Palavras ao Vento Fernanda |
Capítulo 30
A apresentação de Carla Nascimento estava quase terminando. Os cantores não podiam apresentar músicas próprias, apenas cantar músicas conhecidas para manter as pessoas animadas. Logo em seguida Mari iria entrar no palco.
- Isabel! - gritou sua sogra tirando-a daquele encantamento e colocando fim àquele momento, em que esqueceram toda a dor dos últimos dias. Bruscamente as mãos foram separadas.
- O que foi, Dona Conceição? - olhou para aquela mulher de semblante carrancudo desejando que ela estivesse bem longe dali.
- Vai demorar muito? Não agüento mais.
- Não, devem ser os próximos.
- Como sabe?
- Olha eles no fundo do palco! - Isabel se emocionou. Sabia o quanto Mari estava esperando por esta oportunidade de mostrar seu talento para as pessoas e sabia que com Matheus ao seu lado, iriam arrasar. Sentiu um orgulho tão grande de sua amiga! Nunca disse o quanto a admirava, e que era sua fã desde criança. Lembrou da primeira vez que Mari cantou na escola, tinha 9 anos. Ela fora a escolhida para cantar o hino nacional no dia da Bandeira. Passou a semana decorando o hino, pois não queria esquecer a letra, e com isso estava me enlouquecendo com ela e o hino.
Outras crianças já haviam cantado outros hinos e Mari encerraria aquela pequena homenagem que a escola fazia à bandeira de nosso país. Ela subiu no palco da escola e não conseguiu cantar. O nervosismo foi tanto que esqueceu a letra. A professora já havia feito a introdução da música duas vezes no velho piano escolar, as lágrimas escorriam por seu rostinho, e as crianças que não perdoam, começaram a vaiar a coleguinha de escola. Eu não sei de onde tirei coragem e subi no palco. Segurei em sua mão. Ela olhou para mim, a professora iniciou novamente a música e eu disse: - "Mari, vamos cantar pela ú;ltima vez esse bendito hino! Não agüento mais ouvir esse Ouviram do Ipiranga". - Mari riu, secou as lágrimas na manga da blusa e finalmente conseguiu cantar o hino nacional inteiro, sem soltar a minha mão em nenhum segundo. Eu não deixei ela desistir.
21:45 da noite
Mari já tinha aquecido a voz, e se afastou um pouco de seus amigos indo para um cantinho do palco. Estava nervosa e sentindo-se aquela menina de nove anos, com medo. Respirou fundo e fez suas orações em silêncio. Tinha se preparado a vida toda para esse momento e não ia deixar o medo lhe dominar. Aquele estava sendo o melhor dia de toda a sua vida. Poderia amar Matheus, olhou para ele, que a olhava com um sorriso nos lábios. Ela voltou a se unir aos amigos e rezaram abraçados. Quando terminaram, foram chamados ao palco.
22:00 horas
O apresentador chamou a próxima banda com muito entusiasmo. - Agora no palco a banda Sweet Mary.
Foram muito bem recebidos pelo público, que aplaudiram a entrada deles com muito fervor. Cada um tomou o seu lugar. Mari foi para frente do palco e arrumou a altura do microfone. Neste momento olhou para frente procurando por Isa no meio daquela multidão, e encontrou os olhos de sua amiga fixos nela.
- Boa noite pessoal! Estou muito feliz, e só cheguei aqui porque uma pessoa muito especial, não me deixou desistir de meu sonho. Minha melhor amiga, Isabel. Obrigada.
Isa como era chorona por natureza, fez apenas um de nada com a cabeça. Julia não se importou e confortou Isa em seus braços trazendo-a para próximo de seu corpo e abraçando-a por trás. Dona Conceição não gostou nada daquilo, mas não disse nada, o mais importante ali era o seu filho e sentiu uma grande emoção em vê-lo tocar pela primeira vez.
Mari olhou para trás sinalizando para o baterista, que bateu 3 vezes a baqueta e começaram a tocar.
Para abrir a apresentação, Mari iniciou com Máscara da Pitty
Diga!
Quem você é?
Me diga!
Me fale sobre a sua estrada
Me conte sobre a sua vida...
Tira!
A Máscara
Que cobre o seu rosto
Se mostre
E eu descubro se eu gosto
Do seu verdadeiro
Jeito de ser...
Ninguém merece
Ser só mais um bonitinho
Nem transparecer
Consciente, inconseqüente
Sem se preocupar em ser
Adulto ou criança
O importante é ser você...
Mesmo que seja estranho
Seja você!
Mesmo que seja bizarro
Bizarro! Bizarro!
Mesmo que seja estranho
Seja você!
Mesmo que seja...
Tira!
A Máscara
Que cobre o seu rosto
Se mostre
E eu descubro se eu gosto
Do seu verdadeiro
Jeito de ser...
Ninguém merece
Ser só mais um bonitinho
Nem transparecer
Consciente, inconseqüente
Sem se preocupar em ser
Adulto ou criança
O importante é ser você...
Mesmo que seja estranho
Seja você!
Mesmo que seja bizarro
Bizarro! Bizarro!
Mesmo que seja estranho
Seja você!
Mesmo que seja...
Meu cabelo não é igual
A sua roupa não é igual
Ao meu tamanho, não é igual
Ao seu caráter, não é igual
Não é igual, não é igual
Não é igual...
I had enough of it
But I don't care
I had enough of it
But l don't care
I had enough of it
But l don't care
I had enough of it
But l don't care...
Diga!
Quem você é?
Me diga!
Me fale sobre a sua estrada
Me conte sobre a sua vida...
E o importante é ser você
Mesmo que seja estranho
Seja você!
Mesmo que seja bizarro
Bizarro! Bizarro!...
Mesmo que seja estranho
Seja você!
Mesmo que seja bizarro
Bizarro! Bizarro!
Mesmo que seja estranho
Seja você!
Mesmo que seja bizarro
Bizarro! Bizarro!
Mesmo que seja estranho
Seja você!
Julia tinha se separado de Isa e ambas cantavam com a galera. Mari conseguiu botar fogo na multidão, chamando a todos para cantar com ela. Foi acompanhada por um coro de mais ou menos 10 mil pessoas. Matheus estava perfeito em sua guitarra, assim como todos os outros integrantes da banda. Sintonia perfeita entre eles, e a galera agradecia com gritos e palmas. Seguiram assim até o final da apresentação.
Dona Conceição, definitivamente estava no inferno. O barulho era ensurdecedor, seu marido estava curtindo. Não sabia a letra da música mais aplaudia, acompanhava os movimentos dos jovens e fazia igual, até gritava às vezes o nome do filho.
Isa de vez enquanto se virava e olhava para Julia que retribuía o olhar com o mesmo carinho que recebia. Estava feliz e confiante que as coisas iriam ficar bem entre elas.
Mari agradeceu a todos e encerrou sua participação cantando:
Palavras ao vento - Cássia Eller
Ando por aí querendo te encontrar
Em cada esquina paro em cada olhar
Deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar
Que o nosso amor pra sempre viva
Minha dádiva
Quero poder jurar que essa paixão jamais será
Palavras apenas
Palavras pequenas
Palavras
Ando por aí querendo te encontrar
Em cada esquina paro em cada olhar
Deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar
Que o nosso amor pra sempre viva
Minha dádiva
Quero poder jurar que essa paixão jamais será
Palavras apenas
Palavras pequenas
Palavras, momento
Palavras, palavras
Palavras, palavras
Palavras ao vento
- Isabel vamos sair daqui. Gritou D. Conceição, puxando o marido pela camisa, para saírem do meio daqueles jovens perdidos. Quando Mari cantou Amado de Vanessa da Matta, alguns casais em volta delas começaram a se beijar, Dona Conceição ergueu os braços e começou a orar. O tom era dramático "Meu senhor, me perdoa por estar no meio desse redefu! Estou aqui pelo meu filho! Para todos os lados vejo luxuria e pecado nos olhos desses jovens", Isa e Julia ficaram olhando para ela e quando falou em redefu as duas começaram a rir. Seu drama era hilário.
- Hei, a tiazinha está com algum problema? - Perguntou um rapaz que estava pr&oacutte;ximo de Isa.
- Está orando! - Isa falou rindo.
- Mas agora? Será que o Deus dela vai ouvi-la aqui, no meio do redifu?
- Acho que não. Quando sairmos daqui ela vai direto para a casa dele.
- Isabel você vai voltar para a casa ou não? - Perguntou sua sogra.
- Não, vou esperar o Matheus, a Julia quer examiná-lo para ver se está tudo bem.
- Está bem, vamos José.
- Feliz ano novo, dra. Julia! - disse seu José apertando a mão da médica.
- Para o senhor também - respondeu Julia. - Feliz ano novo dona Conceição - disse Julia.
- Para a senhora também - respondeu secamente D. Conceição. E saiu puxando o marido que só teve tempo de acenar para Isa.
- Essa mulher não vai mesmo com a minha cara - disse Julia olhando para Isa, que ainda continuava olhando seus sogros indo embora. As duas ficaram conversando ali na praia.
- Porque será? Ela me viu em seus braços. Como você me encontrou no meio da multidão?
- Eu segui o seu cheiro...
- Porque eu não estou acreditando nisso...
- Tá bom, vou falar. Eu estava na varanda lá de casa te procurando com o telescópio.
- Porque?
- Porque eu queria estar contigo, e não tem idéia de como foi difícil chegar até você. Ouvi tantos palavrões, que nunca ouvi antes, sem contar as gatas me dando cotoveladas, mas valeu a pena. Fiz esse sacrifício todo só para dar uma apalpadela em sua bunda...
- Eu me virei para dar um tapa na cara do sujeito que tinha feito aquilo. Se minha sogra não estivesse ali com certeza eu teria te batido.
- Será? Tenho minhas dúvidas.
- Dá próxima vez que vier com essas gracinhas, não terá mais dúvidas.
- Vou pagar para ver. Vamos lá para casa, o Matheus deve ir com a Mari e o pessoal da banda.
Isa não ouviu a última frase de Julia, porque estava com os fixos em uma pessoa, que vinha em sua direção. Não estava acreditando.
Julia notou que Isa não ouviu uma palavra que disse e resolveu olhar na mesma direção. Viu uma mulher se aproximando, de estatura mediana, muito bonita, cabelos compridos e cacheados, a cor dos olhos não conseguiu decifrar pois não enxergava muito bem de longe, vestia uma regata branca e uma bermuda preta. Estava descalça segurando a sandália na mão esquerda. A lua parecia que acompanhava a garota iluminando seus passos e a cada passo que dava se aproximava mais delas. Seu coração foi ficando apertado. Um sorriso ia se formando no rosto daquela mulher que tinha toda a atenção de Isa.
A mulher parou em frente de Isa, a olhou nos olhos, afagou seu rosto, mexeu em seus cabelos. - Você está mais linda do que eu me lembrava! Amei o seu cabelo assim, curto.
Julia estava perplexa com a abordagem daquela mulher. E Isa porque não fez nada? Porque permitiu essa mulher tocar em seu rosto, em seus cabelos? Porque não se afasta dessa idiota, que agora pode notar, tinha olhos verdes. De perto se notava que era realmente linda. O corpo bem definido, por muita malhação.
Isa conseguiu sair de seu estado de choque. - Natália!
- Oi Bel! - ela era a única que chamava Isa assim. - Eu vim pedindo para lua me guiar até você.
Isa finalmente se lembrou de Julia, olhou para ela e viu que estava com os olhos cheios de água.
- Natália o que está fazendo aqui?
- Eu vim te roubar do Matheus. Não teve um dia sequer, que não senti sua falta. Falei com a Mari semana passada, em nossa cidade, e ela disse que iria fazer um show na véspera do ano novo. Sabe como eu sou medrosa, mas tomei coragem e vim atrás de meu único amor nesta vida. Não posso mais ficar sem você, não me importa mais o que vão dizer de nós. Eu tenho vivido morta desde o dia que você foi embora. - E abraçou Isa, que retribuiu com o mesmo afeto que estava recebendo.
Julia ouviu cada palavra e concluiu que aquela mulher não era uma desconhecida. Tratava-se de alguém do passado de Isa. Pela primeira vez teve medo de perder, Isabel.
Continua...