Palavras ao Vento

Fernanda

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Capítulo 14

 

 Isa estava tentando estancar o sangue de seu supercílio, seu olho já estava inchando e ficando roxo, �aquela idiota me acertou pra valer, o que vou dizer para o Matheus, quando me ver assim. Como odeio aquela sujeita! Se eu tivesse ficado na minha casa... mas não fiquei, e deu nisto. Talvez ela tenha razão, isso aqui não é para mim�.

 

 

 

- Nêssa o que foi tudo isto? Perguntou Adriana. A Julia e a Isabel estão de rolo? A Hérica gritava isso com tanta certeza. Até porque tenho procurado a Ju para sairmos e ela diz que está cansada, que não está a fim.

 

- Elas são só amigas, e quanto a seus convites, a Julia estava com a Hérica, talvez estivesse dando uma chance para elas.

 

- Julia não queria contar para as amigas que tinha voltado com a cobra da Hérica. Isa tinha razão ninguém gosta dela. Sempre fez questão de exclusividade sobre Julia. Disse Adriana.

 

 

Julia finalmente entrou no banheiro.

 

- Podemos conversar? Perguntou. Quero pedir desculpa. Eu não sabia que ela ia aparecer. Esse corte está feio, deixe-me ver!

 

- Não vai ver nada, e não vou te desculpar por isto, dá uma olhada nisso. O que eu vou falar para o Matheus? Que andei brigando porque a sua mulher acha que estamos tendo um caso? Que eu faço qualquer coisa, por causa de seu dinheiro?
Francamente, não sabia que para ser sua amiga tem que ter grana. Eu sou pobre como ela disse, e prefiro ser assim, porque para ser como vocês, que olham para nós como lixo, tô fora.

Você não tem noção de como aquela mulher me feriu. Isso aqui vai sarar, mas as palavras dela ficarão aqui dentro de mim, para eu saber o meu lugar. Por favor, me leva para casa.

 

- Não vou levar! Até você me ouvir.

 

- Fala logo!

 

- Me desculpe. Você ouviu o problema daquela menina que disse que seu coração doía, porque sua amiguinha não quer mais brincar com ela. Eu desde pequena venho encontrando pessoas como a amiga da Nandinha. Sei bem o que ela sente e isso não mudou, piorou quando cresci. Venho perdendo pessoas que eu gosto, sem explicação, ou ao menos uma que eu entenda, a Hérica foi a última que fez isto comigo.

E com o meu medo de perder mais alguém, perdi a confiança nas pessoas, me tornei uma mulher fria e sozinha, procurando mulheres só para satisfazer meus desejos, vivendo paixões frívolas. Eu jurei pra mim mesma, que não deixaria ninguém mais entrar aqui, colocou a mão no coração, e você está se tornado importante para mim, estou gostando de ser sua amiga, estou confiando em você! Não me importa o que você tenha, me importo apenas contigo, coisa que a muito tempo eu não fazia, me importar com alguém de verdade, apesar de saber que você vai me deixar como as outras, não queria que isso acontecesse, não dessa vez, mas é inevitável. Devo ter alguma maldição.

 

Julia começou a chorar.

 

- Desculpa Isa não queria chorar, mas tenho culpa por ter colocado esse tipinho de pessoa em minha vida, que ofende pessoas só por prazer. E eu não queria que isso tivesse acontecido. Lamento de verdade, por fazê-la passar por esse constrangimento. Vamos vou te levar para casa.

 

Isa não disse nada naquele momento, queria pensar um pouco. Apenas seguiu Julia. Despediram-se de todos e foram para o estacionamento pegar o carro. Foram caladas até a casa de Isa.

 

- Chegamos. Disse Julia.

 

- Chegamos. Isso aqui tá doendo.

 

- Deixe-me ver. Já está bem inchado. Vamos entrar que vou te medicar e dar uns pontinhos. Julia pegou sua maleta que estava no banco de trás. E entraram.

 

- Não vai me dar injeção, tenho medo e, não está doendo tanto assim.

 

- Deixa de ser medrosa, eu juro que não vai sentir nada. Lava bem o ferimento que vou arrumando as coisas.

 

Isa voltava quando ouviu o celular de Julia tocar.

 

- Alô.

 

- Julia onde você está? Liguei para sua casa. Não quer vir para minha casa. Estou morrendo de saudades. Já faz 1 mês que não ficamos juntas.

 

- Ah é! Bom saber, mas hoje não vai dar.

 

- Está com alguém?

 

- Estou.

 

- Vai me deixar aqui te querendo, para ficar com essa aí? Tenho certeza, que ela não chega aos meus pés. 

 

- Boa noite, Marcela.

 

- Tá bom, já que não me quer, não me procure, quando enjoar dela, beijo.

 

- Tchau.

 

- Dispensando mulher, Julia. Deixe-me ver, colocou a mão na testa dela, deve estar com febre...rss.

 

- Devo estar mesmo, rss.

 

- Agora fica quieta, não vai querer que eu te amarre.

 

- Você seria capaz?

 

- Seria, então não pague para ver!

 

- Quer me deixar com medo?

 

- Eu consegui?

 

- Não.

 

Julia estava com a injeção pronta. - Isa posso fazer uma pergunta, ainda está brava comigo? Dependendo de sua resposta, juro que vou fazer essa injeção doer muito.

 

- Não, nem lembro o que aconteceu...rss.

 

- Boa menina, assim que eu gosto!

 

- Estou com fome, ser papai Noel, dá fome e quando eu ia comer, contaram que você andou rolando pelo salão.

 

- Eu rolei por sua causa. Que ingrata!

 

- Pronto! Nem sentiu.  Eu disse que não ia doer.

 

- Você me enganou, me deixando com raiva.

 

- Que isso! Eu não fiz nada. Você só pensa mal de mim.

 

- Eu também estou com fome, disse Isa. Vamos fazer alguma coisa para comermos, ou você quer ir embora?

 

- Não posso deixar minha paciente, sozinha.

 

- Ju, quer ficar mesmo? Se quiser ir para casa da pessoa que te ligou, pode ir, não quero ficar empatando a sua vida.

 

- Você viu, foi a primeira vez que me chamou de Ju.

 

- Foi, eu nem notei, e você se importa?

 

- Claro que não, e não está me empatando, só não estou a fim de sexo selvagem hoje...rss

 

Isa ficou vermelha, não esperava ouvir isto, como nunca tinha feito, não tinha idéia como era.

 

- Desculpa se te deixei com vergonha. Ops, esqueci que você ainda é pura.

 

- Ah! Não sou tanto assim.

 

- Bom, saber! Quando fizer alguma coisa para mim, vou correndo contar para o Matheus, que você não é tão pura como ele imagina... está em minhas mãos agora.

 

- Fizer o que? Tipo isso aqui...  Isa se aproximou de Julia, a segurou pela cintura, grudou seu corpo no dela, foi subindo suas mãos pelos braços, chegou no pescoço e acariciou sua nuca, Julia arrepiou toda. Instintivamente abaixou um pouco a cabeça e ficaram tão perto que dava pra sentir a respiração das duas. Isa olhou para sua boca... quando parecia que ia beijá-la lhe deu um beijo no nariz e começou a rir... - está vendo como não sou tão pura, vai contar isso para o meu noivo?

 

 

Isa sabia que tinha ido além do que imaginou. Seu corpo desejou beijar Julia, seu coração disparou, mal conseguia pensar, e o pouco de sanidade que ainda lhe restou, não a deixou seguir adiante. Sentiu Julia querendo tanto quanto ela, o beijo.

 

 

Julia ficou quieta, se fosse outra pessoa sua reação teria sido diferente. Nunca uma mulher lhe tinha deixado sem ação. Outra teria beijado sem pensar, sabia que Isa não teria coragem, mas ela também não teve. Podia dizer depois, que fazia parte da brincadeira, e Isa não poderia dizer nada, porque ela tinha começado, mas não conseguiu. �Será que Hérica têm razão? Estou me apaixonando pela Isa?!? Mas não senti isso sozinha, ela queria tanto quanto eu�.

 

- Não vou contar Isa. Porque ele não suportaria saber que a noiva gosta de seduzir médicas.

 

- Eu seduzi você? Sabe, que eu nem percebi... Falou e riu.

 

- E se eu tivesse te beijado, como teria acabado sua brincadeira?

 

Isa ficou sem palavras, não sabia o que responder.

 

- Não sei. �Teria te beijado�, pensou.

 

- Tá... Vou acreditar que você não sabe.

 

- Julia qual você quer? Mostrou vários pacotes de sopas Vono.

 

- Queijo com macarrão.

 

- Eu quero de milho, disse Isa.

 

- Qualquer dia vou te fazer um jantar decente. Disse Julia.

 

- Por acaso você sabe cozinhar?

 

- Por acaso eu sei, tenho muitas habilidades.

 

- Também tenho, mas não na cozinha. Se eu acertar fazer essa sopinha, se dê por feliz.

 

- Estou sentindo que hoje é meu dia de sorte!

 

- Eu acho que sim. Pega os pratos no armário, é na primeira porta a sua esquerda, e as colheres na primeira gaveta, a sua direita. Agora pega a caixa de suco na geladeira, e não esqueça dos copos, tinha alguns lavados em cima da pia. Isa estava se divertindo, vendo Julia pegando as coisas.

 

- Que mais patroa? A sua escrava merece comer.

 

- Não merece muito, mas vou deixar.

 

As duas se sentaram e começaram a comer.

 

- Acho que essa sopinha não vai te encher.

 

- Claro que vai, acha que como muito?

 

- É que você gasta muitas energias com o mulheril...rss.

 

- Ultimamente, só tenho gastado con... Não terminou a frase, ia dizer pensando em ti.

 

- Não vai dizer, mas eu sei.

 

- Sabe?

 

- Com sua querida Hérica, tem cara que te deixa sem energia.

 

- Ela deixava, mas ultimamente, não. Vamos mudar de assunto.

 

- Tudo bem, me conta quando decidiu ser médica?

 

- Na verdade, queria ser bombeira para salvar vidas, mas eu tinha medo de fogo, então fiquei pensando, como eu poderia salvar vidas sem ser bombeira. Um dia, ouvi meu pai falando da satisfação dele de ter conseguido salvar um paciente e, achei tão bonito, ele tinha até lágrimas nos olhos. Foi neste momento que decidi seguir a carreira dele. �Mas não podemos salvar todos�, foram as palavras do meu pai, no final de seu relato.

- E você quando desejou ser professora?

 

- Desde criança, nunca pensei em ser outra coisa. Minha brincadeira preferida era escolinha. A Mari coitada brincava na marra...rss.

 

Terminaram de tomar a sopa, lavaram a louça e foram para a sala.

 

- Já está tarde, disse Julia olhando para o relógio.

 

Neste momento a campainha tocou, e as duas se assustaram.

 

- Você está esperando alguém?

 

- Não, a Mari e a D. Fátima estão em nossa cidade, e o Matheus no hospital. Será que é ladrão?

 

- Isa, se fosse ladrão não iria apertar a campainha, concorda comigo.

 

- Tem razão, se levantou e foi olhar pela janela da sala. Julia ficou atrás dela.

 

- Eu não acredito! O que estão fazendo aqui?

 

- Quem é?

 

- Meus sogros, eles não podem me ver com esse olho roxo. Abre a porta, vou colocar um óculo escuro.

 

Julia esperou Isa desaparecer do seu campo de visão, para então abrir a porta.

 

O casal ficou surpreso ao ver uma pessoa estranha abrir a porta.

 

- Aqui é casa da Isabel?!? Talvez tenhamos errado o endereço...

 

- Não erraram, é aqui mesmo.

 

- E onde ela está? Perguntou a sogra de Isa. - Eu liguei mil vezes para cá, poois queria falar que fosse nos buscar na rodoviária.

 

Julia notou que a sogra da Isa era uma mulher extremamente impaciente, e tinha jeito de ser chata pra caramba.

 

- Nós saímos!

 

- Que absurdo! Meu filho no hospital e, Isabel sai para se divertir. E quem é você?

 

- Sou uma amiga.

 

- Sendo amiga dela, deveria ter mais respeito, o noivo dela está internado.

 

Julia estava se irritando com a mãe de Matheus.

 

- Nós não saímos para nos divertir, a convidei para ir a um orfanato, onde a alguns anos me visto de Papai Noel. Não queria deixá-la aqui sozinha, e sim, eu sei que o Matheus está internado, porque ele está na minha clínica e sou uma das médicas dele.

 

Com a explicação de Julia, a mulher optou por ficar quieta.

 

Isa não entrou na sala, antes, parou para ouvir a conversa das duas e, quando viu que ficaram quietas então apareceu.

 

- Oi, seu José. Abraçou o sogro.

 

- Desculpa, dona Conceição, esqueci de levar meu celular, e só agora vi seus recados.

 

- Tudo bem, pegamos um táxi.

 

- Porque não avisaram antes que viriam?

 

- Porque eu decidi ontem à tarde, e até arrumar as coisas, achei melhor ligar quando estivéssemos vindo. Não poderia deixar meu filho passar o Natal sozinho. Meu coração de mãe sentiu que está precisando de mim. E que óculos é esse, Isabel?

 

Isa achou que ela não perceberia. Julia estava sentada ao lado do pai de Matheus.

 

- Eu estou com uma irritação nos olhos.

 

- Você mudou muito Isabel, desde que saiu de casa.

 

- As pessoas têm que mudar, respondeu Isa. Ao olhar para Julia, decifrou suas feições. Enquanto ouvia a conversa entre as duas com seriedade, seu olhar denotava descontentamento, deixando claro que não havia gostado nada da mãe de Matheus, e muito menos do jeito arrogante com que estava tratando Isa.

 

- Isabel estamos cansados e já é muito tarde! Disse a sogra. Uma clara indireta para Julia ir embora.

 

Julia, porém, não se moveu do lugar.

 

- Vocês podem ficar no quarto da D. Fátima.

 

- Boa noite senhora, durma bem. Eu ainda vou ficar mais um pouco. Disse Julia na visível intenção de irritar a mulher.

 

A sogra apenas disse boa noite com cara de poucos amigos. - Vamos Zé.

 

- Meu Deus, que mulher chata é essa? Disse Julia. E a sua mãe é assim?

 

- Claro que não. Minha sogra é um caso à parte, o que o filho e o marido tem de bons, nela está em falta. Ela é o cão chupando manga, rss.

 

Julia acabou rindo da expressão que Isa usou para descrever a sogra.

 

- É melhor que eu vá embora, antes que ela venha me colocar para fora a vassourada. Obrigada pela noite, por me alimentar, e, mais uma vez, desculpa pelo o que aconteceu. Disse olhando nos olhos de Isa, que tinha tirado os óculos.

 

Isabel num impulso a abraçou e, em seguida deu-lhe um beijo no rosto.

 

- Eu já te perdoei, sei que você não teve culpa, e se soubesse que ia acontecer não teria me levado lá. Obrigada pela noite também. Saiba que gostei da forma como você falou com a minha sogrinha.

 

- Você acha que deixaria ela me intimidar?

 

- Acho que não.

 

- Boa noite, Isa! Estendeu a mão para abrir a porta, mas foi impedida por Isabel.

 

- Deixe-me abrir, senão você não volta.

 

- Então quer que eu volte. Disse sorrindo para Isa, abaixando-se para depositar um beijo naquele rosto lindo, e foi embora. Tinha que sair urgentemente dali, porque senão beijaria Isabel, e não poderia cogitar a idéia de que aquela amizade, que se solidificava a cada dia, sofresse algum abalo, por uma mera descompostura de sua parte. 

 

Isa sentiu seu corpo todo se arrepiar ao contato dos lábios de Julia em seu rosto, e isto era mal. Que mulher! Tinha reprimido esse seu lado, mas Julia estava acordando seus sentimentos.

 

 

Parte15

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