Palavras ao Vento

Fernanda

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Capítulo 29

 

Mari volta nervosa do banheiro, molhada e chorando. - Piorei o negócio, a mancha se espalhou ainda mais. Serei uma piada, ninguém vai prestar atenção na minha música, só vão olhar para minha roupa - disse nem reparando que a sala estava cheia de gente.

- Calma Mari! - disse Julia. Meninas, podem ajudar minha amiga com a roupa?

- Pode deixar! - disse uma das quatro. Pegaram Mari pela mão e a levaram para o quarto de Julia.

Julia foi pegar umas cervejas para suas amigas e ofereceu uma para Isa, que não aceitou.

- Quero algo mais forte! - Não era de beber, mas aquela noite ia encher a cara. 

Julia entregou um copo para Isa, que bebeu num gole só. A bebida desceu queimando sua garganta.

- Quero outro - disse Isa estendendo o braço com o copo na mão, e Julia que ainda continuava com a garrafa na mão, encheu-o novamente. Desta vez bebeu sem pressa. Ficou olhando para Julia, que se sentou no sofá a sua frente.

Julia bebia uma cerveja evitando olhar para Isa, que mantinha os olhos fixos nela. Era impressionante o poder que Isa exercia sobre ela! Não conseguia ser aquela Julia que dominava as mulheres, que só pensava em fazer sexo e nada mais. 

Isa não acreditava que tinha se apaixonado por essa mulher que fazia seu coração quase explodir de amor e raiva. Julia não era nada do que queria para ela. Maldita hora que se conheceram! Sentiu sua alma se encher de ódio. Levantou-se, passou e pegou a cerveja da mão de Julia e levou consigo, e foi atrás da Mari.

- Hei, essa cerveja era minha - falou Julia indo atrás de Isa. - Olha mocinha, não é bom você misturar bebidas.

- Até parece que se importa! Estou bebendo para que, quando você for se satisfazer eu esteja bêbada e não sinta nada. Não quero me lembrar de coisa alguma, menos ainda que seu corpo sujo tocou o meu e o seu cheiro de mulher pervertida se misturou ao meu.

- Isa já ouviu essa frase "lavou tá limpinho", eu tomo banho antes de te usar. - Julia falou sorrindo... Sabia que estava deixando Isa mais irada.

- Por mais que você se lave vai estar suja para mim. E fica longe porque eu te odeio.

- Tem certeza? Não foi isso que aquele seu beijo me revelou. Estava me querendo e muito! - Disse Julia no ouvido de Isa, que continuava de costas para ela.

A voz de Julia em seu ouvido era uma tortura, mas quando se virou para olhar a morena, viu Mari atrás delas. Sentiu suas pernas bambearem. Será que sua melhor amiga havia escutado a conversa? Foi a única coisa que conseguiu pensar naquele instante.

- Mari! - Disse Isa. Julia virou-se rapidamente e olhou também para a amiga.

- Meninas que caras de assustadas são essas? Fiquei pior que estava. Suas amigas invadiram seu guarda-roupa e me fizeram usar este vestido azul claro, depois eu devolvo. - Mari também era alta então a roupa lhe caiu muito bem, combinando com suas botas coturno, com as quais sempre se apresentava.

Isa pode relaxar ao perceber que Mari não ouvira nada.

- Julia, que achou? - Perguntou uma das amigas dela.

- Está linda! Até sairia contigo se você quisesse... - sorriu.

Mari ficou vermelha, mesmo sabendo que era brincadeira. - Obrigada, suas amigas fizeram um milagre e me deixaram bonita - retribuiu o sorriso.

- Concordo com a Julia, você está muito linda. - Disse Isa olhando sua amiga de cima a baixo. A bebida estava começando a fazer efeito. Olhou de uma maneira que não deveria para Mariana... "espero que não tenha notado".

- Isa, você está bem?

- "Caramba, ela percebeu!" - pensou Isa. - "Não posso beber porque não consigo me controlar". - Estou Mari, é que eu bebi um poouquinho... - enquanto conversavam todas seguiram para a sala.

- Vamos Isa, daqui a pouco eu entro no palco. Valeu garotas, nem sei o que faria sem a ajuda de vocês! Julia obrigada - e deu-lhe um abraço. - Vamos Issa.

- Mari depois do show traga a sua banda e venham passar a noite aqui em casa. Isa  traga o Matheus, pois quero examiná-lo depois. Daqui a pouco descemos para ver seu show e boa sorte! Arrasa garota.

- Nossa estou tão nervosa! Vamos Isa - agarrou o braço da amiga e senttiu a mão fria dela tocando o seu braço.

Isa olhou para Julia e disse: - Tchau.

- Tchau - respondeu abrindo a porta para elas saírem.

 

Matheus já estava preocupado com a demora de Mari. Precisavam repassar algumas músicas, já que tocariam por meia hora. Duas bandas encerraram sua apresentação, e eles eram a quarta da noite. O som nos bastidores era ensurdecedor, os rapazes da banda estavam nervosos também.

- Matheus cadê a Mari? - perguntou Bruno (o baterista) gritando no ouvido de Matheus.

- Não sei, cara. Ela foi ao apartamento da minha médica dar um jeito no vestido. Conhece mulher, demora horrores!

Mal se ouviam por causa do som. Então Matheus a viu e bateu no braço de Bruno apontando na direção em que Mari estava vindo.

 

Isa voltou para ficar com seus sogros e agora sim, aqueles martinis estavam fazendo efeito.

- Isabel que horas vão se apresentar? Estou ficando louca aqui. Eu gosto de músicas evangélicas e não dessa porcaria. Só vim por causa de meu filho, mas se demorar muito vou embora. Prefiro passar a noite louvando o senhor! Isso aqui é o verdadeiro culto ao diabo. Gritava dona Conceição.

Mesmo bêbada percebeu os olhares das pessoas em volta delas, daqui a pouco alguém começaria a discutir com sua sogra.

- D. Ceição pára de falar estas coisas aqui, gritou Isabel.

- O que você disse? Não ouvi.

- Eu disse para a senhora ficar quieta. Aqui não é lugar para expressar suas opiniões.

 

Mari encontrou seus amigos de boca aberta, inclusive Matheus. Ela sempre se escondia dentro daquelas roupas escuras e maquiagem pesada.

- Uau! - exclamou os rapazes.

- Desculpem rapazes. Parece que gostaram do meu novo visual... Mas não se acostumem. 

Matheus olhou para ela e se lembrou das últimas palavras daquele rapaz da praia, "SEJA FELIZ"! Mesmo amando muito Isabel, ainda que por pouco tempo, queria saber como era a sensação de ser amado de verdade. Por mais que Isa tentasse nunca o amaria. Pela primeira vez, desejou experimentar esse sentimento, e não havia pessoa melhor que sua grande amiga para lhe fazer feliz. 

- Mari, depois precisamos conversar - disse Matheus pegando nas mãos dela e sorrindo. Viu os olhos dela brilharem e afagou seu rosto.

Uma grande emoção tomou conta de Mari ao sentir a mão de Matheus em seu rosto. Naquele momento viu que tinha conseguido o que mais queria no mundo, e o abraçou ternamente.

 

Os convidados de Julia já estavam chegando. Os garçons prontamente serviam as pessoas que conversavam animadamente. As crianças brincavam no quarto de Julio. Sua madrinha fez questão que ele tivesse um quarto em sua casa. Vanessa estava lá de olho nas crianças, descontente com o comportamento de sua amiga, e o melhor era ficar longe dela.

- Vanessa o que está fazendo aqui? - perguntou Julia. - Eu estava te procurrando. Quero te contar uma coisa. Vamos ao meu quarto.

- Julia o que foi agora? - Seu tom foi de puro desânimo.

- Van a Isa veio aqui, me beijou e, eu simplesmente me afastei dela. Não pra me fazer de difícil... é que ela me desarma. Estava tentando ser horrível com ela, e me surpreendeu ao me agarrar e beijar com tanta voracidade. E eu não pude corresponder. Ela acha que só quero usá-la, e vai permitir para se livrar da divida que tem comigo. Eu amo demais aquela loirinha. Não quero fazer sexo com ela para me satisfazer, quero mais que isso.


Enquanto Vanessa ouvia de Julia a narrativa dos últimos acontecimentos, Hérica estava sentada em uma cadeira, amarrada e amordaçada num quarto escuro porque começou a gritar demais, e um dos homens a calou. Só lhe restava chorar. Até aquele momento não sabia ao certo o porque de estar naquela situação. Não chegou andar nem trezentos metros atrás de Isabel, e foi interceptada por um carro preto, do qual desceram dois homens. Um apontava uma arma para sua cabeça e o outro a mandou abrir a porta do carro e desc er. Foi o que ela fez. O mesmo homem que falou com ela, entrou em seu carro e foi embora. Não quis bancar a engraçadinha. O medo era grande demais para tentar reagir. Só conseguia pensar que aqueles homens seriam os capangas do bandido italiano que operou e a cirurgia não deu certo, e que agora a encontraram. Com certeza, seu fim estava próximo.

 

Julia aguardava um amigo em especial. Algumas de suas convidadas haviam descido para a praia. Pela janela de seu apartamento podia ver a animação das pessoas. Com o auxílio de seu telescópio, procurou e encontrou Isa no meio da galera, ao lado de D. Conceição. Naquele instante a cantora que estava se apresentando começou a cantar uma música de Isabella Taviani. Julia ouvia a música e olhava para Isa, que cantava como se conhecesse a letra de cor. Estava vivendo paixões vazias a muito tempo, mas sabia que a única que poderia mudar isso, era Isabel.

 

 

Letra Sem Melodia 

 

Eu ando enganando a solidão

Mantendo a casa cheia

Quase nem me reconheço aqui

Tentando sorrir

 

Brigo por qualquer razão qualquer senão

Eu rasgo o tempo à toa

Vagando nas esquinas da cidade

Que hoje me amaldiçoa

 

Eu só queria lavar os cabelos do meu amor

Bem que eu merecia repousar sob o cobertor

E como uma criança no teu colo

Dormir em paz em santo solo

Pra ver

Simplesmente o sol nascer

 

Eu ando remendando coração com paixões vazias

Bocas e mais bocas agonia

Letra sem melodia

Brinco que a felicidade pôs a mesa

Mas me sento só

No centro do meu corpo nu em pêlo

Nada pode ser pior

 

Eu só queria lavar os cabelos do meu amor

Bem que eu merecia repousar sob o cobertor

E como uma criança no teu colo

Dormir em paz em santo solo

Pra ver

Simplesmente o sol nascer

 

E no final fica tudo no mesmo

Porque afinal eu sou vazio e desejo

O amor valeu

Viver valeu

Então sou eu

Valendo eu sem você

Sem você

 

Antes de terminar a música Julia entrou, pois seu amigo havia chegado.

- Oi Julia, espero que não me tenha feito vir para este fim de mundo à toa.

- Fred, você me conhece, não iria te incomodar se não fosse por uma boa razão. 

- Eu sei, estou brincando. Como você está? Ainda continua arrasando os corações das menininhas?  

- Continuo, mas uma menininha acabou conquistando e arrasando o meu coração - disse Julia, com certa tristeza. - Quer beber alguma coisa?

- Aceito - respondeu o homem de cabelos grisalhos, escondido debaixo de um boné preto. Usava óculos com armação vermelha, tinha um piercing na sobrancelha direita e vários brincos na orelha esquerda. Vestia um macacão jeans, camiseta preta e tênis vermelho.

Fred e Julia se conheceram na faculdade. Faziam medicina juntos, mas ele acabou deixando, pois sabia que não seria um bom médico. Foi estudar música. Hoje tem seu próprio selo e sempre está em busca de novos talentos para sua gravadora. E veio especialmente para ver a apresentação de Mari e sua banda, pois sua amiga fez muitos elogios. Queria ver se a moça era mesmo talentosa.

 

Julia desceu para a praia e deixou seus amigos. Foi entrando por entre a multidão. Levou alguns empurrões e cotoveladas, sem contar os palavrões, que fingiu que não era com ela, mas conseguiu chegar até onde Isa estava. Ficou atrás dela, que nem percebeu a sua presença. Para ser notada, deu uma leve passada de mão na bunda de Isabel, que se virou pronta para xingar o atrevido que tinha feito aquilo, e quando olhou recebeu o mais lindo sorriso. Isa ficou tão irritada, que não disse nada e se virou para o palco. Tentou prestar atenção na música que a cantora estava cantando, mas não conseguiu. Acabou sorrindo. Sentiu-se feliz por ela estar ali e não com aquelas mulheres, e voltou a cantar.

 

Minha alegria dá pra ver

Não dá para esconder

Nem quero pensar se é certo querer

O que vou lhe dizer

 

E agora sentiu Julia mais perto dela e sua voz entrando em seu ouvido, fazendo seu coração bater mais forte do que nunca. Queria ficar novamente nos braços de Julia, como ficaram no dia de Natal, mas seus sogros estavam ao seu lado. Apenas fechou os olhos e deixou a voz de seu amor entrar em sua alma.

 

Um beijo seu, e eu só vou pensar em você

Se a chuva cai e o sol não sai

Penso em você

Vontade de viver mais

Em paz com o mundo e consigo.



Julia também teve que se controlar. A única coisa que puderam fazer foi uma segurar a mão da outra bem discretamente, nem entrelaçar os dedos puderam porque a posição que Julia estava não permitia, e também tinha pessoas de olho nelas, D. Conceição.

 

Parte 30

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