gente não pode voltar no tempo pra consertar absolutamente nada, ou para fazer diferente. Mas a gente deve tentar viver bem o presente, e aproveitar as coisas boas que o destino nos coloca no caminho. Isso para não lamentarmos depois... E pelo que você está me contando essa mulher pode te fazer feliz sim... Isso se você der uma chance a vocês duas.

- Mas, você acha que ainda é tempo?... Eu não consegui nem mesmo me despedir dela.

- E porque? Por mágoa ou por não ter certeza de conseguir dizer adeus???

- Não sei... acho que os dois... – respondeu Cristine confusa.

- Tine, olha só... você sabe que eu detesto dar palpites na vida alheia, mas foi você que perguntou a minha opinião, logo me deu abertura para isso. Além do que eu sinto um carinho muito grande por você... e quero te ver feliz.

Cristine virou-se para Cynthia e a abraçou, caindo num choro compulsivo.

- Eu... faço... tudo errado mesmo... – disse Cristine entre soluços.

- Para de chorar, garota. Seca essas lágrimas e vai à luta. Faz alguma coisa! Só não fica chupando dedo por que a fila anda...

O sol desapareceu de vez por trás dos prédios e a praia foi invadida pelas cores da noite. As luzes de neon, o calor e o burburinho da cidade grande eram como um bálsamo para Cristine, mas lhe faltava algo para sentir-se completa. Desejava estar nos braços da mulher que deixara em Doze Colinas, e que poderia não querer voltar a vê-la novamente.

 

 

Duas semanas depois...

 

Novamente Cristine era invadida pela mesma sensação de desconforto ao entrar na aeronave que estava preste a alçar vôo. O que mais fizera naqueles dias desde que retornara para o Rio fora pensar... Pesara toda sua vida e se dera conta que Cynthia tinha razão no que lhe colocara. Havia deixado a autopiedade sobressair-se à capacidade de perceber o óbvio: Angélica havia somente cumprido sua missão a contento, que era protegê-la e zelar por sua segurança. Mais que isso, havia sido muito mais que uma profissional, tinha agido como uma pessoa que ama acima de tudo. E cada vez que pensava nela um aperto no peito a fazia sentir medo de nunca mais sentir o abraço da morena, os beijos, os afagos, a proteção...

Cada vez que se lembrava de que havia saído sem despedir-se sentia vontade de esmurrar o próprio rosto e repetia para si mesma: burra, burra, burra. Inúmeras vezes nas duas semanas que se passaram havia pegado o telefone para falar com Angélica, mas não teve coragem. Chegara a discar o número e quando a voz melodiosa e grave do outro lado da linha respondia "alô", desligava sem conseguir pronunciar palavra alguma.

Por fim decidira que voltaria para Doze Colinas. Precisava falar com Angélica pessoalmente, e qualquer fosse a reação da morena precisava procura-la. Estava disposta a pedir perdão se preciso fosse e aceitar qualquer condição ou crítica... Sentia a necessidade de tentar reconstruir sua vida. Com este propósito fizera suas malas no dia anterior. Havia tido tempo de colocar os negócios do escritório em ordem e combinar seu afastamento por alguns dias com Cynthia, ou quem sabe por meses...

A amiga havia lhe dado todo o estímulo e apoio de que precisava. E lá estava ela, novamente à mercê dos caprichos e dos sacolejos daquele trambolho voador. Se fosse de carro demoraria muito. Depois de tomada a decisão queria ver Angélica o quanto antes. Havia sondado sutilmente o Dr. Mendes por telefone e este comentara que Angélica ainda estava passando uns dias em casa.

 

Quando o avião fez seu pouso em solo sul-rio-grandense Cristine sentiu o coração bater-lhe na garganta. Alugou um carro e rumou na direção de Doze Colinas. Ao longo do trajeto pôde observar a paisagem, agora iluminada pelos raios do sol, que finalmente deram fim à temporada chuvosa de dias atrás. Parecia que estava num lugar diferente. Era engraçado, pensava Cristine, como até mesmo a paisagem pode ser subjetiva. Clara e límpida como estava naquela manhã de sábado não parecia a mesma que conhecera anteriormente, tão lúgubre e sombria.

Ao chegar a Doze Colinas também se surpreendeu com o colorido da vegetação contrastando com o céu de brigadeiro daquele início de tarde. Havia almoçado na estrada e ao cruzar o portão de sua propriedade rumou diretamente para a cabana de Angélica. Devido ao horário todos repousavam e nem perceberam sua chegada. Estacionou na frente da cabana e bateu suavemente na porta, ninguém atendeu. Levou a mão à maçaneta e a porta estava aberta. Espiou para dentro e disse baixinho:

- Ô de casa...

Nenhuma resposta. Sentiu o cheiro de Angélica na casa, tudo emanava o perfume da morena. Era como se a aura da casa estivesse a lhe dar as boas vindas. Sentia um misto de felicidade e medo, afinal não sabia como a morena reagiria à sua presença. Olhou em volta e instintivamente caminhou na direção da estufa.

 

Naqueles poucos dias que a separavam de sua estada anterior naquela cidade o clima sofrera uma mudança brusca. O inverno cedera lugar de vez para o romper da primavera. Apesar do clima ainda permanecer ameno Cristine pôde deixar seu agasalho mais pesado no carro. Apenas um suéter de lã por sobre uma camiseta de malha conseguia manter a temperatura de seu corpo num nível agradável. A calça jeans bem justa cobrindo a bota de couro de búfalo realçava as curvas de seu corpo. Cristine movia-se vagarosamente e observava tudo ao seu redor, sob a nova perspectiva daquele dia ensolarado.

 

 

A estrutura que abrigava uma quantidade incalculável de espécies da flora daquele lugar encontrava-se mergulhada na mais absoluta quietude. Cristine entrou na estufa sem fazer ruído. Numa primeira impressão pensou que encontraria Israel logo na entrada, porém se deu conta de que ele deveria estar fazendo a sesta. Caminhou compassadamente por entre os corredores de prateleiras de madeira e estancou quando viu a figura esguia e os cabelos negros de Angélica de costas para ela, abaixada sobre um vaso, parecendo transportar uma muda de flor.

Cristine prendeu a respiração e sentiu seu coração disparar. Por instantes teve a sensação de que Angélica poderia escutar o ritmo de sua pulsação acelerada. Respirou fundo e aproximou-se lentamente. Não sabia o que dizer.

Angélica, cabisbaixa, remexia na terra fértil, num vaso de violetas de flores azuladas. Seu ouvido apurado captou passos silenciosos atrás de si. A princípio pensou tratar-se de Ariel e decidiu deixa-lo pensar que não o havia percebido. No entanto uma suave rajada de vento fez o perfume de Cristine deslocar-se ternamente na direção de Angélica até ser percebido pela morena. Esta estancou o movimento que fazia na terra e levantou vagarosamente a cabeça sem se virar para trás. Por breves instantes ficou tentando descobrir se seu olfato a traía ou se verdadeiramente Cristine estava se aproximando. Percebendo seu estado de alerta interno Cristine estancou e ficou a admirar a mulher ali tão perto, com uma vontade quase que incontrolável de se jogar em seus braços. Angélica também teve seus batimentos acelerados e tentava concentrar seus sentidos atrás de si, ainda sem fazer menção de se virar.

Cristine deu mais um passo na direção da morena e uma nova rajada da fragrância de seu perfume deu à Angélica a certeza de que ela estava ali. Lentamente Angélica se virou para trás, olhando para cima e encarando a mulher que se aproximava devagar. Cristine olhou para ela e parou, sorriu timidamente, sem conseguir articular palavras. Sem saber nem mesmo onde colocar as mãos permaneceu com ambas nos bolsos traseiros da calça jeans, enquanto encarava Angélica que também lhe sorria em silêncio. Foi a morena quem primeiro tomou a iniciativa de se levantar e disse:

- Bem vinda...

- Obrigada... – respondeu Cristine ainda timidamente - ...eu... eu nem sei o que falar...

- Que tal: boa tarde? – disse Angélica tentando quebrar o clima de desconforto.

Cristine foi obrigada a sorrir e disse:

- Pois é... boa tarde. E... como você está?

- Ahn... bem... Sobrevivendo. E tu?

- Também... Sobrevivendo. Melhor agora. Muito melhor agora. – disse Cristine.

- E porque?

- Porque te vi. – respondeu Cristine encarando Angélica nos olhos.

A morena desviou os olhos e deu as costas para Cristine, caminhando na direção do pequeno tanque nos fundos da estufo, ao lado dos canteiros de morangos. Cristine passou a segui-la e desandou a falar:

- Angélica... eu... olha, eu nem sei por onde começar... é que... bem... eu fui uma estúpida em duvidar de você, em não entender que você estava só me protegendo, em ter ido embora sem nem ao menos me despedir... mas é que eu não sei se conseguiria... eu precisava de tempo... de tempo para pensar... tempo para colocar as idéias em ordem... tempo para entender que eu fui muito burra... tempo pra parar de ter pena de mim mesma e me achar a criatura mais infeliz do mundo... tempo pra perceber que eu tive uma mulher maravilhosa que quase morreu por minha causa e que eu, na minha estupidez e auto-piedade não me dei conta disso... E... eu não tive coragem nem de te ligar, até porque eu precisava te dizer isso pessoalmente... eu não podia pedir perdão por telefone...

Angélica lavava calmamente as mãos na água corrente. Com a mesma calma secou as mãos na toalha pendurada ao lado do tanque, ainda de costas para Cristine que continuava sua enxurrada de palavras que lhe brotavam de improviso num tagarelar desenfreado. Nesta feita Angélica virou-se para a loirinha e deu dois passos em sua direção, ficando defronte a ela, fitando-a de cima, olhos nos olhos. Cristine estancou seu discurso. Angélica lhe encarou profundamente e num gesto firme, ainda em silêncio, a envolveu pela cintura trazendo-a para junto de si e praticamente erguendo-a no ar, junto a seu corpo. Segurou-a pela nuca enquanto capturava seus lábios com sofreguidão e loucura. Cristine abandonou-se naquele beijo e seus medos todos se dissiparam como que por encanto. Sentiu a boca de Angélica ávida pela sua, as línguas sedentas procuravam contato num bailado frenético. As mãos pareciam querer capturar cada curva, cada pedaço do corpo. Os corações batiam descompassadamente.

Aos poucos foram diminuindo o ritmo ávido do beijo, dando lugar a uma carícia mais suave. Por fim olharam-se nos olhos e sorriram.

- Angélica, eu... eu pensei que...

- Tine... – interrompeu a morena.

- O que?

- Cala a boca e me beija! – emendou Angélica enquanto capturava novamente os lábios da mulher em seus braços.

Depois de novamente abrandar-se a ânsia e a sofreguidão das bocas fitaram-se novamente nos olhos.

- Eu quase morri de saudade... – disse Cristine.

- E eu de angústia... e medo. – respondeu Angélica.

- Medo?

- Medo de que nunca mais voltasses para cá... para mim.

Cristine sorriu e respondeu:

- Você me perdoa?

- Vou pensar... – disse a morena provocativa.

- E vai demorar muito pra pensar?...

- Depende...

- Do que?

- Do teu esforço em pedir desculpas...

- Huuum... Isso ta me cheirando a algum tipo de... chantagem?...

- Quem sabe? Eu chamaria de... estímulo.

- To gostando dessa conversa... – disse Cristine com um sorriso maroto.

Angélica a soltou e colheu um dos morangos maduros do canteiro. Lavou-o e fez menção de leva-lo à boca de Cristine, que tentou morde-lo. A morena puxou o fruto polpudo em sua direção e o segurou entre os lábios logo após dizer:

- hã, hã... vem pegar...

Dessa vez foi Cristine quem segurou a morena com firmeza e abocanhou o fruto maduro, cujo caldo adocicado escorria pelos cantos das bocas de ambas, enquanto novo beijo ardente fazia os corpos esfregarem-se com avidez.

Passada um pouco a urgência de ambas abraçaram-se com doçura. Angélica questionou:

- Alguém sabia que tu virias hoje?

- Ninguém.

- Nem o Dr. Mendes?

- Nem ele. Eu queria fazer uma surpresa...

- Huumm...

- Confesso que eu estava muito... receosa em relação à recepção que teria...

Angélica sorriu docemente e perguntou:

- Receosa porque?

- Sei lá... Eu saí daqui como uma louca desvairada... fugindo como uma tola...

- Posso te confessar uma coisa? – perguntou a morena.

- Claro...

- Eu tinha certeza que virias.

- E posso saber como, senhora-sabe-tudo? – perguntou Cristine colocando as mãos na cintura e fingindo indignação.

- Palpite. Aliado a uma dose de confiança no meu poder de sedução... – disse sorrindo provocativa.

- Convenciiiida... – emendou Cristine.

- E também por causa de certos telefonemas que recebi, onde a pessoa não conseguia mencionar uma palavra sequer...

- E posso saber o que te leva a crer que fui eu quem te ligou?

- Novamente a minha intuição. E o fato de que ninguém se engana de número tantas vezes... E também por causa da Bina.

Desta vez foi Cristine quem teve de sorrir encabulada.

- Pois é... eu sou uma boba mesmo... teria sido muito mais fácil ter confiado em ti... ter deixado de lado minha auto-piedade, ter percebido o quanto você fez por mim...

- Mas o importante é que estás aqui. – interrompeu a morena – E eu estou imensamente feliz em tê-la assim... nos meus braços.

Cristine abraçou Angélica com força e encostou seu rosto no peito da morena. Sentia como se todo o universo pudesse caber dentro daquela estufa. Parecia que explodiria de felicidade.

- Vamos até lá em casa – disse Angélica – Tu deves estar cansada da viagem.

- Nem tanto... Mas vamos sim... Eu quero poder ficar mais à vontade...

- Isso é uma proposta?

- Como quiser... – respondeu a loirinha sorrindo.

- Mas então vamos escapar em silêncio, pois se o Ariel sonha que estás aqui não arreda mais o pé!

Ambas riram do garoto. Angélica continuou enquanto caminhavam para a cabana:

- Aquele cabeça-de-vento não incomodou muito lá no Rio?

- De forma alguma. A Cynthia mal via o Ariel. Ele arrumou uns amigos no prédio e passava a maior parte do tempo na praia.

- O cabeçudo sabe se virar! – riu-se a morena.

- Isso sem falar das inúmeras conquistas do garoto! – continuou Cristine – To começando a acreditar que o sorriso sedutor é genético!

- Pode ser... quem puxa aos seus...

Cristine gargalhou.

- Ta bom...

 

Caminharam rapidamente até a cabana de Angélica. Cristine colocou o carro nos fundos, para não ser avistado por ninguém e entrou pela porta da cozinha. Angélica a esperava estendendo uma toalha na mesa.

- Tu almoçaste?

- Almocei. Na estrada.

- E ta com fome?

- To.

- Então eu vou preparar um lanche. – disse Angélica.

- Não precisa – respondeu Cristine enquanto envolvia a morena pela cintura – A minha fome é outra...

E passou as mãos maliciosamente pelos seios de Angélica que se virou e a abraçou intensamente. De novo as bocas se fundiram num beijo ardente e em poucos instantes estavam no andar de cima, totalmente nuas e mergulhadas uma nos braços da outra. Sentiam a excitação brotar em cada poro e em cada pedaço de pele acariciada. A umidade dos sexos jorrava em cântaros e o desejo tomava forma em espasmos de prazer. Deram-se uma à outra sem pudores, sem promessas, sem medos. Amaram-se com ardor e doçura, com ânsia e mansidão, com total entrega e incondicional confiança. Permaneceram aninhadas até o sol se por no horizonte e a noite envolver a terra com seu manto estrelado. Quando a madrugada ia alta resolveram descer para comer alguma coisa. Estavam exauridas, porém radiantes de felicidade. Depois de lancharem retornaram à maciez dos lençóis e adormeceram quando a luz da alvorada já lançava sua coloração avermelhada sobre as montanhas do leste.

 

O domingo amanheceu ensolarado e sem nuvens. Por volta das dez horas da manhã Cristine despertou e deparou-se com Angélica a contemplar seu rosto com um sorriso sereno e amoroso.

- Bom dia... – disse a morena languidamente.

- Maravilhoso dia...– respondeu Cristine beijando os lábios de Angélica com suavidade – E mais maravilhoso é o fato de eu não estar sonhando...

- Pois então...

- Angélica... Eu te amo.

- Eu também te amo.

- Eu nunca senti nada parecido antes, por ninguém. Não com essa intensidade.

- E a tua... namorada... lá na tua cidade? – instigou a morena.

- Não era namorada... era "ficante".

- Moderninha, ein, moça?

Cristine riu-se e respondeu:

- Na verdade era namoro da minha parte, mas não da dela, logo...

- E agora é o que? – quis saber Angélica.

- Não é mais nada. É passado. O meu presente é aqui, contigo. E é só o que importa.

- Taí. Gosto desse discurso. – disse a morena sorridente – E... o que tu pensas em fazer daqui por diante? Vai ficar algum tempo por aqui?

- Vou. Pretendo tocar os negócios da família...

- E o teu escritório no Rio, teus trabalhos em andamento?

- A Cynthia vai dando continuidade. Se precisar dou um pulo lá... mas volto logo. Agora tenho um motivo especial para não me afastar muito tempo daqui...

- E posso saber qual é?... – questionou Angélica fitando-a nos olhos.

- Digamos que, além dos negócios obviamente, é... uma certa mulher muito especial... a qual eu não posso correr o risco de deixar sozinha... a qual me fez ver o quanto é possível ser feliz.

- Nossa... que pessoa especial! E posso saber quem é??? – brincou Angélica.

- Depende... Você sabe guardar segredo?

- E por que deveria guardar segredo?

- Para que essa pessoa não fique sabendo e com isso não fique muito convencida, entojada, sobre-si, achando que é a última coca-cola do deserto, sabe como é...

- Huuuummm... entendi... Mas pode confiar, eu guardo segredo sim. Me conta.

- Bom... – disse Cristine – Eu vou te dar algumas pistas. É uma mulher de belos olhos azuis, pele morena, cabelos negros... Já sabe quem é?

- Nem imagino. – respondeu Angélica com um sorriso sedutor.

- É uma mulher que não resiste ao meu toque... – continuou a loirinha enquanto levava sua mão até o triângulo de pelos negros e resvalava seus dedos com suavidade sobre o sexo da morena, fazendo-a abrir suas pernas receptivamente - ... e se abre... e geme quando eu a penetro... – neste momento Cristine introduziu dois dedos na cavidade quente e úmida, fazendo a morena se contorcer e gemer baixinho.

- Hããããn... to começando a imaginar quem seja... – sussurrou Angélica à meia voz - ...mas me dá mais... hããã... algumas pistas....

- Ela é simplesmente a mulher mais gostosa que eu já tive... – respondeu Cristine com a boca colada ao ouvido de Angélica e movimentando seus dedos ritmicamente – e goza quando eu a toco... assim...

- Hãããããã... delícia... – gemeu a morena.

- E pede mais...

- Hãããã... mais... eu quero mais... assim... huuummm. Continua... hããããã...

Cristine aumentou o ritmo de seus dedos e em instantes a morena arqueou o corpo num orgasmo intenso. Ainda com os dedos acariciando suavemente o sexo de Angélica, a loirinha perguntou ao seu ouvido:

- E então? Já adivinhou quem é?

A morena sorriu enquanto a envolvia num abraço fazendo-a deitar-se sobre ela.

- Acho que sim.

- ACHA???

- Acho... Se disser que tenho certeza tu me chama de convencida.

Ambas gargalharam.

- Escuta, que tal se a gente levantar? – perguntou Cristine.

- Tudo bem. Só me deixa recuperar o fôlego, por favor. Dois minutinhos. E, Tine...

- O que?

- Tira a mão do meio das minhas pernas.

 

 

Ao meio dia Angélica e Cristine entraram no castelo pela porta da cozinha, surpreendendo Regina que se preparava para servir o almoço. Esta não conteve uma exclamação de satisfação:

- Minha filha!!! Que grata surpresa! Quando foi que chegaste? – perguntou a mulher mais velha abraçando Cristine efusivamente.

- Ontem! - Há pouco! – responderam Cristine e Angélica exatamente ao mesmo tempo.

Regina olhou para as duas sem entender nada. Ambas titubearam e desviaram o olhar de Regina, tentando disfarçar. Foi Angélica quem saltou na frente:

- Mãe, Cristine chegou ontem, mas como passou lá em casa primeiro e estava muito cansada, pois veio de carro, acabou adormecendo e só acordou agora há pouco. Por isso foi como se tivesse chegado de fato agora há pouco... e por isso só viemos pra cá agora.

- Ah, bom... – respondeu Regina olhando para as duas com uma expressão desconfiada, porém sorridente – Mas que bom que voltastes, guriazinha – continuou dirigindo-se a Cristine – a gente acabou se acostumando contigo. E agora aqui é a tua casa. O Dr. Mendes sabia que virias?

- Não. – respondeu Cristine – Eu quis fazer uma surpresa.

- Ele está lá no escritório. Eu já ia servir o almoço.

- Então a gente vai até lá, dar um abraço nele. – disse Cristine.

Neste momento Anemary entrou na cozinha e surpreendeu-se ao ver Cristine:

- Senhorita... prazer em revê-la. Só um minuto e já providencio que peguem sua mala e levem para seu quarto. - agitou-se a governanta.

- Pode deixar, Anemary, muito obrigada, mas deixei minhas coisas na casa de Angélica.

- Ahaa... pois sim. Então vou avisar Morris de sua chegada, e o Dr. Mendes também.

- Pode deixar, a gente vai até o escritório e encontra o Dr. Mendes. – respondeu Cristine.

- Como queira, senhorita.

 

Cristine e Angélica seguiram pelo corredor de pedras e no caminho cruzaram por Morris, que as cumprimentou com a mesma formalidade e inexpressividade de sempre. Ao adentrarem no escritório o advogado também se surpreendeu com a chegada repentina de Cristine, mas demonstrou extrema alegria ao revê-la. Abraçou-a afetuosamente, dando-lhe as boas vindas e ficando feliz ao ser informado de que ficaria mais tempo no castelo, e tinha intenção de colocar-se à frente dos negócios da família.

Almoçaram animadamente e na primeira hora da tarde Cristine convidou Angélica para uma visita ao quarto de seu pai. Queria rever o atelier.

 

 

Ao cruzarem a porta maciça de madeira Cristine fechou os olhos e aspirou o aroma daquele aposento.

- Tem um cheiro peculiar aqui. – disse ainda de olhos fechados.

- É o perfume do padrinho. Tudo aqui ainda tem a aura dele. Anemary areja o quarto todos os dias e cuida de tudo como se ele ainda estivesse aqui... – respondeu Angélica.

- E porque ela faz isso?

- Por que ela é uma eterna apaixonada por ele.

Cristine suspirou e sorriu tristemente.

- Mas com certeza ela terá mais lembranças dele do que eu...

Angélica a abraçou carinhosamente enquanto Cristine prosseguia seu discurso:

- Olha só, já estou eu me colocando numa posição de vítima de novo... vou levar um tempo até superar isto.

- Tudo bem... – disse a morena aconchegando-a junto ao peito.

- Mas eu supero. Pode acreditar.

- Eu acredito.

- Angélica, quero ir até o atelier. – disse enquanto se dirigia ao quarto que conhecera furtivamente em outra ocasião.

O atelier continuava com o odor de um aposento fechado. Logo que entraram e acenderam as luzes Angélica tratou de abrir as cortinas e descerrar os tampos das janelas de madeira. Instantaneamente a claridade do meio-dia invadiu a peça e tudo assumiu uma outra perspectiva. As sombras lúgubres cederam lugar às prateleiras simetricamente alinhadas e em cujas divisórias de madeira repousavam pincéis e tintas multicoloridas. Tudo parecia diferente naquela manhã.

Novamente Cristine contemplou em silêncio a tela que retratava a camponesa, cujo rosto estava apagado.

- Imagine esta mulher com o teu rosto – disse Angélica – e pronto: eis o retrato da tua mãe.

- Eu gostaria de saber porque ele não fez o rosto...

- Ele fez. Mas desfez inúmeras vezes... e refez novamente, e desfez de novo. Até que um dia desistiu de tentar imaginar como estaria o rosto deste retrato.

- Será que ele terminaria o quadro algum dia?

- Quem sabe... Talvez olhando pro teu rosto...

Cristine sorriu tristemente e emendou:

- Apesar de tudo fico confortada em saber que de alguma forma fui amada pelo meu pai... e minha mãe também.

- E é isso que importa, Tine... E tenha a certeza que tu conseguiste transformar a essência do teu pai. O homem amargo cedeu lugar a um ser esperançoso e confiante na providência divina. O homem descrente passou a acreditar que existe muito mais do que nossos sentidos possam perceber.

- Que bom.

Cristine continuou sua exploração no recinto até que ficou frente a frente com a porta que levava ao que pensou ser um aposento macabro. Aproximou-se e pode verificar que o pentagrama invertido estava pendido por falta de um dos pregos em seu suporte metálico. Na madeira da porta havia a marca original da figura mística da chave, com uma das pontas voltada para o alto, lembrando o contorno do Homem Vitruviano, de Da Vinci. Riu-se de sua capacidade de materializar fantasmas e monstros imaginários. Levou sua mão à porta e empurrou a pesada estrutura para dentro. Instintivamente deu um passo atrás quando a lufada de ar saturado e mofo invadiu suas narinas. Angélica passou à sua frente e fez a mesma coisa que fizera no atelier: abriu as janelas, escondidas atrás de uma pesada cortina negra, e deixou a luz do sol entrar. Desta vez Cristine pôde observar o aposento atentamente. A mesa de tampo de madeira desgastada pelo tempo ostentava ferramentas e alguns animais empalhados. Nas prateleiras aéreas também havia vários espécimes de pássaros inanimados. Havia inclusive uma pequena onça e um gato-do-mato, cuja expressão feroz amedrontaria até mesmo o mais valente dos mortais.

- Eu não gosto daqui... – disse Cristine olhando ao redor.

- O padrinho também não gostava. Aliás, raramente abria esta peça.

- Mas existe uma passagem para a rua por aqui, não é mesmo?

- Existe. Foi por onde James circulou para cometer seus crimes.

- Eu quero ver onde é.

- Não vale a pena... – ponderou Angélica.

- Mas eu quero. – teimou Cristine.

Angélica assentiu com um balanço de cabeça e dirigiu-se para uma parte da parede de pedras, onde havia um nicho no qual caberia uma estátua humana de tamanho natural. Levou sua mão à pesada estrutura e empurrou para o fundo. Com um barulho de roçar de pedras a parede maciça deslocou-se para o lado, dando espaço para a passagem de uma pessoa. Cristine espiou para dentro do que seria um túnel.

- É escuro como breu. Mas eu quero conhece-lo.

- Vamos precisar de uma lanterna – disse Angélica dirigindo-se para o atelier e voltando logo em seguida com um pequeno foco de luz artificial.

A morena fitou Cristine com seriedade e perguntou:

- Tu tem certeza que quer levar isso adiante?

- Absoluta. – disse Cristine.

- Vamos então. – respondeu Angélica passando pela fenda na pedra e sendo seguida de perto por Cristine.

 

O ar naquele lugar era úmido e fétido. A umidade era tanta que se podia sentir pequenas gotículas que despencavam do teto baixo e ovalado. Após darem dois passos a porta se fechou atrás delas fazendo Cristine sobressaltar-se e agarrar-se à Angélica.

- Calma. – disse a morena – É assim mesmo. Vamos.

Caminharam vagarosamente por uma estreita passagem cujo chão de terra abafava o barulho dos passos. O corredor não devia medir mais do que um metro de largura e Cristine tinha a sensação de que se estreitava cada vez mais. Colada à Angélica avançava na escuridão iluminada apenas pelo sutil facho de luz da lanterna. Andaram por cerca de cinqüenta metros quando finalmente Cristine vislumbrou uma nesga de claridade à sua frente. E conforme iam avançando a claridade se tornava mais próxima. Após mais dez metros pôde perceber que haviam chegado à saída. Respirou aliviada assim que sentiu o sol em seu rosto, ao irromper do fosso escuro, como se tivesse sido parida para a luz. A saída do túnel era camuflada por uma vegetação trepadeira que havia formado uma cortina esverdeada, sendo dificilmente localizada por quem não conhecesse muito bem aquele local.

Ao sentir-se fora daquele lugar Cristine abriu os braços, como que desejando acariciar o sol e a brisa fresca daquele início de primavera. Angélica sorriu para ela e perguntou:

- E então? Mataste a curiosidade?

- Não era só curiosidade. Era necessidade. Já que aqui é minha casa agora, preciso conhece-la. E ninguém melhor do que você para ser minha cicerone.

- Pois que seja então. – concordou Angélica sorridente. – Vamos voltar?

- Vamos, mas aqui por fora. Não quero mais passar por ali.

Retornaram caminhando vagarosamente, enquanto Cristine admirava a paisagem do lugar. A vegetação refletia os raios solares e assumia matizes que iam do verde musgo ao verde limão. Para Cristine parecia um lugar bem diferente do que vira a alguns dias atrás.

Contornaram o castelo por fora e Cristine disse à Angélica:

- Vamos até a sua casa? Eu quero pegar uma coisa na minha mala e visitar um lugar.

A morena a encarou com uma expressão curiosa, porém assentiu sem questionar. Rumaram lado a lado, divagando sobre o cotidiano e sobre a paisagem, sobre Ariel e sobre Chico. Ao chegarem à cabana Cristine remexeu em sua mala e pegou um pequeno embrulho.

- Pronto. Vamos. – disse a loirinha.

- Para onde?

- Você já vai ver.

 

***************

 

Angélica seguiu Cristine que enveredou para os lados do cemitério. No trajeto Cristine pôde novamente observar a luminosidade daquela tarde de início de primavera. Era como se, no tempo em que estivera ausente, o Criador houvesse derramado cores e matizes onde antes só existia o cinza. Uma escala policromática substituía a coloração monocromática no cenário à volta, como que exorcizando a tristeza e a monotonia dos dias de chuva intensa. Até mesmo o muro de pedras do cemitério parecia diferente. Ao cruzarem o portal de ferro as catacumbas também não pareciam as mesmas. O sol refletia no mármore branco lavado pela chuva inundando o ambiente com uma coloração esbranquiçada, que poderia chegar a ofuscar a visão, não fosse a moldura natural formada pela vegetação esverdeada da mata nativa.

Caminharam até a sepultura de Artur e ao chegarem em frente a ela Cristine baixou os olhos, numa oração silenciosa. Angélica também volveu seu pensamento ao padrinho, embora não fosse muito dada a rezar. Permaneceram em silêncio, cada qual perdida em suas próprias lembranças, até que Cristine sentou-se na beira da lápide e desembrulhou cuidadosamente o conteúdo do pacote que portava.

Angélica percebeu tratar-se de uma placa metálica, com letras em relevo, que Cristine depositou solenemente na cabeceira do túmulo, junto às inscrições já existentes. Num ritual silencioso Cristine acariciou a pedra fria e sentiu uma lágrima rolar por sua face iluminada por um facho de luz que atravessava a copa alta de um pinheiro frondoso. Angélica se aproximou e abraçou-a pelos ombros, aconchegando-a junto a si, numa atitude de quem dá apoio. Ao mesmo tempo a morena dirigiu seu olhar para a placa e leu em voz alta:

Todo dia Deus existe

No suor de quem trabalha,

No calo duro das mãos,

No homem que planta o trigo,

No trigo que faz o pão.

Deus é constante e perene... É divino.

De tal sorte

Que sendo essência da vida

É o descanso na morte...

Não há vida sem volta

E não há volta sem vida,

A morte não é morte

É só a porta da vida...

Descansa em paz, pai...

 

************************

 

 

Cinco meses depois...

 

Ariel entrou correndo na cabana de Angélica surpreendendo sua irmã e Cristine trocando um longo e apaixonado beijo. As mulheres sobressaltaram-se com o rompante do adolescente e desgrudaram-se num pulo. Cristine ficou totalmente desconcertada, ruborizando-se até a raiz do cabelo. Angélica fez uma cara enfezada para Ariel e disparou:

- Ô cabeça-de-bagre, tu não usa mais bater na porta não?

- Desculpe, mas pode desestressar. Ou tu acha que eu já não sei de vocês?

- Sabe o que, guri? – indagou Angélica enfezada.

- De tudo! Te liga, mané. Ta pensando que eu sou um tapado? Em que mundo tu vive? Eu não sou bobo não.

Angélica colocou as mãos na cintura e encarou o irmão. Sua expressão se suavizou e ela chegou a esboçar um sorriso. Ariel continuou:

- Olha só, maninha, eu nunca conversei contigo sobre esse lance da tua vida porque nunca tive oportunidade. Mas eu sempre saquei da tua... preferência.

- Ah é, senhor-sabe-tudo?

- Claro. Pois tu nunca apareceu com namorado nenhum, a não ser com aquelas tuas amiguinhas... e desde que a Cristine chegou ela não sai daqui, logo...

- Muito perspicaz da tua parte... – disse Angélica ainda mantendo as mãos na cintura numa pose de açucareiro.

Cristine permanecia emudecida. Ariel aproximou-se da irmã e a abraçou pela cintura, dado-lhe um sonoro beijo nas faces e complementando:

- Relaxa... pois eu continuo te considerando a melhor irmã do mundo!

Angélica retribuiu o abraço:

- Eu também... Eu te amo um monte, ô pirralho!

- E vamos combinar que... – continuou Ariel com uma cara deslavada – bom gosto tu tem!!! – e fez um movimento de sobrancelhas na direção de Cristine.

- Tu me respeita, guri! – bradou a morena dando um safanão no irmão – E respeita a Cristine também!

Ariel desvencilhou-se da irmã e ainda rindo da cena passou correndo por Cristine, abraçou-a, deu-lhe um beijo na face e disse provocativo:

- Mas eu acho que tu podia ter escolhido o irmão mais simpático... - e gargalhou enquanto desviava com agilidade de uma almofada arremessada por Angélica.

Já fora da porta voltou-se e gritou para as duas:

- A propósito, a mãe mandou dizer que o ônibus da escola chegou! – e continuou sua corrida para o castelo.

 

Angélica e Cristine se entreolharam e caíram na risada.

- Que safadinho esse teu irmão, ein? – disse Cristine.

- Pois então... As vezes ele consegue me deixar sem ação.

- Angélica, será que os teus pais sabem da gente?

- Ora, Tine, obviamente sabem. Tem coisas que até mesmo um cego consegue ver. Na verdade acho que o pai não quer saber, então finge que não sabe... – respondeu Angélica – já a mãe leva numa boa, eu já conversei com ela há bastante tempo.

- Falou de nós???

- Não. Quero dizer, falei de mim, há bastante tempo, bem antes de te conhecer. Depois não conversamos mais sobre o assunto. Senti que foi uma conversa sofrida para ela, mas acabou entendendo, ou melhor, aceitando. Obviamente ela saca da gente.

- Ela me trata tão bem... – ponderou Cristine.

- E nem teria motivo para não faze-lo. A não ser é claro, pelo fato de estares desvirtuando a filha dela, fora isso...

- Ah ééé??? Sou eu que estou desvirtuando???

- Claro! – respondeu a morena em tom de brincadeira – Foi tu que preferiste ficar aqui comigo do que no castelo...

- Não seja por isso! Posso mudar essa situação rapidinho! – respondeu Cristine fingindo indignação.

Angélica a abraçou pela cintura e respondeu:

- Não mesmo! Agora é tarde. Não te deixo mais sair daqui.

Beijaram-se com doçura.

- A conversa ta boa, mas quem sabe a gente vai até o castelo? – questionou Cristine.

- Tudo bem.

 

O ônibus escolar estacionou bem em frente à porta principal. Era mais uma turma que vinha conhecer o lugar. Uma das mudanças que Cristine realizou após sua chegada foi transformar o castelo num lugar para visitação, o andar de baixo, incluindo a biblioteca. O local se transformou numa espécie de museu onde além do castelo e dos móveis em si estavam expostos os trabalhos de pintura de Artur e exemplares de animais empalhados, obras de seu avô. Junto a estes últimos uma verdadeira coletânea de livros sobre pássaros, animais silvestres e fauna local. As visitas eram agendadas previamente e incluíam um café colonial e um passeio pela propriedade, visita à estufa de Israel e passeios a cavalo. Desde que começaram as visitas Israel parecia ter adquirido vida nova. A curiosidade e o interesse das crianças e adolescentes animava o ancião a explicar detalhadamente a origem de cada planta que havia no local.

O mais difícil foi convencer Morris a ficar e participar daquele trabalho. Ele se achava incapaz de participar daquela atividade. Cristine ainda recordava a conversa que tivera com ele, onde Morris lhe abrira o coração:

- Senhorita, eu gostaria de agradecer a sua confiança em me deixar continuar trabalhando aqui, mesmo sabendo do meu passado... bem... que eu matei um homem...

- Morris, se meu pai confiava em você eu também confio.

- Eu gostaria, se a senhorita me permitir, explicar o ocorrido...

- Sou toda ouvidos.

- Bom... aconteceu há muito tempo... Eu tive somente uma filha, e quando ela era bem pequena a mãe dela foi embora. Ficamos somente nós dois. Eu a criei com o maior esmero, ela estudou nas melhores escolas, teve toda a minha dedicação, para compensar a falta da mãe. Acontece que aos dezenove anos ela engravidou. O sujeito desapareceu e ela ficou em desespero. Como eu a amava muito lhe falei que criaríamos o bebê sem problemas. Ela não tivera mãe e seu filho não teria pai, mas teria um avô. E isso bastaria. Bom, senhorita... acontece que minha filha morreu no parto. E eu fiquei com minha neta, novamente sozinho com uma criança pequena. Pietra era uma criança linda... como a mãe. E morava comigo, na casa de meus ex-patrões. Um dia, quando ela tinha oito anos, e morávamos na América, eu fui busca-la na escola e ela não estava lá. E ninguém soube explicar quem a havia levado antes de eu chegar... – Morris calou-se engolindo em seco e demonstrando sofrimento – Desculpe-me, mas é que nunca contei isto para ninguém nos últimos anos... a não ser para o Sr. Artur... Mas... acionei a polícia e... e ela não foi localizada naquele dia... e nem nos outros... Ficou desaparecida por duas semanas e quando a localizaram... – novamente Morris estancou – ela... estava morta.

- Sinto muitíssimo, Morris... – disse Cristine passando a mão no ombro do mordomo que enxugava uma lágrima do canto dos olhos.

- Depois de alguns dias tudo levava a crer que houvessem capturado o bandido. Era um jovem de família rica, muito rica, mas era um drogado. E nada ficou provado... e ele ficou em liberdade... em qualquer lugar do mundo a justiça e a impunidade tem seu preço... Ele estuprou a menina, matou e ocultou o cadáver. E eu sabia que foi ele, de fonte segura. Como nada seria feito eu mesmo fiz justiça. O resto da história a senhorita já deve ter ouvido falar.

Cristine permaneceu calada. Morris continuou:

- Por isso não sei se posso trabalhar com crianças sem lembrar da minha Pietra...

- Quem sabe você poderia tentar... Pode lhe fazer bem... – pediu Cristine afetuosamente.

Morris suspirou e respondeu:

- Pois bem, senhorita, vou tentar. – respondeu recompondo-se e reassumindo a postura formal e ereta.

- Obrigada, Morris.

 

Quando Cristine e Angélica chegaram no castelo as crianças já haviam desembarcado e eram ciceroneadas por Morris, que surpreendera a todos com sua capacidade de dar atenção e limite aos pequenos. Sua figura imponente despertava curiosidade e os mais danadinhos chegavam a imita-lo na postura e no caminhar. Anemary também participava da visita no interior do castelo. O humor de Morris e Anemary havia melhorado em muito quando, depois de muitos anos e depois de muito incentivo por parte de Cristine e Regina, eles passaram a se enxergar de forma diferente, até que Morris formalmente pediu a governanta em namoro, "com vistas a um futuro e sério compromisso", frisara o mordomo solenemente. E Anemary aceitou.

Após a morte de Artur Anemary conseguira se libertar do fantasma de um amor não correspondido. Isto acabara abrindo seus olhos para novos horizontes. O fato é que a governanta estava bastante animada nos últimos tempos, principalmente depois do pedido de Morris, que também decidira deixar os fantasmas do passado para trás e reconstruir sua vida. Na verdade ambos estavam se dando uma chance de viver a felicidade.

Regina era a responsável pelo farto café colonial servido no final do passeio. Mais algumas pessoas haviam sido contratadas para trabalhar no local e até mesmo Ariel acabara inserido na atividade: era o responsável pela recepção inicial dos visitantes, dando-lhes as boas vindas.

Dr. Mendes continuava assessorando Cristine em todos os negócios da família e passava grande parte de seu tempo no castelo.

- Bom, parece que não temos nada a fazer aqui. Está tudo encaminhado. – disse Cristine sorridente.

- Tem razão. Quem sabe vamos dar uma caminhada por aí, lá pros lados do belvedere?

- Vamos nessa. – concordou a loirinha – Assim a gente aproveita e namora um pouquinho vendo a paisagem...

- Ta bom... – riu-se Angélica.

- Amor...

- O que?

- Você não está sentindo falta da tua vida de antes? Da rotina do teu trabalho na policia, da tua casa na capital?

- Tine, tu sabes que eu já estava trabalhando mais na parte administrativa mesmo. Além do que se eu enjoar dessa nova atividade de "empresária do ramo do entretenimento infanto-juvenil" eu peço a revogação da minha licença e volto para a ativa. E tem mais uma coisa...

- O que? – quis saber Cristine curiosa.

- Além de o meu salário ser bem mais... digamos... gratificante, a minha nova patroa é infinitamente mais sedutora do que o delegado Munhoz.

Ambas gargalharam e se deram as mãos, caminhando na direção dos fundos da imensa propriedade.

Ao passarem perto das cocheiras Angélica pediu que Cristine esperasse um momento. Entrou rapidamente na estrutura de madeira e Cristine pôde ouvir um relinchar familiar ao longe. Em menos de cinco minutos Angélica voltou montando Rebeldia, uma égua de pelagem negra como a noite, musculatura firme, porte elegante, e que só permitia ser montada por Angélica, daí seu nome peculiar. A morena costumava monta-la quase que diariamente e aproximou-se de Cristine numa marcha troteada.

Ao ver Angélica se aproximando Cristine reportou-se à sua fantasia infantil onde um príncipe encantado, de olhos azuis, lhe chegava imponente num cavalo branco. Riu-se ao perceber que sua princesa encantada, de olhos azuis, montava um corcel negro e que, assim como em suas fantasias pueris, lhe salvara da morte e lhe restituíra a alegria de viver.

A morena chegou ao seu lado estendendo-lhe a mão para que montasse com ela. Já acostumada com seu cheiro e com sua voz, Rebeldia permitiu que Cristine fosse içada pelo braço forte de Angélica e se agarrasse em sua garupa, cavalgando na direção do belvedere.

 

 

 

De pé e abraçadas no pequeno mirante admiravam a paisagem de cores vivas e intensas enquanto Rebeldia pastava à sombra do pinheiral perfumado. Estavam ante um desfiladeiro de paredes cobertas de vegetação nativa. Bem à frente uma queda d’água jorrava sua cascata em um turbilhão frenético, na direção do fundo do vale. O lago que se formava bem abaixo estava envolto por uma névoa fina e esbranquiçada que se originava devido à força das águas. Na encosta esverdeada incontáveis borboletas de asas azuis e prateadas sobrevoavam a copa das árvores. A parte de fora das asas era de um azul intenso e a de baixo era de uma coloração branca e prateada. Conforme os pequeninos insetos iam desenvolvendo seu bailado, pela incidência direta do sol, parecia que o verde das árvores estava enfeitado com pequenas luzes azuladas que piscavam e movimentavam-se em círculos.

Angélica e Cristine admiravam a paisagem, abraçadas e em completo silêncio. Ouvia-se somente a sonoridade da natureza: o ruído intenso da cascata, o canto dos pássaros, o som do vento nas copas das árvores, o silvo agudo das cigarras, o relinchar longínquo dos cavalos, a movimentação dos pequenos animais na mata.

- Isso aqui parece o paraíso. – disse Cristine mais para si mesma do que para sua interlocutora.

- Realmente...

- E pensar que, se não fosse por você, eu poderia não estar aqui agora, admirando esta paisagem, em tão bela companhia...

- Por favor, Tine, não vamos mais falar nisso...

- Mas é verdade. Eu sinto que devo te agradecer a vida toda...

- Tu não me deve nada. A gente já conversou sobre isso.

- Ta bom... Mas cada vez que eu penso que até ha bem pouco tempo eu cheguei a pensar que esta herança era uma maldição... chega a me dar um nó no peito...

- Meu amor... – disse Angélica com doçura envolvendo Cristine pela cintura – O que importa é que tudo se resolveu da melhor forma possível... Estamos juntas, amando, trabalhando e é só o que importa.

- Você tem razão. Eu sou uma tonta mesmo em pensar essas bobagens.

- Não são bobagens, porém fazem parte do passado. E nós devemos viver o presente.

- Eu sei.

- Então...

- Então eu te amo! – disse Cristine enquanto capturava os lábios de Angélica num beijo ardente.

- Eu também te amo... muito... – respondeu Angélica enquanto introduzia suas mãos por baixo do agasalho de malha que cobria o torso de Cristine e acariciava suas costas suavemente.

- Huuummm... acho bom a gente ir para casa... – disse a loirinha.

- Concordo plenamente. Vamos aproveitar que o povo todo está trabalhando e tratar de fazer algo mais... ãããnnn... prazeroso.

Cristine sorriu maliciosamente e abraçou Angélica com força, beijando-a com paixão. Retornaram para a cabana novamente na garupa de Rebeldia e o sol começava a se por atrás das copas das árvores quando os corpos despidos iniciaram mais uma vez o carinhoso bailado do amor. E muitos outros ainda estariam por vir...

FIM

Espero que tenham gostado... Até a próxima!

Rose Angel

  

Home   Uber  

 

Hosted by www.Geocities.ws

1