Palavras ao Vento Fernanda |
Capítulo 45
- Vamos embora Carlos - disse Vanessa.
- Não vai querer ficar com a Julia?
- Não. Ela está ótima, e aqui tem muita gente para levá-la.
- Mulher, que aconteceu? - indagou Carlos segurando-a e fazendo com que o olhasse nos olhos.
- Julia me fez mentir para a Isabel. Você viu o estado dela quando chegamos no prédio. O medo de perder a Julia estava estampado em seu rosto. Pedi que fosse na ambulância por esse motivo, para poder ficar ao lado da Julia. Não sei o que aconteceu entre elas, se brigaram de novo. O que sei é que ela pisou na bola com a Isabel, e se conheço um pouco essa moça, ela já sabe disso e por isso saiu daquela forma daqui. Amor, vamos para casa, to cansada de acobertar as idiotices da Julia.
Carlos deu um abraço em sua mulher e saíram em seguida. Ouviram Julia chamá-los, mas Vanessa fingiu não ouvir.
Julia olhou à sua volta e se viu sozinha. Com certeza Vanessa tinha ouvido ela chamar, mas deveria estar muito brava por ter mentido para a Isa. Olhou mais uma vez na esperança de ver um rosto conhecido. "Podia ser que ela não tivesse ido embora. Se se importasse mesmo comigo teria ficado aqui e esperado eu acordar. Eu teria ficado, mesmo que alguém me dissesse que ela dormiria por uma semana. Não dá mesmo pra confiar em Isabel. Estava testando-a e mais uma vez foi reprovada".
- Isa o que foi? - perguntou Mari segurando em sua mão e tirando a atenção da amiga que olhava fixamente o nada pela janela do táxi.
- Nada Mari - forçou um meio sorriso para sua amiga. - Estou cansada. Aquelas horas trancada no elevador foram muito cansativas voltou a fixar o olhar pela janela. - A Julia disse um monte pra mim, depois começou a passar a mal e falou que me amava. E depois... "me magoou com sua mentira", pensou Isa. - Você sabe o que aconteceu - não quis contar, pois sabia qque a amiga acabaria brigando com ela, e estava triste demais para ouvir qualquer coisa, mesmo que fosse para o seu bem.
- Sei que não é só isso - disse Mariana. - Quando quiser conveersar, sabe que estou aqui para te ouvir, e sempre estarei.
Mari tinha muitas reservas quanto à Julia. Estava para falar umas boas para a médica, apesar de dever alguns favores para ela, e tinha consciência de que nunca poderia pagar. A gravação de seu cd tinha sido por intermédio dela, o tratamento de Matheus e a festa de seu casamento, enfim. "Mas se aprontar mais alguma com minha amiga, juro que me esqueço de tudo isso... Sempre defendi minha amiga, e isso não vai mudar, mesmo ela sendo uma mulher feita. Só que continua sendo aquela menina ingênua, com quem Julia faz o que quer, por saber que gosta dela".
O silêncio de Mari chamou a atenção de Matheus, que durante o trajeto foi conversando com o taxista. Olhou-a rapidamente, mas não disse nada, apenas respeitou o momento de sua noiva e da amiga. Ambas estavam mergulhadas em seus pensamentos.
Julia pegou um dos carros da clínica e foi embora. Estava puta da vida com Isabel. Tinha dito que não ficou com ninguém esse tempo todo, planejava até perdoá-la e esquecer tudo o que aconteceu.
"Só me disse que me amava porque estava com medo que eu morresse, não sei o que acontece com ela? Porque nunca diz que me ama? Porque não deve me amar mesmo, e sou uma boba que fico a todo o momento, que nos encontramos dizendo que a amo. Não perdeu tempo em me deixar sozinha. Significo tão pouco para ela, já que acreditou piamente em Vanessa.
Ligou o rádio do carro e estava tocando Digitais de Isabela Taviani
Eu tava aqui tentando não pensar no seu sorriso
Mas me peguei sonhando com sua voz ao pé do ouvido
E te liguei
Me encontro tão ferida, mas te vejo ai também em carne viva
Será que não tem jeito?
Esse amor ainda nem nasceu direito, pra morrer assim
Se você pudesse ter me ouvido um pouco mais
Se você tivesse tido calma pra esperar
Se você quisesse poderia reverter
Se você crescesse e então se desculpasse
Mas se você soubesse o quanto eu ainda te amo
É que eu não posso mais
Não vou voltar atrás
Raspe dos teus dedos minhas digitais
Eu não vou voltar atrás
Apague da cabeça o meu nome, telefone e endereço
Eu não vou, eu não vou voltar atrás
Arranque do teu peito o meu amor cheio de defeitos
Me mata essa vontade de querer tomar você num gole só
Me dói essa lembrança das suas mãos em minhas costas
Sob o sol da manhã
Você já me dizia: conheço bem as suas expressões
Você já me sorria ao final de todas as minhas canções
Então por que?
Se você pudesse ter me ouvido um pouco mais
Se você tivesse tido calma pra esperar
Se você quisesse poderia reverter
Se você crescesse e então se desculpasse
Mas se você soubesse o quanto eu ainda te amo
É que eu não posso mais
Não vou voltar atrás
Raspe dos teus dedos minhas digitais
Eu não vou voltar atrás
Apague da cabeça o meu nome, telefone e endereço
Eu não vou, não vou voltar atrás
Arranque do teu peito o meu amor cheio de defeitos
Cheio de defeitos...
Foi cantando junto com Isabela, e nem percebeu um carro ao lado do seu aguardando o sinal verde. A pessoa gritava seu nome de dentro do carro, fazia gestos, mas ela estava com o som no último e cantando. Não podia ouvir, só quando a pessoa colocou a mão na buzina e parecia não tirar mais ela ouviu e olhou o que estava acontecendo. Sorriu ao reconhecer a pessoa, balançou a cabeça não acreditando em quem estava vendo. Julia fez sinal para que a seguisse e levou a pessoa até um quiosque onde sempre parava para tomar água de coco. Em cinco minutos as duas mulheres estavam descendo de seus carros.
- Julia, você não mudou nada, quanto tempo minha amiga! Você acredita que eu estava indo até o seu apartamento. Apesar de não ter certeza se você ainda morava no mesmo lugar - disse Tamy.
- Você não mudou nada também. Quando você voltou? Vem cá me dá um abraço!
As duas se abraçaram por longos minutos. Há seis anos não se viam. Tamy foi para o Japão, logo depois que Lucas morreu. Eles iam se casar, e faltavam dois meses para o casamento, quando tudo aconteceu. Ela não agüentou ficar na cidade sem ele e foi para o Japão morar com os avós.
- Continuamos duas choronas - disse Tamy. Quero que conheça uma pessoa. Ela foi até o carro, abriu a porta de trás, estendeu a mão e a criança segurou-a.
Julia ao ver a cena ficou paralisada, emocionando-se ao ver o lindo garotinho abrir-lhe um sorriso lindo. Ele a reconheceu das fotos que sua mãe sempre lhe mostrava desde pequeno.
Julia não se conteve e começou a chorar, lembrando-se de Lucas pequeno. Era o mesmo que ver seu irmão. Loirinho, olhos azuis e bem puxadinhos como os de Tamy.
"Não pode ser".
Tamy e o menino se aproximaram de Julia que a olhou interrogativamente. - Ele é... - não conseguiu terminar a pergunta tamanha a emoção que estava sentindo.
- É Julia! Quero que conheça o Vitor.
- Oi tia! - disse Vitor.
Julia não agüentou e chorou ainda mais. Lucas tinha um filho. Movida pela intensa alegria de seu coração, ergueu o pequeno do chão e o envolveu em um abraço aconchegante.
Lucas, nesse momento aparece e fica olhando sua irmã segurando seu filho no colo pela primeira vez. Parte de sua missão estava sendo cumprida naquele instante. Olhou para Tamy com o mesmo amor que sempre sentiu por ela e depois para o filho, desaparecendo em seguida.
Continua...