Palavras ao Vento Fernanda |
Capítulo
21
Isabel
sabia que tinha feito bobagem. - Posso falar contigo? Perguntou sem conseguir
olhar direito nos olhos de Julia.
Julia
por sua vez, não disse nada, apenas fez um sinal com as mãos para
que entrasse.
Já
dentro do apartamento, se assustou com a bagunça e sangue por toda à
parte. - O que aconteceu aqui? Você está bem? Aproximou-se
de Julia e quando ia pegar a mão machucada, ela deu um passo para trás.
-
Isabel não me toca. O que quer comigo? Veio falar mais um monte? Eu acreditei
em você todas às vezes, que dizia que confiava em mim, mas não
era verdade, você mentiu, você nunca confiou de fato. Desde que
a conheci não escondi nada, até as minhas más intenções
eu confessei, jamais menti para você nesse pouco que nos conhecemos.
E o que fez hoje pela manhã? Não me deixou explicar nada,
jogou toda a sua raiva em cima de mim. Não sei quem escreveu aquilo,
mas não foi a Adriana.
-
Adriana e Vanessa venham aqui. Gritou Julia.
Isabel
não disse nada, Julia estava certa, não confiou nela. E não
confiou no rapaz, que queria evitar isso, mas como sempre não ouvia
ninguém, acha que está sempre certa.
Vanessa
e Adriana vieram até elas. Isa estava sentada de cabeça baixa.
Julia estava pegando uma bebida.
-
Vanessa diz para essa aí, onde eu dormi!
-
Julia não precisa falar com ela assim, disse Vanessa.
-
Vanessa não se preocupe comigo, disse Isa.
-
Ela dormiu lá em casa, respondeu Vanessa.
-
Eu não escrevi bilhete algum, disse Adriana. Deveria confiar mais nela,
desde que a conheceu nunca mais ficamos juntas. E não foi por falta de
tentativas.
-
Eu disse, que não tinha feito nada, Isabel. Você me magoou tanto.
Todas são iguais, nenhuma mulher vale nada e você é pior
de todas, porque fazem esse gênero de boa moça, íntegra,
com princípios. Tenho pena do Matheus, ele merece mais. Vocês acreditam,
que o noivo dela é virgem, está se guardando para essa aí,
que com certeza não é virgem a muito tempo?!?
-
Julia para com isso, disse Vanessa indo pegar o copo da mão dela, que
já estava no terceiro. Você já está passando do limite.
Ela já entendeu.
Isa
se levantou respirou fundo as lágrimas pingavam por seu rosto. Olhou
para Adriana, que estava de braços cruzados, depois olhou para Vanessa,
que permanecia ao lado de Julia. - Vanessa sabe que não mereço,
mas obrigada por tentar apaziguar a situação.
Julia
você tem razão em tudo, não mereço o Matheus, não
mereço você. Lamento ter confiado em mim.
-
Espero que se lamente mais do que eu.
-
Com certeza. Isa se virou para ir embora.
-
Isabel leva essa porcaria contigo, jogou o relógio que tinha ganhado
dela no chão e o vidro trincou. As quatro olharam para o relógio.
Isa
se abaixou e pegou o relógio. - Gastei meu salário todo com ele.
Não precisava fazer isto. Ela se ergueu, ainda podia sentir a quentura
de Julia no relógio.
Julia
estava na porta. Mantinha-se firme, com os olhos frios e sem nenhuma emoção.
A segurou por um instante e disse no ouvido de Isa que passava por ela: - Não
vou derramar mais nenhuma lágrima por você. Jogou fora o amor,
que eu estava lhe dando.
-
Eu sei. Mas não sou perfeita. Você e o Matheus me vêem como
uma santa. Eu sou apenas um ser humano.
Isa
ao sair sentiu o vento da porta batendo em suas costas e o barulho da mesma,
fazendo seu ouvido estremecer.
-
Julia não precisava dizer tudo aquilo para ela, você vai se arrepender,
disse Vanessa, se sentando.
-
Vanessa ela mereceu, disse Adriana. Não queria deixar transparecer, mas
estava feliz, quem sabe agora teria uma chance real com a morena.
-Vanessa
se está com tanta peninha dela, vai com atrás dela. Disse Julia
pegando a bolsa da amiga e jogando em sua perna.
-
Julia eu vou relevar essa sua grosseria, porque você está bêbada.
Nunca mais faça isto comigo, nem bêbada e nem sã. Sou sua
amiga, mas não tolero desrespeito comigo, entendo o que está passando,
mas não posso concordar com tudo o que faz. Não precisava jogar
na cara dela, que o relógio era uma porcaria. Você sempre teve
dinheiro e não sabe o valor das coisas para as pessoas mais humildes,
é muita coisa, ela comprou o que achou bonito.
-
Vanessa, não quero ouvir mais nada.
-
Você deveria pensar em quem fez isso com vocês. A Isa errou, errou.
Você não ficou atrás, e ainda a humilhou. Disse Vanessa
olhando bem dentro dos olhos de Julia, que no fundo sabia, que sua amiga estava
certa.
-
Vanessa quem errou em não confiar na Julia, foi a Isabel. Disse Adriana.
Eu faria pior, a Julia foi até compassiva com ela.
-
Eu sei Adriana, sei do que é capaz. E sei que deve estar soltando fogos
por dentro.
-
Vanessa, você está louca! Disse Adriana fingindo indignação.
Vanessa
balançou a cabeça negativamente. - Quem você acha que engana?
E encerrou a conversa por ali, não queria arrumar mais confusão.
Isabel
caminhou na forte tempestade que caia. Nem percebia os relâmpagos clareando
tudo à sua volta.
Julia
não ouviu o papo das amigas. Estava na janela vendo a chuva cair. O mar
estava bravo. Olhou na calçada e viu Isa indo embora debaixo daquela
tempestade, caminhando cabisbaixa.
Seu
coração partiu mais uma vez em ver a mulher que ama indo daquela
forma, com a alma dilacerada. Queria correr atrás dela e foi o que fez.
Saiu de seu apartamento, deixando suas amigas falando sozinhas. O elevador não
vinha, odiou morar no último andar. Finalmente chegou e desceu direto
sem parar nos andares. Saiu correndo em direção à rua,
correu pela tempestade, gritando o nome dela, sua voz não conseguiu alcançar
os ouvidos de Isa e, desistiu quando a viu entrando em um ônibus e ali
ficou. Caiu ajoelhada e chorou.
O
ônibus parou. Isa entrou e sentou-se no último banco do lado da
janela. Encostou a cabeça no vidro, nada se podia ver do lado de fora, os vidros estavam embaçados.
Tinham
poucas pessoas no ônibus. Uma mulher falando no celular. Dois homens que
dormiam. Uma mãe com dois filhos pequenos. E o resto, perdidos em seus
pensamentos, como ela.
Olhou
para o relógio, ainda funcionava, nele estava impregnado o cheiro da
médica. Ele estava como seu coração, partido, e mesmo assim
continuava batendo.
Alguém
ligou um rádio de pilha, não muito alto, mas o suficiente para
todos ouvirem e começou a tocar: Sem ar. Isa estava alheia a tudo
a seu redor, mas a música a despertou e passou a prestar atenção
na letra: parecia ter sido escrito para ela.
Sem ar - D' Black
Meus pés não tocam mais o chão
Meus olhos não vêem minha direção
Da minha boca saem coisas sem sentido
Você era o meu farol e hoje estou perdido
O sofrimento vem à noite sem pudor
Somente o sono ameniza minha dor
Mas e depois? e quando o dia clarear?
Quero viver do teu sorriso teu olhar
Eu corro pro mar pra não lembrar você
E o vento me trás o que eu quero esquecer
Entre os soluços do meu choro eu tento te explicar
Nos teus braços é o meu lugar
Contemplando as estrelas minha solidão
Aperta forte o peito é mais que uma emoção
Esqueci do meu orgulho pra você voltar
Permaneço sem amor, sem luz, sem ar
Perdi o jogo e tive que te ver partir
E a minha alma sem motivo pra existir
Já não suporto esse vazio quero me entregar
Ter você pra nunca mais nos separar
Você é o encaixe perfeito do meu coração
O teu sorriso é chama da minha paixão
Mas é fria a madrugada sem você aqui
Só com você no pensamento
Eu corro pro mar pra não lembrar você
E o vento me trás o que eu quero esquecer
Entre os soluços do meu choro eu tento te explicar
Nos teus braços é o meu lugar
Contemplando as estrelas minha solidão
Aperta forte o peito é mais que uma emoção
Esqueci do meu orgulho pra você voltar
Permaneço sem amor, sem luz, sem ar
Meu ar, meu chão é você
Mesmo quando fecho os olhos
Posso te ver!
Eu corro pro mar pra não lembrar você
E o vento me trás o que eu quero esquecer
Entre os soluços do meu choro eu tento te explicar
Nos teus braços é o meu lugar
Contemplando as estrelas minha solidão
Aperta forte o peito é mais que uma emoção
Esqueci do meu orgulho pra você voltar
Permaneço sem amor, sem luz, sem ar
Julia
continuava no chão enquanto a chuva caia sobre si misturando-se às
suas lágrimas. Queria que Isa experimentasse a mesma dor que sentiu,
e conseguiu. Mas arrependeu-se naquele momento por ter sido tão dura
com o amor de sua vida.
Continua...