Palavras ao Vento Fernanda |
Capítulo 43
-Eu não acredito que vou ter que ficar trancada aqui contigo.
- Eu digo o mesmo - respondeu Julia tentando chegar até os botões do elevador.
- Ai! O que você está fazendo? - disse Isa ao sentir as mãos de Julia a tocando. Estavam no escuro e o gerador do edifício ainda não entrara em funcionamento.
- Estou procurando o painel de controle, me ajuda ao invés de ficar aí reclamando de tudo.
- Só vou procurar porque quero sair logo daqui. Não agüento mais olhar pra você.
- Olhar para mim... estamos no escuro esqueceu? Vai ser um pouco difícil olhar para mim. Sinceramente, não sei o que eu vi em você. Deveria estar cega, só pode! - disse Julia enquanto procurava os botões. - Tem alguém além de nós duas aqui Isabel?
- Eu não sei. Tem alguém além dessa pessoa insuportável aqui? - indagou e como ninguém respondeu, concluiu - Só nós duas.
- Encontrei! - disse Julia apertando todos os botões do painel.
- Julia, você sabe o que está fazendo? Será que pode apertar todos os botões assim?
- Eu não tenho a mínima idéia, mas não me importo. Quero é sair logo de perto de você.
Uma luz acendeu, mas era a do gerador, e mesmo assim o elevador não funcionou. Julia se esforçava para fazer o elevador funcionar e nada. Já estavam ali trancadas a dez minutos. Isa tentou ligar, mas o celular estava sem sinal.
- Julia para com isso. Não adianta! Vamos morrer trancadas aqui e a última pessoa que verá neste mundo sou eu - Isa tentou amenizar a situação.
- Não há castigo pior que isso. Acho que eu não merecia passar meus últimos momentos com você. Se eu ainda te amasse, morreria feliz, mas como não estou te suportando, vou chegar do outro lado e ainda verei você atrás de mim.
- Vou mesmo. Te atormentarei pelo resto da eternidade. Falou Isa pegando o seu mp3 e colocando os fones. Não queria mais ouvir a voz de Julia.
Dentro do elevador estava ficando quente, e Julia tirou a blusa já que estava de biquíni por baixo.
- Não está tão quente assim para você tirar a blusa, daqui a pouco vai tirar tudo - disse Isa olhando para a médica com reprovação.
- Se eu quiser, eu tiro tudo. Qual é o problema? Não vai resistir é? Estou vendo os seus olhos me desejando, mas este corpinho aqui você nunca mais vai tocar.
- Quem disse que estou te desejando? Meu único desejo é sair daqui sua convencida, acha que é essa maravilha toda? Engana-se. Tem mulheres muito mais desejáveis que você.
Vinte minutos se passaram e nada da energia voltar. As duas estavam uma em cada lado. Julia se abanando com a toalha e Isa suando do outro. O calor era realmente intenso.
Julia se levantou e começou a andar de um lado para o outro.
- O que foi Julia? - perguntou Isa ao notar que ela estava diferente, com um ar desesperado estampado no rosto.
- Estou me sentindo mal. Acho que sou claustrofobica e não sabia, até o ar está me faltando - informou Julia com a respiração ofegante.
Isa estendeu a mão, segurou firme na mão de Julia. - Pára de andar. Senta aqui comigo e vamos ouvir um pouco de música que você esquece disso. Daqui a pouco a energia volta. Ouvi no rádio que foi um apagão que atingiu a cidade toda. Ainda não sabem o motivo, mas afirmaram que a energia já está voltando em alguns bairros - estava mentindo para Julia, pois na verdade não tinham previsão de quando voltaria a energia.
Julia se sentou e Isa colocou o outro fone no ouvido de seu amor.
- Mariah Carey! Só você pra gostar dela.
- Você não gosta? - indagou Isa.
- Não...
- Bom, o mp3 é meu, então você vai ter que ouvir.
- É assim? Não tenho que ouvir nada...
- Julia, pára de ser chata, a música é linda - Isa defendeu a cantora, e sem hesitar começou a cantar junto com a música. Até cantou fino como a Mariah.
Julia começou a rir. - Podia ter pulado essa parte Isa, porque ficou horrível - continuou sorrindo.
- O que? Não estou te ouvindo... - questionou também sorrindo. Tinha ouvido sim, mas precisava entretê-la.
- Isa, pelo amor de Deus, tira dessa Mariah! Já ouvi três vezes essa mesma música... não quero ter pesadelos a noite.
- Ta bom. Vou mudar porque cansei de ser Mariah Carey - afirmou com voz divertida.
- Para Mariah, só faltou aqueles shortinhos curtos, o bronzeado e a voz... - brincou Júlia.
- Julia, está dizendo que minha voz é um horror?
- Estou. Agora sim, uma música que vale a pena ouvir. "Don´t stop dancing". Pena que a banda acabou - a partir desse instante, ela nã;o disse mais nada. Julia transpirava demais, estava branca feito um papel.
Isa secou o rosto, o pescoço, e tirou o cabelo que estava grudado em sua testa, já preocupada com o estado dela, pois ela havia até encostado a cabeça na parede do elevador. Nesse momento seu celular tocou.
- Mari, por favor, liga para o bombeiro. Estou presa no elevador do edifício da Julia e ela não está nada bem. Rápido Mari.
Mari desligou e o sinal sumiu novamente.
Lucas estava ali com elas e teve que interceder senão sua irmã poderia morrer.
- Isa desculpa como eu te tratei. Estava furiosa contigo, mas não consigo mais ficar sem você, eu te amo tanto. Fiquei esse tempo em São Paulo, mas não dormi com ninguém, porque só pensava em você - Julia sentiu necessidade de expor seus sentimentos, mesmo com dificuldade pra falar.
- Julia não precisa me dizer nada disso, depois você me fala. Agora você tem que ficar quieta para não se cansar ao falar.
- Isa, canta pra mim... - Julia tirou o fone da orelha e encostou a cabeça no ombro de Isabel.
- Ta - começou a tocar "acelerou" do Djavan, e passou a cantar junto com a música.
- Você cantou melhor que a Mariah - disse Julia com os olhos fechados e segurando na mão de Isa. - Você me acelera como a música - abriu os olhos e visualizou Lucas do seu lado. - Lucas, eu to morrendo, você veioo me buscar? - e estendeu a mão para seu irmão.
Isa ficou apavorada, porque sabia que as pessoas antes de morrer, podiam ver pessoas que já tinham morrido. - Julia olha para mim...
- Isa, meu irmão está aqui.
- Ele veio nos tirar daqui e não te levar de mim.
Lucas apenas a olhava sem dizer nada, apenas segurava a mão dela.
De repente, começaram a ouvir vozes do lado de fora do elevador.
- Isabel e Julia vocês estão bem? Sou o bombeiro Martins. Vamos tirá-las daí. Fui informado de que uma de vocês não está passando bem. Confirma isso?
- Sim, a Julia está muito mal... - gritava Isa de dentro do elevador. Enquanto tentava chamar atenção da médica. Inútil, pois ela só tinha olhos para o seu irmão.
- Depressa! - gritava Isa vendo o estado de sua amada. Parecia estar em outro mundo. Estavam há mais de uma hora presas ali dentro. Do outro lado os bombeiros encontravam dificuldade em abrir a porta, e o tempo ia passando. Desesperada, Isa começou a chorar, pois o medo de perder seu amor era imenso.
- Julia, olha para mim. Eu te amo! Não me deixa aqui. Não vou conseguir viver sem você. Fica comigo... - os olhares se encontraram e Isa pode ver as lágrimas escorrerem pelo rosto de Julia.
Continua...