O Lado Cego Do Amor INGRID DIAZ The Blind Side of Love |
Traduzido por Fernanda
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Julianne ficou olhando inexpresivamente as teclas de piano sob seus dedos estendidos.
Sabia que deveria estar tocando; acabou de ouvir Naomi gritar "a��o"
momentos antes. S� tinha sa�do de seu personagem um segundo, um
piscar de olho. Mas tinha sido suficiente para notar que Kris estava no set.
Foi o bastante para arruinar completamente sua concentra��o.
Desculpa, se virou ligeiramente. Podia ver toda a equipe a observando deliberadamente. As luzes tinham-se atenuado para o prop�sito da cena. A Elizabeth Doyle gostava de tocar em relativa escurid�o. "Podemos come�ar de novo? "
"Ainda est� rodando," respondeu Naomi.
Julianne devolveu sua aten��o ao piano diante dela. Fechou seus olhos, tentando acender a parte de sua mente que n�o importava que Kris estava a olhando, a parte que pertencia a Elizabeth.
Um segundo depois come�ou a tocar, seus dedos deslizando-se sobre as teclas. Quem teria pensado que oito anos de li��es de piano obrigadas seriam �teis algum dia? Mas nesse momento, agradeceu seus pais. Aprender a m�sica de Elizabeth n�o tinha sido t�o dif�cil como teria sido se n�o soubesse tocar.
Continuou tocando, ignorando as c�meras ao redor dela e os olhos que sabia que estavam fixos em sua atua��o; um par em particular. Elizabeth Doyle estava sozinha nesse quarto, com os olhos fechados, perdida na m�sica. Mas Julianne sabia que n�o estava sozinha. Sabia que Samantha tinha entrado e estava pr�xima de suas costas.
Ainda permanecia Elizabeth alheia � presen�a de Emma. Assim que, quando sentiu o toque de seus dedos sobre sua pele, seus olhos se abriram de repente e suas m�os cessaram brutalmente. A �ltima tecla que pressionou foi errada e a torpe nota ressoou na quietude da sala.
Julianne n�o se virou, desfrutando do contato de sua amante.
Por que parou?" perguntou Emma suavemente. "Era uma melodia t�o linda."
"Algumas coisas s�o mais lindas que a m�sica," respondeu Elizabeth, se virando finalmente. Olhou para Emma um longo momento. " Voc� n�o deveria estar aqui."
Emma deslizou seus dedos pela bochecha de Elizabeth. "Esperei at� que todos saissem."
Corta!
A voz da diretora cortou o momento, destro�ando a ilus�o. Julianne piscou, e voltou a ser ela mesma.
"Temos a tomada cinco," acrescentou a diretora um segundo depois, sua aten��o estava em seu caderno.
"Gra�as a Deus," murmurou Samantha enquanto passava junto a Julianne..
Foi ent�o que Julianne lembrou
de Kris e seu nervoso voltou.
Deveria ir falar com ela? Deveria fingir que n�o a tinha visto? Julianne
sabia que Leigh j� tinha ido embora com Jeremy. Ent�o, o
que fazia Kris ali? Esperando-a?
As perguntas continuaram multiplicando-se em sua mente enquanto ia falar com Kris. N�o tinha certeza se tinha tomado a decis�o correta de ir conversar com � artista, mas j� era tarde para decistir.
Kris estava sorrindo enquanto Julianne se aproximava. "Foi muito bom," disse em forma de comprimento. "E est� encantadora com esse vestido."
Julianne tinha esquecido que estava de vestido. Sem pensar, se olhou e riu. Nunca pensou que estaria em frente a Kris num vestido de �poca. "Sim, sempre desejei ser uma dama." Levantou o olhar nervosamente. "Bom, o que te trouxe at� aqui?"
"Eu vim buscar a Leigh. � nossa a noite de Filmes, pizza, pipocas." Sorriu emocionadamente e olhou pelo lugar. Alguma pista de onde ela se escondeu?"
Julianne sentiu nesse momento uma mistura de emo��es: desilus�o porque Kris n�o estava ali para a ver e aborrecida com Leigh por deixar Kris plantada.
O que ?"
Julianne clareou seus pensamentos, centrando sua aten��o em Kris. � que a Leigh foi embora a uma hora atr�s. Com Jeremy," disse depois.
A confus�o passou pelos olhos de Kris, seguida de desilus�o. Acho que ela esqueceu." Encolheu os ombros e riu, ainda que foi claramente for�ado. "Provavelmente eu deveria ter esperado em casa."
"Sinto muito, disse Julianne, desejando que tivesse algo que pudesse dizer para modificar as coisas. Nada lhe ocorreu.
Kris levantou ao vista de repente. "Mas, e voc� o que vai fazer depois que sair daqui?"
Julianne repasou mentalmente seu hor�rio, desejando que Karen estivesse perto. Recordava vagamente ter sido convidada para uma festa, mas n�o se lembrava de ter aceitado. "Nada, realmente," respondeu, segura de que era verdade. Nada que eu n�o possa cancelar, disse.
Quer ver um filme ou fazer outra coisa?" perguntou Kris parecendo t�mida de repente.
Adoraria, respondeu. Esperando parecer casual porque seu cora��o estava dando saltos mortais no peito. "N�o sei que horas vai acabar isto." Assinalou as c�meras por tr�s dela para enfatizar.
Kris encolheu os ombros. "N�o me importa olhar," disse. "A n�o ser que se incomode de eu estar aqui," agregou rapidamente. "N�o quero que pense que"
"N�o me importa," disse Julianne. "� agrad�vel ter voc� aqui." N�o acrescentou que tamb�m era infernamente enervante.
Eu fico," disse Kris, sorrindo levemente.
Julianne olhou para tr�s dela e notou que todos estavam reasumindo seus lugares. "Tenho que voltar," disse. "At� depois?"
Estarei aqui," prometeu Kris.
Julianne consentiu e deixou Kris, contente por ter agora algo que esperar com impaci�ncia.
Kris olhava toda a��o em desenvolvimento do escuro de seu lugar.
Era fascinante observar Julianne mudar t�o rapidamente de uma personagem
para outra. Perguntou-se como era poss�vel ser tantas pessoas diferentes.
Seu olhar viajou por todos os cantos at� chegar na diretora, Naomi Mosier. Kris pensou em seu nome enquanto observava a Naomi olhando Julianne. Tinha algo no olhar da diretora que captava a aten��o de Kris, que lhe impedia de afastar o olhar...
Quando estava conversando com Julianne, tinha notado a diretora observando-as. Bom, observando Julianne principalmente. E tinha notado um flash de algo estranho em seus olhos verdes. Algo desconhecido ainda que familiar.
Kris lembrou que Anthony tinha dito naquele dia, quando se encontrou com Julianne. Que estava passeando com a diretora do filme. Kris n�o tinha dado conta naquele momento, provavelmente porque as m�os errantes de Anthony a estavam distraindo. Mas agora�
Tinha algo entre elas? perguntou-se. A diretora � bonita era a �nica coisa que Kris podia dizer. E Julianne� Kris suspirou, sentiu-se triste de repente.
A voz da diretora cortou seus pensamentos. E custou para Kris um momento para compreender que Naomi tinha terminado por est� noite.
Sua tristeza se evaporou no instante, que percebeu que a grava��o tinha acabado mesmo. Sair com Julianne estava convertendo-se numa de suas atividades favoritas. A atriz era divertida e inteligente e s� estar perto dela a deixava feliz�
Kris deixou no ar o pensamento quando descobriu � atriz se aproximando dela. Oi, tentando n�o sorrir muito ou amplamente, ainda que sentia vontade de sorrir mais por alguma raz�o.
"Demorou tanto," se desculpou Julianne. "Ainda tenho que tirar este atavio."
"N�o fiquei entediada," lhe assegurou Kris. "N�o � todos os dias que posso ver a produ��o de um grande filme." Escolheu n�o comentar o atavio. Pessoalmente achava que Julianne estava linda com ele, bem feminina e delicada. N�o era t�o intimidante como o aspecto usual de Julianne.
"Bom, venha comigo," instruiu-lhe Julianne. "Vou te mostrar minha outra casa. Vai se alegrar porque tem m�veis."
Com certeza n�o foi voc� que o decorou, brincou Kris enquanto seguia � atriz at� seu camarim.
Julianne estava inquieta em seu assento. Seu olhar estava fixo na tela do cinema, mas sua mente estava pensando em outra coisa. Nem sabia que filme estavam vendo. N�o importava. Estava distra�da demais com o fato de que Kris estar sentada a seu lado, o bastante para a tocar mas sem o fazer.
Julianne se assegurou de permanecer quieta. S� que estavam dividindo a mesma pipoca e Kris a segurava. E se suas m�os esticassem ao mesmo tempo? Julianne sentiu-se de repente como uma adolescente no meio do primeiro encontro. N�o tinha certeza de como se sentir. Como se comportavam as mulheres de vinte e tr�s anos no cinema com suas amigas? Amigas pelas quais estavam tremendamente atra�da. Amiga que estava possivelmente apaixonada.
"Espero que a senhorita, n�o ache que me vou comer tudo isto sozinha," sussurrou Kris um segundo depois.
"Parece que ouvi voc� dizendo, que estava com fome, brincou Julianne, pegando um punhado de pipoca. Imaginou que poderia fazer durar pelo menos dez minutos. Ent�o, ap�s isso, poderia sistematicamente calcular o tempo que pegaria a pipoca para que n�o acontecesse nenhum toque de m�os. Satisfeita com seu plano, relaxou ligeiramente.
Julianne passou os seguintes dez minutos tentando entender o filme, enquanto comia devagar as pipocas de sua m�o. Mas era in�til. Seus pensamentos seguiam e sentia-se cada vez mais ansiosa. E a m�o de Kris estava a tentando. Seria t�o f�cil cobrir sua m�o com a minha, sentir seus suaves dedos entrela�ados nos meus.
"Toma," disse Kris, entregando as pipocas a ela. Se aproximou e sussurrou, "Talvez se estiver em sua frente te incita a comer mais."
Julianne se arrepiou, sentindo a suave respira��o de Kris em sua orelha. Seu olhar foi at� a pipoca em seu colo, esperando que a olhando acalmasse as batidas de seu cora��o. Virou sua cabe�a para responder a Kris, n�o notando que ela n�o tinha saido do lugar. De repente seu rosto ficou t�o perto do de Kris que, se alguma se inclinasse, seus l�bios se tocaria inevitavelmente. E Julianne paralisou-se totalmente.
A respira��o de Kris parou em sua garganta ante o inesperado encontro
com os l�bios de Julianne t�o pr�ximos dos seus. Levou
um tempo para retroceder e perguntou-se por que hesitou tanto tempo. Por um
momento quase considerou� que desejou�
N�o.
A palavra bateu nos muros de sua mente, silenciando os demais pensamentos. N�o. Tinha sido pega de surpresa. Demorou apenas alguns segundos para reagir, isso foi tudo. Rogou a seu cora��o que batesse mais devagar, assustada de que Julianne o ouvisse e perguntasse o que isso significava.
Kris sentiu algo suave e ligeiro brotar em sua bochecha, seus pensamentos variavam. Olhou inquisitivamente � atriz que fazia uma m� representa��o de parecer inocente. "Acabou de me atirar uma pipoca?" perguntou, com sua sobrancelha arqueada.
Julianne abriu a boca fingindo surpresa. "Jamais eu faria algo assim," respondeu. "Acho que caiu da minha m�o?"
E Kris pensando que Leigh era a �nica pessoa que atirava pipocas. Mas, ao menos, sua melhor amiga tinha a cortes�a de apontar para tela da televis�o. Kris sorriu, se relaxando. Se Julianne n�o se sentia constrangida, ent�o por que ela deveria? Seu olhar foi para a tela do cinema. Quanto do filme tinha perdido? N�o tinha id�ia. De todas formas n�o era t�o bom assim.
Kris pegou um punhado de pipocas e pensou em seu pr�ximo movimento. Podia atirar uma para que as coisas ficassem iguais. Ou duas. Ou podia ser realmente atrevida e atirar todas. O pensamento fez-lhe sorrir. Sua m�e certamente n�o aprovaria esta conduta. Mas sua m�e n�o estava ali.
Esperou at� que Julianne estivesse totalmente absorta no filme. Ent�o, sutilmente como fosse poss�vel, levou sua m�o para o lado e jogou as pipocas em Julianne.
Se assustou com a inesperada a��o, Julianne deu um pulo em seu assento, e voou pipoca para todo o lado. Caindo no ch�o e nas pessoas ao lado segundos depois.
Kris encolheu em seu assento, incapaz de deixar de rir. V�rias pessoas come�aram a gritar que se calassem, o que fez Kris rir mais ainda mesmo tentando parar.
Junto a ela, Julianne tentava esconder sua cara. Vamos sair daqui? sugeriu a atriz depois de um momento.
Ainda rindo, Kris consentiu. Seguiu � atriz pelo corredor,que ia pedindo desculpas quando trope�ava ocasionalmente com os joelhos das pessoas.
Finalmente conseguiram sair e cairam na risada.
"Nunca vi ningu�m pular t�o alto, brincou Kris enquanto caminhavam pelas ruas de Manhattan. "Eram s� pipocas, sabia."
Quieta! disse Julianne, rindo. Eu s� atirei uma, e n�o um monte."
Ent�o admite, que jogou!"
Julianne fez uma pausa. Admitir o que? Sorriu. "E, de todas formas, sou assustada por natureza."
"Bom, deveria ter pensado antes de me atacar," disse Kris. N�o pode me desafiar e esperar sair impune. N�o funciona assim.
� justo, respondeu Julianne, sorrindo ligeiramente. "Bom, que vamos fazer agora que estragou nosso cinema?
Kris colocou as m�os nos bolsos da jaqueta, desejando aquec�-las. "N�o sei. O Que quer fazer? "
"O que voc� quiser."
"Estou com fome," admitiu Kris.
Julianne consentiu. T�, o que quer comer?
"H� um �timo restaurante vegetariano aqui perto," Kris sugeriu, esperando que � atriz n�o se importasse. "A n�o ser que queira comer outra coisa."
"Estou aberta a tudo," respondeu Julianne. "Bom, como est� na faculdade? "
Kris encolheu os ombros. "� a faculdade. Tenho um encantador trabalho para a segunda-feira."
"Shakespeare?" perguntou Julianne esperan�osamente.
Kris riu do tom de Julianne. "Nunca pensei que diria isto, mas desejaria que fosse sobre Shakespeare," respondeu balan�ando sua cabe�a. Tenho que escrever sobre Foucault. Detesto Foucault. Ao menos Shakespeare tinha fadas. Foucault tem�" Esfor�ou-se em lembrar o que tinha que escrever no ensaio. "A n�o sei, s� sei que algo do autor."
Biografia?" perguntou Julianne.
�. A biografia do autor." Kris consentiu. "Quero dizer, � complicado fazer isso? O autor escreve. Essa � sua fun��o, fim da hist�ria. Por que a necessidade de complicar mais as coisas escrevendo longos e pretenciosos ensaios analisando sua vida inteira at� a morte dele?
Julianne s� sorriu.
"Provavelmente gosta de tudo isso," sup�s Kris.
"Acho que � interessante," admitiu Julianne. "Mas acho que n�o ia gostar tanto se tivesse que escrever ensaios o tempo todo."
"Achei que tinha estudado Literatura."
"Sim, por uns tr�s semestres," respondeu Julianne. "E ent�o me chamaram para fazer Guardian e come�aram a aparecer outros pap�is. Realmente detestava a universidade. N�o � para todos, eu acho.
Kris consentiu. �s vezes sentia que a universidade era uma perda de tempo, mas era importante. Ao menos � o que todos seguiam lhe dizendo, deve ser verdade. "Lamentou ter abandonado?"
"N�o posso dizer que sim," respondeu Julianne. "Quero dizer que � bom ter um diploma de alguma coisa, mas estou fazendo o que adoro. E se deixar de atuar, ent�o posso voltar facilmente � faculdade. Estudar algo in�til, como lat�n."
"Por que lat�n?"
Julianne sorriu e encolheu os ombros. "N�o sei. E por que n�o?"
Kris consentiu. "� agrad�vel se permitir esse luxo," disse, n�o negativamente. Era simplesmente um fato. "N�o ter que se preocupar com dinheiro para nada."
"Fui afortunada," concordou Julianne.
Kris indicou que virariam a esquina. O restaurante estava perto. "Ent�o, o que acha que teria feito se n�o fosse atriz?"
Julianne considerou a pergunta por um longo momento. "Poeta."
Isso n�o vale, porque j� �?"
Julianne olhou-a. O que quer dizer?"
"� que acho que h� algumas coisas que nascemos sendo," disse Kris.
"Como pintora?" adivinhou Julianne.
Kris simplesmente sorriu. N�o pensava que a pergunta precisasse de confirma��o. "Acha que nasceu para ser atriz?" perguntou.
"Sim," disse Julianne sem hesitar. Voc� tem raz�o. Algumas coisas simplesmente s�o."
"Chegamos," Kris disse, parando diante do pequeno e escuro restaurante com o letreiro aceso s� uma parte. Sei que n�o � muito, mas a comida � boa."
Julianne olhou-a. "Eu, sobrevivi a Grey's Papaya," respondeu. "Estou pronta para tudo."
Kris riu enquanto abria a porta. "Quem te levou l�?"
"Naomi," respondeu Julianne, siguindo Kris . "A diretora."
A tristeza de novo golpeou Kris, desta vez mais forte; desta vez tinha algo mais, algo que vagamente reconheceu como ci�mes. Mas eliminou isso t�o rapidamente como tinha vindo, trancando com chave e tudo esse sentimento dentro de um ba� , junto com sua rea��o � proximidade de Julianne no cinema. Esse era o lugar que deveria ficar.
Fim da nona parte
Continua...