Palavras ao Vento Fernanda |
Capítulo
15
- Isa, você já acordou? Perguntou sua
sogra batendo na porta de seu quarto.
- Espere um minuto. Pegou seu óculo escuro
e colocou. Pode entrar!
- É que ligaram da clínica avisando
que Matheus já está no quarto. Isabel você dormiu com isto
na cara? Fez uma cara de reprovação e mudou de assunto. Estou
com o coração tão apertado.
Isa nada disse, apenas abraçou a sogra. Sabia
que o problema de Matheus era sério, mas achou melhor não dizer
nada. Conhecia bem a sogra e, sabia que a encheria de perguntas às quais,
não estava nem um pouco a fim de responder naquele instante.
Julia chegou cedo na clínica, pois tinha algumas
altas para liberar.
Naquela manhã estava muito feliz, havia sonhado
com Isabel, e só isto bastava para seu dia ser perfeito. Acompanhou a
equipe que operou Matheus, mas não se pronunciou em momento algum, apenas
observava os olhos do rapaz a procurando, a cada momento que os médicos
iam comunicando-lhe sobre seu estado. As lágrimas começaram a
escorrer por seu rosto, e ela não conseguiu conter as que, furtivamente
lhe escapavam também. Apesar de estar gostando da namorada dele, esse
rapaz tinha algo especial para ela, talvez porque a fizesse lembrar de seu irmão,
ou era a bondade e a fé que irradiava que a fazia acreditar, que ainda
existem pessoas boas neste mundo. Queria poder curá-lo.
A equipe saiu, mas ela permaneceu. Aproximou-se da
cama, segurou-lhe a mão, e partilharam o mesmo pranto.
- Porque Julia, porque meu Deus me abandonou?!? Eu
sempre tive tanta fé e quando mais preciso, ele me vira as costas.
- Matheus, ele não te abandonou, pode ter certeza.
Ao vê-lo perdendo a fé, seu coração
encontrou resquícios de sua coragem, a tempos arquivada nas gavetas recônditas
de seu interior. Não podia deixá-lo morrer sem fazer nada. Os
seus colegas o tinham desenganado, coisa que como médica também
sabia. Mas não estava disposta a desistir dele. Quando pensou em explicar
o que pretendia, os pais dele e Isa chegaram.
- Mãe o que está fazendo aqui?
- É assim que você fala com sua mãe!
Eu vim passar o fim de ano com você e a Isa.
- Oi filho, disse o pai, indo abraçá-lo.
Os dois eram muitos amigos.
Julia afastou-se, postando-se a uma certa distancia,
de forma a não tirar a privacidade dos pais de Matheus, que mal deram
conta da presença dela no quarto, Isa ao contrário, foi lhe cumprimentar.
Beijaram-se no rosto.
Isa, aproveitando a proximidade, não pode deixar
de segredar no ouvido dela, que havia sonhado com ela. Julia por sua vez, não
esperava aquela confissão, e acabou rindo.
- Porque está rindo?
- Porque também sonhei contigo. Revelou Julia.
- Está brincando, só falta ser o mesmo
sonho.
- É verdade, mas penso que foram sonhos diferentes,
porque nunca sonharia o mesmo que eu.
- Quem sabe... deixou a dúvida no ar, e aproximou-se
dos outros.
Foi até o noivo e lhe deu um beijo, ficou impressionada
como estava inchado, mas não disse nada. Continuou conversando com ele.
A cada meia hora vinha uma enfermeira medir a temperatura, a pressão,
e aplicar injeções no soro.
Passaram muitas horas com Matheus, que não
disse nada sobre o que os médicos falaram para ele. No fim da tarde,
Julia apareceu para ver como Matheus estava.
- Boa tarde, dona Conceição, seu José,
disse Julia.
- Vocês já se conhecem? Perguntou Matheus.
- Nos conhecemos ontem à noite na casa da Isa,
respondeu Julia enquanto examinava seu paciente. Esperava ver Isa antes de ir
embora, mas a loirinha não estava, e preferiu não perguntar por
ela.
- É a Isa me contou, disse que vocês
foram a um orfanato, e você foi o papai Noel. Eu não esperava algo
assim de você.
- Eu não faço só coisa errada,
faço coisas boas também.
- Eu acredito. Disse ele sorrindo.
- Dra, será que podemos passar a noite aqui
com o Matheus? Perguntou a mãe que estava um pouco mais simpática.
- Podem, mas só uma pessoa. Porém, vou
abrir uma exceção.
- Meu filho vou sair um pouco, enquanto a Dra te examina.
- Julia obrigado, pode ser o último Natal que
passarei com eles.
- Eles podem ficar. Vou mandar tirarem a sonda, e
assim ficará mais à vontade. Matheus você contou para eles?
-Não, depois do Natal eu conto, não
quero estragar esse dia.
- Tudo bem. Matheus eu pensei bem, conversei com meus
colegas, e estou assumindo seu caso. No dia 26 começaremos o seu tratamento,
e pode ter certeza que, este Natal não será o último. O
seu Deus não te abandonou, ele está me resgatando de mim mesma.
A minha vaidade me fez desistir da oncologia, porque eu queria ser Deus e salvar
todos, e a verdade é que não posso. Desistir foi mais fácil,
assim eu não precisava ser mais a heroína. Vou cuidar de você,
mas não posso afirmar que irá dar certo, mas quero tentar se você
quiser.
- Me desenganaram, então não tenho nada
a perder, vamos fazer o que for necessário, sem nos iludir.
Deram às mãos, e a partir daquele instante,
uma nova etapa, médica e paciente, se iniciava.
A mãe de Matheus voltou. Julia ainda anotava
algumas coisas no prontuário dele e deu para a enfermeira, que chegou
para ministrar a medicação.
- Meu amigo já vou indo, nos vemos na quarta-feira. Tenham um Feliz Natal, não será
muito bom por estarem em um hospital.
- Julia eu terei o melhor Natal de minha vida, não
importa onde estou, mas quem está comigo, e todos que amo vão
estar ao meu lado. Julia onde vai passar a noite?
- Na casa da Vanessa. Julia estendeu a mão
para a mãe de Matheus, desejou Feliz Natal e saiu, o pai dele, como Isa
não tinha voltado.
24 de dezembro é uma loucura, as lojas abarrotadas
de gente à procura de seus presentes, e Isa não era diferente
das pessoas, também estava a procura dos seus, não teve tempo
de comprar nada, e estava enfrentando essa loucura toda por causa de um presente
em especial.
Julia já estava em casa, havia tomado banho,
mas ainda não tinha se vestido, estava apenas de roupão. Cansada,
ligou o som, depois se serviu de uma bebida e sentou no sofá.
Olhou para alguns presentes que levaria para a casa
de Vanessa, mas antes de ir precisava passar em um lugar. Fechou os olhos e
pensou
Isabel em um impulso, pediu para o taxista mudar a
direção, indo parar na frente do apartamento de Julia. Pagou o
motorista e desceu. Olhou para cima e viu uma luz acesa no apartamento dela.
Como já havia anoitecido, teve medo dela não estar. No elevador
apertou o número e a cada andar que subia seu coração ficava
mais agitado. Estava muito ansiosa, pensou em voltar, poderia dar o presente,
quando a visse novamente. Na verdade, o medo maior que sentia, era que estivesse
com alguém... tantos pensamentos em segundos, que a estavam deixando
zonza.
O elevador parou no andar escolhido, abriu as portas
e Isa saiu com suas várias sacolas, parando à frente da porta.
Respirou fundo e apertou a campainha.
- Quem será? Não estava esperando ninguém,
iria olhar antes para ver se abria a porta ou não. Quando viu Isa através
do olho mágico seu coração disparou, sentiu-se adolescente
novamente. Havia ficado com todas as mulheres que desejou, mas Isa era diferente
de todas que já tinha gostado e, tinha medo desse sentimento que estava
nutrindo por essa linda mulher. Respirou fundo e abriu a porta.