PALAVRAS AO VENTO

FERNANDA

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Capitulo 50

 

 

 

Julia nem precisou interfonar, pois encontrou Tamy e Vitor já a esperando na rua. Ao chegarem à casa de Vanessa, essa ficou pasma, boquiaberta, e ligeiramente zonza pela surpresa, refazendo-se a tempo e correndo para abraçá-la. As três sempre foram amigas, mas quando Tamy foi embora, perderam contato.

 

Vanessa ficou encantada ao saber que o menino era filho de Lucas, e sua emoção comoveu as amigas, levando-as às lágrimas.

 

Passaram o dia conversando, e Vanessa até esqueceu que estava brava com Julia. Combinaram de ir juntas para a despedida de solteira de Mari. Julia fez questão de não dizer que tinha se entendido com Isa, pois queria surpreender Vanessa, que pensava que estavam brigadas ainda.

 

 

 

A noite já estava caindo, quando Isa deixou a escola, por volta das dezoito horas. A saudade de Júlia era grande, e por isso decidiu ir até a casa dela. Dentro do ônibus, por receio de ter surpresa desagradável ao chegar, decidiu ligar e avisar. Tal notícia deixou sua amada radiante.

 

“Isa o que pensa que está fazendo? Ô deuses, estou me desconhecendo, devia ir para casa, porque estão me esperando. Não tem problema, vou ficar só um pouquinho, e depois peço Julia pra me levar em casa”, sorriu com o pensamento.

 

 

Em vinte e cinco minutos estava descendo do ônibus. Andou mais alguns metros e viu Julia lhe esperando na porta do edifício. O sorriso se ampliou, bem como a felicidade por vê-la.

“Como posso gostar tanto desta mulher?”, pensava enquanto caminhava ao seu encontro.

 

Julia fez o mesmo itinerário, diminuindo gradativamente a distância entre elas. A necessidade do abraço era imperiosa, e ele aconteceu no instante em que se viram frente a frente. A medica apertou Isabel em seus braços, e depositou um beijo em sua cabeça.

 

Colocou a mão nos ombros de Isa, e com a mão livre segurou alguns objetos que ela trazia, conduzindo-a a entrada. Não puderam sequer dar um beijinho, pois o elevador subiu abarrotado.

 

 

- Julia, adorei encontrar você me esperando - disse fazendo uma caricia em seu rosto, enquanto ela abria a porta.

 

- Podia ter me ligado antes de sair da escola, teria ido te buscar - comentou, cedendo lugar para que Isa entrasse.

 

- Eu não sabia que viria, decidi no instante em que vi o ônibus que vem pra cá se aproximando. Se eu pensasse duas vezes não viria. Só que a saudade falou mais alto - revelou tímida, mas feliz.

 

- Amei! Ainda bem que eu não estava com o apartamento cheio de mulheres - caçoou Julia.

 

- Por isso liguei antes, para que a senhora tivesse tempo suficiente para se livrar dessas atoas que ficam atrás de você.

 

Julia aproximou-se, dizendo: - Você acha que fico rodeada de mulher o tempo todo? Sei que sou linda, gostosa - entrou em uma provocação. – Meus olhos azuis ajudam muito, apesar de eu não ver muito bem, mas para pegar mulher é facinho - disse divertida. – Acham que meus olhos são misteriosos, e querem descobrir o que eu escondo - completou faceira.

 

Por estar frente a frente com seu amor, fez uma análise minuciosa dos olhos dela.

 

- Não estou achando nada misterioso, é só papo para te conquistar. O que realmente estou vendo é uma remelinha... - falou segurando o riso.

 

Julia de imediato passou a mão nos olhos, para tirar o que na verdade não existia.

 

- Não tem nada sua boba - falou sorrindo, ao ver que ela tinha levado a sério. – Estou só zoando contigo, por que estava muito cheia de si, e não podia permitir isso - disse segurando-a pela cintura e a trazendo para si. Com o contato dos corpos, sentiu o arrepio a percorrer por inteira.

 

Julia buscou com urgência sua boca, e sem demora estavam no sofá. As caricias avançaram um pouco mais, e só em sentir a mão quente de Julia tocar em seus seios, quase teve um orgasmo. Com dificuldade, pediu para que parasse.

 

- Ju, por favor, não quero que seja assim, embora eu esteja querendo muito - desculpou-se ofegante. – Cada toque seu me deixa excitada, mas desejo que seja especial, depois de um jantar romântico, com música para embalar nossos beijos, e quem sabe você tenha sorte - tentou soar divertida.

 

O suspiro saiu mais profundo do que gostaria. Achou que dessa vez ia rolar, mas compreendia Isa, para ela este momento tinha que ser inesquecível. Cuidaria para que a primeira vez fosse a mais linda de toda a sua existência, e inesquecível para Isa, que a escolheu para ser a primeira de sua vida. Com esse pensamento, encontrou forças para dominar seu desejo.

 

- Tudo bem. Prometo caprichar na escolha da musica e na dosagem exata dos beijos. Não sou de brincar com a sorte, eu sempre estou com sorte... - o sorriso sincero tranqüilizou o coração de Isa.

 

 

Julia a levou até a esquina de sua casa. Combinou de passar, por volta das vinte e três horas, para pegá-la, e juntas buscarem Vanessa e Tamy, para irem para a despedida de Mari.

 

Isa entrou em casa por volta de vinte horas, e mentiu dizendo que o atraso tinha sido decorrente de uma reunião na escola.

 

Mari como conhecia a amiga, sabia que era mentira.

 

- Isa você estava com a Julia? - perguntou em seu ouvido, afinal a felicidade era visível, e a denunciava. Aquele sorriso que havia sumido de seu rosto, agora não a deixava mais.

 

Isa apenas balançou a cabeça, confirmando que sim. Olhou para ela, segurou em seu braço e a levou para o quarto.

 

- Mari eu estou tão feliz - disse eufórica. – Tive que mentir para minha mãe não ficar me enchendo. Quase me entreguei a Julia - confessou para sua amiga, com o rosto ruborizado. – Aquilo que você disse que aconteceria quando me apaixonasse, o fogo me queimando... ela me faz sentir - completou encabulada.

 

Mari acabou rindo, porque na medida em que falava, ia ficando ainda mais vermelha.

 

- Realmente você está em chamas, deixa-me ficar longe de ti - arreliou. – Sua irmã veio como uma conversinha pra cima de mim, hoje pela manhã, dizendo que você tinha contado sobre a Julia. Achei estranho porque só me contou esses dias, e achei impossível você ter dito algo a ela. Errei? - perguntou Mari.

 

- Está certa, não falaria sobre meus sentimentos por Julia, logo pra ela, que usaria isso para tirar algo de mim. Acho que está desconfiada. Ela também falou comigo, perguntou se eu tinha sonhado com a Julia. Será que eu falei alguma coisa enquanto dormia? - indagou receosa.

 

- Eu não ouvi nada - respondeu Mari. – Apesar de que, tem noite que você fala tanto, que dá até pra gravar um áudio book - provocou carinhosa.

 

- Mari não seja exagerada - disse fazendo beicinho. – Tenho que tomar cuidado. O que eu não quero agora é problema. Minha amiga estou tão feliz! - disse Isa a envolvendo em um abraço.

 

- Eu estou vendo. Mas tome cuidado, ainda tenho medo dela te machucar de novo.

 

- Não vai - afirmou categórica, olhando fixamente para os olhos de sua amiga.

 

- Isa, minha ultima noite de solteira. Ainda não acredito que vou me casar com o amor de minha vida - disse emocionada.

 

- Pode acreditar. Ele vai te fazer muito feliz. Aproveite bem a sua última noite - instigou.

 

- Vou sim! Acho que vou até roubar um beijo de sua amada médica - sorriu provocante. – Nunca beijei uma mulher - disse com ar pensativo. – Quero ver se ela é tudo isso que você diz - ficou esperando a contra-reação.

 

- Tá louca! Não vou deixar você nem um segundo perto dela - tentou parecer indignada. – Tenho que pedi-la em namoro antes que você a agarre. Vai que ela gosta de seu beijo - sorriu, entrando de vez na brincadeira.

 

- Pensei que estivessem namorando! Então peça antes dela tocar esses lábios aqui meu bem, porque ficará louquinha por mim - fez pose sensual, colocando o dedo nos lábios.

 

- Pior que não. Ela quer um pedido meu dessa vez, e não pode ser um simples pedido, tem que ser especial.

 

- Vocês são muito doidas. Vou ver onde está meu noivo, o pessoal da banda vai levá-lo pra farra também.

 

- Vou tentar escrever o pedido, depois vou tomar banho. E as meninas, estão animadas para irem lá para o Argo’s?

 

- Nossa, e como! 

 

- A Julia vai passar para me pegar.

 

- Eu vou com as meninas antes, quero passar o som, afinal vou fazer meu último show lá como solteira e cantora amadora, da próxima vez serei profissional - falou vaidosa. – Amiga vou ser tão insuportável quando ficar famosa! Preciso fazer algumas exigências, tipo: querer só homem musculoso no meu camarim, suados de malhação, para delírio de meus olhos - falou em pura euforia, e sorrindo a valer.

 

- Mari, tenho que te lembrar uma coisinha, terá marido. Não vai ser nada agradável para ele ficar vendo homens suados todo o tempo lhe dando frutinhas na boca... - arreliou divertida.

 

- Frutinhas? Não pensei nisso. Mas você tem razão, vou ter marido. Sendo assim, tenho que pensar em outra coisa... - a visão de homens musculosos, deixou Mari fora do ar por alguns instantes.

 

 

Isa sacudiu a amiga, na tentativa de banir aqueles pensamentos, e trazê-la de volta à realidade.

 

- Isa, porque não me deixou mais um pouquinho lá? Estava quase ganhando uma uvinha... - sorriu divertida.

 

- Mariana, deste jeito vou ter que contar para o Matheus que está querendo outros homens. Pela manhã ele estava querendo pegar a minha mulher, e agora você quer pegar qualquer homem musculoso? Assim não dá! Acho que o único casal decente é a Julia e eu, que pensamos uma na outra todo o tempo - falou convencida.

 

- Vai nessa - respondeu Mari. – Você até pode pensar assim, mas a sua queridinha Julia, não aposto nem um tostão nela.

 

- Mari você deveria confiar mais nela, ela mudou.

 

- Isa, já vi ela fazendo coisas lá no Argo’s que tenho até vergonha de te dizer. Mas vamos mudar de assunto. Vou ver se a mulherada já está pronta. Se comporte porque sua maninha vai também. Ela não queria ir, mas o namorado a convenceu, pois estava a fim de sair com os rapazes.

 

Isa suspirou fundo, pensou que poderia ficar à vontade com Julia, mas ainda não podia.

 

“Acho que nunca vamos conseguir fazer amor. Cada hora é uma coisa! Às vezes sou eu, outra ela. Ela não! Está sempre disposta, melhor acrescentar outras pessoas que aparecem para atrapalhar”, pensou e sorriu.

 

Mari saiu e fechou a porta. Ela foi até o computador, ligou, pegou seu mp3 e sentou. Começou a procurar uma música, e sem opção melhor deixou em uma estação de rádio que estava tocando Ironic de Alanis Morrissette. Olhou para o relógio do computador, que estava atrasado, em seguida olhou para seu relógio de pulso, que marcava vinte e uma horas. Pensou em Julia.

 

“O que vou escrever? Não sei se vou conseguir colocar em palavras tudo o que sinto por ela. Dizer também será difícil, ela me deixa tímida”, refletiu.

 

 

Julia,

 

Queria estar olhando para os seus olhos neste momento, mas sei que se assim fosse, as palavras não sairiam. Estou aqui tentando escrever o que meu coração está pedindo. Imaginei que pedir uma pessoa em namoro fosse simples, mas quando ela é especial, as palavras precisam vir da alma.

 

Quando meus olhos encontraram os seus, meu mundo parou no mesmo instante. Meu coração não havia sentido tamanha emoção até te encontrar. Foram segundos apenas, de uma paralisia que mudou minha vida. Um segundo depois, pude vislumbrar seu sorriso largo e doce, e sua voz chegando a meus ouvidos lentamente. Me senti no céu.

 

Fui do paraíso ao inferno, ao sentir um ciúme sem igual, por ver você tocando os lábios de outra. Nem a conhecia e aquele sentimento me assustou, porque era provável que nunca mais nos víssemos nesta vida, restando a mim, a imagem gravada em minha memória, do que você despertou, e que me fez cruzar extremos hemisférios em poucos segundos.

 

Mas o destino já estava traçado. Voltamos a nos encontrar e desta vez, experimentei a raiva que nunca senti por outra pessoa. Reconheço que, talvez não fosse para tanto, mas penso que ainda estava sob o efeito do ciúme de seu beijo em minha chefe.

 

Seu olhar penetrante, que parecia desvendar todas as minhas emoções me deixava nervosa, e por conta disto, você se aproveitou, ou por simples brincadeira, passando a me irritar todas as vezes que a vida teimava em nos colocar frente a frente.

 

Levei algum tempo para aceitar o que sentia por você, porque é uma mulher totalmente diferente de mim. A sua fama de mulherenga, me deixava sempre insegura, quanto a entregar meu coração pra você. Não queria ser só mais uma em sua lista, almejei ser especial, porque no momento que nossos olhos se encontraram a primeira vez, senti algo que não soube definir naquele instante, mas foi uma sensação de reencontro.

 

Nunca acreditei nestas histórias de outras vidas, mas ouso dizer, que mesmo sem saber, no seu olhar a minha imagem estava gravada, assim como tenho certeza, que a sua estava impressa em minhas pupilas. E não quero mais deixar de olhar seus olhos, só quando os meus se fecharem para esta vida, para te reencontrar em nossa próxima existência.

 

Sei que vamos brigar muito ainda, mas não para nos separarmos como nos últimos meses. Você não tem idéia de quanto sofri! Não houve um dia sequer, que na esperança de receber uma mensagem sua, eu não tenha pegado o celular. A expectativa de ler, nem que fosse apenas um oi, me deixava ansiosa, mas a esperança morria no instante em que nada encontrava.

 

Te sentir cada vez mais distante, era um verdadeiro martírio, pois a cada instante, me convencia que o amor que sentia por ti, era só meu, e que na realidade, você não gostava de mim como dizia.

 

Quando parei de acreditar no seu retorno, tive a grata surpresa de ter você de volta.

 

Agora estou aqui, escrevendo um pedido, que espero, seja aceito.

 

Julia você quer namorar comigo?

 

Aguardo sua resposta com ansiedade

 

Beijo

 

 

E.T.: Não esqueça de ouvir a música Tu, que anexei neste e-mail.

 

 

“Por cada estrella, por cada noche
Se encuentran nuestras almas y se reconocen
Porque lo quieres, porque lo pides
Voy a mostrarte que el amor existe”.

 

 

 

“Será que ela vai gostar?”, releu mais duas vezes enquanto ouvia a música, e clicou enviar.

 

 

TU – Jennifer Lopes

 

   

Me gustan esas pequeñas cosas
Cuando te encuentras conmigo a solas
Y tengo tanto para decirte
En lo que quieras yo voy a seguirte
No hablemos nada oye el silencio
Es el lenguaje de nuestros cuerpos
Y a veces pienso que apareciste
Para mostrarme que el amor existe

Tuuuuuuuuu, todo tuuuu
Siempre tuuuuuu
Todo tuuuuuuuuu

Parar el tiempo me gustaría
Para fumarme a tu dulce filosofía
Sentirme amiga del universo
Y en tu mirada ver el mismo cielo

Por cada estrella, por cada noche
Se encuentran nuestras almas y se reconocen
Porque lo quieres, porque lo pides
Voy a mostrarte que el amor existe

Tuuuuuuuuu, todo tuuuuuuuu
Amor mío, amarte ese es mi desafí o
Amor mío, con todos mis cinco sentidos
Amor mío

Y sentir, esperar,
Yo tus ojos, tu voz y tus sueños habré de seguir
Y lucharte para conquistarte
Y suplir y esperar
Yo tus ojos tu voz y tus sueños habré de seguir
Y lucharte para conquistarte

 

 

 

 

 

 

 

Julia estava tomando uma taça de vinho na varanda de seu apartamento, olhando a noite linda e pensando em Isa com saudade. Ouviu o toque do celular que lhe informava que tinha recebido um torpedo. Quando viu de quem era, um sorriso largo e fácil surgiu em seu rosto, e começou a ler.

 

“Julia te mandei um e-mail. Se puder, leia antes de nos encontrarmos. “As estrelas e seus olhos são gotas de luz. E escuto sua voz. E te sinto aqui. E te sinto inundando-me toda”. Beijo, até mais tarde e fique bem linda para mim”.

 

 

“Isa, que lindo!”, pensou enquanto relia a mensagem.

 

Sentiu seu coração se expandir em felicidade. Completou a taça de vinho e foi até seu note para ler o e-mail. Nunca se entregou assim a ninguém.

 

 

 

Continua... 

 

 

 Parte 51

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