Palavras ao Vento Fernanda |
Capítulo 47
Julia correu atrás de Isa e segurou em seu braço. - Se me deixar sozinha novamente, pode ter certeza que eu nunca mais volto a te procurar.
As pessoas ficaram olhando para elas no meio da sala, inclusive a mãe de Isa, que não entendeu porque aquela mulher segurava o braço de sua filha com uma certa força.
- Não te conheço, mas quero que largue o braço de minha filha. Achei que você fosse uma amiga dela, mas parece que veio para arrumar confusão - disse Marta, lançando um olhar nada amistoso para Julia, que retirou sua mão imediatamente.
- Desculpa senhora - disse Julia envergonhada por sua atitude. - Eu não vim para brigar com a Isabel.
- Mãe está tudo bem, vou conversar com ela - segurou a mão de Julia e a levou para fora da casa. - Você tinha que chamar a atenção de tudo mundo? - estava muito irritada com Julia. - O qque veio fazer aqui? Não ia dormir a noite toda? Bom, pelo menos foi isso que mandou a Vanessa dizer para a idiota aqui... Caramba! Em todo lugar tem gente. Ainda bem que me livrei dessa família - exclamou Isa.
- Vamos conversar em outro lugar? - sabia que seria uma conversa dif&iacutte;cil ou se acertavam de uma vez ou acabaria tudo o que nunca chegou a ser.
- Vamos - caminhou em direção ao carro de Julia.
- Tchau Gata - disse o rapaz que falou com ela, quando chegou.
Isa deu uma olhada fulminante para o primo de Matheus, e se tivesse capacidade para matar o cara estava mortinho. Ele ficou até sem graça.
- Tchau! - respondeu Julia, só para irritar ainda mais Isa.
- Não quer dar tchau também para o resto das pessoas? - Isa estava transtornada. A mágoa que sentia se transformou numa raiva sem tamanho.
- Não. Só para ele que é educado. Que não me deixa falando sozinha.
Isa abriu a porta do carro e entrou. Julia ainda ficou de papo com o rapaz.
- Julia, se você demorar mais um minuto eu vou sair desse carro - gritou Isabel.
Julia entrou. Ligou o carro e saiu cantando os pneus. Ambas estavam furiosas, cada qual com seus motivos.
- Julia o que você quer comigo? - perguntou Isa.
- Eu fui te procurar e você me virou as costas. Eu queria te contar uma coisa importante que aconteceu algumas horas atrás comigo.
- Você já pensou porque eu fiz aquilo? Claro que não. - disse Isa furiosa.
Julia parou o carro e encarou Isa. Queria ouvir o que tinha feito desta vez. - Dá pra olhar pra mim, pelo menos, e explicar o que eu fiz afinal de contas?
Isa olhou para Julia, deixando nítida toda tristeza que estava sentindo. - Porque mandou a Vanessa mentir pra mim, se estava bem? Sei que é sua melhor amiga, e mesmo ouvindo sobre seu estado, eu precisava me certificar se era verdade, se estava realmente bem. Esperava te encontrar deitada e dormindo, mas não, você estava rindo com seus colegas, em um dos quartos. Isso me magoou tanto, que não tem idéia!
Vanessa insistiu para que fossemos embora, mas eu não iria, ao contrário, ficaria ali até você acordar. Mas depois do que vi, não havia motivos para eu ficar.
Tive tanto medo de te perder naquele elevador, e horas depois encontro você brincando com o que aconteceu - a raiva e a decepção deram lugar às lágrimas que escorreram pelo rosto de Isa. - Você não se importa comigo. A sua única preocupação é se eu dormi com alguém. Não sou como você, que usa as mulheres como papel descartável. Só anda atrás de mim, porque eu não dormi contigo. Certamente, se eu fosse uma dessas mulheres que está acostumada a ficar, talvez tivesse mais consideração, mas é claro que não tem, é egoísta demais pra sentir que aqueles momentos foram angustiantes pra mim. Ter você em meus braços, tão frágil, e ainda dizendo que estava vendo seu irmão morto, foi desesperador. Era mais decente pedir que Vanessa dissesse que não queria me ver, já que antes de se sentir mal, estava odiando ficar ao meu lado.
Julia colocou a ponta de seus dedos nos lábios de Isa para não dizer mais nada. Ouvindo tudo aquilo, sentiu-se envergonhada por sua atitude. Em seu maldito teste, a reprovada foi ela mesma. Enganou-se a si própria, pois a verdade era outra, que não conseguia admitir para si mesma. Conhecendo Isabel, sabia que ela não deixaria sem um motivo que a machucasse, e mais uma vez lhe deu.
Mantinha os dedos nos lábios de Isa, mas não conseguiu manter o olhar no dela. Virou a cabeça para o lado e fechou os olhos, tentando pensar no que dizer, que não fosse piorar ainda mais as coisas, que ela mesma havia provocado.
- Isabel, sou uma completa imbecil, e nem sei por que faço isso. Perdoa-me, por favor! Eu estava envergonhada por ter falado tudo aquilo, e mesmo assim você me ajudou, ficou do meu lado. Quando melhorei, pensei que não seria capaz de olhar em seus olhos, sem me sentir mal.
- Olha para mim Julia - pediu Isa.
Julia a olhou com os olhos lacrimosos.
- Nunca mais faça isso comigo, entendeu! Me machucou. Sei que já aprontei contigo, e mereci todas as palavras duras que já me disse. Só não quero que nada disso se repita, porque eu juro que nunca mais te olho na cara.
- Você está me perdoando? - perguntou Julia tocando o rosto de Isaa com intensa suavidade. Uma lágrima furtiva perdeu-se em seu rosto, e foi capturada pelos dedos macios de Isa que a secou, e depositou um beijo no rosto de Julia.
Julia fechou os olhos enquanto sentia os lábios de Isa tocando seu rosto. O coração parecia um tambor de escola de samba. Não podia e nem queria correr o risco de perder Isa. Amava-a verdadeiramente, tanto que sem ela por perto, seu mundo era completamente vazio.
Isa não conseguia acreditar que tocava Julia novamente. Desejou tanto viver esse momento, que mesmo em seus momentos de raiva, só pensava em ficar nos braços dela. Os meses sem vê-la foram os piores de sua vida. A incerteza se ela voltaria, e se voltasse poderia estar com outra, ou que pudesse tê-la esquecido. E nesse instante, vê-la entregue a um simples carinho seu, a fez sussurrar no ouvido de Julia: - Eu te amo! Não posso mais viver sem o seu amor. Eu quero você pra sempre!
Julia afastou-se um pouco de Isa para pegar sua mão e beijá-la. Erguendo a cabeça, passou a outra mão nos cabelos de Isa que estavam lindos, olhou nos olhos verdes de sua amada que brilhavam para ela. - Quando te vi pela primeira vez, eu soube que você teria o meu amor para sempre. Não imagina como fiquei mal esses meses sem te ver. Quantas vezes, peguei o celular pra te ligar, mas meu orgulho não me permitiu. Não consegui ficar com mais ninguém e te odiei por isso, por não conseguir me entregar a ninguém. Não sabia que você tinha tanto poder sobre mim. Quando olhava para alguém, eram seus olhos que eu queria ver.
- Inúmeras vezes por dia, eu olhava o celular, na esperança que tivesse me mandado um torpedo, e ficava triste achando que você tinha esquecido de mim. A única coisa que me deixava melhor era meus sonhos, onde eu podia estar contigo. E a melhor parte, era que nunca brigávamos - disse Isa olhando para Julia que lhe sorria. - Seu sorriso me faz tão bem! Não quero mais ficar brigando com você.
- Por acaso, acha que eu quero, Isa? Eu sentia seu perfume em todas as pessoas que passavam por mim, e olhava para ver se uma delas era você, mas não era - Julia aproximou-se do pescoço de Isa para sentir o perfume que sempre a acompanhou.
Olharam-se demoradamente. O sorriso que exibiam, aos poucos, foi desaparecendo, cedendo lugar ao silêncio que lhes permitia apenas sentir o pulsar de seus corações, batendo a cada segundo mais acelerado.
Isa não pode e nem queria mais se controlar. Tocou os lábios de Julia com tanto amor, e foi correspondida na mesma proporção.
O beijo aprofundou-se, tornando-se longo e intenso. Tantas brigas e desencontros não foram suficientes para mudar os sentimentos que como imã, atraia-nas uma para a outra. As mágoas e ressentimentos que sentiram ao longo desses meses, desapareceram no mesmo instante em que seus lábios se tocaram. Não havia mais duvidas de que se queriam verdadeiramente.