Palavras ao Vento

Fernanda

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 Capítulo 17

 

 

- Não quer mesmo que eu fique, filho? Perguntou Conceição. Já era 1:15 da madrugada.

 

- Não mãe! Estou bem. Qualquer coisa que eu precisar chamo as enfermeiras. Podem ir para casa descansar, é o que quero.

 

- �Isa, obrigado por estar sempre ao meu lado. Nunca esqueça que eu a amo�. Ao dizer isso, Matheus a trouxe para mais perto, beijando-a ternamente. �Que bonitinha, ficou vermelha�! Brincou. �Vai com Deus, meu amor�.

 

Julia abaixou a cabeça para não presenciar a cena. O ciúme cresceu dentro dela e, apesar de tudo sabia que teria que respeitar. Não podia arrancar o seu amor dos braços dele.

 

Isa ficou constrangida por Julia estar no quarto. Sentiu-se mal com tudo o que estava acontecendo. Sabia que nenhuma das duas tinha culpa do quê estava acontecendo. Já se iludira uma vez, e o medo de estar cometendo o mesmo erro, a deixava sem chão. �Matheus não merece uma segunda traição, ainda porque sua saúde, não é das melhores�. Naquele momento, virou-se e olhou para Julia.

 

-Descanse meu amigo. Amanhã não virei. Começaremos seu tratamento ainda esta semana. Então fale com eles.

 

- Tudo bem doutora, falarei. Tchau!

 

- Esperem uns minutinhos, vou pegar minhas coisas e os levo para casa.

 

- Não precisa doutora, disse seu José. Pegamos um táxi.

 

- Faço questão.

 

Isa não conseguia mais olhar para ela, sem sentir seu coração aos saltos, estava se apaixonando e sabia que era correspondida.

 

Os quatros foram embora em silêncio, enquanto Isa olhava pela janela o tempo todo.

 

O que aconteceu, porque Isa se distanciou? Julia não entendia, ainda a sentia em seus braços, o cheiro de seu perfume. De vez em quando, de relance olhava para ela, mas seu olhar não era correspondido. Sentiu seu coração doer, porque estavam tão bem e agora já não sabia de mais nada. Julia foi estacionando o carro na frente da casa de Isa.

 

- Dra. Julia obrigado pela carona, disse o pai de Matheus, e foi seguido por sua senhora que também agradeceu. Ambos desceram e apertaram a mão de Julia através do vidro da porta.

 

- Isabel, você não vem?

 

- Já vou dona Conceição.

 

- Não vá demorar muito porque já está tarde.

 

 

- Essa sua sogra não te deixa em paz... Falou Julia. Vamos sair daqui! Ligou o carro e saiu.

 

- Julia, onde você está indo? Não posso demorar, a minha sogra vai falar um monte.

 

- Estou indo de encontro ao paraíso... achei que gostaria de ir também!

 

- Julia você ficou louca? Para este carro agora! Deixe-me descer. Está surda?

 

Julia continuou dirigindo sem se importar com Isa que já estava desesperada, e tentava abrir a porta.

 

- Isa, relaxa. Tranquei as portas, só eu posso abrir. Não quero ter que recolher pedacinhos de Isa pelo asfalto, quero você inteirinha... Julia falava tentando não rir, mas por dentro estava se divertindo.

 

- Julia, não acredito que confiei em você e agora você faz isso comigo.

 

- Minha querida Isa, eu ainda não fiz nada.

 

- Como eu sou burra, claro que você não mudou. Continua a mesma que conheci, só teve que mudar a tática, para conseguir o que queria desde o início.

 

- É isso aí minha linda. Eu sou uma jogadora, e não jogo para perder. Toda mulher que eu quero eu tenho... São todas presas fáceis. Logo à frente tem motelzinho vagabundo, vai ser ali meu amorzinho.

 

Isa estava branca, suava frio. � �Não pode ser verdade, você é um monstro�... Começou a procurar seu celular, mas lembrou que estava descarregado. Colocou a mão na cabeça... - �eu mereço isso mesmo, nem parra carregar esta porcaria eu lembrei. Julia eu juro que vou a policia e te denuncio por estupro�.

 

- Não vai não, minha linda. Você vai gostar. Não me importo de ser sua amante.

 

- Para! Eu não sou sua linda, nunca serei sua amante, sua desalmada. Quero é que fique bem longe de mim.

 

- Você ficou falando e nem viu. Chegamos.

 

Isa olhou em volta e percebeu que estavam na praia. Estava lotada.

 

- É bem barato mesmo e ainda terá público. Não acredito que vai fazer isto comigo aqui.

 

- O pior que vou... Disse e começou a rir.  Eu não agüento mais, daqui a pouco você vai começar a chorar. Isa eu estava brincando contigo.

 

- O que? Perguntou, ainda estava muito nervosa para acreditar em Julia. � Eu ouvi direito, você disse que estava brincando comigo?

 

- Foi isso mesmo. Porque você mereceu.

 

- E o que eu fiz, para você fazer esta brincadeira idiota? Quase tive um treco, olha como estou, colocou as mãos trêmulas e geladas no braço de Julia. Eu estou com tanta raiva, se soubesse.

 

- Você fica linda nervosa! Porque me ignorou o caminho todo do hospital à sua casa? Eu sabia que não tinha feito nada, pensei mil coisas. Mas nenhuma era convincente para mim mesma. Não poderia  deixar você entrar sem falar comigo. Eu queria voltar a ouvir sua voz, mesmo que fosse para me xingar. Então sou uma �desalmada�?!? Queria te trazer aqui só para ver a queima de fogos,  que começa às 2 da manhã.

 

Isa ouviu a tudo ainda totalmente passada.

 

 

- Então a culpa é minha?!? Você que quase me mata, porque iria mesmo pular do carro e viraria pedacinhos de asfalto, e você sentiria remorso a vida inteira. O que aconteceu é que me senti mal depois que saímos da clínica.

 

- Porque? Quis saber Julia.

 

- Por causa do Matheus, por sua causa, por minha. Enquanto falava, Isa evitava olhar para Julia, e fixou o olhar no mar. Estou começando a me sentir culpada por coisas que ando sentindo e tenho medo disso. Não quero deixar o meu noivo mais doente, mas também não consigo parar esse sentimento, que cresce a cada dia aqui dentro. 

 

- Isa olha para mim, pediu Julia. Sei como está se sentindo. Eu sinto o mesmo, porque nunca vivi algo assim. Tenho medo também, e como você, penso no Matheus. É a primeira vez que penso em alguém além de mim. Sempre fui movida pelo desejo, de ter quem eu queria e na hora que eu desejasse, e você mesmo com medo, sabendo de minhas intenções se manteve firme em seus princípios e por algum motivo, que não entendo, nos conhecemos 2 dias seguidos.

Notei em você a raiva por estar me encontrando mais uma vez, e comecei a brincar contigo. Naquele dia, em que a vi se oferecendo para me beijar, apesar de tudo o que estava fazendo contigo, eu senti vergonha de  mim, e tive que me redimir. Um beijo era tudo o que meu desejo queria, mas o meu coração não permitiu, porque você merecia mais do que desejo, merece respeito. E fico muito feliz em saber que você não quer parar de sentir o mesmo que eu.

 

- Julia, mesmo que eu quisesse não seria possível, pois já se tornou grande demais dentro de mim. O que vamos fazer? Perguntou Isa olhando para Julia.

 

- Não sei Isa, nunca imaginei viver algo assim, e ainda tem um cara incrível no meio disto que também não quero magoar.

 

Julia encostou-se ao banco, colocou a mão no volante e olhou para frente. Estava totalmente de mãos atadas e com o coração cheio de amor. E Isa chorava no banco ao lado. 

 

- Isa vamos caminhar pela praia? Quem sabe assim esquecemos um pouco da vida? Parece que a queima de fogos, vai atrasar.

 

- Vamos.

 

As duas saíram do carro. Julia sentiu um pouco de frio. - Isa vamos em casa? Quero tirar este vestido, colocar algo mais confortável, e estou com frio. Estavam em frente ao edifício de Julia.

 

- Julia, vai sozinha, vou ficar aqui.

 

- Tem certeza?!? Não vou te pegar de jeito... falou e riu.

 

- Não quero me arriscar, vou ficar aqui. Ah, você ficou linda neste vestido! Disse Isa, bem baixinho, sentindo o rosto corar.

 

Julia sorriu, sabia que ela não subiria, e resolveu não insistir. Foi correndo e em menos de 10 minutos já estava de volta.

 

- Agora sim! Sou muito friorenta, disse para Isa. Fiquei com medo de você ter ido embora.

 

- Eu disse que ia te esperar. Disseram que daqui uns 10 minutos começará a queima de fogos.

 

- Que bom, então vamos caminhar um pouco. Trouxe uma blusa  para você, está frio e não quero que pegue um resfriado. Até que seria bom, assim eu poderia cuidar de você.

 

- Julia, e quem disse que você vai ser minha médica particular.

 

- Eu disse, e não tem que aceitar, eu já sou.

 

- Vou precisar de uma segunda opinião, não sei se é tão boa assim.

 

- Quer descobrir?

 

-Não, ainda não estou precisando de seus serviços.

 

- Assim você me desmoraliza, sou muito boa em tudo, se quer saber.

 

- Ta bom. �Realmente você é�, pensou Isa.

 

As duas foram conversando, enquanto se aproximavam do local onde seria a queima de fogos.

 

- Está mesmo frio, ainda bem que me trouxe uma blusa, disse Isa. Eu tenho um pouco de medo de fogos. Quando criança, lá na minha cidade tinha um rapaz que adorava soltar balões. Ele e sua turma faziam balões enormes, ficavam semanas produzindo-os, e as pessoas davam dinheiro para que comprassem os fogos. A cidade em peso ia para o campinho onde sempre soltavam, mas naquele dia não sei o que aconteceu que não puderam soltar lá.

Escolheram uma rua e fomos todos para lá para ver.  Acenderam a tocha e demorou um pouco para o balão encher de ar. Quando começou a subir, talvez tenham soltado antes do tempo, ele ainda não tinha subido nem 2 metros, lembro que o vento estava forte e o balançava, e um pingo da tocha caiu na caixa de fogos. Os rojões começaram a estourar e foi uma correria, pessoas correndo para todos os lados, se escondendo onde podiam. Eu corri para a casa de minha tia. Recordo que pulei o corpo de um homem que havia colocado a cabeça debaixo de um carro e as pessoas tropeçavam nele. Nunca senti tanto medo, tinha me perdido de minha mãe naquela confusão, então entrei no quintal e fiquei escondida. Era possível ouvir a gritaria e os rojões estourando. Passou um pouco minha mãe chegou desesperada porque tinha me perdido.

 

- Que homem louco enfiar a cabeça debaixo do carro. Ficou imaginando a cena, que não deixava de ser engraçada.

 

- Sabe quem era esse homem?!? O marido da minha tia. Todos chegaram falando que tinham tropeçado em um homem com a cabeça debaixo de um carro, até a mulher dele. Depois do susto, todos terminaram rindo dele, que acabou confessando, pois estava todo arranhado e com dor nas costas, porque as pessoas pisaram nele. Depois deste incidente, o rapaz nunca mais soltou balões. Acho que não feriu ninguém mais o susto foi grande.

 

- Já que tem medo, vamos ficar aqui.

 

Outras pessoas conversavam animadamente, nos desejaram feliz Natal e retribuímos. Fiquei atrás de Isa, e quando começou a estourar os primeiros rojões ela encostou-se a mim. Tinha medo e eu a abracei. Ficamos assim até acabar a queima de fogos. Quando terminou foi uma gritaria só. Não sei se era por causa de Isa que estava vendo tudo mais lindo do que parecia, ou tinha sido mesmo bonito, acho que foram as duas coisas, porque as pessoas estavam comentando, dizendo que foi lindo. Isa virou-se para mim.

 

- Ficou com medo, perguntei. E aí gostou?

 

- Não fiquei porque você me protegeu.

 

Isa não tinha visto muito pois fechou os olhos, queria guardar aquele momento em que estava nos braços de Julia. Sentiu-se protegida, esqueceu de tudo, queria apenas ficar ali, sentindo o calor da mulher por quem estava apaixonada. �Ah, gostei�, finalmente respondeu.

 

- Quer ir para casa? Ou quer ficar na minha casa? Prometo que não vai acontecer nada, vou me amarrar na cama para não ir até o seu quarto.

 

- Julia você não tem jeito. Sabe que tenho que ir embora. Minha sogra vai me matar, pois saí sem avisar.

 

- Então vamos apostar uma corrida até o carro: se perder vai ter que me dar um beijo, disse Isa.

 

Isa não esperou e saiu correndo em direção ao carro.

 

- Isa isso é roubo! Disse Julia correndo em seguida.

 

Julia acabou perdendo porque Isa correu pra valer.

 

- Perdeu dra., não vai ganhar nenhum beijo.

 

- Você roubou. Dessa vez você ganhou, mas dá próxima, não vai.

 

- Acha que tenho medo?

 

- Deveria ter. Disse abrindo a porta do carro.

 

- As duas entraram no carro.

 

Foram conversando e ouvindo música até a casa de Isa.

 

Chegaram e a casa estava toda apagada.

 

- Isa acho que você vai ter que dormir na rua.

 

- Parece que sim, tem uma chave reserva, que escondemos em caso de emergência.

 

Isa olhou para Julia e disse: - Eu sei qual é a música especial que você gravou no cd para mim. Não vai rir, não sei cantar. Isa limpou a garganta e começou:

 

Don't wantcha for the weekend - don't wantcha for a night

I'm only interested if I can have you for life - yeah

Uh, I know I sound serious - and baby I am

You're a fine piece of real estate, and I'm gonna get me some land

 

Julia olhando para Isa começou a traduzir:

 

Não te quero por um final de semana - Não te quero por uma noite

Só estou interessada se eu puder te ter por toda vida

Eu sei que pareço estar falando sério - E eu estou, baby.

Você é uma propriedade valiosa e eu vou pegar um pedaço

 

Oh, yeah

So, don't try to run - honey, love can be fun

There's no need to be alone - when you find that someone

 

Então não tente fugir, honey - O amor pode ser divertido.

Não precisa ficar sozinha - Quando você encontra a pessoa especial.

 

(I'm gonna getcha)

I'm gonna getcha while I gotcha in sight

(I'm gonna getcha)

I'm gonna getcha if it takes all night

(Yeah, you can betcha)

You can betcha by the time I say "go," you'll never say "no"

(I'm gonna getcha)

I'm gonna getcha, it's a matter of fact

(I'm gonna getcha)

I'm gonna getcha, don'tcha worry 'bout that

(Yeah, you can betcha)

You can bet your bottom dollar, in time you're gonna be mine

Just like I should - I'll getcha good

 

Vou te pegar enquanto você esta por perto

Vou te pegar a noite toda

Pode apostar que quando deu disser "vamos" você jamais dirá "não"

Vou te pegar é um fato consumado

Vou te pegar não se preocupe com isso

Você pode apostar o seu ultimo dólar - Que logo você vai ser minha<

Como eu quero, te pegar de jeito.

 

Isa estava ficando com a voz embargada.

 

I've already planned it - here's how it's gonna be

I'm gonna love you and - you're gonna fall in love with me

Yeah, yeah

 

Eu já planejei - É assim que vai ser

Eu vou te amar e você vai se apaixonar por mim.

 

- Eu já me apaixonei, Julia. Disse Isabel olhando para os lindos olhos azuis da morena.

 

E sem pensar em nada e ninguém, apenas no que estava sentindo, aproximou-se de Julia. Tocou os lábios dela com seus dedos, e sem tirar os olhos da boca de Julia foi guiando seus lábios em direção aos dela, até que se tocaram pela primeira vez. Seus lábios estavam trêmulos.

Separam-se por um segundo e se olham, Julia a traz para mais perto de si e a abraça, cobrindo-lhe os lábios com os seus. O beijo aconteceu sem pressa, com muito carinho. Suas línguas se encontrando pela primeira vez em uma dança lenta e repleta de amor. Julia nunca tinha beijado ninguém com tanto carinho, e nunca fora beijada daquela forma.

 

O beijo terminou inesperadamente com  uma batida no vidro do carro e, ambas se assustando ao ouvirem a voz da sogra de Isa do lado de fora chamando por ela. O carro tinha insul-filme bem escuro e por sorte, dona Conceição não viu o beijo entre elas. Nesse momento Isa se deu conta do que tinha feito e a culpa invadiu seu coração.

 

- Não podíamos ter feito isso. Foi a única coisa que Isa disse antes de abrir a porta e sair correndo, deixando Julia e a sogra lá fora.

 

- O que fez a ela, dra?

 

- Boa noite, dona Conceição! Disse, ligou o carro e saiu em seguida.

 

 

Parte 18

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