Palavras ao Vento

Fernanda

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 Capítulo 22

Dentro de um carro, Hérica se divertia com o sofrimento das duas mulheres, viu tudo. Isabel indo embora tristemente, e Julia correndo desesperada. Sentiu-se satisfeita, pois seu plano foi um sucesso. Desde que saiu da casa da médica passou a seguir todos os  passos da loirinha, que sempre levavam para Julia. Era uma mulher muito experiente, sabia que entre as duas existia algo a mais do que simples amizade. Partindo disto, resolveu se vingar de Isabel p or ter-lhe tirado Julia e ainda pelo olho roxo que ganhou da loirinha. Seu temperamento explosivo poderia acabar com a relação delas. Foi nessa fraqueza que Hérica apostou suas fichas e ganhou a princípio.



- É impressionante, eu me livro de uma e já tem outra na parada. Disse Hérica para si mesma, ao ver Adriana indo até Julia.

 

- Julia. 

 

Adriana estendeu a sua mão para que a morena pegasse.

 

-  Julia venha comigo. Eu vou cuidar de você.

 

Julia pegou a mão de Adriana e se levantou. Voltaram em silêncio para o apartamento da morena.

 

Isa chegou em casa cansada, triste e com frio também. A roupa molhada já lhe causava calafrios. Seus sogros não estavam, o que para ela foi um alívio, não queria ter que explicar nada a dona Conceição, porque com certeza estava de olho nela, afinal, suas atitudes não estavam sendo as mais normais.

 

Ouviu um barulho no q uarto de Mari e ficou com medo, será que havia entrado algum ladrão na casa. E foi pé ante pé até o quarto, seu coração estava quase saindo pela boca, de medo, e  mesmo assim aventurou-se indo até lá.

 

- Quem está aí? Gritou se aproximando do quarto. Segurando forte um guarda-chuva, na altura da cabeça, qualquer coisa daria uma guarda-chuvada na cabeça da pessoa.

 

- É o bicho papão! Respondeu a pessoa de dentro do quarto.

 

Ao reconhecer a voz, Isa abriu mais a porta e entrou.

 

- Mari, o que está fazendo aqui? Eu me assustei, achei que tinha entrado um ladrão.

 

- Eu te liguei para dizer que estava voltando. E sua sogra disse que você estava trancada no quarto, desde cedo. E sabe como ela é Isa, não te deu o recado. Quando cheguei ela estava saindo com seu José, disse que iriam à igreja orar pela saúde de seu filho e por você que estava com a cabeça virada. 

 

Isa ouvia sua amiga silenciosamente, o único som emitido por ela, era de seus dentes batendo de frio.

 

Mari parou te falar, olhou para sua amiga. Nunca a viu daquela forma, não era pelas roupas molhadas, o seu olhar melancólico a assustou. Seu rosto não expressava nada, mesmo que contasse uma piada, ou algo triste, sua expressão continuaria a mesma. 

 

Mari foi até a amiga, tocou o seu rosto frio e molhado e perguntou: - Isa o que está acontecendo? Mas antes, vai tomar um banho e tirar essa roupa. Porque vai acabar doente.

 

A única resposta de Isa à sua amiga foi uma furtiva lágrima caindo de seu olho esquerdo. Abaixou a cabeça e foi para o seu quarto.

 

Doeu vê-la tão mal, será que o Matheus terminou com ela? Com certeza ela não ficaria assim. É outra coisa. Ainda bem que voltei, pensou Mari indo para a cozinha, mesmo não sabendo como ajudar sua melhor amiga.



Isabel entrou no banho. Mari achou melhor fazer um chocolate quente para Isa, que não estava bem. Conhecia sua amiga, desde a última conversa percebeu que estava acontecendo algo, que Isa não queria dividir com ela. Sabia que não seria fácil, porque Isa se fecha e isso torna difícil até para ela entrar no mundinho instrospecto de Isabel, onde guarda seus segredos e medos.



Julia chegou em sua casa e foi para o seu quarto tirar aquela roupa molhada. Vanessa já tinha deixado outro pijama em cima da cama. Vestiu-se mecanicamente e se deitou. Queria que Lucas estivesse ao seu lado, só ele sabia como cuidar dela.

 

Lucas estava no quarto com ela, mas não podia fazer nada além de ouvir os pensamentos de sua irmã. Isso era uma das coisas que a morte lhe proporcionava, mas também o deixava triste e fraco. Aproximou-se da cama de Julia e sentou-se a seu lado. Queria acariciar o rosto dela, e dizer que estava com ela. Não podia aparecer para ela, porque já tinha se materializa do para Isa, e isso o deixava sem energia. E mesmo assim continuou ali com sua irmã até ela dormir.

 

- Julia, disse Vanessa entrando no quarto, mas ao ver sua amiga dormindo, achou melhor não acordá-la. Apagou a luz e saiu.

 

- Drica ela dormiu. Queria poder ficar esta noite com ela, mas tenho que ir. O Julio não dorme enquanto eu não chegar, e já está passando da hora dele dormir.

 

- Nêssa, pode ir sossegada. Se ela precisar de alguma coisa, eu estarei aqui e vou cuidar dela. Não sei quando começou, mas eu me apaixonei por ela. Tenho me entregado a outras mulheres para esquecê-la, mas não adianta.

 

- Drica não se iluda. A Julia pode até ficar com você por um tempo, mas vai acabar voltando para a Isabel, e isto vai ser pior para você.

 

- Eu sei Vanessa, mas enquanto isso não acontecer, vou aproveitar o que ela puder me dar.

 

- E não acha isto pouco? Perguntou Vanessa já do lado de fora do apartamento.

 

- Acho, respondeu Adriana com tristeza.

 

- Bom amiga, não vá se machucar demais com esta história, disse e se despediu de Drica com um beijo e um abraço apertado.

 

- Vai com Deus Nessa, e não se preocupe vou cuidar dela.

 

O telefone tocou e Mari saiu correndo para atender, deixando o leite no fogo.

 

- Alô

 

- Mari, você voltou. Pensei que passaria o fim de ano em nossa terrinha. Disse Matheus. Adorei o sms que me mandou.

 

- Eu cheguei agora a pouco debaixo de um temporal. E como você está? Matheus tenho uma novidade para contar: eu fiquei noiva.

 

- Mari, parabéns! Fiquei super feliz. Quem sabe não casamos no mesmo dia. Mas acho que vai ter que ser logo.

 

- Meu amigo, nem curti o meu noivado e  você já me quer casada... Assim não dá, brincou Mari. Se fosse para me casar contigo, eu casaria agora, pensou. E porque disse que tem que ser logo?

 

- A Isa não te falou? Ele encostou a cabeça no orelhão, puxou uma respiração lá do fundo de sua alma, ficou quieto por mais um segundo, depois disse: Eu estou morrendo. Vou fazer o possível para prolongar mais o meu tempo junto de vocês, mas se demorar muito pra casar, é provável que eu não possa ir.

 

Mari não conseguiu permanecer de pé e sentou-se, o seu corpo começou a tremer dos pés a cabeça. Ela sabia que ele tinha um tumor, mas não sabia que era tão grave. Deixou o telefone cair de sua mão. Não podia acreditar no que acabara de ouvir, o homem que sempre amou estava morrendo. 

 

- Matheus você está brincando comigo? Perguntou já chorando. Não, não posso acreditar nisso, nunca mais brinque comigo desta forma, diz que é brincadeira?

 

Matheus ficou mudo do outro lado da linha. Não podia dizer que era brincadeira, até queria que fosse, mas não era.

 

- Matheus você não pode me de ixar! Foi a primeira vez que ela deixou transparecer que sentia algo por ele. Mas teve que consertar - Não pode nos deixar.

 

- Mari eu não quero, mas meu Senhor tem outros planos para mim.

 

- Esse seu Senhor é uma farsa, não pode levar você de nós, deveria te curar, e não tirá-lo das pessoas que o amam. Eu não aceito isso, Matheus, não é justo. Não com você, tem tanta gente ruim no mundo, porque esse seu Deus não leva essas pessoas, que não fará falta alguma no mundo?

 

- Mari não fica assim, eu não deveria ter te contado. Desculpa tenho que ir. Estão me chamando para tomar remédio. Acabou nem perguntando pela Isa. Mari tinha uma certa razão, acabou se questionando.

 

Mari começou a sentir cheiro de fumaça vindo da cozinha. Lembrou-se da caneca de leite no fogo e foi correndo, mas chegou tarde, havia derramado tudo no fogão.

 

- Que droga, olha a sujeira que ficou!  Exclamou Mari muito nerv osa. Nesse instante, Isa aparece na cozinha e Mari vai ao seu encontro, a abraçando com tanta força, que quase a sufoca.

 

- Isa, agora eu sei porque está assim, olha como estou também, Isa olhou para as mãos trêmulas dela, porque não me disse? Porque guardou isso para você? Isa não estava entendendo nada. E não sabia o que responder. -Acabei de falar com o Matheus ele me contou tudo.

 

- Contou? Indagou Isa.

 

- Sim. Disse que está morrendo. Eu não consigo acreditar nisso. E começou a chorar novamente. "O MATHEUS NÃO PODE MORRER."  Não Pode, não pode, eu não quero perdê-lo. Falava entre lágrimas e soluços.

 

Isa sentiu a dor de sua amiga, e percebeu que Mari gostava de Matheus mais que um amigo. Porque sua tristeza era a de saber que seu amor estava morrendo e não poderia fazer nada, tinha que esconder esse sentimento, mas nesse momento não conseguia. E Isa achou melhor não dizer nada sobre isso. Ac abou confortando a amiga em seus braços.

 

Quando Mari ficou mais calma, Isa começou a falar.

 

- Mari a Julia vai cuidar dele. Ela gosta muito do Matheus, e sei que vai fazer o impossível para não deixá-lo ir. Confie nela.

 

- Você confia nela?

 

Isa pensou por uns instantes e abaixou a cabeça e disse:

 

- Ela sempre quis que eu confiasse, mas meu coração desconfiado não me permitiu. Pode sim, ela é uma médica excelente e ama o que faz.

 

- Isa eu sabia que alguma coisa não estava bem, por isso voltei. Comecei a sentir uma angústia no peito e uma vontade de voltar para casa, que tomou conta de mim.

 

- Que bom que voltou, porque estou precisando muito de você.

 

Matheus voltou para o seu quarto e começou a orar. "Meu senhor estou com tanto medo. Quero confortar as pessoas para que entendam que minha doença é porque o senhor quer algo maior para mim. Eu não quero d eixar as pessoas que amo. Posso estar sendo egoísta, meu senhor,  mas me sinto um menino diante disso."  Seu celular tocou.

 

- Alô!

 

- Oi, meu querido. Desculpa não ter ido te ver hoje. Não seria uma boa companhia.

 

- Isa não se preocupe, sei que está sendo difícil, acho que só agora que estou me dando conta de meu estado. Quando contei para a Mari, a ficha caiu. Não vou poder ter um filho com você, sempre sonhei em ter uma menininha linda como você, loirinha e de olhos azuis como os meus, e com seu jeitinho meigo. Seus olhos estavam marejados.

 

- Matheus não fique assim me parte o coração.

 

- Isa, não posso fingir de forte, porque estou arrasado. Sonhei tantas coisas para nós.

 

- Matheus, não vou permitir que pare de sonhar. Eu vou estar ao seu lado.

 

- Isa eu precisava tanto ouvir isso de você.

 

Conversaram mais um pouco e Isa desligou. Mari estava largada no sofá, com um rolo de papel higiênico na mão, assoava o nariz e jogava o papel no chão. Isa deu uma olhada para a amiga e resolveu deixá-la curtir seu sofrimento consigo mesma. Foi para o seu quarto.

 

Não tinha com quem desabafar, pois ninguém sabia de sua paixão pela médica. Queria esquecer cada uma das palavras de Julia, a raiva, o desapontamento que viu nos olhos azuis da médica, mas sua cabeça fazia questão de lembrá-la a cada instante. Dizia para Julia que confiava nela, e menti. Ao menos deveria ter dado um voto de confiança a ela. Porque faço tudo errado? Porque não tenho paciência? Porque sempre arruíno tudo o que gosto? É porque sou uma pessoa ruim bancando a boazinha para arrasar as pessoas que me amam. Não tenho amor dentro de mim. Foram seus últimos pensamentos antes de dormir.

 

Continua

Parte 23

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