O Lado Cego Do Amor INGRID DIAZ The Blind Side of Love |
Traduzido por Fernanda
Parte 9
51
Depois de olhar por horas o teto, Kris tinha-se dado conta que algumas das constela��es mais famosas descansavam sobre sua cama. Talvez tinha algo mais oculto por tr�s da pintura de Salvador Dal� , mas n�o podia dizer o que.
N�o podia evitar de olhar para seu computador, que o tinha escondido debaixo de um mont�o de roupa. A constante dor em seu cora��o estava come�ando a passar. A verdade era que tinha saudades, de quem quer que fosse. Tinha saudade dos e-mails, das conversas telef�nicas, das brincadeiras � Tinha saudade �
" De Tudo," sussurrou expressando seu pensamento.
Bom, mas sempre teria Leigh.
E mesmo assim, de algum modo� n�o era igual. Algo n�o era igual, mas Kris n�o sabia o que era. A amizade era a amizade�
O pensamento de amizade fez franzir o cenho de Kris. Mentir n�o era amizade. Mas, mesmo assim, n�o podia evitar de se perguntar quanto de Julia era Julianne. O que era real? Quanto foi mentira? Se equilibravam-se, ser� que poderia perdoar a atriz?
O desejava?
Kris suspirou, sabendo que sim. Detestava sentir-se amargurada. Manter esse rancor era cansativo. Era como um enorme peso lhe caindo na cabe�a, uma vez ou outra. Desejava que este sentimento desaparecesse.
Mas n�o podia fingir que n�o estava ferida. E perdoando Julianne n�o devolveria a Julia. E como poderia voltar a confiar nela?
Como poderia as coisas voltar a ser igual ap�s ter sido t�o irrevogavelmente alterada?
N�o podia.
Jamais as coisas poderiam ser igual.
Julianne encontrou-se na rua de Kris. Estava a horas pensando e reavaliando
sua exist�ncia, chegou � conclus�o de que nunca mais iria
voltar a dormir.
Jamais.
Podia seguir ligando para Karen e Adrian a qualquer hora. Podia seguir contemplando a beleza de Nova York, perguntando-se o que estava pensando Kris nesse momento. Podia estar acordada esperarando que o tempo passasse. Podia pensar. Podia preocupar-se�
E antes de que se desse conta, estaria com cinquenta anos e sozinha; uma mera sombra de uma estrela de cinema. Obsecada com sua juventude perdida� sua beleza perdida�
Seu amor perdido.
Julianne parou frente ao edif�cio de Kris, olhando para cima. Seu cora��o foi acelerando enquanto subia as escadas.
Se Kris me quer fora de sua vida, ent�o perfeito. Mas n�o vou sair caladamente.
O dedo de Julianne apertou o bot�o. Eram duas da manh�. Tinha pirado de vez?
Antes que pudesse pensar sobre sua insensatez, a porta se abriu e algu�m saiu. Julianne tomou como um sinal.
Entrando furtivamente no edif�cio, foi para o elevador.
At� o andar de Kris, Julianne perguntou-se se estava sonhando. Tinha dormido sem se dar conta?
Esperava que n�o. Tinha sido muito duro chegar t�o longe. E o dif�cil ainda estava por vir.
Respirando profundamente, esperou que as portas se abrissem com um shuush. Quando fez, ficou no lugar. Se saisse, teria que bater em sua porta. Se ficasse no elevador, provavelmente n�o voltaria mais.
As portas come�aram a se fechar.
Olhou-as.
As portas fecharam-se com um clique.
Kris entrou na cozinha a procura de alguma coisa para beber. Bocejou, perguntando-se
por que estava acordada as duas e trinta da manh�.
Abriu a geladeira mas foi uma atividade improdutiva. Comprar comida era um imperativo. Como ficavam t�o rapidamente sem comida? Tinha passado s� alguns dias desde que tinha abastecido a geladeira.
Estava procurando algo no arm�rio quando ouviu a primeira batida. Foi t�o suave que as portas ao se fechar afogaram o som.
A segunda batida foi um pouco mais forte que fez Kris parar e franzir as sobrancelhas, escutando.
O terceiro captou a plena aten��o de Kris. Deu a volta e foi abrir a porta, perguntando-se quem em seu ju�zo perfeito viria a esta hora.
Deu uma olhada pelo olho m�gico disse-lhe que n�o podia ser, ali�s, ningu�m em seu ju�zo perfeito. Suspirou e abriu a porta. Tem id�ia de que horas s�o?
"Duas e trinta e quatro," respondeu Julianne, n�o se envergonhando de olhar em seu rel�gio. "N�o conseguia dormir."
Kris estava a ponto de expulsar ela dali, mas a deixou entrar. N�o � como se eu estivesse dormindo. "� como?"
Julianne lhe deu um peda�o de papel. "Toma."
A seu pesar, Kris pegou, o que �?"
"L�-o."
Kris desdobrou o papel e leu o conte�do, franzindo o cenho enquanto as palavras registavam-se em sua mente.
Estimada Srta. Milano,
Comprei um quadro seu. A figura na imagem
refletia tanto como me sinto �s vezes, foi como se tivesse sido
desenhado comigo em mente. me responda se expoe suas obras em alguma galeria
aqui, em Nova York, onde eu possa ver mais de sua obra.
Atenciosamente,
J.R. Franks
Kris levantou a vista. "N�o estou entendendo."
Foi o primeiro e-mail que te enviei," explicou Julianne.
Eu sei, respondeu Kris. "Mas, por que est� me dando agora?"
Julianne olhou para baixo. "Porque � tudo o que eu desejava te dizer," respondeu. "N�o foi uma brincadeira. N�o elaborei uma trama. Simplesmente eu queria que voc� soubesse que eu tinha gostado de sua obra."
"Por isto me deu um nome falso," contra-atacou Kris.
"N�o, eu lhe dei o verdadeiro," respondeu Julianne. "Julia Raye Frank. � meu nome de nascimento. O mudei legalmente para Julianne Franqui quando tinha onze anos."
Kris olhou outra vez o e-mail em sua m�o, n�o sabendo o que pensar. N�o sabia que Julianne Franqui n�o era seu verdadeiro nome. Nem a Leigh sabia? Em todas suas buscas pela Internet, nunca tinha ouvido falar em uma Julia Raye Frank? Importava? Isto n�o era por causa do nome.
"Vim porque� quero que saiba que n�o menti para voc�," continuou Julianne. "Posso ter mentido em coisas bobas como o filme que estava fazendo ou o que eu fazia exatamente para viver, mas o resto sempre te falei a verdade."
Quando Kris n�o respondeu, Julianne continuou.
"Estou completamente fora de forma. Adoro cozinhar. Adoro suas pinturas. Passo horas vendo TV . Nunca tive um encontro. Eu me casaria com o Bob Esponja� e escrevo poesia, mas ficam p�ssimas quando estou triste." Julianne ficou olhando para Kris esperando uma rea��o.
Kris n�o teve. Estava tentando registar toda aquela informa��o que estava ouvindo. Seus sentimentos sobre o assunto eram estranhos. N�o tinha certeza de que fora suficiente. N�o tinha certeza de nada. E ainda tinha uma coisa que Julianne n�o tinha confessado. "Por que fingiu ser l�sbica?"
Julianne hesitou. "N�o estava fingindo," respondeu finalmente.
"O que?" perguntou Kris, olhando para os tristes olhos azuis de Julianne. Sua surpresa era evidente.
"Nunca sai com uma mulher," explicou suavemente Julianne. "Voc� e Adrian s�o os �nicos que o sabem."
Kris n�o esperava essa �ltima informa��o. Isso era a �nica coisa que achava que Julianne tinha mentido. Era gay? Como podia ser gay? Parecia sempre t�o virtuosa nas entrevistas. Sempre falando de seu namorado e o quanto estava apaixonada . "Como posso confiar em ti depois de tudo o que aconteceu? Como vou saber que � verdade?"
Julianne olhou para baixo tristemente. "N�o pode." Inspirou profundamente. "Voc� foi t�o boa amiga para mim nos �ltimos meses e a �ltima coisa que jamais desejei foi te fazer mal. E tem raz�o, seja o que for que eu diga n�o muda nada. Admito que fui ego�sta. Desejava agarrar-me a uma fantasia que n�o existia. Desejava que voc� pudesse me ver como qualquer uma menos como Julianne Franqui. Era uma sensa��o t�o boa n�o ter que me esconder pelo menos uma vez. E desejava manter isto o maior tempo poss�vel." Levantou o olhar. "Lamento tanto ter-te ferido."
Kris n�o sabia o que dizer. Sua mente estava um caos enquanto tentava dar sentido a seus sentimentos. Ainda se sentia ferida. E ainda estava aborrecida. E n�o sabia se tinha algo que Julianne pudesse dizer no momento para fazer desaparecer esses sentimentos. "N�o sei o que dizer," disse honestamente. "� um pouco de tudo� � muito."
Julianne consentiu. "Acho que est� na hora de eu ir ," disse, depois de um momento de sil�ncio. "Boa noite, Kris."
"Julianne," chamou suavemente Kris, quando a atriz se virou. N�o queria lhe dizer adeus ainda.
Gosta mesmo de ver o p�r-se do sol?"
Julianne olhou para Kris por um momento. "Adoro ver quando posso," respondeu.
Kris consentiu. Ficou olhando para o ch�o inexpresivamente por um longo tempo. N�o era falta de coisas o que dizer o que causava seu sil�ncio. Era a necessidade de dizer coisas que n�o podia expressar. N�o era f�ria o que estava sentindo no momento, acho que uma tristeza arraigada que n�o seria f�cil desenterrar. Tinha meses de amizade que teria que reconstruir. E n�o sabia se era poss�vel. "N�o sei se posso fazer isto. N�o sei se posso superar."
"Entendo," disse Julianne.
Kris engoliu a seco, querendo falar mais, mas n�o sabendo o que exatamente. "Gostei que tenha me dito estas coisas."
Julianne consentiu.
Tinha uma parte de Kris que queria fazer desaparecer a dor de Julianne. Podia ver que a atriz estava ferida. Mas tamb�m estava. "Boa noite, Julianne."
"Boa noite, Kris."
Kris viu a atriz indo para o elevador, quase a chamou de volta. Mas n�o tinha mais nada o que dizer.
Ainda n�o.
Esta noite n�o.
Continua...