O
dia come�ou cedo e bastante agitado na casa de dona F�tima. �s sete horas
da manh�, Matheus e os primos foram para a praia.
Enquanto
aguardava na fila do banheiro, Mari lamentava, arrependida, o convite feito
a seus parentes. Odiava ter que acordar cedo, e ainda tinha que entrar na
fila para escovar os dentes. Avisaram-na ali mesmo, que seu noivo havia
ido � praia.
Apesar
de seu mal-humor matinal, lembrou da conversa que ouviu entre a m�e de Isa
e Julia. Estava louca para contar para a amiga.
Bianca
come�ou a assoprar os olhos de Isa. Sempre fez isto para acord�-la. H� tempos
que n�o dormia com a irm�. Recordou da velha brincadeira, mesmo sabendo
que ela odiava quando fazia aquilo. Sentia falta dela, eram t�o pr�ximas
quando novas, e agora n�o tinha muito assunto com a irm�.
O
sentimento de inferioridade era evidente, pois Isa tinha se formado, trabalhava
em �timas escolas, e vivia na cidade grande, enquanto ela tinha tentado
passar no vestibular tr�s vezes, sem sucesso. Acabou desistindo e continuou
trabalhando na �nica lanchonete da cidade.
No
fundo, tinha inveja de sua irm�, que sempre foi � queridinha dos pais. Ela
era a ruim e Isa a boazinha, que nunca dava problemas, aluna exemplar, e
filha perfeita. Vivia ouvindo de sua m�e: "voc� deveria ser como sua
irm�. Ela nunca me deu problema como voc�".
Em
seu �ntimo, n�o queria ser a filha problema. Suas atitudes eram tentativas
desesperadas de chamar aten��o dos pais, para que percebessem sua exist�ncia.
Isa
come�ou a esfregar os olhos mesmo dormindo. Bianca se divertia com a cena,
at� que a ouviu resmungar: "Julia, para com isso". Um sorriso
brotou em seus l�bios, virou para o lado, agarrou seu travesseiro e suspirou.
A jovem achou estranho aquele sorrisinho seguido de um profundo suspiro.
Lembrou-se dos rumores em sua cidade sobre a amizade de Isa com Nat�lia.
N�o acreditou por que achava que sua irm� gostava do Matheus. Na �poca sua
m�e sentou Isa em uma cadeira e perguntou se era verdade o que o povo
estava falando sobre ela, mas afirmou chorando que era mentira, e que gostava
do Matheus. Algum tempo depois, ela saiu de casa para estudar, o namoro
com Matheus continuou. Nath�lia se casou logo depois do ocorrido e ningu�m
mais tocou no assunto.
N�o
insistiu na brincadeira. Levantou-se intrigada, deixando a irm� com seus
sonhos. Viu Mari na fila e foi at� ela.
-
Bom dia, Mari.
As
pessoas que aguardavam, logo se manifestaram, pois acharam que ela ia furar
a fila.
-
Eu n�o vou furar essa porcaria de fila. S� estou conversando com a Mariana,
seu bando de chatos - gritou Bianca.
Ouviu
alguns nomes, que n�o eram bonitos, mas n�o se importou. Nunca fez nada
para merecer a simpatia das pessoas, e todos na cidade a achavam metida
demais. Sempre ouvia coment�rios, tais como: "quem ser� que ela puxou!
Seus pais s�o t�o bons, e Isabel um doce de pessoa. Essa a�, ao contr�rio,
n�o ajuda nem velhinha a atravessar a rua". Reconheciam por�m que,
ap�s a sa�da de Isa, ela piorou.
-
Voc� � louca de hospedar toda essa gente aqui em sua casa.
-
Inclusive voc�s! - respondeu Mari grosseiramente.
-
Inclusive n�s. Viemos pelo Matheus e minha irm� pelo que sei, n�o mora de
gra�a aqui. Vamos mudar de assunto. Voc� viu meu namorado?
-
Acho que ele foi � praia com Matheus.
-
Foi na pra sem mim? Ele me paga - olhou para o outro lado e resmungou para
si mesma a sua raiva. Retornou o olhar para Mari que j� estava quase chegando
� entrada do banheiro.
-
Mari, a Isa me contou sobre a Julia.
-
Contou? - perguntou Mari desconfiada.
-
Quando esteve l� em casa nas f�rias.
-
A Isa n�o me disse que tinha lhe contado - ser� que era verdade mesmo, ou
Bianca estava jogando para ver se tirava algo dela, conjeturou confusa.
Sabia que a amiga era bem reservada, e n�o ia contar algo t�o intimo logo
para sua irm�, que sempre a metia em confus�es. Por sorte a pessoa saiu
logo do banheiro e ela pode entrar.
-
Bianca, depois conversamos. Estou a quarenta minutos esperando aqui, apertada,
se eu demorar mais cinco minutos vou fazer xixi na cal�a.
-
Tudo bem. Depois conversamos - respondeu totalmente contrariada. "Que
droga, ela deve ter desconfiado que estava jogando um verde pra cima dela",
pensou.
Isa
deveria estar sonhando com Julia, a julgar por sua cara de felicidade enquanto
dormia. Ningu�m a acordou. Deixaram-na descansar at� quando quis.
No
apartamento de Julia a tranquilidade era reinante. Podia dormir at� mais
tarde, mas n�o o fez. Acordou cedo, e foi para a praia levando sua prancha
tamb�m. Estava muito branca e queria se bronzear um pouco, para o casamento.
Apesar da �gua super fria, as ondas compensaram o sacrif�cio, pois estavam
perfeitas. Encontrou alguns amigos surfistas e ficaram pegando onda at�
que o sol come�ou a esquentar. Ent�o saiu do mar e foi para a areia. Fincou
sua prancha no ch�o, tirou o macaquinho, permanecendo s� de biqu�ni.
Dois
caras que passaram por ela, trombaram com o vendedor de sorvete. Eles como
outros, n�o deixaram de falar gracinhas, que ela fingiu n�o escutar.
Estendeu
a toalha, sentou-se na areia e come�ou a passar o bronzeador em suas pernas,
depois nos bra�os e na barriga, nas costas seria um problema. Visualizou
do lado esquerdo, cinco rapazes que a olhavam discaradamente.
-
Hei, um de voc�s poderia? - indagou mostrando o protetor solar para eles,
que se aproximaram r�pidos e prontos para t�o deliciosa miss�o. Olhou a
cada um para eleger qual seria o sortudo. Fitou-os de baixo para cima e
deu um sorriso maroto para um deles. Apontou seu dedo para o escolhido,
dizendo: "Hoje � o seu dia de sorte".
O
rapaz pegou o protetor, colocou um pouco em suas m�os e esfregou-as. Em
seguida se abaixou atr�s de Julia. Ela trouxe os cabelos para frente, deixando
as costas livre para que ele pudesse lhe passar o creme.
Ele
aproveitou a deixa, e inclinou um pouco o corpo para poder falar em seu
ouvido. Os rapazes come�aram a cutucarem-se uns aos outros, achando que
o amigo estava tentando conquistar aquela deusa.
-
Eu n�o sei porque, mas quando me olhou eu soube que seria o escolhido -
disse convencido.
-
Voc� era o �nico que n�o estava me comendo com os olhos - respondeu sincera,
enquanto o rapaz deslizava as m�os pelas costas dela.
-
Tem certeza, mo�a? Talvez eu estivesse apenas fingindo, para ser o escolhido
- afirmou seguro de si.
-
N�o estava fingindo. Na verdade, te escolhi por que era o �nico com alian�a
no dedo, e me pareceu confi�vel. N�o tem cara de ser algu�m que se aproveite
de uma mulher sozinha na praia, mesmo ela sendo muito gostosa.
-
E como fica minha reputa��o? Sou pegador, os caras esperam que eu n�o saia
dessa praia sem ficar contigo.
Para
continuar a brincadeira Julia mandou ele passar bronzeador na parte da frente.
- Ent�o, seus amigos n�o v�o dormir esta noite - falou provocante.
-
E nem eu - respondeu o jovem.
Julia
bateu no bra�o dele. - Matheus, vou contar para a Mari - disse fingindo-se
ofendida.
-
Julia, sou homem, e voc� � uma gata. A Isa � quem tem sorte de estar te
pegando.
-
Eu que tenho sorte - respondeu retirando o protetor da m�o dele. - Hei meninos,
o Matheus n�o � de nada... - brincou e sorriu para o amigo.
Um
deles respondeu: - Ele nunca foi de nada mesmo...
-
� n�? - falou olhando para os primos. - Sempre fui fiel a Isa, e agora a
Mari. Respeito �s mulheres que eu amo.
Os
primos riram. - Voc� sempre foi um bob�o mesmo - falou o primo mais velho.
- Vamos nadar um pouco? - convidou os outros que estavam a seu lado, deixando
Matheus em companhia de Julia.
-
Matheus, como � a m�e da Isa? Ela j� pegou bronca de mim. Voc� acha que
aceitaria a minha rela��o com a filha dela?
-
Ela � uma mulher muito boa, mas se pisar na bola, com certeza, sempre ter�
um p� atr�s contigo. Mas isso � o que eu penso, pode ser que ela tenha outra
atitude.
-
De madrugada, conversei com ela, e pude sentir que vai ser dif�cil - disse
olhando para a areia, segurando um pouco e deixando escorrer por entre os
dedos. Olhou novamente para Matheus.
-
Relaxa, depois do meu casamento ela vai embora e voc�s n�o s�o obrigadas
a contar. A Isa n�o est� gr�vida, nem nada.
-
Seu bobo - riu gostoso. - Sabe que eu gosto muito de voc�, Matheus.
-
Mesmo eu sendo bobo? - retribuiu o sorriso. - Tamb�m gosto de voc�, J�lia.
Se eu tivesse uma irm� mais velha gostaria que fosse assim como voc� - falou
jogando-lhe areia, se levantando apressado e correndo para o Mar.
Julia
correu atr�s dele, mas n�o conseguiu alcan��-lo.
-
Acho que estou ficando velha mesmo - disse para si mesma no momento em que
desistiu da persegui��o. Olhou para o rel�gio e se lembrou que ia levar
Tamy na casa de Vanessa. Recordou tamb�m, que sua amiga estava louca da
vida com ela. Recolheu suas coisas, deu um forte assovio entre os dedos,
que chamou a aten��o de muitas pessoas, mas seu alvo era Matheus, que atendeu
ao chamado, e ela deu um tchau com a m�o para ele e os primos, que retribu�ram
mandando beijos. Apenas sorriu em resposta, e foi embora.
Isa
acordou �s dez da manh�, e n�o viu ningu�m no quarto. Procurou com os olhos
para ver se encontrava seu celular e o viu em cima da mesa do seu computador.
Levantou ainda sonolenta, queria ligar para Julia e dar bom dia, mas n�o
a encontrou em casa, nem no celular. Desistiu, depois falaria com ela.
�
tarde, iria trabalhar. Tinha que aplicar uma prova para seus pequenos alunos.
Adriana lhe dera dois dias de folga por causa do casamento de Mari, mas
da escola p�blica n�o teve como escapar, j� tinha faltado no dia anterior.
Acordou
com um sorriso nos l�bios dando bom dia a todos que encontrava pelo caminho
at� o banheiro, nem se importou de esperar para us�-lo.
-
Isa preciso de contar uma coisa - disse Mari. - Mas agora tenho que sair,
o Matheus sabe que temos mil coisas para fazer e foi levar os primos na
praia... - Isa sentiu um certo desapontamento na voz de sua amiga em rela��o
ao seu futuro marido.
-
Mari, n�o pode me adiantar o assunto? - perguntou Isa olhando para
os olhos da amiga, tentando perceber se o assunto era s�rio ou n�o. Os olhos
de Mariana estavam enigm�ticos naquela manh�.
-
Agora tenho que ir mesmo - falou Mari com pesar na voz. - Depois conversamos
- deu um beijo na cabe�a da amiga e saiu apressada, pois sua m�e e suas
primas j� lhe esperavam na porta.
Isa
ficou pensativa sobre o que seria. Procurou por sua m�e e sua irm� com os
olhos, mas o seu campo de vis�o s� lhe permitia ver parte da sala. Estava
com o celular na m�o, quando o sentiu vibrando. O visor indicou que era
Julia, e apressada buscou a privacidade do seu quarto para atender.
-
Oi, Julia.
-
Bom dia, meu amor.
-
Eu te liguei. Onde estava?
-
Tem certeza que quer saber? Eu estava na praia com uns caras lindos. Estavam
doidos por mim. At� deixei um deles passar protetor em minhas costas.