PALAVRAS AO VENTO

FERNANDA

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Capitulo 51

 

 

�Meu amor, amei a música�, pensou Julia enquanto digitava a resposta que ia enviar para Isa.

 

 

Isabel,

 

Eu lhe responderia pessoalmente, mas farei como você. Aqui.

 

Esses meses que passei longe de você, não houve um dia, sem que eu quisesse lhe procurar. Tinha decidido que não queria mais você, e meu orgulho sempre falou mais alto em minha vida. Eu não podia lhe procurar, afinal, o que diria a mim mesma?

 

Teve um final de semana que voltei pra casa e, precisei reunir toda minha força de vontade para não ir atrás de você, pra conversarmos ao menos. Nem Vanessa soube que estive na cidade.

 

Varias vezes peguei no telefone para te ligar, mas uma vozinha em minha cabeça, insistente repetia: �Não faça isto! Ela não te merece. Não é nada para você. Só alguém que mexeu contigo, mas não o suficiente para correr atrás dela. Tem mulheres mais interessantes do que uma caipira do interior�, e então, eu desistia.

 

Tentei enganar meus sentimentos, saindo com algumas pessoas. Procurava prestar atenção no que diziam, olhava ao redor e tudo parecia fora de lugar. A verdade é que eu estava no lugar errado, com pessoas que tinham tudo a ver com a Julia, que fui um dia. Aquela que, movida por uma satisfação imediata, levava uma mulher bonita pra cama e nada mais.

 

Via o desejo nos olhos das mulheres, mas o meu não tinha mais, não por qualquer uma.

Viam-me distante e perguntavam onde eu estava. Apenas sorria falsamente para a pessoa e inventava uma desculpa qualquer, ou simplesmente que tinha que trabalhar, só para não ir para a cama, pois me faria mal depois.

 

Não tinha nada mais com você, e pensei que enlouqueceria, voltaria à minha vida passada, sairia com qualquer uma que aparecesse em minha frente, mas nem quando a decepção me machucava, eu conseguia agir assim.

 

Gosto de pensar que, talvez tenha sido melhor termos nos afastado, porque pude aceitar que você não é perfeita. Acho que acabei lhe colocando em um altar e quando este caiu e quebrou, eu não acreditei.

 

Quando nos reencontramos lá na praia, foi inevitável não sentir que você é a mulher que eu amo, e nem a médica pode curar-me desse sentimento. Mas depois deixei meu lado egoísta agir por conta própria no elevador. Se eu tivesse morrido, tenha certeza que não queria ter morrido em outros braços e, levaria o seu olhar e seu amor para eternidade. Morreria sabendo que fui amada de verdade.

 

Hoje sei que você é cheia de defeitos como eu. Mas é você que eu quero.

 

Isabel eu aceito o seu pedido.

 

E o beijo, para selar o pedido, lhe dou mais tarde.

 

Ass. Julia

 

Ao terminar, com um clique enviou a resposta para Isa.

 

 

 

Isa já tinha tomado banho e estava acabando de se trocar quando ouviu seu celular tocando.

 

- Isa acabei de ler o seu e-mail.

 

- E aí? - perguntou. � Espero que tenha gostado..

 

- Não vou mentir pra você. Estou com uma dúvida tremenda se aceito ou não, um certo pedido. Se eu aceitar vou ter que abrir mão da mulherada, e não sei se estou preparada - empregou um ar reticente em suas palavras.

 

- Julia, pára com isso, fala logo. Preciso saber se vou para a despedida de Mari comprometida ou não. Porque hoje estou a fim de me acabar nos braços de alguém - entregou faceira. � Você estava levando uma vantagem sobre as outras, mas está se fazendo de difícil, portanto, foi para o final da fila - disse em tom maroto.

 

- É assim? - arreliou Julia. � Então não vou responder nada. Se quiser saber verifique sua caixa de mensagens. Agora tenho que ir buscar Vanessa e Tamy. Daqui uma hora passo aí pra te pegar. Esteja pronta.

 

- Não vai mesmo me dizer? - perguntou Isa.

 

- Não. Beijo, até depois.

 

 

Isa desligou e apressada foi para o computador. Lá estava uma mensagem nova. Imediatamente clicou para abrir, mas antes que pudesse ler, sua mãe entra no quarto.

 

- Isa, será que posso ir com você? Nunca fui a uma boate. Queria ver como é - disse sua mãe impedindo-a de leer o e-mail. � Eu ouvi as meninas comentando. Acho que pode ser divertido, e aproveito para ficar um pouco mais com você.

 

- Mãe, não sei se é ambiente pra você, eu mesma nunca fui.

 

Isa não pode fazer nada diante do pedido de sua mãe. Sua noite com Julia certamente tinha acabado, sem mesmo ter começado. Definitivamente não conseguiam ficar juntas.

 

- Mãe, eu vou com a Julia e umas amigas dela.

 

- Tudo bem, assim posso conhecer melhor esta sua amiga. E quem sabe, mudo a minha opinião sobre ela. Já estou pronta. Estou bem?

 

Dona Marta já tinha planejado tudo, e sabia que Isa não diria não.

 

- Está sim - respondeu Isa. - A Julia vai pegar-nos daqui a pouco. Mãe tem que saber de uma coisa antes, você pode ver situações que não está acostumada, porque aonde vamos é uma boate gay.

 

- Como assim? - indagou arregalando os olhos. <

 

- A Mari toca neste lugar desde que viemos morar aqui - disse e ficou observando as reações de sua mãe, que não mudou em nada.

 

- Quero ir - afirmou ainda sentada olhando para a ffilha.

 

- Então ta. Mas vai sabendo o que vai encontrar.

 

- Sim - respondeu sua mãe, ao mesmo tempo em que se levantava. � Vou perguntar para Fátima, se estou bem para ir nesse lugar.

 

- Calma mãe, não vão te agarrar lá. O máximo que podem fazer é te dar umas cantadas, porque a senhora está uma gata!

 

- Isabel Cristina me respeita - tentou ficar séria, mas não conseguiu e saiu rindo.

 

�É só o que me faltava! Minha mãe e minha irmã naquele lugar. Pior que não terei nenhum momento de paz com a Julia�, suspirou desanimada.

 

Recordou do e-mail, virou para a tela do monitor e começou a ler.

 

Ao fim da leitura, se sentiu a mulher mais feliz do mundo.

 

�Ela aceitou! Sou namorada da Dra. Julia. Tivemos um longo caminho até chegar a este ponto. Pensando bem, não sei quando vamos poder realmente vivenciar nosso namoro, porque hoje já vi que não vai rolar nada�, conjeturou.

 

 

 

Ao chegar à casa de Vanessa, Júlia buzinou, saiu do carro e ficou na porta, com os braços apoiados no capô, esperando elas aparecerem no portão. E passados alguns minutos as duas saíram.

 

O marido de Vanessa ficou com os meninos.

 

- Vanessa, se não fosse casada, hoje eu te pegaria - brincou com a amiga. - Ta linda, vai fazer a alegria da mulherada - disse divertida, apreciando o rubor que se formava na face da amiga. Ela sempre ficava envergonhada quando brincava deste jeito.

 

- E eu? Não pegaria? Van estou horrível aos olhos da doutora. Isso não faz nada bem para minha alta estima - tentou se fazer de indignada. � Sem contar que achei que estava arrasando - gracejou.

 

- Tamy você também está linda! Que mulher apressada! Nem me deixou dizer nada. Eu ia dizer que se não estivesse namorando... - soltou a frase já ciente da reação que causaria.

 

Vanessa e Tamy se olharam ao ouvir a palavra namoro saindo da boca de Julia.

 

- Eu não levaria vocês para aquele lugar cheio de mulheres gostosas e atraentes, mas sim pra minha casa - sorriu dando uma piscadela para as duas. � Só mais uma observação importante: não contem comigo para salvar vocês das investidas do mulheril, porque vou estar ocupada demais tomando conta da minha professorinha - continuou falando naturalmente.

 

- Julia me conta isso, como aconteceu? - perguntou Vanessa, enquanto Tamy entrava no carro. Sentaram-se no banco de trás.

 

- Van é uma longa história! Outro dia lhe conto. Mas o que importa é que nos entendemos finalmente. Olhem o que comprei - entregou a caixinha em forma de coração na mão de Vanessa, que a abriu imediatamente. Olhou para o par de alianças de compromisso, e fitou Julia.

 

- São lindas! - entregou em seguida a Tamy para que pudesse ver também. � Juli, você nunca deu uma aliança a ninguém, e jamais pensou em usar uma. Você está bem? - colocou a mão na testa da médica para ver se estava com febre.

 

- Nunca estive melhor - respondeu segura. � Comprei em São Paulo, ao passar por uma joalheria. Nem sabia se ia voltar para a Isa, mas quando a vi na vitrine, não resisti. Até mandei gravar nossos nomes! Duvidei algumas vezes se entregaria um dia, mas ela me pegou. Sua amiga foi flechada pelo Cúpido. Se não casar com ela, não será com mais ninguém - confessou seriamente, olhando nos olhos de Vanessa.

 

- Julia estou feliz por você minha amiga - disse Tamy entregando a caixinha para Julia, que lhe sorria, e apenas retribuiu.

 

Vanessa, por ser mais afetuosa a puxou para um demorado abraço.

 

- Eu sabia que esse dia ia chegar. E pelo amor de Deus, não vai estragar as coisas com ela.

 

- Vanessa ela também não é nenhuma santinha. Fale isso pra ela também. Agora vamos. Tenho que pegá-la em casa.

 

 

 

 

- Marta, não acredito que você vai naquela boate - disse dona Fátima.

 

- Minhas filhas vão, porque eu não posso? - falou Marta dando uma última escovada no cabelo.

 

Seria possível acreditar que essa ida de Marta na despedida de Mari, pudesse servir futuramente para Isa, ou talvez não. O importante é que teria a oportunidade de ver pessoalmente, como se comportam as pessoas naquele ambiente. Enfim, tudo poderia acontecer!

 

 

- Mãe a Julia já chegou.

 

- Já vou filha - respondeu despedindo-se da amiga com um abraço. - Espero que não me aborreça - disse no ouvido de Fátima.

 

Isa estava indo sem saber o que poderia acontecer naquela boate. Tinha feito planos para o fim da noite, que Julia não esperava. Saiu na frente, e a viu encostada no carro.

 

�Linda como sempre�, pensou. Mas não pode nem retribuir ao sorriso de Julia. Aproximou-se e sussurrou em seu ouvido: �Minha mãe vai com a gente�.

 

- Por quê? - questionou Julia no mesmo tom sussurraado. Ao olhar por cima dos ombros de Isa, viu Marta se aproximando, o que a impediu de obter a resposta.

 

- Boa noite, Julia! - disse Marta estendendo-lhe a mão. � A Isa lhe disse que vou com vocês?

 

- Disse sim. Boa noite, dona Marta! - estendeu a mão amigavelmente para sua sogra, que nem imagina estar apertando a mão de sua nora. � Então vamos? - disse Julia abrindo a porta de tr&aacuute;s do carro para Marta entrar.

 

- Meninas, cheguem para lá porque a mãe da Isa vai com a gente. Dona Marta, essas são minhas amigas Vanessa e Tamy.

 

- Oi - disse Marta para ambas.

 

Julia fechou a porta assim que Marta se acomodou. Isa já tinha entrado.

 

�Essa noite, pelo visto, se encaminha para o caos total�, pensa Julia enquanto dá a volta para entrar no carro.

 

Não consegue acreditar no que estava acontecendo, e a preocupação com o desenrolar das coisas, foi inevitável.

 

Continua...

 

 

Parte 52

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