Palavras ao Vento

Fernanda

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Cap�tulo 49

 

O dia come�ou cedo e bastante agitado na casa de dona F�tima. �s sete horas da manh�, Matheus e os primos foram para a praia.
 
 
 
Enquanto aguardava na fila do banheiro, Mari lamentava, arrependida, o convite feito a seus parentes. Odiava ter que acordar cedo, e ainda tinha que entrar na fila para escovar os dentes. Avisaram-na ali mesmo, que seu noivo havia ido � praia.
 
Apesar de seu mal-humor matinal, lembrou da conversa que ouviu entre a m�e de Isa e Julia. Estava louca para contar para a amiga.
 
   
 
Bianca come�ou a assoprar os olhos de Isa. Sempre fez isto para acord�-la. H� tempos que n�o dormia com a irm�. Recordou da velha brincadeira, mesmo sabendo que ela odiava quando fazia aquilo. Sentia falta dela, eram t�o pr�ximas quando novas, e agora n�o tinha muito assunto com a irm�.
 
 
 
O sentimento de inferioridade era evidente, pois Isa tinha se formado, trabalhava em �timas escolas, e vivia na cidade grande, enquanto ela tinha tentado passar no vestibular tr�s vezes, sem sucesso. Acabou desistindo e continuou trabalhando na �nica lanchonete da cidade.
 
 
 
No fundo, tinha inveja de sua irm�, que sempre foi � queridinha dos pais. Ela era a ruim e Isa a boazinha, que nunca dava problemas, aluna exemplar, e filha perfeita. Vivia ouvindo de sua m�e: "voc� deveria ser como sua irm�. Ela nunca me deu problema como voc�".
 
 
Em seu �ntimo, n�o queria ser a filha problema. Suas atitudes eram tentativas desesperadas de chamar aten��o dos pais, para que percebessem sua exist�ncia.
 
 
 
Isa come�ou a esfregar os olhos mesmo dormindo. Bianca se divertia com a cena, at� que a ouviu resmungar: "Julia, para com isso". Um sorriso brotou em seus l�bios, virou para o lado, agarrou seu travesseiro e suspirou. A jovem achou estranho aquele sorrisinho seguido de um profundo suspiro. Lembrou-se dos rumores em sua cidade sobre a amizade de Isa com Nat�lia. N�o acreditou por que achava que sua irm� gostava do Matheus. Na �poca sua m�e sentou Isa  em uma cadeira e perguntou se era verdade o que o povo estava falando sobre ela, mas afirmou chorando que era mentira, e que gostava do Matheus. Algum tempo depois, ela saiu de casa para estudar, o namoro com Matheus continuou. Nath�lia se casou logo depois do ocorrido e ningu�m mais tocou no assunto.
 
 
 
N�o insistiu na brincadeira. Levantou-se intrigada, deixando a irm� com seus sonhos. Viu Mari na fila e foi at� ela.
 
 
 
- Bom dia, Mari.
 
 
 
As pessoas que aguardavam, logo se manifestaram, pois acharam que ela ia furar a fila.
 
 
 
- Eu n�o vou furar essa porcaria de fila. S� estou conversando com a Mariana, seu bando de chatos - gritou Bianca.
 
 
 
Ouviu alguns nomes, que n�o eram bonitos, mas n�o se importou. Nunca fez nada para merecer a simpatia das pessoas, e todos na cidade a achavam metida demais. Sempre ouvia coment�rios, tais como: "quem ser� que ela puxou! Seus pais s�o t�o bons, e Isabel um doce de pessoa. Essa a�, ao contr�rio, n�o ajuda nem velhinha a atravessar a rua". Reconheciam por�m que, ap�s a sa�da de Isa, ela piorou.
 
  
 
- Voc� � louca de hospedar toda essa gente aqui em sua casa.
 
 
 
- Inclusive voc�s! - respondeu Mari grosseiramente.
 
 
 
- Inclusive n�s. Viemos pelo Matheus e minha irm� pelo que sei, n�o mora de gra�a aqui. Vamos mudar de assunto. Voc� viu meu namorado?
 
 
 
- Acho que ele foi � praia com Matheus.
 
 
 
- Foi na pra sem mim? Ele me paga - olhou para o outro lado e resmungou para si mesma a sua raiva. Retornou o olhar para Mari que j� estava quase chegando � entrada do banheiro.
 
 
 
- Mari, a Isa me contou sobre a Julia.
 
 
 
- Contou? - perguntou Mari desconfiada.
 
 
 
- Quando esteve l� em casa nas f�rias.
 
 
 
- A Isa n�o me disse que tinha lhe contado - ser� que era verdade mesmo, ou Bianca estava jogando para ver se tirava algo dela, conjeturou confusa. Sabia que a amiga era bem reservada, e n�o ia contar algo t�o intimo logo para sua irm�, que sempre a metia em confus�es. Por sorte a pessoa saiu logo do banheiro e ela pode entrar.
 
 
 
- Bianca, depois conversamos. Estou a quarenta minutos esperando aqui, apertada, se eu demorar mais cinco minutos vou fazer xixi na cal�a.
 
 
 
- Tudo bem. Depois conversamos - respondeu totalmente contrariada. "Que droga, ela deve ter desconfiado que estava jogando um verde pra cima dela", pensou.
 
 
 
 
 
Isa deveria estar sonhando com Julia, a julgar por sua cara de felicidade enquanto dormia. Ningu�m a acordou. Deixaram-na descansar at� quando quis.
 
 
 
 
 
No apartamento de Julia a tranquilidade era reinante. Podia dormir at� mais tarde, mas n�o o fez. Acordou cedo, e foi para a praia levando sua prancha tamb�m. Estava muito branca e queria se bronzear um pouco, para o casamento. Apesar da �gua super fria, as ondas compensaram o sacrif�cio, pois estavam perfeitas. Encontrou alguns amigos surfistas e ficaram pegando onda at� que o sol come�ou a esquentar. Ent�o saiu do mar e foi para a areia. Fincou sua prancha no ch�o, tirou o macaquinho, permanecendo s� de biqu�ni.
 
 
 
Dois caras que passaram por ela, trombaram com o vendedor de sorvete. Eles como outros, n�o deixaram de falar gracinhas, que ela fingiu n�o escutar.
 
 
 
Estendeu a toalha, sentou-se na areia e come�ou a passar o bronzeador em suas pernas, depois nos bra�os e na barriga, nas costas seria um problema. Visualizou do lado esquerdo, cinco rapazes que a olhavam discaradamente.
 
 
 
- Hei, um de voc�s poderia? - indagou mostrando o protetor solar para eles, que se aproximaram r�pidos e prontos para t�o deliciosa miss�o. Olhou a cada um para eleger qual seria o sortudo. Fitou-os de baixo para cima e deu um sorriso maroto para um deles. Apontou seu dedo para o escolhido, dizendo: "Hoje � o seu dia de sorte".
 
 
 
O rapaz pegou o protetor, colocou um pouco em suas m�os e esfregou-as. Em seguida se abaixou atr�s de Julia. Ela trouxe os cabelos para frente, deixando as costas livre para que ele pudesse lhe passar o creme.
 
Ele aproveitou a deixa, e inclinou um pouco o corpo para poder falar em seu ouvido. Os rapazes come�aram a cutucarem-se uns aos outros, achando que o amigo estava tentando conquistar aquela deusa.
 
 
 
- Eu n�o sei porque, mas quando me olhou eu soube que seria o escolhido - disse convencido.
 
 
 
- Voc� era o �nico que n�o estava me comendo com os olhos - respondeu sincera, enquanto o rapaz deslizava as m�os pelas costas dela.
 
 
 
- Tem certeza, mo�a? Talvez eu estivesse apenas fingindo, para ser o escolhido - afirmou seguro de si.
 
 
 
- N�o estava fingindo. Na verdade, te escolhi por que era o �nico com alian�a no dedo, e me pareceu confi�vel. N�o tem cara de ser algu�m que se aproveite de uma mulher sozinha na praia, mesmo ela sendo muito gostosa.
 
 
 
- E como fica minha reputa��o? Sou pegador, os caras esperam que eu n�o saia dessa praia sem ficar contigo.
 
 
 
Para continuar a brincadeira Julia mandou ele passar bronzeador na parte da frente. - Ent�o, seus amigos n�o v�o dormir esta noite - falou provocante.
 
 
 
- E nem eu - respondeu o jovem.
 
 
 
Julia bateu no bra�o dele. - Matheus, vou contar para a Mari - disse fingindo-se ofendida.
 
 
 
- Julia, sou homem, e voc� � uma gata. A Isa � quem tem sorte de estar te pegando.
 
 
 
- Eu que tenho sorte - respondeu retirando o protetor da m�o dele. - Hei meninos, o Matheus n�o � de nada... - brincou e sorriu para o amigo.
 
 
 
Um deles respondeu: - Ele nunca foi de nada mesmo...
 
 
 
- � n�? - falou olhando para os primos. - Sempre fui fiel a Isa, e agora a Mari. Respeito �s mulheres que eu amo.
 
 
 
Os primos riram. - Voc� sempre foi um bob�o mesmo - falou o primo mais velho. - Vamos nadar um pouco? - convidou os outros que estavam a seu lado, deixando Matheus em companhia de Julia.
 
 
 
- Matheus, como � a m�e da Isa? Ela j� pegou bronca de mim. Voc� acha que aceitaria a minha rela��o com a filha dela?
 
 
 
- Ela � uma mulher muito boa, mas se pisar na bola, com certeza, sempre ter� um p� atr�s contigo. Mas isso � o que eu penso, pode ser que ela tenha outra atitude.
 
 
 
- De madrugada, conversei com ela, e pude sentir que vai ser dif�cil - disse olhando para a areia, segurando um pouco e deixando escorrer por entre os dedos. Olhou novamente para Matheus.
 
 
 
- Relaxa, depois do meu casamento ela vai embora e voc�s n�o s�o obrigadas a contar. A Isa n�o est� gr�vida, nem nada.
 
 
 
- Seu bobo - riu gostoso. - Sabe que eu gosto muito de voc�, Matheus.
 
 
 
- Mesmo eu sendo bobo? - retribuiu o sorriso. - Tamb�m gosto de voc�, J�lia. Se eu tivesse uma irm� mais velha gostaria que fosse assim como voc� - falou jogando-lhe areia, se levantando apressado e correndo para o Mar.
 
 
 
Julia correu atr�s dele, mas n�o conseguiu alcan��-lo.
 
 
 
- Acho que estou ficando velha mesmo - disse para si mesma no momento em que desistiu da persegui��o. Olhou para o rel�gio e se lembrou que ia levar Tamy na casa de Vanessa. Recordou tamb�m, que sua amiga estava louca da vida com ela. Recolheu suas coisas, deu um forte assovio entre os dedos, que chamou a aten��o de muitas pessoas, mas seu alvo era Matheus, que atendeu ao chamado, e ela deu um tchau com a m�o para ele e os primos, que retribu�ram mandando beijos. Apenas sorriu em resposta, e foi embora.
 
 
 
 
 
Isa acordou �s dez da manh�, e n�o viu ningu�m no quarto. Procurou com os olhos para ver se encontrava seu celular e o viu em cima da mesa do seu computador. Levantou ainda sonolenta, queria ligar para Julia e dar bom dia, mas n�o a encontrou em casa, nem no celular. Desistiu, depois falaria com ela.
 
 
 
� tarde, iria trabalhar. Tinha que aplicar uma prova para seus pequenos alunos. Adriana lhe dera dois dias de folga por causa do casamento de Mari, mas da escola p�blica n�o teve como escapar, j� tinha faltado no dia anterior.
 
 
 
Acordou com um sorriso nos l�bios dando bom dia a todos que encontrava pelo caminho at� o banheiro, nem se importou de esperar para us�-lo.
 
 
 
- Isa preciso de contar uma coisa - disse Mari. - Mas agora tenho que sair, o Matheus sabe que temos mil coisas para fazer e foi levar os primos na praia... - Isa sentiu um certo desapontamento na voz de sua amiga em rela��o ao seu futuro marido.
 
 
 
-  Mari, n�o pode me adiantar o assunto? - perguntou Isa olhando para os olhos da amiga, tentando perceber se o assunto era s�rio ou n�o. Os olhos de Mariana estavam enigm�ticos naquela manh�.
 
 
 
- Agora tenho que ir mesmo - falou Mari com pesar na voz. - Depois conversamos - deu um beijo na cabe�a da amiga e saiu apressada, pois sua m�e e suas primas j� lhe esperavam na porta.
 
 
 
Isa ficou pensativa sobre o que seria. Procurou por sua m�e e sua irm� com os olhos, mas o seu campo de vis�o s� lhe permitia ver parte da sala. Estava com o celular na m�o, quando o sentiu vibrando. O visor indicou que era Julia, e apressada buscou a privacidade do seu quarto para atender.
 
 
 
- Oi, Julia.
 
 
 
- Bom dia, meu amor.
 
 
 
- Eu te liguei. Onde estava?
 
 
 
- Tem certeza que quer saber? Eu estava na praia com uns caras lindos. Estavam doidos por mim. At� deixei um deles passar protetor em minhas costas.
 
 
 
- J� n�o chega essa mulherada que anda atr�s de voc�, agora terei que me preocupar com homens tamb�m? - disse Isa demonstrando ci�me em sua voz, que Julia notou de imediato.
 
 
 
- N�o precisa ficar com ci�mes dos homens, s� das mulheres - brincou, sabia que isso provocava mais ci�mes em sua amada. - O cara que deixei passar o protetor � o Matheus. O encontrei na praia com os primos, e esses sim, ficaram olhando para meu biqu�ni... mod�stia � parte, eu estava com um que fez parar a praia, sabia - divertia-se com a provoca��o.
 
 
 
- Julia eu sei que eles n�o estavam olhando biqu�ni nenhum, para por favor - disse brava, sentindo o ci�me se agigantar dentro de si.
 
 
 
- Meu amor, voc� sabe que eu sou sua. Desculpa, quando faz essa voz de bravinha me deixa louca. Dormiu bem?
 
 
 
- Dormi, e sonhei com voc�.
 
 
 
- Espero que tenha sido um sonho prazeroso - disse enquanto escolhia uma roupa.
 
 
 
- Julia! - exclamou Isa, sentindo o rosto corar. - Foi um sonho normal. Est�vamos passeando pela praia e voc� me deu uma folha e disse que era minha. Quando ia ler acabei acordando.
 
 
 
Julia sentiu seu cora��o disparar. Ser� que Isa estava tendo um sonho com a poesia escrita por ela, e que julgava perdida? Ainda n�o tinha pensado no momento adequado para a entregar. "Posso fazer que o sonho dela se torne realidade", pensou.
 
 
 
- Julia, porque ficou calada?
 
 
 
- N�o � nada demais, apenas me lembrei de uma coisa que tenho que fazer e n�o tinha pensado em como fazer. Meu amor, quer ir na casa da Vanessa comigo? Vou levar a Tamy para rever a amiga. Assim, voc� aproveita e conhece o Vitor, e posso te ver um pouco. Estou morrendo de saudade.
 
 
 
- Julia, n�o vai dar. Tenho que trabalhar. Estou ansiosa para conhecer seu sobrinho, mas hoje n�o ser� poss�vel. J� faltei ontem na escola para ajudar a Mari, mas hoje n�o posso.
 
 
 
- Tudo bem. Ontem quando cheguei eu te liguei, mas voc� estava no banho. Conversei com sua m�e. Ela disse: "voc� estava com a Isabel at� agora, o que ainda quer com ela?", foi algo assim. Sua m�e est� me odiando, e talvez at� sinta que, entre n�s, n�o exista apenas uma simples amizade. As m�es pressentem sabia.
 
 
 
- Quando eu entrei, a encontrei me esperando. Eu disse que estava tudo bem, que voc� � minha amiga e que precis�vamos conversar e nos entender.
 
 
 
- Sua m�e disse pra mim que eu n�o sou companhia pra ti. Que voc� esta muito mudada, e acha que tenho algo a ver com isso.
 
 
 
- Ju, n�o liga para minha m�e.
 
 
 
- Vou tentar. S� n�o quero que voc� sofra. Sabe que assumir um relacionamento como o nosso � dif�cil.
 
 
 
- Julia, estou muito feliz, n�o quero me preocupar com estas coisas por enquanto, e tecnicamente, voc� ainda n�o � minha namorada - brincou.
 
 
 
- � verdade. Preciso ir amor, depois conversamos. E prepara um pedido bem especial porque n�o sou mulher de aceitar qualquer coisa.
 
 
 
- Vou pensar no seu caso sua boba - quando ia prosseguir com a conversa sua irm� entrou no quarto. - Depois conversamos, beijo.
 
 
 
- Acordou dorminhoca - disse Bianca indo at� sua irm� e lhe dando um beijo na bochecha. - Est� falando com aquela sua amiga, como se chama mesmo: Julia. Andou sonhando com ela.
 
 
 
Isa fez cara de quem n�o est� entendendo. Tinha esse pequeno problema, falar enquanto dormia. Isso lhe trazia problemas e sua irm�, sabia muito bem como usar o que ouvia contra ela. - Eu n�o lembro se sonhei - disse desviando o olhar de sua irm� para o rel�gio de parede que marcava dez e quarenta e cinco. - Bi, preciso tomar banho, depois conversamos ta bem. Tenho que trabalhar.
 
 
 
- Isa, ser� que podemos sair s� nos duas para passearmos, antes de eu ir embora? Que acha? Faz tanto tempo que n�o ficamos juntas.
 
 
 
- Vamos ver, Bi. Com o casamento da Mari est� tudo t�o corrido, mas se der sa�mos sim.
 
 
 
Bianca sentiu raiva de Isa neste momento. Queria ficar um pouco com a irm�, mas sentiu que ela n�o estava a fim. Naquele momento n�o queria nada, apenas a companhia de sua irm� mais velha. �s vezes nos tornamos ruins por pequenas coisas.
 
 
"Depois as pessoas reclamam", pensou Bianca.
 
 
 
 Parte 50

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