Palavras ao Vento Fernanda |
Capítulo 42
Julia aproveitou a tarde para ir até à clínica, se inteirar da administração daqueles três meses de ausência e rever seus funcionários. Comprovou que estava tudo bem.
Vanessa estava de férias prolongadas. Foram quatro anos trabalhados. Uma dedicação impar que a fez abdicar do merecido descanso anual, em benefício da clínica e de sua grande amiga.
Ao cair da tarde, Isa decidiu caminhar um pouco. Optou por não acompanhar Mari e Matheus à rodoviária, deixando-os sozinhos com a tarefa de buscar os parentes. Queria ficar sozinha. Depois, seria impossível, com tantas pessoas circulando pela casa.
Seus amigos estavam tão felizes. Se soubesse, teria terminado com Matheus há mais tempo, mas tudo acontece na hora certa.
Precisava ver o mar, o pôr-do-sol. A saudade em seu peito a guiou na direção da praia onde Julia morava. Queria ao menos olhar para a janela dela, e imaginar que ela estaria esperando-a.
"Isabel acorda! Ela deve estar com alguma daquelas amiguinhas". Tal pensamento fez o ciúme corroer seu coração. Ligou o mp3 e continuou sua jornada, tentando concentrar seu pensamento na canção que ouvia. A voz de Nathália a envolveu: Você Vai Voltar Pra Mim
Posso até sangrar Que agora não dói mais, me acostumei Já parei de chorar Quando alguém fala de você, eu sei Te perdi, não dormi, me acabei Nunca mais, volto atrás Foi demais, não mereci Teu amor, sabe Deus onde foi que eu errei Tudo bem, mas essa noite eu sonhei
Com teus olhos nos meus olhos Ouvi o som da tua voz Dizendo que se arrependeu To morrendo sim, de saudade Me diz que a dor chegou ao fim E você vai voltar pra mim
Todo dia tua ausência me persegue onde quer que eu vá, Não sou ninguém Sempre tenho que fingir que posso sorrir Mesmo sem te ver Eu nunca te enganei Não menti pra depois descobrir que acabou Que desprezou meu amor Vai chover, vou chorar Me esconder, te odiar, só eu sei Mas só que hoje eu sonhei
Com teus olhos nos meus olhos Ouvi o som da tua voz Dizendo que se arrependeu To morrendo sim, de saudade Me diz que a dor chegou ao fim E você vai voltar pra mim
Essa noite eu sonhei...
Com teus olhos nos meus olhos Ouvi o som da tua voz Dizendo que se arrependeu To morrendo sim, de saudade Me diz que a dor chegou ao fim E você vai voltar pra mim
Me diz que a dor chegou ao fim E você vai voltar pra mim. |
Julia, em casa, olhava o mar pela janela. Uma incontrolável vontade de ir à praia a dominou. Tinha que saciar a vontade de dar um mergulho, o que ainda não havia feito desde sua chegada. Foi o que fez. Colocou um biquíni preto, vestiu uma bermuda jeans, camiseta regata preta, calçou os confortáveis chinelos, pegou uma toalha e desceu para a praia.
Isa parou na padaria para comprar um sorvete. As três praias pelas quais passou não atraíram sua atenção. A praia bonita sim, esta sempre fora especial, mesmo antes de conhecer Julia. Não era de entrar na água, gostava só de molhar os pés e ver o mar, sentada na areia.
Ao se aproximar do edifício de Julia, não resistiu, olhou para cima na esperança de encontrar algum sinal dela no apartamento, uma luz acesa, uma janela aberta, mas para sua tristeza, tudo fechado.
Respirou profundamente, atravessou e olhou para a praia que estava quase vazia. Havia apenas algumas crianças brincando na beira da água, outras nadando e casais andando de mãos dadas próximos da água.
O sol já estava começando a se por. A escassez de nuvens deixou o céu límpido. O cenário perfeito para acolher o sol que lentamente ia desaparecendo no horizonte, deixando como presente, seu reflexo a tocar o mar tornando-o vermelho. Isa encontrava-se inebriada com a natureza. "Como ela é tão generosa com as pessoas, que sequer param para ver o sol se despedindo do dia, deixando em seu lugar a lua e as estrelas para brilharem em seu lugar".
Ainda fitava o horizonte quando, de repente, viu uma mulher saindo da água. A noite já se anunciava. Seu coração imediatamente deu um salto em seu peito. Apesar da dificuldade em enxergar de longe, analisou aquela mulher de costas para ela se enxugando e sentiu seu corpo se arrepiar inteiro.
"Que mulher maravilhosa" concluiu. Mesmo no escuro, conseguia definir as curvas daquele corpo escultural, que foi sendo escondido pelas roupas. "Não consigo parar de olhar pra ela, mas acho que é porque me lembra a Julia. Os cabelos compridos e pretos, alta e parece ser linda".
Foi nesse instante que Julia se virou e começou a caminhar na direção de Isa.
Quando estava mais perto, Isabel pode ver o rosto da linda mulher, e no mesmo instante, seus olhares se encontraram.
Julia ficou estática, tentando entender se estava sonhando ou, no mínimo estava vendo demais. Queria seguir adiante, mas seus pés não a obedeciam. "Dra Julia, o que é isso? Faça o favor de continuar andando", ordenou-se, e foi o que fez. Saiu de sua inércia temporária e seguiu ao encontro daqueles lindos olhos verdes, que tanta saudade sentiu de vê-los novamente.
Isa se levantou e ficou esperando a mulher que mais amava no mundo, se aproximar. Estava com medo de Julia passar direto e não falar com ela.
- Oi! - foi o que Julia conseguiu pronunciar.
- Oi - a resposta de Isa foi à mesma proporção.
O nervosismo impregnado em ambas. Três meses pareceu-lhes um tempo longo demais, e de repente ali estavam frente a frente.
- Tudo bem com você? - Julia conseguiu raciocinar, apesar da vontade louca de abraçar aquela loirinha, que dominava todos os seus sentidos e emoções. A seus olhos, Isa estava linda! Os cabelos tinham crescido um pouco mais desde que se viram pela última vez.
- Tudo e você? - respondeu Isa sentindo-se cada vez mais tímida.
- Estou bem. O que você está fazendo por aqui? - indagou, desejando no fundo, perguntar se tinha vindo procurá-la.
- Eu saí de casa pra caminhar um pouco e, quando vi estava aqui. Cheguei bem na hora de ver o pôr-do-sol. Adoro esse momento. Estava lindo hoje.
- Estava sim. Eu também gosto - disse enquanto secava um pouco mais seu cabelo, para disfarçar o nervosismo.
- Acho que já vou indo - disse Isabel. - Foi bom te ver. Esses dias serã;o uma loucura! Os parentes dos noivos vão ficar lá em casa. To achando que vou ter que dormir no quintal - brincou, tentando quebrar a tensão.
- Também gostei de te ver. Não quer subir um pouco? Depois eu te levo em casa.
Isa ficou pensativa. Queria subir e ficar mais um tempo com Julia, mas parecia que não tinham o que conversar. Nem uma das duas estava conseguindo falar. Poderia ser por timidez, ou será que algo havia mudado entre elas?
- Vamos Isabel, não vou te morder. Se pensar muito sei que não vai querer subir.
- Já que está insistindo, eu vou. Você tem razão, se eu pensar muito, não subo - sorriu tentando descontrair um pouco.
- Então venha! - Julia pegou em seu braço e a puxou gentilmente. Bastou esse toque para sentirem como se uma descarga elétrica as percorresse por inteiras. Julia soltou-lhe o braço no mesmo instante e seguiu na frente.
Isa apenas sorriu atrás de Julia, feliz por sentir que ainda mexia com a médica.
Para sorte ou azar das duas, o elevador subiu cheio, o que as obrigou a permanecerem em silêncio.
No terceiro andar, Iara entrou no elevador.
- Oi, Gata! - disse para Julia, que buscou o olhar de Isa. - Parece que só nos encontramos no elevador. Que pena que está cheio... - disse Iara, demonstrando em sua face, toda a sua malicia.
Isabel, ao ouvir as palavras daquela mulher, sentiu raiva de si mesma, e o ciúme lhe consumir o coração.
- Oi, Iara! Faz tempo mesmo, que não conversamos. Cheguei ontem, depois de passar alguns meses em São Paulo.
- Então me conta, se acertou com aquela pessoa, como se chamava mesmo? Ah, lembrei: Isabel.
Julia ficou vermelha, olhou para a Isabel sem saber o que dizer. - Não, ainda não. Iara quero te apresentá-la, já que falou dela.
Iara se afastou, olhou para o lado e disse oi, já que as outras pessoas ali presentes conhecia de vista.
- Oi respondeu Isa secamente.
- Desculpa, é que Julia me falou de você com tanto carinho, que fiquei curiosa para conhecer a mulher que... - Julia lhe deu um beliscão na ciintura, que a fez se inclinar para o lado, entendendo que não era para continuar o que estava dizendo.
Isa ficou olhando para a mulher esperando que terminasse de falar, o que não ocorreu. Então resolveu decidiu perguntar: - Estava dizendo conhecer a mulher que... o que ia acrescentar em sua frase, Iara?
- Isabel foi um prazer te conhecer, mas o meu andar chegou. Beijos para as duas - saiu do elevador, parou e deu tchau com a mão enquanto a porta se fechava.
- Suas amigas são sempre assim Julia? Não costumam terminar o que começam a dizer? - reclamou Isa.
- Tem algumas que são piores, a Iara até que passa - respondeu Julia seriamente.
- Sei. Acho que eu não deveria ter subido - falou Isabel com arrependimento na voz. Não precisa passar por mais essa. Em todo lugar sempre tinha uma mulher com quem Julia já tinha ficado.
- Pensei que você tinha mudado, mas ainda continua do mesmo jeito. E você não é nenhuma perfeição para falar de minhas amigas - Julia retrucou ofendida.
- E pelo que vejo você vai passar o resto da vida jogando isso na minha cara. Se for, já aviso, nunca mais falo contigo. Você dormiu com todas as mulheres dessa cidade e eu nem cheguei a fazer isso quando tive oportunidade. Sou uma idiota mesmo! Deveria ter dormido não só com a Natália mais com todas as mulheres que encontrasse na frente. Estou vendo que você não merecia minha sinceridade. Não deveria ter contado nada e ficar com as duas.
Ainda tinha pessoas no elevador e nenhuma das duas se conteve em discutir na frente delas, que fingiam não prestar atenção. Deveriam ter tido essa discussão há três meses atrás. Julia não disse nada naquele dia, mas também não esqueceu.
- Sei que você é assim, estava com o Matheus e não se importou em ficar comigo, ainda beijou aquela Natália na rua e na minha frente... e quer que eu acredite que você não dormiu com ela? Como posso acreditar em você - falou Julia com os olhos fixos nos de Isa que estavam furiosos.
- Eu não acredito que está me dizendo isto. Foi pra isso que me pediu para subir? Pra jogar tudo o que estava engasgado em cima de mim? Você não tem que acreditar no que eu digo. Acredite no que quiser. Já que acha que sou uma qualquer, não tenho mais o que fazer aqui. Abre essa porta que quero descer. Foi um erro me apaixonar por você - foi a última coisa que conseguiu dizer, antes daquilo acontecer.
Continua...