A Herdeira

Parte 2

 

Uma hist�ria de Rose Angel

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Agosto de 2006

 

 A sexta-feira amanheceu como havia sido a alvorada nos dias anteriores: taciturna e chuvosa. Cristine acordou cedo, por volta de oito horas. Desta vez despertou totalmente consciente de onde estava. O som da �gua da chuva escorrendo pelo telhado e batendo no ch�o �mido aliado ao uivo do vento que soprava entre as montanhas e copas das �rvores convidava a permanecer mais um tempo sob as cobertas quentes e aconchegantes, por�m Cristine n�o se intimidou. Jogou o edredom para o lado e cal�ou um par de pantufas de l�, que a governanta havia gentilmente providenciado para amenizar a sensa��o de frio nos p�s. Cristine repetiu o gesto do dia anterior abrindo a janela e espiando para fora. Novamente divisou a paisagem dos fundos da propriedade e bem ao longe o cemit�rio. Era como se os anjos guardi�es da tumba de sua fam�lia atra�ssem o olhar de Cristine. Agu�ou a vista e lhe pareceu observar alguma movimenta��o junto ao t�mulo. Deveria ser o coveiro cuidando de seus afazeres na manuten��o dos t�mulos, atividade esta que para a maior parte das pessoas seria uma tarefa execr�vel e nefasta. Para Guilherme, no entanto, era um trabalho como outro qualquer. Cuidava daquele campo-santo desde que tinha vinte anos, e agora beirando os sessenta, costumava dizer em tom de brincadeira que tinha a vantagem de ter um servi�o onde ningu�m o incomodava e nem tagarelava aos seus ouvidos. Para esta fun��o bastava sua esposa em casa, emendava rindo da pr�pria piada.

Cristine vestiu-se e desceu a escadaria rumo ao andar t�rreo do castelo. A mesa posta para o caf� a aguardava. Como que possuidor de uma bola de cristal que o informasse dos passos de todos os que o rodeavam, Morris se encontrava de prontid�o junto � mesa. Anemary encontrava-se postada do outro lado e Adelaide empunhava uma bandeja com caf� e leite quente, pronta para servi-la. Eles pareciam ter adivinhado que estava descendo. Nem bem havia entrado na sala de refei��es Morris disse solenemente:

- Bom dia, senhorita.

- Bom dia Morris.

As mulheres tamb�m a cumprimentaram. A loirinha percebeu que estava sozinha ali, n�o havia nem sinal de James, Valesca, Jo�o V�tor e nem t�o pouco de Ang�lica. Sabia que Dr. Mendes s� viria � noite.

O mordomo apressou-se em puxar a cadeira para Cristine, que lhe sorriu e passou direto, caminhando na dire��o da cozinha.

- Vou tomar caf� na cozinha � disse Cristine em tom amig�vel.

Tal atitude deixou Morris tal qual uma est�tua de gesso. P�lido e teso n�o moveu um m�sculo sequer do rosto. Simplesmente recolocou a cadeira em seu lugar e voltou � sua costumeira posi��o de sentido. Anemary n�o disfar�ou o ar de desaprova��o. Adelaide apressou-se em seguir Cristine, empunhando a bandeja de prata polida.

Ao entrar na cozinha Cristine cumprimentou Regina, que sentada num canto descascava algumas cebolas. Estava com os olhos vermelhos e marejados por conta da acidez dos tub�rculos.

- Estou para ver cebolas mais fortes que estas... � comentou passando o avental nos olhos.

- Quase que d� para sentir daqui. � respondeu Cristine.

- Mas ent�o vai l� pra sala, vai, - disse Regina � est�o esperando para servir o teu caf�, menina.

- Eu vou tomar caf� aqui na cozinha. Gosto mais.

Regina deu um sorriso e depositou a bacia com as cebolas na pia, deixando-as em �gua corrente. Passou lim�o nas m�os para tirar o cheiro e lavou-as em seguida com sab�o l�quido. Enquanto isso Adelaide corria para trazer a lou�a francesa da mesa para a cozinha.

- N�o te estressa Adelaide, eu vou tomar caf� nessa caneca aqui mesmo � disse Cristine enquanto pegava uma caneca de lou�a do suporte de madeira em cima da mesa central. Logo em seguida tratou de sentar-se e deixou Adelaide servir-lhe o caf�, enquanto Anemary a observava desencantada com sua postura pouco aristocr�tica. �T�o diferente do tio�, pensava a governanta.

Com um tom de voz tentando deixar transparecer indiferen�a Cristine perguntou:

- E Ang�lica? J� acordou?

- J�. Acordou e saiu muito cedo. � respondeu Regina.

- Ah... � anuiu Cristine com ar de quem n�o havia ficado satisfeita com a resposta.

- E n�o tenho nem id�ia pra onde aquela menina foi... � continuou Regina.

Era engra�ado ouvir Regina referindo-se � filha como �aquela menina�. Ang�lica tinha trinta e tr�s anos, por�m Regina se referia a ela como se ainda fosse uma garotinha. Fazia a mesma coisa com Ariel, guardadas as devidas propor��es. Cristine sentiu uma ponta de melancolia, lembrou-se de sua m�e, ali�s, do pouco que conseguia se recordar dela. Havia perdido a conta das vezes em que desejara ter a m�e presente em sua vida, c�mplice em suas traquinagens, compreensiva em suas d�vidas e ang�stias nos tempos de adolescente. Suspirou.

- O que foi, minha filha? � perguntou Regina ao perceber o ar tristonho de Cristine.

- Nada... lembran�as do passado... nada de importante.

Regina a encarou ternamente.

- Queres um peda�o de bolo de laranja? � disse afetuosamente.

- Quero!

 

Conversaram ainda durante algum tempo at� que Regina pediu licen�a para ir at� a despensa pegar alguns mantimentos para o almo�o. Cristine resolveu dar uma bisbilhotada no castelo. Como que por encanto Anemary e Morris desapareceram de sua vista. �s vezes era como se simplesmente evaporassem, reaparecendo quando menos se esperava. Morris tinha passos de felino, dos quais n�o se conseguia ouvir a aproxima��o. Anemary tamb�m conseguia ser muito discreta, e Cristine n�o saberia dizer como conseguia abafar o barulho do salto de seus sapatos. Cristine chegou a conjeturar a hip�tese dos dois terem um caso amoroso, afinal desapareciam e ressurgiam como que num passe de m�gica! Poderiam encontrar-se furtivamente nos corredores sombrios, esvair-se em atos libidinosos e logo em seguida reaparecer como se nada tivesse acontecido. Cristine foi obrigada a rir do pr�prio pensamento e da cena que imaginara. N�o. Com certeza n�o seria poss�vel a ambos deixarem-se levar pelos prazeres mundanos, pelo menos os dois juntos, seria talvez um caso de amor plat�nico, para n�o amarrotar os uniformes e despentear o coque da governanta.

Tamb�m n�o havia sinais de James, Valesca e seu �Adonis�. Estava momentaneamente abandonada por todos.

Sentiu falta de Ang�lica. Queria ouvi-la chegar e escutar sua voz. Queria sentir seu perfume e o toque de suas m�os. Deu-se conta que queria aquela mulher. Mais que isso, percebeu que h� dois dias nem sequer pensava em Mariana e isso lhe fez um bem enorme, levantando sua auto-estima. Mariana conseguia fazer com que sempre ficasse esperando por ela, tinha se deixado transformar numa �ref�m emocional�. E o pior � que j� havia se dado conta disso em suas sess�es de an�lise, mas ainda n�o conseguira efetivamente transformar aquela rela��o e o seu sentimento. E como que por encanto Ang�lica conseguira lhe despertar a consci�ncia de sentir-se observada e desejada. E isso estava lhe fazendo um bem enorme, apesar de todo o estresse que foram os �ltimos dois dias em sua vida.

 

 

Cristine caminhou vagarosamente pelos longos corredores do castelo, observando as portas que se enfileiravam em ambos os lados. Como que �tirando a sorte� num jogo ia abrindo algumas, aleatoriamente. Em sua maioria eram quartos. Acomoda��es amplas e com m�veis obedecendo a um mesmo estilo cl�ssico, cuja madeira escura conferia um ar de austeridade a todo aquele local. Com a calefa��o funcionando podia se dar ao luxo de andar sem encolher-se de frio. Subiu a escadaria observando mais atentamente os detalhes do teto naquela parte do castelo. Havia uma forra��o de madeira escura e envernizada e detalhes de uma pintura descascada ornavam a meia-cana de fora a fora. Uma barra retratando folhas de louro e punhais repetia-se em toda a volta. Bem defronte ao topo da escada havia uma tape�aria gigantesca, com cerca de tr�s metros de largura por cinco de altura retratando um bras�o, que Cristine imaginou ser o de sua fam�lia. Em cores desgastadas pelo tempo podia-se ver os fios dourados e prateados que circulavam os contornos das armas do bras�o.

J� no segundo piso Cristine continuou a vasculhar curiosamente. Uma das portas chamou sua aten��o. Era um pouco diferente das demais. Embora de mesma dimens�o e material, tinha uma ma�aneta diferente das demais. Enquanto as outras eram longitudinais aquela era esf�rica e dourada. Apresentava um relevo ao redor que facilitava o contato, impedindo que as m�os resvalassem com a umidade natural da pele.

Cristine teve o pressentimento de que aquele era o quarto de seu tio. Olhou para ambos os lados e certificou-se de que continuava sozinha. Sentiria-se constrangida caso fosse surpreendida naquela incurs�o explorat�ria n�o autorizada. Vagarosamente levou a m�o ao metal reluzente e girou a ma�aneta no sentido anti-hor�rio. A fechadura girou com um suave ranger que fez Cristine sobressaltar-se e olhar novamente ao seu redor. A porta descerrou-se para a esquerda e Cristine adentrou lentamente naquele recinto. A penumbra reinava absoluta naquele lugar e Cristine p�de divisar a claridade do contorno da janela bem � frente da porta, na outra extremidade do quarto, mais para a sua direita. Fechou cuidadosamente a porta atr�s de si e, envolta pelas sombras, rumou na dire��o da cortina de veludo ocre que impedia a luz do dia de entrar pelas vidra�as emba�adas. Com movimentos lentos puxou a cortina para o lado, deixando o aposento ser invadido pela claridade natural do dia. Bem no meio havia uma cama imensa, cuja colcha de seda na mesma tonalidade da cortina ostentava bordado em seu centro o mesmo bras�o da tape�aria da escada. Cristine teve a certeza de que aquele era o quarto de seu tio.

 

 

 

 

Na delegacia de Doze Colinas o delegado Munhoz co�ava o queixo, pensativo. Aguardava um fax da capital. Montando guarda ao lado do aparelho n�o esperou o segundo toque para levantar o fone do gancho e ouvir uma voz feminina dizer com gentileza:

- Fax para o delegado Munhoz, poderia me dar o sinal, por favor?

Instantaneamente o delegado apertou o bot�o de �receber� e recolocou o fone no gancho. Apenas uma folha foi sendo expelida aos poucos, sendo destacada avidamente assim que o sinal do t�rmino do envio soou com agudez. Munhoz leu atentamente o conte�do daquele documento e secou o suor de sua testa com um len�o amarelado. Deixou-se cair em sua cadeira macia e pegou o telefone:

- Al�, Adroaldo? Munhoz. Preciso que venhas at� aqui. Agora.

 

 

 

Cristine continuava sua incurs�o secreta pelo quarto do tio. De modo geral lhe parecia um quarto normal. Apresentava um ar austero e masculino, sendo que um odor de perfume de pinho achava-se entranhado no ambiente. N�o conteve sua curiosidade e abriu as portas do guarda roupas do falecido tio. A organiza��o do interior do m�vel chegou a lhe causar certo constrangimento, principalmente ao compar�-lo com o seu pr�prio arm�rio e ao lembrar-se de como precisava se esquivar dos desmoronamentos de pilhas de roupas que vinham abaixo cada vez que abria as portas rapidamente. Os ternos estavam alinhados por cores e os pul�veres de l� impecavelmente dispostos em pilhas sim�tricas. As camisas tamb�m pendiam enfileiradas por tonalidades e comprimento de mangas. At� mesmo as meias e as cuecas repousavam alinhadas dentro das gavetas, dispostas por cores. Esta organiza��o com certeza deveria ser obra de Anemary, no entanto o seu tio parecia que colaborava na manuten��o da mesma.

Havia uma porta lateral que dava para um banheiro amplo. A mesma organiza��o do quarto se repetia no banheiro. As lo��es p�s-barba, os perfumes e os desodorantes masculinos se encontravam dispostos simetricamente no balc�o da pia, em frente a um enorme espelho retangular.

Todo aquele lugar dava a impress�o de esperar o dono adentrar a qualquer momento. Cristine suspirou ao lembrar que o tio jamais entraria ali.

De volta ao quarto p�de observar que a espessa cortina escondia algo mais do que simplesmente as vidra�as da janela. Uma porta trancada � chave escondia sabe-se l� o qu�, numa pe�a que parecia n�o ser muito visitada. Cristine instintivamente come�ou a procurar uma chave que pudesse descerrar aquela passagem. Olhou em volta e imaginou que o melhor lugar para se esconder uma chave seria num fundo falso de gaveta, ou entre as meias. Mas pensou melhor e resolveu procurar num lugar mais �bvio. Abriu a gaveta do criado mudo e o que encontrou foi uma pequena caixa de madeira. Retirou a caixa e abriu a tampa cuidadosamente. Dentro havia abotoaduras douradas, um rel�gio tamb�m de ouro, uma corrente de prata com um pingente em forma de flor de lis e, bingo, uma chave antiga que Cristine sabia de antem�o em qual fechadura se encaixaria.

Pegou a chave e foi at� a porta atr�s da cortina. Introduziu a chave e girou-a trezentos e sessenta graus. Ouviu o estalar met�lico da ling�eta da fechadura liberando o acesso ao quarto cont�guo.

Cristine sentiu seu cora��o se acelerar dentro do peito. Deu um passo � frente e sentiu um odor de mofo, de coisas velhas, de poeira. O aposento estava escuro e Cristine precisou de alguns minutos at� sua vista se adaptar � penumbra. Tateou os lados da porta at� localizar um interruptor de luz. Ao acend�-lo p�de enfim visualizar o que aquela pe�a escondia. Espantou-se ao constatar que ali havia um atelier de pintura. V�rias telas encontravam-se escoradas numa das paredes, algumas com trabalhos inacabados, algumas conclu�das e outras tantas ainda virgens. As prateleiras laterais estavam tomadas por latas de tinta, solventes e bisnagas coloridas, al�m de flanelas e peda�os de tecidos usados para a limpeza dos pinc�is. Tamb�m havia in�meras esp�tulas, peda�os de ripas de madeira, pinc�is, l�pis, aquarelas e tudo o mais que se podia imaginar para dar vida e cor �quelas telas. Aquele atelier em nada lembrava o quarto do tio. Tudo se encontrava disposto aleatoriamente. As bisnagas coloridas se misturavam aos potes e pinc�is como que numa dan�a pict�rica. Nada se encontrava alinhado, nem t�o pouco obedecia a uma l�gica sim�trica. Tudo ali era improviso e sentimento. �O outro lado do tio Artur�, pensou Cristine, �e por certo o mais encantador�.

Sua aten��o voltou-se para o centro do aposento, onde um cavalete de madeira r�stica suportava uma tela coberta por um tecido que ca�a at� o ch�o. Cristine puxou o pano e descobriu a tela. Era o retrato do que Cristine julgou ser uma camponesa, sentada num tronco de �rvore, com um pomar de pessegueiros floridos ao fundo. A jovem mulher segurava um ramalhete de l�rios. O que deixou Cristine intrigada era que seu rosto estava disforme, como um borr�o. Era como se o autor houvesse tentado modificar os tra�os da jovem e para tal tivesse que apagar o original. No lugar do rosto havia apenas uma mancha indistinta. Os cabelos da mulher eram longos, lisos e loiros, e esvoa�avam com a brisa. A pele era alva como a neve. As m�os eram delicadas e os dedos longos tinham um �nico adorno na m�o direita: uma alian�a de noivado. Por algum motivo que desconhecia aquela figura lhe parecia familiar.

Ainda observando seu redor Cristine percebeu mais uma porta que dava acesso a outra pe�a. Esta, por�m, mais baixa que as demais, mais estreita tamb�m. Parecia mais um al�ap�o vertical do que uma porta. A loirinha aproximou-se com curiosidade. Desta feita a chave jazia pendurada num prego enferrujado cravado no centro da estrutura de madeira. Era uma chave antiga com um s�mbolo de um pentagrama esculpido em sua extremidade. Pendurada, a chave deixava � mostra o pentagrama invertido. Cristine n�o gostou do que viu. Conhecia alguma coisa de magia e sabia que o pentagrama invertido era associado � magia negra. Um calafrio percorreu-lhe a coluna. No entanto, movida pela curiosidade em conhecer a fundo o seu falecido tio, Cristine pegou a chave, mesmo que relutante, e descerrou aquela pequena porta de acesso. Instantaneamente um odor f�tido e forte chegou-lhe �s narinas, o qual a jovem n�o saberia conceituar. Recuou um pouco, inspirando profundamente para em seguida trancar a respira��o e adentrar no breu. Procurou um interruptor de luz na escurid�o daquele covil e ao encontr�-lo foi acometida por um sobressalto. A luz amarelada de uma l�mpada escurecida pelo p� mostrou � Cristine uma verdadeira cena de horror a qual a jovem observou por poucos segundos antes de sair correndo daquele lugar. Alguns ganchos de metal pendiam do forro e das paredes de pedra irregular, num cen�rio que lembrava um a�ougue insalubre. Uma mesa central ostentava carca�as ouri�adas de animais que pareciam querer saltar sobre quem se atrevesse a entrar ali. Os olhos das pequenas feras pareciam vivos pelo efeito da luz, por�m o negrume da morte estava estampado na rigidez facial daqueles seres que certamente pertenciam a outro mundo. Algumas l�minas, facas e adagas encontravam-se espalhadas no tampo de madeira. Cristine abafou um grito de desespero e saltou dali o mais r�pido que p�de. Fechou a porta atr�s de si, trancando-a com a chave de metal. Depositou aquele s�mbolo nefasto no lugar onde estava e recuou assustada. De repente o atelier onde estava assumiu um ar amea�ador e Cristine sentiu o frio do medo percorrendo sua pele. Tratou de sair dali e trancar a porta, recolocando a cortina a esconder aquela passagem, que desejou n�o ter conhecido. Devolveu a chave � caixa de madeira no criado-mudo e abriu a porta do quarto vagarosamente, espiando o corredor antes de sair sorrateiramente e dirigir-se para seu quarto.

Estava t�o absorta em sair dali o quanto antes que nem percebeu o par de olhos que a espiavam sorrateiramente pela fresta de uma das portas daquele vasto corredor.

 

 

Ao fechar a porta atr�s de si e visualizar a mob�lia familiar do seu dormit�rio Cristine respirou fundo, aliviada. Seus batimentos card�acos estavam acelerados e suas pernas tr�mulas pela descoberta inesperada e sinistra.

Custava a crer no que vira. Tr�s ambientes totalmente contradit�rios, fazendo parte da vida de uma mesma pessoa. Novamente Cristine sentiu desconhecer o tio. Quando pensava conhec�-lo um pouco, vislumbrando uma pessoa sens�vel, novas descobertas a levavam a crer na exist�ncia de um homem d�bio e perverso, seguidor de sabe-se l� qual doutrina. Cristine estava confusa, e assustada. Despiu-se e deixou-se envolver por uma torrente de �gua morna e revigorante. Os jatos direcionados com for�a pela torneira met�lica pareciam tirar um peso de cima dos ombros da jovem e davam a impress�o de lavar as recorda��es de minutos antes. Depois do banho Cristine sentiu-se um pouco melhor.

Ficou em seu quarto at� a hora em que uma voz familiar veio bater � porta e chama-la para o almo�o: era Ang�lica.

 

 

Cristine saltou de sua cama e girou a chave na fechadura, destrancando a porta do quarto. Havia fechado a porta � chave instintivamente e Ang�lica percebeu o ru�do met�lico. Ao ver o rosto de Cristine sorriu-lhe afetuosamente, percebendo, no entanto, pela express�o da jovem, que algo havia acontecido.

- Oi. � disse Ang�lica � Tudo bem?

- Tudo. Tudo bem. � titubeou Cristine sem querer comentar com a amiga o que havia acontecido. N�o queria parecer enxerida, indiscreta ou invasiva. Para ela entrar no quarto de algu�m sem ser convidada era algo muito desrespeitoso. Ainda mais naquela situa��o. Resolveu guardar aquilo como seu segredo, pelo menos por enquanto.

A resposta hesitante de Cristine n�o convenceu Ang�lica. A morena era perspicaz e observadora. Sabia que algo n�o estava dentro dos conformes, todavia achou melhor deixar que Cristine lhe contasse quando tivesse vontade.

- E ent�o? O que fizeste durante a manh�? � questionou Ang�lica.

- Nada. � respondeu Cristine de supet�o. � Quer dizer... quase nada. Fiquei descansando aqui no quarto.

- Que bom. � �timo quando se consegue relaxar um pouco...

- Pois �... Mas vamos descer?

- Vamos.

 

 

Almo�aram sem a presen�a do Dr. Mendes e de James. Somente Valesca e Jo�o V�tor estavam � mesa com elas. Conversaram sobre temas diversos. O tio Artur acabava sendo citado a cada novo assunto que abordavam. Ao t�rmino da refei��o Valesca pediu licen�a e foi para seu quarto, seguida de seu deus grego. Ang�lica olhou a dupla se afastando, balan�ou a cabe�a e deu um sorrisinho amarelo.

- Voc� tem certa restri��o � presen�a de Valesca aqui, n�o � mesmo? � disse Cristine.

- Mais ou menos...

- Voc� n�o gosta dela?

- N�o gosto e nem desgosto. Ela � indiferente. J� te falei o que eu acho.

- Mas ent�o qual o motivo do desconforto?

- � que acho muito desagrad�vel essa mulher vir com o amante dela. O padrinho nem esfriou no t�mulo e ela j� veio se instalar aqui, e acompanhada. Acho falta de respeito com a mem�ria dele.

- Mas Valesca garante que Jo�o V�tor � seu irm�o... � argumentou Cristine.

- Sim... e eu acredito em Papai Noel... � disse Ang�lica.

- �... acho que voc� tem raz�o... Mas ao menos ela tem ficado na dela, e prometeu ir embora depois da abertura do testamento.

- Ao menos isso. Mas a presen�a dela n�o chega a me perturbar n�o...

- Que bom. Alguns sentimentos s�o piores para quem sente, do que para quem � alvo... � conjeturou a loirinha.

- Com certeza � concordou Ang�lica � E se o padrinho n�o se importava com essa situa��o quem sou eu para me importar...

Cristine assentiu com um gesto de cabe�a. Mudando de assunto disse:

- Eu precisaria usar a internet...

- Podes usar o computador do escrit�rio, vem que eu te acompanho. � respondeu Ang�lica.

 

Defronte ao monitor de tela plana o Windows abria-se com uma velocidade abaixo do que Cristine estava acostumada a utilizar.

- � meio lenta essa encrenca! � sorriu Ang�lica. � Eu vivia dizendo pro padrinho comprar um equipamento melhor, mas ele dizia que este estava bom para o que ele queria...

- N�o deixa de ser coerente... � riu-se Cristine.

 

Ao tentar uma conex�o Cristine percebeu que o programa n�o respondia. Ang�lica testou o aparelho telef�nico do recinto e funcionava perfeitamente.

- Deve ter queimado o modem � disse Ang�lica � Nos �ltimos dias houve muitas descargas de raios. Mas vamos fazer o seguinte: vamos at� l� em casa. O meu PC t� conectando legal.

- Se n�o for te causar nenhum inc�modo... � disse Cristine.

- Inc�modo algum... � respondeu Ang�lica fitando-a nos olhos � Muito pelo contr�rio, poder� me causar prazer...

Novamente Cristine sentiu as faces coradas, por�m sustentou o olhar e respondeu com um sorriso maroto:

- E isso � bom?...

- ���... muito...

Cristine se virou e seguiu para a porta dos fundos do castelo, seguida por Ang�lica que observava o gingado de seu caminhar. Sentindo-se perscrutada Cristine tratou de valorizar cada passada, acentuando o movimento dos quadris, numa atitude provocativa velada. Em seu �ntimo estava gostando daquilo.

 

 

Rumaram lado a lado na dire��o da casa de Ang�lica. Desta feita n�o estavam sob a prote��o do vasto guarda-chuva que as havia deixado t�o pr�ximas em ocasi�o anterior. N�o chovia, por�m o tempo permanecia pesado e nebuloso. Um vento cortante impelido em fortes rajadas desgrenhava os cabelos das mulheres. Cristine, precavida, havia colocado um gorro de l� vermelho, o qual enterrava na cabe�a cada vez que o vendaval fustigava seu rosto. Uma manta tamb�m de l� auxiliava a manter aquecido seu pesco�o. N�o havia o menor indicativo de que fosse parar de chover por aqueles dias. Instintivamente Cristine percebeu-se olhando desconfiada para a vegeta��o cerrada onde havia visto um vulto suspeito no dia anterior. Ang�lica notou seu gesto, todavia fingiu n�o perceber.

Na cabe�a de Cristine fervilhavam as imagens mais recentes que registrara. Uma sensa��o de medo a invadiu novamente. Olhava a figura esbelta que caminhava a seu lado e lhe transmitia serenidade e seguran�a. Imaginava se Ang�lica conhecia ou n�o aquele verdadeiro �quarto dos horrores�. Mais ainda, conjeturava se a morena tinha conhecimento da finalidade daquele lugar. At� onde ser� que conhecia verdadeiramente o �padrinho�, como costumava referir-se ao seu tio? Parecia admir�-lo muito para conceber a id�ia de um Artur nefasto, cujo lado negro escondia-se atr�s das cortinas de um inofensivo atelier de pintura. Ou quem sabe a Ang�lica que lhe acompanhava n�o era essa pessoa que se apresentava? Quem sabe n�o s� tinha conhecimento como participava sabe-se l� do qu� naquele covil imundo e insalubre, que parecia a entrada do submundo, mais ainda, parecia o pr�prio antro das trevas? D�vidas, incertezas, perguntas sem respostas... Enquanto n�o descobrisse a verdade sobre aquele lugar seria melhor manter-se em um prudente sil�ncio. Com estas incertezas turvando-lhe os pensamentos continuava sua marcha ao lado de Ang�lica. Tratou de desviar os pensamentos para evitar que Ang�lica percebesse sua express�o de afli��o. Mas j� era tarde. A morena j� percebera que algo estava correndo fora do normal, e o que era pior, alheio a seus planos e, por conseguinte fora de seu controle. Esfor�ou-se para manter a calma. Puxou conversa sobre o mais comum dos assuntos: o tempo.

- E a chuva parece que n�o quer dar tr�guas...

- �... � respondeu Cristine olhando para cima, para as pesadas nuvens que pareciam querer desabar sobre o mundo impiedosamente. Na verdade era assim que Cristine estava se sentindo naquele exato momento: desprotegida e amea�ada por sabe-se l� o qu�.

Ang�lica continuou discursando sobre a chuva, tentando distrair a sua acompanhante, que lhe parecia tensa e ansiosa:

- O que me consola � que j� estamos em meados de agosto, e no m�s que vem j� � primavera. A� tu precisa ver o que � uma bela paisagem. As montanhas aqui parecem que criam vida pr�pria. Vais gostar.

- Espero... � respondeu Cristine sem muita convic��o na voz.

- Bom, j� estamos chegando. � falou Ang�lica.

Para surpresa de Cristine elas n�o entraram na casa onde haviam estado no dia anterior. Ap�s passarem pelo port�o da frente Ang�lica desviou da casa de madeira azul e conduziu Cristine para os fundos daquele terreno, utilizando uma entrada lateral e independente. Cerca de trinta metros adiante havia outra constru��o, tamb�m de madeira, por�m uma cabana.

- Por aqui, senhorita. � brincou Ang�lica apontando a porta da frente para Cristine.

- Esta casa � tua? � perguntou Cristine, j� mais animada e menos tensa.

- �. � respondeu a morena com um sorriso no canto dos l�bios.

O sorriso de Ang�lica tinha o poder de devolver � Cristine a confian�a. Era como se a morena irradiasse uma aura luminosa ao sorrir e ao fixar seus olhos da cor do c�u de ver�o. Instantaneamente, ao ser conduzida para dentro daquela casa, era como se qualquer ang�stia e medo se dissipasse. Respirou profundamente, aliviada.

Cristine olhou ao redor enquanto adentrava na casa. O andar t�rreo era uma pe�a ampla, dividida em sala e cozinha, al�m de um pequeno lavabo. Uma lareira de pedra chamou a aten��o de Cristine, ostentando, estendido � sua frente, um espesso pelego de l� em cor natural. Aquele recanto como que convidava a sentar em boa companhia...

Cristine tirou seu cachecol e seu gorro enquanto observava cada detalhe com aten��o. Aquela casa tinha a cara de Ang�lica. Era simples, por�m deixava transparecer um bom gosto indescrit�vel em cada detalhe da decora��o. Tudo ali era claro e iluminado. A escurid�o parecia n�o conseguir penetrar naquele ambiente. E isso agradou Cristine.

- Vamos subir? O computador ta l� em cima. � disse Ang�lica.

 

Subindo a escada de madeira descortinava-se um amplo e �nico aposento, tendo apenas uma divis�ria onde havia um banheiro bem maior do que o do andar t�rreo. Uma sacada frontal dava uma vis�o de parte da mata nativa ao redor, al�m de se poder visualizar os detalhes da casa dos pais de Ang�lica e parte do vale.

- Que casa bonita. � comentou Cristine.

- Obrigada. Mas � muito simples...

- Mas � linda.

- Digna de uma linda visitante... � disse Ang�lica provocativa.

Cristine sorriu. Ang�lica dirigiu-se a um m�vel de canto ligando seu computador. 

- Pronto. Ao seu dispor. � disse Ang�lica cedendo lugar para Cristine.

A loirinha sentou-se e p�s-se a digitar. Fez o que precisava em menos de trinta minutos, enquanto a morena a aguardava sentada na sacada do quarto. Apesar do frio, Ang�lica gostava daquele canto. Costumava deitar-se numa rede que estendia em ganchos de metal fixados nos pilares da estrutura de madeira. Devido � chuva, no entanto, optou por simplesmente sentar-se na arma��o de madeira que servia de limite da sacada. Montada na madeira grossa dirigia olhares de vi�s � mocinha que usava seu computador concentradamente.

Ao terminar seu trabalho Cristine foi se juntar � Ang�lica na sacada. Arrastou um banquinho de madeira e sentou ao lado da morena, olhando-a de baixo para cima.

- Eu estou encantada com esta cabana... � disse Cristine.

Ang�lica limitou-se a sorrir. Cristine continuou:

- Faz tempo que voc� mora aqui?

- Uns oito anos.

- Mas foi voc� que construiu este lugar?

- Obviamente que n�o. Foram os pedreiros.

- Engra�adinha... � riu-se Cristine � Voc� entendeu a pergunta!

- Foi. Tem uma hora em que se precisa de um pouco de privacidade.

- Para???

- Trazer quem bem se entende para casa. � disse Ang�lica sem meandros.

Apesar de ter provocado, Cristine n�o esperava uma resposta t�o direta. De fato esta era uma das virtudes de Ang�lica, ou defeito: n�o fazia rodeios. Cristine desconversou:

- Voc� disse que est� de f�rias?

- Estava.

- Estava? E agora?

- To tirando uns dias de licen�a... de sa�de.

- Voc� n�o ta bem?

- To. Quero dizer, mais ou menos.

- O que � que voc� tem? � questionou Cristine demonstrando preocupa��o.

- Nada s�rio... Estresse.

- A�h... Mas isso � mais comum do que se pensa. Eu mesma j� tive v�rias crises de estresse. � pr�prio dos dias atuais.

- Pois �... Mas, e a�? Conseguiste ver o que querias? � desconversou Ang�lica.

- Consegui. Muito obrigada por ter me emprestado teu computador.

- N�o h� de qu�! � sorriu Ang�lica encantadoramente. � Tu queres um caf�? Ou um chocolate quente?

- Quero.

Ang�lica saltou de seu poleiro e Cristine levantou de seu banquinho. Desceram a escadaria de madeira e Ang�lica colocou leite para ferver. Haviam decidido tomar um chocolate quente.

- Como faz frio aqui nesta terra! � disse Cristine esfregando as m�os.

- A gente acaba acostumando e nem sente tanto assim. Na verdade hoje a sensa��o t�rmica est� mais baixa por causa do vento.

- Pode ser... � concordou Cristine � Ser� que o Dr. Mendes chega cedo hoje?

- N�o sei... Conforme o movimento do escrit�rio.

- E o James? Onde ser� que se meteu? Eu n�o o vi o dia todo... � disse Cristine.

- N�o fa�o a m�nima id�ia � respondeu Ang�lica secamente.

- Voc�s realmente n�o se fecham, n�o � mesmo?

- N�o. � como eu j� te contei. Coisas de inf�ncia.

- Mas voc�s poderiam ter superado isso, n�o?

- Poder�amos. Mas n�o superamos. Digamos que deva ser uma antipatia inata.

Cristine teve que sorrir.

- Ta rindo do qu�? � quis saber Ang�lica.

- Dessa situa��o.

- E posso saber por qu�???

- Ang�lica, voc�s j� s�o adultos... � estranho que adultos n�o consigam resolver picuinhas de inf�ncia.

- Pode at� ser, mas realmente eu n�o consigo me dar bem com o James. E ele tamb�m n�o se esfor�a... Acho que vamos passar a vida toda assim. Mas o bom � que a gente se cruza pouco. Ele estava sempre na sombra do padrinho. Agora n�o sei o que vai fazer...

- Ele parece estar bem perdido... � disse Cristine.

- Parece... Mas ele sabe se virar. � disse Ang�lica num tom de voz que dava por encerrado o assunto James. � O chocolate ta pronto!

- Oba! O cheirinho ta maravilhoso! � disse Cristine.

Ang�lica serviu a bebida fervente em cuja mistura havia colocado, al�m de outras coisas, canela em p� e estendeu uma das canecas fumegantes para Cristine. Ao pegar a lou�a com ambas as m�os Cristine acabou envolvendo os dedos de Ang�lica com os seus. Os olhos se cruzaram e permaneceram unidos numa m�gica atra��o. As m�os foram baixando, ainda se tocando, enquanto a caneca era depositada suavemente na mesa de f�rmica amarelada. Sentindo um calor repentino Cristine permitiu que Ang�lica se aproximasse dela. Sentiu a respira��o ofegante da morena aproximando-se de seu rosto. Entreabriu os l�bios na inten��o de receber a boca de Ang�lica de encontro � sua. Chegou a imaginar a maciez do contato daquela l�ngua e o pulsar daqueles l�bios nos seus. Por�m no momento em que as bocas estavam prestes a se entregar num �sculo desejado por ambas ouviram passadas na �rea da frente e o barulho de algu�m abrindo a porta, sem cerim�nias. Separaram-se num sobressalto.

- �-r���... Achei voc�s! � disse Ariel ostentando um sorriso de orelha a orelha e tendo sua pasta com material escolar debaixo do bra�o.

- Ora, ora, se n�o � o meu aluno favorito! � brincou Cristine.

Ang�lica sorriu amarelo para o irm�o, mal conseguindo disfar�ar a express�o de frustra��o.

- Eu vi quando voc�s passaram para c�, mas tava num pl� com uma mina no telefone...

- Imagino... � disse Ang�lica.

- Bom, a� terminei o meu l�ro com ela e pensei: estudo ou n�o estudo? � continuou Ariel.

- Acho que a pergunta �: �perturbo ou n�o perturbo a Cristine�? � emendou Ang�lica.

- Come�ou a implic�ncia, viu?... Se eu n�o estudo sou rebelde, se resolvo estudar sou �perturbante�... Vai entender as irm�s mais velhas!!! � disse Ariel.

Cristine gargalhou.

- Deixa ela � disse a loirinha � Vamos dar uma pegada na mat�ria sim!

- Quer um chocolate, � cabe�a de vento? � perguntou Ang�lica.

- Demorou pra oferecer, ein??? � provocou Ariel.

- Olha garoto...

Os tr�s sorriram enquanto Ang�lica servia o irm�o e alcan�ava sua caneca de chocolate, enquanto o envolvia num abra�o e sapecava-lhe um sonoro beijo na bochecha. Os tr�s sorveram a bebida fumegante e, talvez pelo efeito da canela em p�, os rostos assumiram uma colora��o avermelhada, onde as bochechas pareciam ostentar plastas de rouge. As duas mulheres sentiram um calor diferente, e cada vez que os olhos se encontravam um fogo interno parecia reacender a cor das faces. Cristine colocou a culpa na bebida, j� Ang�lica pensava no qu� aquela criaturinha conseguia fazer com ela...

Ariel abriu sua pasta e espalhou seu material sem cerim�nias sobre a mesa da cozinha. Cristine estudou com ele por quase tr�s horas. Eventualmente a loirinha percebia os olhares de Ang�lica para ela e mais de uma vez surpreendeu-a lan�ando-lhe um disfar�ado sorriso sedutor.

Quando a �professora� por fim demonstrou sinais de cansa�o, Ang�lica a acompanhou at� o castelo. Ariel ficou em casa, embora tenha se convidado para ir junto:

- Posso ir jantar com voc�s?

- Te toca, guri! � respondeu Ang�lica � Tu j� encheu o saco da Cristine o suficiente hoje...

- Mas eu n�o quero mais estudar, s� conversar mesmo!

- J� falei que n�o. Cristine tem assuntos s�rios para tratar com o Dr. Mendes. � respondeu Ang�lica categoricamente.

Ariel deu de ombros e despediu-se delas:

- Ta bom ent�o... Tchauzinho, Cristine... E at� amanh�.

- At�. � respondeu Cristine afagando a cabeleira loira de Ariel.

 

 

- N�o d� muita confian�a pra esse guri, sen�o ele n�o te deixa mais em paz! � disse Ang�lica.

- Tudo bem, ele � um amor...

- Mas chato. E convenhamos... inoportuno � disse a morena � meia voz.

Cristine baixou os olhos e sorriu. No trajeto n�o comentaram absolutamente mais nada sobre o quase beijo.

Quando chegaram ao castelo Dr. Mendes j� estava l�. Jantaram na companhia de Valesca e Jo�o V�tor. James continuou sem aparecer. Cristine, durante o jantar, perguntou por ele:

- Morris, voc� sabe onde est� James?

- Em seus aposentos, senhorita. Sr. James esteve indisposto durante o dia e pediu que lev�ssemos seu jantar no quarto. Pede desculpas por n�o estar acompanhando a senhorita.

- Tudo bem, eu s� fiquei preocupada com ele... � disse Cristine.

- Cristine, n�s vamos proceder a abertura do testamento na quarta-feira, dia vinte, as quatorze horas. � disse Dr. Mendes.

Cristine suspirou.

- Tudo bem.

- N�o vejo a hora! � interpelou Valesca � O meu querido Artur por certo lembrou de mim...

Dr. Mendes e Ang�lica simplesmente ignoraram o coment�rio. Cristine achou por bem tamb�m n�o estender aquele assunto. Dr. Mendes tratou de mudar o rumo da prosa.

- Amanh� j� � s�bado... � disse o advogado � o tempo parece realmente voar...

- Pois �... � concordou Cristine.

- Amanh� se tu quiseres eu te levo pra conhecer a estufa � disse Ang�lica � � um lugar muito bonito.

- � mesmo. � concordou Dr. Mendes.

- Eu adoraria. � respondeu Cristine.

- Ent�o, est� combinado. � disse a morena.

- Combinad�ssimo.

 

Depois do jantar Ang�lica despediu-se do grupo e foi para sua casa, recordando a sensa��o que a proximidade com a boca de Cristine lhe causara. No entanto, uma ruga de preocupa��o lhe surgiu na testa, e n�o era por causa da atra��o que sentira...

 

 

Em seu quarto Cristine rememorava sua expedi��o matinal. Causava-lhe mal estar saber que ali bem perto havia um aposento macabro que jazia nas sombras daquele castelo. Ao dirigir-se ao seu dormit�rio deu gra�as aos c�us por Adelaide t�-la acompanhado portando toalhas limpas para trocar, uma vez que n�o o havia feito no turno da manh�. A arrumadeira esteve fora a manh� toda, alegando estar acompanhando seu pai num exame m�dico. Cristine chegou a cogitar a possibilidade de pedir que Ang�lica subisse com ela, mas achou prudente n�o faz�-lo, tanto para evitar especula��es por parte da morena quanto para n�o demonstrar qu�o intensamente tinha reagido � aproxima��o desta. De modo que suspirou aliviada ao ver que Adelaide a acompanhava. O que menos tinha vontade naquele momento era circular � noite sozinha naqueles corredores.

Antes de entrar em seu quarto Cristine n�o conseguiu deixar de lan�ar um olhar amedrontado para a porta do quarto de seu tio, que ficava no final do corredor, Oxal� bem depois do dela. Logo ap�s a arrumadeira retirar-se Cristine chaveou a porta. Por via das d�vidas encostou uma cadeira pelo lado de dentro, escorando-a logo abaixo da ma�aneta. Isso evitaria qualquer tentativa de entrarem em seu quarto. Sentou-se na cama e percebeu-se com medo. Respirou fundo e tentou racionalizar. �O que � isso Tine?�, pensou, �N�o viaja... Ta com medo do qu� afinal? De fantasmas? Assombra��es? Isso n�o existe! E o que quer que existisse naquele quarto morreu com o tio Artur�. Cristine levantou-se e retirou a cadeira que havia colocado junto � porta. Um pouco mais tranq�ila tomou um banho e aconchegou-se sob as cobertas quentes. Antes de pegar no sono, instintivamente, puxou as cobertas tapando sua cabe�a. Sempre repetia aquele gesto quando sentia medo, desde a inf�ncia, nas in�meras noites mal dormidas nos orfanatos onde viveu. Quase entregue aos bra�os de Morfeu lembrou da boca de Ang�lica e adormeceu com um sorriso nos l�bios.

 

 

*********************

 

No s�bado pela manh� Cristine encontrou Dr. Mendes instalado na mesa das refei��es tomando seu caf� da manh�. James estava com ele e conversavam sobre neg�cios. Cristine inteirou-se das atividades da fam�lia e teve uma breve no��o do que a aguardaria, conforme o que estivesse estipulado no testamento do tio. Artur tinha uma firma de importa��o de produtos eletr�nicos, pe�as e componentes. Quem estava administrando tudo naqueles dias era James. O rapaz parecia abatido, p�lido e com olheiras.

- Voc� est� melhor, James? � perguntou Cristine.

- Estou. Foi s� uma indisposi��o. Mas j� me sinto bem. Desculpe-me n�o t�-la acompanhado nas refei��es ontem...

- Ora, por favor, nem se desculpe por isto. � respondeu Cristine.

- Minha filha � disse Dr. Mendes � Acredito que seja interessante tomares um pouco mais de conhecimento acerca dos escrit�rios e das representa��es do falecido.

Cristine deu de ombros e o advogado continuou:

- Creio que James e eu possamos coloca-la a par, mais tarde, no escrit�rio.

- Por mim tudo bem. S� n�o sei se vai servir para alguma coisa... � disse Cristine.

Fez-se um sil�ncio e Cristine continuou:

- N�o seria mais l�gico esperar a abertura do testamento? Acredito que dentro de cinco dias eu partirei, assim como cheguei aqui... E retomarei a minha vida de antes.

Novamente o advogado preferiu o sil�ncio. Somente anuiu:

- Tu que sabes...

James permanecia calado, como se aquela conversa n�o lhe dissesse respeito. Ele tinha uma apar�ncia de pessoa triste, pensou Cristine. Ela imaginou como devesse ter sido a vida dele antes de estar ali, e sentiu compaix�o. E tentou conceber tamb�m como deveria ter sido a rela��o dele com o tio. Pelo que ouvira falar, novamente foi tomada por um sentimento de pena. James deixava transparecer justamente isso: fragilidade e tristeza. Provavelmente a tristeza estivesse acentuada com a perda do tio, que deveria ser o seu norte. Cristine continuou a observ�-lo discretamente. Havia algo em seu olhar que deixava Cristine mobilizada. N�o saberia definir ao certo. Sempre f�ra boa observadora da natureza humana, mas James parecia ter uma redoma que impedia qualquer tentativa de entender seu interior. Talvez porque custasse a encarar as pessoas. Costumava falar desviando os olhos do seu interlocutor. Era, de fato, uma inc�gnita.

 

 

Ao t�rmino do caf� James disse que precisaria ir at� a cidade, sendo que s� retornaria � noite. Cristine preferiu ir at� a biblioteca para procurar algo para ler. Dr. Mendes a acompanhou. Distra�ram-se na busca e quando deram por si j� era quase hora do almo�o.

Quando desceram e sentaram-se na sala de estar at� o almo�o ser servido Ang�lica se juntou a eles.

- Bom dia. � disse a morena.

- Bom dia. � responderam ambos, sendo que Cristine continuou � Pensei que eu tivesse sido convidada para conhecer uma certa estufa...

- Mas o dia rec�m come�ou, senhorita afobada... � respondeu com um sorriso de vi�s que deixou Cristine sem jeito. � Depois do almo�o podemos passar a tarde l�. Tem muita coisa para se ver...

- Que bom! O senhor tamb�m vem Dr. Mendes? � quis saber Cristine.

- N�o... Eu j� conhe�o a estufa, detalhadamente, alias... Artur vivia metido l�, dando palpites no trabalho de Israel...

Ang�lica sorriu tristemente, baixando os olhos.

- Mas voc� vai realmente ficar encantada � continuou o advogado.

- Pelo discurso de voc�s creio j� estar encantada!

 

 

 

Almo�aram tendo Valesca e Jo�o V�tor como companhias. Valesca estava visivelmente ansiosa com a proximidade da abertura do testamento, porem n�o fez nenhum coment�rio acerca disto. Manteve um sil�ncio respeitoso. Depois do almo�o, como de costume, Valesca e seu suposto irm�o desapareceram das vistas dos demais.

Dr. Mendes foi para o escrit�rio e as duas mulheres seguiram para a estufa. Conversavam animadamente. Cristine havia acordado melhor. A sensa��o de medo e desconforto havia se amenizado. Provavelmente porque sonhara, n�o com fantasmas, mas com anjos... de lindos olhos azulados.

Garoava naquele in�cio de tarde e Cristine n�o p�de deixar de alegrar-se com aquilo, pois novamente foi acolhida no abra�o de Ang�lica que segurava seu guarda-chuva negro sobre a cabe�a de ambas. 

A estufa ficava no outro extremo da propriedade, na dire��o oposta � casa de Ang�lica. Seguiram por outra viela por cerca de trezentos metros. A estufa constitu�a-se de uma enorme arma��o de madeira revestida por um pl�stico transparente e espesso. Aquele sistema permitia que no ver�o o revestimento fosse suspenso deixando o ambiente arejado e na temperatura ideal para as esp�cies que abrigava. O telhado baixo era coberto por telhas francesas, tendo algumas unidades de telhas transparentes, o que permitia utilizar ilumina��o natural.

Em seu interior havia uma variedade imensa de flores, folhagens, mudas de �rvores ornamentais, nativas e frut�feras, enfim, incont�veis vasinhos enfileirados em prateleiras em formato de arquibancadas. O local todo deveria ter mais de quatrocentos metros quadrados.

Cristine observava boquiaberta a infinidade e a beleza das esp�cies ali existentes. Havia orqu�deas que, segundo Ang�lica, devido ao sistema de calefa��o floresciam durante todo o ano. As arauc�rias beb�s enfileiradas simetricamente pareciam miniaturas de pinheiros de natal. As variedades de samambaias que projetavam suas folhas como longos bra�os esverdeados rumo ao ch�o encantaram Cristine.

Numa prateleira central encontraram Israel colocando terra adubada numa fileira de vasos, ainda vazios, preparando-os para receberem uma vida verde em seu seio.

- Oi pai. � disse Ang�lica.

- Ol�. � respondeu o velho.

- Senhor, que belo trabalho desenvolve aqui! � elogiou Cristine.

- Que � isso... � respondeu Israel � Eu s� auxilio um pouco essa maravilhosa natureza que nos cerca, a m�o verde de Deus.

- N�o se subestime � continuou Cristine � Eu soube de fonte segura que o senhor � quem mant�m este lugar lindo, al�m de t�-lo constru�do.

Israel sorriu. Logo em seguida Cristine submeteu o pai de Ang�lica a toda sorte de perguntas sobre aquelas plantas, ao que o velho pacientemente respondia em detalhes. Na verdade era um prazer para ele falar sobre seu trabalho, principalmente quando percebia o real interesse de algu�m. Israel explicava a origem de cada planta, sua flora��o, peculiaridades, nome cient�fico, enfim, informa��es de quem conhecia com propriedade tudo aquilo.

Passaram quase que toda a tarde ali, sem que Cristine tivesse visto tudo que havia para ser conhecido naquele lugar. Por volta de cinco horas Israel convidou-as para tomar um caf�, em casa.

- Vai indo, pai, eu ainda quero mostrar o meu xodozinho para Cristine. � disse Ang�lica.

O velho assentiu e dirigiu-se para casa, deixando-as sozinhas naquela imensid�o esverdeada.

- Vem aqui. � disse Ang�lica seguindo por um dos corredores estreitos sendo acompanhada de perto por Cristine.

Desta feita foi a vez de Cristine observar sem cerim�nias o gingado do caminhar de Ang�lica. Balan�ou a cabe�a e tratou de observar as plantas.

Quase no final do corredor havia uma prateleira exclusivamente destinada a uma planta��o de morangos. Cristine arregalou os olhos. Adorava morangos!

- Aqui est� a minha se��o favorita deste lugar � disse Ang�lica colhendo um dos morangos, retirando seu pequeno caule e colocando-o sob a �gua corrente de uma torneira pr�xima.

Levou o fruto avermelhado � boca e fez uma express�o de deleite ao sabore�-lo e sentir a doce acidez de sua polpa. Em seguida colheu outro e repetiu o gesto, por�m estendeu o fruto na dire��o da boca de Cristine. A loirinha entreabriu os l�bios e deu uma mordiscada no morango enorme, deixando o caldo doce escorrer do canto de sua boca. Mastigou a polpa adocicada de olhos fechados.

- Huuuummm... Que del�cia! � exclamou.

Ang�lica estendeu-lhe a outra metade do morango e quando Cristine abocanhou a parte de baixo do fruto n�o p�de evitar o contato de sua boca com a ponta dos dedos de Ang�lica. Esta sentiu a maciez dos l�bios de Cristine na ponta de seus dedos e uma sensa��o de excita��o a invadiu. Intencionalmente Cristine demorou mais do que seria necess�rio para abocanhar a fruta. Deixou propositalmente seus l�bios em contato com os dedos de Ang�lica, chegando a sugar delicadamente a ponta de seu indicador. Sentiu o estremecimento da morena e encarou-a com certa dose de mal�cia. Ang�lica manteve o olhar, sentindo um fogo subir-lhe pelo corpo. Com movimentos lentos colheu outro morango, lavou-o e novamente o levou aos l�bios de Cristine. S� que desta vez, quando a loirinha fez men��o de abocanh�-lo, afastou-o um pouco de seus l�bios, numa brincadeira sensual. Aproximou-se dela, entregou o morango em suas m�os e disse:

- Minha vez...

Cristine n�o se fez de rogada. Pegou o fruto suculento e o levou na dire��o da boca de Ang�lica, que lhe sorria lascivamente. A morena mordeu uma parte dele e tamb�m fechou os olhos, sentindo seu caldo escorrer-lhe no canto da boca. Cristine levantou sua m�o livre interceptando aquele filete adocicado que escorria dos l�bios da mulher � sua frente. Ang�lica emitiu um gemido baixo ao sentir o toque de Cristine em seu rosto, afagando aqueles dedos com um movimento lateral de rosto. Ainda com a m�o livre Cristine contornou a boca de Ang�lica com a ponta dos dedos, enquanto esta abria os olhos e entreabria a boca, como que suplicando o restante do fruto. Cristine levou a polpa avermelhada novamente aos l�bios de Ang�lica, que desta vez extrapolou os limites da fruta, passando os l�bios sensualmente nos dedos da loirinha, que sentiu uma excita��o crescente dentro de si.

Sem desviar os olhos de Cristine, Ang�lica pegou outro fruto, desta vez menor e o levou � boca da loirinha. Esta o abocanhou completamente, tamb�m extrapolando os limites do fruto e aprisionando os dedos de Ang�lica entre seus l�bios. A morena deixou-se prender por aquela boca sedenta e permitiu que Cristine lambesse delicadamente seu indicador, depois passasse a l�ngua languidamente por seu polegar, sugando o caldo que escorria por ele. De olhos fechados Cristine pode sentir quando os dedos de Ang�lica libertaram-se de seus l�bios e escorregaram na dire��o de sua nuca segurando-a com firmeza e trazendo-a para junto de si. A sensa��o que sentiu a seguir foi um misto de prazer e �xtase. A boca de Ang�lica tocou a sua com suavidade e do�ura. Em princ�pio os l�bios movimentaram-se contornando os seus pr�prios, beijando-os suavemente.

Os corpos colaram-se como que envoltos por fios invis�veis. Elas podiam sentir a incandesc�ncia da pele. As m�os passeavam pelos contornos e curvas, numa viagem explorat�ria e prazerosa.

Cristine entreabriu os l�bios, exigindo mais. Queria a maciez da l�ngua de Ang�lica em contato com a sua. Uma umidade invadiu as duas mulheres que se acariciavam abra�adas. Cristine passava sua l�ngua no c�u da boca de Ang�lica, penetrando-a agora com urg�ncia e vol�pia. E Ang�lica correspondia plenamente aos est�mulos daquela pequena mulher. E lhe dava o que ela, atrav�s dos sentidos, lhe implorava.

Aquele beijo intenso, molhado e quente foi a melhor sensa��o que Cristine j� experimentara na vida. Nunca ningu�m a havia beijado com aquela intensidade, com aquela entrega. Nunca, atrav�s de um simples beijo, sentiu-se t�o desejada como naquele momento. Quando encarou Ang�lica viu o fogo e o desejo latente em seus olhos. Sorriu-lhe com sensualidade enquanto sentia novamente a press�o da boca de Ang�lica na sua e o movimento de sua l�ngua buscando dar e receber prazer.

Ang�lica desejou que aquele beijo durasse uma eternidade. Teve vontade de beijar aquela boca assim que a viu pela primeira vez. Embora isso pudesse interferir em seus planos estava disposta a arriscar-se para viver plenamente aquele momento. Queria aquela mulher, toda, inteira. Seu corpo tremia de excita��o e sua respira��o ofegava de encontro � l�ngua colada na sua.

Ambas sentiam a vontade quase que incontrol�vel de arrancar todas aquelas roupas que impediam que seus corpos se tocassem. Sentiam-se arder e os sexos latejavam.

Pouco a pouco foram aliviando a press�o das bocas e encararam-se amorosamente, uma mergulhada nos bra�os da outra.

- Eu adoro morangos, sabia? � brincou Cristine.

- Deu pra perceber... � respondeu Ang�lica sorrindo.

- Mas confesso que nunca haviam me servido assim...

- Assim como? � provocou Ang�lica.

- De uma forma t�o... deliciosa.

- Folgo em saber � riu-se a morena � E por acaso a senhorita gosta de outras frutinhas tamb�m?...

- Depende...

- Depende??? De qu�?

- De como me s�o servidas... � respondeu Cristine com mal�cia.

- ��h... Eu estava me referindo a um fondue... de frutas.

- Adoro!

- Ent�o que tal a gente fazer um l� em casa... daqui h� pouco?

- Eu topo. Mas agora eu quero mais um pouquinho desses suculentos morangos... � disse Cristine colando novamente sua boca � de Ang�lica.

Depois de mais algumas car�cias as duas mulheres conseguiram, mesmo que a contragosto, desvencilharem-se uma da outra. Ang�lica acompanhou Cristine at� o castelo e combinou de busc�-la dentro de uma hora e meia.

Neste meio tempo a morena providenciou o que precisava para o fondue e tomou um banho. Perfumou-se e escolheu uma roupa que valorizava seus contornos. Queria estar especial naquele fim de tarde.

 

 

 

Cristine, mergulhada na �gua quente da banheira de seu quarto, estava ansiosa para estar de novo com Ang�lica. Queria sentir aquela boca novamente. E muito mais. Queria ser tocada com a mesma intensidade daqueles beijos. De fato n�o conseguia lembrar de nenhuma sensa��o igual. As noites de intimidade com Mariana ultimamente estavam limitadas a uma meia d�zia de beijos e a um orgasmo, e pronto. Cada qual se vestia, pagavam o motel e iam para suas casas. A sua �ficante� n�o queria maiores envolvimentos. E Cristine n�o sentia mais reciprocidade nas car�cias, nem t�o pouco um ardor como vira nos olhos de Ang�lica. Deu-se conta que merecia muito mais do que vinha tendo, n�o queria mais nenhuma migalha afetiva. Queria uma mulher inteira, de corpo e alma numa rela��o, nem que fosse somente por uma noite, mas queria uma mulher plena.

Depois que saiu da �gua e secou-se vestiu um blus�o de l� verde oliva de gola role e uma cal�a preta. Passou a m�o pelos cabelos molhados ajeitando-os como costumava fazer sempre, sem usar pente. �As vantagens do cabelo liso�, pensava. Colocou seu perfume preferido e enrolou o pesco�o num cachecol de l�. Cal�ou um par de luvas, pois a temperatura estava caindo muito. Jogou seu casaco pesado por cima, depois de cal�ar as botas. Olhou-se no espelho e viu uma mulher diferente da que acordara naquela manh�. A donzela submissa havia cedido lugar � mulher decidida a gozar as del�cias do prazer e da sedu��o. Com esses pensamentos desceu as escadarias de pedra com passos decididos e firmes, sem nem se lembrar do que vira no final daquele corredor pela manh�.

Encontrou Regina na cozinha e lhe disse:

- Regina, eu n�o vou jantar aqui hoje. A Ang�lica me convidou para um fondue na casa dela.

- Aquela menina vive inventando coisas... Mas esse neg�cio � bom mesmo! � riu-se Regina.

- Poderias avisar o Dr. Mendes e o James? Para que n�o se preocupem.

- Pode deixar que eu aviso.

 

 

 

Quando Ang�lica chegou ao castelo Cristine j� a guardava na cozinha, conversando com sua m�e.

- Oi. � disse com a cara mais deslavada do mundo.

- Oi. � respondeu Cristine.

- E a�? Pronta pra ser minha cobaia? � perguntou a morena.

- Como assim? Voc� nunca fez um fondue antes? � questionou Cristine � �Ou ser� que pensa que eu nunca fui com uma mulher para a cama?�, pensou divertida.

- Calma... � que vou estrear um aparelho de fondue novo. Espero que seja bom.

- Vai ser... � disse Cristine, deixando transparecer segundas inten��es na voz, percebidas somente por Ang�lica, que disfar�ou.

- Vamos ent�o? � disse a morena.

- Vamos.

- � m�e... n�o comenta com o Ariel que a gente vai fazer fondue, sen�o o cabe�udo vai se enfiar l� em casa e torrar a paci�ncia da Cristine. � pediu Ang�lica.

- Pode deixar, eu n�o comento n�o � disse Regina rindo � Aquele moleque enche o saco mesmo de vez em quanto!

- Valeu m�e!

- Tchau Regina! � disse Cristine.

- Tchau guriazinhas.

Elas seguiram a p� para a cabana de Ang�lica, sem a proximidade oportunizada pelo guarda-chuva. Ironicamente a chuva havia estiado embora o c�u permanecesse encoberto. Eram seis e meia, por�m a noite j� havia espalhado suas sombras pelas montanhas e pelo vale. Somente uma t�nue luminosidade no poente parecia lutar contra a noite que ca�a abruptamente. O mesmo vento cortante da tarde continuava fustigando o rosto e teimando em penetrar pelas dobras das vestimentas. Cristine encolheu-se devido ao ar gelado e Ang�lica passou o bra�o ao redor de seus ombros.

- Ta com frio?

- To.

- Chega pertinho ent�o... Eu te esquento...

- Isso � uma promessa?

- Ou uma amea�a! � completou Ang�lica em tom de brincadeira.

As duas gargalharam, aproveitando o momento de descontra��o para se aproximarem bem, e caminharam agarradinhas at� perto do port�o.

- Olha s�, vamos dar um drible no Ariel, sen�o a gente vai ter companhia no fondue... � disse Ang�lica pegando Cristine pela m�o e fazendo um pequeno desvio no trajeto.

Ao inv�s de seguirem pelo caminho principal contornaram a propriedade pelos fundos, procurando n�o fazer barulho. Na casa de Ang�lica tamb�m entraram pela porta dos fundos.

Depois de fecharem a porta � chave Ang�lica tirou seu casac�o e ajudou Cristine a desvestir o seu. Penduraram os casacos na guarda de uma cadeira e foram para a sala. Ali na mesinha de centro, defronte � lareira, o aparelho de fondue j� esperava as mulheres famintas. Uma t�bua de frios preparada aguardava ao lado de uma garrafa de vinho.

- S� falta descascar algumas frutas... � disse Ang�lica.

- Eu te ajudo � falou Cristine arrega�ando as mangas do blus�o e lavando as m�os na pia da cozinha.

Ang�lica tamb�m lavou as m�os e elas se puseram a descascar e picar as bananas, as laranjas, o mam�o, as mangas, o mel�o e as ma��s. Os morangos e as uvas j� estavam lavados e colocados em tijelinhas. Com as frutas dispostas em pratinhos foram para a sala. Ang�lica acendeu o aparelho de fondue e abriu a garrafa de vinho.

- Tu tomas vinho? � perguntou a morena.

- Tomo.

- Se preferires outra bebida...

- Eu te acompanho no vinho. � disse Cristine.

Ang�lica serviu duas ta�as e inclinou-se, oferecendo uma � Cristine.

- Sa�de. � brindaram

Ambas bebericaram o vinho devagar, sentadas uma em frente � outra no pelego de l�, tendo a lareira acesa como fonte de luminosidade naquele canto da sala. Ang�lica havia deixado o ambiente � meia luz. Elas observaram-se mutuamente � luz tremulante das labaredas que se agitavam ati�adas pelos n�s de pinho.

Ang�lica vestia uma cal�a jeans e um su�ter cor de telha. Havia tirado as botas e estava somente de meias, assim como Cristine, que deixara seu cal�ado junto � porta da rua. Todo o assoalho da casa de Ang�lica era de madeira, o que tornava aquele ambiente aconchegantemente quente. 

Degustaram os frios e quando o chocolate j� havia derretido na cumbuca ovalada passaram a espetar as frutas e mergulha-las naquele recipiente refrat�rio.

- Huuummm... isso � um alimento dos deuses... � disse Cristine.

- Digno de uma deusa... � respondeu Ang�lica lhe estendendo um morango com chocolate.

Cristine olhou para ela com imenso carinho. Sentia sinceridade em suas palavras. Mordeu a fruta saboreando-a lentamente.

Ang�lica aproximou-se dela, deitando-se de lado no pelego e apoiando-se no cotovelo. Ficou de frente para Cristine e pegou outro pequeno morango, desta vez com a m�o, mergulhando sua extremidade no chocolate quente tomando o cuidado de n�o queimar seus dedos. Repetiu o gesto da tarde e levou a fruta na dire��o dos l�bios de Cristine. Novamente quando esta quis abocanh�-lo afastou o fruto em sua dire��o, obrigando a loirinha a aproximar-se e ficar quase que em cima dela. Sorriram.

- Vem pegar � disse Ang�lica � segurando o morango entre os pr�prios l�bios.

Cristine sentiu todo seu corpo se acender e levou sua boca at� a de Ang�lica. Apertou os l�bios contra os delas e ambas sentiram a do�ura da fruta escorrendo nas bocas. Entrela�aram-se e beijaram-se com urg�ncia e ardor. As l�nguas de fogo da lareira crepitavam no mesmo ritmo fren�tico que as l�nguas das amantes.

Deitadas de lado, uma em frente a outra, acariciavam-se enquanto as bocas faziam jogos amorosos. Num clima de namoro adolescente ficaram um bom tempo brincando com as frutas e o chocolate. Lambuzaram-se com o doce e com a polpa das frutas. Lambiam as bocas e os arredores numa brincadeira divertida e sensual.

O azul dos olhos de Ang�lica refletia as chamas alaranjadas da lenha que ardia e esquentava o ambiente. Sorriam uma para a outra como duas jovens descobrindo a paix�o. Cristine acariciava o rosto da morena acompanhando o contorno daquela face angulosa e a linha levemente arrebitada de seu nariz. A boca sim�trica por vezes ria com um dos cantos mais contra�do que o outro, conferindo um charme todo especial �quele sorriso que emoldurava a denti��o perfeita.

Quando a calda de chocolate terminou no recipiente elas relegaram a segundo plano aquele divertimento. Saciada a fome queriam mais...

Ang�lica puxou Cristine para bem perto de si. Deitou-se de costas na maciez do pelego de l� e fez a loirinha deitar-se sobre ela, acariciando suas costas por sobre a textura aveludada de sua blusa de l�. Cristine sentiu o ardor do corpo daquela mulher sob o seu e intencionalmente come�ou a fazer uma press�o com seus quadris de encontro ao p�bis da morena. A rea��o de Ang�lica foi imediata. Sentiu agigantar-se o desejo dentro dela. Seus olhos semicerraram-se e ela segurou os quadris de Cristine com firmeza, movimentando-os vagarosa e ritmicamente contra os seus, abrindo levemente suas pernas, na inten��o de encaixar Cristine entre elas. Ambas sentiram-se totalmente molhadas. E queriam mais.

As vestes pesadas tornaram-se barreiras a serem transpostas. Sentindo um rubor de excita��o nas faces Cristine sentou-se sobre Ang�lica, que permanecia deitada, e a fitou com fogo nos olhos. Sorriu lascivamente. Levou suas m�os ao seu blus�o puxando-o para cima e descobrindo seu torso, que n�o tinha mais nada a cobri-lo al�m da l� verde oliva. Ang�lica contemplou os seios pequenos e desnudos expondo-se sem pudores e oferecendo-se a ela. Levou suas m�os at� os mamilos rosados e rijos e contornou a ambos, fazendo Cristine gemer de prazer. Ainda insatisfeita Cristine desabotoou sua cal�a e num movimento �gil se desfez dela e da calcinha rendada tamb�m. Ang�lica estava com a boca seca e os sentidos totalmente entorpecidos pela vis�o daquela deusa em forma de gente que, sentada nua sobre ela, esfregava-se implorando ser tocada. Podia ver o reflexo do rastro molhado que Cristine estava deixando em sua cal�a jeans. Os pelos louros encharcados continuavam a se mover ritmicamente contra seus quadris.

Num movimento ousado Ang�lica descerrou o z�per de sua cal�a e Cristine a puxou para baixo, enquanto a morena se desfazia da parte de cima de sua vestimenta. Totalmente nua sentiu a maravilhosa sensa��o do contato do sexo de Cristine com o seu e gemeu alto, contorcendo-se. Sentiu o jorro que escorria de Cristine misturando-se ao seu pr�prio.  jorro que escorria de Cristine misturando-se ao seu prontorcendo-se. seus quadris.e cima de sua vestimenta. lEstava preste a gozar com aquele simples contato. Respirou fundo e controlou sua explos�o iminente. Sentiu o olhar de Cristine fixo em seus peitos morenos e gemeu novamente quando a loirinha inclinou-se e abocanhou cada um deles, suavemente, sugando-os um a um, sem pressa. Apoiou-se nos cotovelos para facilitar o acesso de Cristine a seus mamilos intumescidos. A cada movimento da l�ngua de Cristine, Ang�lica gemia baixinho.

Num movimento mais brusco a morena sentou-se e abra�ou Cristine, encaixando-a sentada entre suas pernas. Passou as m�os pelas suas costas, sentindo-a arrepiar-se por completo. Levou sua boca at� os peitos da loirinha sugando-os com suavidade. Cristine arqueou seu corpo para tr�s, segurando a cabe�a de Ang�lica enquanto esta lhe lambia os mamilos. Apertou sua cabe�a de encontro aos seios exigindo que os sugasse com vigor, o que Ang�lica prontamente fez. Desta vez foi Cristine quem gemeu alto.

Deliciando-se com as rea��es da mulher sentada sobre ela Ang�lica baixou sua m�o acariciando as n�degas e, por tr�s, chegou at� o sexo de Cristine. Neste momento sentiu a mulher movimentar seus quadris para tr�s, na dire��o de seus dedos, como que implorando para ser penetrada. Ang�lica sentiu o quanto Cristine estava encharcada e seus dedos moveram-se escorregadios para dentro daquela cavidade morna e macia. Cristine emitiu um gemido gutural e abocanhou a boca de Ang�lica, num beijo ardente. Iniciou um movimento de press�o contra os dedos da morena que a penetrava ritmicamente. Ang�lica continuava os movimentos de vai e vem quando sentiu que Cristine ajoelhou-se sobre ela fazendo com que seus dedos sa�ssem de dentro de seu sexo. Cristine puxou Ang�lica para cima, a fim de que ficasse na mesma posi��o que ela, ajoelhada � sua frente. Colou seu corpo ao da morena e colocou seus dedos �geis diretamente sobre o ponto de prazer da morena. Cristine sentiu o volume rosado aumentar de tamanho em sua m�o e massageou-o com habilidade, arrancando sussurros de prazer da boca da morena.

- A��hhh... ����hh... ����hhh...

- Voc� quer aqui?... � gemeu Cristine no ouvido de Ang�lica.

- Quero... assim... mais... isso... mexe... ����... ����...

Cristine se deliciou com a s�plica de Ang�lica, que arrega�ava suas pernas expondo cada vez mais seu sexo incandescente, rogando ser possu�da.

A morena tamb�m colocou sua m�o entre as pernas de Cristine e sentiu-a estremecer. Iniciou um movimento firme de vai e vem no bot�o carnudo e totalmente escorregadio pelos sumos de sua excita��o. Elas n�o estavam ag�entando mais e concomitantemente aceleraram a fric��o, gemendo alto e mexendo os quadris. A explos�o do orgasmo veio quase que imediata. Espasmos agitaram os corpos das amantes enquanto as chamas crepitavam na lareira. Com as pulsa��es ainda aceleradas e sentindo todo o corpo latejar de prazer, abra�aram-se fortemente. Permaneceram de joelhos, naquele abra�o pleno de intimidade e de compartilhar.

Beijaram-se com suavidade e do�ura enquanto se deitavam abra�adas, esperando que as respira��es e os batimentos card�acos voltassem ao ritmo normal.

Olharam durante um tempo para as labaredas que crepitavam, acariciando-se em sil�ncio, at� que Cristine falou:

- Voc� sempre seduz mulheres indefesas com esta estrat�gia do fondue? � brincou.

- N�o... Somente aquelas que acho que n�o ceder�o aos encantos dos meus belos olhos.

- Bom... ent�o eu fui seduzida pelos dois... � respondeu Cristine sorrindo.

Ang�lica beijou-a com suavidade. Cristine continuou:

- Voc� conseguiu fazer todo este contratempo da minha vida valer a pena, sabia?

Ang�lica a apertou com for�a contra o peito. Cristine continuou:

- Mais que isso, voc� fez com que eu me sentisse mulher de novo. Depois de tanto tempo...

- Como assim? � quis saber Ang�lica.

- Fazia bastante tempo que eu n�o sentia esse... esse ardor, esse tes�o todo.

- Isso eu duvido... Como o mundo pode ser cego a ponto de n�o te desejarem assim? Tu �s uma mulher maravilhosamente bela... Tenho certeza que um batalh�o de mulheres e de homens gostaria de estar aqui no meu lugar agora...

Cristine riu-se evidenciando n�o crer naquelas palavras.

- Voc� � exagerada...

- E tu te subestimas muito. Te olha no espelho, guria! Tu � linda sim. Por fora e por dentro...

- Voc� me conhece pouco...

- Mas raramente me engano. E agora eu tenho a certeza. O que eu vi em ti assim desnuda, e eu falo de nudez de m�scaras, foi a plena certeza de estar com uma fada nos bra�os... uma pessoa do bem.

Cristine emocionou-se e apertou Ang�lica contra o peito.

- Mas tem uma coisa me incomodando agora... � disse Ang�lica enigmaticamente.

- O qu�? � perguntou Cristine com uma ruga de preocupa��o estampada na testa.

- Muita conversa. Eu quero mais a��o. � respondeu a morena reiniciando as car�cias mais ousadas em sua parceira, fazendo reacender-se o fogo e o desejo de dar e receber prazer.

 

 

Ap�s amarem-se com uma vol�pia beirando a devassid�o continuaram deitadas em frente � lareira, recostadas em almofadas de um tecido acetinado, prazeroso ao tato. As chamas haviam se extinguido e restavam brasas incandescentes que ainda mantinham o ambiente aquecido. Ang�lica colocou mais lenha no fogo e as labaredas reavivaram-se tremulantes. A luz amarelada refletia-se nos cabelos loiros de Cristine, conferindo-lhe um ar angelical. O rel�gio de parede marcou meia noite. Cristine se deu conta do adiantado da hora.

- Eu preciso ir... � disse a loirinha demonstrando pouca vontade de sair do aconchego daqueles bra�os.

- Fica... passa a noite aqui comigo...

- N�o posso...

- Por qu�? � perguntou Ang�lica.

- Porque as paredes daquele castelo devem ter ouvidos... e olhos... E acho que n�o pega bem eu ficar aqui... faz s� quatro dias que o tio Artur faleceu... sei l�... n�o acho adequado...

- Mas quem � que vai saber da gente?...

- Eu sei.

Ang�lica assentiu, e teve de dar a m�o � palmat�ria. Aquela pequena mulher tinha, al�m de todos os encantos que provara, bom senso e �tica. E ela gostava disso. A contragosto desvencilhou-se dela e vestiu-se novamente.

- Ta com fome? � Perguntou Ang�lica.

- To... com muuuuita... Voc� conseguiu esgotar as reservas energ�ticas desse corpinho aqui.

Ang�lica riu e foi para a cozinha enquanto Cristine se vestia.

- Sabe de uma coisa? Eu n�o sei como vou entrar no castelo... � disse Cristine pensativa.

- Pela porta, ora!

- Mas com que chave?

Ang�lica gargalhou:

- Fica tranq�ila que aqui a gente costuma deixar as portas destrancadas. Ainda d� pra fazer isso. � disse a morena.

- Mas pelo que pude perceber a senhorita trancou suas portas � chave... � provocou Cristine.

- Bom... Convenhamos que n�o seria muito adequado que meu inocente irm�ozinho te visse em trajes de Eva gozando em cima de mim...

- Boba! � disse Cristine, jogando um guardanapo na morena que se esquivou do arremesso.

 

 

Fizeram um lanche e Ang�lica acompanhou Cristine at� o castelo. Despediram-se com um beijo roubado e discreto. Cristine abriu a porta da cozinha bem devagar, sendo que a mesma emitiu um rangido baixo. Olhou para dentro e o ambiente estava vazio, na penumbra, havendo somente uma claridade t�nue vinda dos corredores. Ela se deslocou silenciosamente na dire��o da escadaria e nem percebeu que uma figura esguia, discretamente posicionada atr�s de um dos pilares de pedra, a observou caminhar rumo ao seu quarto. O vulto oculto nas sombras franziu o cenho preocupado. �O que estaria Cristine fazendo na rua �quela hora?�, pensava, �Ser� que ela percebeu alguma coisa?�... �Caso tenha percebido ser� necess�rio tomar uma atitude mais urgente�...

 

 

Ang�lica retornou para casa que era s� sorrisos. Apesar de tudo que estava se passando sentia-se flutuar. No caminho pensava, �tudo bem, isso � s� uma pequena mudan�a na ordem das coisas... n�o me impedir� de cumprir o que me propus fazer, muito pelo contr�rio...�. No entanto, ao mesmo tempo em que se sentia envolvida e leve, uma sensa��o de preocupa��o a afligia. Sabia perfeitamente o que ocorria n�o muito longe dali.

 

 

*******************

 

 

Cristine tamb�m ostentava um sorriso no rosto e tinha uma sensa��o de leveza e bem estar. Caminhou pelos corredores sombrios sem medo, pensando no toque de Ang�lica, e entrou em seu quarto sem nem sequer lembrar-se do que havia mais adiante, na pe�a cont�gua ao quarto do falecido tio. Tirou a roupa e deitou-se nua, ainda sentindo o cheiro de Ang�lica em seu corpo. Estava por demais mexida, pensando na delicadeza da mulher com a qual fizera amor. Rememorava cada gesto, cada sensa��o, cada toque... E n�o conseguia conciliar o sono. Olhou para o rel�gio de pulso e o marcador luminoso marcava uma e meia da madrugada. Levantou-se e serviu-se de um copo d��gua que Adelaide deixara ao lado de uma jarra de cristal, numa bandeja de prata, em seu criado-mudo. Sorveu a �gua avidamente e jogou um roup�o atoalhado por cima do corpo nu. Foi at� sua janela, cujos vidros estavam fechados em virtude do frio, e puxou a cortina pesada para o lado. Olhou na dire��o da escurid�o e abriu um dos lados da vidra�a, para sentir a aragem da noite. O vento gelado e cortante fez com que um arrepio lhe percorresse o corpo, pois contrastava com a temperatura amena do quarto, mantida pelo sistema de calefa��o.

Cristine respirou o ar �mido da noite, de olhos fechados, ainda recordando os momentos de amor que vivenciara ainda h� pouco. Abriu os olhos lentamente, tentando divisar os contornos da natureza, uma vez que parara de chover e a noite estava clara, apesar da nebulosidade. A lua quase cheia teimava em espargir uma fraca luminosidade que vencia a barreira das nuvens. Cristine conseguiu ver os contornos das montanhas e, mais ao fundo, as silhuetas do arvoredo do vale.

Neste estado contemplativo percebeu algo diferente naquela paisagem noturna. Bem ao longe, dentro dos muros do cemit�rio, e bem perto dos anjos guardi�es, Cristine percebeu uma movimenta��o estranha. Havia luzes no local. E os quase impercept�veis focos luminosos moviam-se nas sombras da noite. A loirinha fixou os olhos, tentando entender o que se passava. Afinal, quem poderia estar no cemit�rio � uma hora daquelas? E por qu�? Estas perguntas ficaram lhe martelando na cabe�a. Muitas coisas estavam confusas para ela. N�o conseguia entender certas situa��es, nem t�o pouco conseguia penetrar mais a fundo em quest�es familiares, que envolviam sua pr�pria hist�ria de vida. Percebia que as pessoas ao seu redor sabiam mais do que lhe contavam. Aquele ambiente se descortinava estranho e desconhecido.

Num �mpeto fechou a janela, tirou seu roup�o e vestiu-se apressadamente. Estava disposta a tirar aquela hist�ria a limpo.

 

 

Cristine deixou seu medo de lado e mergulhou na escurid�o da noite munida apenas de uma lanterna que havia pegado no pequeno m�vel que ficava ao lado da porta de sa�da da cozinha. Tinha um senso de dire��o bastante agu�ado e lembrava-se perfeitamente do pequeno trajeto feito no dia do enterro de seu tio.

Estava vestida com seu pesado casac�o de l� e havia colocado uma touca para aquecer-lhe as orelhas. Suas botas de cano curto resvalavam na lama da estradinha de ch�o. Alternava os passos cuidadosamente. Caminhava com pressa, sentindo em suas faces as rajadas do vento cortante da madrugada. O sil�ncio era sepulcral. Ouvia-se apenas o uivo fantasmag�rico do vento. As �rvores balan�avam como que numa dan�a ritual, todas juntas, formando uma enorme onda de vegeta��o que parecia querer agarrar Cristine, num abra�o prisional.

Conforme ia avan�ando em dire��o ao campo-santo a impulsividade que motivou Cristine a rumar naquela dire��o foi cedendo lugar a um sentimento crescente de temor. Instintivamente diminuiu suas passadas e tentou fazer o menor ru�do poss�vel em seu deslocamento. �quela altura j� estava na metade do caminho e embora seu bom senso lhe dissesse para retornar decidiu seguir em frente.

Apontava o facho de luz para o ch�o, evitando qualquer armadilha no caminho irregular. Seu olhar alternava-se entre o solo, a vegeta��o � sua volta e o cen�rio � sua frente. Ao aproximar-se mais e avistar o limite gradeado do cemit�rio estancou e olhou para tr�s, parecendo-lhe haver percebido o estalar de uma passada. Foi parcialmente dominada por uma sensa��o de p�nico e encostou-se de costas no muro de pedras, alto e gelado, que circundava o cemit�rio, como que tentando proteger sua retaguarda. Direcionou o foco de luz para o caminho atr�s de si e o que viu foi somente a escurid�o vazia. Respirou fundo tentando fazer com que seus batimentos card�acos diminu�ssem de intensidade. Deixou-se escorregar de encontro ao muro at� ficar de c�coras. Naquele momento um rel�mpago iluminou tudo ao seu redor e logo em seguida um estrondo ensurdecer e seco ecoou nos c�us de agosto. Cristine arregalou os olhos, pois pensou ter visto um vulto entre as sombras do caminho, fitando-a de longe. Prendeu a respira��o e direcionou o foco de luz. Outro raio iluminou a noite e desta vez Cristine nada percebeu.

Mais um raio e um forte trov�o se fizeram ouvir. Instantaneamente foi como se as comportas dos c�us houvessem sido abertas. As gotas espessas come�aram a cair tempestuosamente. Uma sucess�o de raios e trov�es fez Cristine se encolher sobre si mesma, excomungando-se por estar ali naquela situa��o. Tentou racionalizar, n�o podia deixar o p�nico tomar conta dela e falar mais alto que sua raz�o.

Levantou-se e seguiu adiante, acompanhando o muro de pedras. Ao chegar defronte � entrada levou sua m�o ao port�o de ferro que, para sua surpresa, rangeu alto e abriu-se pesadamente.

Cristine quase podia escutar as batidas do pr�prio cora��o. P� ante p� entrou esgueirando-se entre as catacumbas. As figuras de pedra que adornavam as sepulturas pareciam criar vida a cada vez que os raios iluminavam seus contornos frios e encharcados pela chuva. O t�mulo de seu tio ficava mais para o final do corredor principal. Estrategicamente optou por mover-se entre as l�pides, mesmo que por vezes trope�asse em algumas delas. Ainda na metade do trajeto se deu conta que o facho de luz de sua lanterna come�ava a ficar mais fraco, dando sinais de que a bateria estava se extinguindo. Deu uma parada em sua marcha e respirou fundo. Sentiu suas m�os geladas e seu corpo tremer de medo. Mal conseguia controlar suas pernas. Mesmo assim seguiu em frente.

Neste momento Cristine ouviu um baque seco, um barulho alto, como se fosse o de uma rocha contra o ch�o de terra. Estancou e encolheu-se amedrontada entre duas catacumbas de pedra. Instintivamente desligou a lanterna. N�o sabia o que fazer. Estava quase que paralisada de pavor. Ficou naquela posi��o por quase quinze minutos, sem ter coragem de se mover. Fechou os olhos e desejou que Ang�lica estivesse ali com ela. Queria estar aninhada em seus bra�os. A morena conseguia lhe transmitir tanta seguran�a...

 A chuva j� havia encharcado sua roupa e o casaco que usava dobrara de peso devido � �gua acumulada no tecido. O frio a fazia tiritar, aliado ao medo. O som de sua respira��o ofegante se misturava ao ru�do da chuva que ca�a.

�E agora, Cristine?�, pensava ela, �voc� � uma mulher ou um rato?�, �levanta e anda! Vai ver o que est� acontecendo!�... Ordenava para si mesma.

Conseguindo dominar seus temores ergueu-se com cuidado. Sua vista havia se acostumado � escurid�o e passou a mover-se como um animal preste a dar um bote. Segurava fortemente a lanterna apagada em suas m�os. Lentamente foi se aproximando da sepultura de seu tio Artur. Na penumbra percebeu que algo estava diferente. Novamente seus batimentos card�acos aceleraram-se. Prudentemente parou uns instantes e apurou o ouvido. Sil�ncio, absoluto sil�ncio.

Deu mais alguns passos e estancou horrorizada com a vis�o � sua frente. O pesado tampo de m�rmore estava totalmente deslocado para o lado, pendendo num �ngulo de cerca de quarenta graus e escorado na parede lateral do jazigo. Movida pelo instinto Cristine direcionou a lanterna para o buraco escuro do t�mulo e ligou a luz, cujo facho t�nue iluminou o interior vazio da cova. Assustada deu um passo para tr�s, abafando um grito de pavor. Levou sua m�o � boca, como que tentando segurar seu cora��o dentro do peito. Os anjos guardi�es como que surpreendidos na noite, pareciam ostentar semblantes de incredulidade, assim como Cristine.

Est�tica, sentiu suas pernas cedendo com o peso de seu corpo. Fez um esfor�o quase que sobre-humano e conseguiu controlar a sensa��o de desmaio que a invadia. Novamente deu um passo para frente e a luz fraca da lanterna, auxiliada por um rel�mpago fugaz, n�o deixou d�vidas em Cristine: a catacumba estava vazia!

Cristine n�o sabia o que pensar. Teve a sensa��o de estar dentro de um filme de terror. Parecia estar aprisionada num pesadelo horrendo e desejou, com todas as suas for�as, acordar de sobressalto e perceber-se protegida nos bra�os de Ang�lica. Mas n�o era sonho.

Enquanto esses pensamentos borbulhavam em sua mente um novo rel�mpago, seguido de um estampido imediato, iluminou a noite e fez com que Cristine visse nitidamente a figura que se aproximava dela, estendendo-lhe os bra�os. Sem conseguir se conter emitiu um grito apavorado que ecoou na noite, sendo abafado pelo som da tempestade.

� sua frente e avan�ando vagarosamente em sua dire��o havia uma figura disforme, um ser envergado pelo peso do pr�prio corpo, uma parte do rosto descolorido e cadav�rico aparecia por baixo da aba larga do chap�u de feltro encharcado. As m�os estendidas em sua dire��o davam a impress�o de querer aprision�-la em algum calabou�o medieval. Um gesto mais brusco daquele ser horrendo, cujo capote escuro lhe chegava at� os p�s e o chap�u negro escondia parte de seu semblante, fez Cristine derrubar a lanterna e disparar correndo na dire��o do castelo. Num v�o cego pela noite, levava pela frente peda�os de galhos de �rvores e vegeta��o rasteira. No percurso trope�ou in�meras vezes e chegou a cair em duas ocasi�es, levantando-se logo em seguida, movida �nica e exclusivamente pela adrenalina, que agu�ara o seu instinto de sobreviv�ncia. N�o saberia precisar como conseguiu transpor o portal do campo-santo t�o rapidamente.

Chegou � porta dos fundos do castelo ofegante e totalmente aterrorizada. Entrou e fechou a porta atr�s de si, passando uma pesada tranca nos suportes de metal no lado de dentro da porta.

Com o pouco de senso l�gico que lhe restava tirou as botas, para poder correr em sil�ncio pelos corredores desertos. Subiu as escadas quase que de dois e dois degraus. Abriu a porta de seu quarto, entrou e a chaveou logo atr�s de si. Desta feita colocou novamente uma cadeira para escorar o trinco por dentro, deixando-a ali, como um fiel guarda-costas a zelar por sua integridade. Tamb�m correu at� a janela fechando os tampos de madeira e cerrando as tramelas por dentro. Pronto. Sentia-se ao menos parcialmente protegida.

Ali, na segura claridade de seu quarto, desmoronou por completo. Seus joelhos se dobraram e ela deixou-se cair sobre o peso do corpo, solu�ando compulsivamente. Sentia-se sozinha e com medo. Naquele momento seu porto seguro n�o estava longe dali, por�m uma dist�ncia escura e amea�adora a separava dela. Tinha vontade de ir at� a casa de Ang�lica, mas estava sem coragem de ir al�m dos limites daquele quarto. Pensou em ligar para ela, mas temia por sua seguran�a caso se deslocasse sozinha at� o castelo. Sabia que algo terr�vel estava acontecendo l� fora, mas n�o sabia o qu�.

Novamente tentou racionalizar e percebeu que o mais coerente seria esperar o dia amanhecer. Deu-se conta que tremia de frio em virtude das roupas totalmente molhadas. Tomou um banho e colocou um pijama.

Aninhou-se sob as cobertas quentes e tapou sua cabe�a, como sempre fazia quando tinha medo. J� eram quase tr�s horas da madrugada.

Embora tentasse dormir seus sensores internos de perigo a fizeram ficar de olhos abertos a noite toda, vigilante e apreensiva. Milhares de coisas passaram em sua cabe�a. Id�ias mirabolantes, cen�rios demon�acos, paisagens l�gubres, sensa��es temerosas.

Por volta de sete horas percebeu que o dia havia amanhecido e deu gra�as a Deus. Talvez por relaxar frente ao t�rmino da escurid�o acabou pegando no sono e dormiu at� quase dez horas da manh�.

Acordou de sobressalto.

 

 

Cristine sentou-se na cama e olhou o rel�gio. Marcava nove horas e cinq�enta e sete minutos. O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi Ang�lica. Precisava falar com ela. Vestiu-se apressadamente, sobrepondo dois blus�es de l�, uma vez que o �nico casaco mais pesado que havia levado estava totalmente ensopado no ch�o do banheiro. Suas botas tamb�m estavam molhadas, por isto optou por cal�ar t�nis. Decidiu que n�o falaria com ningu�m sobre a noite anterior, somente com Ang�lica. �Preciso aparentar naturalidade quando descer� pensou, tentando controlar seus nervos.

Desceu a escadaria do castelo e percebeu que a sala das refei��es estava vazia. Ficou aliviada. Passou pela cozinha e espiou para dentro vendo que Regina e Adelaide estavam distra�das com o almo�o. Elas nem perceberam sua espiadela furtiva. Silenciosamente dirigiu-se para a porta da frente. Saiu para a rua sentindo um calafrio ao receber uma lufada de vento g�lido no rosto. Encolheu-se toda abra�ando o pr�prio ventre e encurvando-se para enfrentar as investidas das rajadas de vento. N�o estava chovendo, por�m o tempo continuava carregado. �Acho que o sol nunca brilha neste lugar�, pensou Cristine enquanto caminhava apressadamente na dire��o da casa de Ang�lica.

 

 

Embora tentasse relaxar estava apreensiva e tensa, com os nervos � flor da pele. J� passava da metade do caminho quando escutou nitidamente passos atr�s de si. Disfar�adamente tentou perceber alguma movimenta��o com o olhar perif�rico e viu claramente um vulto tentando se esconder na vegeta��o, ao perceber seu movimento. Cristine sentiu um misto de medo e raiva. Estava odiando estar ali naquela situa��o. Embora houvesse conhecido Ang�lica, que era seu �nico alento naquele lugar, sentia-se como um peixe fora d��gua, na verdade um peixe ornamental num tanque com tubar�es. Nesta feita o caminho de ch�o batido fazia uma curva mais acentuada. Cristine n�o teve d�vidas: agachou-se e armou-se com um peda�o de tora de madeira seca. Quem quer que fosse n�o encostaria as m�os nela, pelo menos sem luta. Ficou na espreita e t�o logo escutou o ru�do leve dos passos se aproximando pulou na frente do vulto, esperando ver a garatuja da noite anterior, e gritou, tentando amedront�-lo:

- Parado a�! Se n�o quiser conhecer minha ira!

A cena chegou a ser teatral. Cristine tentava convencer a si mesma antes de quem quer que fosse.

Instantaneamente a figura � sua frente estancou e levantou os bra�os.

- Calma mo�a! � disse o rapaz.

- Quem � voc�?

- Thomaz. Eu trabalho aqui.

- E porque est� me seguindo? � intimou Cristine ainda com a tora em punho, amea�adoramente.

- Eu n�o estou seguindo a senhorita. Estou indo buscar lenha. � respondeu o rapaz brandamente. � Me desculpe se a assustei, n�o foi minha inten��o.

Aos poucos Cristine foi relaxando. Baixou o peda�o de madeira e respondeu:

- Tudo bem... � que n�o estou acostumada a andar assim pelo meio do mato... E me assustei.

- A senhorita gostaria que eu a acompanhasse a algum lugar?

- N�o. N�o precisa. Eu to indo ali na casa da Ang�lica.

- A senhorita � quem sabe. Se precisar de algo � s� chamar. Com licen�a.

 

Cristine deu o lado para o rapaz passar e este rumou pelo mesmo caminho, por�m seguindo em frente, na dire��o do cap�o de mato mais cerrado. Cristine percebeu que ele tinha um fac�o na cintura e um saco de linhagem pendurado. De fato parecia estar disposto a buscar lenha. Pelo menos se quisesse poderia ter lhe atacado, sendo que n�o o fez. J� havia ouvido Dr. Mendes se referir a ele, embora n�o o tivesse visto ainda. Precisava controlar seus nervos. Seguiu em frente.

Contornou a resid�ncia dos pais da morena pelos fundos, n�o queria ser vista por ningu�m. Percebeu fuma�a na chamin� da lareira, respirando aliviada pelo ind�cio de Ang�lica estar em casa. Bateu na porta dos fundos da cabana.

Ang�lica abriu a porta e a fitou com uma express�o inquiridora ao perceber seu evidente nervosismo. Sorriu-lhe afetuosamente e abriu os bra�os. Cristine se jogou neles e se p�s a solu�ar. Ang�lica limitou-se a abra��-la e traz�-la para dentro de casa, fechando a porta atr�s de si.

- Minha querida, o que foi que houve?... � perguntou a morena amorosamente ap�s alguns segundos.

Cristine mal conseguia falar.

- Vem aqui... � disse Ang�lica � Senta... Tenta te acalmar e me diz o que foi que houve.

Ang�lica percebeu que Cristine estava gelada e com pouca roupa. Tratou de servir um caf� rec�m passado e pegou um cobertorzinho de l� na sala, cobrindo-lhe os ombros e aconchegando-a junto de si.

Aos poucos Cristine foi se acalmando e sentindo novamente o sangue esquentar dentro das veias.

- E agora... J� consegue me contar o que houve? � perguntou a morena.

Cristine anuiu com um movimento de cabe�a.

- Me desculpa a entrada assim... tempestiva... mas � que... � que... � e fez sil�ncio.

Ang�lica sabiamente permaneceu calada, somente abra�ando Cristine e passando a m�o sobre as suas, numa atitude de carinho e prote��o. A loirinha respirou fundo e continuou:

- Olha s�.... O que eu vou te falar vai parecer loucura... Mas eu juro que � verdade... Ontem � noite eu n�o conseguia dormir...

- Eu tamb�m custei a dormir... � disse Ang�lica amorosamente, tentando descontrair sua interlocutora � Fiquei pensando numa certa pessoinha adoravelmente sedutora e linda...

Cristine sorriu, continuando logo em seguida.

- Eu abri a janela do meu quarto e vi luzes no cemit�rio.

- No cemit�rio?

- �. Parece mentira, mas � verdade. E eu fui at� l�.

- Tu foste no cemit�rio sozinha de madrugada? � perguntou Ang�lica demonstrando incredulidade. � A troco de qu�???

- Eu precisava ver o que estava acontecendo!

Ang�lica levou as m�os � cabe�a, assumindo um semblante preocupado.

- Tu n�o devia ter feito isso!

- Por qu�? � quis saber Cristine.

- Bom... Porque... Porque � perigoso, ora essa! Andar sozinha de madrugada na rua! E ainda mais num lugar ermo como o cemit�rio.

- Mas voc� falou que aqui n�o tem perigo... � disse a loirinha.

- Bom... n�o tem perigo at� ali... Mas n�o se deve arriscar... Cristine, isso � loucura!

- Loucura � o que eu vou te contar agora... Mas eu juro que � verdade.

- O que �... diga.

- A sepultura do tio Artur est� vazia! A l�pide foi removida e o caix�o n�o est� l�.

Ang�lica engoliu em seco e ficou est�tica.

- Como � que �???... � perguntou a morena com a voz entrecortada.

- Vou te contar toda a hist�ria. � disse a loirinha.

Tentando n�o atropelar as palavras Cristine contou a Ang�lica tudo o que ocorrera na noite anterior. A morena ouviu tudo no mais absoluto sil�ncio. Certa feita pareceu � Cristine que Ang�lica n�o estava t�o espantada com sua hist�ria quanto esperava que ficasse. Por�m convenceu-se de que se tratava somente de uma impress�o, provavelmente pelo impacto que seu relato lhe causara, considerando-se o v�nculo que tinha com o padrinho.

Quando deu por encerrada sua hist�ria Ang�lica permaneceu como que em estado de choque, fitando-a com uma express�o de extrema preocupa��o.

- Diz alguma coisa. � pediu Cristine.

- Eu n�o sei o que dizer...

- Mas ao menos voc� acredita em mim? � perguntou Cristine.

- N�o sei... quero dizer, sim, acredito...

- Eu n�o senti firmeza � disse Cristine demonstrando decep��o.

- Olha... � disse Ang�lica tentando se retratar � N�o � que eu duvide... mas tu j� parou pra pensar sobre isso? Isso n�o tem cabimento. A gente viu o caix�o sendo colocado l�...

- Mas algu�m tirou!

- Mas por qual motivo? � perguntou Ang�lica.

- Isso eu n�o sei! � respondeu Cristine se exaltando � Mas se voc� ta duvidando vamos l� para ver!

- Eu n�o estou duvidando de ti. S� cogito a possibilidade de um engano... de uma ilus�o de �tica, sei l�...

- ILUS�O DE �TICA O ESCAMBAU, ANG�LICA!!! EU TENHO CERTEZA DO QUE VI!!! � disse Cristine beirando o descontrole.

- Tudo bem... tudo bem... � disse Ang�lica num tom brando, abra�ando Cristine e aconchegando-a junto ao peito � Me desculpa. Eu acredito em ti. Me desculpa.

- Eu tive tanto medo... � disse Cristine � Eu desejei estar contigo aqui, assim, protegida.

- E agora est�. E eu quero que tu me prometas uma coisa, prometas n�o, quero que jures...

- O que? � quis saber Cristine.

- Nunca mais, nun-ca-ma-is, saia sozinha assim pela noite. Se quiser ir me chama que eu vou junto. Mas n�o vai mais sozinha... Jura?

- Juro. � disse Cristine olhando Ang�lica nos olhos.

- Eu n�o quero que nada de mal te aconte�a, nunca... � disse a morena enquanto capturava os l�bios de Cristine num beijo apaixonado.

Cristine sentiu como que se todos os seus temores e receios se acabassem com aquele beijo e com aquele abra�o. De fato jamais sentira tamanha confian�a em nenhuma outra pessoa. Em nenhum abra�o sentiu-se t�o acolhida, em nenhum beijo sentiu-se t�o desejada. Seus medos pareciam infantis e infundados ao lado de Ang�lica, tinha a confian�a de que ela n�o deixaria nada de mal lhe acontecer.

- Ang�lica... Vamos at� o cemit�rio? Eu posso provar que estou dizendo a verdade, que n�o � fantasia minha, que n�o foi sonho... � pediu Cristine.

- Tudo bem. Vamos l� sim. Mas antes eu vou te emprestar um casaco.

- O meu ficou ensopado.

- Imagino...

Ang�lica pegou um casaco escuro que chegava quase que aos joelhos da loirinha. Apesar de sobrar Cristine dentro dele era infinitamente melhor do que sentir frio. Isso sem falar no cheiro de Ang�lica, entranhado no tecido, que exalava como um b�lsamo para os sentidos de Cristine. A morena tamb�m emprestou uma touca de l� para a loirinha, que a enterrou na cabe�a a fim de proteger suas orelhas.

Num clima de expectativa e tens�o rumaram para o cemit�rio.

 

 

O imenso port�o com suas barras paralelas de ferro enegrecido pelo tempo estava ali como na noite anterior: fechado, por�m destrancado. Novamente Cristine ouviu o mesmo rangido l�gubre assim que Ang�lica empurrou as grades para o lado dando passagem �s duas. Conforme iam se aproximando da sepultura de Artur, Cristine ia apertando mais a m�o de Ang�lica. Esta �ltima podia ouvir a respira��o acelerada de Cristine e segurou sua m�o com firmeza, encarando-a com confian�a.

Cristine animou-se e seguiu em frente. Quando por fim chegaram � catacumba Cristine empalideceu e cambaleou, necessitando ser amparada por Ang�lica.

A l�pide de m�rmore estava intacta, colocada sobre o jazigo como no dia do sepultamento. Num �mpeto Cristine correu na dire��o da pedra, debru�ando-se sobre ela e tentando move-la para o lado. Beirando o descontrole dizia:

- Mas tava aberto! Essa pedra n�o estava aqui! Ele n�o est� aqui embaixo! Eu vi! � Num impulso tentava inutilmente mover a pesada l�pide que tinha as cravelhas fortemente parafusadas unindo-a � mureta de pedras do jazigo.

Ang�lica aproximou-se dela e abra�ou-a com firmeza tirando-a de cima do t�mulo. Cristine agarrou-se a ela desesperadamente, enquanto repetia sem parar:

- Eu vi... eu juro que vi... eu n�o estou louca... estava aberto... eu juro... eu vi... eu tenho certeza...

- Tudo bem... calma... Cristine, calma... Por favor...

- Mas eu juro... � disse Cristine chorando baixinho.

- E eu acredito. � respondeu Ang�lica � Mas vem, vamos pra casa. Vamos sair daqui.

Cristine ainda olhou mais uma vez para a l�pide e balan�ou a cabe�a incr�dula. Dirigiu ainda um olhar de s�plica aos anjos de pedra, como que numa tentativa de que pudessem acenar a verdade para Ang�lica. A trilha de onde surgira o ser horrendo que a atacara continuava ali, aparentando ser inofensiva.

Por um momento chegou a cogitar a possibilidade de estar enlouquecendo.

 

 

 

Ang�lica conduziu Cristine para sua cabana. Durante todo o trajeto nada disseram. Caminharam lado a lado, Ang�lica com o bra�o sobre os ombros de Cristine, amparando-a.

Quando por fim instalaram-se no sof� da sala Ang�lica quebrou o sil�ncio:

- Cristine... Para tudo existe uma explica��o l�gica. E a gente vai achar, ok? Eu te prometo.

- Mas eu n�o entendo... Eu vi. A l�pide n�o estava l�, daquele jeito... Tava no lado. E a cova tava vazia. O caix�o n�o tava l�...

- Minha querida, tenta ficar calma. Vamos racionalizar. Alguma explica��o deve haver. Mas tenta manter a calma.

- Ser� que eu to enlouquecendo?...

- Claro que n�o! Mas tu tiveste muitas emo��es de uns dias para c�... sei l�... Vamos fazer o seguinte: vamos tentar n�o nos impressionarmos com isso. Vamos tentar conversar sobre outras coisas... Outro dia a gente retoma esse assunto, quando a lembran�a dele n�o te causar o que te causa hoje.

- Tudo bem... Acho que voc� tem raz�o. Mas tem outra coisa. Tem o tal monstro. Eu n�o posso ter imaginado. Eu vi.

Ang�lica suspirou e baixou os olhos.

- Ta... � continuou Cristine � N�o vamos mais falar disso. Outro dia quem sabe.

- Eu acho melhor. � Assentiu a morena.

- E Ariel? � perguntou Cristine mudando intencionalmente de assunto.

- Ta �timo. O cabe�udo perguntou por ti hoje bem cedo.

Cristine sorriu.

- Pois �... a aula particular dele foi adiada ontem por motivos de for�a maior... � brincou a loirinha.

- Mas em compensa��o tu deste e recebeste uma aula e tanto, ein? Ou preferias matem�tica? � provocou Ang�lica.

- De forma alguma... Digamos que... anatomia � muito mais interessante...

- Concordo plenamente. � disse a morena enquanto abra�ava Cristine e a envolvia num beijo amoroso.

Entre afagos e car�cias Ang�lica lembrou-se de perguntar:

- Escuta, tu vieste direto pra c� hoje pela manh�?

- Vim.

- Comeste alguma coisa antes de vir?

- N�o.

- Tu ta em jejum? � perguntou Ang�lica.

- Pois �... Mas eu descobri que teus beijos t�m o poder de me alimentar...

- N�o debocha! Eu to falando s�rio. � disse a morena.

- Eu tamb�m...

Ambas sorriram. Ang�lica desvencilhou-se do abra�o de Cristine e a puxou para a cozinha.

- Vem c�, vamos comer alguma coisa.

 

 

Ang�lica abriu a geladeira e perguntou:

- O que a senhorita gostaria de comer?

Cristine olhou-a de cima a baixo sedutoramente e simplesmente sorriu.

- Amadinha, esse corpo moreno n�o est� no card�pio, pelo menos agora... � e riu-se. � Diz a�, vai querer o qu�?

- Sei l�. Que horas s�o?

- E por acaso tu come conforme a hora?

- N�o � isso, sua boba! � que j� ta quase na hora do almo�o e eu n�o quero atrapalhar...

- Tu estas sempre preocupada em n�o atrapalhar. Eu j� te disse que jamais me atrapalhas. Muito pelo contr�rio.

Cristine sorriu lisonjeada e respondeu:

- Eu n�o queria almo�ar l� no castelo... Prefiro ficar aqui.

- Tu que manda. Quer o qu�, afinal?

- Qualquer coisa...

- Ta a fim de almo�ar direto?

- Pode ser.

- Bom, ent�o, eu sugiro algo bem pr�tico e que requer pouqu�ssima habilidade...

- O que??? � quis saber Cristine, curiosa.

- Lasanha. Congelada!

- Card�pio aprovado! � respondeu Cristine.

- Vem aqui escolher ent�o. Eu confesso que adoro lasanha e meu freezer tem sempre um lote!

- Huuummm... quero essa aqui, com molho branco.

- �tima escolha, madame! � disse Ang�lica teatralmente retirando a lasanha da embalagem e a colocando no forno. � Prontinho. Mais meia hora e esta gostosura estar� pronta para ser devorada!

- Ali�s, falando em devorar... � provocou Cristine abra�ando Ang�lica pela cintura.

- Que mocinha sapeca... � respondeu Ang�lica beijando Cristine com paix�o. � Mas saco vazio n�o p�ra em p�! � continuou desvencilhando-se e preparando um sandu�che de presunto e queijo para enganar o est�mago de Cristine.

 

 

Ficaram divagando sobre v�rios assuntos enquanto esperavam a lasanha ficar pronta. Namoraram como adolescentes comportadas e quando por fim o almo�o foi servido, comeram avidamente. Cristine lembrou de ligar para o castelo e avisar que almo�aria com Ang�lica.

A loirinha ajudou a lavar a lou�a e quando finalmente se deitaram abra�adas no sof� da sala o telefone celular de Ang�lica tocou. Esta se levantou num sobressalto, atitude que causou estranheza em Cristine, acostumada a ver uma Ang�lica menos ansiosa.

A morena atendeu ao telefone e seu semblante se modificou instantaneamente assim que viu o n�mero que estava registrado na mem�ria de seu aparelho.

- Sim. Ta. Tudo bem. Entendi.

Ang�lica ouvia atentamente e respondia com monoss�labos. Tentava n�o demonstrar emo��es, mas Cristine percebeu que a mesma ficara tensa, com uma express�o no m�nimo preocupada. Assim que desligou o telefone tentou recobrar-se e disse:

- �... eu preciso dar uma sa�da... jogo r�pido. Se quiseres podes ficar aqui.

- Ta tudo bem? � questionou Cristine.

- Ta. Tudo legal.

- Por que essa cara de preocupa��o? � insistiu Cristine.

- Preocupa��o? Impress�o tua. Ta tudo bem, tudo normal.

Cristine n�o quis ser invasiva e controlou-se para n�o perguntar aonde Ang�lica iria. Como que adivinhando seus pensamentos a morena disse com voz branda:

- Eu vou at� a cidade. Preciso resolver umas pend�ncias. Mas eu n�o demoro.

- Eu n�o conhe�o a cidade... � arriscou Cristine, envergonhando-se em seguida de sua ousadia.

- Outro dia eu te levo para conhecer, ok? Hoje n�o d�.

- Desculpe, eu n�o quis... � tentou dizer Cristine, por�m um beijo de Ang�lica n�o permitiu que conclu�sse a frase.

- Eu sei... � respondeu a morena.

Cristine sorriu timidamente e disse:

- Eu vou para o castelo, quando voc� chegar me avisa?

- Aviso. Mas n�o preferes ficar aqui?

- Prefiro, mas n�o quero ficar dando bandeira.

- Tu que sabe. � disse Ang�lica.

Elas ainda trocaram um beijo ardente e cada qual seguiu seu caminho naquele in�cio de tarde de domingo.

 

 

**********************

 

 

Quando Cristine entrou em seu quarto deparou-se com sua roupa, outrora ensopada, limpa e seca, dobrada sobre sua cama. Suas botas tamb�m haviam sido limpas e secas. Por certo Adelaide havia providenciado aquilo sob a supervis�o de Anemary. O bom de se ter aqueles servi�ais ao dispor era que eles n�o questionavam nada, simplesmente executavam tarefas. E naquela situa��o o que Cristine menos queria fazer era dar explica��es.

Cristine envolveu o casaco de Ang�lica com um abra�o e inalou a fragr�ncia agrad�vel de seu perfume. Ficou matutando o que teria ido fazer na cidade. Quem teria ligado para ela? Seria alguma mulher? Teria Ang�lica algum caso amoroso mal resolvido? Ou ainda por resolver? Decidiu n�o pensar sobre aquilo, no entanto a express�o circunspeta de Ang�lica lhe deixava com o cora��o apertado. Pressentia que algo n�o corria bem. Tentou controlar sua imagina��o que j� estava transbordando de pensamentos confusos.

Evitou abrir a janela. N�o queria avistar o cemit�rio novamente, pelo menos naquele dia. Por volta de tr�s e meia resolveu procurar o Dr. Mendes, para conversar um pouco com ele. Ao sair de seu quarto avistou uma caixa de papel�o colocada da soleira da porta. Achou bastante estranho ter uma caixa assim no corredor, principalmente defronte a seu quarto. A caixa era recoberta com papel de presente azul. Seria uma surpresa de Ang�lica? Olhou para os lados e n�o havia ningu�m no corredor. Com curiosidade pegou a caixa e a colocou sobre sua cama. Ao abrir a tampa Cristine n�o conseguiu controlar um grito de pavor. No interior da caixa uma serpente enrosquilhada agitava-se nervosamente. Movida por puro reflexo fechou a caixa rapidamente, sem dar tempo para o of�dio dar o bote.

Descolorida pelo choque Cristine saltou e se colocou em p�, encostada na parede. Neste momento Anemary entrou no quarto de Cristine, atra�da por seu grito.

- O que houve senhorita?

Cristine, muda, apontava para a caixa. Quando a governanta fez men��o de abrir a tampa de papel�o Cristine gritou:

- N�O! Tem uma cobra a� dentro!

- Como?

- Tem uma cobra a� dentro!

A governanta se retesou. Morris adentrou correndo no quarto.

- Senhorita! Est� tudo bem? Eu ouvi um grito.

Era a primeira vez que Cristine percebia uma entona��o diferente na voz do mordomo. Estaria de fato preocupado com ela?

- A senhorita Cristine diz que tem uma cobra dentro desta caixa! � disse Anemary para o mordomo.

- Mas como veio parar aqui? � perguntou Morris recuperando seu tom de voz pausado e sua postura inexpressiva.

- Ora Morris, francamente! � respondeu Cristine irritada � Voc� acha que eu costumo encaixotar cobras para ficar gritando de susto?

- Desculpe mademoiselle... � disse o mordomo.

- Se eu soubesse que havia uma cobra a� dentro eu n�o teria aberto esse raio de caixa! � continuou Cristine.

Neste momento foi Dr. Mendes que se juntou a eles.

- O que est� havendo aqui? � perguntou preocupado.

Cristine, tentando manter a calma, explicou o que acontecera. Morris e Dr. Mendes aproximaram-se da caixa, abrindo-a com cuidado. Em seu interior a cascavel agitava seu guizo freneticamente. O advogado empalideceu e pediu a Morris:

- Leve-a daqui. Deixe em lugar seguro que eu vou dar destino nela depois.

- Sim senhor.

Anemary seguiu Morris. Assim que desceram as escadas Cristine exclamou:

- Afinal, que raio de lugar � esse??? Quem me daria uma cobra de presente??? O que � que est� acontecendo??? Algu�m quer me matar ou me enlouquecer!

- Calma, minha filha... � disse o advogado.

- Calma nada! Ou o senhor me diz o que est� havendo por aqui ou eu vou embora hoje mesmo!

- Mas eu n�o sei sobre o que est�s falando...

- Sobre uma tentativa de assassinato! O meu! Ou vai querer me convencer que algu�m me enviou uma cobra como souvenir???

- Cristine, eu n�o sei como esse bicho pe�onhento pode ter vindo parar aqui, mas eu vou descobrir! Eu garanto. Pode ter sido um descuido... ou uma brincadeira de mau gosto...

- Brincadeira de mau gosto??? Quem por aqui � dado a esse tipo de humor negro???

- Eu realmente n�o sei... � disse o advogado brandamente. � Mas eu vou descobrir. Pode confiar no que te digo: eu vou descobrir.

Cristine respirou fundo. Dr. Mendes parecia sincero em suas palavras. Duvidava que tivesse conhecimento do �quarto dos horrores�, ou que estivesse envolvido na viola��o da sepultura do tio. Parecia ser um homem franco.

- Eu vou at� a cozinha. � disse Cristine � Preciso beber uma �gua com a��car...

- V�, minha filha, v�... Eu des�o logo em seguida.

 

T�o logo Cristine desapareceu no v�o da escada Dr. Mendes tirou um telefone celular do bolso. Quando atenderam do outro lado da linha o advogado falou baixo:

- A situa��o est� ficando fora de controle. Quero vigil�ncia redobrada.

 

 

 

Na hora do jantar Ang�lica apareceu no castelo. Cristine estava amuada. Aguardou seu telefonema a tarde toda. Durante o jantar falaram pouco. Ningu�m mencionou o epis�dio da cobra. James chegou da cidade praticamente na hora da refei��o e logo em seguida recolheu-se aos seus aposentos. Valesca e Jo�o V�tor pediram para jantar no quarto. Logo depois da ceia Dr. Mendes, Ang�lica e Cristine foram tomar um licor na biblioteca. O advogado, alegando cansa�o, deixou as mo�as ap�s uma �nica dose de licor de anis. Quando ficaram sozinhas Ang�lica falou:

- Eu acabei me atrasando na cidade... � tentou se justificar, mesmo sem Cristine ter feito nenhuma cobran�a verbal.

A loirinha deu de ombros e respondeu:

- Esta tarde as coisas ficaram meio tumultuadas por aqui.

- Como assim? � perguntou Ang�lica.

Cristine contou sobre o incidente da cascavel. Ang�lica ouviu em sil�ncio e fechou o cenho, numa atitude de preocupa��o. Ao final do relato de Cristine a morena a fitou meditabunda e falou mais para si mesma do que para a loirinha:

- E eu n�o estava aqui...

- Mas o que isso tem a ver?

- Tudo. Eu disse que n�o vou deixar que nada te aconte�a.

- Mas voc� sabe de algo que possa me acontecer??? � questionou Cristine.

- N�o... n�o sei... mas... � titubeou Ang�lica � Se eu n�o tivesse ido � cidade tu estarias l� em casa, comigo.

Cristine a fitou com olhar perscrutador e perguntou em seguida:

- E voc� conseguiu resolver sua... pend�ncia?

- Consegui. - respondeu Ang�lica secamente.

- Que bom.

- Cristine, tu vem comigo l� pra casa. � disparou Ang�lica � Digam o que disserem, tu n�o fica mais aqui sozinha.

- Ang�lica, assim voc� est� me assustando.

- N�o h� do que se assustar � disse Ang�lica brandamente � Mas � que... bom... eu pensei que talvez a gente pudesse... estudar mais um pouco de anatomia... � e sorriu sedutoramente.

- Bom... Usando esse tipo de argumento, n�o me resta alternativa que n�o seja aceitar.

- �timo. Mas vamos fazer o seguinte: vamos sair na camufla, ok?

- Ok.

- Pega o que quiseres e vamos. H� essa hora o pessoal j� foi dormir.

Cristine foi at� seu quarto e pegou alguns pertences pessoais colocando-os numa pequena valise de m�o, assim como algumas poucas pe�as de roupa. Entreabriu a porta de seu quarto e espiou para fora. O corredor estava vazio, somente Ang�lica a vigiava do topo da escada. Cristine caminhou sem fazer barulho, pegou na m�o de Ang�lica e foram para a cabana.

 

 

 

Durante o trajeto Cristine teve a impress�o de que Ang�lica estava tensa. Por vezes surpreendia a morena lan�ando um olhar em volta, como um radar silencioso. Aquilo a deixou com uma sensa��o de aperto no peito. Afinal quem era de fato aquela mulher que a escoltava at� sua casa e com a qual havia tido o melhor sexo de sua vida? O que verdadeiramente Ang�lica sabia? O que evitava contar-lhe e por qu�? Por vezes tudo eram d�vidas, no entanto ao mergulhar no abra�o da morena e fitar o fundo de suas pupilas azuladas suas incertezas se transformavam como que num passe de m�gica em seguran�a e conforto, mais que isso, em fogo, desejo e paix�o. Ang�lica lhe despertava sentimentos at� ent�o adormecidos. Queria estar ao lado dela, sempre. Queria seus abra�os e seus beijos como porto seguro naquela situa��o, qui�� por muito mais tempo...

 

 

Ao entrarem na cabana Cristine respirou aliviada ao constatar que Ang�lica trancara as portas. Tirou o pesado casaco de l� e virou-se para a morena, sorrindo-lhe amorosamente. Ang�lica a abra�ou com carinho, aconchegando-a junto a seu peito.

- Pronto. Agora est� tudo bem... � disse a morena enquanto afagava os cabelos de Cristine.

A loirinha levantou seus olhos e sorriu languidamente. Com do�ura passou a beijar o peito de Ang�lica e em seguida seu pesco�o. Seus l�bios subiram mais um pouco, e deram suaves mordiscadas no l�bulo da orelha da morena. Instantaneamente Ang�lica se acendeu, deixando transparecer excita��o. Sua respira��o acelerou-se e ela apertou Cristine com for�a de encontro a seu corpo.

As m�os �vidas das duas mulheres passaram a se explorar voluptuosamente, buscando curvas e pontos de prazer. Sem desvencilharem-se uma da outra subiram a escada que levava at� o quarto de Ang�lica. O trajeto da subida demorou mais do que o necess�rio, pois ambas encontravam-se com a aten��o totalmente voltada para as car�cias da outra.

Ang�lica procurava n�o errar os degraus, segurando firme o corpo incandescente que se ro�ava nela sem pudores. Aquela pequena mulher sabia como despertar sua fera interior, o animal adormecido �vido por dar e receber prazer. Naquele momento se deu conta que nunca havia desejado tanto se dar para algu�m, no sentido literal e metaf�rico. Ansiava fundir-se com aquele pequeno ser e faze-la o mais plena de amor poss�vel.

Cristine sentia as m�os firmes de Ang�lica a sustent�-la e conduzi-la em seguran�a at� o andar de cima. Durante a subida havia arrancado parte da roupa de Ang�lica que ficara espalhada pela escada de madeira. Ao chegarem no quarto Ang�lica j� estava com o torso nu. Cristine abocanhava seus mamilos escuros com avidez e sugava-os excitada com a rigidez destes.

Ang�lica tratou de tirar a roupa de Cristine, sempre abra�ada nela, n�o conseguindo descolar seu corpo daquela mulher que a acariciava com voracidade. Excitava-se ao perceber a figura ponderada, que aparentava tranq�ilidade e classe, transformada naquela mulher dominada pela lux�ria e pela vol�pia. Chegava a beira do descontrole ao ver a loirinha oferecendo-se toda a ela, sem pudores e sem reservas. Num �mpeto atirou Cristine, completamente despida, de costas sobre o edredom macio da cama. De p�, aos p�s da cama, abriu o z�per de sua cal�a jeans e baixou-a juntamente com a sua cal�inha, desnudando-se por inteiro.

Cristine mordeu o pr�prio l�bio ante aquela vis�o e esgueirou-se de costas na dire��o da cabeceira da cama. Ajeitou-se sobre os travesseiros e abriu as pernas, oferecendo seu sexo totalmente molhado para a mulher � sua frente.

Ang�lica aproximou-se e rastejou sobre ela, deixando que seus seios tocassem o sexo de Cristine, que arqueou o corpo num gemido. Encaixou-se sobre a pequena mulher pressionando seu p�bis contra o dela. Novamente Cristine sentiu o jorro quente que vinha de dentro da morena a escorrer-lhe por entre as pernas, misturando-se � sua pr�pria umidade. Ang�lica beijou a boca de Cristine com possess�o e lasc�via. Deixava-se invadir pela l�ngua de Cristine e percorria cada canto de sua boca com a pr�pria.

Com um movimento lento Ang�lica desceu pelo colo de Cristine beijando e sugando seus mamilos rosados. Enquanto com uma das m�os acariciava um seio, com a l�ngua percorria o contorno do outro, culminando por abocanh�-lo completamente, deixando Cristine a gemer baixinho.

Desceu mais um pouco e sentiu a loirinha abrir mais suas pernas, num convite expl�cito a posicionar-se entre elas. No mesmo ritmo lento e sensual com o qual beijara os seios, Ang�lica passou a mordiscar os arredores do sexo de Cristine. Quando sentiu que esta movimentava o ponto central de seu prazer na dire��o de seus l�bios, abocanho-o de uma vez, com sofreguid�o e desejo. Sentiu o gosto daquela mulher em sua boca e sorveu de sua ess�ncia como quem se serve de um n�ctar dos deuses. Cristine tinha um gosto �mpar, um cheiro excitante e um toque que fazia Ang�lica perder o ch�o. Aquilo por certo deveria ser amor...

Cristine movia seus quadris de encontro � boca de Ang�lica que a sugava ritmicamente. A loirinha estava t�o excitada que n�o conseguiu adiar a explos�o que a acometeu de uma forma brusca e incontrol�vel. Seu grito de prazer ecoou nas paredes do quarto. Ang�lica sorriu satisfeita amando senti-la gozar daquela forma. Esgueirou-se sobre ela envolvendo-a num abra�o e beijando-lhe a boca.

Cristine olhou para sua amante deixando-se desfalecer por instantes em seus bra�os, sentindo seu pr�prio gosto na boca de Ang�lica. No entanto, logo se recobrou e girou o corpo sobre a morena dizendo-lhe sedutoramente:

- Agora sou eu que quero sentir o teu gosto...

Ang�lica n�o se fez de rogada. Abriu suas pernas e ofereceu-se toda para Cristine. A loirinha mergulhou naquele triangulo de pelos escuros, cuidadosamente aparados e cujo odor a deixava desvairada de tes�o. Sem rodeios mergulhou na maciez da carne que se movia a cada toque de sua boca. Penetrou-a com a l�ngua sentindo o calor que vinha de dentro dela. Desta vez era Ang�lica quem gemia e se contorcia de prazer. Cristine moveu sua l�ngua na dire��o do clit�ris de Ang�lica e come�ou a lamb�-lo ritmicamente, sentindo-o aumentar de tamanho enquanto a morena estremecia a cada passada de l�ngua. Disposta a n�o castigar muito aquela mulher, que a havia feito gozar como nenhuma outra, e sentindo que ela queria mais, abocanhou seu ponto de prazer, passando a suga-lo com avidez, cada vez mais r�pido. N�o precisou de muito tempo para Ang�lica segurar-se na cabeceira da cama, arquear o corpo e emitir um gemido gutural e espasm�dico, gozando na boca de Cristine.

Desta vez foi a loirinha quem sorriu e deitou a seu lado. Abra�aram-se com for�a. Ang�lica puxou Cristine para cima dela, queria senti-la bem perto. Aos poucos a respira��o da morena foi se normalizando e elas olharam-se nos olhos e sorriram, em sil�ncio. Naquele momento as palavras eram dispens�veis.

A noite rec�m come�ava e as amantes trocaram car�cias, afagos e abra�os pela madrugada adentro. Gozaram uma para a outra por diversas vezes, e cada gozo superava o anterior pela intensidade e prazer. Cada qual, perdida nos pr�prios devaneios antes de adormecer, se deu conta que estava abra�ada � mulher de sua vida, � mulher pela qual valia a pena sonhar e fazer planos para o futuro.

Mas o futuro a Deus pertence...

 

 

 

Cristine acordou por volta de oito horas da manh�, completamente aconchegada no corpo nu da mulher que ainda dormia a seu lado. A claridade do dia invadia as frestas da janela e penetrava pelo vidro fechado da clarab�ia do teto, abertura esta que Cristine nem havia reparado quando subira com Ang�lica na noite anterior. �Tamb�m... com tantas coisas mais interessantes para ver...�, riu-se a loirinha.

Cristine passou a reparar em Ang�lica adormecida. O rosto anguloso, de linhas marcantes, tinha uma candura �mpar. O cabelo negro escorrido emoldurava a face cujos olhos azuis estavam ferrados no sono. A boca de Ang�lica era sensual e o sorriso era o mais belo que Cristine j� vira. O cheiro de Ang�lica quando fazia amor conseguia deixar Cristine entorpecida e despertava seu lado instintivo, seu lado irracional. Estava se apaixonando por aquela mulher. Na verdade j� se apaixonara, isto quando provara seu primeiro beijo. E n�o sabia o que aconteceria dali para frente. Ali�s, seu futuro naquele momento lhe era uma inc�gnita. E tudo dependia de um documento, um simples papel que poderia transformar sua vida, um �ltimo desejo de um parente que nem sequer conhecia.

Ang�lica despertou de seu sono pressentindo o movimento de Cristine. Ao abrir os olhos viu um par de pupilas verde esmeralda fixas nas suas. Sorriu-lhe com amor.

- Oi... � disse a morena com voz sonolenta.

- Oi... � respondeu Cristine beijando-lhe suavemente os l�bios.

- Ta olhando o qu�?... � perguntou Ang�lica sorridente.

- Voc�...

- E...?...

- E estou admirando esta bela mulher que est� deitada ao meu lado...

- Olha que assim eu fico mais convencida do que naturalmente sou...

Ambas riram. Cristine continuou:

- Voc� deve estar pensando que eu sou meio... sei l�... leviana, vulgar, n�?

- Por qu�?! � empertigou-se Ang�lica.

- ... Porque a gente mal se conhece e eu j� estou na tua cama...

- Sim... e tu est�s pensando o mesmo de mim???

- N���o...

- Dois pesos e duas medidas?

- N�o, j� disse! N�o me confunde!

- Ent�o seja mais clara... � provocou Ang�lica apertando Cristine de encontro ao peito.

- Bom... � que... eu... bem...

- Desembucha mulher! � brincou Ang�lica.

- Voc� pode at� me achar careta, mas � que eu nunca fui pra cama com uma mulher assim...

- Assim como?

- Assim sem quase conhec�-la!

- N�o seja por isso, eu me apresento! � brincou a morena � Ang�lica Bandera, ao seu inteiro dispor, uma sua criada para servi�os bem leves, de prefer�ncia prazerosos e er�ticos...

- Sua boba! � disse Cristine deitando-se sobre ela e sapecando-lhe v�rios beijos no rosto.

Ang�lica retribuiu os beijos e num giro aprisionou Cristine sob seu corpo. A morena lhe fitou com seriedade e disse:

- Eu n�o te acho vulgar, nem leviana. Eu s� vejo uma mulher aprendendo a n�o ter medo de viver. E viver, por vezes, � saltar no abismo com as m�os vazias... Apenas confiando nos instintos e na Provid�ncia Divina.

- As vezes eu acho que voc� � uma bruxa! � respondeu Cristine - Voc� deve ter alguma bola de cristal!

- N�o tenho n�o... Eu s� conhe�o um pouco da natureza humana...

- Sabe, eu sempre fui muito racional... Mas desde que eu te vi pela primeira vez estou me desconhecendo. � verdade quando digo que nunca fui pra cama com uma mulher antes de sair algumas vezes com ela.

- Garota dif�cil, ein??? � brincou Ang�lica.

- N�o debocha que � s�rio...

- Desculpa...

- Eu sempre coloquei a raz�o antes do sentimento, mas contigo n�o consegui. E eu estou assustada com isso.

Ang�lica deixou-se cair ao lado de Cristine e a envolveu com do�ura, afagando seus cabelos e trazendo-a para bem perto de si.

- Cristine, eu n�o quero que nada em mim te cause receio, ou medo...

- Mas eu n�o estou assustada contigo. Estou assustada comigo, com o que eu estou sentindo...

- Vamos combinar uma coisa? � disse Ang�lica amorosamente, passando os dedos numa mecha de seus cabelos loiros.

- O qu�?

- Vamos viver o hoje... um dia por vez... intensamente... sem medos. E quando o amanh� chegar a gente o vive tamb�m, pois n�o ser� mais amanh�, ser� o hoje.

Cristine sorriu tranq�ila e respondeu:

- Vou tentar...

- Outra coisa... Haja o que houver confie em mim. Ok?

Cristine franziu o cenho e perguntou:

- O que poder� haver?...

- Sei l�... � desconversou Ang�lica � S� quero que lembre disso.

- Ta bom.

- E sabe do que mais? � disse a morena.

- O qu�?

- To com fome, esse nosso despertar ta muito filos�fico e pouco nutritivo!

- Concordo plenamente!

 

 

 

Elas tomaram um banho r�pido, se vestiram e desceram. Enquanto Ang�lica preparava o caf� Cristine colocava a mesa. O cheirinho do caf� rec�m passado espargiu-se no ambiente, assim como o odor das torradas com queijo colonial.

O caf� est� pronto, dona Tine! � disse Ang�lica.

A loirinha riu amorosamente para ela. Ang�lica perguntou:

- O que foi?

- Voc� me chamou de Tine...

- E da�?

- � que as pessoas mais �ntimas me chamam de Tine. Eu j� havia comentado contigo?

- N�o. Mas acho bonitinho... Um apelido bonitinho para uma pessoa bonitinha... ali�s, linda...

Novamente Cristine sorriu.

- Que � isso? Assim eu fico sem jeito... � disse a loirinha enrubescendo.

- Mas � verdade... � disse Ang�lica sapecando-lhe um beijo na testa. Vem, vamos comer.

 

Sentaram para tomar o caf� da manh�.

- Ang�lica... Voc� conhece um rapaz chamado Thomaz? Que trabalha aqui? � perguntou Cristine.

- Conhe�o. Por qu�?

- Por nada... � que eu achei que ele estava me seguindo ontem, quando eu vinha para c�.

Ang�lica fez um movimento quase que impercept�vel apertando seu maxilar, por�m respondeu com naturalidade.

- Com certeza foi impress�o.

- �. Foi sim. Ele me disse que estava indo buscar lenha. E ele estava com um fac�o e um saco de linhagem, logo...

- Pois ent�o. Mas por que tu pensaste que ele te seguia?

- Ai, Ang�lica, eu nem sei... eu ando com os nervos � flor da pele. E depois daquele presente macabro que me deram ontem... desconfio at� da minha pr�pria sombra.

Ang�lica pousou sua m�o sobre a de Cristine e disse olhando fixo em seus olhos:

- Eu j� te falei pra confiar em mim. Nada de mal vai te acontecer. Isso dessa cobra aparecer assim, do nada, com certeza foi algum mal entendido e a gente vai descobrir quem foi o respons�vel.

- Mas e a sepultura vazia?

- N�o sei... realmente n�o sei o que pensar. Mas te garanto que tudo isso ficar� no passado.

- Ang�lica...

- O que?

- Eu to muito ansiosa com a abertura do testamento. � disse a loirinha baixando os olhos.

- Eu imagino.

- A minha vida pode mudar completamente.

- Eu sei.

- Posso ir embora como cheguei ou herdar uma fortuna imensa...

- Mesmo que n�o herdes uma fortuna, jamais deixar�s este lugar como chegaste... � respondeu a morena encarando-a com um ar de melancolia por sua coloca��o.

Dando-se conta da gafe cometida Cristine remendou em seguida:

- N�o. Claro que n�o. Eu me referia � situa��o financeira e trabalho, n�o a sentimento.

- Que bom. � disse a morena desviando o olhar.

Desta vez foi Cristine quem pousou sua m�o sobre a de Ang�lica e falou com seriedade:

- E agora sou eu que te digo que voc� precisa confiar em mim, acreditar no que eu digo.

Ang�lica assentiu com um maneio de cabe�a e um sorriso t�mido:

- Eu acredito.

 

 

Terminaram o caf� e decidiram ir at� o castelo. J� passava das dez horas da manh� e encontraram Regina come�ando os preparativos do almo�o.

- Bom dia m�e! � disse Ang�lica.

- Bom dia Regina! � falou Cristine.

- Bom dia guriazinhas! � respondeu Regina sorridente � Como passaram a noite?

- Bem. � respondeu Cristine de supet�o, ficando corada at� a raiz dos cabelos.

Ang�lica riu internamente e respondeu com mais calma:

- Tudo bem, m�e... Tudo tranq�ilo.

�Pois sim...� pensou Cristine, �se aquilo � tranq�ilidade o que ser� uma noite agitada para essa mulher!�, e balan�ou a cabe�a fazendo uma careta para Ang�lica, aproveitando-se que Regina estava de costas. A morena fez uma cara marota.

- Voc�s querem tomar caf�? � perguntou Regina.

- N�o m�e, a gente j� tomou l� em casa.

- Bom, ao menos essa menina est� te tratando bem! � disse Regina para Cristine.

Novamente a loirinha desconcertou-se visivelmente e respondeu desviando os olhos de Ang�lica.

- Sim. Muito bem.

Ang�lica pegou uma ma�� na fruteira e jogou outra para Cristine, treinando seu reflexo. Esta �ltima conseguiu aparar a ma�� no ar.

- Voc�s v�o almo�ar aqui? � quis saber Regina.

- Acho que vamos. � respondeu Ang�lica � Depende de Cristine, se ela quiser... Eu gostaria de lev�-la at� a cidade, mas o tempo continua essa nh�ca que vem sendo nos �ltimos dias...

- Pois �. � concordou Regina � Parece que S�o Pedro anda sem reguleta nas comportas do c�u!

As tr�s riram.

- Ent�o acho melhor a gente almo�ar por aqui mesmo. � disse Cristine.

 

Neste momento ouviram o som de passos correndo e adentrando pela porta dos fundos. Era Ariel que entrara esbaforido na cozinha, p�lido e tr�mulo. Ang�lica correu na dire��o do irm�o.

- O que foi, Ariel? � perguntou Ang�lica.

Por instantes o garoto permaneceu mudo, como que em estado de choque.

- Pelo amor de Deus, meu filho! O que foi que houve? Aconteceu alguma coisa com o teu pai??? � perguntou Regina ansiosa.

Ariel balan�ou a cabe�a negativamente. Aos poucos entreabriu os l�bios e disse:

- O pai ta legal. Ta l� na estufa...

- Mas ent�o o que foi que houve??? � exaltou-se Ang�lica.

- A Adelaide...

- O que tem a Adelaide??? � perguntou Regina � Ela foi pegar uns temperos na horta...

- Acho que ela ta morta... � disse Ariel empalidecendo mais.

- COMO??? � gritou Ang�lica.

- Eu acho que mataram ela...

Ang�lica respirou fundo, segurou o irm�o pelos ombros e fez com que ele se sentasse.

- Senta aqui Ariel e me conta o que aconteceu � pediu Ang�lica tentando manter a calma.

Cristine deixou-se cair numa cadeira, tamb�m empalidecendo. Ariel engoliu em seco, suas m�os tremiam e ele transpirava muito. Ang�lica pediu � m�e que desse um copo d��gua para ele. Ap�s beber alguns goles e depositar o copo sobre a mesa ele olhou para Ang�lica abra�ando-a e solu�ando alto.

- Calma, querido, calma... � dizia a morena � T� tudo bem... Tudo bem...

- N�o ta bem n�o! Mataram a Adelaide!!! � disse o rapaz.

- Ariel, tenta ficar calmo e me conta o que aconteceu, certo?

Ele assentiu com a cabe�a. Tentou respirar pausadamente e come�ou seu relato.

- Eu tava vindo pra c�... Queria ver se encontrava a Cristine, para estudar. A� eu vi a Adelaide saindo daqui. Ela tava com aquela capa de chuva que fica pendurada ali na porta, tava indo pros fundos... Eu dei oi pra ela e perguntei onde ela ia. Ela me disse que ia buscar temperos l� na horta. Eu me ofereci pra ir junto, pra pegar os temperos pra ela, pra ela n�o precisar sujar as m�os na terra... � que eu acho a Adelaide um tes�o de mulher... Ela tem uns peit�es...

- Ariel!!! � repreendeu Regina.

- Deixa ele contar m�e! � interveio Ang�lica � E a�, mano?

- Bom... ela nunca me deu bola mesmo. E dessa vez n�o foi diferente. Perguntou se eu n�o me enxergava e me chamou de garotinho. A� eu disse que n�o era um garotinho, que j� era um homem! E que ela n�o devia me tratar assim, que eu estava somente sendo gentil. A� ela riu pra mim e me disse: �quem sabe outro dia�... Bom, eu fiquei olhando ela ir e pensei, pensei, pensei... �outro dia nada, eu vou hoje mesmo�, eu s� queria ajudar ela, e conversar, assim quem sabe um dia ela me olhasse com outros olhos...

- Quanta pretens�o, ein, galinho? � disse Regina em tom de reprova��o.

- A� eu quis ir atr�s dela, - continuou o jovem sem levar em considera��o a repreens�o da m�e - mas come�ou a chover e eu entrei na cozinha pra pegar um guarda-chuva pra mim. E um pra Adelaide, pra ela n�o molhar os cabelos, pois tava s� de capa... Depois fui atr�s dela. S� que eu fui devagar, para n�o assustar ela e tamb�m pra ela n�o me botar pra correr... Fiquei s� espiando ela de longe, meio escondido. Ela tava l�, t�o linda...

- Que coisa feia, meu filho! Espiando os outros! � repreendeu Regina novamente.

- Mas m�e... n�o era �outros�, era a Adelaide!

- Ta, e a�? � quis saber Ang�lica.

- A� tudo aconteceu muito r�pido. Ela tava de p� e parece que olhou na dire��o dos fundos da propriedade... Como se visse alguma coisa... Sei l�... Pode ter sido s� impress�o, n�o sei... A� eu ouvi um barulho alto. E me dei conta que era um tiro quando ela caiu igual uma jaca podre...

- Ariel! Pelo amor de Deus! � disse Regina.

- M�E, pelo amor de Deus a senhora! Deixa o Ariel falar! N�o interrompe! � disse Ang�lica exaltada.

- Eu fiquei todo borrado de medo e me abaixei. Fiquei quieto, espiando por entre os arbustos, mas eu n�o consegui ver mais nada. S� ela l�, ca�da, sem se mexer. A� eu sa� correndo sem olhar pra tr�s. Parecia que eu ia levar um tiro tamb�m. Fiquei com muito medo... Eu acho que ela morreu.

- Santo Cristo! � exclamou Regina despencando numa das cadeiras de madeira crua.

Ang�lica levantou-se num pulo e disse:

- M�e fica aqui com o Ariel que eu vou at� l� para ver o que houve. Liga pro Delegado agora. E Ariel, n�o sai daqui nem por decreto, entendeu? � disse Ang�lica dirigindo-se com seriedade ao irm�o.

- N�o, por favor, n�o vai! � pediu Cristine instintivamente, segurando-a pelo bra�o.

- E tu fica aqui tamb�m! N�o sai daqui! � respondeu a morena para Cristine, determinada, j� caminhando em dire��o � porta.

- N�o vai minha filha! � disse Regina tamb�m a segurando pelo bra�o.

- O que � isso? Agora eu tenho duas bab�s? � perguntou a morena irritada.

- N�o! Tem apenas pessoas que se preocupam contigo! � respondeu Cristine no mesmo tom.

- E que te amam... e n�o suportariam que nada de mal te acontecesse... � emendou a mulher mais velha.

- Tudo bem... � falou Ang�lica tentando manter a calma � Me desculpem...

- Todos estamos estupefatos com esta not�cia, mas vamos manter a calma. � ponderou Regina � Eu vou chamar Morris e ligar para o Dr. Mendes e para o Delegado.

Regina saiu na dire��o da sala e deixou Ang�lica, Ariel e Cristine sentados na cozinha, em total sil�ncio. N�o sabiam o que dizer ou pensar.

 

 

Em menos de vinte minutos todos estavam mobilizados com a not�cia. Ang�lica n�o se conteve enquanto n�o foi at� a estufa certificar-se que seu pai estava bem, sendo acompanhada por Thomaz que chegara logo em seguida, ap�s ser contatado por Morris. Ang�lica convenceu o pai a ir com eles para o castelo. Quando entraram pela porta dos fundos o delegado Munhoz e o Dr. Mendes rec�m haviam chegado. Todos estavam na sala, inclusive Valesca, Jo�o V�tor, James e o motorista Henrique. Este �ltimo estava visivelmente abatido e inquieto. As express�es eram de incredulidade com a not�cia ainda n�o confirmada.

O delegado disse ao advogado e a tr�s homens que o acompanhavam:

- Vamos at� l� para averiguar o que realmente houve. Tu poderias nos acompanhar Ariel? � perguntou dirigindo-se ao adolescente com voz calma.

Ariel anuiu com um balan�o de cabe�a, lan�ando um olhar assustado para a irm�.

- Tudo bem, Ariel, eu vou contigo. � Disse Ang�lica passando o bra�o ao redor dos ombros do irm�o.

Morris, James e Henrique tamb�m acompanharam o grupo. Cristine, Regina, Israel, Valesca, Jo�o V�tor, Anemary e Thom�z permaneceram no castelo.

 

 

Ariel estava visivelmente amedrontado, olhando ao redor assustado.

- Calma, querido... � disse Ang�lica enquanto caminhavam � O que quer que tenha acontecido n�o vai se repetir. Qualquer pessoa que tenha feito algo brutal contra Adelaide n�o vai fazer o mesmo com esse bando de gente por perto, principalmente tendo o delegado junto. Tenta ficar calmo...

Ariel abra�ava firme a irm�. Tentava ao m�ximo controlar-se. Ang�lica sentia as m�os frias do irm�o envolvendo-a pela cintura. Afagava-o carinhosamente, tentando transmitir-lhe seguran�a.

 

 

Em poucos minutos chegaram ao local referido por Ariel. Este, ao aproximar-se, instintivamente diminuiu a marcha, sendo quase que empurrado por Ang�lica.

- Olha... � disse o jovem � Eu estava ali atr�s daquele matinho... e ela ta ca�da ali, mais adiante.

O grupo apurou o passo e a cena que se descortinou era bastante forte. A jovem copeira jazia deitada de bru�os imersa numa po�a de sangue e �gua da chuva. Os cabelos loiros estavam tingidos de rubro e peda�os de sua massa encef�lica se misturavam ao solo argiloso e escorregadio. O delegado verificou seus sinais vitais sem mover a jovem, embora pelo aspecto da v�tima fosse totalmente desnecess�rio, e afirmou em tom l�gubre, dirigindo-se aos homens que o acompanhavam:

- Est� morta. Podem fazer o que � necess�rio.

A equipe de t�cnicos da pol�cia iniciou os procedimentos de praxe nos casos como aquele. Fotografaram o corpo, examinaram o local e no momento em que viraram a jovem de frente todos deram um passo para tr�s, prendendo a respira��o. Embora numa dist�ncia consider�vel puderam ver que o rosto de Adelaide tinha sido totalmente dilacerado por um tiro. A face estava irreconhec�vel, na verdade inexistente.

Ariel enterrou o rosto no pesco�o de Ang�lica, n�o conseguindo encarar a cena. James empalideceu como se fosse desmaiar. Seu semblante esqu�lido ficou muito mais descolorido do que o normal. Sua testa ensopou-se de suor instantaneamente e ele precisou escorar-se num tronco de �rvore para n�o cair. Morris permaneceu impass�vel como sempre, n�o fosse pelo seu olhar que se esbugalhou no momento em que o corpo de Adelaide foi virado, poderia se dizer que ele estava at� acostumado a presenciar situa��es como aquela quase que diariamente. Dr. Mendes tentava n�o esmorecer, no entanto dava sinais de que n�o ag�entaria ficar olhando aquela cena. Virou-se de costas e respirou fundo, engolindo em seco.

Ang�lica tratou de amparar o irm�o e percebeu a figura musculosa de Henrique curvar-se sobre si mesmo, valendo-se tamb�m de um tronco de �rvore para conseguir manter-se em p�. O motorista silenciosamente esgueirou-se pelo caminho de volta ao castelo, alternando seus passos como um aut�mato, cabisbaixo e visivelmente abalado.

Como n�o havia mais nada que pudessem fazer ali Ang�lica conduziu Ariel de volta ao castelo. Dr. Mendes os acompanhou. James ficou est�tico onde estava, como se a cena houvesse lhe paralisado os movimentos.

 

 

Chegando ao castelo Ang�lica deixou o irm�o na cozinha com a m�e e levou o pai para o escrit�rio de Artur, sendo acompanhada pelo advogado e por Cristine, esta �ltima ansiosa para saber o que realmente houvera. Valesca e Jo�o V�tor tentaram acompanha-los, por�m Ang�lica fechou a porta bruscamente e sem cerim�nias antes deles entrarem no recinto, dizendo:

- Com licen�a, assunto de fam�lia.

Os dois entreolharam-se incr�dulos com a atitude de Ang�lica, mas acharam por bem n�o polemizar e voltar para a sala, para saber das novidades mais tarde.

 

 

No interior do escrit�rio o clima era de tens�o e Ang�lica come�ou seu relato.

- Bom... Realmente algu�m matou aquela mo�a. E de uma forma brutal. Arrebentaram a cara dela com um tiro. � disse a morena pausadamente � E o que mais me assusta agora � que seja l� quem tenha sido, vai saber que Ariel viu a cena, mesmo que de longe. E n�o vai saber o que realmente o guri viu, melhor dizendo, n�o vai saber SE o guri o viu, ou n�o...

- Meu Deus... � exclamou Israel entendendo a gravidade da situa��o.

- Pois �, pai. A gente precisa tirar o mano daqui. � completou Ang�lica com um ar muito preocupado.

- Mas isso n�o � problema. � emendou Cristine � A gente pode mand�-lo l� para o Rio, para a casa de uma amiga minha, sem problemas. Seja l� quem for n�o vai ter acesso ao endere�o, pois n�o � o meu.

- O que � que o senhor acha, pai? � perguntou Ang�lica.

Israel sentou-se cabisbaixo escorando o rosto nas m�os e pensou por uns instantes, antes de responder:

- Me parece seguro.

- Ent�o est� resolvido. � disse Cristine � Eu vou ligar para a minha amiga.

- Calma. � disse Ang�lica � Daqui n�o. Vamos ligar l� de casa, depois. Do meu celular.

Cristine encarou Ang�lica e conjeturou como ela conseguia ser ponderada naquela situa��o. Parecia que pensava em tudo. E o pior � que sua coloca��o deixava claro uma certeza que Cristine preferia n�o ter: Ang�lica desconfiava de algu�m de dentro do castelo.

- Bom, resolvido o problema do Ariel � continuou a morena � Temos o problema de estarmos com um assassino solto por aqui.

- Mas qual ser� o motivo pelo qual acabaram com a vida daquela pobre mo�a? � perguntou Cristine � Eu conversei com ela, n�o me pareceu uma pessoa que tivesse inimigos, era tranq�ila, calma, pacata at�...

- Se soub�ssemos n�o seria um problema... � respondeu Ang�lica.

- Mas n�o pode ter sido acidente? � insistiu Cristine � Sei l�... Um tiro acidental, algum ca�ador, que tenha disparado sem inten��o de alvej�-la e fugiu com medo das conseq��ncias de sua irresponsabilidade...

- Cristine, se aquele rombo na cara dela foi acidental imagine o que a mesma pessoa faria se tivesse inten��o de acertar algu�m... � ironizou Ang�lica � E al�m do mais ningu�m ca�a por aqui. � proibido.

- Mas algum contraventor, quem sabe...

Ang�lica limitou-se a balan�ar a cabe�a e respondeu calmamente:

- A gente n�o pode se negar de ver o �bvio.

 

Israel, que sempre fora homem de poucas palavras, suspirou pronunciando:

- Meu Deus! Eu custo a creditar... Perdi meu melhor amigo, matam uma mo�a bem dizer aqui dentro de casa e o meu filho passa a correr risco de vida... Isso deve ser um pesadelo.

- N�o �, pai. Infelizmente n�o �. � respondeu Ang�lica.

 

Dr. Mendes permanecia calado. Ouvia e matutava. Muitos pensamentos lhe passavam pela mente. Id�ias que lhe tiravam o sossego e o enchiam de receios e temores. Ang�lica tamb�m estava tensa.

Novamente Cristine fora assolada pela sensa��o de estar num cen�rio surreal, onde se misturavam pesadelos e realidade. Sua mente fervilhava.

Ang�lica quebrou o sil�ncio:

- Olha s�, essa ida do Ariel para o Rio fica s� aqui entre n�s, entendido? Ningu�m mais pode saber. Ningu�m. Talvez a m�e.

Os tr�s assentiram com a cabe�a e responderam:

- Pode deixar. Ningu�m saber�.

- � a vida do meu irm�o que est� em jogo. E nin-gu�m coloca a vida das pessoas que eu amo em risco. - disse Ang�lica categ�rica, mais para si mesma do que para os outros.

 

 

 

Neste meio tempo a pol�cia procedeu a remo��o do corpo de Adelaide e o delegado se dirigiu ao castelo. Encontrou as pessoas reunidas na sala. Todos, excetuando-se Henrique, aguardavam-no reunidos no amplo sal�o, no mais absoluto sil�ncio. Eram cerca de onze horas da manh�.

O delegado Munhoz adentrou no recinto cumprimentando a todos com um maneio de cabe�a discreto. Iniciou seu pronunciamento num tom t�cnico e impessoal:

- J� procedemos a remo��o do corpo. Algu�m j� avisou os familiares da mo�a?

Todos se entreolharam e acenaram um n�o com a cabe�a.

- Algu�m aqui se disp�e a faz�-lo ou preferem que eu pe�a a um dos meus homens?

- Acredito que seja mais adequado que um de n�s o fa�a � respondeu Dr. Mendes � Eu me prontifico a faz�-lo.

- �timo. � anuiu o delegado. � Solicito que ningu�m deixe esta propriedade at� segunda ordem. A partir da primeira hora da tarde pretendo conversar com cada um dos presentes.

- O qu�??? Quer dizer que matam algu�m aqui dentro e eu n�o posso ir embora??? � exaltou-se Valesca � Por acaso estou numa pris�o domiciliar??? Ningu�m vai me obrigar a ficar presa aqui!!! Eu n�o sou obrigada a ficar sob o mesmo teto que um assassino!!!

- Controle-se, senhora. � disse o delegado calmamente � Eu n�o disse que h� um assassino aqui, nem t�o pouco que voc�s est�o �presos�. S� preciso conversar com voc�s, todos, sem exce��o. Entendido?

Um pesado sil�ncio se fez na sala. O delegado continuou:

- Estarei aqui �s treze horas e pe�o que todos estejam aqui tamb�m. Com licen�a.

Delegado Munhoz retirou-se da sala. Logo em seguida Dr. Mendes levantou-se, pesaroso, vergado pelo pesado fardo que carregava nos ombros: anunciar aos familiares de Adelaide o seu falecimento.

James disse:

- Eu vou com o senhor. Depois temos o dever moral de providenciar um funeral para a mo�a. A fam�lia dela � muito carente.

- Obrigado por me acompanhar, James. � disse o advogado.

 

 

T�o logo eles deixaram a sala de estar o restante do grupo se dispersou. Os servi�ais foram cuidar de seus respectivos afazeres. Regina e Israel foram com Ariel para casa. Valesca e Jo�o V�tor foram para a cozinha para comer alguma coisa. Alegavam estar com fome, pelo fato de haverem acordado tarde, n�o tomando o caf� da manh�. Anemary, excepcionalmente, tratou de providenciar o almo�o, muito embora no que as pessoas menos pensavam naquele momento era comer, excetuando-se a dupla que ainda n�o havia feito o desjejum.

Ang�lica e Cristine rumaram para a cabana.

 Parte 3

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