Palavras ao Vento Fernanda |
Capítulo
5
-
Você está brincando comigo?
Julia
apenas balançou a cabeça negativamente, lhe sorriu maliciosamente,
e não disse
nada. Isabel por sua vez ficou tão chocada, que por medo do que teria
que pagar achou melhor não perguntar. Com a cara que Julia fez, já
imaginou como seria o pagamento. Naquele momento não podia dizer nada,
porque seu noivo não estava bem.
Saíram
do quarto para Matheus se vestir. Isabel ficou do lado de fora do quarto e Julia
seguiu para a sala.
Isabel
começou a pensar: Meu deus, não me deixe odiar mais esta mulher
do que já odeio. Como pode ser tão horrível? Estou tão
nervosa... ela só visa seu próprio prazer, mas se
pensa que vou pagar do jeito que está querendo, não vai conseguir
nada comigo. Ela não me conhece. E o Julio? Como vai crescer, com uma
mulher dessa como mãe? Pensando nisto, a casa é tão arrumada,
nem parece que uma criança mora aqui. Bom talvez ele more com o pai,
com a vida que ela tem, não tem tempo para cuidar de um filho. Nem posso
imaginar as orgias que acontece nessa casa.
-
Isa vamos, o que estava pensando, estou aqui parado e você não
me vê. Isa não respondeu a pergunta dele e seguiram para a
sala.
-
A roupa do meu irmão ficou ótima em você, podemos ir.
-
Obrigada Dra. Julia, não precisa se preocupar, vou levar o Matheus para
um hospital público, pois não temos dinheiro nem para entrar em
sua clínica. Vamos Matheus, não quero dever mais do que já
estou devendo.
Julia
começou rir de Isabel, pensou a professorinha está querendo me
matar. Levantou-se, pegou a chave do carro e disse vamos. A ignorou totalmente.
Matheus
não estava entendendo nada, não sabia o que fazer se ia ou não,
com a doutora. Olhou para Isa com cara de bobo.
-
Isabel vamos, pára de besteira. Para sua tranqüilidade, minha clínica
tem convênio com o Sus, não terá que pagar nada. E mesmo
que tivesse não ia cobrar nada dele.
-
Eu sei que não cobraria nada dele. Pegou
a mão do noivo e saiu do apartamento.
Irritar
Isa estava sendo divertido, sem falar que ela fica linda nervosa, seus olhos
adquirem um verde mais intenso, e seu rosto fica mais vermelho que um pimentão.
Os
dois chegaram primeiro na porta do elevador, Isa apertou o botão enquanto
Julia aproximava-se. Estava com tanta raiva. Olhar para aquela mulher, apesar
de linda era horrível. Queria estar sozinha para falar tudo o que pensa
para ela, mas mesmo assim não resistia, a olhava e sentia raiva. O elevador
demorou um pouco e o silêncio entre os três se fez. Matheus provavelmente
estaria rezando. Julia deveria estar pensando perversidade com ela. Não
podia pensar nisto que ficava desesperada. Coçou a cabeça, colocou
a mão sobre
o rosto, e suspirou fundo.
O
elevador chegou. Entraram. O casal ficou de um lado, Julia do outro, propositalmente
de frente para Isa. Matheus estava de cabeça baixa. Julia não
tirava os olhos de Isa, que sentia aquele olhar penetrar sobre ela. Resolveu
olhar para Julia e ganhou uma piscada, isso foi demais, balançou a cabeça
e acabou
apertando a mão de Matheus, que gritou.
-
Ai!!!.. que foi Isabel, você está muito estranha.
-
Eu também estou achando, acho que vou receitar um calmante para ela,
por que está precisando... rss. Tenho um ótimo para te dar, mas
você pode se viciar. Ela falava com a cara mais inocente do mundo.
-
Eu não preciso de calmante algum. Agora foi a vez de Matheus dar um aperto na
mão dela para parar com aquilo.
-
Posso perguntar uma coisa para vocês?
-
Pode.
-
Por acaso já se conhecem, porque estou sentindo uma animosidade entre
vocês.
-
Nunca nos vimos antes, acho que sua noiva está nervosa por sua causa
ou está de TPM...
Isa
deu uma olhada para a Julia, estava a ponto de voar no pescoço dela e
torcer, era tão cínica e mentirosa. E o que digo? Não posso
fazer o que estou pensando, ela pode arruinar com o meu trabalho, se já
não o fez, mas não sei. Ainda salvou a vida do Matheus, de todas
as pessoas do mundo, que poderia ter ajudado meu noivo, por que tinha que ser
ela?
-
Não nos conhecemos. Teve que se render à mentira de Julia.
O
visor do elevador indicou a chegada à garagem. Caminharam alguns metros
até o carro de Julia, um Eco Sport preto.
-
Nossa que carro! Nunca imaginei andar em um desse. Hoje é mesmo o meu
dia de sorte.
Ele
entrou atrás, e quando Isa fez menção de entrar também,
Julia disse venha na frente comigo, então sussurrou:
eu não vou te atacar agora, rss.
Isa
entrou e sua cabeça não parou mais de pensar. Começou a
ficar apavorada com a possibilidade de Julia fazer tudo o que estava imaginando.
Puxou o cinto de segurança, mas não conseguia encaixar. De repente
sentiu a mão quente de Julia sobre a sua a ajudando. Foi coisa de segundo,
mas o suficiente para sentir seu coração acelerar de uma forma
que nunca sentira antes.
Julia
ligou o rádio e falou:
-
Eu me apaixonei por esta música. Ouvi outro dia à noite voltando
da casa da minha amiga Vanessa. Sabe, faz tempo que uma música não
me toca tanto e essa é especial.
A
música começou a tocar... �Eu quero ficar perto de tudo o que
acho certo... Ate o dia que eu mudar de opinião...
-
Esta música também me toca muito, vivo cantando-a desde que ouvi
outro dia à noite, quem sabe não ouvimos no mesmo dia e hora.
-
você acredita
nisto?
-
Acredito, mas essa música vai se tornar um tormento agora, porque toda
a vez que ouvir vou acabar pensando em você.
-
Vai pensar em mim e eu vou pensar em você e não será nenhum
tormento, antes, um prazer, é a nossa música...
Matheus
estava tão maravilhado com o carro que não prestou atenção
na conversa das duas.
Pela
primeira vez se olharam sem segundas intenções ou ódio,
foi inesperado esse momento, que cada uma sentiu de seu jeito e, no meio
estava Matheus falando sem parar sobre o carro.
Quinze
minutos depois estavam chegando à clínica Fernandes Aguiar. Isa
já havia passado algumas vezes em frente e, sempre achou um dos edifícios
mais bonitos daquele local. Deveria ter uns 15 andares.
-
Julia o edifício todo é de sua clínica?
-
É sim. Depois te levo para conhecer tudo, se quiser.
Julia
os levou para o 1º Andar que funcionava como um pronto-socorro. Em uma
triagem inicial, os casos simples eram imediatamente atendidos e liberados ali
mesmo. Os casos mais graves, eram devidamente encaminhados às respectivas
clínicas. Ricos e pobres, sem distinção, recebiam o mesmo
atendimento. Julia sempre fez questão de primar pela qualidade e eficiência
dos serviços oferecidos.
-
Isabel faça a ficha dele, que vou ver quem está de plantão
hoje. Os deixou ali.
-
Bom dia, quem vai passar em consulta com o médico? Perguntou a atendente.
-
Meu noivo.
Isabel
fez a ficha de Matheus. Quinze minutos depois foi chamado pela própria
Julia, que já estava com seu jaleco branco e estetoscópio no pescoço.
Ficou quase 10 minutos escrevendo. E Isa observava. A médica "era
diferente daquela mulher que a fazia ter ódio... como mudava, nem sombra
da outra, que a intimidava". Nossa música, que convencida.
-
Matheus você vai fazer alguns exames. Uns ficarão prontos hoje
mesmo, outros daqui a uns 15 dias. Dê esta folha para a enfermeira que
ela saberá o que fazer. Isabel veja quanto está a pressão
dele e venha me falar. Bom, agora podem ir.
-
Obrigado, Dra. eu nunca vou poder pagar o que está fazendo por mim, vou
rezar para o meu senhor todos os dias para que sempre cultive a bondade em seu
coração.
Isa
não agüentou ao ouvir a palavra bondade, e começou a tossir.
Não via bondade alguma naquele ser humano depois que tirava o seu jaleco
de médica... se desculpou, mas Julia notou que aquela tosse era por sua
causa.
-
Parece que temos uma descrente por aqui, Matheus. Reza sim para mim porque preciso,
acham que não tenho mais salvação, falou e olhou para Isa.
Neste
momento o celular de Isa tocou, pediu licença e saiu da sala para atender.
-
Alô.
-
Isa o que aconteceu com Matheus? A tia Fátima acabou de me contar que
ele passou mal. Onde vocês estão?
-
Mariana estamos na clínica Fernandes Aguiar, venha para cá. O
Matheus está sendo muito bem tratado. Eu nem vou começar a te
contar, que o impossível acontece. Beijo, amiga. Venha
logo, não quero ficar sozinha aqui.
-
Isabel que negócio é esse de o impossível acontece? Não
estou entendendo. O que está acontecendo, não vai me contar?
-
Agora não, tchau.
-
Tia a Isabel estava muito estranha, me pareceu muito nervosa e mandou
ir para a clínica Fernandes Aguiar.
Matheus
já estava fazendo os exames.
Tenho
que voltar ao consultório dela, se falar alguma gracinha não vou
deixar quieto. Respirou fundo. Bateu na porta e ouviu-a mandando entrar.
-
Entra Isabel
-
A enfermeira disse que a pressão abaixou um pouco, mas a febre continua
alta. Julia, porque ele está com essa febre?
Não parece estar resfriado.
-
Ainda não sei. Mas ele vai ter que começar a tomar remédios
para a pressão. Espero que não esteja
nada sério. Você tem sorte. Ele é um rapaz muito
bom.
-
Me fale a verdade, ele pode ter algo grave?
Julia
ficou pensando no que dizer, não podia afirmar algo que não tinha
certeza. � Vamos esperar os exames.
-
Você é clínica geral?
-
Não, me especializei em cardiologia e oncologia. Mas faz três anos
que deixei a oncologia. Estava perdendo muitos pacientes e comecei a me sentir
incapaz de ajudá-los.
-
Você acha que ajudou mais que perdeu?
-
Muitos se recuperaram.
-
Então, é isto que importa. Os que foram era porque tinha chegado
a hora deles.
-
Alguém muito especial me disse a mesma coisa lá na praia.
Tenho certeza que ele falou comigo. Tem acontecido alguns fatos inexplicáveis,
desde que encontrei uma coisa...
-
Acredito que tem alguém
lá em cima que faz as coisas certas e, nós que achamos que é
inexplicável. Nunca estamos preparadas para entender o que Ele faz. Tudo
acontece na hora certa, seja bom ou ruim. Bom, vou ficar com o Matheus.
Foi
a primeira vez que conversaram direito. Isa entrou já preparada para
encontrar aquela Julia que não suportava, mas deparou-se com uma mulher
que tem seus medos, que sofre em não poder curar todos os seus pacientes.
Ela deveria andar com seu jaleco de médica o tempo todo, assim eu a suportaria
mais que 5 minutos.
Julia
ficou pensando se continuaria irritando Isa. Decidiu que ia, era divertido
vê-la nervosa, ficava tão bonitinha...
Continua...