Palavras ao Vento

Fernanda

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Cap�tulo 48

 

- Nossa! Se continuar me beijando desse jeito, vou acabar me apaixonando - brincou Julia. - E espero que n�o saia correndo, como fez da �ltima vez.

 

- N�o tenho mais por que correr. Quero mais � que me prenda em seus bra�os, caso eu pense em fugir - Isa confessou sincera, segurando o rosto de J�lia entre as m�os. - N�o faz id�ia do quanto estava com raiva de voc�, mas n�o consigo ficar assim por muito tempo. Quando estou longe at� resisto, mas pertinho assim, n�o d� - sussurrou as ultimas palavras, enquanto seus l�bios buscavam saciedade, em mais um beijo cheio de desejo.

 

Sentiu as m�os de Julia deslizarem em suas costas, em um aviso silencioso de que queria avan�ar, mas sem um sinal positivo, n�o o faria. Apesar da excita��o que a dominou, precisava se conter, pois n�o queria que sua primeira vez fosse dentro de um carro.

 

- Ju � melhor pararmos. Sei que voc� est� me querendo, mas tenho que ir embora. J� est� tarde.

 

Julia a fitou com a paix�o e o desejo, escancarados em seus olhos. - Sempre convencida! N�o to te querendo nada. Vem c� - e trouxe Isa para si novamente, dando-lhe outro beijo. As l�nguas se tocavam com irrefre�vel �nsia. Queriam extirpar a saudade e todo aquele tes�o guardado h� tempos.

 

- Isa, porque n�o para de me beijar, j� que sou eu quem estou te querendo? Daqui a pouco n�o ag�ento, e n�o poder� se queixar que n�o avisei - arreliou.

 

Isa se afastou e abriu a janela. Precisava respirar outro ar que n�o fosse o de Julia. Mais um beijo daqueles e se entregaria ali mesmo. Recordou do que Mari havia dito: "quando voc� se apaixona, sente um fogo te consumir por inteira, e quer fazer amor s� de olhar para a pessoa. N�o vou ag�entar muito tempo"

 

Foi como uma tr�gua na ebuli��o interior em que estava imersa, o sentir o vento tocando sua face. Os pingos cristalinos, molhando seu rosto, denunciaram que a chuva n�o tardaria. Pelo menos, amenizaria o fogo que o consumia, assim como o restante de seu corpo. Permaneceu no carro, com receio de sair flutuando, pois se sentia esplendidamente leve.

 

 

Julia sentia-se uma labareda humana. Abriu a porta do carro e saiu. Precisava com urg�ncia refrescar-se. Sua vontade era correr para o mar, mas a chuva conseguiu amenizar a situa��o, pelo menos at� o momento em que seus olhares se cruzassem.

 

Estava t�o feliz por ter se acertado com Isa, e por saber que seu irm�o havia deixado um filho. A culpa por n�o ter sido capaz de salvar Lucas, que carregou durante anos, desapareceu no momento em que Tamy lhe apresentou Vitor. Foi o melhor presente que seu amado irm�o poderia ter lhe dado.

 

 

- Julia, entra no carro. Chega de tomar chuva - disse Isa, segurando em sua m�o. Foi atendida prontamente.

 

- Quero te contar uma coisa - disse Julia olhando para Isa. - Quando estava voltando da clinica, chateada contigo por ter ido embora, encontrei uma pessoa no caminho para casa. Algu�m que eu n�o via h� muitos anos. E n�o precisava ficar com ci�mes, pois ela era a noiva do Lucas. Ap�s a morte dele, foi morar no Jap�o com os av�s, e l� descobriu que estava gr�vida.

Hoje, conheci o filho do meu irm�o, que minha fam�lia e eu n�o sab�amos que existia. Tamy o escondeu de todos, por causa de minha m�e. Ela dizia que aquela oportunista, n�o passava de uma vigaristazinha japonesa, que queria a grana da fam�lia e, para n�o ouvir mais esses desaforos, decidiu criar o menino, sozinha. Ele se chama Vitor, � lindo e, voltaram para o Brasil, por causa dele, pois queria conhecer a tia.

Quando o peguei no colo e abracei, foi como se estivesse abra�ando o Lucas. E aquela sensa��o de culpa que oprimia meu peito, desde a morte dele, alimentada ainda mais pela  minha m�e, acabou. Ela sempre que pode, joga na minha cara que, se eu n�o vivesse envolvida com o surf, ele n�o teria se envolvido tamb�m. Resumindo, a culpa � minha - Julia ficou triste por alguns instantes, e foi confortada por Isa, que segurou sua m�o.

 

- Voc� fez o que podia, e tenho certeza que n�o foi culpa sua, mas sim que a hora dele tinha chegado.

 

- Ser� que tinha mesmo? - se questionou Julia. - Porque o vejo ainda? Ser� que estou prendendo-o, e por isso n�o pode ir embora? Quando estou com problemas s�rios, ele sempre aparece para me ajudar. E olha que me meto em cada encrenca.

 

- Eu n�o sei te responder, mas se eu morrer pode ter certeza que vou ficar te esperando. Vou estar sempre com voc� porque te amo, e morrerei de ci�mes ao ver voc� se entregando a outra pessoa. Mas quando chegar a sua hora, virei te  buscar, a fim de ficarmos juntas para sempre.

 

- Isa n�o fale em morrer - olhou para ela e pegou em sua m�o. - Vou antes de voc�, porque n�o suportarei ficar neste mundo sem ti. Esses meses sem te ver, me senti uma morta-viva. A sua aus�ncia doeu demais em mim. No consult�rio entre uma consulta e outra, �s vezes me via chorando de saudade. Sou uma mulher vivida, passei muito tempo vivendo amores vazios. Fiquei com tantas mulheres, mas nenhuma tocou meu cora��o como voc�. Nunca desejei pertencer a nenhuma delas. Contigo, tudo � diferente, pois tenho necessidade de ser s� sua. Jamais disse algo bonito para as pessoas que gostavam de mim, ao contr�rio, oferecia a frieza dos meus sentimentos e a��es. N�o me deixe ficar fria contigo, nem parar de dizer que te amo, porque n�o quero ver seus olhos se encherem de tristeza e decep��o, sei o quanto voc� � importante pra mim e n�o merece ser tratada com  indiferen�a, mesmo que eu esteja cheia de problemas.

A senhorita tomou conta do meu cora��o de um modo t�o intenso, que chego a ter medo de tanto amor que sinto. Voc� talvez n�o saiba o quanto te quero, mas fico feliz s� em poder ficar te olhando.

O amor verdadeiro acontece uma �nica vez, e as pessoas fazem de tudo para afast�-lo, como eu fiz. Mas voc� n�o desistiu de mim, mesmo te machucando, te chateando, se fez presente em v�rios momentos, hora afastada, outras brigando.

Compreendo que �s vezes � dif�cil de me entender. Tive um passado bem movimentado, e ele acabou deixando margem para que n�o confie em mim totalmente - admitiu sincera. - N�o posso mudar o que j� fiz na vida, o presente � o que importa, e quem eu serei de agora em diante. Essa sim, � em quem voc� tem que confiar.

 

- Julia, sabia que voc� fala demais - disse puxando-a para um longo e carinhoso beijo. Quando o beijo terminou. Isa olhou para Julia e disse categ�rica: Sim.

 

Julia a olhou, sem entender.

 

- Esse sim, quer dizer que vai me deixar te levar para minha casa? - sorriu animada.

 

- Voc� s� pensa nisso, sua boba.

 

- Eu tinha que tentar. Se n�o � isso, o que �?

 

- Se lembra que voc� me fez um pedido h� tr�s meses atr�s? Fiquei de responder depois que terminasse com Matheus. Ent�o, eu terminei com ele.

 

- Lembro do pedido, s� que agora n�o vale mais.

 

Isa a olhou confusa. - N�o? Porque?

 

- Porque agora, � a sua vez de pedir. Sabia que nunca me pediram em namoro?

 

- Julia, nunca pedi ningu�m em namoro. Estou nervosa. Tem que ser agora?

 

- Tem. Estou esperando a tr�s meses, mesmo puta da vida contigo.

 

Isa pigarreou. Quando ia fazer o pedido seu celular tocou. - Al�.

 

- Isabel Cristina, onde voc� se meteu? J� � tarde. Estou preocupada pelo jeito que saiu daqui com aquela mulher - Marta estava mesmo brava com Isa.

 

- Estou bem m�e. J� estou indo pra casa. Desculpe ficamos conversando e esquecemos da hora. Ta bom m�e, eu sei. N�o sou de ficar a noite toda na rua.

 

Pelo teor da conversa, J�lia imaginou que Marta estaria furiosa. Ligou o carro e partiram para casa de Isa. A chuva tinha parado. Foi pensando que tinha come�ado com o p� o esquerdo com sua futura sogra. Come�ou a se martirizar.

"Vai achar que eu agrido sua filha. Ai J�lia, porque tinha que pegar no bra�o dela daquela maneira? Ainda mais na frente de sua m�e... Ela, com certeza, n�o vai aceitar nossa rela��o e pra completar, tem esse agravante. As m�es se prendem a qualquer detalhe pra dizer que a pessoa n�o presta, sem contar com o preconceito, afinal s�o do interior e n�o est�o acostumados com essas coisas"

 

 

Isa desligou o celular e ficou olhando para Julia, que estava com o semblante preocupado.

"Ser� que ficou chateada por eu ter que ir embora, ou por n�o ter feito o pedido? N�o esperava por isso, fui pega de surpresa"

 

- Julia, tudo bem? Est� arrependida de n�o ter aceitado o meu sim? - tentou ser divertida, na tentativa de quebrar o gelo, pois a m�dica tinha ficado calada.

 

Julia limitou-se a dar um leve sorriso para ela, e voltou sua aten��o para frente. Quando parou no farol respondeu: - Ainda n�o me arrependi. Voc� tem at� hoje � noite pra me fazer o pedido, sen�o vou ficar com todas na despedida de solteira da Mari - provocou.

 

- Eu sei que voc� � bem capaz. Voc� � quem sabe, porque farei o mesmo.

 

- Isso � uma amea�a? - indagou Julia desconfiada.

 

- Entenda como quiser. Farei o pedido s� no s�bado. Quero ver se vai mesmo ficar com todas amanh� � noite! Vou ficar de olho na senhorita, e se der uma olhadinha ou trela, para algumas daquelas mulheres que voc� conhece, j� sabe, vou beijar a primeira que passar na minha frente.

 

- Voc� n�o tem coragem - respondeu tentando se convencer de que ela estava apenas brincando.

 

- Ent�o n�o me provoque. Sou capaz de muito mais se quer saber.

 

- Mais? Ent�o n�o te provocarei.

 

- � bom mesmo.

 

- Chegamos. Quer que eu entre com voc�?

 

- N�o. Minha m�e est� muito brava.

 

-Eu queria pedir desculpa pela minha falta de jeito, pela cena que eu fiz. Tamb�m, voc� me enlouquece.

 

- Eu sei - disse Isa colocando a m�o no rosto de J�lia, que naturalmente, inclinou a cabe�a para o lado ao sentir a m�o suave e quente em seu rosto. Vou ter que entrar - se aproximou de sua amada, lhe deu um selinho e se afastou.

 

- S� vou ganhar isso? Vou ficar sem te ver at� a noite, e s� vai me dar um selinho?

 

- �. S� vai ganhar um selinho, para ficar com saudade de meus beijos e n�o ter chance de pensar em outras. S� em mim e nessa boquinha linda - mostrou seus l�bios.

 

- Isa, voc� � m�. To vendo que vou sofrer em sua m�o, se eu aceitar seu pedido. Vou te deixar entrar. At� a noite.

 

- � verdade. Minha vontade era estar bem longe dessa confus�o. S� de pensar em entrar com aquele bando de gente dormindo pela casa, fico nervosa. Eu nem sei onde vou dormir.

 

- Eu tenho um  apartamento enorme, e poderia arrumar um cantinho para voc� dormir. Juro que n�o vou me aproveitar de voc�.

 

- N�o Julia! Vou ficar aqui mesmo. Posso fingir que sou son�mbula, e quando voc� acordar vou estar em sua cama - sorriu contente. - N�o vai prestar.

 

- Falando s�rio, se quiser pode ir l� pra casa. Sabe que vou te respeitar.

 

- Eu sei. Estou brincando. Deixa-me ir. Me liga quando chegar.

 

- Boa noite. Pe�a desculpa � sua m�e por mim.

 

- Pode deixar. Eu n�o queria entrar. Queria ficar com voc� - voltou para o carro, e a beijou.

 

- Se me der mais um beijo desse, juro que ligo esse carro e te levo para casa. Entra Isa...

 

Isa saiu do carro e Julia partiu. Ficou esperando-a virar a esquina. Respirou fundo e entrou. Sabia que assim que pusesse os p�s em casa, ia ouvir uma ladainha, mas estava feliz demais para se importar com o que sua m�e fosse dizer.

 

Encontrou sua m�e sentada em uma cadeira, enquanto algumas pessoas dormiam em colchonetes espalhados no ch�o.

 

- Oi, m�ezinha cumprimentou-a com um beijo no rosto, mas a express�o contrariada de sua m�e, n�o deixou margem para d�vida.

 

- Isabel, como voc� sai com uma mulher que quase te bateu?

 

- M�e esta tudo bem. Ela � minha amiga. S� precis�vamos conversar e nos entender. J�lia � um doce de pessoa, n�o � bruta como pareceu. Pediu inclusive, para me desculpar com a senhora. M�e eu estou cansada e preciso tomar um banho - foi para  o seu quarto e encontrou sua irm� dormindo em um colch�o no ch�o. Ao seu lado tinha um vazio, que deveria ser para ela. Logo em seguida sua m�e entrou no quarto.

 

- Isa, vou dormir em sua cama, e voc� dorme ao lado de sua irm�.

 

Mari tamb�m estava no quarto, mas fingiu que dormia. Viu quando a amiga foi para o banheiro tomar banho.

 

 

Julia chegou em casa em dez minutos. Mal entrou e j� estava ligando para Isa.

 

- Al�. Quem �? - disse a m�e de Isa ao atender o celular.

 

Julia do outro lado, n�o sabia se falava ou desligava. N�o esperava que Marta atendesse. Pensou por um segundo e respondeu.

 

- Boa noite, dona Marta. Sou a Julia. Queria falar com a Isa.

 

- A Isa est� no banho. Voc� n�o acabou de traz�-la? Est� ligando porque? N�o conversaram tudo o que tinham que conversar? - respondeu secamente Marta.

 

- Dona Marta, sei que esta brava comigo pelo modo que me comportei com sua filha. Eu estava nervosa e me alterei, mas isso n�o vai mais acontecer, me desculpe. Sua filha � muito especial para mim, para machuc�-la fisicamente. Eu passei por uma situa��o dif�cil durante a noite, e n�o estava em meu ju�zo perfeito.

 

- Desculpe Julia, a primeira impress�o que tive ao te conhecer foi boa, mas depois do que eu vi, isso mudou. N�o vou ser hip�crita e dizer que est� tudo bem. N�o lhe conhe�o. Pode ser uma pessoa diferente, mas a partir do ocorrido, acho que sua amizade com minha filha n�o � boa para ela. Est� muito mudada.

 

- A senhora acha que eu tenho alguma coisa a haver com isso?

 

- Talvez. Respondeu Marta. - Olha, eu digo que voc� ligou. Boa noite.

 

Mari ouviu a conversa. Cinco minutos depois Isa saiu do banho e sua m�e n�o disse que Julia havia ligado. Como estava cansada, deitou no colch�o e logo dormiu.

 

Pela conversa, assim que desligou o telefone, ficou pensando que as coisas n�o seriam f�ceis. A sogra n�o aceitaria sua rela��o com Isa, apesar dela estar longe da casa de seus pais. N�o sabia como ela reagiria com o fato de seus pais n�o entenderem que gostava de mulher, e dela que j� tinha come�ado com o p� esquerdo. Fixa nesses pensamentos, demorou a dormir.

 

 

Parte 49

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