Palavras ao Vento

Fernanda

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Capítulo 3

 

Julia chegou na clínica cheia de raiva de si mesma. Como pude me calar diante daquela loirinha irritante, quem ela pensa que é. Eu podia ter ido reclamar dela para a Adriana, e porque eu não fui? Vanessa entrou e calou sua pergunta, que não teria resposta, não naquele momento.


- Juli como você está? Eu soube o que aconteceu com seu Jorge. Eu não acreditei, ontem à noite ele estava tão bem...


- A mulher dele disse que ele ficou muiito nervoso com o filho. Eu não estou bem, acabei de ouvir umas coisas da nova professora do Julio. E você acredita que não disse nada. Ela acha que o Julio é meu filho, eu não disse que não era. Ela me irritou.


- E o que aconteceu? Perguntou Vanessa.. Comendo um chocolate.


- Eu saí triste daqui e fui ver a Adriana na escola, estava precisando dar uns beijos em alguém para aliviar minha tensão desta madrugada. Conheci aquela loirinha de olhos verdes, na sala da Dri, mas eu não sabia que ela era a nova professora do Julio.

- Eu falei para você semana passaada, que a professora do Julio tinha pegado licença e não voltaria mais este ano, que iriam contratar outra o mais rápido possível, mas como sempre a senhora doutora, não presta muita atenção no que falo.


- Depois que saí da sala da Dri,, fui procurar o Julio, queria dar um beijo nele e ficamos conversando. As aulas começaram, mas permanecemos na lanchonete uns 20 minutos. Eu estava com fome e ficamos lanchando. Quando terminamos, fui levá-lo para a classe, e no meio do caminho aparece a Isabel desesperada atrás do Julio, pensando que o menino tivesse sido seqüestrado, ela não me deixou explicar, me disse um monte.


- Eu faria o mesmo que a professora, see ponha no lugar dela, começando a dar aula e um aluno desaparece, o que acha que iria pensar, tudo de ruim. Eu acho que você deveria se desculpar com ela, é o mínimo que deveria fazer. Você sabe que não gosto que faça o Julio chegar atrasado na aula, sei que a Fabi não se importava. Mas esta parece que se importa.


- Não vou pedir desculpa para niinguém. Sabe muito bem que não vou pedir desculpa por uma bobagem desta. Disse Julia ainda irritada. Arrancou um lasco do chocolate da amiga e comeu.


- Às vezes, não sei como você consegue ser tão insensível, tão egoísta, eu te amo, você é minha melhor amiga, mas tem certas atitudes suas que me enoja. Vanessa se virou e começou a sair...


- Vanessa não saia assim. E n&attilde;o deu a mínima para ela, saiu. Apenas disse: - Daqui 5 minutos vou mandar seu paciente entrar!





Voltando para casa, Isa, já mais calma, porém esgotada, foi pensando que passou a aula toda esperando ser chamada na diretoria, mas acabou não sendo ao menos, não naquele dia. Chegou em casa e não tinha ninguém. Passou pela cozinha, dona Fátima havia deixado seu almoço arrumado no prato, só tinha que colocar no microondas e esquentar, mas não estava com fome. Queria esquecer um pouco daquela manhã, que acabou sendo irreal. Foi para o seu quarto ligou o computador e enquanto ele carregava foi ao banheiro.
Começou a digitar uma poesia.



Medo

Tenho medo da chuva, dos raios e trovões
Tenho medo da solidão
Tenho medo da perda
Tenho medo de errar
Tenho medo de esperar
Tenho medo de sofrer
Tenho medo de me entregar
Simplesmente tenho medo
Mas o que fazer com esse sentimento paralisante?
Sempre arrumamos desculpas para camuflar os nossos medos
Não saio na chuva porque não posso me molhar
Não fico sozinha porque tenho medo de não ter quem chamar
Não conquisto porque tenho medo de perder
Não me deixo conquistar porque tenho medo de me entregar
Não arrisco pra não errar e aumentar o medo que existe
em mim
Não
crio expectativas porque tenho medo de esperar algo que pode não acontecer
Medo... Uma palavra tão pequena, mas tão grande em seu significado
Palavra que mostra a fraqueza humana
Palavra que incapacita o ser, que impede a felicidade
Felicidade essa que está em coisas simples
Um olhar
Um sorriso
Um abraço
Um beijo
Medo que impede que ações pequenas e sublimes se concretizem
Medo que invade a cabeça e o coração
Medo que controla as vontades e impulsos
Medo que atrapalha a evolução
Medo que encolhe o mais intenso sentimento:
O AMOR em todas as suas formas.



Medo era o que sentia naquele momento. Podia chegar na escola e não ter mais emprego. Perdeu a cabeça e discutiu com a mãe de um aluno. Tudo isso logo no primeiro dia. Que pesadelo!



18:00 horas


- Oi, Dri. Estou te ligando para desmarrcar nosso encontro de logo mais. Estou com dor de cabeça. E você sabe que gosto de estar 100%, hoje não estou.


- Que chato, Julia. Tudo bem. Fica paraa outro dia. Julia aconteceu alguma coisa hoje pela manhã, entre você e a nova professora do Julio? É que vieram me contar algumas coisas.


- Não aconteceu nada. Nãoo se preocupe, a Isabel não fez nada errado, estava apenas preocupada com o Julio, que não tinha entrado na aula e foi procurá-lo, e nos encontramos no corredor. Conversamos um pouco, ela levou o Julio para a classe e eu fui embora. Não sei o que os fofoqueiros disseram, mas a verdade é esta. Começou a pensar... porque estava mentindo!

- É que comentaram que vocêc;s discutiram. Mas se você está dizendo que não, eu acredito. Então nem vou falar com ela sobre isto.


- Não fale. Não vejo, neccessidade. Dri vou ter que ir agora. Beijos.


- Beijos e se melhorar da dor passa l&aaacute; em casa, se quiser.


- Tá... se cuida!
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Julia não estava com dor de cabeça, não sabia porque livrou a pele da loirinha, talvez porque ela estivesse certa.
Eu tenho que admitir que demorei muito lanchando com o Julio. Não sou tão insensível como a Vanessa disse.
Eu me tornei, quando meu coração parou de acreditar. Sou uma pessoa solitária, sonhando em encontrar alguém, que não me deixe. Como não acredito mais nisto, vou vivendo desta maneira, que é só para me proteger.


Julia e Vanessa não se falaram o dia todo, apenas assunto de trabalho. Quando já iam embora, Julia entregou um envelope para Vanessa.


- Peça para o Julio entregar istto para a professora, amanhã.


- Não vai dar, porque amanh&atillde;, é sábado.


- Então guarde e dê a ele na segunda para levar. Boa noite. Disse e foi embora.


Vanessa preferiu não falar nada, porque conhecia sua amiga e ela tinha ficado chateada. Amanhã eu falo com ela.




 




- Amiga o que você está faazendo aqui? Perguntou Mariana. Você não viu que deixei um recadinho perto do telefone? Seu noivinho ligou, disse que já estava na rodoviária, e está vindo ver você. Já deve estar chegando aqui, e pediu para você ir buscá-lo na rodo.


- Eu não vi o seu recado, fiqueii o dia todo aqui no quarto. Não tive uma manhã muito boa. Está vindo! Não me disse que iria vir este fim de semana. Mari você tem que ir comigo buscá-lo. Não quero ir sozinha.


- Isa está com medo de seu noivoo... Acho que ele está vindo para... você sabe para que..rss.


- Para com isto. Ele me respeita, voc&eecirc; sabe que a religião dele, não permite fazer isto antes do casamento.


- E como você agüenta? Perguuntou Mari.


- Mari eu não tenho esse seu foggo.


- É porque você nãoo o ama, se o amasse você ia sentir um fogo daqueles, ia querer arrancar a roupa dele todas às vezes que o visse. Quando se apaixonar de verdade, vai entender o que estou falando, mas chega de papo, vamos... o coitado vai achar que você o esqueceu.






Em casa, Julia não estava a fim mesmo de sair, estava cansada, comeu um miojo, era a única coisa que tinha em casa, isso a fez lembrar que tinha que fazer compras. Sua secretária eletrônica estava cheia de recados de mulheres querendo sair com ela, não entendia, como ainda a procuravam se saia no meio da noite e não ligava depois. Tinha quase certeza que a mulherada gostava de ser tratada como um objeto de prazer.


Quando era doce, quando se importava, elas a deixavam sem explicação, sem se importar com os seus sentimentos, enquanto era vantajoso usavam e abusavam, pra isso ela servia. E decidiu que nunca mais sofreria por mulher alguma. E fazia o mesmo que fizeram com ela.


Julia olhou na estante e viu a poesia. Foi até ela e pegou. Leu os primeiros versos e decidiu procurar na Internet, se encontrava o(a) autor(a) dessa poesia que mexia com ela. Desde que a encontrou, coisas começaram acontecer à sua volta e em si também.


Prisão


Me sinto só estando acompanhada
É como se estivesse num quarto escuro
Isolada, acorrentada, sufocada...
Procuro uma porta, uma saída
Revejo conceitos, sonhos, desejos..



Depois de duas horas já estava cansada de procurar. Entrou em tantos sites e nada. "Acho que Vanessa tinha razão, nunca vou encontrar o(a) autor(a), pensou". Nestas visitas encontrou poesias de Florbela Espanca, com as quais se identificou.



SEM REMÉDIO

Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.
E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!
Sinto os passos da Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!
E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!


Estava cansada, só queria se deitar, e ver um filme.




Na rodoviária

O ônibus do Matheus atrasou. As duas se sentaram em um banco e ficaram esperando-o chegar.


- Isa você veio tão quietaa até aqui. O que aconteceu na escola? Pensei que iria te encontrar radiante, mas ao contrário, me parece preocupada. Foram as crianças?


- As crianças até que forram legais comigo, foi outra coisa... disse e abaixou a cabeça. Respirou fundo, levantou a cabeça e seus olhos estavam cheios de lágrimas ao olhar para Mari.


- Amiga o que te fizeram naquela escolaa? Mari era bem esquentada, apesar de ser mais nova que Isa sempre a protegia. Desde que eram crianças defendia sua amiga de quase tudo.


- Mari eu acho que quando chegar na esccola, na segunda-feira, vou ser despedida. Perdi a cabeça. Você sabe que sou sempre ponderada, mas hoje, não sei o que me deu. Discuti com a mãe de um aluno.


- Essa mulher deve ter feito muito paraa você!


- O pior é que ela é bem chegada da diretora, parece que pode fazer o que quer ali dentro.


- Como assim?

>


- Eu acho que elas têm algum lancce intimo, pois quando a Julia entrou na sala deu um beijo na boca da Adriana, que é a diretora.


- Você está brincando, enttão a sua diretora é lés e, você discutiu com a mulher da outra? Você se ferrou mesmo, amiga.


- Ah, não sei se ela é l&ês, e muito obrigada por me fazer ficar com mais medo.


- E a discussão foi porque a tall te cantou?


- Não! É que ela levou o filho para lanchar e esqueceu da hora. Depois de quinze minutos sai atrás do menino. Pensei de tudo, e já cansada de procurar estava indo avisar a diretora sobre o sumiço do aluno, quando encontro com a mulher e o filho vindo tranqüilamente... fiquei mais nervosa, falei umas coisas, ainda bem que não falei tudo o que pensei, mas como deve ser amante da Adriana, estou frita mesmo, como você disse...


O ônibus chegou e a conversa parou por ali.
 

 

Continua...

 

Parte 4

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