Palavras ao Vento Fernanda |
Capítulo 41
Foi a partir daquela poesia que sua vida começou a mudar, e conheceu Isabel. Não estava acreditando que ela conhecia aqueles versos também. Chegou a procurar pelo autor na Internet. "Bom, Isa deve saber quem escreveu. Caramba! Parece inacreditável, mas o destino segue um caminho, que nós não compreendemos".
Naquela noite, adormeceu com a certeza que, de alguma forma, Isabel estava mesmo ligada a ela.
Na manhã seguinte.
- Isabel acorda! - chamou Mari.
- O que foi Mariana?
- Temos que sair, fazer a última prova do meu vestido e das madrinhas. Ligaram da Igreja. Parece que surgiu um problema de última hora e precisamos ir até lá. - Mari é católica e Matheus concordou com o casamento na Igreja católica, mas pediu que tivesse um pastor também. - Matheus foi para a clinica fazer a quimioterapia e vai ficar a manhã inteira por lá. Minha família chega hoje. Temos que pegá-los na rodoviária. Eu não sabia que casar dava tanta dor de cabeça. Estou vendo tudo, vai chegar o dia e estarei tão cansada, que vou dormir na minha noite de núpcias.
- Calma Mari! Vai dar tempo de fazermos tudo - disse Isa se levantando. - Deixa eu ttomar um banho para acordar.
Vinte minutos depois já estava pronta e tomando café, enquanto o pensamento vagava livre.
Acordou com uma saudade enorme de Julia, mas não tinha mais esperança que pudessem ficar juntas. Quando encontrava com Vanessa, não perguntava pela médica. Queria saber sobre ela, mas tinha medo de ouvir que Julia estava com alguém. Ela nunca ficava sozinha.
Antes de Hérica ir embora, a procurou e pediu desculpa. O que aconteceu com ela, de alguma forma a mudou. Estava mais humana.
- Isa, está pensando em que? - perguntou Mari de pé ao lado dela, bebendo seu suco de laranja.
- Acordei pensando em Julia.
- Você sabe que vão se encontrar no casamento, não é?
- Sei. E ela deve vir acompanhada. Vou morrer de ciúmes. Eu a amo. Esses meses que não nos vimos, tive a certeza disso, mas agora é tarde. Poderia ter optado por não dizer nada a ela, o que também não seria bom. E começar um relacionamento com mentiras, seria o fim. No momento que o Matheus não disse nada, deixou a decisão em minhas mãos, por que apesar de estar magoado comigo, tinha fé que eu faria a coisa certa, que era dizer a verdade.
- Eu ainda o questionei: Math porque não disse nada a Julia? Ele respondeu com plena segurança que você o faria. É ele sabia que você não tinha se perdido totalmente. Agora vamos Isabel. - e saíram conversando.
- Mari e o Buffet?
- A Vanessa que está cuidando de tudo isso, já que a festa foi presente da Julia. Vai ser surpresa até pra mim! Nem sei o que vamos comer, onde é que vai ser a recepção. Sei apenas o nome da rua, porque colocamos no convite. Isa se vier minha família toda, onde vamos colocar essa gente pra dormir?
- Não se preocupe. Armamos barracas no quintal. Se os vizinhos perguntarem, a gente diz que estamos precisando de dinheiro, e resolvemos alugar o quintal por tempo indeterminado - Isa riu com gosto da própria brincadeira.
- Isa você não tem jeito! - Mari não segurou o riso também. - Esse ano tem sido maravilhoso pra mim. Nunca tive um ano tão bom assim, dá até medo. Vou casar com o amor da minha vida, que está se recuperando maravilhosamente, estou gravando um cd, e mais: ganhamos uma viagem de lua de mel para Recife, entre outras coisas, claro. Ai Isa, não sei se vou conseguir entrar no avião.
- Vai conseguir e você está ligada que depois que seu cd ficar pronto, seu meio de transporte será o avião. Vai cantar nos quatro cantos do Brasil e do mundo, então comece a se acostumar.
- É né... - disse Mari ainda pensativa e com medo. - Está falando assim porque nunca andou... quando acontecer, quero ver se terá esse mesmo discurso! - retrucou jocosa.
- Claro que terei! Você sabe que eu não tenho medo de nada - falou se exibindo.
- Sei que você é a rainha da coragem. Se tivesse tanta teria ido atrás da Julia lá em São Paulo.
- Mariana isto é outra história. E sabemos muito bem que, se ela quisesse teria me procurado. Mas como ela não quis, é porque não gostava tanto assim de mim, como eu achava. Minha sinceridade deveria valer de alguma coisa.
- Acho que as duas são orgulhosas demais, para dar o primeiro passo. Eu não... na primeira oportunidade real que tive, eu me arrisquei e abri meu coração para o Math.
- Nas minhas costas, sei... eu ainda era noiva dele. Que bela amiga você me saiu - brincou.
- Você já andava de rolo com a Julia. Não fiz nada errado. E conhecendo o Matheus, sabe bem que, enquanto não terminou contigo, ele só me dava beijos no rosto.
Julia acordou com a poesia na mão. Adormeceu lendo-a. Ainda não acreditava. Resolveu ligar para Mari, talvez soubesse de quem era.
- Alô. Julia! Nossa, quanto tempo - Isa estava em outra sala provando seu vestido.
- Oi, Mari! Acho que uns três meses. Queria saber se está tudo certo com a festa. Já estou aqui na cidade. Vim para o seu casamento.
- Não sei Julia, eu deixei a Vanessa organizar tudo. Ela sabe o que faz! A festa vai ser surpresa até pra mim. E me fala, como você está? Está namorando?
- Estou bem, e eu sou mulher de namorar? Tá me estranhando Mari... sou uma pegadora. Já dormi com metade das mulheres de Sampa - sorriu divertida. E como anda a sua amiga, está com alguém?
- Diferente de você, ela não pegou ninguém. Está vivendo para o trabalho. Você não soube? A Natália desencanou da Isa, e já está morando com a sua amiga Adriana.
Julia sentiu uma alegria imensa ao saber que Isa estava sozinha.
- Sei sim, a Dri está muito feliz. Eu queria te perguntar uma coisa. Você sabe de quem é uma poesia chamada Prisão.
- Não sei - respondeu Mari sempre esquecida. - Espera! Acho que me lembro. Foi uma ppoesia que a Isa escreveu na praia, deixa vê se me recordo: "Vejo seus olhos. Me sinto calma, conduzida. Estou em paz, LIVRE!!!", algo assim. Acabou perdendo por lá mesmo. Ficou chateada, porque era especial. Eu disse pra deixá-la contente, que o vento levou para quem tinha que ler. Porque está me perguntando isso? Não vai me dizer que foi você que encontrou?
- Eu encontrei na praia. E não tinha autor. Então foi a Isa que escreveu... - Julia ficou quieta do outro lado da linha. Sentiu uma mistura de medo e alegria. Tinha escrito para ela, pois no momento que leu, sentiu isso.
- Julia você está aíe;? - perguntou Mari ao não ouvir
som algum do outro lado.
- Estou sim, desculpa. É que essa poesia me tocou muito.
- Julia, a Isa não vai acreditar quando eu falar que você encontrou a poesia dela.
- Mari não conta para ela sobre isto, eu mesma queria contar.
- Tudo bem Julia. Eu não conto nada.
- Obrigada. Vou ver com a Vanessa como está indo a sua festa. Se não falarmos mais, até o casamento.
- Julia, você não vai à minha despedida de solteira? Vai ser na sexta, lá na Argos. Vou esperar por você. Tenho certeza que não vai se arrepender... vai ter muita gata por lá... - abriu um largo sorriso. - E uma em especial.
- Se der eu dou uma passada por lá. Beijo - disse e desligou.
Julia sentiu um frio na espinha ao pensar que foi Isa que escreveu aquela poesia, e ela a encontrou. Porque logo ela tinha que encontrar? Não poderia ter sido apenas meras palavras ao vento? Será que Mari tinha razão? A poesia fora escrita para ela ler... E porque? Para conhecer Isabel? E como só agora descobria que Isa era a autora? Não encontrou explicação para isso. "Quem sabe Isa a tenha..."
- Mari, com quem você estava falando?
- Se adivinhar eu te dou um doce - brincou.
- Não sei. Com o Matheus?
- Não. Com a Julia. Ela está aqui. Veio para o meu casório. Me ligou pra perguntar sobre a festa.
Isa quis perguntar se ela tinha perguntado dela, mas decidiu que não.
- Não vai perguntar? Bom ela perguntou de você. E eu disse que você estava esperando-a voltar, que é louca por ela... que só pensa nela... e vive chorando pelos cantos de saudades - disse divertindo-se ao ver a cara da amiga.
- Mariana, você não fez isto comigo. Fez? - perguntou Isa quase saltando no pescoço da amiga para estrangulá-la. Ficou furiosa.
- Claro que não. Só disse que você estava trabalhando muito - Mari achou melhor não dizer que havia comentado sobre o fato dela estar sozinha. Sua garganta coçou para contar sobre a poesia, mas tinha prometido, e assim o fez.
- Sorte sua, porque te conheço, e é bem capaz de ter falado essas coisas para ela - por dentro ficou feliz em saber que Julia estava de volta.
Queria vê-la mesmo que fosse de longe. Matar um pouco da saudade que vinha guardando só para si, dia a dia.
Seu travesseiro sabia o quanto era grande a saudade e o amor que sentia, pois vivia molhado com as lágrimas que escorriam de seus olhos apaixonados.
Sua vontade era de sair dali, ir correndo bater na porta do apartamento dela e dizer que sem ela tudo ficou preto e branco, que não via mais o brilho das estrelas e nem a luz da lua lhe tocando. Que cada dia sem ela, é um dia a menos que poderia estar olhando para os seus olhos e sentindo o calor de sua mão tocando seu rosto, fazendo-a fechar os olhos. Falar da esperança que nutria, de que, ao abri-los novamente ela estaria ali lhe sorrindo, e fazendo seu coração sorrir junto com o dela.
Continua...