Palavras ao Vento

Fernanda

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 Capítulo 19

 

 Aquele dia de Natal estava sendo o pior de toda a vida delas.

 

Isa voltou para a casa, se trancou no quarto, e não se importou com as batidas na porta de sua sogra.

 

- Zé, eu não sei o que deu na Isabel. Meu velho, se nosso filho decidir casar com essa moça, vai se arrepender. Porque a cada dia me convenço, que ela não é mulher para ele. O Matheus não vê o que está diante de seus olhos.

 

- O que você está falando Ceição? Perguntou o pai de Matheus, que não estava prestando atenção no que dizia sua mulher.

 

- Esquece, continua vendo sua televisão. E saiu irritada para a cozinha. Vou fazer alguma coisa para nós comermos. Afinal era Natal e não podiam comer pão com mortadela.

 

 

 

O telefone tocou.

 

- Juli você não vem almoçar? Está todo mundo te esperando.

 

- Podem almoçar sem mim.

 

- Julia o que aconteceu? Está chorando?

 

- Eu não vou à sua casa hoje, quero ficar sozinha. Outra hora conversamos.

 

Antes que Vanessa pudesse falar, Julia já tinha desligado o telefone.

 

- O que foi mulher, perguntou o marido de Vanessa, pela cara que estava. - A Julia não vem?

 

- Não, vamos almoçar. Vanessa sentiu que algo muito grave havia acontecido com sua melhor amiga. Mas como tinha convidados, não podia ir vê-la.

 

 

 

- Alô!

 

- Mãe!

 

- Oi, filha.

 

- Oi, mãe. Como a senhora está? E o pai? Minha irmã?

 

- Estamos todos bem! E você como passou a noite de Natal?

 

- Passamos no hospital com o Matheus. Foi bom!

 

- Está triste, filha?

 

- É estou, mas não se preocupe, vou ficar bem.

 

- Você queria estar aqui com a sua família. Eu também fico triste por não te ter aqui. Mas seu noivo está precisando de você.

 

- Ele precisa.

 

- Filha, não é só isso, o que está acontecendo?

 

Parece que as mães têm um radar.

 

- Nada mãe, eu liguei para desejar Feliz Natal. Manda um beijo para o pai e para minha maninha. Agora tenho que ir almoçar.

 

- Filha a Mari chegou aqui, quer falar contigo. Fica bem, a mãe te ama muito!

 

- Eu também te amo, beijo.

 

- Fiquei esperando você me ligar à noite e nada. Que andou aprontando?

 

�Essa nem é mãe e já tem radar�, pensou Isa.

 

- Eu não aprontei nada, Mariana.

 

- Isa o que foi? Só me chama de Mariana  quando está brava comigo, ou quando está com algum problema e não quer me contar.

- É o Matheus, ele piorou? Fale-me o que aconteceu com ele.

 

- Que preocupação exagerada pelo meu noivo é essa? Dá até para pensar que você... ele está bem.

 

- Isabel, você está insinuando que eu... Você está louca! Era verdade, Mariana gostava de Matheus desde menina, mas como ele sempre gostou da Isa, teve que guardar esse sentimento só para si. Apesar de ter ficado noiva, no fundo ela queria que o noivo fosse outro. � Quando você quiser conversar direito, me liga. Agora vamos acabar brigando sem motivos, beijo te amo.

 

Isa desligou o telefone, mas ficou com ele na mão e teclou um número que já conhecia de cor.

 

- Alô, alô, quem é? Estou ouvindo sua respiração. Fala.

 

Isa ouvia a voz de Julia e sentia o calor de suas lágrimas escorrendo por seu rosto.

 

- Isa fala comigo. Eu sei que é você. Eu não fiz nada, não dormi com ninguém. Eu Amo Você! Tem que acreditar em mim. Julia mal conseguia acabar as frases, seu choro era tão sofrido que Isa não conseguiu ouvir mais nada e desligou.

 

- Porque você fez isso comigo, Julia? Não consigo acreditar em você. Sentou-se no chão encostada em sua cama, abraçou suas pernas e continuou a chorar.

 

 

- Porque ela não acredita em mim, gritava pelo quarto irritada quebrando o que via pela frente. Saiu deixando o quarto todo quebrado, cacos de vidros pelo chão. O telefone foi o que mais sofreu, com a raiva que o lançou na parede, não sobrou nada.

 

Foi para a sala e pegou a primeira garrafa de bebida que encontrou, abriu e começou a beber. Quarenta minutos depois já estava bêbada. A tristeza virou raiva. A dor virou ódio.

 

Ia provar sua inocência para aquela ingrata, e depois nunca mais falaria com ela. A primeira vez que estava sendo totalmente honesta com alguém e é tratada daquela maneira. Nunca dei motivos para ela não confiar em mim. Até quando eu queria só me divertir com ela?!? Eu fui sincera. Será que não percebeu o quanto mudei, e ainda acha que eu ia dormir com alguém, depois que nos beijamos?!? Foi o momento mais lindo de toda a minha vida! Não sentiu que eu sou sua Isabel? Não!!! Você não merece o meu amor, sua  idiota.

 

Tentou se levantar do chão e tudo rodou em sua volta, mesmo assim pegou outra garrafa de wisky. A bebida descia queimando sua garganta.

 

 

 

Isa se levantou, foi para o seu computador e começou a digitar tudo o que estava sentindo:

 

Especial

 

Quieta em um canto,

Vendo o tempo passar,

Lembrando velhos momentos que fazem o mesmo voltar,

Sentindo o vento suave,

Levando meus pensamentos,

Trazendo de volta a saudade, e o sopro de um sentimento.

 

Relembro desejos antigos, sinto o calor de viver,

Vejo seu rosto tão lindo, que de novo me faz renascer.

És assim... um ser sublime, que se move como o vento mudando de lugar meus sonhos,

Transformando o meu mundo inteiro, fazendo morada em meu ser.

 

Sozinha, em um canto... me ponho a pensar...

Em como? você, por encanto, soube meu amor conquistar.

Por isso meu doce viver, me encontro sozinha, quieta em um canto,

O sol tornou-se tão frio, pois espera seu lindo semblante para torná-lo tão quente e tão vivo.

Aguardo seu brilho de lua, que ilumina o meu viver, nas noites tão frias e escuras que me fazem tão frágil e nua, sempre e sempre te querer.

 

Minhas palavras agora são suas,

pois cativastes o meu ser,

Tens contigo meus mais profundos desejos, e sempre irás os ter.

E não sabes tu o porque? Agora és dona de meus pensamentos de meus sonhos jogados ao vento, do meu tempo e saudade,

Do meu canto,

Quieta.

És minha saudade assim tão banal, és meu ser completo e total, és meu amor mais puro. Especial.

 

 

O Natal que começou sendo o melhor de todos acabou numa tristeza sem fim. Não saiu do quarto o dia todo, nem para visitar o seu noivo, não queria saber de ninguém, apenas queria ficar sozinha.

 

 

E sozinha também estava Julia, naquele enorme apartamento, chamando por seu nome baixinho, �Isa, Isa, Isa eu amo você�!

 

Parte 20

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