Palavras ao Vento

Fernanda

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Capítulo 46

 

 Após a emoção em conhecer o sobrinho, cuja existência lhe era desconhecida, quis saber porque Tamy não falou nada sobre ele.

A jovem mãe esperava por tal questionamento, e observou atentamente o carinho com que o filho foi colocado no chão.

Júlia sentiu aquele olhar sobre si, e antes de insistir na resposta a seu questionamento, abraçou mais uma vez Tamy.

- Tamy, preciso saber porque escondeu Vitor de nós.

- Júlia, sabe que sua mãe nunca gostou de mim. Todas as vezes que nos encontrávamos me jogava na cara que eu estava com o filho dela por interesse. Você sabe o quanto eu amava seu irmão! Briguei muitas vezes com minha família porque queriam que eu me casasse com um oriental, que em nossa família não tinha mistura de raças. Mas depois de conhecerem o Lucas, concluíram que ele era um cara legal e gostava mesmo de mim. Só soube que estava grávida no Japão, e optei por não dizer nada, pois não queria ouvir de sua mãe que, de qualquer modo, eu meteria a mão na fortuna de sua família. Se eu falasse pra você fatalmente chegaria nos ouvidos dela.

Mas nos últimos meses tenho sonhado muito com o Lucas me pedindo pra trazer o Vitor para você conhecer. Meu filho sempre diz que conversa com o pai, não sei se é verdade, o fato é que na semana passada ele disse que queria conhecer a tia de verdade. Então achei que estava na hora de voltar.

Enquanto ouvia a explicação da amiga, Júlia mantinha os olhos fixos no menino que tomava, tranqüilamente uma água de coco a seu lado.

A admiração estava expressa no rosto dele, e apesar de não falar muito bem o português, interrompia a mãe fazendo perguntas em japonês, e recebendo, encantado, as explicações na mesma língua, sobre as praias e as pessoas.

Julia observou o carinho entre mãe e filho. Foi inevitável deixar de comparar a relação que teve com sua mãe, quando criança.

- Minha mãe não mudou nada, continua a egoísta de sempre, só pensando em dinheiro e status. Meu irmão mais velho se casou com uma mulher como ela, e se entendem muito bem. Vivem lá na Itália.

Mesmo sabendo de sua reserva em relação à minha família, não entendo porque não me falou sobre o Vitor. Você não confiou em mim. Sabe que não me dou com minha mãe. Pode ser que eu contasse para o Fabiano. Ele sim, acabaria contando para mamãe.

 

- Eu sei disso, por isso não contei nada, mas agora o Vitor já entende das coisas e acho que ele merece conviver com a família do pai. Se quiser contar para eles não vou te impedir.

 

- Depois eu penso nisso, mas agora estou muito feliz de você ter voltado com ele. Ainda moro no mesmo lugar. Sabe que não sou de ficar me mudando.

 

- E a Vanessa, como está? Senti tanta saudade de vocês! - perguntou Tamy pousando sua mão sobre a de Julia. As três sempre foram amigas. Vanessa sempre foi a mais responsável que as duas.

 

- Você se casou Tamy?

 

- Não. Namorei alguns japinhas, mas não deu certo. Meu amor sempre será do Lucas. Às vezes olho para Vitor e parece que vejo o Lucas. É a cara do pai, não acha?

Sabia que ele toca piano? Um dia, estávamos em um shopping no Japão e tinha um rapaz tocando, ele ficou olhando como se estivesse hipnotizado. De repente me disse que queria aprender a tocar. Lembro que quem tocava muito, era seu irmão.

 

- Se minha mãe não o tivesse atormentado tanto com a história do piano, teria sido um dos bons. Mas ela o fazia tocar horas a fio. Chegou a ter cinco professores uma vez. Ele acabou pegando ódio do piano e começou a viajar comigo nas competições do surf. Gostou e entrou nessa. Minha mãe quis morrer com a decisão dele. Isso a fez me odiar ainda mais. Havia o fato de gostar de mulheres, o que até hoje, dona Emanuelle não aceita. Ter me formado em medicina amenizou um pouco as coisas com ela. Raramente conversamos.

Sabia que às vezes o Lucas aparece pra mim? Por isso te digo, se o Vitor diz que conversa com o pai, pode acreditar.

 

 

Vitor já estava com sono e pediu para ir embora. 

 

- Julia está na nossa hora. Alguém aqui quer dormir. Disse Tamy passando a mão no rostinho do filho. - Queria ver a Vanessa. Poderia nos levar amanhã na casa dela?

 

As duas se despediram. Julia cobriu o sobrinho de beijos e abraços que o fez perder o sono. Entraram em seus carros e seguiram direções opostas.

 

Transbordando alegria, Julia até esqueceu que estava com raiva de Isa. Sem avaliar conseqüências, virou o carro no meio da avenida, sendo chamada de louca por alguns motoristas, mas teve que se calar, pois sua atitude, além de errada, foi pura imprudência.

 

Seu estado de espírito naquele instante não lhe permitia se preocupar com absolutamente nada.

Ligou para Vanessa, mas a amiga não quis atender. "Amanhã quando eu chegar com Tamy e o Vitor na casa dela, vai esquecer que está chateada comigo".

 

 

 

Isa ao chegar em casa encontrou entre os parentes de seus amigos sua mãe e sua irmã. Não acreditou quando viu sua mãe. Estava frágil e acabou chorando mais que o normal no colo de sua mãe, alegando que era saudade.

 

Sua irmã trouxe o namorado que era um chato. O conheceu no fim de janeiro quando foi passar alguns dias em casa e contar sobre o fim do noivado.

 

Não disse que estava apaixonada por uma mulher, apenas que não amava Matheus a ponto de se casar. Entenderam e aceitaram sua decisão.

 

 

- Isabel, como pode deixar o meu sobrinho? Viu só, sua amiga não perdeu tempo... - disse uma das tias de Matheus.

 

- Oi, dona Jurema, a senhora está bem?

 

- Estou. 

 

- Que bom - foi a resposta de Isa, que não estava com saco para aguentar mulheres chatas.

Aproveitando o momento, pediu licença e foi para o seu quarto.

 

A casa estava abarrotada de gente. Deu-se conta que não tinha paciência para essas convenções sociais. Não gostava de gente mexendo em suas coisas. Foi com desgosto que viu os primos de Matheus usando seu computador, e para coroar o momento, observou que a página aberta tratava-se de um site pornô.

 

Queria um pouco de paz, sossego. Em todo o lugar da casa tinha gente e presentes dos noivos espalhados. Até para ir ao banheiro tinha fila.

 

Se sua mãe não tivesse vindo, com certeza iria passar esses dias em um hotelzinho barato.

 

A solução era tentar se refugiar no quintal. Não se surpreendeu ao encontrar dona Fátima perdida lá fora.

 

- Minha filha, maldita hora que permiti que esse povo viesse para cá. Disseram que viriam umas quinze pessoas e, tem mais de trinta... sei que é minha família e do Matheus, mas tem gente que nunca vi. Sempre morei sozinha, até vocês chegarem. Ouvi dizerem que vão ficar até domingo. A comida que temos não vai dar, preciso ir ao supermercado.

 

O silencio de Isa chamou a atenção da preocupada senhora. - Que foi Isa? A Julia não está bem? A Mariana fez um verdadeiro escândalo ao saber que vocês estavam presas no elevador e que ela encontrava-se à beira da morte...

A ouvi falando ao telefone com os bombeiros, depois com aquela amiga da Julia, e pediu que fosse rapidamente para a casa dela, pois era quase certo que não sairia viva daquele elevador. Desligou, e no instante seguinte, a vi puxar Matheus pela mão e sair feito louca.

 

 

- D. Fátima, eu disse que a Julia estava mal, nada a ver com estar à beira da morte. A Mari que é exagerada! Confesso que fiquei com medo dela morrer quando começou a ver o irmão morto, mas ela está bem melhor do que nós... - nada mais foi acrescentado ao diálogo. - Vou com a senhora ao supermercado, senão, vou começar a cortar as mãos das crianças... acredita que elas estão mexendo até nas minhas calcinhas?!?

 

 

 - Isa você é professora de crianças, deveria dar um jeito nessas...

 

- Acho que tive sorte! Meus alunos são bem tranqüilos. Depois conto umas histórias para eles.

 

- Te desejo sorte minha filha!

 

O caminho até o supermercado foi tranqüilo, e ajudou a acalmar as duas mulheres.

 

- Dona Fátima, imagina quanto de luz e água não vamos pagar...

 

- Ai Isabel, nem me lembre disso - respondeu com tristeza na voz.

 

Isa a olhou compassiva. Sabia que ela era extremamente econômica, não gostava de desperdício, e dessa vez, teria que abrir a carteira como nunca abriu. Mas com certeza, quando tudo terminasse, cobraria de Mari. Não sairia no prejuízo... suas economias tinham destino certo, a realização do seu sonho de viajar pela Europa.

 

 

 

Julia estacionou o carro em frente da casa de Isa. Tinha pessoas sentadas na calçada conversando. Ao descer do carro notou os olhares dos rapazes para ela. Levantaram-se para falar com ela.

 

- Posso ajudar você? Está perdida? - perguntou um deles, enquanto os demaiis ficaram mudos diante daquela mulher, que nem em seus sonhos eram capazes de pegar.

 

- Sei muito bem onde estou - respondeu sem dar atenção ao cara, seguindo em direção à porta que estava aberta. Bateu antes de entrar, e foi atendida pela mãe de Isa. Julia a olhou admirada, pois era muito parecida com a filha.

 

- Posso ajudá-la? - disse a mãe de Isa.

 

- Eu estou procurando a Isabel. Ela está?

 

- Ela saiu. Não quer entrar e esperá-la? Sou a mãe dela. Chamo-me Marta.

 

- Eu me chamo Julia. Sou amiga dela - e estendeu a mão para cumprimentar a futura sogra. Se é que nos entenderemos algum dia. "Será que ela aceitaria nossa relação?" - pensou Julia. 

 

- Julia! O que está fazendo aqui? Não ia ficar no hospital até de manhã? - questionou Mari. Sabia que algo tinha acontecido no momento em que Isa foi ao banheiro.

 

Julia a olhou assustada, pois Mari não estava apenas perguntando, queria saber o que tinha feito para sua amiga. E ela própria não conseguia entender.

 

- Eu melhorei e vim agradecer a Isa por ter me ajudado.

 

Mari engoliu a resposta, porque não sabia a real das coisas. Sua melhor amiga tinha o grande defeito de esconder as coisas dela, mesmo enxergando a dor expressa em seus olhos. Ainda assim, ela não se abria.

 

- Já conheceu a mãe da Isa?

 

- Ela se apresentou. É uma pessoa muito simpática, além de ser super parecida com a Isabel. E por falar nela Mari, onde ela foi?

 

- Ela foi ao supermercado com a tia Fátima.

 

- Oi Julia! - disse Matheus vindo abraçá-la. - A Isa saiu. Não repare a confuusão, não sabia que veria tantas pessoas... - disse bem perto do ouvido de sua médica, em um sussurro.

 

- É que as pessoas gostam de vocês, por isso vieram. E você, está bem? - foi colocando a mão na testa dele para ver se não tinha febre. - Estou te achando mais magro. Você está fazendo o tratamento direito? Deixei você com uma das melhores onco da clínica, espero que tenha cuidado direito de ti. Daqui uns dias eu volto para o meu trabalho e para os meus pacientes. Quer continuar com a Dra. Cris ou quer voltar para a Dra. Julia? - perguntou cruzando os braços e fazendo cara de mal.

 

Matheus entrou na brincadeira fazendo cara de medo, mas não agüentou e deu risada. Julia mantinha a mesma posição. - Se a dra. Julia não deixar seuu paciente mais querido de novo, talvez ele aceite-a de novo.

 

- A Dra. Julia disse que não vai deixar seu paciente mais querido, nas mãos de outras médicas, afinal ela é muito ciumenta... - sorriu divertida, dando uma piscadinha para ele.

 

Matheus sorriu e segurou na mão dela. - Por você me deixar três mmeses nas mãos da Dra. Cris, ela bem que podia ser mais nova, não é? Tem idade para ser minha avó! Não queria que eu te trocasse quando voltasse... - fez cara de mal. - To ligado! Mas como castigo, vou te apresentar para esse povo todo... - a puxou com ele.

 

- MATHEUS, por favor! Não sou uma pessoa muito social. Você não pensou no fato dela ser uma médica experiente? Aprendi e aprendo muitas coisas com ela... - Julia tentava argumentar de todas as formas, mas ele fingia não ouvir e começou apresentá-la para pessoas que nem mesmo ele conhecia.

 

- Matheus, eu juro que eu te mato! A minha tortura seria menor se eu pudesse ser apresentada para as mulheres... e também pessoas que você conheça, não é! - disse Julia, enquanto esperava Matheus escolher seu próximo castigo.

 

- Engraçado, achei que você queria me curar, e esqueça as mulheres. Não quero encrenca com a Isa. Já me contaram da sua fama de conquistadora. - respondeu Matheus procurando outra pessoa. Encontrou Isa chegando do mercado e puxou Julia de novo. - Vamos mulher, vai ser o último. Prometo!

 

- Julia, quero que conheça a Isabel. Você queria conhecer uma mulher, e eu escolhi a melhor, só para você não me matar - ele sorriu. - Julia que timidez é essa? Estenda a mão para Isa. Até agora você estava dando a mão para todo mundo.

 

- O que está acontecendo aqui? Ficou louco Matheus? - perguntou Isa não entendendo nada.

 

- Matheus, agora eu te mato mesmo! - falou Julia vermelha de vergonha.

 

- Que meninas tímidas... - ele mesmo pegou a mão de cada uma e fez apertar. - Amigas, ou... de novo. Quero ser padrinho de casório. - deixou as duas com as mãos unidas no meio da cozinha e retirou-se. Julia não queria largar a mão de Isa nunca mais, mas Isa estava magoada e puxou sua mão. Olhou para Julia mais uma vez, virou as costas e deixou Julia ali, parada, sem dizer uma única palavra. 

 

 

 Continua...

Parte 47

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