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Teologia Moral
Estudos bíblicos

DOUTRINA CATÓLICA

Papa no Coliseo

O Papa João Paulo II na Via Crucis

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MÁRTIRES DO BRASIL

Ainda repercutem os ecos dos aplausos pela elevação à honra dos altares do Bem-aventurado Frei Galvão. Eis que chega ao fim, na Congregação para a Causa dos Santos, o processo oriundo da Arquidiocese de Natal, de "Beatificação ou declaração do martírio dos servos de Deus André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, sacerdotes diocesanos e seus companheiros, mortos "in odium fidei" ( por ódio à fé ) em 1645.

Serão os proto-mártires brasileiros. O Pe. André de Soveral veio ao mundo em São Vicente em 1572. Muitos outros também nasceram em nossa Pátria. O último de um grupo de jovens companheiro de João Martins que então perderam a vida, responde com ânimo alegre à proposta de renunciar à Fé, dizendo: "Deus não me abandona". Crianças, com suas mães, foram cruelmente massacradas. Famílias martirizadas!

Com a invasão holandesa, embora fosse afirmada haver liberdade de culto, ocorria uma crescente perseguição religiosa aos católicos. Os invasores eram, em parte ponderável, calvinistas. O período de 1637 a 1644, com Maurício de Nassau, vigorou uma tolerância, apesar dos protestos do Sínodo da Igreja reformada .

Os fatos aqui narrados sucederam na capitania do Rio Grande, tomada pelos bátavos em dezembro de 1633. Na localidade de Cunhaú havia uma capela, hoje restaurada. Funcionava importante engenho de açúcar. A quinze de julho de 1645 chega o enviado do governo holandês, o alemão Jacó Rabi. Vinha acompanhado de soldados e índios. Trazia ordens para serem comunicadas no dia seguinte, festividade de Nossa Senhora do Carmo. Por ocasião da consagração, fechadas as portas da igreja cuja patrona é Nossa Senhora da Candelária, começou a carnificina.

Não houve resistência por parte dos fiéis, exortados pelo pároco, Padre Antônio Ferro. Esse sacerdote entrara na Companhia de Jesus a seis de agosto de 1593 na Bahia, exercia seu ministério junto aos índios (conhecia profundamente sua língua), no território que dependia do Colégio de Olinda. De janeiro de 1600 até fins de 1607, integrou o elenco dos padres e irmãos da província da Companhia de Jesus no Brasil. Deduz-se que depois passou ao clero secular, pois na época de sua morte exercia função de pároco em Cunhaú. Ao ser martirizado devia ter 73 anos.

Na igreja calculam que estivessem 69 pessoas. Outros permaneceram em um imóvel vizinho, mas foram em grande número também massacrados. O processo de Beatificação não os inclui. Eles lutaram, embora, o fizessem em defesa da própria vida. Uma forte chuva e o receio do aparato militar levaram-nos a não participar da Missa. Resistiram, muitos conseguiram fugir, mas a maioria foi trucidada .

Os cronistas holandeses e portugueses divergem quanto ao número de vítimas entre 39 e 69.

Espalhou-se a dolorosa notícia. Em Natal alguns se refugiaram na Fortaleza dos Reis Magos, que tivera o nome substituído por Van Ceulen. Eram pessoas influentes na Província. Não foi possível abrigar maior número. Um outro grupo subiu o Rio Potengi e construiu precária defesa no lugar denominado ainda hoje de Uruaçu.

No interior da paliçada estavam recolhidas cerca de 70 pessoas. Reagiram ao assédio dos bátavos e índios mas terminaram por capitular. Uma comissão foi conduzida ao Forte e depois levados rio Potengi acima até o porto de Uruaçu. Esperavam-nos duzentos índios tapuias comandados pelo terrível Antonio Paraupeba, convertido ao calvinismo. Foram mutilados e mortos. Após o trucidamento trouxeram da paliçada 52 homens e um número impreciso de mulheres e filhos. Depararam-se com os corpos dos cinco que haviam sido enviados como prisioneiros ao Forte. Todos haviam sido assassinados com extrema ferocidade. Aceitaram, no entanto, piamente o sofrimento e a morte. A crueldade levou Diogo Lopes Santiago a comparar os carrascos aos "tigres e leões ferozes".

Há fatos curiosos: "Uma jovem foi poupada por algozes que já haviam sacrificado suas duas irmãs pois era uma donzela elegante e a negociaram com os índios em troca de um cão de caça". O mais emocionante nesse martírio ocorreu com Matias (ou Mateus) Moreira. Cortaram-lhe braços, pernas, perfuraram os olhos, retaliaram o corpo. Ao lhe arrancarem o coração pelas costas, suas últimas palavras foram "Louvado seja o Santíssimo Sacramento". O documento mais antigo que relata esse massacre, hoje ainda tão pouco conhecido, é a relação de Lupo Curado Garro, capitão e governador militar da Paraíba, redigido vinte dias após os acontecimentos. No século XVII Frei Manuel Calado do Salvador, religioso da Ordem de São Paulo Eremita, escreveu "O Valeroso Lucideno". A "História da Guerra de Pernambuco", foi elaborado entre 1661 e 1675 por Diogo Lopes Santiago, testemunha ocular da guerra contra os holandeses.

Em 1675 é publicada, em Lisboa, pelo beneditino Rafael de Jesus, "O Castrioto Lusitano". Mais recentemente veio a lume, em 1904, um documento de 1757, redigido pelo também beneditino Dom Domingos Loureto Couto intitulado "Desagravos do Brasil e glórias de Pernambuco". O historiador Francisco Adorno de Varnhagem em 1872 editou "A História das lutas contra os holandeses no Brasil". Em nossos dias diversas obras têm sido publicadas. O Padre Arlindo Rubert em "A Igreja no Brasil", volume II, (págs. 121-125), trata das "vicissitudes da Igreja na invasão holandesa e perseguições religiosas". Na realidade, Cunhaú e Uruaçu não são casos isolados.

Em Natal, por ocasião do XII Congresso Eucarístico Nacional, o Papa João Paulo II, na homilia de Encerramento, a 13 de outubro de 1991 assim se expressou sobre Matias Moreira: "Quando insultado e ferido pelos hereges por sua recusa a renegar a fé na Eucaristia e fidelidade à Igreja do Papa, exclama enquanto lhe abriam o peito para lhe arrancar o coração "Louvado seja o Santíssimo Sacramento".

D. Eugênio de Araújo Sales 4/12/1998

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Frei Galvão

A recente elevação de Frei Antonio de Sant’Anna Galvão à honra dos altares trouxe à Igreja no Brasil um sopro de espiritualidade. Sobre ele, assim se expressam em documento dirigido ao Provincial dos Franciscanos, no ano de 1798, o Bispo Dom Mateus de Abreu Pereira e o Senado da Câmara de São Paulo: "Este homem é preciosíssimo a toda esta Cidade e Vilas da Capitania de São Paulo; é homem religiosíssimo e de prudente conselho; todos acodem a pedir-lho; é o homem da paz e da caridade".

Hoje, no término do século XX e às vésperas do 3º Milênio do Nascimento de Jesus, do Grande Jubileu, Frei Galvão vem iluminar, apontar caminhos, amparar necessitados em São Paulo e em todo o Brasil. A mesma missão de séculos atrás, ele a exerce em nossos dias, agora elevado à honra dos altares, como Bem-aventurado. Um longo itinerário, desde 1739, quando nasceu em Guaratinguetá, então Diocese do Rio de Janeiro. Esta tinha por limites ao norte o Rio Jequitinhonha, Capitania de Porto Seguro, Bahia, e ao sul, o Estuário do Prata; a leste o Oceano Atlântico e a oeste, "terras desconhecidas", como rezava a Bula "Romani Pontificis pastoralis sollicitudo".

No ocaso de uma civilização onde se mesclam valores extraordinários simbolizados por esta personalidade providencial que é o Papa João Paulo II, ao lado da decomposição que lembra, em alguns aspectos, outros períodos da História da Humanidade, faz-se mister insistir na proeminência do exemplo sobre as palavras. O homem moderno, sedento de Justiça e à procura de Deus envereda, com freqüência, por caminhos que levam a ídolos e não à Verdade. Ele exige o comprovante de atos, do sinal. No interior da própria Igreja, o Senhor, entre os excepcionais frutos do Concílio, assinala o "homo inimicus", na expressão de São Mateus (13,25.28), que fez penetrar a "fumaça do demônio", como advertiu Paulo VI.

Por isso, as Beatificações e Canonizações assumem, em nossa época, um lugar especial na evangelização. Mais do que a exaltação de quem serviu com heroísmo, elas demonstram ao mundo que o ensinamento da Igreja é viável, compensador. Exortam a vivê-lo e a defendê-lo com coragem. A vida de Frei Galvão está repleta de testemunhos que falam mais do que suas palavras. Frei Galvão, como presbítero, tem muito a nos dizer. Ordenado sacerdote a 19 de julho de 1792, no Rio de Janeiro, por Dom Frei Antonio do Desterro, OSB, viveu fiel e intensamente sua consagração como padre e franciscano. O primeiro Bem-aventurado elevado aos altares, no Brasil, foi um sacerdote.

Frei Galvão, defensor dos direitos humanos, emerge de maneira fulgurante no episódio da condenação à morte – por motivo fútil – do soldado Caetano José da Costa. A atitude firme do Bem-aventurado custou-lhe a chamada "pena do degredo", a ser executada em 24 horas. Mesmo injusta e absurda a decisão, ele se dispôs a cumpri-la imediatamente. No entanto, a reação do Bispo Dom Manuel da Ressurreição, de autoridades e do povo, conseguiu a revogação da sentença do exílio. E ele, que partira em direção ao Rio de Janeiro, a pé, pôde retornar.

Como este, toda a existência de Frei Galvão está cheia de fatos que, no âmbito estritamente religioso, servem de alicerce essencial à atuação no campo social. Nosso Bem-aventurado nos dá um rumo e nos ajuda.

O aumento da devoção após a cerimônia da Beatificação, no dia 25 de outubro último, deve ser orientado para os testemunhos a serem imitados mais do que para a simples procura de soluções de ordem material. O Santo é, acima de tudo, uma prova da possibilidade de um cristão seguir em seus atos os passos de Jesus.

As solenidades por motivo da elevação aos altares de Frei Galvão nos levam a mais profunda reflexão sobre essa nota essencial ao fiel: a santidade. A consideração da essência da Igreja nos ensina que característica não é, em primeiro lugar, o distintivo heróico de um indivíduo. Trata-se de algo muito mais profundo que nos coloca em comunhão com o mistério de Deus e seu plano de salvação. Desde os primeiros séculos, a Igreja proclama o "Tu solus sanctus", "Só vós sois o Santo".

É interessante observar nos exórdios da história da instituição fundada por Cristo, no Credo mais antigo que conhecemos, o Credo chamado "apostólico", a afirmação: "Creio na Igreja santa". Em nossos templos por todo o mundo, esta fórmula é repetida na hora do batismo. Aos poucos foi explicitada, conservando sempre a original insistência no sinal indispensável, em forma mais completa: "Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica", como escreveu o primeiro Concílio Ecumênico, em 325. E nós somos a Igreja.

O Povo de Deus movido por exemplos do passado, manifesta grande alegria no presente, ao proclamar a virtude heróica de um homem, Frei Galvão, a fecundidade de sua vida. Voltados para o futuro, buscamos iluminá-lo com a mesma Fé que explica a grandeza de suas atitudes. Ele foi profundamente marcado por sua formação franciscana e devoção a Maria, cuja dimensão nos é revelada pelas expressões "entrega a Maria" e "filho e escravo perpétuo", assinadas com o próprio sangue, a 9 de novembro de 1766. As celebrações por motivo da Beatificação de Frei Galvão constituem uma excelente oportunidade para refletir sobre a grandeza e a importância da santidade na vida do cristão. Voltaremos ao assunto.

Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales

Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro

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