Palavras ao Vento Fernanda |
Capítulo 20
Vanessa olhou para o relógio, já passava
das 4 da tarde e não conseguia falar com sua amiga. Sua preocupação
aumentava a cada hora e, ainda tinha convidados em casa.
- Carlos, a Julia não atende ao telefone, nem
o celular. Eu tenho que ir vê-la. Estou com o coração apertado.
E abraçou o marido.
- Vai meu amor. Eu fico com o pessoal. Qualquer coisa
me liga.
Vanessa deu um beijo em Carlos e saiu em seguida.
No caminho ligou para Isabel. �Podem estar juntas. Julia quando está
com alguém sempre desliga o celular�.
Isa ouviu o seu celular tocar e foi atender. Não
conheceu o número, mas atendeu.
- Oi,
- Isabel!
- Quem é? Perguntou Isa.
- Vanessa. Desculpa estar ligando, a Julia está
com você? Estou tentando falar com ela a tarde toda e não consigo,
antes do almoço falei com ela e estava estranha.
- Ela não está comigo. É melhor
você procurá-la na casa da Adriana.
- Porque ela estaria com a Adriana? Perguntou Vanessa.
- E pergunta para mim? Conhece a sua amiga muito melhor
do que eu.
- Conheço, mas não acredito que ela
esteja com a Adriana. Ela deixou a Adriana falando sozinha ontem à noite
e foi ficar com você. Obrigada mesmo assim e desligou o celular. Ligou
imediatamente para Adriana.
- Oi, Nêssa!
- Drica, a Julia está com você?
- Não, bem que eu queria. Não a vejo
desde ontem à noite na sua casa. O que aconteceu?
- Não estou conseguindo falar com ela.
- Ela deve estar com a Isabel?
- Não está. Ela falou que poderia estar
contigo.
- E por quê?
- Não sei. Depois eu te ligo. Estou chegando
na casa da Julia.
- Nêssa, eu estou indo aí. Fiquei preocupada.
- Luana, vou ter que ir à casa de uma amiga,
parece que ela não está bem.
Adriana se levantou da cama e foi direto para o banho,
deixando a moça na cama para ir atrás de Julia.
Isa não queria, mas sentiu certa preocupação.
Começou a andar de um lado para o outro. Pegou seu celular e ligou para
sua chefe. Iria ter a confirmação que Julia estava com a Adriana.
- Oi, Isabel.
- Oi, Adriana. A Julia está com você?
Não precisa mentir para mim. Se ela estiver não me importo. É
que a Vanessa está preocupada, e não sabe onde ela está.
- Isabel eu não tenho motivos nenhum para mentir
para você. Não vejo a Julia desde ontem. Fomos passar a véspera
de Natal na casa da Vanessa, só que ela foi embora antes da meia noite.
E estou indo para casa dela agora, a Vanessa está indo também.
Se tiver notícias liga. Tenho que ir.
Isa começou a achar que Julia tinha falado
a verdade. Vanessa e Adriana falaram a mesma coisa. Meu Deus porque eu não
acreditei nela! O que eu fiz. E aquele bilhete, tinha o nome de Dri. Talvez
fosse outra, Julia tem muitas amiguinhas. Algo dentro dela não queria
aceitar a verdade, que poderia ter cometido o maior erro de sua vida. Mas tinha
que acreditar naquele bilhete, Julia tinha que ter passado a noite com essa
tal de Dri. Porque nunca mais se perdoaria por ter ferido a mulher que ama.
- Julia abre a porta. Você está aí?
Sou eu Vanessa! Julia não respondia, estava com o dedo doendo de tanto
apertar a campainha. O nervoso era tanto que esqueceu que Julia havia dado uma
chave do apartamento para ela.
- A chave! Começou a revirar sua bolsa atrás
das chaves, que mais parecia aquela bolsa do gato Felix, tinha de tudo. Jogou
todas as coisas no chão e acabou encontrando a bendita chave. �Bem que
a Julia me fala para eu não carregar minha casa inteira aqui dentro�,
ia falando enquanto recolocava os pertences na bolsa.
Abriu a porta, olhou a sala e encontrou Julia no chão.
Quase teve um treco, deixou a bolsa cair e, seu medo foi tanto que Julia estivesse
morta, que seus pés grudaram no chão.
Mentalmente se instruía: - Vanessa vai até ela. Você consegue!
Eu consigo. E começou a dar os primeiros passos
e logo estava diante de sua amiga.
Não tinha coragem de tocá-la. Começou
a falar � Julia você está dormindo.
Eu to passando mal, a médica aqui é você e não eu.
Viu uma garrafa vazia e tacou no chão.
Com o barulho Julia se assustou e acordou.
- Julia você está viva! Falou Vanessa
desesperada. Conseguiu sair da inércia que se encontrava, se jogou no
chão e foi abraçar sua melhor amiga. � Pensei que você estivesse morta. Eu fiquei
paralisada ao ver sangue. Desculpa a sujeira que fiz, e olharam para os cacos
de vidros pela sala.
Julia não estava entendendo nada, ainda continuava
bêbada.
- Julia o que aconteceu? Onde se machucou? A médica
estava com um corte na mão, e o sangue ficou em tudo o que ela tocou.
Venha precisamos cuidar disto, me ajuda, porque não agüento te levantar
sozinha.
- Van eu só tenho você. Só você
que gosta de mim. Só você acredita
- Eu te conheço, Julia. Mas agora vamos para
o seu quarto � NOSSA! - Você quebrou o seu quarto inteiro. Aqui não dá
para ficar vai acabar cortando os pés também;
Foram para o banheiro. Colocou a amiga de roupa e
tudo debaixo do chuveiro e ligou na água fria.
- Vanessa porque está fazendo isto comigo?
Abaixou a cabeça e começou a chorar.
Vanessa não agüentou, entrou na água
e abraçou sua amiga, às vezes um abraço consola mais, que
mil palavras.
Quando estava um pouco melhor Julia falou: - Van,
nós vamos pegar um resfriado daqueles, ainda vou ter que cuidar de você.
- Eu estava pensando nisso, podemos sair daqui? Sua
amiguinha aqui está gelada.
- Acho que sim. Tinha melhorado um pouco da bebedeira,
já conseguia pensar como médica.
As duas saíram da água fria e foram
se enxugar.
- Juli vai para o quarto de hospedes porque o seu
não dá para entrar, vou pegar uma roupa para nós.
Quando Vanessa voltou Julia tinha deitado na cama.
Já tinha visto a amiga mal, mas daquela forma, nunca.
- Julia veste seu pijama. Peguei essas roupas aqui
para mim, ficou enorme. Ela vestiu uma camiseta de manga comprida, que ficou
muito longa e uma calça de moleton, a calça até ficou boa
na cintura, mas as pernas teve que dobrar algumas vezes...
- Van você está horrível...rss.
- Muito obrigada, eu estava linda, mas tive que consolar
minha amiga. Juli vai me contar o que aconteceu, o que está acontecendo,
quando entrei aqui e te encontrei no chão, sangue pelas paredes, no chão,
eu quase tive um enfarte, pensei que tinha te perdido. Eu falava contigo e não
respondia, meu corpo não saia do lugar. Nunca mais faça isso comigo,
deu um soquinho no braço de Julia.
- Desculpa, Van. Quando cheguei de sua casa, a Isa
estava aqui e nos encontramos no elevador. Fiquei tão feliz de vê-la,
mas ela me tratou tão mal, me magoou tanto, pensei que confiasse em mim,
mas ela acredita em qualquer bobagem. Tinha um bilhete estranho na minha porta
e ela leu. Foi pouco. E o pior que não sabia o que tinha feito. Só
quando fui entrar que vi o papel. A Adriana não podia ter feito aquilo.
- O que a Adriana fez?
- Escreveu o bilhete que a Isa leu.
- Depois que você foi embora, a Adriana ligou
para uma amiga, que veio ficar com ela e saíram juntas, acho que se chamava
Luana.
- Eu disse para a Isabel que eu não tinha dormido
com ninguém, mas ela não acreditou. Quando acha que está
com a razão não deixa ninguém se explicar. Eu vou provar
para ela, que não fiz nada errado, mas não posso perdoá-la.
- Eu vou falar com ela Julia. Disse Vanessa.
- Não. Nisso a campainha tocou.
- Deve ser a Adriana.
- O que veio fazer aqui?
- Eu liguei para ela atrás de você. A
Isabel me disse que poderia encontrá-la com ela. Ficou preocupada e disse
que viria.
- Oi Drica, disse Vanessa ao abrir a porta.
- Oi, Nêssa, o que aconteceu aqui? Onde está
a Julia? Ela está ferida? Que sangue é esse? Entrou algum bandido
aqui? E que roupas são essas? Disparou mil perguntas para a amiga.
- Calma Drica, ela está bem, bebeu umas a mais
quebrou umas coisas e acabou se cortando. Vai ficar com ela no quarto, que vou
fazer um chá estamos precisando de algo quente.
Já tinha anoitecido, Isa saiu decidida. Tinha
que falar com Julia; pedir desculpas, se é que ela aceitaria. Não
quis ir andando e pegou um ônibus, que a deixou bem perto do apartamento
de Julia. Chegando próximo do edifício sua coragem foi ficando
mais distante. Voltou a se sentar no mesmo banco, que dava de frente para as
janelas do apartamento dela. Estava todo iluminado, podia ver sombras passando.
Sua cabeça pedia que subisse, mas seu coração dizia para
não ir.
E sem perceber um rapaz muito bonito, olhos claros,
cabelos castanhos claros, alto, tinha toda a pinta de surfista, sentou-se ao
lado dela.
- Oi.
Isa estava alheia a tudo a sua volta, e acabou se
assustando.
- Desculpa, me assustei.
Ele sorriu e disse, não tem problema. Eu ficaria
assustado se você não se assustasse.
- Não entendi!
- Esquece. Eu me chamo Lucas. E você?
- Isabel.
- Eu gosto de seu nome.
- Eu também gosto, respondeu ela.
- Você melhorou? Perguntou ele.
- Como assim? Indagou com olhos de surpresa.
- É que pela manhã eu a vi chorando,
neste mesmo banco. E não tirava os olhos daquele edifício, se
virou e apontou com o indicador. Eu estou sempre aqui na praia e não
pude deixar de observar uma linda mulher chorando. E achei que não seria
o momento de me aproximar.
- Olha Lucas! Não estou interessada. Estou
com muitos problemas e não sei como resolver, a última coisa que
estou querendo, é receber cantadas baratas de alguém que não
conheço.
- Calma, gata! Não quero nada, só conversar.
Esse seu defeito, só lhe causa problemas, pensou o rapaz. Hoje não
foi a primeira vez que eu a vi.
- Não? Perguntou só por perguntar, não
estava interessada
- Faz algum tempo que a observo. Mas não fique
com medo, não sou nenhum tarado. Disse e olhou para ela, que olhava o
mar.
- Ainda bem que não é um louco! Respondeu
Isa continuando com seu olhar fixo no mar, que ainda continuava agitado. O céu
prometia uma intensa chuva.
- Sempre vinha no final da tarde, com suas folhas
de papel e caneta,
ficava perdida em suas palavras,
e só ia embora quando a noite a impedia de ver suas anotações.
- Eu vinha escrever poesias, o mar me inspira. Resolveu
olhar para o rapaz para ver se lembrava de tê-lo visto alguma vez. � Eu nunca vi você por aqui!
- Eu gosto de observar as pessoas de longe.
- Estou percebendo, já que nunca o vi. Isa
não queria conversar, mas o estranho rapaz ficava puxando papo, e isso
ia minando sua coragem de atravessar a rua e ir falar com Julia.
- Isabel, eu também gostava de poesias.
- E não gosta mais?
- Gosto, mas agora é complicado, já
não posso escrever, apenas inspirar.
- Lucas, você é muito estranho. Eu deveria
estar com medo de você. Mas ao contrário, não estou. Você
me passa uma paz. Geralmente eu adoro conversar, mas hoje não estou
muito a fim.
- Eu sei, gata. Vou te contar um segredo. Eu sei quem
achou a sua poesia.
Agora sim ele conseguiu prender a atenção
da loirinha. Que o olhou com curiosidade.
- Quem foi? Aquela poesia é especial. Parece
que um anjo a soprou em meus ouvidos. Ela olhou fundo nos olhos verdes do rapaz:
Foi você, que achou?
Lucas sorriu e disse: Não fui eu, mas alguém
que amo muito. A poesia não era para você. Mas a pessoa, que leu,
essa sim, é pra você.
- Lucas me explica direito, não estou entendendo.
Me diz quem foi!?
- Não posso, Isa. Você vai descobrir
quando for a hora. Agora vou ter que ir embora. Eu te levo até o ponto.
- Lucas eu não vou embora. Tenho uma coisa
para fazer. Disse olhando para a janela de Julia.
- Isabel, hoje não. Vamos. Eu lhe acompanho.
- Quem é você para dizer o que devo ou
não fazer? Eu o conheço somente há 10 minutos, e isso não
lhe dá o direito de dizer o que é bom ou ruim para mim.
- Eu sou um amigo que quer apenas te ajudar. Confie
em mim! Ele estendeu a mão para ela.
Isabel apenas olhou a mão dele estendida e virou as costas seguindo para onde não deveria
ir.
- ISABEL NÃO FAÇA ISSO! Gritou o rapaz,
com uma profunda tristeza, sabia o que ia acontecer. Porque nunca ouve ninguém?!?
- Lucas você fez o que pode. Você vai
ter outras oportunidades. Ela fez a sua escolha. Não podemos interferir,
sabe disso, disse o homem ao lado de Lucas. Vamos. E os dois desapareceram na
escuridão.
Isabel levou 5 minutos para chegar até o apartamento
de Julia. Foi decidida, apesar da negativa daquele estranho. Porque deveria
ouvi-lo? Não tinha e não o fez. Tocou a campainha e esperou. A
porta finalmente foi aberta. E deparou-se com um par de olhos azuis bem frios
olhando para ela.
Continua....